{"id":25944,"date":"2019-01-28T08:49:50","date_gmt":"2019-01-28T10:49:50","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=25944"},"modified":"2019-01-28T08:49:50","modified_gmt":"2019-01-28T10:49:50","slug":"venezuela-uma-catastrofe-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/01\/28\/venezuela-uma-catastrofe-social\/","title":{"rendered":"Venezuela: Uma cat\u00e1strofe social"},"content":{"rendered":"<p><em>Nas pol\u00eamicas com as diferentes correntes da esquerda costumam serem discutidas as pol\u00edticas frente ao governo de Maduro, a Constituinte e \/ ou o imperialismo. Mas, lamentavelmente, pouco se fala da profundidade da crise econ\u00f4mica e social (al\u00e9m da crise pol\u00edtica) que sofre o povo venezuelano. Nestas linhas, tentaremos fornecer algumas informa\u00e7\u00f5es para uma melhor compreens\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o e da pouca sustenta\u00e7\u00e3o que tem as correntes que defendem o regime e o governo de Maduro, sua Constituinte e o PSUV.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: V\u00edctor Quiroga<\/p>\n<p>Devemos come\u00e7ar reconhecendo que os trabalhadores e os setores populares, nos primeiros anos do governo de Hugo Ch\u00e1vez Fr\u00edas, obtiveram algumas concess\u00f5es que lhes permitiram ter acesso a um melhor n\u00edvel de vida. Isso ocorreu sem que se fizesse qualquer mudan\u00e7a estrutural sobre a depend\u00eancia da economia ao imperialismo e sem nenhuma ruptura com a burguesia. \u00c9 por isso que as concess\u00f5es duraram at\u00e9 a queda profunda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e a crise capitalista mundial e sua refra\u00e7\u00e3o na Venezuela. A partir da\u00ed come\u00e7ou a perda de cada uma das concess\u00f5es. Vamos procurar explicar a situa\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p><strong>O governo de Maduro ataca o sal\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Para ter a dimens\u00e3o dos ataques ao n\u00edvel de vida dos assalariados, basta vermos a evolu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios. Em 2012, durante a vida de Ch\u00e1vez, o sal\u00e1rio m\u00ednimo equivalia a cerca de 400 d\u00f3lares, mesmo considerando o d\u00f3lar paralelo o sal\u00e1rio se aproximava a esse valor. A infla\u00e7\u00e3o rondava um d\u00edgito e, ainda que insuficiente, um trabalhador podia comer tr\u00eas vezes ao dia.<\/p>\n<p>Hoje as coisas s\u00e3o diferentes. O sal\u00e1rio m\u00ednimo de 18\/08\/2017 \u00e9 de 256.000 bol\u00edvares, e de acordo com o d\u00f3lar oficial DICOM de 2.970 bol\u00edvares, equivale a 84 d\u00f3lares ainda que as &#8220;m\u00e1s l\u00ednguas&#8221; digam que o d\u00f3lar que vai para leil\u00e3o p\u00fablico vale cerca de 4.500 bol\u00edvares.<\/p>\n<p>Mas levando em conta o d\u00f3lar &#8220;negro&#8221; que \u00e9 publicado em <em>d\u00f3lar Today<\/em> est\u00e1 em 14.140 (14\/8\/2017): o sal\u00e1rio seria de 18 d\u00f3lares! Juntamente com isso, temos que ver dois dados importantes: a cesta b\u00e1sica (ou a cesta familiar) chegou a agosto em\u00a0 2.400.000 bol\u00edvares (9 vezes o sal\u00e1rio m\u00ednimo!). A infla\u00e7\u00e3o de 2016 atingiu 600% e, de acordo com o FMI, este ano chegaria a 1.000%.