{"id":25585,"date":"2018-12-29T00:15:43","date_gmt":"2018-12-29T02:15:43","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=25585"},"modified":"2018-12-29T00:15:43","modified_gmt":"2018-12-29T02:15:43","slug":"recuperando-a-verdade-sobre-o-seriado-trotsky-exibido-pela-netflix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/12\/29\/recuperando-a-verdade-sobre-o-seriado-trotsky-exibido-pela-netflix\/","title":{"rendered":"Recuperando a verdade sobre o seriado \u201cTrotsky\u201d exibido pela Netflix"},"content":{"rendered":"<p><em>As cal\u00fanias s\u00f3rdidas e criminosas sobre Trotsky continuam, 100 anos depois<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Marcio Cury<\/p>\n<p>O seriado \u201cTrotsky\u201d, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela Netflix no Brasil, causou certa expectativa e, por que n\u00e3o dizer tamb\u00e9m, uma certa anima\u00e7\u00e3o, em ver a megadistribuidora mundial de filmes apresentando um document\u00e1rio sobre um dos principais l\u00edderes revolucion\u00e1rios mundiais e protagonista da Revolu\u00e7\u00e3o Russa (1917).<\/p>\n<p>Afinal, para quem j\u00e1 havia trazido \u201cO eleito\u201d (originalmente \u201cThe chosen\u201d), filme que conta com bastante fidelidade a prepara\u00e7\u00e3o pelos stalinistas do assassinato de Trotsky no M\u00e9xico, a nova produ\u00e7\u00e3o prometia grandes expectativas.<\/p>\n<p>Seguindo a onda de produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e visuais comemorativas dos 100 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, um seriado sobre Trotsky soava como o \u00e1pice das produ\u00e7\u00f5es que resgatavam os momentos de tomada de poder pelo proletariado, campesinato e soldados russos.<\/p>\n<p>Infelizmente a alegria durou muito pouco. Na pr\u00e1tica, durou apenas alguns tristes segundos de exibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Quem fez o seriado?<\/strong><\/p>\n<p>Produzido em 2017, o seriado dirigido por Alexander Kott e Konstantin Statsky estreou na emissora de TV Channel One, da Federa\u00e7\u00e3o Russa, em novembro de 2017.<\/p>\n<p>Channel One \u00e9 um antigo canal de TV estatal sovi\u00e9tico, que a partir de 1991, com a fragmenta\u00e7\u00e3o da URSS, foi nacionalizado russo por Boris Yeltsin e em 1994 privatizado, sendo adquirido por \u00f3rg\u00e3os estatais e bancos. Este mesmo canal recebeu forte aporte financeiro de bancos estatais russos em 1998 e sempre manteve um forte apoio a Putin e seus aliados, promovendo programas cr\u00edticos \u00e0 sua oposi\u00e7\u00e3o. No marco das den\u00fancias ao papel das emissoras de TV que apoiam Putin, o Channel One tem recebido fortes contesta\u00e7\u00f5es \u00e0 sua programa\u00e7\u00e3o e a outros seriados sobre a hist\u00f3ria russa. Sim, Trotsky n\u00e3o foi a primeira produ\u00e7\u00e3o. A emissora produziu \u201cBrezhnev\u201d e outros seriados hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Mas isso, por si s\u00f3, n\u00e3o seria motivo para diminuir as expectativas sobre o seriado.<\/p>\n<p>Por ser bem filmado e bem produzido, causando grande impacto visual, desde a apari\u00e7\u00e3o do Trem Blindado que Trotsky utilizou para visitar as frentes de batalha durante a Guerra Civil at\u00e9 as cenas de soldados no front, o filme apresenta-se bem convincente para um espectador desavisado ou historicamente desinformado.<\/p>\n<p>Na verdade, a superprodu\u00e7\u00e3o tem exatamente este objetivo: mostrar-se convincente. Na pr\u00e1tica, veremos que se trata de uma grotesca e fantasiosa produ\u00e7\u00e3o sobre Trotsky, L\u00eanin e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o grande a quantidade de modifica\u00e7\u00f5es, falsifica\u00e7\u00f5es e fantasias no seriado que n\u00e3o seria exagero dizer que ele supera as aberra\u00e7\u00f5es produzidas contra Trotsky pelo stalinismo e seus ep\u00edgonos. Se os stalinistas tentaram apagar Trotsky da hist\u00f3ria e criaram sobre ele falsas trajet\u00f3rias, o seriado recria um dos maiores revolucion\u00e1rios da hist\u00f3ria como um oportunista cruel, disposto a vender-se em troca de seu prest\u00edgio pessoal e poder. N\u00e3o apenas Trotsky, mas junto com ele L\u00eanin.