{"id":26320,"date":"2019-02-28T19:06:08","date_gmt":"2019-02-28T21:06:08","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=26320"},"modified":"2019-02-28T19:06:08","modified_gmt":"2019-02-28T21:06:08","slug":"economia-capitalista-na-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/02\/28\/economia-capitalista-na-guerra\/","title":{"rendered":"Economia capitalista na guerra"},"content":{"rendered":"<p><em>As impressionantes vit\u00f3rias militares da Alemanha e, acima de tudo, o colapso da Fran\u00e7a geraram uma s\u00e9rie de teorias improvisadas, que surgiram como cogumelos depois de uma chuva.\u00a0Essas teorias, embora diversas, est\u00e3o unidas em postular o nascimento de um novo sistema social.\u00a0O ponto de concord\u00e2ncia entre esses inovadores \u00e9 que o fascismo est\u00e1 se movendo em dire\u00e7\u00e3o a um sistema social que n\u00e3o \u00e9 mais o capitalismo.\u00a0Embora as mudan\u00e7as no mapa pol\u00edtico da Europa expliquem psicologicamente o surgimento de novas teorias, elas s\u00e3o, no entanto, incapazes de apresentar uma base l\u00f3gica.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Marc Loris\u00a0 (pseud\u00f4nimo de Jean van Heijenoort) <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><em>Publicado em: Quarta Internacional,<\/em>\u00a0dezembro de 1941, pp.313-316<\/p>\n<p>Uma diferen\u00e7a na estrat\u00e9gia militar evidentemente fornece pouco terreno para inferir uma diferen\u00e7a nos sistemas sociais.\u00a0Na realidade, cada sistema social possui diversas estrat\u00e9gias correspondentes \u00e0s diversas etapas de seu desenvolvimento, ou, mais precisamente, correspondem \u00e0 capacidade dos l\u00edderes pol\u00edticos e militares de adaptar a ci\u00eancia da guerra a cada nova fase desse desenvolvimento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da nova estrat\u00e9gia, \u00e9 a economia alem\u00e3 desde 1936 que fornece aos te\u00f3ricos improvisadores seu estoque de argumentos mais f\u00e9rtil.\u00a0Hitler, dizem, expropriou os capitalistas, o sistema antigo est\u00e1 morto, etc. O m\u00e9todo \u00e9 simples.\u00a0Consiste em ver a economia alem\u00e3 atual inteiramente separada da que a precedeu, e ent\u00e3o suas caracter\u00edsticas s\u00e3o t\u00e3o distorcidas que parecem \u201cn\u00e3o-capitalistas\u201d e finalmente um nome sonoro como \u201ccoletivismo burocr\u00e1tico\u201d, ou qualquer outro r\u00f3tulo que atinja a imagina\u00e7\u00e3o, \u00e9 colado na improvisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para resolver um problema de tal escopo como a sucess\u00e3o de dois sistemas sociais, \u00e9 imperativo evitar um per\u00edodo muito breve da hist\u00f3ria.\u00a0\u00c9 perigoso determinar a forma de uma curva simplesmente estendendo um segmento muito curto.\u00a0Para saber onde estamos e para onde vamos, come\u00e7aremos por uma breve revis\u00e3o do passado.\u00a0Em particular, um exame da primeira grande guerra imperialista nos ensinar\u00e1 exatamente quais s\u00e3o as novas caracter\u00edsticas da presente luta.<\/p>\n<p><strong>Uma Breve Resenha Hist\u00f3rica <\/strong><\/p>\n<p>Em 1914, as grandes pot\u00eancias entraram na guerra preparadas para um curto conflito.\u00a0As medidas tomadas na esfera econ\u00f4mica dificilmente superaram a aquisi\u00e7\u00e3o de estoques de botas e muni\u00e7\u00f5es.\u00a0Mas, os primeiros meses de guerra trouxeram duas grandes surpresas.\u00a0Primeiro, a guerra recusou-se a terminar rapidamente;\u00a0em segundo lugar, o consumo de armamentos confundiu a imagina\u00e7\u00e3o &#8211; as muni\u00e7\u00f5es que exigiram muitos meses para ser armazenadas esgotaram-se em poucas horas.\u00a0Confrontada com uma demanda tremendamente aumentada, a ind\u00fastria logo se viu em um gargalo.\u00a0Toda a organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica amea\u00e7ou entrar em colapso.\u00a0O estado teve que intervir e emitir comandos rudes para emergir do caos.\u00a0Em todos os principais pa\u00edses beligerantes, o mesmo fen\u00f4meno foi manifestado: na Fran\u00e7a, na Inglaterra, na Alemanha.<\/p>\n<p>Mas foi no \u00faltimo que assumiu a forma mais acabada.\u00a0A raz\u00e3o fundamental para isso era a localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica central da Alemanha: a dificuldade de suas comunica\u00e7\u00f5es com o mercado mundial em tempos de guerra, sua falta de acesso a fontes de mat\u00e9rias-primas nas col\u00f4nias e, depois, o bloqueio brit\u00e2nico.