{"id":25795,"date":"2019-01-14T19:19:10","date_gmt":"2019-01-14T21:19:10","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=25795"},"modified":"2019-01-14T19:19:10","modified_gmt":"2019-01-14T21:19:10","slug":"janeiro-de-1919-a-semana-tragica-uma-insurreicao-operaria-e-popular-na-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/01\/14\/janeiro-de-1919-a-semana-tragica-uma-insurreicao-operaria-e-popular-na-argentina\/","title":{"rendered":"Janeiro de 1919, a &#8220;Semana Tr\u00e1gica&#8221;: uma insurrei\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular na Argentina"},"content":{"rendered":"<p><em>Em janeiro de 1919, uma luta oper\u00e1ria que come\u00e7ou por reivindica\u00e7\u00f5es &#8220;m\u00ednimas&#8221; terminou em uma greve geral com caracter\u00edsticas insurrecionais. A jovem &#8220;democracia&#8221; do radicalismo mostrou que sua defesa do capitalismo era intransigente.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Tito Mainer<\/p>\n<p><strong>As reivindica\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>A reivindica\u00e7\u00e3o da &#8220;Sociedade de Resist\u00eancia Metal\u00fargicos Unidos&#8221;, \u00a0que representava duas f\u00e1bricas da empresa Compa\u00f1\u00eda Argentina de Hierros e Aceros (Pedro Vasena e filhos), a Central e a de Barracas, n\u00e3o prenunciava mais um dos muitos conflitos que, desde 1916, vinham se intensificando no movimento oper\u00e1rio. Eles consideravam suas reivindica\u00e7\u00f5es &#8220;condi\u00e7\u00f5es muito justas e moderadas&#8221; e que esperavam &#8220;serem aceitas para retomar o trabalho imediatamente&#8221;, a paralisa\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica come\u00e7ou no in\u00edcio de dezembro de 1916 exigindo &#8220;aumento de sal\u00e1rios, trabalho extra volunt\u00e1rio com 50% de gratifica\u00e7\u00e3o\u00b8 domingos 100%, aboli\u00e7\u00e3o do trabalho por tarefa, (trabalho em que se pagava um pre\u00e7o contratado em fun\u00e7\u00e3o da tarefa realizada),sem retalia\u00e7\u00e3o por medidas de for\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>A solicita\u00e7\u00e3o insistia no car\u00e1ter &#8220;m\u00ednimo&#8221; de suas reivindica\u00e7\u00f5es: &#8220;achamos in\u00fatil argumentar a justi\u00e7a que ampara aos oper\u00e1rios, devido ao alto custo de vida, subsist\u00eancia, alugu\u00e9is, etc., e os sal\u00e1rios elevad\u00edssimos que recebem nas ind\u00fastrias e estabelecimentos semelhantes, assim como a generaliza\u00e7\u00e3o da jornada de 8 horas&#8221;. A alega\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser mais &#8220;pac\u00edfica&#8221;: &#8220;ent\u00e3o, encorajados por um esp\u00edrito francamente conciliat\u00f3rio, esperamos por uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e ben\u00e9fica&#8221;. Se especificava que &#8220;a resposta \u00e9 esperada no local desta sociedade que patrocina e ap\u00f3ia o movimento, com a ajuda de todas as agrupa\u00e7\u00f5es organizadas&#8221;. A greve do Estabelecimento &#8220;de Vasena&#8221;, envolveu 2.500 trabalhadores. Assim, o final do ano passou sem qualquer resposta.<\/p>\n<p><strong>As not\u00edcias do mundo<\/strong><\/p>\n<p>O conflito de Vasena, com eixo na f\u00e1brica de Pepir\u00ed e Amancio Alcorta em Nueva Pompeya foi, para os jornais, apenas mais um da p\u00e1gina de sindicatos. As manchetes destacavam naqueles dias as negocia\u00e7\u00f5es para um armist\u00edcio de paz ap\u00f3s o fim das a\u00e7\u00f5es na Primeira Guerra Mundial, comentavam a ofensiva bolchevique na R\u00fassia, fantasiam &#8211; &#8220;informam&#8221; &#8211; que Leon Trotsky tinha dado um golpe de estado na R\u00fassia e prendido Lenin! e, entre outras situa\u00e7\u00f5es nacionais, como as lutas pela independ\u00eancia da Catalunha, destacam a crise desencadeada na Alemanha e as mobiliza\u00e7\u00f5es lideradas pelos espartaquistas.