{"id":26982,"date":"2019-04-03T09:57:26","date_gmt":"2019-04-03T11:57:26","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=26982"},"modified":"2019-04-03T09:57:26","modified_gmt":"2019-04-03T11:57:26","slug":"bolsonaro-israel-e-a-ditadura-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/04\/03\/bolsonaro-israel-e-a-ditadura-no-brasil\/","title":{"rendered":"Bolsonaro, Israel e a ditadura no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em>O Estado de Israel forneceu armas e treinamento aos agentes da ditadura, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas em toda a Am\u00e9rica Latina<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Soraya Misleh<\/p>\n<p>Enquanto no Brasil, em 25 de mar\u00e7o, o Governo Bolsonaro convocava comemora\u00e7\u00f5es ao golpe de 1964 \u2013 e depois eufemisticamente chamaria de \u201crememora\u00e7\u00e3o\u201d \u2013, os palestinos em Gaza se viam diante de mais um bombardeio israelense. No dia 31, em que se lembram 55 anos do come\u00e7o do per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o, Bolsonaro viaja para encontrar seu aliado sionista Benjamin Netanyahu.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do rep\u00fadio veemente a ambos acontecimentos \u2013 a ofensiva israelense que prenuncia novo massacre e a apologia ao golpe \u2013, \u00e9 importante desvendar que Israel e a ditadura no Brasil t\u00eam conex\u00e3o hist\u00f3rica. Esse \u00e9 um cap\u00edtulo ainda oculto nas p\u00e1ginas infelizes de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 o que revela o advogado israelense e ativista de direitos humanos Eitay Mack em artigo publicado no\u00a0<em>blog+972 Magazine<\/em>.<\/p>\n<p>Segundo ele, a Embaixada de Israel apresentou um documento saudando a agilidade no planejamento e implementa\u00e7\u00e3o do golpe, logo em 1\u00b0 de abril de 1964. Conforme a vis\u00e3o expressa no of\u00edcio, \u201cliderou, por 24 horas, n\u00e3o apenas a queda de Goulart (o presidente na \u00e9poca), mas tamb\u00e9m a supress\u00e3o de todos os elementos esquerdistas [\u2026] O Brasil est\u00e1 hoje em um estado de transi\u00e7\u00e3o que pode ser definido como uma ditadura militar com um verniz parlamentar\u201d.<\/p>\n<p>Mack relata ainda que pouco tempo depois, em 16 de junho de 1965, Aryeh Eshel, diretor de Assuntos Latino-americanos do Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Israel, escreveu que esperava \u201cque o regime atual no Brasil\u201d perdurasse. O ativista destaca que documentos do mesmo \u00f3rg\u00e3o nos arquivos oficiais sionistas revelam as pretens\u00f5es de Israel ao apoiar a ditadura.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da venda de armas \u2013 os militares brasileiros portavam, por exemplo, submetralhadoras Uzi \u2013, \u201cdiplomatas israelenses no Brasil concentraram seus esfor\u00e7os na\u00a0<em>hasbara<\/em>\u00a0[rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas]\u201d. A propaganda localizava o Estado sionista como parceiro na luta contra o \u201cterrorismo global\u201d. Entre as falsas ideias nessa dire\u00e7\u00e3o, a de que a Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP) estaria envolvida no treinamento de grupos guerrilheiros no Brasil. Israel tamb\u00e9m realizou \u201crepetidas conversa\u00e7\u00f5es sobre a mudan\u00e7a da embaixada brasileira para Jerusal\u00e9m\u201d \u2013 como se v\u00ea no momento atual, com Bolsonaro, desde a campanha eleitoral.<\/p>\n<p>Outro aspecto oculto, denunciado por Mack em seu artigo, \u00e9 que apenas quatro meses ap\u00f3s o golpe militar, o Brasil firmou seu primeiro pacto nuclear com Israel, o qual enviava cientistas para atuarem em territ\u00f3rio nacional. Acordos complementares foram assinados em 1966, 1967 e 1974. Em 1975 essa coopera\u00e7\u00e3o enfrentou um decl\u00ednio, \u201cem parte devido ao desejo do regime brasileiro de minimizar suas rela\u00e7\u00f5es com Israel\u201d.