<\/p>\n<p>Trotsky aparece como um oportunista, sem escr\u00fapulos, cujo \u00fanico objetivo \u00e9 realizar \u201ca revolu\u00e7\u00e3o\u201d, colocando-se em primeiro lugar sobre todas as demais quest\u00f5es e contornando de forma oportunista todas elas. Ele \u00e9 o anti-her\u00f3i que se aproveita espertamente das situa\u00e7\u00f5es, fazendo acordos em troca de dinheiro, impondo o terror romano, seduzindo uma \u201cescritora\u201d revolucion\u00e1ria voluptuosa, sensual, lasciva e libertina, para um sexo forte e violento, no balan\u00e7o de um Trem Blindado\u2026<\/p>\n<p>Voc\u00ea pensa ser um filme de Monty Python, talvez a louca e alucinada continua\u00e7\u00e3o de \u201cA vida de Brian\u201d\u2026 N\u00e3o. N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><strong>Descobriram um novo Trotsky ou recriaram o stalinismo?<\/strong><\/p>\n<p>Poder\u00edamos pensar que os geniais produtores e diretores russos descobriram um novo Trotsky (e tamb\u00e9m um novo L\u00eanin), pois a abertura dos documentos secretos dos governos stalinistas, permitida ao final da era Gorbachev, teria trazido uma nova luz sobre a hist\u00f3ria, a ponto de reescrev\u00ea-la novamente. E nada melhor que fazer isso nos 100 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa!<\/p>\n<p>Mas, ao contr\u00e1rio, o que vimos nos documentos revelados foi a confirma\u00e7\u00e3o do que realmente significou Trotsky.<\/p>\n<p>A abertura e estudo dos documentos, antes secretos por d\u00e9cadas, comprovaram n\u00e3o apenas as trai\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m quase todos os crimes cometidos por St\u00e1lin e seus ajudantes, dentro e fora da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O acervo hist\u00f3rico liberado ap\u00f3s a era Gorbachev atestou de forma documental e hist\u00f3rica todas as trai\u00e7\u00f5es, cal\u00fanias, mentiras, assassinatos, falsifica\u00e7\u00f5es e crimes cometidos pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista burocr\u00e1tica. Os documentos comprovam absolutamente todos os acertos pol\u00edticos, acusa\u00e7\u00f5es e caracteriza\u00e7\u00f5es realizados por Trotsky contra a burocracia contrarrevolucion\u00e1ria, bem como toda a veracidade de seus atos durante os primeiros anos da revolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 a sua deporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Toda a sorte de cal\u00fanias, mentiras e falsifica\u00e7\u00f5es sobre Trotsky foi revelada. Trotsky foi reabilitado documentalmente para a eternidade.<\/p>\n<p>In\u00fameros pesquisadores norte-americanos, franceses, ingleses e russos trabalharam durante anos, debru\u00e7ando-se sobre toda a documenta\u00e7\u00e3o existente, e toda a constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas n\u00e3o alterou nada do que os revolucion\u00e1rios trotskistas falavam sobre a contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista como ainda pode constatar e acrescentar outras tantas conclus\u00f5es e provas sobre outros fatos, como fraudes em elei\u00e7\u00e3o para o Comit\u00ea Central do PCUS, mandatos de fuzilamentos, abusos morais da burocracia sobre a popula\u00e7\u00e3o e muito mais.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido, in\u00fameros trabalhos, cartas trocadas, artigos, livros e outros materiais produzidos por Trotsky e por v\u00e1rios opositores foram \u201cperdidos\u201d pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o e desaparecidos dos arquivos hist\u00f3ricos, desde 1925. Grande parte desse acervo foi encontrado e recuperado nos anos recentes (e ainda continuam a ser).<\/p>\n<p>Nenhum dos relatos e livros produzidos pelos que diretamente ou indiretamente estiveram estudando os documentos secretos revela algo diferente do que a hist\u00f3ria produzida pelos bi\u00f3grafos de Trotsky e o mesmo sempre narravam.<\/p>\n<p>Os estudos e pesquisas de v\u00e1rios historiadores, principalmente as obras de Dmitri Volkogonov, general do ex\u00e9rcito\u00a0sovi\u00e9tico, chefe do departamento de guerra psicol\u00f3gica e diretor do Instituto Hist\u00f3rico Militar que, tendo sido stalinista e um dos primeiros a ter acesso aos documentos secretos, escreveu uma das mais bem documentadas biografias sobre St\u00e1lin (St\u00e1lin: Triunfo e Trag\u00e9dia), L\u00eanin (L\u00eanin: uma nova biografia) e Trotsky (Trotsky: O Eterno Revolucion\u00e1rio), absolutamente nenhum deles descobriu ou recriou um novo Trotsky baseado em qualquer tipo de informa\u00e7\u00e3o nova, tendo como fonte quaisquer documentos antes nunca revelados.