{"id":26717,"date":"2019-03-17T12:29:33","date_gmt":"2019-03-17T14:29:33","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=26717"},"modified":"2019-03-17T12:29:33","modified_gmt":"2019-03-17T14:29:33","slug":"8-de-marco-uma-retrospectiva-historica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/03\/17\/8-de-marco-uma-retrospectiva-historica\/","title":{"rendered":"8 de Mar\u00e7o: uma retrospectiva hist\u00f3rica\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><strong>As trabalhadoras na \u00e9poca da ascens\u00e3o do capitalismo industrial<\/strong><\/p>\n<p><em>Para nos referir ao 8 de mar\u00e7o e sua origem, \u00e9 importante localizar a \u00e9poca em que as mulheres desenvolveram um importante aumento em suas lutas e, portanto, um passo decisivo em seus direitos em todo o mundo. Vamos nos colocar \u00a0brevemente na \u00e9poca da ascens\u00e3o do capitalismo industrial, no qual entrou em massa a m\u00e3o de obra feminina.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por Ingrid Alfaro<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XVIII e a segunda metade do s\u00e9culo XIX, se observou um crescimento paralelo entre o desenvolvimento de empresas de manufatura (com a inven\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina) e a entrada das mulheres nas f\u00e1bricas. \u00c9poca em que a humanidade come\u00e7ou a conhecer as leis que regem o desenvolvimento econ\u00f4mico do capitalismo e, no caso particular das mulheres, a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o.\u00a0Desde ent\u00e3o, o Estado reduzia o trabalho \u00e1rduo das mulheres ao de uma escrava do lar e sem direitos, a fam\u00edlia como unidade econ\u00f4mica indivis\u00edvel viu no sal\u00e1rio feminino um sal\u00e1rio complementar ao do homem, considerado como o principal sustento do lar.<\/p>\n<p>Foi nas mulheres e nas crian\u00e7as, que os donos das f\u00e1bricas encontraram um grande benef\u00edcio para seus bolsos, ou seja, maior acumula\u00e7\u00e3o de capital. As trabalhadoras tinham que passar at\u00e9 doze horas de trabalho, por sal\u00e1rios baixos, sem oportunidade de seguridade social, moradia decente e ainda tinha que lidar com doen\u00e7as ocupacionais. As mulheres que n\u00e3o podiam vender sua for\u00e7a de trabalho para a f\u00e1brica foram jogadas na prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este grande passo, o da incorpora\u00e7\u00e3o da mulher ao trabalho, ainda que de forma contradit\u00f3ria, atribuiu \u00e0 mulher uma dupla explora\u00e7\u00e3o, como assalariada, e como trabalhadora em casa, mas foi um passo decisivo para sua participa\u00e7\u00e3o nas lutas sindicais e pol\u00edticas. E tamb\u00e9m um grande teste para todos aqueles setores de trabalhadores que se reivindicavam socialistas, j\u00e1 que na pr\u00e1tica deviam lutar contra o machismo e suas falsas teorias sobre a inferioridade da mulher, incorporando afilia\u00e7\u00e3o feminina aos sindicatos e adotando em seu programa que a filia\u00e7\u00e3o fosse realizada nas mesmas condi\u00e7\u00f5es que seus colegas homens e, portanto, que a luta sindical atendesse suas demandas.<\/p>\n<p><strong>As mulheres socialistas e a origem do 8 de mar\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>O Dia Internacional da Mulher Trabalhadora s\u00f3 p\u00f4de nascer a partir da acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7a por parte do movimento de mulheres. Um fen\u00f4meno mundial novo e extraordin\u00e1rio, como produto do papel progressivo, mas contradit\u00f3rio, que as mulheres viveram no desenvolvimento capitalista industrial, ao se tornar parte da produ\u00e7\u00e3o com car\u00eancia de direitos. Mulheres em todo o mundo exigiam direitos pol\u00edticos, melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0s