<\/p>\n<p>O que teria sido motivado por um \u201cdesapontamento\u201d da ditadura com \u201co tipo de assist\u00eancia que propusemos, que n\u00e3o era exatamente o que procuravam\u201d \u2013 sua alega\u00e7\u00e3o \u00e9 que o Estado sionista teria vazado informa\u00e7\u00f5es sobre uma tentativa do Brasil de vender equipamentos nucleares e ur\u00e2nio ao Iraque, ainda conforme Mack. Estremecidas as rela\u00e7\u00f5es, no mesmo ano o Brasil votou a favor da Resolu\u00e7\u00e3o 3.379 da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas que considerava o sionismo como \u201cuma forma de racismo e discrimina\u00e7\u00e3o racial\u201d \u2013 a qual foi anulada em 1991.<\/p>\n<p>Em telegrama\u00a0de 28 de maio de 1975, tamb\u00e9m de acordo com o ativista, o embaixador de Israel \u00e0 \u00e9poca observou que \u201co objetivo do Brasil em seus la\u00e7os com os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio \u00e9 totalmente pragm\u00e1tico e se concentra em promover os interesses econ\u00f4micos, comerciais e financeiros necess\u00e1rios definidos pelo presidente. Precisam cultivar la\u00e7os com os pa\u00edses \u00e1rabes, especialmente com os produtores de petr\u00f3leo\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro ponto que merece ser rememorado \u2013 no sentido correto \u2013 neste momento: a causa palestina, por princ\u00edpio, se comunga com todas as lutas por justi\u00e7a e assim foi tratada por aqueles que se enfrentaram com a ditadura civil-militar no Pa\u00eds e deram a vida por liberdades democr\u00e1ticas. Um s\u00edmbolo da luta internacional contra a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o. Israel, de outro lado, tem se aliado e contribu\u00eddo historicamente, por sua natureza colonial e racista, com regimes autorit\u00e1rios e sanguin\u00e1rios. Assim, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que quem faz apologia ao golpe levante sua bandeira.<\/p>\n<p><strong>Cumplicidade sem m\u00e1scaras<\/strong><\/p>\n<p>Sob o Governo Bolsonaro est\u00e1 amea\u00e7ado at\u00e9 mesmo o \u201cpragmatismo\u201d que marca a pol\u00edtica externa brasileira. Uma separa\u00e7\u00e3o entre diplomacia e interesses econ\u00f4micos \u2013 que, na pr\u00e1tica, lamentavelmente transformou o Pa\u00eds na porta de entrada da ind\u00fastria armamentista israelense e o quinto maior importador de tecnologia militar israelense nos \u00faltimos 16 anos.<\/p>\n<p>A submiss\u00e3o ao imperialismo estadunidense e a cumplicidade hist\u00f3rica com a ocupa\u00e7\u00e3o sionista se explicitam e avan\u00e7am. Em 25 de mar\u00e7o Trump reconheceu a \u201csoberania de Israel\u201d sobre as s\u00edrias Colinas de Gol\u00e3, ocupadas militarmente em 1967. Dias antes Bolsonaro se encontrou com ele na Casa Branca. Seguindo sua posi\u00e7\u00e3o, o governo brasileiro votou na Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da ONU contra o m\u00ednimo de condenar as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos na ocupa\u00e7\u00e3o de Gol\u00e3 e durante 2018 em Gaza.<\/p>\n<p><strong>A servi\u00e7o da repress\u00e3o e genoc\u00eddio<\/strong><\/p>\n<p>Bolsonaro promete, ainda, mais acordos com seu aliado sionista. Governos estaduais seguem hoje na mesma dire\u00e7\u00e3o: adquirem tecnologias militares israelenses que servem \u00e0 repress\u00e3o, \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o de ativistas e movimentos sociais e, sobretudo, ao genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o pobre, ind\u00edgena e negra no Brasil.<\/p>\n<p>Essas tecnologias s\u00e3o testadas sobre os palestinos cotidianamente. \u00c9 o que se viu nos bombardeios massivos a Gaza em 2008-2009, em 2012, em 2014. \u00c9 o que se v\u00ea agora, nos ataques a\u00e9reos e nas ofensivas semanais \u00e0 estreita faixa. Tamb\u00e9m nos c\u00e1rceres israelenses, em que presos pol\u00edticos palestinos t\u00eam sofrido viol\u00eancia brutal e anunciam greve de fome para 1\u00ba de abril. Ou na expans\u00e3o colonial que j\u00e1 dura mais de 70 anos (desde a Nakba, termo \u00e1rabe que significa cat\u00e1strofe, refer\u00eancia \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel mediante limpeza \u00e9tnica planejada na Palestina).