<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o documental \u00e9 muito importante porque revela que qualquer argumenta\u00e7\u00e3o para o seriado ser o que \u00e9, baseado em uma alega\u00e7\u00e3o de novas revela\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas, n\u00e3o procede de forma alguma. O seriado \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o, uma farsa, uma grande inven\u00e7\u00e3o difamat\u00f3ria neo-stalinista.<\/p>\n<p>O seriado n\u00e3o recria Trotsky. O seriado recria o stalinismo falsificador da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Recuperando a verdade: o primeiro epis\u00f3dio<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro epis\u00f3dio da s\u00e9rie inicia apresentando um fant\u00e1stico Trem Blindado e em seu interior um Trotsky dialogando com Larissa Reissner, apresentada como \u201cRevolucion\u00e1ria, poetisa e jornalista\u201d.<\/p>\n<p>Larissa Reissner aparece sedutora e voluptuosa, glamourosamente segurando uma piteira enquanto recita um poema. Sua imagem l\u00e2nguida e sensual d\u00e1 lugar a um gesto de voluntariamente se despir diante de um Trotsky imp\u00e1vido e seduzido. As cenas de amor se misturam com a trajet\u00f3ria do Trem Blindado, apresentando uma virilidade destemida de Trotsky.<\/p>\n<p>Esta primeira cena j\u00e1 mostra que o seriado n\u00e3o est\u00e1 para brincadeira. Na verdade, a primeira tentativa de difama\u00e7\u00e3o est\u00e1 exatamente em apresentar Larissa Reissner como uma estereotipada acompanhante pessoal de Trotsky, presente no vag\u00e3o para seduzi-lo e dispor-se sexualmente ao grande l\u00edder, que n\u00e3o deixa passar a oportunidade. Ela aparece como coadjuvante no objetivo de mostrar um Trotsky sem princ\u00edpios morais e um oportunista a qualquer pre\u00e7o, inclusive mantendo uma concubina em seu vag\u00e3o enquanto o mundo sovi\u00e9tico desaba na guerra civil.<\/p>\n<p>Larissa Reissner \u00e9 polonesa, nascida em 1895. Viveu com a fam\u00edlia em Berlim e posteriormente mudaram-se para S\u00e3o Petersburgo em 1905, estabelecendo moradia e estudos at\u00e9 os anos da Revolu\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro de 1917 ela passa a escrever para o jornal de Gorky e, ap\u00f3s outubro, passa a trabalhar diretamente para o novo governo. Adere ao Partido Bolchevique em 1918 e, devido \u00e0 guerra civil e exig\u00eancia de volunt\u00e1rios, torna-se soldado e comiss\u00e1ria pol\u00edtica. Atuou na frente oriental, desempenhando v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es heroicas em Sviazhsk, incluindo a espionagem atr\u00e1s das linhas inimigas. Escreveu tamb\u00e9m livros sobre a Guerra Civil e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p>Larissa Reissner acompanhou Trotsky em v\u00e1rias frentes e a\u00e7\u00f5es junto com muitos outros personagens bolcheviques do rec\u00e9m-criado Ex\u00e9rcito Vermelho. Ainda que possa ter havido alguma rela\u00e7\u00e3o entre ambos, n\u00e3o h\u00e1 nenhum registro biogr\u00e1fico de ningu\u00e9m sobre esta possibilidade, carecendo de autenticidade o envolvimento de ambos.\u00a0E mesmo que ela tivesse todas estas caracter\u00edsticas e quisesse realmente seduzir Trotsky, o faria por direito de ser e realizar. Mas n\u00e3o \u00e9 o objetivo do seriado apresent\u00e1-la como a mulher e soldado que realmente foi. Seu real perfil em nada se assemelha \u00e0 mulher que acompanha Trotsky em seu trem no seriado.<\/p>\n<p>O desrespeito e a difama\u00e7\u00e3o \u00e0 Larissa Reissner s\u00e3o grandes.\u00a0Sua dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o a fez viajar \u00e0 Alemanha em 1923 e morrer de febre tifoide em 1926 em Moscou. As refer\u00eancias prestadas a ela no seriado s\u00e3o criminosas.<\/p>\n<p>Mas deixemos que Trotsky nos relate as a\u00e7\u00f5es heroicas deste soldado bolchevique:<\/p>\n<p>\u201c<em>Larissa Reissner (\u2026)ocupou tamb\u00e9m um cargo importante no V Ex\u00e9rcito e na revolu\u00e7\u00e3o em geral. Essa mulher maravilhosa, que foi o encanto de tantos, cruzou pelo c\u00e9u da revolu\u00e7\u00e3o, em plena juventude, como um cometa de chamas. Sua figura de deusa ol\u00edmpica unia uma fina intelig\u00eancia, agu\u00e7ada pela ironia, \u00e0 bravura de um guerreiro. Depois da tomada de Kazan pelas tropas brancas, ela foi vestida de camponesa espionar as fileiras inimigas. Mas em seu aspecto havia algo de extraordin\u00e1rio que a