<\/p>\n<p>Quase todos os dias h\u00e1 not\u00edcias de Berlim e da atividade de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que seriam assassinados pouco depois, em 15 de janeiro.A revolu\u00e7\u00e3o social \u00e9 uma palavra que est\u00e1 na atmosfera. Poucas men\u00e7\u00f5es referem-se ao curso da Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana, que tamb\u00e9m mostrava o caminho pelo qual os direitos sociais e democr\u00e1ticos &#8211; como terra e democracia &#8211; poderiam ser alcan\u00e7ados atrav\u00e9s da luta. Emiliano Zapata, o chefe da Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana do Sul, tamb\u00e9m seria assassinado em abril.Revolu\u00e7\u00e3o e contra-revolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o os polos que definem o per\u00edodo imediato do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>E na Argentina h\u00e1 um movimento sindical e oper\u00e1rio em crescimento, alimentado por muitos imigrantes espanh\u00f3is, italianos e judeus russos de tradi\u00e7\u00e3o anarco-sindicalista, alguns deles expulsos de seus pa\u00edses de origem.<\/p>\n<p><strong>Piquete de greve, fura greves e repress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Na porta da f\u00e1brica Vasena, os piquetes dos oper\u00e1rios impedem a entrada dos &#8220;crumiros&#8221; (furagreves pagos pelos patr\u00f5es). O controle \u00e9 f\u00e9rreo: &#8220;nada de pessoas ou mercadorias, nada de caminh\u00f5es nem caminhonetes.&#8221; Os dias passam, chega a um m\u00eas de greve e os patr\u00f5es n\u00e3o respondem enquanto o governo radical de Hip\u00f3lito Yrigoyen aparece como &#8220;de grande relev\u00e2ncia&#8221;. No dia 5 um caminh\u00e3o tenta for\u00e7ar a entrada e os trabalhadores repelem a tentativa. Os agentes patronais, com o apoio da pol\u00edcia e dos bombeiros atacam os grevistas com balas: cinco pessoas morrem: quatro oper\u00e1rios e um morador do bairro, um deles menor de idade.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia patronal n\u00e3o consegue nada al\u00e9m de acalmar a luta. Centenas de trabalhadores se re\u00fanem nas casas onde os mortos est\u00e3o sendo velados e um imponente funeral c\u00edvico \u00e9 organizado. Partindo de Pompeya, deve passar pela outra f\u00e1brica de Vasena, localizada no Parque Patricios (onde hoje \u00e9 a Pra\u00e7a Mart\u00edn Fierro) e dirigir-se para o cemit\u00e9rio da Chacarita. Assembleias dos v\u00e1rios sindicatos ligados ao Federa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria Regional Argentina (FORA V Congreso) &#8211; a ala mais combativa e anticapitalista \u00a0&#8211; decidem parar em solidariedade e entre 20 e 30.000 oper\u00e1rios formam colunas para acompanhar os caix\u00f5es. A marcha \u00e9 encabe\u00e7ada por uma &#8220;Comiss\u00e3o de Mulheres&#8221;, formada por costureiras, telefonistas, modistas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/maxresdefault-1-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-25797 size-full\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/maxresdefault-1-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00c0 paralisa\u00e7\u00e3o em Vasena se juntam os chefes e come\u00e7am a ter express\u00f5es de rep\u00fadio no interior do pa\u00eds, como os empregados de bondes de Mendoza, os trabalhadores municipais de Rosario e os carreteiros de Jun\u00edn que adicionam suas pr\u00f3prias reivindica\u00e7\u00f5es. Naquela mesma noite o conselho federal da FORA V Congresso declara a greve geral e seus 32 sindicatos participam do enterro: trabalhadores de cal\u00e7ados, caldeireiros navais, motoristas de bondes, pedreiros, pintores, padeiros, entre outros. A FORA do X Congresso, com maioria no pessoal de Vasena e tamb\u00e9m anarquista, mas mais conciliadora, tamb\u00e9m se une, embora, ao mesmo tempo, estabele\u00e7a pontes de negocia\u00e7\u00e3o com o governo atrav\u00e9s do novo chefe de pol\u00edcia, que havia assumido recentemente, Elpidio Gonz\u00e1lez.<\/p>\n<p><strong>Massacre e rea\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A imponente marcha f\u00fanebre, respeitosa e em duro sil\u00eancio em dire\u00e7\u00e3o ao cemit\u00e9rio. De vez em quando, algum trabalhador insulta a pol\u00edcia e os bombeiros que a &#8220;protege&#8221;. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito tensa. Muitos \u201canarcos\u201d est\u00e3o armados com rev\u00f3lver e todos carregam alguma faca ou fac\u00e3o. Ao passar pela outra f\u00e1brica, localizada onde hoje \u00e9 a pra\u00e7a Mart\u00edn Fierro em La Rioja e Cochabamba, a manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 atacada por balas de franco-atiradores locaizados nos telhados da f\u00e1brica: a cumplicidade da patronal \u00e9 evidente.<\/p>\n<p>Como resultado, dezenas de pessoas foram mortas e feridas nas ruas, enquanto os &#8220;cossacos&#8221; &#8211; a cavalaria montada &#8211; distribu\u00edam pauladas \u00e0 vontade. A marcha continuou, mas muito perto, em Oruro e Constituci\u00f3n, foi novamente baleada. Os trabalhadores atacam um arsenal em San Juan e Loria e atearam fogo ao carro do chefe de pol\u00edcia. Agora a situa\u00e7\u00e3o saiu do controle e, sem dire\u00e7\u00e3o, os oper\u00e1rios sitiaram a delegacia 21. Os bombeiros aparecem para ajudar e abrem fogo contra a multid\u00e3o e h\u00e1 outra linha de ca\u00eddos. Quando a coluna chega \u00e0 Chacarita &#8211; depois de novas cruzamentos na antiga rua Triunvirato (atual \u00faltimo trecho de Corrientes), pela terceira vez \u00e9 atacada \u00e0 bala com policiais escondidos atr\u00e1s de l\u00e1pides e mausol\u00e9us. O &#8220;enterro crist\u00e3o&#8221; n\u00e3o contava: eram anarquistas &#8220;russos\u201d e ateus pobres &#8221; &#8230;<\/p>\n<p><strong>Greve geral e surtos insurrecionais<\/strong><\/p>\n<p>A not\u00edcia da repress\u00e3o selvagem correu como um rastilho de p\u00f3lvora e as FORA decretaram a greve geral &#8220;por tempo indeterminado&#8221;. A greve foi realmente massiva: durante tr\u00eas dias a cidade n\u00e3o dispunha de suprimentos e qualquer tipo de transporte. V\u00e1rias cidades do interior aderiram, como Rosario e Mendoza. Em Santiago del Estero, um trem que tentou circular foi incendiado; Mar del Plata \u00e9 militarizada com 300 marinheiros diante do an\u00fancio dos trabalhadores portu\u00e1rios de que eles se juntariam \u00e0 greve. Mesmo em Montevid\u00e9u, o governo ordenou captura de anarquistas, temendo que um movimento fosse coordenado e, no Chile, o governo ordenou a censura de todas as not\u00edcias de Buenos Aires.<\/p>\n<p>Em R\u00edo Gallegos e Punta Arenas tamb\u00e9m h\u00e1 greves explosivas.Enquanto isso, na Capital, dezenas de &#8220;piquetes&#8221; &#8211; ou &#8220;cercos&#8221; &#8211; impediam qualquer tr\u00e1fego e erguendo barricadas e armados com rev\u00f3lver, e alguns fuzis winchester, milhares de trabalhadores de v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es assumiram o controle da cidade. At\u00e9 20 focos simult\u00e2neos s\u00e3o registrados em diferentes bairros, como Barracas, La Boca, Almagro, Palermo, Once, Congreso, Boedo e Pompeya, onde os tiroteios e escaramu\u00e7as se multiplicaram. Houve ataques a lojas, uma igreja em Almagro pegou fogo e v\u00e1rias delegacias de pol\u00edcia foram cercadas.A pol\u00edcia com for\u00e7as insuficientes e &#8220;amea\u00e7ada a ordem p\u00fablica&#8221;, em 10 de janeiro o general Luis J. Dellepiane, comandante do Campo de Mayo, assume o comando das for\u00e7as aquarteladas e se disp\u00f5e a agir com o m\u00e1ximo de energia.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o \u00e9 violenta e em dois dias a lista de mortos, feridos e &#8220;desaparecidos&#8221; chega a v\u00e1rias centenas. O necrot\u00e9rio fica saturado de cad\u00e1veres que s\u00e3o retirados \u00e0s escondidas tarde da noite. O governo fecha La Protesta &#8211; um jornal anarquista &#8211; e a ades\u00e3o dos jornaleiros (entregados de jornais y revistas) impede a circula\u00e7\u00e3o de jornais como La Naci\u00f3n e La Prensa ou La Epoca (yrigoyenista \u2013 apoiadores de Hip\u00f3lito Yrigoyen) e El Pueblo, cat\u00f3lico. N\u00e3o h\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de telegramas e at\u00e9 se produzem confus\u00e3o e tiroteios no Departamento Central de Pol\u00edcia e nos Correios Centrais.