{"id":26860,"date":"2019-03-26T12:27:45","date_gmt":"2019-03-26T14:27:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=26860"},"modified":"2019-03-26T12:27:45","modified_gmt":"2019-03-26T14:27:45","slug":"mocambique-nao-e-ajuda-humanitaria-e-reparacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/03\/26\/mocambique-nao-e-ajuda-humanitaria-e-reparacao\/","title":{"rendered":"Mo\u00e7ambique: N\u00e3o \u00e9 ajuda humanit\u00e1ria, \u00e9\u00a0repara\u00e7\u00e3o!"},"content":{"rendered":"<p><em>Todos acompanham com como\u00e7\u00e3o o desenvolvimento da trag\u00e9dia humanit\u00e1ria em Mo\u00e7ambique. O ciclone Idai causou uma gigantesca devasta\u00e7\u00e3o e estima-se que ser\u00e3o afetados cerca de 3 milh\u00f5es de pessoas. Mas ser\u00e1 esta trag\u00e9dia fruto apenas de um desastre natural? Ou as condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento do pa\u00eds agravam os efeitos da mesma?<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Em Luta &#8211; Portugal<\/p>\n<p><strong>Ciclone Idai: consequ\u00eancia do aquecimento global<\/strong><\/p>\n<p>A ocorr\u00eancia de ciclones nos meses de janeiro a mar\u00e7o n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno anormal naquela regi\u00e3o. O que \u00e9 invulgar \u00e9 a intensidade e dura\u00e7\u00e3o do ciclone Idai. Numa escala baseada na velocidade dos ventos, o ciclone teve a intensidade de 3 numa escala de 1 a 5. Durante cinco ou seis dias, despejou \u00e1gua em terra, sendo que a dura\u00e7\u00e3o habitual \u00e9 de dois ou tr\u00eas dias. Esta chuva intensa, somada \u00e0s chuvas que j\u00e1 haviam ocorrido antes do ciclone, \u00e9 que levou \u00e0 inunda\u00e7\u00e3o de uma imensa \u00e1rea de cerca de 1300 Km<sup style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">2<\/sup>, atingindo as prov\u00edncias de Sofala, Manica e Zamb\u00e9zia, sendo a cidade da Beira a mais afetada.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de Mo\u00e7ambique, naturais e humanas, deixaram-no mais exposto \u00e0s consequ\u00eancias do ciclone: as grandes \u00e1reas baixas junto \u00e0 costa e a precariedade das constru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em entrevista ao jornal\u00a0<em style=\"font-weight: inherit;\">P\u00fablico,<\/em>o professor Filipe Duarte Santos, do Departamento de F\u00edsica da Faculdade de Ci\u00eancias da Universidade de Lisboa, relaciona a intensidade do ciclone com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. \u201cAparentemente, a causa desta maior frequ\u00eancia dos ciclones mais intensos tem a ver com o aumento da temperatura das \u00e1guas superficiais dos oceanos que, desde o princ\u00edpio do s\u00e9culo XX, foi superior a 1\u00baC\u201d. E, por isso, afirma que o ciclone Idai ter\u00e1 sido o mais intenso e poder\u00e1 n\u00e3o ser o \u00fanico.<\/p>\n<p>Portanto, esta n\u00e3o \u00e9 uma cat\u00e1strofe \u201cnatural\u201d, mas sim consequ\u00eancia do aquecimento global, fruto da explora\u00e7\u00e3o capitalista desregulada e irracional. Estando os pa\u00edses menos desenvolvidos e, consequentemente, com menos condi\u00e7\u00f5es materiais muito mais expostos aos impactos devastadores da intensifica\u00e7\u00e3o destes fen\u00f4menos.