delatou. Um oficial japon\u00eas de espionagem interrogou-a. Aproveitando-se de um descuido, correu pela porta, que estava mal guardada, e desapareceu. Desde ent\u00e3o, trabalhou na se\u00e7\u00e3o de espionagem. Mais tarde, embarcou na frota do Volga e participou dos combates. Dedicou \u00e0 guerra civil p\u00e1ginas admir\u00e1veis, que passar\u00e3o \u00e0 literatura com valor de eternidade; soube pintar com a mesma plasticidade a ind\u00fastria dos Urais e o levante dos oper\u00e1rios da bacia do Ruhr. Procurava saber de tudo, conhecer tudo, intervir em tudo. Em poucos anos, transformou-se numa escritora de primeira linha. E esta Palas Atena da revolu\u00e7\u00e3o, que passara inc\u00f3lume pela prova do fogo e da \u00e1gua, morreu, de repente, de tifo, nos tranquilos arredores de Moscou, sem nem chegar aos trinta anos<\/em>.\u201d (Minha Vida, Leon Trotsky)<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia e terror revolucion\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>O epis\u00f3dio prossegue em Sviazhsk, quando Trotsky chega \u00e0s cercanias da cidade e h\u00e1 um contingente de tropas rebeladas, recuando da frente. O trem para diante das tropas e um Trotsky totalmente de preto aparece, forma-se um corredor pomposo de soldados trazidos pelo trem ao som de uma trilha sonora que, por pouco, n\u00e3o foi a Marcha Imperial de John Williams para Darth Vader. A simbologia \u00e9 evidente. Mesmo sem o capacete de sobreviv\u00eancia, Trotsky chegou para por fim ao caos. Ao fundo, uma Larissa Reissner observa, vestida com um portentoso casaco de pele\u2026<\/p>\n<p>Em que pese um discurso bastante convincente, a a\u00e7\u00e3o de Trotsky \u00e9 dar um rel\u00f3gio a um soldado, afirmando com isso serem iguais. Esta cena pat\u00e9tica, que dispensa qualquer coment\u00e1rio, \u00e9 seguida de um relampejo onde Trotsky aparece, momentos antes, com Larissa Reissner, abrindo uma gaveta com v\u00e1rios rel\u00f3gios.\u00a0Sim, Trotsky se utiliza de ardis psicol\u00f3gicos entre as tropas, revela o seriado!<\/p>\n<p>Eis que ele manda o comandante escolher um a cada dez soldados (incluindo o comandante) para serem fuzilados! Este formato romano de puni\u00e7\u00e3o, conhecido como decimatio, era realizado contra uma unidade inteira em casos de deser\u00e7\u00e3o ou motim, e consistia em escolher um d\u00e9cimo das tropas para serem surrados e golpeados at\u00e9 a morte.\u00a0Trotsky tornou-se um b\u00e1rbaro, punindo suas tropas com o terror e a viol\u00eancia sem crit\u00e9rios.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o terror revolucion\u00e1rio e a viol\u00eancia revolucion\u00e1ria foram amplamente utilizados durante a Guerra Civil. Inspirados na experi\u00eancia jacobina, L\u00eanin e Trotsky sabiam que, sem claras ordens, instru\u00e7\u00f5es militares e puni\u00e7\u00f5es \u00e0s tropas, apenas o discurso, o convencimento e o trabalho pol\u00edtico dos comiss\u00e1rios n\u00e3o seria o suficiente para garantir a vit\u00f3ria. Os m\u00e9todos de Trotsky no Ex\u00e9rcito Vermelho visavam acabar com as trai\u00e7\u00f5es, que reinavam n\u00e3o apenas no comando-maior, como tamb\u00e9m entre os soldados.<\/p>\n<p>Vejamos as ordens claras de Trotsky:<\/p>\n<p>\u201c<em>Advirto que qualquer destacamento de soldados que empreender a retirada por sua pr\u00f3pria conta provocar\u00e1, em primeiro lugar, o fuzilamento do comiss\u00e1rio e, em segundo lugar, o do comandante. Os soldados corajosos e valentes ser\u00e3o colocados nos postos de comando. Os covardes, os ego\u00edstas e traidores n\u00e3o escapar\u00e3o das balas do pelot\u00e3o. Assim asseguro diante de todo o ex\u00e9rcito vermelho<\/em><em>.<\/em>\u201d (Ordem N\u00ba 59 do Presidente do Conselho Revolucion\u00e1rio de Guerra da Rep\u00fablica, Leon Trotsky, citado em Escritos Militares, Vol. 2)<\/p>\n<p>A viol\u00eancia foi utilizada tamb\u00e9m contra os Socialistas Revolucion\u00e1rios, ap\u00f3s serem descobertas v\u00e1rias tentativas de assassinato de l\u00edderes bolcheviques e a gesta\u00e7\u00e3o de uma insurrei\u00e7\u00e3o. Toda esta viol\u00eancia, justificada pela necessidade de lutar ferozmente pelo estabelecimento da ordem sovi\u00e9tica, teve resist\u00eancias dentro do Partido Bolchevique e na Internacional e foram reacendidas na luta pol\u00edtica pela burocracia stalinista.