{"id":26085,"date":"2019-02-11T09:29:48","date_gmt":"2019-02-11T11:29:48","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=26085"},"modified":"2019-02-11T09:29:48","modified_gmt":"2019-02-11T11:29:48","slug":"fascismo-de-direita-ou-de-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/02\/11\/fascismo-de-direita-ou-de-esquerda\/","title":{"rendered":"Fascismo: de direita ou de esquerda?"},"content":{"rendered":"<p><em>Fascismo: de direita ou de esquerda? Esse debate vem se proliferando no Brasil. Pensando bem, n\u00e3o existe debate algum, apenas grupos que de um lado a outro bradam e vociferam como loucos em uma aut\u00eantica conversa de surdos. Este modo de encarar a quest\u00e3o tem sua raz\u00e3o de ser, como tudo, alias. De um lado, se acentua o termo \u201cnacional-socialismo\u201d encrustado no nome do Partido Nazista, sua bandeira vermelha, a milit\u00e2ncia de Mussolini no Partido Socialista Italiano etc. Do outro lado do front, o enquadramento do fascismo como um movimento de ultra-direita \u00e9 tomado como algo historicamente inquestion\u00e1vel.<\/em><\/p>\n<p><!--more-->Por: Gustavo Machado, editor do blog Teoria e Revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Somente ignorantes pensariam o contr\u00e1rio. Como demonstraria o nacionalismo exacerbado das organiza\u00e7\u00f5es fascistas e seu anticomunismo radical. O circo est\u00e1 armado. Vejamos um exemplo desse debate entre surdos.<\/p>\n<p>Em artigo publicado pela BBC Brasil a historiadora Denise Rollemberg diz que tudo se trata de uma grande confus\u00e3o. Segundo ela, \u201cN\u00e3o era que o nazismo fosse \u00e0 esquerda, [\u2026] O que o nazismo falava \u00e9 que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revolu\u00e7\u00f5es no mundo inteiro, que o marxismo tinha\u201d. O curioso \u00e9 que o argumento usado por Rollemberg \u00e9 id\u00eantico ao daqueles que dizem ser o fascismo [nazismo] de esquerda. Segundo eles, o nazismo n\u00e3o seria uma variante do marxismo, mas se encontraria dentro do espectro da esquerda. Os marxistas seriam os socialistas internacionalistas, enquanto o fascismo representaria uma vertente socialista nacionalista. O esclarecimento de Denise, portanto, antes de esclarecer, apenas remete ao \u00e2mago mesmo de toda confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro aspecto que turva o esclarecimento da quest\u00e3o \u00e9 que a defini\u00e7\u00e3o do fascismo como sendo um movimento de extrema-direita ou alguma variante an\u00e1loga se encontra em todos manuais, livros did\u00e1ticos, bem como nas refer\u00eancias ao fascismo comumente presentes nos artigos publicados na grande m\u00eddia. A tal ponto que se tornou um lugar comum. A ruptura com todo lugar comum gera estranheza, perplexidade, perturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar dessa aparente obviedade o tema \u00e9, entre n\u00f3s, muito mal conhecido e toscamente estudado. E os intelectuais ditos \u201cde esquerda\u201d n\u00e3o s\u00e3o nem de longe uma exce\u00e7\u00e3o. Basta acompanhar os abundantes ensaios que sa\u00edram recentemente sobre o tema. Citam, abundantemente, obras escritas por autores com finalidade aberta de combate ao fascismo, ou obras sociol\u00f3gicas que visam a conceitua\u00e7\u00e3o do termo. No entanto, em todos esses ensaios, n\u00e3o se v\u00ea uma refer\u00eancia que aborde com maior f\u00f4lego a hist\u00f3ria mesma dos movimentos e pa\u00edses envolvidos, nenhuma men\u00e7\u00e3o das fontes prim\u00e1rias, nenhuma biografia de seus principais agentes. Em se tratando de uma pol\u00eamica, \u00e9 igualmente fundamental conhecer a genealogia mesma do debate, a fundamenta\u00e7\u00e3o dos pontos de vista que se contesta. Tudo isto est\u00e1 de todo ausente nos artigos sobre o tema publicados pela esquerda brasileira. Seria a quest\u00e3o t\u00e3o evidente que nem sequer mereceria alguma aten\u00e7\u00e3o? N\u00e3o acreditamos. Vejamos.