<\/p>\n<p><strong>O &#8220;subdesenvolvimento&#8221; de Mo\u00e7ambique \u00e9 fruto da coloniza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Mo\u00e7ambique tem um dos menores IDH (\u00cdndice de Desenvolvimento Humano) do mundo, est\u00e1 na 180\u00aa posi\u00e7\u00e3o, estando acima apenas de pa\u00edses como Serra Leoa, Nig\u00e9ria e Burkina Faso. A agricultura \u00e9 respons\u00e1vel por 81% da economia do pa\u00eds, sendo que 80% desta produ\u00e7\u00e3o \u00e9 para economia de subsist\u00eancia. O PIB \u00e9 o 113\u00ba do mundo no ano de 2015 e sua d\u00edvida p\u00fablica \u00e9 de 80% do PIB, agravada pelas rela\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o entre os governantes do pa\u00eds e os bancos internacionais. No ano de 2015, 60% da popula\u00e7\u00e3o vivia em pobreza extrema, uma das maiores percentagens registadas a n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>Como sabemos, estas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas n\u00e3o s\u00e3o resultado apenas da m\u00e1 gest\u00e3o dos governantes p\u00f3s-independ\u00eancia (1975) ou da longa guerra civil que assolou o pa\u00eds (1977-1992). Claro que as mesmas agravam a falta de desenvolvimento do pa\u00eds. Se ap\u00f3s a independ\u00eancia do pa\u00eds se tivesse avan\u00e7ando para a constru\u00e7\u00e3o de um Estado e de uma economia para os trabalhadores, a hist\u00f3ria poderia ser outra. Por\u00e9m, o pa\u00eds j\u00e1 partia de condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas extremas, consequ\u00eancia dos v\u00e1rios s\u00e9culos de saque colonialista. O roubo das riquezas naturais (ouro, prata, marfim) e da riqueza humana atrav\u00e9s do tr\u00e1fico de escravos, bem como a pol\u00edtica do imperialismo portugu\u00eas de n\u00e3o desenvolvimento nas suas col\u00f4nias s\u00e3o os principais respons\u00e1veis pelas condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias da popula\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana.<\/p>\n<p>\u00c9 esta situa\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 impossibilidade de, hoje, o pa\u00eds responder adequadamente a fen\u00f3menos como o ciclone Idai, tanto na preven\u00e7\u00e3o quanto na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Basta comparar as medidas que os EUA podem tomar perante situa\u00e7\u00f5es semelhantes.<\/p>\n<p>Recentemente, foi organizada pelo governo norte-americano a evacua\u00e7\u00e3o de 1,5 milh\u00f5es de pessoas para remediar as consequ\u00eancias do furac\u00e3o Florence (2018), tendo morrido 48 pessoas. O custo e log\u00edstica de uma opera\u00e7\u00e3o como esta \u00e9 enorme, sendo poucos os pa\u00edses capazes de a realizar.<\/p>\n<p>J\u00e1 com o fura\u00e7\u00e3o Katrina (2005), que devastou uma gigantesca \u00e1rea na regi\u00e3o metropolitana de New Orleans, matando quase 2000 pessoas, n\u00e3o houve esta grande evacua\u00e7\u00e3o. Esta cat\u00e1strofe causou uma perda de 80 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, sendo respons\u00e1vel pela migra\u00e7\u00e3o de um milh\u00e3o de pessoas para outras regi\u00f5es dos EUA. O ciclone Idai j\u00e1 pode estar perto de atingir tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas. Que alternativas e apoios ter\u00e3o para migrarem da \u00e1rea devastada? Claramente, ser\u00e1 um agravar da crise de refugiados, onde a Uni\u00e3o Europeia e os pa\u00edses que lucram com a explora\u00e7\u00e3o neocolonialista dos pa\u00edses africanos, demonstram bem claro o seu papel de Europa fortaleza.<\/p>\n<p>Portanto, tanto na preven\u00e7\u00e3o quanto na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds s\u00e3o precisas condi\u00e7\u00f5es materiais que \u2013 por conta da coloniza\u00e7\u00e3o e neocoloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds -, hoje, Mo\u00e7ambique n\u00e3o tem.