{"id":26745,"date":"2019-03-19T17:18:28","date_gmt":"2019-03-19T19:18:28","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=26745"},"modified":"2019-03-19T17:18:28","modified_gmt":"2019-03-19T19:18:28","slug":"os-capitalistas-sao-realmente-necessarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/03\/19\/os-capitalistas-sao-realmente-necessarios\/","title":{"rendered":"Os capitalistas s\u00e3o realmente necess\u00e1rios?"},"content":{"rendered":"<p><em>Os capitalistas s\u00e3o realmente necess\u00e1rios?<\/em> <em>No seguinte texto, Engels nos apresentou seus argumentos de por que ele considerava que j\u00e1 na Inglaterra, em 1881, os capitalistas eram um obst\u00e1culo para o desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds. &#8220;Saiam do caminho e deem \u00e0 classe trabalhadora a oportunidade de demonstrar do que \u00e9 capaz!&#8221; Era a palavra de ordem de Engels dirigida aos capitalistas, dizendo-lhes que na vida real eram os trabalhadores que dirigiam a produ\u00e7\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o dos capitalistas era s\u00f3 especular na bolsa com o dinheiro pelo qual n\u00e3o haviam trabalhado, mas do qual haviam se apoderado.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Autor: F. Engels [<em>The Labour Standard<\/em>, n\u00fam, 14, 6 de Agosto de 1881. Editorial]<\/p>\n<p>Frequentemente se pergunta at\u00e9 que ponto s\u00e3o \u00fateis e inclusive necess\u00e1rias as diferentes classes da sociedade. Naturalmente, a resposta varia de acordo com o per\u00edodo hist\u00f3rico em quest\u00e3o. Sem d\u00favida, houve um tempo em que a aristocracia rural constitu\u00eda um elemento inevit\u00e1vel e necess\u00e1rio da sociedade. Mas isso foi h\u00e1 muito, muito tempo atr\u00e1s. Ent\u00e3o veio a \u00e9poca em que a mesma inevit\u00e1vel necessidade deu origem a uma classe m\u00e9dia capitalista, uma <em>burguesia<\/em>, como chamam os franceses, que lutou contra a aristocracia rural, acabou com seu poder pol\u00edtico e conquistou por sua vez, o predom\u00ednio pol\u00edtico e econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Mas, desde que existem classes, jamais houve na hist\u00f3ria uma \u00fanica \u00e9poca em que a sociedade pudesse sobreviver sem uma classe trabalhadora. O nome e a posi\u00e7\u00e3o social dessa classe mudaram; o lugar do escravo passou a ser ocupado mais tarde pelo servo, substitu\u00eddo, por sua vez, pelo trabalhador livre; livre de servid\u00e3o, mas tamb\u00e9m livre de todo bem material, a n\u00e3o ser sua pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho. Uma coisa \u00e9 evidente, no entanto: sejam quais forem as mudan\u00e7as produzidas tamb\u00e9m nas camadas altas e improdutivas da sociedade, esta nunca p\u00f4de existir sem uma classe de produtores.<\/p>\n<p>O que quer dizer que essa classe \u00e9 necess\u00e1ria em todos os casos e sob quaisquer circunst\u00e2ncias, embora ter\u00e1 que chegar tamb\u00e9m o dia em que deixar\u00e1 de ser uma classe para se converter na sociedade inteira.\u00a0Pois bem, que necessidade determina, nos momentos atuais, a exist\u00eancia de cada uma dessas tr\u00eas classes?<\/p>\n<p>Na Inglaterra, a aristocracia rural \u00e9, pelo menos, economicamente sup\u00e9rflua, enquanto na Irlanda e na Esc\u00f3cia, com sua tend\u00eancia a despovoar o pa\u00eds, tornou-se uma praga nociva. Todo o m\u00e9rito de que os propriet\u00e1rios de terras irlandeses e escoceses podem se orgulhar \u00e9 de enviar pessoas para o outro lado do oceano ou de empurr\u00e1-las at\u00e9 a morte por fome, para substitu\u00ed-las por ovelhas ou animais de ca\u00e7a. Deixemos que a competi\u00e7\u00e3o dos alimentos, animais e vegetais americanos siga se desenvolvendo um pouco mais e veremos como a aristocracia rural inglesa faz o mesmo, pelo menos a parte dela que pode se permitir, por contar com a posse de uma grande propriedade territorial urbana.<\/p>\n<p>A competi\u00e7\u00e3o pelos alimentos americanos logo se encarregar\u00e1 de nos livrar do resto. E n\u00e3o derramaremos nenhuma l\u00e1grima sobre seu cad\u00e1ver, porque sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tanto na c\u00e2mara alta quanto na baixa, \u00e9 uma verdadeira praga nacional. Mas e a classe m\u00e9dia capitalista, essa classe iluminada e liberal que fundou o imp\u00e9rio colonial brit\u00e2nico e criou a liberdade brit\u00e2nica?