<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o d\u00e1 lucro e se sustenta com a cumplicidade de governos de todo o mundo: 70% das tecnologias militares israelenses desenvolvidas a partir de testes nas \u201ccobaias\u201d humanas palestinas destinam-se \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Recha\u00e7o do Brasil \u00e0 Palestina<\/strong><\/p>\n<p>Sob ocupa\u00e7\u00e3o, os palestinos j\u00e1 anunciam protestos contra a visita de Bolsonaro. Ele chega num momento muito importante da resist\u00eancia: h\u00e1 um ano teve in\u00edcio a Grande Marcha do Retorno em Gaza, em 30 de mar\u00e7o. A data simboliza o Dia da Terra para os palestinos e \u00e9 lembrada mundialmente desde um massacre israelense na Galileia, em 1976, quando os habitantes \u2013 que integram a minoria de remanescentes nos antigos territ\u00f3rios de 1948 \u2013\u00a0protestavam contra a expans\u00e3o colonial e anexa\u00e7\u00e3o de terras. A repress\u00e3o foi violenta, atingindo de forma indiscriminada homens, mulheres e crian\u00e7as. Como resultado, seis palestinos foram assassinados e centenas deles ficaram feridos ou foram presos.<\/p>\n<p>A Grande Marcha do Retorno em Gaza ocorre todas as sextas-feiras, semanalmente. Reivindica o fim do cerco desumano \u00e0 estreita faixa, que j\u00e1 dura 12 anos, e o retorno dos milh\u00f5es de refugiados \u00e0s suas terras. As manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o reprimidas violentamente por Israel. O saldo at\u00e9 o momento \u00e9 de mais de 250 mortos e 25 mil feridos.<\/p>\n<p>Para este 30 de mar\u00e7o, os palestinos convocam milh\u00f5es a novos protestos. Israel, al\u00e9m dos bombardeios nesta semana, posicionou for\u00e7as militares ao longo da barreira imposta \u00e0 Gaza, em prepara\u00e7\u00e3o ao que prenuncia novo massacre, \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es sionistas \u2013 que, como uma piada de mau gosto, ocorrem em 9 de abril, dia em que se lembra o massacre na aldeia palestina de Deir Yassin em 1948, um dos mais conhecidos durante a\u00a0<em>Nakba<\/em>.<\/p>\n<p>A ministra da Justi\u00e7a e candidata Ayelet Shaked, sem nenhum constrangimento, chocou o mundo ao fazer apologia ao fascismo. Enquanto o sionismo de esquerda promoveu e arquitetou ao longo da hist\u00f3ria a limpeza \u00e9tnica, mas sempre buscou uma ret\u00f3rica mais palat\u00e1vel ao mundo, a ultradireita \u00e9 expl\u00edcita. Assim como Bolsonaro.<\/p>\n<p>O Dia da Terra deve servir como den\u00fancia e chamado \u00e0 campanha central de Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es (BDS) a Israel, em todo o mundo. No Brasil haver\u00e1 atividades para marcar a data. Na capital paulista o protesto se soma ao clamor dos que vivem sob ocupa\u00e7\u00e3o: Bolsonaro e Israel n\u00e3o, Palestina livre sim. Em solidariedade e em honra \u00e0 mem\u00f3ria dos que lutaram contra a ditadura, daqueles torturados e assassinados tamb\u00e9m com a cumplicidade sionista, abra\u00e7ar essa causa da humanidade \u00e9 quest\u00e3o de princ\u00edpio.<\/p>\n<p>Artigo publicado originalmente em: https:\/\/www.cartacapital.com.br\/mundo\/bolsonaro-israel-e-a-ditadura-no-brasil\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Estado de Israel forneceu armas e treinamento aos agentes da ditadura, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas em toda a Am\u00e9rica Latina<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":72111,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,203,228],"tags":[7287,7288,260],"class_list":["post-26982","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-israel","category-palestina","tag-bolsonaro-em-israel","tag-israel-e-ditadura-militar","tag-soraya-misleh"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/cms-image-000625799-1.jpg","categories_names":["Brasil","Israel","Palestina"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26982","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26982"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26982\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72111"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26982"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26982"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26982"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}