<\/p>\n<p><strong>Mentindo com beleza<br \/>\n<\/strong>\u00c9, sem d\u00favida, um grande erro analisar um fen\u00f4meno pol\u00edtico unilateralmente pelos discursos de seus agentes. Sobretudo no caso do fascismo que, como mostra Modris Eksteins, baseava seus discursos mais em motivos est\u00e9ticos e subjetivos do que racionais e objetivos. Na express\u00e3o desse autor, tratava-se de \u201cmentir com beleza\u201d. \u201cA pol\u00edtica se tomaria \u2018verdadeiro\u2019 teatro, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pose solene da era democr\u00e1tica\u201d (<em>EKSTEINS, 1992, p.<\/em>395) ou, na express\u00e3o de Walter Benjamin, o fascismo foi a \u201cestetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica\u201d\u00a0(BENJAMIN, 1985). E de fato, foi assim.<\/p>\n<p>Feita esta pondera\u00e7\u00e3o, cabe observar que os adeptos dogm\u00e1ticos da tese o \u201cfascismo foi de extrema-direita\u201d, tese esta tomada como algo autoevidente e trivial, ficariam perplexos se consultassem os discursos de Mussolini, Hitler, Goebbels e outros tantos. Ali existe uma cr\u00edtica voraz ao comunismo e \u2026 ao capitalismo, termo este\u00a0identificado\u00a0pelos partidos\u00a0fascistas\u00a0com o sistema e regimes pol\u00edticos europeus da \u00e9poca. Se, por um lado, parecem conservadores radicais ao\u00a0defenderem\u00a0a supremacia nacional pret\u00e9rita, as gl\u00f3rias da ra\u00e7a, de seus personagens,\u00a0suas\u00a0cidades hist\u00f3ricas e assim por diante; por outro, parecem revolucion\u00e1rios, pois seus discursos est\u00e3o orientados para o futuro. Um futuro que n\u00e3o \u00e9 reedi\u00e7\u00e3o do passado glorioso, mas a realiza\u00e7\u00e3o de um \u201c<strong>novo<\/strong>\u00a0tipo de ser humano\u201d, \u201cum\u00a0<strong>novo<\/strong>\u00a0sistema social\u201d e \u201cuma\u00a0<strong>nova<\/strong>\u00a0ordem internacional\u201d.\u00a0Em n\u00e3o poucas vezes \u00e9 no vocabul\u00e1rio dos movimentos revolucion\u00e1rios socialistas da \u00e9poca e, at\u00e9 mesmo, em seus referenciais te\u00f3ricos que o fascismo vai buscar a fundamenta\u00e7\u00e3o e\u00a0a forma\u00a0de seus discursos.<\/p>\n<p>Para citar alguns exemplos, um dos principais dirigentes e ide\u00f3logo do fascismo franc\u00eas, Pierre Drieu La Rochelle, dizia em um dos seus ensaios (1934) que o verdadeiro socialismo \u00e9 o fascismo. Entre suas influ\u00eancias, menciona Georges Sorel, Saint-Simon, Charles Fourier e Proudhon. Sorel, alias, considerados por muitos um socialista rom\u00e2ntico ou um marxista heterodoxo foi refer\u00eancia de grande parte dos ide\u00f3logos do fascismo italiano, inclusive Mussolini que, como se sabe, foi membro por muitos anos do Partido Socialista. N\u00e3o sem raz\u00e3o, o tom e terminologia de seus discursos ir\u00e1 manter, para sempre, reminisc\u00eancias de sua fase socialista. E o que \u00e9 pior. N\u00e3o se trata de um caso isolado. Os primeiros\u00a0<em>Fascio<\/em>s s\u00e3o fundados a partir de um grupo que ficou conhecido como\u00a0<em>Sindicalistas Revolucion\u00e1rios.<\/em>\u00a0Este grupo surgiu em rea\u00e7\u00e3o a tend\u00eancia reformista no interior do Partido Socialista Italiano, e, depois, se consolidaram organizativamente em apoio a entrada da It\u00e1lia na Primeira Guerra Mundial. Para se ter uma ideia desse processo, e da terminologia empregada, citamos um pequeno trecho do Manifesto Inaugural do\u00a0<em>Fascio Rivoluzionario d\u2019Azione Internazionalista<\/em>, organiza\u00e7\u00e3o criada pelos Sindicalistas Revolucion\u00e1rios e embri\u00e3o do futuro Partido Nacional Fascista:<\/p>\n<p>\u201cacreditamos que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ultrapassar os limites das revolu\u00e7\u00f5es nacionais sem passar primeiro pela fase da pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o nacional. [\u2026] Se cada povo n\u00e3o viver no interior do quadro das suas fronteiras nacionais, formadas pela l\u00edngua e pela ra\u00e7a, se a quest\u00e3o nacional n\u00e3o estiver resolvida, n\u00e3o poder\u00e1 existir o clima hist\u00f3rico necess\u00e1rio ao desenvolvimento normal de um movimento de classe\u201d\u00a0(<em>STERNHELL,\u00a01994, p. 205<\/em>)<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel a tese de que o fascismo foi uma dissid\u00eancia do partido socialista. O fascismo italiano reuniu influ\u00eancias e grupos diversos, tendo como um dos