{"id":26253,"date":"2019-02-24T13:54:28","date_gmt":"2019-02-24T15:54:28","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=26253"},"modified":"2019-02-24T13:54:28","modified_gmt":"2019-02-24T15:54:28","slug":"32-anos-sem-nosso-incansavel-dirigente-breve-resumo-da-vida-de-nahuel-moreno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/02\/24\/32-anos-sem-nosso-incansavel-dirigente-breve-resumo-da-vida-de-nahuel-moreno\/","title":{"rendered":"32 anos sem nosso incans\u00e1vel dirigente: breve resumo da vida de Nahuel Moreno"},"content":{"rendered":"<p>Em Buenos Aires, no dia 25 de janeiro de 1987, o cora\u00e7\u00e3o cansado de Nahuel Moreno golpearia a todos com uma triste not\u00edcia: aos 62 anos, o incans\u00e1vel defensor e continuador da tradi\u00e7\u00e3o de Marx, Lenin e Trotski nos deixava.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Elias Dias<\/p>\n<p>Moreno denominou sua atua\u00e7\u00e3o como \u201ctrotskismo b\u00e1rbaro\u201d. Embora o termo espec\u00edfico possa ter a ver com seu senso de humor, de quem adorava fazer piadas, o significado \u00e9 s\u00e9rio e comprometido como sempre foi a atividade do dirigente: Moreno chamou sua atua\u00e7\u00e3o de \u201ctrotskismo b\u00e1rbaro\u201d por t\u00ea-la constru\u00eddo sem a orienta\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o ou dire\u00e7\u00e3o internacional e, justamente por isso, esteve muito mais sujeita a erros. Entretanto, sua confian\u00e7a na classe oper\u00e1ria, sua defesa do internacionalismo, sua humildade cient\u00edfica de bom marxista e sua gana por trabalhar garantiram a Moreno e \u00e0 hist\u00f3ria o sucesso na empreitada de continuar a luta de Le\u00f3n Trotski.<\/p>\n<p>Este texto baseia-se no material de Carmen Carrasco e Hernan Felix Cuello, denominado \u201cEsbozo biogr\u00e1fico \u2013 Nahuel Moreno\u201d [1], escrito em 1988 e publicado na Argentina, um ano ap\u00f3s a morte do dirigente. N\u00e3o se trata de uma tradu\u00e7\u00e3o de tal material, que possui mais de 30 p\u00e1ginas. Pode-se dizer, portanto, que \u00e9 um resumo reorganizado da vida de Nahuel Moreno, com todas as debilidades que um resumo baseado em um esbo\u00e7o possa possuir, quanto mais em se tratando de uma exist\u00eancia t\u00e3o indispens\u00e1vel como a de Moreno.<\/p>\n<p>Trotski, na introdu\u00e7\u00e3o de sua autobiografia, preocupa-se em alertar ao leitor que todos os fatos de seu passado, por menos not\u00e1veis que possam ter sido, \u201cligam-se \u00e0 luta revolucion\u00e1ria e dela tiram o seu sentido\u201d e que \u201cos fatos de sua vida pessoal t\u00eam sido t\u00e3o estreitamente inseridos no tecido dos acontecimentos hist\u00f3ricos que \u00e9 dif\u00edcil separar uns dos outros\u201d [2]. A mesma coisa podemos dizer de Moreno e, com toda certeza, de todo abnegado revolucion\u00e1rio. \u00c9 por este motivo que a linha biogr\u00e1fica aqui resumida se apresentar\u00e1, na maioria das vezes, como um relato das batalhas travadas pelo nosso dirigente.<\/p>\n<p><strong>1 \u2013 Como tudo come\u00e7ou<br \/>\n<\/strong>Data do dia 24 de abril de 1924, em Alberdi, prov\u00edncia de Buenos Aires, o nascimento de Hugo Miguel Bressano Capacete, que n\u00e3o muito mais tarde ficaria conhecido como Nahuel Moreno, codinome adquirido logo no in\u00edcio de sua milit\u00e2ncia, dado por seu primeiro dirigente, com o qual rapidamente Moreno rompeu. \u201cNahuel\u201d significa \u201ctigre\u201d no idioma ind\u00edgena araucano, \u201cMoreno\u201d \u00e9 a cor do pelo: \u201ccastanho\u201d ou \u201cmarrom\u201d.<\/p>\n<p>Hugo, ou Nahuel Moreno, era filho de um contador p\u00fablico. Sua fam\u00edlia era de classe m\u00e9dia alta e de origens italianas e espanholas. Seus tios eram dirigentes locais do Uni\u00f3n C\u00edvica Radical, partido burgu\u00eas que elegeu Ra\u00fal Alfos\u00edn como presidente da Argentina de 1983 a 1989 (mais tarde elegeria Fernando de la R\u00faa de 1999 a 2001. Este partido tamb\u00e9m fez outros dois presidentes entre as d\u00e9cadas 1910 e 1930).