{"id":25895,"date":"2019-01-23T08:57:12","date_gmt":"2019-01-23T10:57:12","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=25895"},"modified":"2019-01-23T08:57:12","modified_gmt":"2019-01-23T10:57:12","slug":"marx-e-a-luta-contra-as-opressoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/01\/23\/marx-e-a-luta-contra-as-opressoes\/","title":{"rendered":"Marx e a luta contra as opress\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><em>Muitos ativistas acreditam que a luta contra as opress\u00f5es \u00e9 um fen\u00f4meno relativamente novo. Mais ainda, acreditam que as organiza\u00e7\u00f5es marxistas nunca deram muita bola para isso. Afinal, para um marxista, o que importaria seriam as classes sociais, e todo o resto seria secund\u00e1rio, exceto nos \u00faltimos anos, quando se tornou inevit\u00e1vel abordar quest\u00f5es como opress\u00e3o de g\u00eanero, de ra\u00e7a, de orienta\u00e7\u00e3o sexual dentre outras pela amplitude dos movimentos em torno desses temas.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Gustavo Machado de Belo Horizonte &#8211; Brasil<\/p>\n<p>No entanto, essa forma de compreender o desenvolvimento hist\u00f3rico do marxismo e a luta contra as opress\u00f5es \u00e9 falsa do come\u00e7o ao fim. Mais uma vez, essa compreens\u00e3o foi produto da contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista. Isso tem sua raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p><strong>Stalinismo e opress\u00e3o na URSS<\/strong><\/p>\n<p>A R\u00fassia englobava dezenas de nacionalidades oprimidas por Moscou h\u00e1 s\u00e9culos. Ucranianos, georgianos, chechenos, poloneses dentre outros formavam nacionalidades oprimidas pol\u00edtica, econ\u00f4mica e socialmente pelos russos. Com a vit\u00f3ria do stalinismo, o abandono da revolu\u00e7\u00e3o internacional e a teoria do socialismo num s\u00f3 pa\u00eds, passou a interessar \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica o mesmo regime de opress\u00e3o existente antes da revolu\u00e7\u00e3o. Sob o controle de Stalin, o governo sovi\u00e9tico abandonou as lutas contra as opress\u00f5es e atribuiu a Marx uma teoria que nunca existiu em seu pensamento. Nessa teoria, tudo seria deduzido das classes sociais. As classes sociais explicariam tudo. Mas n\u00e3o somente isso: tudo que n\u00e3o se referisse \u00e0 no\u00e7\u00e3o de classe social seria reacion\u00e1rio e fragmentaria a luta pelo socialismo e sua liberta\u00e7\u00e3o. Com essa teoria, a opress\u00e3o das diversas nacionalidades no interior da URSS poderia ser justificada e a luta contra essas opress\u00f5es consideradas reacion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Da\u00ed o fato de grande parte dos movimentos contra as opress\u00f5es ter se desenvolvido, desde ent\u00e3o, de forma separada do marxismo e, muitas vezes, contra ele. Isso gerou um problema oposto. A maioria das teorias sobre as opress\u00f5es foram tomadas em termos subjetivos, isto \u00e9, como se fossem meros preconceitos culturais e de identidades. Sem relacionar cada opress\u00e3o com a forma de sociedade dentro da qual se desenvolve, o capitalismo conseguiu domesticar tais lutas em seu interior. Pior ainda, ao faz\u00ea-lo, impediu que fossem levadas at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>Combater toda opress\u00e3o que divide os trabalhadores<\/strong><\/p>\n<p>Acontece que na concep\u00e7\u00e3o de Marx a quest\u00e3o das opress\u00f5es jamais foi tomada ao modo stalinista. De fato, a unidade da classe trabalhadora para a luta contra o capital \u00e9 o n\u00f3 central da teoria de Marx. Somente a classe trabalhadora organizada pode destruir o capitalismo. Isso \u00e9 assim porque essa mesma classe trabalhadora \u00e9 a respons\u00e1vel por colocar todo o sistema de p\u00e9. Unir a classe trabalhadora \u00e9 o objetivo, o resultado que procura toda organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Mas a quest\u00e3o central \u00e9 justamente como unir a classe trabalhadora? Ora, evidentemente \u00e9 imposs\u00edvel unir uma classe social sem combater todo tipo de opress\u00e3o que a fragmenta e joga os estratos da classe um contra o outro.