principais ide\u00f3logos o nacionalista de direita Enrico Corradini. Ele fundou, em 1910, a\u00a0<em>Associa\u00e7\u00e3o Nacionalista Italiana<\/em>\u00a0(ANI) que se unificar\u00e1 oficialmente com o Partido de Mussolini em 1923, ap\u00f3s alguns anos de atua\u00e7\u00e3o em comum. O que nos interessa, todavia, no presente contexto \u00e9 a especificidade da concep\u00e7\u00e3o nacionalista de Corradini e penetramos, assim, no \u00e2mago de toda confus\u00e3o. Ao contr\u00e1rio de outros l\u00edderes nacionalistas, Corradini atribu\u00eda um papel progressista as classes subalternas e procurou fazer com que a ideologia nacionalista penetrasse nas massas trabalhadoras. Cunhou, assim, a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>na\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias,<\/em>\u00a0dominadas na arena internacional, como seria o caso da It\u00e1lia, contraposta as na\u00e7\u00f5es dominantes ou as\u00a0<em>na\u00e7\u00f5es burguesas<\/em>. Tratava-se de substituir a luta de classes entre patr\u00f5es e trabalhadores pela luta entre as na\u00e7\u00f5es pela domina\u00e7\u00e3o imperialista mundial. Eis o primeiro grande ide\u00f3logo do fascismo.<\/p>\n<p>Para colocar mais ingredientes na sopa, o fascismo recebe ainda a colabora\u00e7\u00e3o dos futuristas, intelectuais fascinados com a industrializa\u00e7\u00e3o. Entusiastas da modernidade do s\u00e9culo XX. A forma\u00e7\u00e3o do Partido Nacional Socialista na Alemanha \u00e9 ainda mais difusa, ainda que sem qualquer lastro minimamente consistente nos partidos socialistas e comunistas do pa\u00eds. N\u00e3o retomaremos este processo aqui.<\/p>\n<p><strong>Direita e esquerda: o mundo encantado dos conceitos<br \/>\n<\/strong>O que nos interessa nessa breve descri\u00e7\u00e3o \u00e9 assinalar que a presente quest\u00e3o est\u00e1 distante de se reduzir a trivialidade com que os campos ditos de \u201cesquerda\u201d ou de \u201cdireita\u201d apresentam o problema. N\u00e3o sem raz\u00e3o, longe de ser uma \u201cnovidade historiogr\u00e1fica\u201d, este debate \u00e9 bem antigo.<\/p>\n<p>Suas origens remetem ao debate sobre o conceito de totalitarismo, quase onipresente nas d\u00e9cadas de 50 e 60 do s\u00e9culo XX. O termo foi apropriado pelos pr\u00f3prios partidos fascistas no sentido de indicar a presen\u00e7a do Estado em todos os \u00e2mbitos da vida social: \u201cTudo no Estado, nada contra o Estado e nada fora do Estado\u201d, assim dizia Mussolini. Mas em seguida, a no\u00e7\u00e3o foi contrabandeada em conceito. Autores como Franz Neumann e Hannat Arendt definem o totalitarismo, conceitualmente, como uma \u201coposi\u00e7\u00e3o radical ao estado liberal\u201d (CHASIN, 1977) e, desde modo, re\u00fanem o fascismo e o stalinismo (e suas variantes, supostamente identificadas com \u201co comunismo\u201d) em um \u00fanico conceito. Enquanto um conceito artificial criado por liberais de meados do s\u00e9culo passado, o totalitarismo se apresentava como o reverso da medalha de face liberal, sob o qual se julgava os regimes pol\u00edticos do mundo todo.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a arte das ci\u00eancias humanas contempor\u00e2neas: a f\u00e1brica dos conceitos. Os conceitos n\u00e3o mais procuram expressar \u201cformas do ser\u201d, \u201cdetermina\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia\u201d, ou seja, aspectos da realidade reunidos segundo crit\u00e9rios objetivos, mas ganham autonomia, caminham com pernas pr\u00f3prias. Agora, no mundo fant\u00e1stico e encantado das ci\u00eancias humanas, a realidade \u00e9 julgada \u00e0 luz dos conceitos criados pelos\u00a0<em>experts<\/em>. Como gostam de sugerir os professores acad\u00eamicos em suas orienta\u00e7\u00f5es: nesse caso, use tal conceito, naquele outro, o conceito tal. A quest\u00e3o de se o fascismo \u00e9 \u201cde esquerda\u201d ou \u201cde direita\u201d \u00e9 apenas a reencarna\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o do totalitarismo, posta em forma ainda mais tosca e pouco rigorosa. Afinal de contas, que cargas d\u2019\u00e1gua \u00e9 esquerda e direita?