profiss\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O primeiro antecedente do 8 de Mar\u00e7o est\u00e1 na primeira onda feminista, o movimento sufragista, uma luta internacional que incorporou os m\u00e9todos de luta da classe oper\u00e1ria, paralelamente houve um auge do sindicalismo feminino. Nesta luta destaca-se o papel das mulheres socialistas, que foram \u00e0s ruas para exigir o voto, sem distin\u00e7\u00e3o de classe, diante do feminismo burgu\u00eas que exigiu o voto s\u00f3 para as mulheres da burguesia, demonstrando que a unidade antes do g\u00eanero, estava cruzada pelo car\u00e1ter de classe.<\/p>\n<p>Em 1908, as mulheres socialistas do Partido Socialista dos EUA realizaram a\u00e7\u00f5es nacionais pelo voto das mulheres e direitos trabalhistas para as mulheres. Esses &#8216;Dias das Mulheres&#8217; (Women Days) conseguiam reunir milhares de mulheres trabalhadoras um ano depois. Esta iniciativa torna-se internacional quando, em 1910, Clara Zetkin, diante do II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, prop\u00f5e a organiza\u00e7\u00e3o de um Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, como uma t\u00e1tica para obter o voto para as mulheres trabalhadoras. Assim, na Alemanha, Dinamarca, Su\u00e9cia e \u00c1ustria, em 19 de mar\u00e7o de 1911, ocorre a primeira celebra\u00e7\u00e3o internacional. Em 1913, em meio \u00e0 repress\u00e3o do czarismo, na ilegalidade, as trabalhadoras convocaram um f\u00f3rum p\u00fablico que terminou com interven\u00e7\u00e3o policial e pris\u00f5es.<\/p>\n<p>Durante esses dias, a Primeira Guerra Mundial abalou as mulheres e as colocou na linha de frente da luta. Surpreendentemente, em 1917, o inesperado aconteceu: as oper\u00e1rias t\u00eaxteis se lan\u00e7aram em uma greve por &#8220;P\u00e3o, Paz e Terra&#8221;, exig\u00eancia central contra a guerra, iniciando assim a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de Outubro, que estabeleceu a legisla\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada do mundo na quest\u00e3o dos direitos das mulheres. Este evento serve de inspira\u00e7\u00e3o para o fato de que, em 1921, torna-se oficial em Moscou, o dia 8 de Mar\u00e7o, como o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora na Confer\u00eancia das Mulheres Comunistas.<\/p>\n<p>O stalinismo, por sua vez, desempenhou um papel contrarrevolucion\u00e1rio, n\u00e3o apenas burocratizando a URSS, mas tamb\u00e9m retrocedendo os direitos das mulheres alcan\u00e7ados com a Revolu\u00e7\u00e3o. Tornou o aborto ilegal, colocou obst\u00e1culos jur\u00eddicos ao div\u00f3rcio, revalorizou o antigo conceito de fam\u00edlia chamando as mulheres para &#8220;voltar para o lar&#8221;.Mais tarde, a ONU, na d\u00e9cada de 70, desempenha um papel reacion\u00e1rio em torno ao 8 de Mar\u00e7o. Se encarrega de institucionalizar o Dia Internacional da Mulher, distanciando-o da origem nas mulheres socialistas e sua influ\u00eancia sovi\u00e9tica para eliminar os limites de classe em que tanto insistiam as dirigentes revolucion\u00e1rias da \u00e9poca. A ONU agiu assim diante de um movimento de mulheres que foi combinado com a luta contra o racismo, o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, o Maio franc\u00eas, a revolu\u00e7\u00e3o em Portugal e as lutas anticoloniais como a do Vietn\u00e3, na segunda onda do feminismo.