{"id":26140,"date":"2019-02-15T12:35:16","date_gmt":"2019-02-15T14:35:16","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=26140"},"modified":"2022-10-14T23:03:52","modified_gmt":"2022-10-14T23:03:52","slug":"aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/02\/15\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/","title":{"rendered":"\u201cAqui \u00e9 a Voz de Teer\u00e3, a voz do verdadeiro Ir\u00e3, a voz da revolu\u00e7\u00e3o!\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Reproduzimos este artigo, publicado originalmente em 2019, por ocasi\u00e3o da onda de protestos que abala o Ir\u00e3. Reunimos este e outros textos de interesse em um especial sobre esse tema t\u00e3o candente e importante para a luta de classes mundial<\/p>\n<p><strong><em>Leia a primeira parte do artigo especial sobre os 40 anos da revolu\u00e7\u00e3o iraniana<\/em><\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: F\u00e1bio Bosco &#8211; PSTU Brasil<\/p>\n<p>Desta forma, no dia 11 de fevereiro de 1979, \u00e0s 18h, grupos revolucion\u00e1rios que tomaram a r\u00e1dio de Teer\u00e3 anunciaram o fim do regime da monarquia.<\/p>\n<p>Como relata Ervand Abrahamian, no livro \u201cIran Between Two Revolutions\u201d (Ir\u00e3 entre duas Revolu\u00e7\u00f5es): \u201c<em>O drama final come\u00e7ou em Teer\u00e3 na noite de sexta-feira, 9 de fevereiro, quando a guarda imperial tentou esmagar um motim entre os cadetes e t\u00e9cnicos da for\u00e7a a\u00e9rea na grande base militar pr\u00f3xima \u00e0 Pra\u00e7a Jaleh. Logo que o conflito come\u00e7ou, as organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras correram em aux\u00edlio aos cadetes e t\u00e9cnicos sitiados. Ap\u00f3s seis horas de combates intensos, os rebeldes obrigaram os guardas imperiais a se retirar, distribu\u00edram armas para a popula\u00e7\u00e3o local, constru\u00edram barricadas nas ruas e, nas palavras do jornal franc\u00eas Le Monde, converteram o distrito ao redor da pra\u00e7a em uma nova Comuna de Paris<\/em>.\u201d<a name=\"_ednref1\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_edn1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[i]<\/a><\/p>\n<p>\u201c<em>Ap\u00f3s derrotar a guarda imperial, os lutadores, nos dias 10 e 11 de fevereiro, tomaram pris\u00f5es, delegacias de pol\u00edcia, f\u00e1bricas de armamentos e as principais bases militares de Teer\u00e3<\/em>.\u201d<a name=\"_ednref2\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_edn2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[ii]<\/a><\/p>\n<p>V\u00e1rios fatores contribu\u00edram para a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O regime do X\u00e1 <\/strong><\/p>\n<p>Em 1953, um golpe de Estado abertamente apoiado pela CIA e pelo servi\u00e7o secreto brit\u00e2nico derrubou o governo nacionalista burgu\u00eas de Mossadeq. Mossadeq havia nacionalizado o petr\u00f3leo, a principal riqueza do pa\u00eds, que estava nas m\u00e3os da petrol\u00edfera brit\u00e2nica atualmente denominada de\u00a0<em>British Petroleum<\/em>\u00a0(BP). A monarquia \u00e9 restaurada e assume o poder o X\u00e1 Reza Pahlevi. O X\u00e1 governa com leis marciais, tribunais militares e em 1957 forma uma poderosa pol\u00edcia pol\u00edtica chamada Savak com o apoio da CIA, do FBI e do Mossad israelense.<\/p>\n<p>Em 1963 o X\u00e1 lan\u00e7a sua Revolu\u00e7\u00e3o Branca, um plano de moderniza\u00e7\u00e3o e ocidentaliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds financiado pela alta renda das exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, que trouxe grandes mudan\u00e7as estruturais ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Ao lado da burguesia liberal, e a tradicional burguesia e pequena burguesia comercial denominada de bazaaris, novas classes e estratos sociais se formaram.<\/p>\n<p>Os bazaaris \u201c<em>n\u00e3o eram apenas aqueles que tinham lojas no mercado (bazaar) mas tamb\u00e9m aqueles que faziam o com\u00e9rcio de atacado bem como da manufatura e exporta\u00e7\u00e3o tradicionais. Os bazaaris n\u00e3o s\u00e3o uma classe social no sentido marxista j\u00e1 que possuem diferentes rela\u00e7\u00f5es com os meios de produ\u00e7\u00e3o<\/em>.