<\/p>\n<p>Historicamente, tais termos sempre possu\u00edram um uso relativo, pragm\u00e1tico. Define-se esquerda, circunstancialmente e localmente, em rela\u00e7\u00e3o a direita e vice-versa; tendo como refer\u00eancia, costumeiramente, as duas posi\u00e7\u00f5es dominantes no espectro pol\u00edtico de um dado pa\u00eds. N\u00e3o sem raz\u00e3o, nos Estados Unidos, cujo espectro pol\u00edtico \u00e9 dominado pela contraposi\u00e7\u00e3o liberais \u2013 conservadores, os primeiros s\u00e3o \u201ca esquerda\u201d, os segundos \u201ca direita\u201d, ainda que tais organiza\u00e7\u00f5es sejam mais heterog\u00eaneas internamente que a contraposi\u00e7\u00e3o liberais versus conservadores faz parecer. Fato \u00e9 que os termos \u201cesquerda\u201d e \u201cdireita\u201d n\u00e3o possuem subst\u00e2ncia, n\u00e3o possuem uma conceitua\u00e7\u00e3o objetiva pass\u00edvel de ser determinada em si e por si mesmas, dando margem a todo tipo de trapa\u00e7as te\u00f3ricas. Cada autor define esquerda e direita como lhe conv\u00e9m, de forma a atingir os objetivos previamente almejados. A quest\u00e3o, portanto, de se o fascismo \u00e9 de esquerda ou de direita \u00e9, desde o in\u00edcio, uma armadilha.<\/p>\n<p>Mas a pol\u00eamica n\u00e3o \u00e9 um exotismo brasileiro. Ainda em 1974, a defesa do\u00a0fascismo como uma corrente tipicamente de esquerda \u00e9 defendida pelo conservador austriaco Erik von Kuehnelt-Leddihn em seu livro\u00a0<em>Leftism, From de Sade and Marx to Hitler and Marcuse<\/em>. Mais recentemente, em 2008, a tese foi reerguida por\u00a0<em>Jonah Goldberg\u00a0no livro\u00a0Liberal Fascism: The Secret History of the American Left, From Mussolini to the Politics of Meaning.<\/em>\u00a0Este livro chegou a\u00a0ocupar\u00a0a primeira posi\u00e7\u00e3o no ranking de vendas nos Estados Unidos\u00a0por algumas semanas, considerando apenas obras de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o.\u00a0Golberg vai mais longe no jogo de conceitos: procura identificar,\u00a0por meio de analogias e compara\u00e7\u00f5es externas de todos os tipos,\u00a0o parentesco entre Socialismo, Fascismo e \u2026 Liberalismo.<\/p>\n<p><strong>Fascismo e rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas<br \/>\n<\/strong>Os cientistas pol\u00edticos podem criar os conceitos que lhe apetecerem. N\u00f3s n\u00e3o temos a inten\u00e7\u00e3o de agregar a esta f\u00e1brica um novo produto de nossa pr\u00f3pria lavra. O que realmente\u00a0importa esclarecer quanto a esse tema \u00e9 o seguinte: o fascismo, em todas as suas variantes (italiana, alem\u00e3, espanhola\u00a0etc.), jamais procurou, nem em discurso nem em ato, criar um programa que traduzisse os interesses objetivos\u00a0da classe trabalhadora ou\u00a0mesmo\u00a0dos\u00a0demais\u00a0setores subalternos da sociedade. Antes disso, o que est\u00e1 em quest\u00e3o s\u00e3o os interesses da na\u00e7\u00e3o tendo em vista o\u00a0expansionismo imperialista. Trata-se, portanto, de uma disputa inter-capitalista entre na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Desse modo, se o fascismo procurou\u00a0ganhar as massas populares\u00a0em torno de seu projeto,\u00a0n\u00e3o procurou em nenhum sentido expressar os seus\u00a0interesses particulares\u00a0em seu programa\u00a0efetivo. \u00c9\u00a0exatamente essa aus\u00eancia de correspond\u00eancia entre o programa e a base que procurou mobilizar para execut\u00e1-lo, que exigiu um discurso hip\u00f3crita, demagogo, perform\u00e1tico e subjetivo.\u00a0Da\u00ed tamb\u00e9m o namoro do fascismo com o irracionalismo.\u00a0Da\u00ed o absoluto\u00a0descompasso entre discurso e realidade. Da\u00ed uma s\u00e9rie de express\u00f5es paradoxais usadas\u00a0por historiadores de diversas ideologias\u00a0para descrever os\u00a0seus\u00a0discursos: \u201cmentir com beleza\u201d, \u201cestetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica\u201d, \u201cestetiza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia\u201d, \u201creligi\u00e3o laica\u201d.\u00a0Da\u00ed a demagogia socialista\u00a0em seus s\u00edmbolos e discursos, em um momento hist\u00f3rico que a\u00a0Revolu\u00e7\u00e3o\u00a0Russa arrastava multid\u00f5es.\u00a0Da\u00ed, tamb\u00e9m, sua demagogia religiosa.