\u00a0O pa\u00eds tornou-se uma fortaleza sitiada.\u00a0Al\u00e9m das mat\u00e9rias-primas, as necessidades da vida logo se tornaram escassas.\u00a0Os pre\u00e7os dispararam.\u00a0O governo fixou pre\u00e7os m\u00e1ximos e lutou contra a especula\u00e7\u00e3o e o ac\u00famulo, mas teve pouco sucesso e em pouco tempo foi for\u00e7ado a requisitar todos os suprimentos e distribu\u00ed-los com base no racionamento individual.\u00a0Sob iniciativa e controle estatais, foram criadas corpora\u00e7\u00f5es para cada produto aliment\u00edcio;\u00a0elas compraram toda a produ\u00e7\u00e3o a um pre\u00e7o fixado pelo governo e dividiram carteis,\u00a0para promover novos e depois at\u00e9 obrigar a sua forma\u00e7\u00e3o (Zwangs syndisierung);\u00a0e o pr\u00f3prio governo formou corpora\u00e7\u00f5es para a aloca\u00e7\u00e3o de certos materiais industriais b\u00e1sicos.\u00a0O com\u00e9rcio exterior tornou-se a fun\u00e7\u00e3o de um bureau governamental;\u00a0o mercado de c\u00e2mbio foi similarmente controlado.\u00a0O consumo de natureza n\u00e3o militar era rigidamente restrito.\u00a0Os intermedi\u00e1rios e os comerciantes em geral viram seu papel diminuir enormemente.\u00a0O Reichstag ouviu inumer\u00e1veis \u200b\u200bqueixas de liberais amedrontados por essa invas\u00e3o do Estado, enquanto os socialdemocratas, ansiosos por justificar sua submiss\u00e3o ao Estado imperialista, saudaram a chegada do &#8220;socialismo de Estado&#8221;.<\/p>\n<p>Com o fim da guerra, o sistema de controle estatal desapareceu, tanto na Alemanha quanto nos outros pa\u00edses.\u00a0Isso n\u00e3o significa, por\u00e9m, que o capitalismo emergiu da guerra exatamente da mesma forma em que havia entrado.\u00a0Longe disso!\u00a0A interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia tomou novas formas, sobre as quais n\u00e3o precisamos nos deter aqui.\u00a0O ponto essencial \u00e9 que a mobiliza\u00e7\u00e3o estatal da economia, que assegurou uma produ\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel de armamentos, mostrou-se incapaz de sobreviver \u00e0 guerra, quanto mais de elevar o n\u00edvel das for\u00e7as produtivas e conduzir o capitalismo para fora de seu beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>Como a economia de guerra que hoje reina na Alemanha difere da de 1915-1918?\u00a0Quatro diferen\u00e7as importantes aparecem: primeiro, a economia foi colocada em p\u00e9 de guerra no final de 1936, tr\u00eas anos antes da declara\u00e7\u00e3o formal de guerra;\u00a0segundo, o aparato estatal alem\u00e3o est\u00e1 nas m\u00e3os do partido nazista;\u00a0terceiro, o controle estatal da economia \u00e9 mais abrangente do que na \u00faltima guerra;\u00a0quarto, o capitalismo \u00e9 vinte anos mais velho.\u00a0Vamos examinar atentamente cada uma dessas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Interven\u00e7\u00e3o do Estado em 1936-1939 <\/strong><\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o da economia de guerra (Wehrwirtschaft) em tempo de paz, j\u00e1 no final de 1936, \u00e9 um problema pol\u00edtico bastante importante.\u00a0Mas ficou claro desde o in\u00edcio que a guerra era o \u00fanico objetivo da Wehrwirtschaft.\u00a0Na guerra, encontrou sua continua\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e, sem guerra, seria inconceb\u00edvel.\u00a0Consequentemente, quando a quest\u00e3o envolve uma quest\u00e3o t\u00e3o fundamental quanto a natureza de um sistema social, essa diferen\u00e7a da primeira Guerra Mundial assume um car\u00e1ter epis\u00f3dico, especialmente se tivermos em mente o fato de que a Europa de 1936-1939 estava em uma situa\u00e7\u00e3o de guerra latente. Consciente ou inconscientemente, o evangelho de uma &#8220;nova ordem&#8221; na Alemanha deve muito de sua popularidade \u00e0 for\u00e7a do poder estatal comandado por um partido fascista.\u00a0Declara\u00e7\u00f5es anticapitalistas n\u00e3o faltavam \u00e0 confus\u00e3o da demagogia nazista antes de 1933. A \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d das classes m\u00e9dias que levaram Hitler ao poder n\u00e3o teria base econ\u00f4mica?\u00a0E n\u00e3o \u00e9 essa \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d precisamente o ato de disciplinar o capital pelo estado que testemunhamos agora na Alemanha?