<\/p>\n<p>Quatro ou cinco dias de luta nas ruas ocorreram e os dados dos jornais &#8211; apesar do sil\u00eancio das informa\u00e7\u00f5es do governo que n\u00e3o fornecem informa\u00e7\u00f5es precisas &#8211; s\u00e3o assustadores. Se fala de pelo menos 200 a 300 mortos e milhares de feridos. Os jornais oper\u00e1rios, La Vanguardia e La Protesta, informam sobre 700 mortes, n\u00famero que coincide com o relatado pela embaixada dos EUA. O consulado franc\u00eas diz que os mortos s\u00e3o mais de 1400. Os gravemente feridos excedem os 3.000 e os prisioneiros, detidos ou deportados, chegar\u00e3o a 45.000 em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Retorno \u00e0 &#8220;normalidade&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>No s\u00e1bado, dia 11, decidiu-se continuar o movimento, mas no domingo uma media\u00e7\u00e3o liderada pelo chefe de pol\u00edcia Elpidio Gonz\u00e1lez encerra quando Pedro Vasena aceitou pessoalmente a maioria das reivindica\u00e7\u00f5es e o presidente Yrigoyen ordenou a liberta\u00e7\u00e3o de todos os &#8220;prisioneiros sociais&#8221;, que era uma nova reivindica\u00e7\u00e3o. Lentamente, a combatividade diminui, os trabalhadores voltam gradualmente \u00e0s suas tarefas e, entre os dias 14 e 15 de janeiro, a cidade retorna \u00e0 &#8220;normalidade&#8221;. Os jornais comemoram que, mais uma vez, as pessoas voltaram a se sentar para tomar cerveja na &#8220;Avenida&#8221; (Avenida de Mayo), nos dias em que o term\u00f4metro marcava altas temperaturas: todos os dias ultrapassavam os 30 graus.<\/p>\n<p>A luta de classes foi tensionada ao m\u00e1ximo e no calor da luta, um fen\u00f4meno novo aparece: setores &#8220;civis&#8221; dos &#8220;jovens de bem&#8221; e jovens radicais defensores do governo &#8220;democr\u00e1tico&#8221; de Hipolito Yrigoyen, se organizam para atuar como &#8220;guardas brancos&#8221;. Sob prote\u00e7\u00e3o policial, se armaram e, com total impunidade, destru\u00edram bairros como Once e Almagro pelas tardes e \u00e0 noite, onde a imigra\u00e7\u00e3o judaica est\u00e1 principalmente alojada: saem para agredir os &#8220;russos&#8221;. A Argentina ser\u00e1 ent\u00e3o acusada de um novo t\u00edtulo nada honor\u00edfico: o de ser o \u00fanico pa\u00eds da Am\u00e9rica onde houve pogroms, isto \u00e9, planos orquestrados pela alta burguesia para atacar e intimidar, em especial, a popula\u00e7\u00e3o judaica. A Legi\u00e3o C\u00edvica, a Comiss\u00e3o da Juventude e a Associa\u00e7\u00e3o do Trabalho estabeleceram esse terr\u00edvel precedente que retomava as pol\u00edticas do czar russo e que antecipou o nazismo alem\u00e3o e austr\u00edaco em duas d\u00e9cadas. Na verdade, a Kristallnacht, -noites de vidros quebrados, se realizar\u00e3o apenas em 1938.<\/p>\n<p><strong>O balan\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Durante tr\u00eas dias a classe oper\u00e1ria &#8220;teve o poder&#8221; na cidade. Foi confirmado que quando a classe oper\u00e1ria faz uma greve geral poderosa, \u00e9 capaz de paralisar tudo &#8211; se estiver determinada a faz\u00ea-lo &#8211; e que os patr\u00f5es n\u00e3o t\u00eam meios para &#8220;colocar em movimento&#8221; empresas, transporte e o com\u00e9rcio. Em janeiro de 1919, a f\u00faria dos trabalhadores transbordou em todas as dire\u00e7\u00f5es e houve uma verdadeira insurrei\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular, altamente espont\u00e2nea e desorganizada, mas que &#8211; por meio de fatos &#8211; tamb\u00e9m entendeu a id\u00e9ia de confronto armado e n\u00e3o hesitou em lutar como foi poss\u00edvel: cerca de dez delegacias de pol\u00edcia foram cercadas pela multid\u00e3o e em v\u00e1rias delas houve muitos mortos e feridos.Todas as dire\u00e7\u00f5es foram ultrapassadas &#8211; incluindo as mais determinadas &#8211; e tanto a FORA do X Congreso quanto os Socialistas demonstraram seu &#8220;pacifismo&#8221; ao denunciar a ala revolucion\u00e1ria incorporada pela FORA V. A divis\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o impediu que a custo muito alto, as reivindica\u00e7\u00f5es se conseguissem e, finalmente, Vasena teve que aceit\u00e1-las.