<\/p>\n<p>Um exemplo elucidativo dessa\u00a0elucubra\u00e7\u00f5es verbais fica expl\u00edcito na pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Corradini, acima mencionada:\u00a0na\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Esse termo n\u00e3o tem qualquer conota\u00e7\u00e3o no sentido de uma na\u00e7\u00e3o para o proletariado ou outros setores explorados. O\u00a0atributo \u201cprolet\u00e1ria\u201d apenas confere a na\u00e7\u00e3o uma posi\u00e7\u00e3o subalterna no sistema internacional de estados,\u00a0colocando a necessidade de avan\u00e7ar na disputa imperialista internacional. O termo \u00e9 usado em um sentido claramente metaf\u00f3rico.\u00a0Por outro lado,\u00a0a na\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0o sujeito absoluto do processo, tomada como um corpo org\u00e2nico homog\u00eaneo: como um indiv\u00edduo coletivo,\u00a0\u201ca na\u00e7\u00e3o acima de todos\u201d.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia da aplica\u00e7\u00e3o desse conceito, na\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, salta aos olhos: dissolver os interesses espec\u00edficos do proletariado nos interesses ditos nacionais, a disputa imperialista mundial. Da\u00ed a cria\u00e7\u00e3o do corporativismo sindical, a integra\u00e7\u00e3o dos sindicatos ao Estado e\u00a0a\u00a0destrui\u00e7\u00e3o completa de sua liberdade. Da\u00ed a ret\u00f3rica da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d que nada mais significa do que o militarismo\u00a0paramilitar na esfera interna\u00a0e a guerra\u00a0na esfera externa.\u00a0Apesar de forte intervencionismo econ\u00f4mico, a propriedade privada n\u00e3o est\u00e1, de modo algum, em quest\u00e3o. Nos 26 pontos da Falange espanhola podemos ler: \u201co\u00a0Estado ir\u00e1 reconhecer a propriedade privada como um meio v\u00e1lido de chegar a fins individuais, familiares e sociais e ir\u00e1 proteg\u00ea-la contra os abusos da Alta Finan\u00e7a, dos especuladores e usur\u00e1rios\u201d.\u00a0A \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d fascista, portanto, se sustenta em uma economia baseada nas leis do mercado (STERNHELL, 1994, p.7).<\/p>\n<p>Em\u00a0s\u00edntese,\u00a0\u00e9 central para o fascismo a ideia de ordem e harmonia interna\u00a0obtida\u00a0pela interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica direta, sem que, para isso, seja necess\u00e1rio uma revolu\u00e7\u00e3o na forma de organiza\u00e7\u00e3o social. \u00c9, desse ponto de vista,\u00a0um movimento\u00a0absolutamente conservador.\u00a0O aspecto \u201crevolucion\u00e1rio\u201d do\u00a0projeto fascista se refere ao dom\u00ednio externo:\u00a0fazer avan\u00e7ar pela for\u00e7a a\u00a0posi\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o no interior do sistema internacional de Estados. Da\u00ed a identifica\u00e7\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o com a guerra. Da\u00ed a necessidade da mais absoluta coes\u00e3o interna.\u00a0Ainda\u00a0nos 26 pontos da\u00a0Falange\u00a0podemos ler: \u201cN\u00f3s declaramos que o cumprimento hist\u00f3rico da Espanha \u00e9 o Imp\u00e9rio. N\u00f3s exigimos que a Espanha tenha uma posi\u00e7\u00e3o proeminente na Europa\u201d. Da mesma forma, no programa do Partido do Partido Nacional Fascista na It\u00e1lia se l\u00ea: \u201cA It\u00e1lia [\u2026] deve preencher sua fun\u00e7\u00e3o de baluarte da civiliza\u00e7\u00e3o latina no Mediterr\u00e2neo\u201d. E ainda: \u201cO PNF agir\u00e1 para disciplinar as lutas de interesse desorganizadas entre as categorias e as classes\u201d, segue o \u201c<strong>princ\u00edpio nacional segundo o qual a na\u00e7\u00e3o est\u00e1 acima das classes<\/strong>\u201d\u00a0(PARIS, 1976, p. 98-9,\u00a0grifo nosso).<\/p>\n<p>N\u00e3o foi por acaso que, apesar de sua pomposa ret\u00f3rica, o fascismo nunca conseguiu uma ades\u00e3o realmente expressiva e consistente na classe oper\u00e1ria.\u00a0V\u00e1rios estudos\u00a0(J-P FAYE, 1974; WINCKLER, 1979)\u00a0d\u00e3o conta de que a pequena burguesia e os estratos m\u00e9dios da sociedade foram os alvos realmente efetivos da propaganda fascista.\u00a0Setores com algo a perder e mais vulner\u00e1veis as crises estruturais e econ\u00f4micas do capitalismo.