\u201d<a name=\"_ednref3\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_edn3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[iii]<\/a><\/p>\n<p>Os incentivos \u00e0 mecaniza\u00e7\u00e3o no campo e ao agroneg\u00f3cio levaram \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias comunidades rurais, que migraram para as cidades. A maioria se tornou um numeroso ex\u00e9rcito de subempregados e despossu\u00eddos denominado mostazafin. Este setor vai cumprir um importante papel na revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O apoio \u00e0 grande ind\u00fastria e infraestrutura gerou um novo proletariado urbano e uma nova classe m\u00e9dia ocidentalizada da qual tamb\u00e9m fazia parte a numerosa burocracia estatal e a intelectualidade.<\/p>\n<p>O X\u00e1 tamb\u00e9m fez s\u00f3lidos investimentos nas for\u00e7as armadas e na Savak, adquirindo armamentos e equipamentos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia desta grande ind\u00fastria, da nova classe m\u00e9dia, a universaliza\u00e7\u00e3o do ensino, a ocidentaliza\u00e7\u00e3o dos costumes s\u00e3o fatores que reduziram o poder e influ\u00eancia dos bazaaris e do clero xiita denominado Ulama.<\/p>\n<p>A partir de 1975 uma sucess\u00e3o de altas da infla\u00e7\u00e3o gera descontentamento generalizado entre a classe m\u00e9dia e o proletariado. O X\u00e1 culpa os bazaaris pela infla\u00e7\u00e3o e come\u00e7a uma campanha contra eles, o que lan\u00e7ou todo este setor na oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em maio de 1977, um grupo de 53 advogados lan\u00e7a uma carta p\u00fablica criticando o regime. Ele \u00e9 seguido de outros manifestos de intelectuais e artistas, bem como da forma\u00e7\u00e3o de grupos e associa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da ditadura e da infla\u00e7\u00e3o, outro fator que motivou essas express\u00f5es p\u00fablicas de dissenso foi a elei\u00e7\u00e3o de Jimmy Carter nos Estados Unidos em 1976 e sua pol\u00edtica de direitos humanos.<\/p>\n<p><strong>Come\u00e7a a revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No dia 19 de novembro de 1977, a pol\u00edcia tenta impedir que dez mil estudantes participem da d\u00e9cima sess\u00e3o de leitura de poesias organizada pela associa\u00e7\u00e3o dos escritores. Os estudantes sa\u00edram em passeata gritando palavras-de-ordem contra o regime. A repress\u00e3o policial assassinou um estudante, feriu mais de 70 e prendeu cerca de 100. A repress\u00e3o gerou protestos estudantis nos dez dias seguintes e o fechamento das principais universidades em Teer\u00e3.<\/p>\n<p>Em 7 de janeiro de 1978 um jornal do regime publicou um artigo com cal\u00fanias contra o Ayatollah Khomeini e o clero xiita acusando-o de aliar-se com comunistas para desfazer os ganhos da revolu\u00e7\u00e3o branca. Os bazaaris e o Ulama da cidade de Qom fecharam o\u00a0 Bazaar e os semin\u00e1rios e 4 mil estudantes foram \u00e0s ruas exigir uma retrata\u00e7\u00e3o. Em confronto com a pol\u00edcia, 70 manifestantes foram assassinados e mais de 500 feridos.<\/p>\n<p>O Ulama convocou manifesta\u00e7\u00f5es no quadrag\u00e9simo dia de luta, uma tradi\u00e7\u00e3o xiita. Desta forma no dia 18 de fevereiro houve manifesta\u00e7\u00f5es em doze cidades. Em Tabriz os manifestantes se revoltaram com o assassinato de um jovem pela pol\u00edcia e tomaram a cidade, atacaram delegacias, sedes do partido do X\u00e1 (Ressurg\u00eancia), bancos, hot\u00e9is de luxo e cinemas especializados em pornografia durante dois dias. Entre 100 e 300 manifestantes foram mortos.<\/p>\n<p>Quarenta dias depois, em 29 de mar\u00e7o, os bazares e universidades paralisaram, e novas manifesta\u00e7\u00f5es foram realizadas em 55 cidades durante tr\u00eas dias. Em cinco cidades houve viol\u00eancia policial e mais mortos.