<\/p>\n<p>Por esse motivo, Marx foi, ainda em meados do s\u00e9culo 19, porta de frente na luta contra as opress\u00f5es. Em O Capital, dedica dezenas de p\u00e1ginas \u00e0 opress\u00e3o do trabalho das mulheres dentro da f\u00e1brica. Na guerra civil norte-americana, Marx interv\u00e9m diretamente em favor do Norte, setor que se opunha \u00e0 escravid\u00e3o que dividia irremediavelmente os trabalhadores brancos e negros no interior dos Estados Unidos. Provavelmente a elabora\u00e7\u00e3o de Marx quanto \u00e0s opress\u00f5es que ficou mais clara foi sua defesa da independ\u00eancia da Irlanda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Inglaterra no interior da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores (AIT).<\/p>\n<p><strong>A luta pela independ\u00eancia da Irlanda<\/strong><\/p>\n<p>No s\u00e9culo 19, a Irlanda era um pa\u00eds colonizado pela Inglaterra. Suas terras serviam de pastos para fornecer carne e l\u00e3 para a ind\u00fastria inglesa a pre\u00e7os baixos. Sua ind\u00fastria foi destru\u00edda. Sem recursos e faminta, a popula\u00e7\u00e3o irlandesa emigrava em massa para os EUA e para a pr\u00f3pria Inglaterra. Nesses pa\u00edses, sofria todo tipo de opress\u00e3o imagin\u00e1vel. Eram considerados uma ra\u00e7a pregui\u00e7osa, propensa \u00e0 criminalidade dentre muitas outras coisas.<\/p>\n<p>Pois bem, Marx n\u00e3o apenas assumiu a defesa da independ\u00eancia da Irlanda diante da domina\u00e7\u00e3o Inglesa, como procurou mostrar como tal opress\u00e3o se entrela\u00e7ava por todos os poros com a domina\u00e7\u00e3o de uma classe sobre a outra. Esse tema foi o aspecto central da interven\u00e7\u00e3o de Marx na AIT. Dedicou-se a ele com tal paix\u00e3o que o restante de sua fam\u00edlia se envolveu com essa luta. A filha mais velha de Marx, Jenny Marx, dedicou, tamb\u00e9m, uma s\u00e9rie de artigos \u00e0 quest\u00e3o irlandesa. Vejamos, ent\u00e3o, como Marx considerou a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, seria mais f\u00e1cil mobilizar os trabalhadores irlandeses, j\u00e1 que na Irlanda n\u00e3o se trata apenas de uma \u201c<em>quest\u00e3o econ\u00f4mica, mas, ao mesmo tempo, uma quest\u00e3o nacional<\/em>\u201d. A opress\u00e3o nacional de um pa\u00eds sobre o outro se une \u00e0 explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de uma classe sobre a outra. Por isso, na Irlanda, os propriet\u00e1rios ingleses s\u00e3o \u201c<em>os opressores da nacionalidade, odiados at\u00e9 a morte<\/em>\u201d. Como se v\u00ea, a agita\u00e7\u00e3o pela independ\u00eancia de uma na\u00e7\u00e3o pode, nesse caso, ser combinada com explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, potencializando uma a outra.<\/p>\n<p><strong>Preconceito: dividir para reinar<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Marx explica que, ao jogar os trabalhadores irlandeses para a emigra\u00e7\u00e3o, inclusive na Inglaterra, a Irlanda fornecia continuamente um grande n\u00famero de trabalhadores para o \u201c<em>mercado de trabalho ingl\u00eas, reduzindo, assim, os sal\u00e1rios e deteriorando a situa\u00e7\u00e3o material e moral da classe trabalhadora inglesa<\/em>\u201d. Assim, a opress\u00e3o da Irlanda n\u00e3o prejudicava apenas os trabalhadores irlandeses, mas tamb\u00e9m os trabalhadores ingleses, fazendo baixar a m\u00e9dia salarial geral. A opress\u00e3o nacional e, nesse caso, tamb\u00e9m racial, tornava-se uma ferramenta que permitia ao conjunto da classe dominante melhor explorar os trabalhadores, tanto ingleses quanto irlandeses.