<\/p>\n<p>A influ\u00eancia familiar introduziu as primeiras leituras pol\u00edticas ao jovem Nahuel Moreno, que gostava principalmente de ler sobre filosofia e praticar esportes, como futebol, nata\u00e7\u00e3o, boxe\u2026 No ramo dos esportes, mais tarde se apaixonaria tamb\u00e9m pela pr\u00e1tica do t\u00eanis.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 30, sua fam\u00edlia o mandou \u00e0 capital da Argentina para estudar. Nestes anos, o pa\u00eds se converteu numa semicol\u00f4nia inglesa, se encontrava em profunda crise econ\u00f4mica e os governos eram reacion\u00e1rios e repressivos. Em 1939, come\u00e7aria a Segunda Guerra Mundial e nos col\u00e9gios de Buenos Aires grupos nazistas, organizados militarmente, atacavam grupos judeus. O fascismo influenciava em todos os lugares.<\/p>\n<p>O aplicado estudante, ainda conhecido por seu nome de nascimento, Hugo Bressano, foi muito impactado por este cen\u00e1rio, sendo um lutador antirracista. Moreno gostava de matem\u00e1tica, filosofia, teatro e odiava pol\u00edtica, motivo pelo qual foi muito resistente a ser ganho pelo trotskismo, o que aconteceu por atua\u00e7\u00e3o direta de um trabalhador mar\u00edtimo de sobrenome Faraldo, o qual Moreno conheceu em um reduto de intelectuais, que contava com artistas, cr\u00edticos e escritores de renome.<\/p>\n<p>Ser trotskista nessa \u00e9poca significava ser reprimido de um lado pelos nazi-fascistas e do outro pelos stalinistas, de maneira at\u00e9 mesmo mais forte. Al\u00e9m disso, o trotskismo se limitava a pequenos grupos dispersos, que pouco atuavam e estavam muito mais pelos bares. Para parafrasear o pr\u00f3prio Moreno, entre 1940 e 1943, o trotskismo era uma festa.<\/p>\n<p>Hugo Bressano entrou no grupo trotskista dirigido por Liborio Justo, conhecido como Quebracho. Dali em diante se tornaria Nahuel Moreno, como ficou conhecido desde ent\u00e3o. Moreno n\u00e3o demorou a romper com Quebracho e em breve nasceria o Grupo Obrero Marxista (GOM).<\/p>\n<p><strong>2 \u2013 O Grupo Obrero Marxista (GOM) e a classe oper\u00e1ria<br \/>\n<\/strong>Em 1944, na Avenida Corrientes em Buenos Aires, nascia o Grupo Obrero Marxista (GOM), fundado por Moreno e alguns amigos adolescentes, entre eles Boris, um oper\u00e1rio da ind\u00fastria t\u00eaxtil e sua irm\u00e3 Rita, de 15 anos, oper\u00e1ria e dirigente sindical do setor gr\u00e1fico, com quem Moreno se casou pouco tempo depois e teve dois filhos: Eleonora, em 1949, e David, em 1954.<\/p>\n<p>O documento precursor do GOM, chamado \u201cO Partido\u201d, colocava claramente o objetivo de acabar com a \u201cfesta\u201d que era o trotskismo na \u00e9poca: O novo grupo tinha como ambi\u00e7\u00e3o a inser\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o s\u00e9rias no movimento oper\u00e1rio. No mesmo ano de sua funda\u00e7\u00e3o, o GOM percebeu que a oportunidade para alcan\u00e7ar seus objetivos estava no sul de Buenos Aires, especialmente nos grandes frigor\u00edficos, cuja produ\u00e7\u00e3o havia entrado no auge em raz\u00e3o da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A oportunidade para os jovens do GOM surgiu em janeiro de 1945, quando explodiu uma greve na maior f\u00e1brica frigor\u00edfica do pa\u00eds, a Anglo-Ciabasa, que contava com 15.000 oper\u00e1rios. A \u201creceita\u201d para se inserirem entre os oper\u00e1rios em greve veio de Mateo Fossa, um aguerrido e perseguido dirigente trotskista que n\u00e3o dava import\u00e2ncia \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do partido, mas que deu a Moreno e amigos uma dica precios\u00edssima: Deveriam fazer uma coleta de recursos e levar at\u00e9 o comit\u00ea de greve, al\u00e9m de se colocarem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos grevistas para todo tipo de servi\u00e7o, para imprimir seus boletins, para fazer o trabalho duro, sem pretens\u00f5es de querer \u201cser chefe\u201d.