<\/p>\n<p>Em 10 de maio ocorrem novas paralisa\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias cidades das quais houve viol\u00eancia policial em 24 delas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o X\u00e1 fez algumas concess\u00f5es e suspendeu a persegui\u00e7\u00e3o contra comerciantes acusados de abuso econ\u00f4mico. Al\u00e9m disso, trocou o primeiro-ministro e aplicou pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o de investimentos para aplacar a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas concess\u00f5es levaram o Ulama, os bazaaris e a burguesia liberal a suspender manifesta\u00e7\u00f5es de rua e a pedir uma constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. O Ayatollah Khomeini, desde o exterior, pediu a continuidade das manifesta\u00e7\u00f5es at\u00e9 o fim do \u201cregime pag\u00e3o\u201d, mas n\u00e3o foi seguido.<\/p>\n<p><strong>Proletariado entra em cena<\/strong><\/p>\n<p>Ervand relata: \u201c<em>Durante os levantes do in\u00edcio de 1978, os assalariados urbanos estiveram ausentes. Com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o de Tabriz onde oper\u00e1rios de pequenas f\u00e1bricas privadas se juntaram ao levante, a maioria das manifesta\u00e7\u00f5es era realizada ao redor das universidades, dos bazares e semin\u00e1rios. Seus participantes predominantemente vinham das classes m\u00e9dias tradicionais e modernas. Entretanto a situa\u00e7\u00e3o mudou dramaticamente ap\u00f3s junho quando os pobres das cidades, principalmente os oper\u00e1rios das f\u00e1bricas e da constru\u00e7\u00e3o civil come\u00e7aram a participar das manifesta\u00e7\u00f5es de rua. Sua participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 inchou as manifesta\u00e7\u00f5es de dezenas para centenas de milhares ou at\u00e9 milh\u00f5es, mas tamb\u00e9m mudou a composi\u00e7\u00e3o de classe da oposi\u00e7\u00e3o e transformou o protesto das classes m\u00e9dias em um protesto conjunto das classes m\u00e9dias e da classe trabalhadora. De fato, o ingresso da classe oper\u00e1ria tornou poss\u00edvel o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica.<\/em>\u201d<a name=\"_ednref4\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_edn4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[iv]<\/a><\/p>\n<p>A partir de junho de 1978, uma onda de greves por sal\u00e1rios e at\u00e9 mesmo moradia e elei\u00e7\u00f5es sindicais livres come\u00e7ou a paralisar a economia. Eletricit\u00e1rios de v\u00e1rias cidades, trabalhadores do saneamento de Teer\u00e3 e Abad\u00e3, t\u00eaxteis de Behshahr, metal\u00fargicos de Tabriz, papeleiros de Fars, oper\u00e1rios de montadoras em Teer\u00e3 e constru\u00e7\u00e3o civil e metal\u00fargicos de Ahwaz.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de greves, os trabalhadores faziam manifesta\u00e7\u00f5es de rua. No dia 22 de julho em Mashad houve conflito com a pol\u00edcia e mais de 40 manifestantes foram mortos. Sete dias depois houve conflitos em cinco cidades.<\/p>\n<p>Em 5 de agosto, durante o m\u00eas sagrado do Ramadan, houve conflitos em sete cidades sendo que em Isfahan, manifestantes armados tomaram a cidade e libertaram um Ayatollah que fora preso. Dois dias depois o governo retomou o controle ap\u00f3s assassinar mais de 100 manifestantes.<\/p>\n<p>No dia 19 de agosto, um cinema pegou fogo matando 400 pessoas na cidade de Abadan. No dia seguintes 10 mil pessoas tomaram as ruas e exigiram a queda do X\u00e1.<\/p>\n<p>O X\u00e1 trocou o primeiro-ministro por Sharif Emami e fez novas concess\u00f5es buscando atender tanto a burguesia liberal como o Ulama. A posi\u00e7\u00e3o destes, neste momento, n\u00e3o era derrubar o X\u00e1 e seu regime. Ao contr\u00e1rio, queriam uma constitui\u00e7\u00e3o que lhes garantisse seus interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos. Desta forma, fizeram um acordo com o novo governo de realizar manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas e dentro da ordem.<\/p>\n<p>No entanto as massas n\u00e3o seguiram o acordado. No dia 4 de setembro, dia do Eid-al-Fikr (\u00faltimo dia do m\u00eas sagrado do Ramadan) voltaram as manifesta\u00e7\u00f5es. No dia 7 de setembro meio milh\u00e3o de manifestantes em Teer\u00e3 gritavam \u201cMorte ao X\u00e1\u201d, \u201cFora Am\u00e9rica\u201d e \u201cRep\u00fablica Isl\u00e2mica\u201d.