<\/p>\n<p>Essa classe que reformou o parlamento de 1931, que revogou as leis cerealistas e foi baixando um imposto ap\u00f3s o outro? A classe que fez brotar e continua administrando as gigantescas f\u00e1bricas, a poderosa frota comercial e a cada dia mais extensa rede ferrovi\u00e1ria da Inglaterra? Certamente essa classe deve se considerar, pelo menos, t\u00e3o necess\u00e1ria quanto a classe trabalhadora, dirigida e conduzida por ela de progresso em progresso.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da classe m\u00e9dia capitalista consistiu, de fato, em criar o moderno sistema das f\u00e1bricas e meios de comunica\u00e7\u00e3o movidos a vapor, removendo todos os obst\u00e1culos econ\u00f4micos e pol\u00edticos que impediam ou dificultavam o desenvolvimento desse sistema. Enquanto a classe capitalista cumpriu essa fun\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que era, sob as condi\u00e7\u00f5es existentes, uma classe necess\u00e1ria. Mas, ela segue sendo necess\u00e1ria hoje em dia? Segue cumprindo sua verdadeira fun\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a de dirigir e ampliar a produ\u00e7\u00e3o social em benef\u00edcio de toda a sociedade? Vejamos.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando pelos meios de transporte e comunica\u00e7\u00e3o, vemos que o tel\u00e9grafo est\u00e1 nas m\u00e3os do governo. As ferrovias e grande parte das linhas transoce\u00e2nicas de navega\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o propriedade de capitalistas individuais que dirigem esse neg\u00f3cio, mas de propriedade de sociedades an\u00f4nimas, cujo funcionamento \u00e9 dirigido por empregados assalariados, por servidores que ocupam a posi\u00e7\u00e3o de trabalhadores de categoria superior e melhor remunerados. Com rela\u00e7\u00e3o aos diretores e acionistas, eles sabem muito bem que \u00e9 muito melhor para os neg\u00f3cios que os primeiros n\u00e3o se encarreguem da dire\u00e7\u00e3o e nem os segundos da fiscaliza\u00e7\u00e3o da empresa.<\/p>\n<p>A \u00fanica fun\u00e7\u00e3o reservada aos propriet\u00e1rios \u00e9, na verdade, uma fiscaliza\u00e7\u00e3o muito rasa e quase sempre muito superficial. Vemos, ent\u00e3o, que a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o que realmente se atribui aos propriet\u00e1rios dessas gigantescas empresas \u00e9 de receber semestralmente seus dividendos. A fun\u00e7\u00e3o social dos capitalistas passou para as m\u00e3os de empregados assalariados; o que n\u00e3o impede que o capitalista continue embolsando, na forma de dividendos, a remunera\u00e7\u00e3o daquelas fun\u00e7\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o mais exerce.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, outra fun\u00e7\u00e3o que ainda desempenha o capitalista a quem a extens\u00e3o das grandes empresas a que nos referimos for\u00e7ou a &#8220;se aposentar&#8221; da dire\u00e7\u00e3o. Esta fun\u00e7\u00e3o consiste em especular na Bolsa de Valores com suas a\u00e7\u00f5es. Uma vez que eles n\u00e3o t\u00eam nada melhor para fazer, nossos capitalistas, que &#8220;se aposentaram&#8221;, mas que na verdade se converteram em elementos in\u00fateis, se dedicam a especular a seu bel prazer neste templo do Velocino de Ouro [refer\u00eancia a Cris\u00f3malo, carneiro alado de l\u00e3 de ouro da mitologia grega, ndt].<\/p>\n<p>Eles o procuram com a saud\u00e1vel e deliberada inten\u00e7\u00e3o de negociar com o dinheiro que pretendem ter ganhado; o que n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo para que sigam afirmando que a fonte de toda propriedade seja o trabalho e a poupan\u00e7a; a fonte pode ser, mas com certeza n\u00e3o \u00e9 o t\u00e9rmino. Que hipocrisia o fechamento for\u00e7ado das pequenas casas de jogos quando nossa sociedade capitalista n\u00e3o pode prescindir desse gigantesco sal\u00e3o de jogos, no qual se perdem e se ganham milh\u00f5es e mais milh\u00f5es, e que \u00e9 na verdade seu nervo vital mais importante!<\/p>\n<p>Aqui, \u00e9 evidente que a exist\u00eancia dos capitalistas &#8220;aposentados&#8221; que possuem a\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 apenas sup\u00e9rflua, mas constitui uma triste praga.<\/p>\n<p>E o que dizemos sobre as ferrovias e os barcos a vapor se confirma diariamente e com exatid\u00e3o cada dia maior em rela\u00e7\u00e3o a todas as grandes empresas industriais e comerciais. O neg\u00f3cio da chamada &#8220;funda\u00e7\u00e3o&#8221; &#8211; a transforma\u00e7\u00e3o de grandes empresas privadas em sociedades an\u00f4nimas &#8211; tem estado na ordem do dia nos \u00faltimos dez anos. Tudo foi ou continua estando sujeito a este neg\u00f3cio, desde os grandes armaz\u00e9ns da cidade de Manchester at\u00e9 as ind\u00fastrias siderurgias, as minas de carv\u00e3o de Gales e do norte de Inglaterra e as f\u00e1bricas de Lancashire.