<\/p>\n<p>Assim fizeram os militantes do GOM, ainda que tenham tido dificuldades em encontrar os dirigentes de f\u00e1brica, que eram anarquistas e desorganizados. No fim do processo, o grupo captou para a organiza\u00e7\u00e3o o comit\u00ea de greve e v\u00e1rios ativistas, al\u00e9m de ter feito diversos simpatizantes e amigos.<\/p>\n<p>Depois disso, Moreno e v\u00e1rios companheiros foram morar em Villa Pobladora, um bairro oper\u00e1rio contornado pelo rio e pela ferrovia, em Avellaneda, prov\u00edncia de Buenos Aires. O GOM tratou de fazer uma \u201cfortaleza\u201d trotskista em meio \u00e0 mar\u00e9 peronista que tomou a Argentina desde 1945.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do trabalho nos frigor\u00edficos, o grupo dirigiu o sindicato da constru\u00e7\u00e3o e meia comiss\u00e3o interna da maior metal\u00fargica do pa\u00eds. Moreno assessorou dirigentes oper\u00e1rios ganhos para o GOM na funda\u00e7\u00e3o de diversos grandes sindicatos, como a Federa\u00e7\u00e3o da Carne e a Associa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria T\u00eaxtil.<\/p>\n<p>A inser\u00e7\u00e3o dos trotskistas nas f\u00e1bricas e no bairro oper\u00e1rio tinha se dado! O GOM funcionava no Clube Cora\u00e7\u00f5es Unidos de Villa Pobladora. Al\u00e9m de \u201cusina\u201d do trotskismo, o clube organizava bailes e atividades culturais e esportivas. L\u00e1 tamb\u00e9m se faziam cursos para oper\u00e1rios. Os conte\u00fados iam desde ensinar \u00e0queles que n\u00e3o sabiam ler nem escrever, at\u00e9 temas como as revolu\u00e7\u00f5es francesas e russa, al\u00e9m de um curso de inicia\u00e7\u00e3o marxista e partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>O GOM passou a se chamar Partido Obrero Revolucionario (POR), o n\u00famero de militantes atingiu a cifra de centenas e, alguns anos depois, chegou no primeiro milhar. Era um feito e tanto e chamava aten\u00e7\u00e3o, inclusive daqueles trotskistas que permaneciam \u201cem festa\u201d.<\/p>\n<p>Mais tarde, Moreno chegaria \u00e0 autocr\u00edtica que nomeou de \u201cobrerismo\u201d: Sua organiza\u00e7\u00e3o, na obsess\u00e3o de tirar o trotskismo dos bares e constru\u00ed-lo entre os oper\u00e1rios (obreros, em espanhol), esqueceu-se de formular pol\u00edticas para ganhar para o trotskismo setores estudantis e fra\u00e7\u00f5es que rompiam com o Partido Comunista e o Partido Socialista.<\/p>\n<p>As autocr\u00edticas de Moreno sempre estiveram a servi\u00e7o da corre\u00e7\u00e3o dos erros para que a dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria pudesse triunfar. Embora o desvio \u201cobrerista\u201d tenha sido identificado, vale dizer que a obsess\u00e3o pela constru\u00e7\u00e3o na classe oper\u00e1ria \u00e9 um dos principais trunfos de Moreno e foi sua linha para a constru\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria no mundo inteiro: Ajudou o partido colombiano a entrar nas concentra\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias do pa\u00eds; empurrou o partido espanhol para Getafe, prov\u00edncia de Madrid com importante atividade industrial; ensinou o partido brasileiro a entrar no ABC Paulista etc.<\/p>\n<p><strong>3 \u2013 O p\u00f3s Segunda Guerra, as revolu\u00e7\u00f5es e o trotskismo<\/strong><br \/>\nEm 1948, Moreno viajou \u00e0 Fran\u00e7a pela primeira vez, como delegado do POR no II Congresso da Quarta Internacional. O mundo pegava fogo no p\u00f3s-guerra: As guerrilhas de Mao Tse Tung estavam para tomar o poder na China, um processo de liberta\u00e7\u00e3o nacional sacudia o sul e sudeste asi\u00e1tico, o mundo \u00e1rabe e toda a \u00c1frica e Metade da Europa estava ocupada pelo Ex\u00e9rcito Vermelho de St\u00e1lin e come\u00e7ava a constru\u00e7\u00e3o de novos estados oper\u00e1rios no Leste Europeu.