<\/p>\n<p>O X\u00e1 decretou lei marcial em Teer\u00e3 e onze outras cidades. No dia seguinte os piores conflitos foram em Teer\u00e3. Nos bairros oper\u00e1rios no sul da capital, trabalhadores fizeram barricadas e atacaram coquet\u00e9is molotov em ve\u00edculos militares. Nas favelas vizinhas helic\u00f3pteros atiravam contra manifestantes. Na pra\u00e7a Jaleh no oeste da capital, cinco mil pessoas que participaram de um ato p\u00fablico foram dispersadas a tiro. Cerca de 500 morreram de acordo com relatos de participantes. No total foram 4 mil mortos de acordo com fontes da oposi\u00e7\u00e3o. Este dia, conhecido como Sexta-feira Negra, marcou o div\u00f3rcio final entre o regime e a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora.<\/p>\n<p>No dia 9 de setembro 700 petroleiros da refinaria de Teer\u00e3 entraram em greve exigindo melhores sal\u00e1rios e o fim da lei marcial. No dia 11, os petroleiros das refinarias de Isfahan, Shiraz, Tabriz e Abad\u00e3 se somaram \u00e0 greve. No dia 13 foi a vez dos trabalhadores da ind\u00fastria do cimento de Teer\u00e3.<\/p>\n<p>Em outubro estavam paralisadas refinarias, a maioria dos campos de petr\u00f3leo e g\u00e1s, o complexo petroqu\u00edmico de Bandar Shahpour, o Banco Nacional, minas de cobre e outras 40 grandes f\u00e1bricas. Em seguida greves paralisaram quase todos os bazares, universidades, escolas, instala\u00e7\u00f5es petrol\u00edferas, bancos, minist\u00e9rios, correios, ferrovias, imprensa, alf\u00e2ndega, portos, v\u00f4os internos, esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio e TV, hospitais p\u00fablicos, f\u00e1bricas de papel e tabaco, t\u00eaxteis e outras. Essa greve geral tinha a frente cinco mil banc\u00e1rios, 30 mil petroleiros e 100 mil funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Eles levantavam reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas como pol\u00edticas (aboli\u00e7\u00e3o da Savak, suspens\u00e3o da lei marcial, liberdade para todos os presos pol\u00edticos, retorno do Ayatollah Khomeini e o fim da tirania).<\/p>\n<p>As greves e as passeatas mostraram que os trabalhadores, os pobres e as classes m\u00e9dias n\u00e3o permitiriam mais a perman\u00eancia do X\u00e1 mesmo que tivessem que enfrentar uma repress\u00e3o atroz. Neste impasse, a classe dominante vai construir sua alternativa<\/p>\n<p>No in\u00edcio de novembro, os l\u00edderes da burguesia liberal \u2013 Sanjabi da velha Frente Nacional, e Bazargan do Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o, v\u00e3o \u00e0 Paris se reunir com o Ayatollah Khomeini. Seu acordo se baseava na forma\u00e7\u00e3o de um novo governo, sem o X\u00e1, baseado no Isl\u00e3, na democracia e na soberania nacional. Sob a clara hegemonia de Khomeini estava constru\u00edda a alian\u00e7a entre a burguesia liberal e o Ulama.<\/p>\n<p>Os trabalhadores por outro lado, em meio a greves, passeatas e repress\u00e3o, come\u00e7aram a desenvolver sua auto-organiza\u00e7\u00e3o. Os petroleiros, por exemplo, suspenderam a greve no dia 16 de novembro para produzir apenas o necess\u00e1rio para consumo interno e para a importa\u00e7\u00e3o de bens essenciais. Em v\u00e1rias ind\u00fastrias os trabalhadores foram formando conselhos denominados de shoras para assumir o controle da produ\u00e7\u00e3o. Os shoras se multiplicaram ap\u00f3s a queda da monarquia e se constitu\u00edram no fen\u00f4meno mais progressivo de todo o processo.