\u00a0Mesmo um exame superficial da economia alem\u00e3 de 1933 a 1941 d\u00e1 um golpe irrepar\u00e1vel nessa f\u00e1bula.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o e a centraliza\u00e7\u00e3o do capital avan\u00e7aram a passos largos desde 1933. As grandes corpora\u00e7\u00f5es cresceram \u00e0s custas das pequenos.\u00a0O com\u00e9rcio varejista permanece na condi\u00e7\u00e3o de inani\u00e7\u00e3o.\u00a0O estado nazista interveio ativamente para acelerar a evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, por exemplo, acelerando a transforma\u00e7\u00e3o de milhares de artes\u00e3os em oper\u00e1rios ou soldados.\u00a0Mas, al\u00e9m de tais medidas diretas, todo o controle estatal da economia atua em favor dos grandes contra os pequenos capitalistas.\u00a0A burocracia nazista atua de forma muito mais arbitr\u00e1ria e independente em rela\u00e7\u00e3o aos pequenos capitalistas (para n\u00e3o mencionar os artes\u00e3os) e \u00e9 muito mais \u201ccomplacente\u201d na presen\u00e7a dos grandes.\u00a0A regulamenta\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio exterior favoreceu enormemente as grandes empresas e permitiu que elas esmagassem seus pequenos e m\u00e9dios concorrentes nesse campo.\u00a0A centraliza\u00e7\u00e3o do Estado foi combinada com a centraliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica &#8211; o mesmo fen\u00f4meno que foi observado durante a primeira guerra imperialista.\u00a0Esse processo \u00e9 uma refuta\u00e7\u00e3o direta do \u201canticapitalismo\u201d nazista, que supostamente deveria enriquecer as classes m\u00e9dias que levaram o partido ao poder. Sob o disfarce de frases demag\u00f3gicas, a burocracia nazista desempenha o mesmo papel que a burocracia tradicional do Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Outros te\u00f3ricos improvisadores descrevem diferentemente a origem da \u201cnova ordem\u201d: o partido nazista, financiado e chamado ao poder pelo grande capital, libertou-se de seu mestre exatamente como a vassoura fez com o aprendiz de feiticeiro.\u00a0O nazismo comprometeu-se em eliminar a burguesia capitalista em favor de seu pr\u00f3prio engrandecimento.\u00a0Ele &#8220;controla&#8221; sua propriedade, o que significa que, na realidade, ele disp\u00f5e dessa propriedade.\u00a0Aqui, a falha b\u00e1sica no m\u00e9todo da improvisa\u00e7\u00e3o destaca-se com mais clareza.\u00a0Os improvisadores tomam a propriedade privada como ela \u00e9 legalmente definida, <em>jus utendi et abutendi<\/em>, o direito de usar e abusar, e eles op\u00f5em a situa\u00e7\u00e3o atual a essa defini\u00e7\u00e3o.\u00a0A diverg\u00eancia [entre a defini\u00e7\u00e3o legal e a realidade, ndt] \u00e9 t\u00e3o marcante que eles correm para concluir que a propriedade privada foi abolida.\u00a0Na realidade, toda propriedade tem car\u00e1ter social,\u00a0e a propriedade capitalista mais do que quaisquer formas anteriores.\u00a0Um capitalista pode \u201cusar e abusar\u201d de seu capital n\u00e3o como seu capricho dita, mas de uma maneira bem definida, sen\u00e3o ele \u00e9 pass\u00edvel de uma penalidade imediata, a saber, a fal\u00eancia.\u00a0Ele n\u00e3o pode usar seu lucro como ele gosta.\u00a0Ele deve acumular para melhorar seu equipamento e expandir seu empreendimento.\u00a0Caso contr\u00e1rio, ele perde n\u00e3o apenas seu lucro, mas tamb\u00e9m seu capital original.\u00a0A certa altura, a concorr\u00eancia for\u00e7a-o a abandonar a propriedade individual do seu neg\u00f3cio e a entrar numa corpora\u00e7\u00e3o e, mais tarde, num cartel.\u00a0Finalmente, ele \u00e9 compelido a travar uma guerra, a dedicar a esse prop\u00f3sito uma parcela cada vez maior de seus lucros e a suportar a interven\u00e7\u00e3o arrogante de militaristas e burocratas.\u00a0Tudo isso prova que a propriedade capitalista \u00e9 um fen\u00f4meno contradit\u00f3rio, de car\u00e1ter autodevorador.\u00a0E isso n\u00f3s conhecemos desde a \u00e9poca de Marx.\u00a0Numa economia de guerra, as contradi\u00e7\u00f5es da propriedade capitalista aparecem em sua forma mais agravada, mas a propriedade capitalista n\u00e3o \u00e9 de modo algum abolida: a prova mais clara disso \u00e9 a pr\u00f3pria guerra.<\/p>\n<p>Chegamos agora \u00e0 terceira diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira guerra imperialista.