<\/p>\n<p>Moreno se somou \u00e0 dura tarefa de colocar a constru\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional em marcha, sem a m\u00e3o orientadora de Trotski. Entre os dirigentes desta tarefa, estavam o grego Pablo, os ingleses Healy e Hunter, o belga Mandel, os franceses Frank e Lambert, o italiano Mait\u00e1n, o chin\u00eas Peng e o estadunidense Cannon.<\/p>\n<p>Uma ala dos dirigentes se inclinava por n\u00e3o reconhecer os estados do Leste Europeu como oper\u00e1rios, j\u00e1 que haviam sido feitos \u201ca frio\u201d, de maneira burocr\u00e1tica, sem revolu\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, nem partidos bolcheviques, como na R\u00fassia. Pablo, Mandel e Moreno estiveram na ala que defendia o oposto: apesar de terem nascido de modo at\u00edpico e deformado pela burocracia stalinista, era necess\u00e1rio reconhecer que estes estados oper\u00e1rios haviam sido uma conquista das massas. Na pol\u00eamica, Moreno teve destacada atua\u00e7\u00e3o e, no fim das contas, a Quarta Internacional reconheceu estes estados como oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Este reconhecimento permitiu ao trotskismo dar uma resposta correta a uma quest\u00e3o decisiva no p\u00f3s-guerra: estes estados eram triunfos da revolu\u00e7\u00e3o e deveriam ser defendidos de toda agress\u00e3o vinda do imperialismo. No entanto, pouco tempo depois a Quarta Internacional (QI) entraria em crise, com in\u00edcio da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Nesta \u00e9poca, os partidos comunistas (stalinistas) possu\u00edam enorme prest\u00edgio, isso por conta da derrota de Hitler e das transforma\u00e7\u00f5es do Leste Europeu. Pablo e Mandel e outros camaradas, que compunham o que chamou-se de \u201cplabismo\u201d, analisaram que a Terceira Guerra Mundial seria inevit\u00e1vel e, assim sendo, passaram a supor que os partidos stalinistas, obrigados a defender a URSS na Terceira Guerra, se tornariam revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica decorrente desta elabora\u00e7\u00e3o foi o entrismo (infiltra\u00e7\u00e3o) em partidos stalinistas e assim muitos grupos fizeram, durante vinte anos. A consequ\u00eancia de tal pol\u00edtica foi o desaparecimento quase total do trotskismo na Europa. Neste tema, Moreno se op\u00f4s aos pablistas desde o princ\u00edpio. Inclusive, tal capitula\u00e7\u00e3o do pablismo levou a uma derrota hist\u00f3rica na Bol\u00edvia, em que as massas formaram mil\u00edcias oper\u00e1rias e camponesas e se tornaram a \u00fanica for\u00e7a armada do pa\u00eds. Enquanto Moreno defendia a tomada do poder, Pablo defendeu que o poder passasse a um governo burgu\u00eas, o que enterrou de vez a revolu\u00e7\u00e3o e o salto de qualidade do trotskismo a n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>Para completar o desastre, o pablismo passou a adotar m\u00e9todos completamente burocr\u00e1ticos, expulsando sess\u00f5es inteiras que se opunham \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es. Moreno n\u00e3o escapou disso e o POR foi colocado como sess\u00e3o simpatizante, enquanto um grupo pequeno, dirigido por Posadas, foi colocado como sess\u00e3o oficial da Argentina. Em 1953, Moreno rompeu rela\u00e7\u00f5es com o Secretariado Internacional dos pablistas, em solidariedade a sess\u00f5es francesas que foram expulsas.<\/p>\n<p>Moreno se somou ao Comit\u00ea Internacional, dirigido principalmente pelo SWP, partido estadunidense, e disputou para que fosse um partido mundial, democraticamente centralizado. O SWP, por outro lado, imp\u00f4s que fosse uma federa\u00e7\u00e3o de partidos, com uma organiza\u00e7\u00e3o mais frouxa. Com isso, o Comit\u00ea Internacional n\u00e3o conseguiu derrotar politicamente o pablismo e a crise da Quarta Internacional n\u00e3o teve solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como parte do Comit\u00ea Internacional, Moreno e outros camaradas organizaram o Secretariado Latino-americano do Trotskismo Ortodoxo (SLATO), que atuou na Argentina, Chile, Bol\u00edvia e Peru, como uma dire\u00e7\u00e3o centralizada para atuar na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa crise da QI, Moreno tirou a conclus\u00e3o de que seu principal problema \u00e9 que ela n\u00e3o estava em m\u00e3os prolet\u00e1rias e que sua base social estava na intelectualidade europeia e com todos os v\u00edcios das correntes pequeno-burguesas.