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m desses dados fundamentais, h\u00e1 outro: qual \u00e9 o poder de compra desses 256.000 bol\u00edvares? Devemos esclarecer que este \u00e9 um sal\u00e1rio composto por um sal\u00e1rio m\u00ednimo de 97.531 bol\u00edvares e um b\u00f4nus de alimenta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o integra o sal\u00e1rio (n\u00e3o utilizado para calcular f\u00e9rias, aposentadorias, etc.) de 153.000 bol\u00edvares.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia do tipo venezuelana \u00e9 composta por cinco pessoas. Um quilo de arroz pode durar tr\u00eas ou quatro dias assim como um quilo de farinha pr\u00e9-cozida. Um quilo de a\u00e7\u00facar, talvez por uma semana. No mercado &#8220;normal&#8221;, n\u00e3o o &#8220;negro&#8221;, mas em um supermercado da esquina de qualquer bairro ou conjunto habitacional, o quilo de arroz custa aproximadamente 15.000 bol\u00edvares (podem ser mil mais ou mil menos), a farinha pr\u00e9-cozida por volta desse mesmo valor, um litro de \u00f3leo de soja 18.000, um quilo de a\u00e7\u00facar 12.000 e um quilo de macarr\u00e3o 18.000. Uma caixa de ovos chega a 30.000 bol\u00edvares! (quando se consegue). A isso, nem sequer adicionamos as prote\u00ednas de carne bovina, frango ou porco que est\u00e3o nas nuvens. Como se sobrevive com esses pre\u00e7os liberados pelo governo?<\/p>\n<p>Por isso n\u00e3o s\u00e3o de estranhar esses dados do ENCOVI (Pesquisa Nacional de Condi\u00e7\u00f5es de Vida) de 2016, elaborados por uma equipe de pesquisadores da UCV (Universidade Central de Venezuela), da USB (Universidade Sim\u00f3n Bol\u00edvar) e UCAB ( Universidade Cat\u00f3lica), que determinou que 52% dos domic\u00edlios do pa\u00eds n\u00e3o possuem a renda necess\u00e1ria para comprar a cesta de alimentos. \u00c9 por isso que\u00a0 s\u00e3o considerados em extrema pobreza. Al\u00e9m disso, outros 30%, ainda que tenham a renda para comprar alimentos, n\u00e3o tem renda para outros itens de despesas b\u00e1sicas familiar. Como resultado, 82% das fam\u00edlias do pa\u00eds est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza. A pobreza estrutural, que em 2014 foi de 16%, em dois anos (2016) atingiu 31%.<\/p>\n<p><strong>O abandono da sa\u00fade p\u00fablica<\/strong><\/p>\n<p>Com as Miss\u00f5es, houve um avan\u00e7o para os setores mais marginais que nunca tiveram acesso a um centro de sa\u00fade. A Miss\u00e3o &#8220;Barrio Adentro&#8221;, com uma maioria de m\u00e9dicos cubanos, ajudou esses setores a ter acesso \u00e0 aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Ainda que n\u00e3o houvesse mudan\u00e7a profunda e estrutural com rela\u00e7\u00e3o a medicamentos mais complexos nos hospitais, estes tiveram algum avan\u00e7o.<\/p>\n<p>Hoje, a sa\u00fade retrocedeu para n\u00edveis de 1998 ou pior. O Minist\u00e9rio Popular para a Sa\u00fade publicou (9 de maio de 2017) o relat\u00f3rio epidemiol\u00f3gico para 2015-2016. \u00c9 um tipo de relat\u00f3rio que alerta sobre doen\u00e7as e seu poss\u00edvel impacto na popula\u00e7\u00e3o. Nele, a mortalidade materna se destaca por seus n\u00edveis. Este \u00edndice, que na regi\u00e3o latino-americana estava baixando em 2% ao ano nos \u00faltimos anos, na Venezuela vem aumentando a uma taxa de 12% ao ano. Mas, nos anos em an\u00e1lise, teve um salto: entre 2015 e 2016 aumentou 65%. Em apenas um ano, passou de 456 mulheres que morreram em 2015 para 756 em 2016.