\u00a0O presente controle estatal n\u00e3o constitui tal diferen\u00e7a de grau para justificar a conclus\u00e3o de uma diferen\u00e7a de g\u00eanero?\u00a0Tal infer\u00eancia \u00e9 totalmente sem fundamento.\u00a0Na produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo, especialmente de alimentos, o controle estatal em 1918 n\u00e3o era menos rigoroso do que agora.\u00a0Na ind\u00fastria pesada (armamentos e meios de produ\u00e7\u00e3o), os atuais m\u00e9todos de controle evitam medidas violentas como a requisi\u00e7\u00e3o [de seus produtos, ndt] a partir da ocupa\u00e7\u00e3o de certas f\u00e1bricas, que foram impostas pelo ex\u00e9rcito na primeira guerra, na Alemanha.\u00a0Gra\u00e7as \u00e0 experi\u00eancia passada e \u00e0 longa prepara\u00e7\u00e3o, as atividades do Estado agora penetram na economia de uma forma mais org\u00e2nica e, no geral, mais completa do que na \u00faltima guerra.\u00a0Finalmente, parece que na esfera do cr\u00e9dito,\u00a0o controle estatal fez progressos mensur\u00e1veis.\u00a0Mas, embora os nazistas aperfei\u00e7oassem a t\u00e9cnica de controle, n\u00e3o fizeram grandes inova\u00e7\u00f5es, e \u00e9 manifestamente imposs\u00edvel inferir o nascimento de uma nova ordem social a menos que algu\u00e9m esteja preparado para reconhecer que essa ordem j\u00e1 nascera na Alemanha em 1915.<\/p>\n<p>Repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa de forma alguma identidade.\u00a0O capitalismo de 1941 n\u00e3o \u00e9 mais o de 1916. Passou pela primeira guerra, pelos choques da \u00e9poca do p\u00f3s-guerra, pela grande depress\u00e3o.\u00a0Aqui reside a maior diferen\u00e7a entre as duas guerras.\u00a0Concomitantemente, o presente conflito imp\u00f5e demandas ainda mais profundas sobre a economia.\u00a0Todos os pa\u00edses, vitoriosos e derrotados, sair\u00e3o do abate com seus sistemas econ\u00f4micos muito mais debilitados do que em 1918. Pode-se esperar um aumento apreci\u00e1vel das for\u00e7as produtivas para acompanhar a guerra?\u00a0At\u00e9 agora, pelo menos, nenhuma indica\u00e7\u00e3o nos permite ter tal esperan\u00e7a.\u00a0A interven\u00e7\u00e3o estatal na economia alem\u00e3 est\u00e1 cumprindo a mesma tarefa de antes: ela mobiliza todas as for\u00e7as nacionais durante toda a dura\u00e7\u00e3o da luta, apenas para deixar a economia ainda mais fraca e prostrada.\u00a0Com o esgotamento de toda a sociedade \u00e9 bem poss\u00edvel que, ap\u00f3s esta guerra, as formas de controle estatal abandonadas no final da \u00faltima guerra sejam agora perpetuadas.\u00a0Mas, \u00e9 claro que isso pode ser apenas o meio de organizar a mis\u00e9ria em massa.\u00a0O que temos diante de n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 um novo sistema capaz de levar a humanidade adiante, mas uma forma de estagna\u00e7\u00e3o e decl\u00ednio do antigo sistema capitalista.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a natureza da economia alem\u00e3?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Para determinar a condi\u00e7\u00e3o real da economia alem\u00e3, devemos fazer mais do que opor a ela o quadro sereno de uma economia de livre com\u00e9rcio perfeita (e irreal).\u00a0Acima de tudo, devemos delinear as formas e o car\u00e1ter da interven\u00e7\u00e3o do Estado.\u00a0A economia alem\u00e3 \u00e9 uma economia de guerra, projetada para a guerra e engajada na guerra.\u00a0Sua palavra de ordem central \u00e9 &#8220;Armas em vez de manteiga&#8221;. A redu\u00e7\u00e3o do consumo \u00e9 um tra\u00e7o fundamental da Wehrwirtschaft e, na Alemanha, foi levada ao extremo.\u00a0Isso est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 limita\u00e7\u00e3o de novos investimentos.\u00a0O objetivo dessas medidas \u00e9 desviar todos os recursos da na\u00e7\u00e3o (capital, for\u00e7a de trabalho, mat\u00e9rias-primas) de produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo para a produ\u00e7\u00e3o de artefatos de guerra.\u00a0O estado est\u00e1 apto, ao mesmo tempo,\u00a0a mobilizar, por meio de empr\u00e9stimos, todo o poder de compra que permanece n\u00e3o absorvido por falta de bens de consumo.\u00a0A guerra que separou a economia alem\u00e3 do mercado mundial imp\u00f4s uma restri\u00e7\u00e3o adicional.\u00a0O despotismo originalmente engendrado pela crise foi transformado diretamente em despotismo militar.