<\/p>\n<p><strong>4 \u2013 A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana e as disputas de Moreno<br \/>\n<\/strong>Em 1959, triunfou a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Um movimento guerrilheiro, depois de anos lutando de maneira exilada na serra, empalmou com um grande ascenso de massas e Che Guevara e Fidel Castro encabe\u00e7aram uma insurrei\u00e7\u00e3o, expropriando a burguesia em seguida. Todo mundo foi pego de surpresa: O imperialismo, o stalinismo (que pela primeira vez viu uma revolu\u00e7\u00e3o triunfante fora de seu controle) e o trotskismo.<\/p>\n<p>Che e Fidel passaram a encabe\u00e7ar um movimento latino-americano que ganhou a maior parte dos melhores lutadores, que acreditavam ter encontrado um atalho. Durante quase 20 anos, uma gera\u00e7\u00e3o inteira de revolucion\u00e1rios seguiu a linha de Fidel Castro (o castrismo) e terminou no desastre, em muitos casos capitulando \u00e0 burguesia e caminhando para o pr\u00f3prio exterm\u00ednio, tal como ocorreu com Che na Bol\u00edvia em 1967.<\/p>\n<p>Moreno ficou praticamente sozinho resistindo a este vendaval, polemizando dentro e fora do partido, defendendo os princ\u00edpios trotskistas e da classe oper\u00e1ria, se opondo \u00e0 concep\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa de fazer ex\u00e9rcitos de guerrilheiros nacionalistas, mas incorporando no arsenal de t\u00e1ticas a luta armada de massas para ser usada em determinadas circunst\u00e2ncias (ver atua\u00e7\u00e3o de Moreno na Revolu\u00e7\u00e3o Nicaraguense), sem abandonar jamais a atividade central, que \u00e9 o trabalho sobre o movimento oper\u00e1rio e de massas e a constru\u00e7\u00e3o de um partido mundial revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>5 \u2013 A LIT e a partida de Moreno<br \/>\n<\/strong>Infelizmente, muitos elementos da vida e atua\u00e7\u00e3o de Moreno precisaram ser suprimidos no presente texto por quest\u00f5es de espa\u00e7o editorial. A batalha contra o desvio guerrilheirista, por exemplo, se estendeu por anos, tendo desdobramentos ferrenhos no Peru, onde, por pol\u00edtica de Moreno, despontou Hugo Blanco, que mais tarde romperia com nosso dirigente. Neste pa\u00eds, inclusive, Moreno foi preso pol\u00edtico, assim como esteve preso no Brasil por motivos pol\u00edticos em 1978 e proibido de entrar no pa\u00eds at\u00e9 1985.<\/p>\n<p>Como um dos principais saldos da luta contra o desvio guerrilheirista e o ultraesquerdismo, Moreno escreveria, por volta de 1974, o material intitulado \u201cUm documento escandaloso\u201d, que polemiza com Mandel e \u00e9 um guia para a constru\u00e7\u00e3o do partido. Conhecido como \u201cMorenazo\u201d e publicado no Brasil como \u201cO Partido e a Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, o livro \u00e9 at\u00e9 hoje estudado por trotskistas de todo o mundo.<\/p>\n<p>Em 1974, Moreno vivia tamb\u00e9m a tristeza profunda do falecimento de sua esposa, Rita, por uma doen\u00e7a incur\u00e1vel. Moreno a tinha como a maior personalidade feminina que j\u00e1 tinha conhecido.<\/p>\n<p>Ainda como parte de seus esfor\u00e7os em construir a dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria mundial, Moreno estabeleceu contato com o franc\u00eas Lambert, da Organiza\u00e7\u00e3o Comunista Internacionalista (OCI). Moreno, inclusive, se instalou em Paris no ano de 1980, com o objetivo de construir o trotskismo ortodoxo nas fileiras oper\u00e1rias da Europa. O sonho, entretanto, rapidamente veio ao ch\u00e3o: Em 1981, a OCI capitulou ao governo de frente popular triunfante na Fran\u00e7a, que estava a servi\u00e7o da burguesia imperialista francesa. A elabora\u00e7\u00e3o de Moreno \u201cA trai\u00e7\u00e3o da OCI\u201d ilustra bem o evento e tamb\u00e9m nos traz li\u00e7\u00f5es para os dias atuais.