<\/p>\n<p>O terceiro e, segundo Marx, o mais importante de todos os fatores \u00e9 o seguinte: todos \u201c<em>os centros industriais e comerciais da Inglaterra possuem agora uma classe oper\u00e1ria que est\u00e1 dividida em dois bandos inimigos: prolet\u00e1rios ingleses e prolet\u00e1rios irlandeses<\/em>\u201d. Afinal, o \u201c<em>oper\u00e1rio ingl\u00eas odeia o irland\u00eas como um concorrente que faz baixar os sal\u00e1rios e o n\u00edvel de vida<\/em>\u201d. N\u00e3o sem raz\u00e3o, tem \u201c<em>por ele antipatias nacionais e religiosas. Considera-o quase com os mesmos olhos com que os brancos pobres dos estados do Sul da Am\u00e9rica do Norte consideravam os escravos negros<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Os oper\u00e1rios ingleses se sentem, diante do irland\u00eas, membros da na\u00e7\u00e3o dominante. Por isso,\u00a0<em>\u201cse transformam em instrumento de seus capitalistas contra a Irlanda<\/em>\u201d. Ora, ao dividir a classe oper\u00e1ria em oper\u00e1rios ingleses, de um lado, e oper\u00e1rios irlandeses, de outro, o fogo revolucion\u00e1rio de ambos estratos da classe n\u00e3o se ligam. Ao contr\u00e1rio, em todos os grandes centros industriais da Inglaterra temos um profundo antagonismo entre o prolet\u00e1rio irland\u00eas e ingl\u00eas. Essa divis\u00e3o, por sua vez, leva a outros tipos de preconceitos, como os religiosos, j\u00e1 que a Irlanda \u00e9 um pa\u00eds cat\u00f3lico e a Inglaterra protestante.<\/p>\n<p>Como se nota, os preconceitos nacionais e religiosos possuem uma base social e objetiva. A desigualdade real entre oper\u00e1rios ingleses e irlandeses dentro da Inglaterra alimenta todo tipo de preconceito religioso, cultural e assim por diante. Por isso, a \u201c<em>burguesia alimenta e conserva artificialmente este antagonismo entre os trabalhadores mesmo dentro da Inglaterra. Sabe que nesta divis\u00e3o do proletariado reside o aut\u00eantico segredo da manuten\u00e7\u00e3o de seu poder<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Como podemos ver, a defesa da independ\u00eancia da Irlanda n\u00e3o \u00e9 considerada por Marx uma reivindica\u00e7\u00e3o nacionalista separada das classes sociais. Tampouco existe a ideia de que partindo das classes sociais toda opress\u00e3o pode ser explicada. Na defini\u00e7\u00e3o de Marx, apenas com a liberta\u00e7\u00e3o irlandesa seria poss\u00edvel quebrar as barreiras que impediam a unidade da classe trabalhadora no interior da pr\u00f3pria Inglaterra.<\/p>\n<p><strong>Unir a classe trabalhadora para derrotar o capitalismo<\/strong><\/p>\n<p>A unidade da classe para enfrentar o capitalismo \u00e9 o principal objetivo de Marx. Por\u00e9m s\u00e3o palavras vazias se n\u00e3o levarmos em conta todos os fatores nacionais, raciais, de g\u00eanero ou de orienta\u00e7\u00e3o sexual que atuam como barreiras que impedem essa unidade de acontecer. Assim, n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de eleger qual fator \u00e9 prim\u00e1rio ou secund\u00e1rio. Individualmente, muitas opress\u00f5es s\u00e3o com certeza mais repulsivas do que a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o moral. Para Marx, a quest\u00e3o \u00e9 vincular cada aspecto particular \u00e0 necessidade de organizar a classe para enfrentar o capitalismo. Se uma organiza\u00e7\u00e3o marxista n\u00e3o conseguir fazer isso, suas palavras de ordem n\u00e3o encontrar\u00e3o qualquer eco.<\/p>\n<p>N\u00e3o sem raz\u00e3o, seguindo os ensinamentos de Marx, a luta contra a opress\u00e3o nacional teve um papel central na Revolu\u00e7\u00e3o Russa em 1917. Vinculando tal opress\u00e3o com a necessidade de unir a classe trabalhadora para derrotar o capitalismo, milh\u00f5es de integrantes de nacionalidades oprimidas aderiram aos bolcheviques e ao programa da classe trabalhadora contra o programa nacionalista de suas burguesias nacionais.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, no bicenten\u00e1rio do nascimento de Marx, uma das quest\u00f5es centrais colocadas para uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u00e9 resgatar seu pensamento, sepultado por mais de meio s\u00e9culo de controle stalinista sobre o movimento oper\u00e1rio. Com a queda do Muro de Berlim e a derrota do stalinismo, estamos diante de uma oportunidade \u00fanica. Tratemos de aproveit\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitos ativistas acreditam que a luta contra as opress\u00f5es \u00e9 um fen\u00f4meno relativamente novo. Mais ainda, acreditam que as organiza\u00e7\u00f5es marxistas nunca deram muita bola para isso. 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