<\/p>\n<p>Outro aspecto elucidador \u00e9 o financiamento das organiza\u00e7\u00f5es fascistas. Na It\u00e1lia, a maior parte dos recursos foram\u00a0fornecidos\u00a0pelos capitalistas industriais e pelos grandes propriet\u00e1rios fundi\u00e1rios,\u00a0sendo o nazismo tamb\u00e9m financiado por grandes empresas e corpora\u00e7\u00f5es industriais(SARTI, 1973;\u00a0LUEBBERT, 1991;\u00a0MUCHNIK, 2004;\u00a0GALLEGO, 2001).\u00a0No entanto, no per\u00edodo pr\u00e9vio a tomada do poder, este financiamento foi\u00a0expressivo\u00a0apenas no\u00a0per\u00edodo de grandes agita\u00e7\u00f5es sociais, como na grande greve italiana de 1920.\u00a0Ou, ainda,\u00a0ap\u00f3s o colapso econ\u00f4mico alem\u00e3o com a crise de 1929,\u00a0quando o fantasma do bolchevismo pairava sobre\u00a0pais\u00a0sob a base de uma infla\u00e7\u00e3o jamais vista. J\u00e1 ap\u00f3s a tomada do poder, tanto na It\u00e1lia quanto na Alemanha, a associa\u00e7\u00e3o entre poder econ\u00f4mico\u00a0nacional\u00a0e o governo fascista\u00a0foi imediata, mas circunscrita ao projeto de recupera\u00e7\u00e3o\u00a0e expans\u00e3o\u00a0econ\u00f4mica. Apenas em alguns\u00a0poucos\u00a0casos\u00a0houve engajamento pol\u00edtico direto\u00a0entre os grandes capitalistas\u00a0e o governo.\u00a0Mas s\u00e3o mais raros ainda o caso de aberta e declarada oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, quanto a sua base social, o fascismo foi um movimento que encontrou eco direito nos extratos m\u00e9dios da sociedade.\u00a0Mas tais setores m\u00e9dios n\u00e3o tiveram influ\u00eancia real nos rumos dos governos fascistas europeus.\u00a0O fascismo n\u00e3o \u00e9, quanto a seu programa, um movimento daclasse m\u00e9dia.\u00a0Ao contr\u00e1rio, expressa os interesses do\u00a0grande capital sempre\u00a0que n\u00e3o apare\u00e7a outra sa\u00edda vi\u00e1vel para estabilizar o sistema.<\/p>\n<p>Nesse sentido, apesar da ret\u00f3rica fascista incluir, em igual medida, tanto o anticomunismo como o anticapitalismo [leia-se liberalismo] sua a\u00e7\u00f5es\u00a0foram em outra dire\u00e7\u00e3o:\u00a0dois pesos e duas medidas. Revestido de car\u00e1ter militarizado, centralizador e paramilitar todas as setas do fascismo foram sempre apontadas para o movimento comunista.\u00a0Na It\u00e1lia, por exemplo,\u00a0antes da chegada ao poder,\u00a0se generalizam as\u00a0esquadras fascistas, expedi\u00e7\u00f5es punitivas que visam destruir o \u201cimp\u00e9rio socialista\u201d.\u00a0\u00c2ngelo Tasca, em uma obra\u00a0cl\u00e1ssica, descreve minunciosamente essas expedi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>Precipitam-se em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Bolsa do Trabalho, do sindicato, da cooperativa, da Casa do Povo; arrombam as portas, jogam nas ruas a mob\u00edlia, livros, mercadorias e derramam gal\u00f5es de combust\u00edvel: alguns minutos depois, tudo est\u00e1 pegando fogo. Quem \u00e9 encontrado no local \u00e9 espancado selvagemente ou morto. As bandeiras s\u00e3o queimadas ou levadas como trof\u00e9u.\u00a0(TASCA, 1969, p.130)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na Espanha, sem ter apoio de massas e incapaz de enfrentar diretamente as organiza\u00e7\u00f5es anarquistas, socialistas e comunistas, muito mais numerosas e fortes, a Falange descamba para o terrorismo individual. Apesar de ataques contra l\u00edderes republicanos de distintas ideologias, s\u00e3o as sedes e ativistas do movimento oper\u00e1rio o principal alvo das a\u00e7\u00f5es falangistas.<\/p>\n<p><strong>O fascismo e suas alian\u00e7as<br \/>\n<\/strong>Por \u00faltimo, para que possamos determinar melhor o caminho at\u00e9 aqui esbo\u00e7ado, cabe nos perguntar: sendo o fascismo antiliberal, contr\u00e1rio as premissas conservadoras de defesa das institui\u00e7\u00f5es tradicionais e anticomunista; qual dessas oposi\u00e7\u00f5es se sobressai?