<a name=\"_ednref5\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_edn5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[v]<\/a><\/p>\n<p>Os partidos de esquerda voltaram a se organizar abertamente. O Tudeh (partido comunista ligado \u00e0 Moscou) era a principal for\u00e7a mas sua pol\u00edtica de alian\u00e7a com a burguesia liberal e com o Ulama o impediu de cumprir qualquer papel progressivo. Os dois grupos guerrilheiros o marxista-leninista Fedaiyn de orienta\u00e7\u00e3o guevarista e o isl\u00e2mico-marxista Mujahedin voltaram a cena. Ap\u00f3s terem efetuado v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es de guerrilha contra o regime do X\u00e1 entre 1971 e 1976, eles cessaram suas a\u00e7\u00f5es militares e participaram ativamente da revolu\u00e7\u00e3o ganhando um peso significativo ao capitalizar suas hist\u00f3ricas a\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia ao regime e uma pol\u00edtica a esquerda. Houve tamb\u00e9m um pequeno grupo trotskysta o HKS (Hezb-e Kargaran-e Socialist \u2013 Partido Socialista dos Trabalhadores) que se formou a partir da uni\u00e3o dos iranianos exilados na Europa ligados ao Secretariado Unificado da IV Internacional e outros exilados nos Estados Unidos vinculados ao SWP (Socialist Workers Party).<\/p>\n<p>Segundo o relato de um de seus l\u00edderes, Maziar Razi, o grupo atuou entre os petroleiros no Kuzist\u00e3o (onde se concentra as reservas de petr\u00f3leo e g\u00e1s) e entre as nacionalidades oprimidas que s\u00e3o a maioria entre os iranianos. Sua atua\u00e7\u00e3o nos shoras dos trabalhadores petroleiros o tornou um dos primeiros presos pol\u00edticos da rep\u00fablica isl\u00e2mica. Ap\u00f3s 1983 o grupo passou a operar no ex\u00edlio.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o dos acontecimentos foi r\u00e1pida. Em meio \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es multitudin\u00e1rias em dezembro a marcha para marcar a Ashura, uma data muito importante do calend\u00e1rio xiita, teve a participa\u00e7\u00e3o de 2 milh\u00f5es de pessoas em Teer\u00e3. Sob o comando da burguesia liberal e do Ulama, um manifesto foi lido defendendo a lideran\u00e7a do Ayatollah Khomeini, o fim da monarquia, o retorno dos exilados, a prote\u00e7\u00e3o das minorias religiosas, o reavivamento da agricultura e justi\u00e7a social para as massas despossu\u00eddas. O acordo com o governo para evitar a radicaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o impediu as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda de levarem suas bandeiras defendendo Morte ao X\u00e1 e Armas para o Povo.<\/p>\n<p>A radicaliza\u00e7\u00e3o aumentou. Nos bairros pobres a juventude erguia barricadas e se enfrentava com a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito. A partir de 25 de dezembro, as greves paralisaram de vez a economia, inclusive a petrol\u00edfera. Os grupos guerrilheiros faziam a\u00e7\u00f5es militares contra empresas estrangeiras, a embaixada americana e assassinaram um executivo norte-americano da ind\u00fastria do petr\u00f3leo. Os soldados crescentemente se recusavam a atirar nos manifestantes. Houve casos nos quais atiraram em seus oficiais, noutros se uniram a manifesta\u00e7\u00f5es inclusive com tanques, e nas cidades provinciais distribu\u00edram armas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a administra\u00e7\u00e3o Carter iniciou contatos com representantes da burguesia liberal e do Ulama. No in\u00edcio de janeiro, ele enviou o general R. Huyser \u00e0 Teer\u00e3 com o objetivo de manter as for\u00e7as armadas iranianas intactas e aliadas aos Estados Unidos. Parte desse plano era fortalecer o novo primeiro ministro Bakhtiar, nomeada em 30 de dezembro, e for\u00e7ar o X\u00e1 a um ex\u00edlio volunt\u00e1rio. Bakhtiar anunciou o fim da Savak, ordenou a liberta\u00e7\u00e3o de todos os presos pol\u00edticos, suspendeu a exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo para Israel e \u00c1frica do Sul e cortou o or\u00e7amento militar e nuclear. O X\u00e1 partiu no dia 16 de janeiro e o Ayatollah Khomeini retornou no dia 1 de fevereiro. Ambos os fatos foram comemorados em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Enquanto o Estado se desintegrava, o poder passava para os Komitehs, organiza\u00e7\u00f5es locais chefiadas por aliados de Khomeini. Esses Komitehs organizavam a provis\u00e3o de alimentos e combust\u00edveis, formavam mil\u00edcias que posteriormente foram denominadas de Pasdaran a partir das camadas mais pobres de Mostazafin, organizavam juizados baseados na sharia (lei cor\u00e2nica) e se coordenavam com os bazaaris e os shoras nas grandes ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>Nas prov\u00edncias onde as nacionalidades oprimidas como os curdos, os azerbaijis e os turcomenos, os balochis e os \u00e1rabes eram a maioria, o controle passou para l\u00edderes locais, sejam civis como o Partido Democr\u00e1tico do Curdist\u00e3o, sejam religiosas como o Ayatollah Shariatmadari.