<\/p>\n<p>Se examinarmos essas medidas, elas aparecem em si mesmas e atrav\u00e9s de sua tradu\u00e7\u00e3o para a linguagem de decretos e regulamentos, como restritivas e negativas, em vez de construtivas e positivas.\u00a0O Estado imp\u00f5e certos limites \u00e0 atividade econ\u00f4mica, sendo estes limites ditados pelas necessidades da guerra (ou pela prepara\u00e7\u00e3o para a guerra).\u00a0Mas, dentro desses limites, o lucro capitalista ainda \u00e9 sua for\u00e7a motriz.\u00a0Basta pegar uma dos levantamentos econ\u00f4micos oficiais nazistas para encontrar inumer\u00e1veis \u200b\u200brefer\u00eancias \u00e0 iniciativa capitalista.\u00a0Isto n\u00e3o \u00e9 uma ret\u00f3rica vazia.\u00a0Se um dia Hitler estatizar a ind\u00fastria, isto \u00e9, romper o v\u00ednculo chamado propriedade entre os capitalistas e os meios de produ\u00e7\u00e3o, e passar a administrar a economia atrav\u00e9s de funcion\u00e1rios do Estado, a quantidade e a qualidade da produ\u00e7\u00e3o de armamentos entraria em um decl\u00ednio imediato.<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica importante da economia alem\u00e3 \u00e9 seu sistema de controle de pre\u00e7os.\u00a0No final de 1936, os pre\u00e7os foram &#8220;congelados&#8221; pelo governo.\u00a0Esta medida foi uma consequ\u00eancia direta da necessidade de financiar o rearmamento.\u00a0Sem isso, a infla\u00e7\u00e3o estava a um passo de dist\u00e2ncia.\u00a0No fundo, representa uma nova manipula\u00e7\u00e3o do dinheiro, em vez de um ataque ao car\u00e1ter capitalista da economia.\u00a0Este \u00faltimo, al\u00e9m disso, n\u00e3o deixou de fazer sentir a sua presen\u00e7a.\u00a0A qualidade da mercadoria, particularmente dos bens de consumo, come\u00e7ou a deteriorar-se a uma taxa que rapidamente equivalia a um aumento de pre\u00e7os de 40% a 50%.\u00a0Os pre\u00e7os em si n\u00e3o cessaram de subir lentamente.\u00a0Mas, mesmo sem levar em conta essas manifesta\u00e7\u00f5es, pode-se dizer que esse mecanismo regulador n\u00e3o abalou a estrutura do lucro privado.\u00a0Os sumos sacerdotes respons\u00e1veis \u200b\u200bpelo controle de pre\u00e7os repetem frequentemente que \u201ccusto n\u00e3o \u00e9 pre\u00e7o\u201d (Kosten sind keine Preise).\u00a0Isso significa dizer que os pre\u00e7os fixados pelo estado n\u00e3o podem ser determinados pelo custo de produ\u00e7\u00e3o, nem pelo custo de produ\u00e7\u00e3o mais uma porcentagem do lucro.\u00a0Essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 interessante porque reconhece, primeiro, a exist\u00eancia de lucro\u00a0e, segundo, a aus\u00eancia de qualquer taxa de lucro oficial e autom\u00e1tica.\u00a0Os pre\u00e7os (e lucros) aumentam com a permiss\u00e3o oficial \u00e0 medida que a demanda aumenta acentuadamente.\u00a0Mas, \u00e9 ainda mais importante entender a justificativa desse princ\u00edpio pelos comentaristas oficiais.\u00a0Um deles declara:\u00a0\u201cSe o empreendedor garante seus custos, ele n\u00e3o \u00e9 mais for\u00e7ado a introduzir m\u00e9todos mais eficientes para reduzir as despesas de seus neg\u00f3cios com respeito a sal\u00e1rios e mat\u00e9rias-primas e ele n\u00e3o \u00e9 mais for\u00e7ado a investir continuamente novos capitais para esse fim\u201d (Weltwirtschaftliches Archiv, 1940).\u00a0Aqui, claramente exposto, est\u00e1 toda a diferen\u00e7a nas vis\u00f5es do empreendedor capitalista e do funcion\u00e1rio do estado.<\/p>\n<p>Muitos improvisadores invocam o segundo plano de quatro anos de Hitler para descobrir uma economia &#8220;planejada&#8221; na Alemanha.\u00a0Manifestamente, isso \u00e9 seguir os nazistas em seu abuso de linguagem.\u00a0A diferen\u00e7a entre os planos quinquenais sovi\u00e9ticos e o plano de quatro anos de Hitler \u00e9 clara s\u00f3 de olhar.\u00a0O plano sovi\u00e9tico envolve (de forma mais ou menos competente) toda a economia.\u00a0O plano de Hitler n\u00e3o \u00e9 um plano no sentido preciso do termo, mas um programa e, al\u00e9m disso, bastante vago, tanto pol\u00edtico quanto econ\u00f4mico.\u00a0A primeira medida foi centralizar o controle estatal da economia nas m\u00e3os de Goering, que promulgou, desde o final de 1936, decretos que s\u00e3o em geral restritivos e proibitivos.\u00a0Sempre que a situa\u00e7\u00e3o nesse ou naquele ramo da ind\u00fastria se tornava particularmente grave, o Estado fazia ouvir sua voz autorit\u00e1ria.