<\/p>\n<p>O fascismo n\u00e3o \u00e9, certamente, liberal. Caracteriza-se pela supress\u00e3o de todos os direitos democr\u00e1ticos. Al\u00e9m disso, enquanto uma proposta nacional imperialista opta em ascender internacionalmente pela via militar. Trata-se de regimes pol\u00edticos opostos para a manuten\u00e7\u00e3o mesma forma de organiza\u00e7\u00e3o social, assentada na propriedade privada e no mercado. N\u00e3o sem raz\u00e3o, a cr\u00edtica dos fascistas aos liberais sempre se pauta na impot\u00eancia das democracias europeias, consideradas de uma perspectiva exclusivamente pol\u00edtica e militar.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o entre conservadores e fascistas \u00e9, sem d\u00favida, mais dif\u00edcil. Isto \u00e9 assim porque o fascismo aparece como nega\u00e7\u00e3o do conservadorismo na medida que orienta seu discurso para o futuro e se apoia em um movimento de massas com um bra\u00e7o armado n\u00e3o institucional. No entanto, parece conservador em fun\u00e7\u00e3o de seu nacionalismo e do culto a gl\u00f3ria e personagens nacionais. O fascismo nega a Raz\u00e3o Ilustrada, o humanismo, o materialismo. Em todos esses aspectos, conservadorismo e fascismo se aproximam. Mas se fundam em concep\u00e7\u00f5es bem diferentes: as acep\u00e7\u00f5es conservadoras negam a Raz\u00e3o Ilustrada e o humanismo em benef\u00edcio de uma raz\u00e3o metaf\u00edsica e universal, centrada na no\u00e7\u00e3o suprema de Deus. Enquanto o fascismo \u00e9 antiuniversalista e irracionalista.<\/p>\n<p>Ilustramos acima o m\u00e9todo por meio do qual conceitos como fascismo s\u00e3o comumente analisados. Isto \u00e9: comparando, externamente, alguns de seus aspectos com os de outros movimentos e concep\u00e7\u00f5es. Aqui se revela a limita\u00e7\u00e3o do tratamento puramente conceitual do problema. Do m\u00e9todo que apenas justap\u00f5em conceitos, abstraindo do processo hist\u00f3rico e seu conte\u00fado social. Ele abre margem, como se v\u00ea, para aproximar ou afastar o fascismo do que se queira, baseado em uma \u00eanfase arbitr\u00e1ria do analista. Seguindo, por outro lado, o processo social e hist\u00f3rico, a confus\u00e3o aparente se dissipa.<\/p>\n<p>Como vimos em nossa an\u00e1lise, a ret\u00f3rica socialista se transmutou em pura demagogia oportunista, se afastando completamente deste quanto a forma de organiza\u00e7\u00e3o social almejada, tanto interna quanto externamente. A substitui\u00e7\u00e3o, inclusive, do termo internacional por nacional n\u00e3o \u00e9, de modo algum, a altern\u00e2ncia de um atributo dentre outros. O car\u00e1ter internacional do socialismo de base marxista perpassa transversalmente todo o seu programa, concep\u00e7\u00e3o e fundamenta\u00e7\u00e3o. Da\u00ed um agente social que se caracteriza pela posi\u00e7\u00e3o que ocupa na forma de organiza\u00e7\u00e3o social: o proletariado, que, enquanto tal, \u00e9 universal, independente de qualquer particularidade nacional.<\/p>\n<p>O apoio do grande capital \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es fascistas apenas no momento de absoluta instabilidade econ\u00f4mica e amea\u00e7a comunista imediata desnudam que o fascismo \u00e9, em seu significado hist\u00f3rico, a \u00faltima cartada das classes dominantes nacionais. O fascismo \u00e9, para o grande capital, a forma pol\u00edtica de manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas nacionais quando todas as demais alternativas fracassaram. Trata-se da \u00faltima cartada diante do colapso das institui\u00e7\u00f5es oficiais (fundamento do conservadorismo) e do fracasso da democracia burguesa (fundamento dos liberais). Tudo isto associado a exist\u00eancia de um movimento revolucion\u00e1rio com alguma possibilidade de vit\u00f3ria. Inclusive a meta de elevar a na\u00e7\u00e3o na hierarquia imperialista mundial n\u00e3o se difere das propostas conservadoras e liberais. Nesse dom\u00ednio o fascismo apenas substitui a via legal, econ\u00f4mica e institucional pela via do combate externo direto.