<\/p>\n<p>O caso que suscitou mais pol\u00eamica, e iria acompanhar as cal\u00fanias contra Trotsky por toda a vida, foi o julgamento de comandantes e comiss\u00e1rios pol\u00edticos bolcheviques que, durante a ofensiva de Kapel, capturaram um barco junto com seu regimento para fugir da linha de frente. Os desertores se renderam e foram capturados. Trotsky nomeou um Conselho de Guerra, que condenou o comandante, o comiss\u00e1rio e v\u00e1rios membros da tropa ao fuzilamento. No total, 27 pessoas foram condenadas.<\/p>\n<p>\u201c<em>Este epis\u00f3dio servir\u00e1 para construir a sombria lenda, incansavelmente repetida, de que Trotsky teria alinhado o regimento desertor e o dizimado \u00e0 maneira romana: cada d\u00e9cimo soldado teria sido fuzilado ao acaso. Ora, foi um tribunal militar de campanha que tomou a decis\u00e3o e condenou aqueles que julgou culpados.<\/em>&#8221; (Hist\u00f3ria da Guerra Civil Russa, Jean-Jaques Marie)<\/p>\n<p>Esta lenda, reconstru\u00edda pelo seriado, foi contada e recontada pelos soldados e oficiais contrarrevolucion\u00e1rios, aumentando o medo e o terror sobre as tropas inimigas diante da personalidade \u201ccruel\u201d de Trotsky.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 qualquer comprova\u00e7\u00e3o documental sobre o uso do decimatio por Trotsky, seus comandados ou por tribunais militares dentre a documenta\u00e7\u00e3o de Volkogonov.\u00a0 \u00c9 poss\u00edvel encontrar em alguns escritores americanos o fato, mas sem qualquer fundamenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, documental, artigo ou ordem militar, apenas uma repeti\u00e7\u00e3o uns dos outros e, com certeza, parte da lenda.<\/p>\n<p>Observemos que o stalinismo n\u00e3o utilizou a lenda do decimatio para caluniar a perseguir Trotsky, mas sim o fato de ele ter \u201cenviado\u201d para o fuzilamento os pr\u00f3prios bolcheviques.<\/p>\n<p>A lenda do decimatio foi reinventada pelo seriado.<\/p>\n<p><strong>A pris\u00e3o em Odessa e o nome Trotsky<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 muitas hist\u00f3rias sobre a origem do nome Trotsky. Uma delas, relatadas por um de seus maiores bi\u00f3grafos, Isaac Deutscher, era a de que Trotsky tirou o seu nome de um de seus carcereiros. Outra, a de que recebeu o passaporte com um nome preenchido ao fugir de sua primeira deporta\u00e7\u00e3o em Samara.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Trotsky n\u00e3o menciona a origem do nome, relatando apenas que preencheu o passaporte por acaso, com qualquer nome que lhe veio \u00e0 cabe\u00e7a. Tampouco faz qualquer refer\u00eancia sobre qualquer tipo de carcereiro.<\/p>\n<p>Entretanto, o seriado fantasia um relacionamento de ensinamento moral de seu carcereiro em Odessa, no ano de 1898, pris\u00e3o que permaneceu durante um ano e meio. Na fantasia, o seu carcereiro o convence de que o mesmo sabe que o futuro Trotsky desejava t\u00e3o somente o poder. O rosto de Trotsky abstra\u00eddo, com o pensamento navegante, prova que o carcereiro estava certo. O futuro Trotsky somente desejaria o poder. Mas era ainda inconsciente disso. A revela\u00e7\u00e3o veio de seu carcereiro, que lhe d\u00e1 uma grande li\u00e7\u00e3o: o povo russo precisa ser comandado e ele n\u00e3o queria outra coisa sen\u00e3o exatamente isso.<\/p>\n<p>No meio de cita\u00e7\u00f5es de Dostoievsky, o espectador \u00e9 levado a crer que Trotsky era apenas um \u00e1vido pelo poder. A personalidade de Trotsky \u00e9 constru\u00edda paulatinamente pelo seriado, apresentando ao espectador uma pessoa fria e obcecada.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 L\u00eanin quem chama Trotsky para o Iskra; n\u00e3o h\u00e1 encontro casual em Paris<\/strong><\/p>\n<p>Uma das cenas mais grotescas do seriado, ainda no primeiro epis\u00f3dio, relembrando fatos para justificar a sua personalidade, \u00e9 mostrar Trotsky em um caf\u00e9 parisiense, em 1902. No caf\u00e9 est\u00e3o L\u00eanin, Parvus, Plekanov e sua futura esposa, Nat\u00e1lia Sedova.\u00a0 Parece uma charge.<\/p>\n<p>Enquanto Trotsky discursa, Parvus assedia Natalia, deslizando sua m\u00e3o por cima da dela. Parvus \u00e9 o seu \u201csenhorio\u201d no seriado.<\/p>\n<p>Na plateia, um L\u00eanin atento e trocando olhares com Parvus ouve com concord\u00e2ncia o discurso de Trotsky, que mistura uma pr\u00e9via de \u201cbalan\u00e7os e perspectivas\u201d (1905) com um nacionalismo vulgar.