<\/p>\n<p>Em toda a cidade de Oldham, h\u00e1 apenas uma f\u00e1brica de algod\u00e3o que permane\u00e7a em m\u00e3os de particulares; at\u00e9 mesmo o comerciante individual se v\u00ea cada vez mais deslocado por &#8220;lojas cooperativas&#8221;, cuja grande maioria s\u00f3 tem disso o nome, mas falaremos sobre esse assunto em outra ocasi\u00e3o. Veja, ent\u00e3o, como \u00e9 precisamente o desenvolvimento do sistema capitalista de produ\u00e7\u00e3o que \u00e9 respons\u00e1vel por tornar o capitalista uma figura t\u00e3o sup\u00e9rflua quanto o tecel\u00e3o manual.<\/p>\n<p>Com a diferen\u00e7a de que, enquanto este se v\u00ea condenado \u00e0 morte lenta pela fome, o capitalista deslocado por sua inutilidade morre lentamente de fartura. Eles apenas se parecem, em geral, um com o outro, em uma coisa: nenhum deles sabe o que lhes vai acontecer.<\/p>\n<p>O resultado a que chegamos \u00e9, portanto, o seguinte: o desenvolvimento econ\u00f4mico da sociedade moderna tende cada vez mais \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o, \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o na forma de empresas gigantescas, que j\u00e1 n\u00e3o podem mais ser dirigidas por capitalistas individuais. Toda essa conversa sobre o &#8220;olho do mestre&#8221; e as maravilhas que dizem que ele faz perdem todo o seu sentido a partir do momento em que uma empresa alcan\u00e7a certo grau de magnitude.<\/p>\n<p>Imagine qual pode ser o famoso &#8220;olho do mestre&#8221; na Companhia Ferrovi\u00e1ria de Londres e do Noroeste! Mas o que o mestre n\u00e3o pode fazer, podem fazer com \u00eaxito os trabalhadores, os empregados da sociedade, assalariados dela.<\/p>\n<p>Isso significa que o capitalista j\u00e1 n\u00e3o pode mais reivindicar seu lucro como &#8220;sal\u00e1rio por vigiar&#8221;, porque ele n\u00e3o vigia nada. N\u00e3o nos esque\u00e7amos disso quando os defensores do capital gritarem aos nossos ouvidos essa frase vazia!<\/p>\n<p>Em nossa edi\u00e7\u00e3o da semana passada, tentamos demonstrar que a classe capitalista n\u00e3o \u00e9 mais capaz de administrar o gigantesco sistema de produ\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds; por um lado, utiliza a produ\u00e7\u00e3o de tal modo que sobrecarrega periodicamente todos os mercados com as suas mercadorias; por outro lado, se revela cada vez mais torpe para enfrentar a concorr\u00eancia estrangeira.<\/p>\n<p>Chegamos, ent\u00e3o, \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o s\u00f3 podemos administrar as grandes ind\u00fastrias do pa\u00eds perfeitamente sem a intromiss\u00e3o da classe capitalista, como essa intromiss\u00e3o se converte cada vez mais em uma praga.<\/p>\n<p>Mais uma vez dizemos: &#8220;Saiam do caminho e deem \u00e0 classe trabalhadora a oportunidade de demonstrar do que \u00e9 capaz!&#8221;.<\/p>\n<p>Fonte (em espa\u00f1ol): https:\/\/www.magazine.pstcolombia.org\/2016\/12\/clases-sociales-necesarias-y-superfluas\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Tae Amaru<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os capitalistas s\u00e3o realmente necess\u00e1rios? No seguinte texto, Engels nos apresentou seus argumentos de por que ele considerava que j\u00e1 na Inglaterra, em 1881, os capitalistas eram um obst\u00e1culo para o desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds. &#8220;Saiam do caminho e deem \u00e0 classe trabalhadora a oportunidade de demonstrar do que \u00e9 capaz!&#8221; Era a palavra de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":71994,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[29,3536,6725,5113,7231],"class_list":["post-26745","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria","tag-capitalismo","tag-classes-sociais","tag-exploracao","tag-f-engels","tag-producao-capitalista"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/tim-2.png","categories_names":["TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26745","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26745"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26745\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71994"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26745"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26745"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26745"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}