\u00a0Esta n\u00e3o \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o planejada da economia, mas um tipo de supervis\u00e3o policial que termina em pancada no primeiro conflito que ameace interromper o funcionamento de uma m\u00e1quina operando no limite de sua capacidade.\u00a0Todos os regulamentos de Goering n\u00e3o s\u00e3o construtivos e positivos, mas essencialmente negativos em car\u00e1ter.\u00a0Essa caracter\u00edstica do &#8220;plano&#8221; nazista \u00e9 especialmente clara no campo dos investimentos.\u00a0O estado restringe os investimentos em certos setores para que os fundos possam fluir para outros.\u00a0O estado tem um plano positivo e detalhado apenas para financiar algumas ind\u00fastrias nascentes que representam uma fra\u00e7\u00e3o desprez\u00edvel da economia nacional, e essa sempre foi uma das fun\u00e7\u00f5es do estado capitalista.<\/p>\n<p>A economia alem\u00e3 atual n\u00e3o pode, de forma alguma, ser caracterizada como economia \u201cplanejada\u201d.\u00a0Os pr\u00f3prios nazistas empregam com bastante frequ\u00eancia a express\u00e3o \u201cgesteuerte Wirtschaft\u201d ou \u201ceconomia orientada\u201d. Isso est\u00e1 muito mais pr\u00f3ximo da verdade.\u00a0O estado orienta todas as for\u00e7as nacionais em uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o: a luta militar.\u00a0Incontestavelmente, isso confere \u00e0 economia certas caracter\u00edsticas espec\u00edficas.\u00a0Mas a iniciativa privada, canalizada nos diques do controle estatal, ainda desempenha um papel importante demais para se falar de planejamento.\u00a0Finalmente, a ideia de planejamento implica em um desenvolvimento harmonioso das for\u00e7as produtivas, enquanto a orienta\u00e7\u00e3o militar da economia alem\u00e3 cria grandes despropor\u00e7\u00f5es.\u00a0Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio chamar a aten\u00e7\u00e3o para um ponto que os improvisadores frequentemente passam em sil\u00eancio.\u00a0Essa orienta\u00e7\u00e3o da economia \u00e9 determinada a longo prazo n\u00e3o pela forma do poder pol\u00edtico, mas pela natureza do pr\u00f3prio sistema econ\u00f4mico.\u00a0A menos que se aceite a teoria da hist\u00f3ria do \u201chomem mau\u201d, a explica\u00e7\u00e3o para a guerra n\u00e3o est\u00e1 no mau car\u00e1ter de Hitler, mas no fato de que as contradi\u00e7\u00f5es entre as for\u00e7as produtivas desenvolvidas e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o antiquadas, na aus\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, encontram sua \u00fanica sa\u00edda na guerra.\u00a0O Estado apenas ajuda na tentativa de solu\u00e7\u00e3o desta tarefa imposta por for\u00e7as al\u00e9m de seu controle.<\/p>\n<p><strong>As f\u00f3rmulas dos improvisadores <\/strong><\/p>\n<p>Entre os improvisadores que buscam negar a natureza capitalista da economia alem\u00e3, alguns apressaram-se a ler Marx a fim de extrair de suas obras alguma defini\u00e7\u00e3o de capitalismo que n\u00e3o seja mais aplic\u00e1vel ao Terceiro Reich.\u00a0Em geral, seu procedimento se resume a definir a economia capitalista como uma &#8220;economia de mercado&#8221;. Concluem ent\u00e3o: Como os pre\u00e7os na Alemanha s\u00e3o determinados n\u00e3o pelas leis autom\u00e1ticas do mercado, mas por decretos estatais, a economia n\u00e3o \u00e9 mais capitalista.\u00a0Com certeza, a interven\u00e7\u00e3o do Estado na esfera da circula\u00e7\u00e3o oferece certos canais suplementares para a manipula\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os.\u00a0Mas n\u00e3o h\u00e1 essencialmente nada de novo nisso.\u00a0Por quase meio s\u00e9culo, os monop\u00f3lios e cart\u00e9is impuseram-se precisamente a tarefa de converter o livre com\u00e9rcio em seu oposto.\u00a0Os monop\u00f3lios s\u00e3o empresas &#8220;n\u00e3o capitalistas&#8221;?\u00a0A f\u00f3rmula dos improvisadores \u00e9 falsa porque eles tentam definir o capitalismo buscando suas caracter\u00edsticas essenciais na esfera da circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O marxismo nos ensina que uma defini\u00e7\u00e3o correta do capitalismo s\u00f3 pode ser estabelecida pela busca das rela\u00e7\u00f5es essenciais na esfera da produ\u00e7\u00e3o, que, por sua vez, determina aquelas na esfera da circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto \u00e9 correto falar de &#8220;economia fascista&#8221;?