<\/p>\n<p><strong>Vig\u00eancia do 8 de Mar\u00e7o para as trabalhadoras<\/strong><\/p>\n<p>Atualmente, a mulher trabalhadora enfrenta uma forte crise econ\u00f4mica, iniciada na \u00faltima d\u00e9cada. H\u00e1 um retrocesso geral nas conquistas dos trabalhadores, tanto que as reformas trabalhistas do imperialismo precarizam as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, devolvendo-as a condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s anteriores ao s\u00e9culo XX. A organiza\u00e7\u00e3o do proletariado feminino tamb\u00e9m recuou. O fen\u00f4meno da migra\u00e7\u00e3o da mesma forma coloca as mulheres e seus filhos como alvo priorit\u00e1rio.Os direitos sociais ligados \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de m\u00e3e est\u00e3o sendo cortados. Suas fam\u00edlias est\u00e3o no centro da pobreza, a viol\u00eancia intrafamiliar, viol\u00eancia sexual e femic\u00eddios aumentaram exponencialmente. Tamb\u00e9m se incorporou as lutas de mulheres l\u00e9sbicas e trans. O movimento de mulheres teve como centro os pa\u00edses semicoloniais, mas tamb\u00e9m conseguiu espalhar a luta para os pa\u00edses imperialistas. Assim, a \u00faltima d\u00e9cada tem importantes referenciais das lutas das mulheres em v\u00e1rias regi\u00f5es e pa\u00edses.<\/p>\n<p>Em 2015, nasce o movimento &#8216;Ni una Menos&#8217; na Argentina contra os femic\u00eddios. Em 2016, na Pol\u00f4nia, \u00e9 convocada uma greve nacional feminina. Em 2017, milhares de mulheres protestam contra a posse de Donald Trump e suas pol\u00edticas mis\u00f3ginas. Em 2018, cerca de 70 pa\u00edses aderiram \u00e0 chamada de &#8220;Nosotras Paramos&#8221;. Na Espanha, houve uma paralisa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que alcan\u00e7ou cerca de 120 cidades, centrais oper\u00e1rias se somaram \u00e0 greve e os atos foram mantidos por 24 horas. Na Argentina &#8216;Que seja lei!&#8217;, a luta pelo aborto foi uma das mais importantes lutas e debates p\u00fablicos, a luta dos len\u00e7os verdes durou meses e foi apoiada por centenas de organiza\u00e7\u00f5es. No Brasil, a luta girou em torno da den\u00fancia contra Jair Bolsonaro, ent\u00e3o candidato \u00e0 presid\u00eancia, por machista, xen\u00f3fobo e racista.<\/p>\n<p>Ou seja, embora as mulheres conquistassem formalmente os direitos civis e pol\u00edticos em quase todo o mundo, nem todas podem exerc\u00ea-los igualmente, tornando as contradi\u00e7\u00f5es de classe existentes mais n\u00edtidas. As mulheres da burguesia de hoje t\u00eam uma vantagem inquestion\u00e1vel nos direitos democr\u00e1ticos, das mulheres trabalhadoras, elas chegaram a dividir o poder com seus colegas homens, h\u00e1 mulheres presidentes, empres\u00e1rias, parlamentares, senadoras, inclusive umas explorando outras mulheres, as tarefas dom\u00e9sticas s\u00e3o feitas por suas empregadas e n\u00e3o elas, etc.<\/p>\n<p>As socialistas do s\u00e9culo XIX e do in\u00edcio do s\u00e9culo XX colocaram uma controv\u00e9rsia que \u00e9 preciso retomar, a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o n\u00e3o podem estar no mesmo n\u00edvel, os oprimidos n\u00e3o s\u00e3o uma categoria de classe, eles est\u00e3o localizados ao longo de toda a pir\u00e2mide social. Ainda que tanto as prolet\u00e1rias como as burguesas sejam oprimidas, a explora\u00e7\u00e3o capitalista as coloca em lados opostos. Portanto, n\u00e3o podemos localizar a situa\u00e7\u00e3o da mulher apenas na \u00e1rea dos sexos ou g\u00eanero. No Partido Socialista dos Trabalhadores estamos convencidos de que o 8 de Mar\u00e7o deve recuperar sua perspectiva socialista, um 8 de Mar\u00e7o por e para as trabalhadoras, porque at\u00e9 o triunfo do socialismo a explora\u00e7\u00e3o vai dividir os oprimidos.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As trabalhadoras na \u00e9poca da ascens\u00e3o do capitalismo industrial Para nos referir ao 8 de mar\u00e7o e sua origem, \u00e9 importante localizar a \u00e9poca em que as mulheres desenvolveram um importante aumento em suas lutas e, portanto, um passo decisivo em seus direitos em todo o mundo. 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