<\/p>\n<p>O mesmo acontece com a mortalidade infantil. A m\u00e9dia da Venezuela estava entre 5 e 6 \u2030. Um \u00edndice que j\u00e1 era alto, porque o crescimento da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1,49% ao ano. Estar acima dessa cifra j\u00e1 significa um retrocesso. Entre 2015 e 2016, a mortalidade infantil foi de 29,5 \u2030.<\/p>\n<p>As cifras de crescimento de outras doen\u00e7as tamb\u00e9m s\u00e3o impressionantes: a mal\u00e1ria aumentou para 240.000 casos em 2016, em 2015 registrou 136.402 e 89.822 em 2014. Em 2010, esta doen\u00e7a se restringia a tr\u00eas estados, hoje atinge 13. Outras doen\u00e7as que se generalizaram s\u00e3o a zika e a chikungunya como novas epidemias e, o reaparecimento de velhas, como a difteria. Um fato &#8220;curioso&#8221; \u00e9 que a ministra que revelou esses dados &#8220;renunciou&#8221; poucos dias depois de serem publicados.<\/p>\n<p>Tudo isto \u00e9 basicamente explicado por um grande desinvestimento do Estado e pela destrui\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica. M\u00e9dicos e enfermeiras v\u00eam se mobilizando h\u00e1 muito tempo por sal\u00e1rios, a falta de insumos e, fundamentalmente, aus\u00eancia de material descart\u00e1vel e a falta de medicamentos.<\/p>\n<p>De acordo com uma pesquisa publicada pela Assembleia Nacional e a organiza\u00e7\u00e3o &#8220;M\u00e9dicos para a Sa\u00fade&#8221; sobre &#8220;Hospitais de todo o pa\u00eds em 42 cidades&#8221;: <em>&#8220;51% das salas de cirurgia s\u00e3o inoperantes e 78% desses hospitais t\u00eam falta de medicamentos, 64% n\u00e3o possuem leite para alimentar as crian\u00e7as, mais de metade das cozinhas n\u00e3o funcionam devido \u00e0 falta de comida, praticamente n\u00e3o funcionam os tom\u00f3grafos e 89% apresentam falhas ou n\u00e3o funcionam os raios-x &#8220;<\/em>.<\/p>\n<p>Esses dados, publicados pela Assembleia Nacional, que \u00e9 de oposi\u00e7\u00e3o, podem ser exagerados, mas ajudam a explicar as cifras oficiais. Esta cat\u00e1strofe na sa\u00fade p\u00fablica explica tamb\u00e9m o grande crescimento da sa\u00fade privada: mais de 55% dos pacientes s\u00e3o atendidos nas cl\u00ednicas e consult\u00f3rios privados.<\/p>\n<p>A esse drama ainda se agrega a quase total falta de rem\u00e9dios para doen\u00e7as cr\u00f4nicas ou terminais. N\u00e3o se encontram rem\u00e9dios para hipertens\u00e3o, quimioterapia para o c\u00e2ncer, HIV, doen\u00e7as da pr\u00f3stata, diabetes, etc. Estes rem\u00e9dios s\u00f3 se conseguem no mercado negro, apesar de que, segundo o governo, os laborat\u00f3rios ou os importadores receberam \u201cd\u00f3lares preferenciais\u201d. Quem fica com os d\u00f3lares e os medicamentos importados?<\/p>\n<p><strong>A crise social avan\u00e7a <\/strong><\/p>\n<p>Aos dados apresentados sobre sal\u00e1rios e sa\u00fade devemos agregar o fato de que quase 10 milh\u00f5es de pessoas t\u00eam acesso a apenas duas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias (caf\u00e9 da manh\u00e3 e almo\u00e7o ou janta). Neste contexto aumenta a desnutri\u00e7\u00e3o infantil por falta de leite em p\u00f3 e prote\u00ednas.