\u00a0Trotsky fala que a revolu\u00e7\u00e3o ocorrer\u00e1 na R\u00fassia atrasada, e n\u00e3o na Europa moderna e \u201ceducada\u201d.<\/p>\n<p>Um Plekanov desdenhoso questiona Trotsky e resume corretamente o pensamento marxista na \u00e9poca: a R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 industrializada, \u00e9 atrasada, a revolu\u00e7\u00e3o se dar\u00e1 nos pa\u00edses industrializados.<\/p>\n<p>De fato, a grande elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Trotsky, considerada uma das maiores atualiza\u00e7\u00f5es marxistas da \u00e9poca, de que, em linhas gerais, sendo o proletariado o principal agente revolucion\u00e1rio na revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica na R\u00fassia, o mesmo iria conquistar o campesinato e consolidar o governo revolucion\u00e1rio do proletariado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ainda que o proletariado fosse minoria, sua alian\u00e7a com o campesinato transformaria ambos na for\u00e7a determinante e majorit\u00e1ria de uma revolu\u00e7\u00e3o. Devido a isso, a revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia n\u00e3o iria ser contida na revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, e sim \u201cpermaneceria\u201d at\u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o de um governo oper\u00e1rio e campon\u00eas.<\/p>\n<p>E que, pelas contradi\u00e7\u00f5es da R\u00fassia, seu endividamento com o resto da Europa e sua extrema pobreza, a revolu\u00e7\u00e3o poderia se dar antes na R\u00fassia que no resto dos demais pa\u00edses europeus industrializados, mas que dependeria deles para sobreviver, pois a alian\u00e7a com o campesinato era t\u00e1tica e n\u00e3o sobreviveria.<\/p>\n<p>Esta elabora\u00e7\u00e3o, uma grande contribui\u00e7\u00e3o para o m\u00e9todo marxista na \u00e9poca, antecipou, com uma ou outra vari\u00e1vel n\u00e3o prevista, exatamente como se daria a revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia e na Europa nos ano seguintes, e \u00e9 considerada uma das maiores contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas marxistas at\u00e9 hoje. Trotsky praticamente revoluciona todas as concep\u00e7\u00f5es na \u00e9poca, rompendo com a vis\u00e3o conservadora sobre o papel do proletariado na revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, que at\u00e9 ent\u00e3o era visto como sujeito social, mas de uma revolu\u00e7\u00e3o burguesa.<\/p>\n<p>Entretanto, o seriado continua com o discurso de Trotsky, colocando em sua boca um nacionalismo russo oculto em palavras que deslizavam de seu discurso: \u201cpot\u00eancia\u201d, \u201cuma for\u00e7a, como a for\u00e7a das mar\u00e9s\u201d, uma for\u00e7a que \u201cdestruir\u00e1 tudo o que estiver em seu caminho\u201d. Sim, Trotsky agora \u00e9 o l\u00edder de uma grande p\u00e1tria m\u00e3e chamada R\u00fassia. Um elogio \u00e0 R\u00fassia atual, de Putin.<\/p>\n<p>Obviamente, Trotsky jamais faria um discurso que inclu\u00edsse a segunda parte deste ato. Seu pensamento marxista j\u00e1 formado e seu internacionalismo prolet\u00e1rio, que seria testado e comprovado anos depois, o faria exasperar sua raiva contra os Romanov, os Hohenzollern e a bolsa de valores de Londres. Seu discurso jamais terminaria com uma R\u00fassia \u201cpot\u00eancia\u201d, mas sim de uma R\u00fassia pobre, feudal, e que apenas a revolu\u00e7\u00e3o na Europa poderia acelerar e salvar sua revolu\u00e7\u00e3o, criada pelo proletariado e o campesinato.<\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse, Plekanov se levanta irritado e temos o in\u00edcio da briga entre ambos. Em um caf\u00e9 de Paris, segundo o seriado.<\/p>\n<p>Mas o mais bizarro de tudo isso, que nunca existiu, \u00e9 quando L\u00eanin paga para Trotsky um dos salgados servidos, se apresenta e fala: \u201cQuero mudar o mundo. O que o povo tem a ver com isso? O povo \u00e9 um instrumento\u201d. \u201cNas suas m\u00e3os?\u201d, pergunta Trotsky. \u201cOu nas suas\u201d, responde L\u00eanin.<\/p>\n<p>E L\u00eanin conclui: \u201cVoc\u00ea aprende r\u00e1pido. Volte outro dia\u201d. \u201cComo amigos\u201d. \u201cN\u00e3o somos amigos\u201d, responde friamente Trotsky.<\/p>\n<p>O primeiro encontro entre os dois maiores l\u00edderes e te\u00f3ricos socialistas do s\u00e9culo XX foi resumido em um encontro entre um revolucion\u00e1rio \u00e1vido pelo poder e outro completamente indiferente ao povo, que trocam ofensas abstratas sem sentido algum!