\u00a0Se isso pretende estabelecer uma correspond\u00eancia abrangente entre o fascismo e o tipo de economia existente na Alemanha, ent\u00e3o a express\u00e3o \u00e9 err\u00f4nea.\u00a0O fascismo \u00e9 essencialmente um fen\u00f4meno pol\u00edtico.\u00a0As medidas econ\u00f4micas aplicadas pelo fascismo t\u00eam seu paralelo em outro lugar.\u00a0Sob sua pesada carapa\u00e7a feudal, o Jap\u00e3o do <em>Mikado<\/em> [Imperador, ndt] est\u00e1 muito mais pr\u00f3ximo, em seu regime pol\u00edtico, da R\u00fassia dos czares do que da Alemanha de Hitler.\u00a0No entanto, o Jap\u00e3o aproxima-se do Terceiro Reich mais do que qualquer outro pa\u00eds em seu controle estatal da economia.\u00a0Ao contr\u00e1rio, a Espanha de Franco, fascista no sentido pr\u00f3prio do termo, n\u00e3o segue de modo algum a Alemanha no campo econ\u00f4mico.\u00a0Finalmente, os Estados Unidos &#8220;democr\u00e1ticos&#8221;, para n\u00e3o mencionar a Gr\u00e3-Bretanha, est\u00e3o construindo sua economia de guerra adaptando os m\u00e9todos de Hitler \u00e0s suas pr\u00f3prias necessidades.\u00a0\u00c9 claro que a economia de guerra se ajusta mais prontamente ao regime pol\u00edtico totalit\u00e1rio que o fascismo oferece.\u00a0Por outro lado, a guerra tende a tornar todos os regimes totalit\u00e1rios.\u00a0Mas, o fascismo continua a ser um fen\u00f4meno pol\u00edtico espec\u00edfico.\u00a0A express\u00e3o \u201ceconomia fascista\u201d, que de fato identifica a superestrutura pol\u00edtica com a base econ\u00f4mica, pode produzir apenas mal-entendidos e confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma defini\u00e7\u00e3o precisa seria a de que \u00e9 uma economia de guerra capitalista na \u00e9poca do imperialismo decadente.\u00a0Se essa defini\u00e7\u00e3o parece menos \u201coriginal\u201d do que a dos improvisadores, ela tem a vantagem inestim\u00e1vel de ser cientificamente exata e fornecer um guia confi\u00e1vel para nossa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os improvisadores implicam ou declaram categoricamente que o controle estatal da economia de guerra na Alemanha representa um certo progresso, assim como os trustes e cart\u00e9is de algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s eram progressistas.\u00a0Eles s\u00e3o bem esquecidos.\u00a0A concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o do capital, que atingiu o seu \u00e1pice na forma de cart\u00e9is, trusts, etc., levou a um desenvolvimento colossal das for\u00e7as produtivas e, literalmente, levou a sociedade ao limiar do socialismo.\u00a0O controle de estado n\u00e3o representa nada do tipo.\u00a0Em tempo de guerra, empurra as for\u00e7as produtivas nacionais ao seu limite extremo, apenas para deixar o pa\u00eds devastado e arruinado no final.\u00a0A economia de qual pa\u00eds emergir\u00e1 mais forte desta guerra do que era antes da guerra?\u00a0Onde ent\u00e3o est\u00e1 o &#8220;progresso&#8221;?<\/p>\n<p>Lenin prestou a maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do estado na economia durante a \u00faltima guerra.\u00a0Ele denominou essa fase do capitalismo como imperialismo de monop\u00f3lio estatal.\u00a0Ele demonstrou sua continuidade no desenvolvimento do imperialismo e sublinhou que constitu\u00eda o agravamento, em certo sentido, a culmina\u00e7\u00e3o de todas as tend\u00eancias do \u00faltimo.\u00a0Em 1916, ele apontou certas caracter\u00edsticas progressistas nesse fen\u00f4meno.\u00a0A regula\u00e7\u00e3o da economia era de enorme valor educacional para as massas.\u00a0Previa, em maior grau que os trustes, a futura organiza\u00e7\u00e3o socialista;\u00a0representava o \u00e1pice de todo o processo de centraliza\u00e7\u00e3o do capital e era um convite direto ao proletariado para tomar nas pr\u00f3prias m\u00e3os a dire\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o estamos mais vivendo no ano de 1916. Desde ent\u00e3o, a sociedade passou pela revolu\u00e7\u00e3o russa, a crise do p\u00f3s-guerra, a grande depress\u00e3o pr\u00e9-guerra, a economia planejada sovi\u00e9tica e finalmente entrou na Segunda Guerra Mundial.\u00a0Os m\u00e9todos de controle empregados na Alemanha e em outros pa\u00edses n\u00e3o nos ensinam nada de novo depois das experi\u00eancias da \u00faltima guerra e especialmente depois do planejamento sovi\u00e9tico.