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia e a inseguran\u00e7a se transformaram em verdadeiras epidemias: a Venezuela tem 7 cidades entre as mais violentas do mundo (Caracas, como a primeira, Matur\u00edn, Ciudad Guayana, Val\u00eancia, Barquisimeto, Cuman\u00e1 e Barcelona) de acordo com o &#8220;Conselho de Cidadania para a Seguran\u00e7a e Justi\u00e7a&#8221;, uma organiza\u00e7\u00e3o localizada no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>O n\u00famero de mortes por atos violentos, no pa\u00eds, aumentou de 4.550 em 1998 para 28.479 em 2016 (a \u00faltima estimativa do Observat\u00f3rio Venezuelano da Viol\u00eancia). No total, se contam 287.926 v\u00edtimas nos \u00faltimos 18 anos ou, o que \u00e9 o mesmo, um pouco mais de 43 mortes por dia.<\/p>\n<p>A todas essas dificuldades graves, devemos acrescentar o sofrimento dos setores populares por falta de abastecimento de cilindros de g\u00e1s (essencial para preparar o alimento): filas sem fim s\u00e3o feitas desde a madrugada para comprar um.<\/p>\n<p>Todos os servi\u00e7os se deterioraram: os cortes de eletricidade continuam sendo peri\u00f3dicos, o fornecimento e a qualidade da \u00e1gua pot\u00e1vel s\u00e3o deficientes, mesmo em estados como Bol\u00edvar com fontes de \u00e1gua suficientes. O servi\u00e7o de limpeza urbana \u00e9 inexistente, em algumas cidades se acumulam o lixo nas ruas&#8230;<\/p>\n<p>As diferentes correntes de esquerda que polemizam sobre a situa\u00e7\u00e3o venezuelana deveriam levar em conta, ainda que seja em parte, os n\u00fameros apresentados aqui para tentar entender e explicar as verdadeiras causas do confronto que as massas est\u00e3o tendo com o governo de Nicol\u00e1s Maduro e a ruptura com o mesmo. Apesar das diferentes conjunturas que podem ser abertas, esse processo de ruptura, desmoraliza\u00e7\u00e3o e crise \u00e9 irrevers\u00edvel. A experi\u00eancia que as massas est\u00e3o fazendo com o chavismo e o fracasso do projeto nacionalista burgu\u00eas abrir\u00e1 um processo reflexivo que \u00e9 importante levar em conta para ajudar a tirar conclus\u00f5es e poder construir uma alternativa pol\u00edtica independente da burguesia, dos militares falsamente &#8220;socialistas&#8221; e da burocracia estadual e sindical.<\/p>\n<p>S\u00e3o dois artigos (3 e 3). Em ambos os casos, se\u00e7\u00e3o ATUALIDADE. V\u00e3o textos, fotos e ep\u00edgrafes<\/p>\n<p>Ep\u00edgrafes 12-14 (cat\u00e1strofe social)<\/p>\n<p>1) O sal\u00e1rio dos trabalhadores venezuelanos abrange apenas uma parte minorit\u00e1ria do custo de uma cesta b\u00e1sica de alimentos.<\/p>\n<p>2) Protesto contra a falta de produtos b\u00e1sicos em Catia (sub\u00farbio de Caracas).<\/p>\n<p>3) Todos os dias, h\u00e1 FILAS muito longas para comprar produtos de higiene pessoal.<\/p>\n<p>4) H\u00e1 tamb\u00e9m uma escassez de cilindros de g\u00e1s.<\/p>\n<p>5) A falta de suprimentos essenciais nos hospitais atinge limites extremos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas pol\u00eamicas com as diferentes correntes da esquerda costumam serem discutidas as pol\u00edticas frente ao governo de Maduro, a Constituinte e \/ ou o imperialismo. Mas, lamentavelmente, pouco se fala da profundidade da crise econ\u00f4mica e social (al\u00e9m da crise pol\u00edtica) que sofre o povo venezuelano. 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