<\/p>\n<p>Esta infame hist\u00f3ria contada \u00e9 completamente desprovida de qualquer realidade. Na verdade, este encontro n\u00e3o apenas nunca ocorreu como os fatos s\u00e3o completamente outros.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, foi L\u00eanin quem convidou Trotsky para se apresentar em Londres, onde a dire\u00e7\u00e3o do POSDR (Partido Oper\u00e1rio Social Democrata Russo) redigia no estrangeiro o jornal Iskra, \u00f3rg\u00e3o do Partido dentro da R\u00fassia. L\u00eanin j\u00e1 era informado das atividades e escritos de Trotsky e desejava, al\u00e9m de conhec\u00ea-lo melhor, convid\u00e1-lo para fazer parte da dire\u00e7\u00e3o do Iskra, junto a outros emigrados.\u00a0Trotsky passou a fazer parte da equipe que redigia o jornal, e apenas quando L\u00eanin o prop\u00f5e para fazer parte da dire\u00e7\u00e3o \u00e9 que as rivalidades com Plekanov surgem.<\/p>\n<p>Trotsky conhece Nat\u00e1lia Sedova, que seria sua futura esposa, em Paris, durante uma de suas palestras organizadas por grupos de emigrados. Nat\u00e1lia Sedova n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o alguma com Parvus e n\u00e3o morava de aluguel em seu apartamento.<\/p>\n<p>Esta vers\u00e3o fantasiosa, conscientemente deturpada, tem o objetivo de prosseguir na constru\u00e7\u00e3o de uma caracteriza\u00e7\u00e3o de que os principais l\u00edderes revolucion\u00e1rios emigrados s\u00e3o um bando de charlat\u00f5es, frequentadores de caf\u00e9s em Paris, com dinheiro no bolso, alheios aos interesses do povo pobre da R\u00fassia, sorrateiros, insidiosos e assediosos entre si. Todo o estere\u00f3tipo que a burguesia sempre desejou construir de revolucion\u00e1rios profissionais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a despedida entre L\u00eanin e Trotsky, com um \u201cN\u00e3o somos amigos\u201d, visa reconstruir outra mentira stalinista, de que L\u00eanin e Trotsky tinham diferen\u00e7as mortais, eram inimigos e n\u00e3o havia confian\u00e7a entre si. Mais que reconstruir um L\u00eanin e Trotsky \u00e1vidos pelo poder, foi preciso reconstruir tamb\u00e9m a rivalidade entre ambos, n\u00e3o pol\u00edtica, mas pessoal, sem qualquer explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que as discord\u00e2ncias de L\u00eanin e Trotsky s\u00f3 viriam a aparecer um ano ap\u00f3s sua chegada \u00e0 Inglaterra. E que, apesar de L\u00eanin e Trotsky arrastarem suas diferen\u00e7as sobre a concep\u00e7\u00e3o de Partido durante anos, Trotsky nunca se alinhou ao pensamento menchevique e \u00e0 pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o menchevique. Ao chegar \u00e0 R\u00fassia em 1917, ambos falam em un\u00edssono e quase que sozinhos sobre n\u00e3o participarem do novo governo e prepararem a insurrei\u00e7\u00e3o, inclusive contra toda a dire\u00e7\u00e3o bolchevique na \u00e9poca, que dirigia o Partido da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o, L\u00eanin e Trotsky trabalharam e moraram quase juntos durante meses. Suas elabora\u00e7\u00f5es, consultas e acordos pol\u00edticos foram fundamentais durante a Revolu\u00e7\u00e3o, Guerra Civil e no in\u00edcio da luta contra a camarilha burocr\u00e1tica coesionada por St\u00e1lin, que come\u00e7ava a mandar e desmandar no aparato do Estado dentro e fora da R\u00fassia, e em particular na Ge\u00f3rgia, onde a dire\u00e7\u00e3o fora substitu\u00edda por nomeados por St\u00e1lin. A morte de L\u00eanin enfraqueceu a luta e a camarilha come\u00e7ou a criar estrat\u00e9gias para se consolidar e afastar Trotsky. Uma delas foi construir a vers\u00e3o que o mesmo era menchevique e que L\u00eanin tinha menores considera\u00e7\u00f5es por ele. Tudo reeditando velhas pol\u00eamicas e reescrevendo a hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos documentos de L\u00eanin, suas cartas ditadas, cartas de Krupskaia para Trotsky e outros documentos rec\u00e9m-liberados, como disse, mostraram um L\u00eanin obstinado por ter Trotsky a seu lado na luta dentro do Partido.<\/p>\n<p>O seriado tem o interesse de n\u00e3o apenas reescrever a Revolu\u00e7\u00e3o, como fez o stalinismo, mas tamb\u00e9m afastar L\u00eanin de Trotsky e apresent\u00e1-los como inimigos, cujo \u00fanico enlace entre ambos era apenas a luta pelo poder.