<\/p>\n<p>Ao chegar em Teer\u00e3, Khomeini exigiu a ren\u00fancia de Bakhtiar e nomeou Bazargan para formar um governo provis\u00f3rio. Al\u00e9m disso formou um Komiteh na pra\u00e7a Jaleh para coordenar todos os Komitehs locais e dissolver os Komitehs n\u00e3o aliados. Por fim, formou um Conselho Revolucion\u00e1rio secreto de oito integrantes junto com a burguesia liberal para dirigir todo o processo de negocia\u00e7\u00e3o com a embaixada americana, com os oficiais do ex\u00e9rcito, com a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e com a esquerda. Enquanto negociavam, as organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras junto com os cadetes da For\u00e7a A\u00e9rea derrotaram a Guarda Imperial e tomaram as unidades militares na capital, na pr\u00e1tica liquidando o velho regime.<\/p>\n<p><strong>A seguir A luta pelo poder ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><a name=\"_edn1\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_ednref1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[i]<\/a> Abrahamian, Ervand, \u201cIran Between Two Revolutions\u201d, Princeton University Press, 1982<\/p>\n<p><a name=\"_edn2\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_ednref2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[ii]<\/a> Keddie, Nikki, \u201cModern Iran \u2013 Roots and Results of Revolution\u201d, Yale University, 2003<\/p>\n<p><a name=\"_edn3\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_ednref3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[iii]<\/a> Idem<\/p>\n<p><a name=\"_edn4\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_ednref4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[iv]<\/a> Abrahamian, Ervand, \u201cIran Between Two Revolutions\u201d, Princeton University Press, 1982<\/p>\n<p><a name=\"_edn5\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/aqui-e-a-voz-de-teera-a-voz-do-verdadeiro-ira-a-voz-da-revolucao\/#_ednref5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[v]<\/a> Bayat, Asef, \u201cWorkers and Revolution in Iran: A Third World Experience of Workers\u2019 Control\u201d, Zed Books, 1987<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzimos este artigo, publicado originalmente em 2019, por ocasi\u00e3o da onda de protestos que abala o Ir\u00e3. Reunimos este e outros textos de interesse em um especial sobre esse tema t\u00e3o candente e importante para a luta de classes mundial Leia a primeira parte do artigo especial sobre os 40 anos da revolu\u00e7\u00e3o iraniana<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":26141,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[4695,8397],"tags":[7079,180,190,7080,7081],"class_list":["post-26140","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ira","category-especial-ira","tag-ayatollah-khomeini","tag-fabio-bosco","tag-pstu-brasil","tag-revolucao-iraaniana","tag-xa-reza-pahlevi"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/50564107_656534088109480_7524250872081026409_n.jpg","categories_names":["Especial Ir\u00e3","Ir\u00e3"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26140","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26140"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26140\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":74983,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26140\/revisions\/74983"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26141"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26140"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26140"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}