<\/p>\n<p>No entanto, mesmo com o fracasso, toda essa hist\u00f3ria significou, para Moreno, avan\u00e7ar mais um passo: Em janeiro de 1982, era fundada a Liga Internacional dos Trabalhadores \u2013 Quarta Internacional (LIT-QI) para dar continuidade ao fio vermelho da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria rompido por Pablo em 1951, Mandel em 1979 e Lambert em 1981. Moreno jamais pensou que a LIT pudesse se proclamar, ela pr\u00f3pria, a Quarta Internacional, mas a considerou como uma parte, a parte principista, do trotskismo.<\/p>\n<p>No dia em que se votou a funda\u00e7\u00e3o da LIT, Moreno esteve em todos os debates, mas, depois, precisou ficar acamado, em raz\u00e3o de problemas card\u00edacos. Mesmo com o cora\u00e7\u00e3o cansado, Moreno prosseguiu incans\u00e1vel, fazendo viagens dentro da Am\u00e9rica e na Europa para construir a Internacional e fazer disputas.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, Moreno, inquieto e atormentado pela ins\u00f4nia, se levantava no meio da noite para ler sem parar as discuss\u00f5es do marxismo contempor\u00e2neo. Uma de suas elabora\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos anos de vida \u00e9 o folheto \u201cAs Revolu\u00e7\u00f5es do S\u00e9culo XX\u201d.<\/p>\n<p>Nosso dirigente seguiu, at\u00e9 seus \u00faltimos dias, incentivando os militantes e dirigentes ao estudo, \u00e0 escrita, \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o de informes\u2026 Ainda que a experi\u00eancia e o n\u00edvel te\u00f3rico de Moreno estivessem muito mais avan\u00e7ados em compara\u00e7\u00e3o com os demais dirigentes, o camarada sempre incentivou o desenvolvimento de cada e cada uma em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do mundo, sempre obcecado pela continuidade de Marx, Engels, L\u00eanin e Trotski.<\/p>\n<p>Vale aqui reproduzir, na \u00edntegra e em tradu\u00e7\u00e3o livre, o final do relato de Carrasco e Cuello sobre o \u00faltimo dia de Moreno na sede do partido: \u201cFez suas piadas e deu as gargalhadas habituais, encheu a pasta com materiais para ler no fim de semana e se foi. Assim o recordaremos sempre.\u201d<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Carmen Carrasco e Hernan Felix Cuello. Esbozo Bibliogr\u00e1fico \u2013 Nahuel Moreno. 1988.<\/p>\n<p>[2] Le\u00f3n Trotski. Minha Vida. Editora Paz e Terra, 1969.<\/p>\n<p>Publicado em:\u00a0https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/31-anos-sem-nosso-incansavel-dirigente-breve-resumo-da-vida-de-nahuel-moreno\/?fbclid=IwAR04agr9KajUBVu4IX38WoSnU6cXzBP10lCdNic65QeoP_ZPlclSPp2D5vc<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Buenos Aires, no dia 25 de janeiro de 1987, o cora\u00e7\u00e3o cansado de Nahuel Moreno golpearia a todos com uma triste not\u00edcia: aos 62 anos, o incans\u00e1vel defensor e continuador da tradi\u00e7\u00e3o de Marx, Lenin e Trotski nos deixava.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":26254,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[4568,3145,10],"tags":[7124,918,7125],"class_list":["post-26253","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especial-nahuel-moreno","category-nahuel-moreno","category-teoria","tag-elias-dias","tag-nahuel-moreno","tag-vida-de-nahuel-moreno"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/tim.jpg","categories_names":["Especial Nahuel Moreno","Nahuel Moreno","TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26253","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26253"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26253\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26254"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}