\u00a0A aplica\u00e7\u00e3o desses m\u00e9todos, longe de ter quaisquer efeitos salutares sobre a economia, leva diretamente a vastas despropor\u00e7\u00f5es e resulta em uma assustadora destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas.\u00a0Finalmente, devemos ressaltar novamente o car\u00e1ter profundamente degenerado de nossa \u00e9poca.\u00a0O capitalismo passou seu apogeu.\u00a0As derrotas da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, devido \u00e0s trai\u00e7\u00f5es da Segunda e Terceira Internacionais,\u00a0e seu consequente atraso n\u00e3o abriu novos caminhos para o capitalismo, mas apenas ampliou seu per\u00edodo de decad\u00eancia.\u00a0A sociedade n\u00e3o est\u00e1 apenas madura para o socialismo, mas est\u00e1 madura demais e come\u00e7ou a apodrecer por causa do atraso.\u00a0A interven\u00e7\u00e3o do Estado n\u00e3o aparece mais como a culmina\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica do desenvolvimento anterior, mas como a reorganiza\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria de uma sociedade em decl\u00ednio.\u00a0\u00c9 por isso que \u00e9 imperdo\u00e1vel falar hoje de seu car\u00e1ter &#8220;progressista&#8221;.<\/p>\n<p>Ocasionalmente, afirma-se que os nazistas est\u00e3o construindo uma ordem \u201ctransit\u00f3ria\u201d.\u00a0O materialismo hist\u00f3rico h\u00e1 muito nos ensinou que todos os regimes s\u00e3o transit\u00f3rios.\u00a0Para investir esta declara\u00e7\u00e3o com qualquer significado, primeiro \u00e9 necess\u00e1rio especificar o ponto de partida e o destino da transi\u00e7\u00e3o.\u00a0O que os improvisadores realmente querem dizer \u00e9 que a Alemanha atual constitui uma transi\u00e7\u00e3o entre o capitalismo e o socialismo.\u00a0O fascismo \u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o para o socialismo no sentido pol\u00edtico e social?\u00a0S\u00f3 se pode responder negativamente, a menos que se aceite a ideologia nazista.\u00a0A afirma\u00e7\u00e3o tem mais peso no sentido estritamente econ\u00f4mico?\u00a0A interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 de forma alguma uma tend\u00eancia socialista.\u00a0Na marcha para o socialismo, a economia deve passar necessariamente pela estatiza\u00e7\u00e3o.\u00a0Mas isso n\u00e3o significa, de forma alguma, que toda estatiza\u00e7\u00e3o seja necessariamente de car\u00e1ter socialista.\u00a0Ainda \u00e9 necess\u00e1rio responder a mais duas perguntas: quem realiza a estatiza\u00e7\u00e3o?\u00a0E com qual finalidade?\u00a0Al\u00e9m disso, deve-se ter em mente que a economia alem\u00e3 est\u00e1 longe de ser estatizada.\u00a0O controle da economia pelo Estado imperialista, em si mesmo e em suas consequ\u00eancias, n\u00e3o pode desenvolver as for\u00e7as produtivas, mas pode apenas afund\u00e1-las na ru\u00edna.\u00a0Longe de ser uma transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, representa um retrocesso \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Todas as improvisa\u00e7\u00f5es sobre o tema do car\u00e1ter \u201cn\u00e3o-capitalista\u201d da economia alem\u00e3, os aspectos progressistas da arregimenta\u00e7\u00e3o nazista, sendo algo \u201cnovo\u201d, etc., etc., representam apenas, em \u00faltima an\u00e1lise, uma capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 demagogia nazista.\u00a0Eles s\u00e3o um dos subprodutos de nosso per\u00edodo de rea\u00e7\u00e3o, que prejudicou n\u00e3o apenas a vida e os valores materiais, mas tamb\u00e9m a capacidade dos homens de pensar.<\/p>\n<p>Fonte: Jean van Heijenoort, <em>Capitalist Economy in War<\/em>,\u00a0 https:\/\/www.marxists.org\/history\/etol\/writers\/heijen\/works\/capitalist.htm<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Jean van Heijenoort foi secretario de Trotsky de 1932 a 1939.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Marcos Margarido<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As impressionantes vit\u00f3rias militares da Alemanha e, acima de tudo, o colapso da Fran\u00e7a geraram uma s\u00e9rie de teorias improvisadas, que surgiram como cogumelos depois de uma chuva.\u00a0Essas teorias, embora diversas, est\u00e3o unidas em postular o nascimento de um novo sistema social.\u00a0O ponto de concord\u00e2ncia entre esses inovadores \u00e9 que o fascismo est\u00e1 se movendo 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