<\/p>\n<p>Por outro lado, a democracia radical foi posta \u00e0 prova e o car\u00e1ter de classe desse governo demag\u00f3gico foi demonstrado. Yrigoyen assumira em 1916 com o discurso de enfrentar as antigas oligarquias, mas seus m\u00e9todos repressivos selvagens seriam repetidos mais tarde na Patag\u00f4nia e no Chaco de La Forestal. O batismo de &#8220;democracia representativa&#8221; gerado com a Lei S\u00e1enz Pe\u00f1a de voto masculino obrigat\u00f3rio e secreto, n\u00e3o o tornou mais eloq\u00fcente: a UCR agiu com tanto \u00f3dio antioper\u00e1rio quanto seus predecessores aristocr\u00e1ticos e olig\u00e1rquicos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o governo &#8220;democr\u00e1tico&#8221; armou os civis, integrou e protegeu grupos para-policiais, como o &#8220;Comit\u00ea da Juventude (radical)&#8221;, a Associa\u00e7\u00e3o do Trabalho &#8211; grupo de fura greves &#8211; , os &#8220;Protetores da Ordem&#8221; &#8211; que realizavam coletas para a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito &#8211; e a &#8220;Legi\u00e3o C\u00edvica&#8221;, que operava no Centro Naval e era presidida pelo fascista Manuel Carl\u00e9s. Todos estes grupos de &#8220;jovens de bem&#8221; organizaram marchas de apoio ao governo com bandeiras argentinas e cantando o hino nacional e seus destacamentos se desprendiam delas para atacar qualquer oper\u00e1rio que cruzasse, especialmente se tivesse barba e apar\u00eancia de judeu.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da classe trabalhadora, a &#8220;Semana Tr\u00e1gica&#8221; mostrou que com valentia, aud\u00e1cia e coragem &#8211; que &#8220;sobraram&#8221;, se poderia dizer &#8211; n\u00e3o \u00e9 suficiente. Na mobiliza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea e massiva dos oper\u00e1rios, ficou evidente que a classe precisa de seus pr\u00f3prios organismos democr\u00e1ticos, no estilo dos sovi\u00e9ticos, para discutir e tomar decis\u00f5es unit\u00e1rias. Por outro lado, a falta de um partido revolucion\u00e1rio centralizado ficou evidente. Os sindicalistas revolucion\u00e1rios e anarquistas de professada f\u00e9 anticapitalista lutaram com bravura, mas a falta de um programa pol\u00edtico os impediu de ver as manobras pol\u00edticas do governo e da patronal e, mais ainda, colocar a quest\u00e3o do poder que, como dissemos desde o in\u00edcio, a greve geral havia colocado na ordem do dia.<\/p>\n<p>A terr\u00edvel repress\u00e3o, no entanto, deixou um saldo: o &#8220;milagre&#8221; econ\u00f4mico que muitos lembram como a opulenta Argentina de Marcelo T. de Alvear, o sucessor de Yrigoyen, se assentou sobre uma not\u00e1vel diminui\u00e7\u00e3o das lutas oper\u00e1rias: em 1919 havia mais de 300.000 grevistas, enquanto a m\u00e9dia entre 1925 e 1930 seria dez vezes menor.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em janeiro de 1919, uma luta oper\u00e1ria que come\u00e7ou por reivindica\u00e7\u00f5es &#8220;m\u00ednimas&#8221; terminou em uma greve geral com caracter\u00edsticas insurrecionais. A jovem &#8220;democracia&#8221; do radicalismo mostrou que sua defesa do capitalismo era intransigente.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":25796,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[94,8],"tags":[6951,6952,6369],"class_list":["post-25795","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-argentina","category-historia","tag-semana-tragica-argentina","tag-sociedade-de-resistencia-metalurgicos-unidos","tag-tito-mainer"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/maxresdefault-2.jpg","categories_names":["Argentina","Hist\u00f3ria"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25795","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25795"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25795\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25795"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}