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 ajuda humanit\u00e1ria \u00e9 repara\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Como se demonstra, a trag\u00e9dia vivida hoje em Mo\u00e7ambique tem respons\u00e1veis e na sua maioria s\u00e3o respons\u00e1veis externos. Portugal, que espoliou as riquezas do pa\u00eds durante s\u00e9culos, e os pa\u00edses imperialistas que hoje continuam a explorar o pa\u00eds atrav\u00e9s do garrote da d\u00edvida e de empresas multinacionais. Tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis os pa\u00edses que mais contribuem para o aquecimento global, como EUA, China, Alemanha, Canad\u00e1, Jap\u00e3o. Os 10 maiores emissores de gases com efeito de estufa s\u00e3o respons\u00e1veis por 60% das emiss\u00f5es, gerando e intensificando fen\u00f4menos como o ciclone Idai.<\/p>\n<p>Estes pa\u00edses devem ser responsabilizados e devem arcar com as consequ\u00eancias da trag\u00e9dia. N\u00e3o basta agora vestirem a camisola da ajuda humanit\u00e1ria e darem migalhas para remediar a situa\u00e7\u00e3o. Para impedir uma trag\u00e9dia ainda maior, pois o n\u00famero de pessoas desalojadas \u00e9 incalcul\u00e1vel e a falta de condi\u00e7\u00f5es para sobreviv\u00eancia poder\u00e1 multiplicar o n\u00famero de mortos, \u00e9 preciso mais do que migalhas.<\/p>\n<p>Para salvar os bancos, o estado Portugu\u00eas entregou cerca de 17 mil milh\u00f5es de euros, veremos qual ser\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o entre este valor e o que dar\u00e1 para reverter a trag\u00e9dia em Mo\u00e7ambique, da qual \u00e9 correspons\u00e1vel.<\/p>\n<p>A ajuda humanit\u00e1ria \u00e9 necess\u00e1ria imediatamente. A ajuda com suplementos, roupas, comida, a ajuda m\u00e9dica; com profissionais qualificados, como bombeiros; tamb\u00e9m a ajuda financeira. Podendo a\u00ed tamb\u00e9m as organiza\u00e7\u00f5es sindicais e de trabalhadores pelo mundo se organizarem para recolher ajuda numa solidariedade de classe internacional.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 preciso muito mais do que ajuda material, pois as consequ\u00eancias da trag\u00e9dia ser\u00e3o gigantescas na economia do pa\u00eds. \u00c9 preciso o perd\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica, que enforca o or\u00e7amento do pa\u00eds, para garantir a reconstru\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique. N\u00e3o \u00e9 esta uma medida de ajuda humanit\u00e1ria, mas de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das condi\u00e7\u00f5es a que o roubo imperialista relegou o povo mo\u00e7ambicano. Chega de dar dinheiro aos bancos e multinacionais, foram eles que causaram esta trag\u00e9dia e eles que devem pagar por ela.<\/p>\n<p>Os capitalistas destroem o planeta e suas riquezas, dentre elas a humanidade, e devem pagar pelas consequ\u00eancias das suas a\u00e7\u00f5es. Mas demonstram assim a fal\u00eancia do pr\u00f3prio capitalismo, onde em nome do lucro exploram e destroem povos e o pr\u00f3prio Planeta. S\u00f3 poderemos reverter isto mudando radicalmente a forma de produ\u00e7\u00e3o da nossa sociedade e construindo uma economia planificada voltada para as necessidades da maioria e n\u00e3o para o lucro de alguns.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos acompanham com como\u00e7\u00e3o o desenvolvimento da trag\u00e9dia humanit\u00e1ria em Mo\u00e7ambique. O ciclone Idai causou uma gigantesca devasta\u00e7\u00e3o e estima-se que ser\u00e3o afetados cerca de 3 milh\u00f5es de pessoas. Mas ser\u00e1 esta trag\u00e9dia fruto apenas de um desastre natural? 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