<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 assim que, do ponto de vista\u00a0nacional, os partidos fascistas sempre se aliaram,\u00a0direta ou indiretamente,\u00a0com alternativas conservadoras\u00a0ou, ainda, liberal-conservadoras. Ainda que St\u00e1lin, cujos m\u00e9todos em muito se assemelharam ao dos fascistas, inescrupulosamente tenha assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop em 1939, bem como buscado alian\u00e7as em pol\u00edtica externacom Hitler em todos os anos desde 1933, como demonstra a documenta\u00e7\u00e3o mais recente (MARIE, 2011), esses fatos, em si mesmos absolutamente conden\u00e1veis, foram produto de sua m\u00edope caracteriza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa. Ele subestimou o nazismo at\u00e9 sua chegada ao poder e, em seguida, passou a tem\u00ea-los\u00a0e, no fundo, vener\u00e1-los. \u00c9 verdade que existe uma interpreta\u00e7\u00e3o j\u00e1 antiga\u00a0(TOPITSCH,\u00a01987), e atualmente retomada por\u00a0alguns\u00a0autores\u00a0(MAGENHEIMER, 1998), de que o nazismo foi\u00a0fomentado\u00a0conscientemente por St\u00e1lin,\u00a0bem como a Segunda Guerra Mundial.\u00a0Esta hip\u00f3tese,\u00a0insustent\u00e1vel,\u00a0pode ser\u00a0o centro de\u00a0um longo debate interpretativo\u00a0que n\u00e3o vamos adentrar nesse curto artigo\u00a0(1).<\/p>\n<p>Seja como for, \u00e9 fato hist\u00f3rico que\u00a0em 29 de outubro de 1922 Mussolini acendeu ao poder a convite do rei V\u00edtor Emanuel III que o encarregou, depois da encena\u00e7\u00e3o de sua \u201cmarcha sobre Roma\u201d, de\u00a0formar\u00a0o novo governo e, nos anos seguintes, o apoiou plenamente.\u00a0Na Alemanha, em 1932, foi o conservador Hindenburg que convidou Hitler para a chancelaria, abrindo caminho para o poder nazista.\u00a0Al\u00e9m disso, o\u00a0processo se inicia com uma coaliza\u00e7\u00e3o entre nazistas e conservadores que garantiu aos nazistas mais de 50% dos minist\u00e9rios.\u00a0O caso mais contundente, certamente, foi o da\u00a0Falange\u00a0espanhola. Foi em coaliza\u00e7\u00e3o com a\u00a0Falange, uma for\u00e7a claramente de segundo n\u00edvel no conflito espanhol, que o general Franco,\u00a0cat\u00f3lico e conservador,\u00a0assumiu o poder e governou a Espanha por d\u00e9cadas, al\u00e9m de ter contado com apoio militar direto do nazismo\u00a0durante\u00a0guerra civil espanhola.<\/p>\n<p>N\u00e3o sem raz\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre conservadores e o fascismo foi sempre, no frigir dos\u00a0ovos, amb\u00edgua.\u00a0Por exemplo, o fil\u00f3sofo italiano Benedetto Croce avalizou o primeiro gabinete fascista que, em sua acep\u00e7\u00e3o, seria a primeira solu\u00e7\u00e3o conservadora s\u00e9ria no sentido de por fim a desordem e a poss\u00edvel atua\u00e7\u00e3o de massas\u00a0que dela se segue. Posteriormente, revisou sua posi\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da instrumentaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cultural.\u00a0No entanto, a lista de intelectuais conservadores\u00a0ou\u00a0liberal-conservadores que aderiram ao fascismo ou ao nazismo \u00e9 extensa\u00a0(S\u00c1NCHEZ, 1995;\u00a0ALBERTONI, 1992).\u00a0Ap\u00f3s a consolida\u00e7\u00e3o dos respectivos partidos, de outra parte, o apoio de intelectuais comunistas ou socialistas ao fascismo \u00e9 um epis\u00f3dio dos mais raros.<\/p>\n<p>Este \u00e9, em seus tra\u00e7os mais gerais, o conte\u00fado hist\u00f3rico\u00a0e conceitual\u00a0do fascismo, que n\u00e3o deixou de ter, evidentemente, variantes de todos os tipos em conformidade com a especificidades nacionais. Compreendido isto, pouco importa o r\u00f3tulo predileto que\u00a0lhe\u00a0seja imputado.<\/p>\n<p><strong><em>Notas<\/em><\/strong><\/p>\n<p>(1) A biografia de Jean Jacques-Marie sobre Stalin, levando em conta toda documenta\u00e7\u00e3o recente oriunda da abertura dos arquivos em Moscou ap\u00f3s o colapso da URSS, exp\u00f5em com clareza a rela\u00e7\u00e3o de St\u00e1lin com Hitler e os nazistas, bem como sua atua\u00e7\u00e3o na Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p><strong><em>Bibliografia<\/em><\/strong><\/p>\n<p>ALBERTONI<em>\u00a0, E A.\u00a0Gaestano Mosca y la formaci\u00f3n del elitismo pol\u00edtico contempor\u00e1neo. <\/em><em>FCE;\u00a0<\/em>M\u00e9xico, 1992.<\/p>\n<p>BENJAMIN, Walter.\u00a0<em>A obra de arte na \u00e9poca de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica<\/em>. In: Obras escolhidas . Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1985.<\/p>\n<p>BBOSWORTH, R. 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