<\/p>\n<p><strong>Parvus participou da revolu\u00e7\u00e3o de 1905 antes de trocar de vida<\/strong><\/p>\n<p>As fantasias criadas n\u00e3o t\u00eam fim. O seriado prossegue realizando um ins\u00f3lito encontro entre Parvus e Trotsky. Trotsky o acusa: \u201cGanha dinheiro com tudo\u201d, \u201c\u00c9 um oportunista\u201d. E Parvus come\u00e7a: \u201cPrecisamos de um novo l\u00edder\u201d. \u201cTorn\u00e1-lo famoso \u00e9 o meu trabalho\u201d. \u201cL\u00edder tem que controlar\u201d. \u201cParece sexo\u201d.<\/p>\n<p>Trotsky pergunta o que ele ganha com isso. \u201cDinheiro\u201d, responde Parvus. \u201cFarei dinheiro usando o seu nome\u201d. E ent\u00e3o Trotsky aceita: \u201cEu aceito. Quando come\u00e7amos?\u201d.<\/p>\n<p>Depois dessa fanfarronice total, Parvus o leva para morar em um pr\u00e9dio todo seu, onde hospeda os \u201cl\u00edderes socialistas\u201d, d\u00e1 para Trotsky um quarto e o leva para comprar roupas e vestir-se adequadamente.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s isso, Parvus se encontra com um misterioso alem\u00e3o, interessado em promover uma revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia e diz que isso custaria um bilh\u00e3o de marcos\u2026<\/p>\n<p>Alexander Parvus, nascido Israel Lazarevich Gelfand, foi um socialista russo, emigrado para a Su\u00ed\u00e7a e depois para a Alemanha, onde ingressou no Partido Social Democrata.\u00a0 Teve seu desenvolvimento te\u00f3rico reconhecido com um trabalho sobre a economia russa, denominado Manifesto Financeiro, recebendo elogios de L\u00eanin e tendo divulga\u00e7\u00e3o na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Parvus conhece Trotsky em 1903, quando come\u00e7am a trabalhar juntos em um jornal e a produzir os primeiros ensaios sobre a Teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, posteriormente desenvolvida e conclu\u00edda por Trotsky. Em 1905 retorna \u00e0 R\u00fassia e participa diretamente das atividades pol\u00edticas, ent\u00e3o tendo sido preso e condenado ao ex\u00edlio na Sib\u00e9ria. Conseguiu escapar e retornar \u00e0 Alemanha.<\/p>\n<p>A vida de Parvus at\u00e9 este per\u00edodo era dedicada \u00e0 pol\u00edtica, sendo ele considerado um dos maiores nomes te\u00f3ricos e pol\u00edticos na R\u00fassia. Longe de ser o oportunista que prevaleceria alguns anos depois, sua trajet\u00f3ria at\u00e9 ent\u00e3o perpassou os anos inc\u00f3lume ou ainda n\u00e3o descoberta.<\/p>\n<p>Aqui surge uma recria\u00e7\u00e3o interessante, que \u00e9 a fantasia de que os bolcheviques foram financiados pelos alem\u00e3es. Esse ardente desejo, surgido durante o governo provis\u00f3rio de Kerensky em 1917, em uma tentativa de deter o crescimento dos bolcheviques, \u00e9 reconstru\u00eddo pelo seriado j\u00e1 em 1902, como parte de uma tentativa de confirmar as futuras den\u00fancias!<\/p>\n<p>O fim de Parvus foi, como v\u00e1rios outros socialistas emigrados, trocar a revolu\u00e7\u00e3o por uma carreira confort\u00e1vel. Parvus fez dinheiro realmente. Depois de retornar da R\u00fassia em 1905, fez estranhos neg\u00f3cios com Gorky, neg\u00f3cios na Turquia com a venda de armas, e outras tantas atividades bizarras que lhe renderam muito dinheiro e muitas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>O seriado reconstr\u00f3i um Parvus financiando Trotsky (e tamb\u00e9m tendo financiado L\u00eanin e Plekanov), j\u00e1 em 1902, em busca de sucesso em sua empreitada revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ou seja, a simples antecipa\u00e7\u00e3o de alguns anos nos fatos coloca L\u00eanin e Trotsky em colis\u00e3o completa com o financiamento de Parvus e a sua vida de pol\u00edtico profissional.\u00a0 Ou seja, antecipamos alguns anos e temos realmente os bolcheviques sendo financiados por Parvus e, de quebra, pelos alem\u00e3es!<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. Toda a fantasia converge para a reconstru\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios bolcheviques em moldes profissionais sediciosos.<\/p>\n<p>Em pleno centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, o Partido e os revolucion\u00e1rios que organizaram, instru\u00edram, teorizaram e realizaram a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o passam de g\u00e2ngsteres para os olhares p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Em breve iremos confrontar com a verdade o segundo epis\u00f3dio\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As cal\u00fanias s\u00f3rdidas e criminosas sobre Trotsky continuam, 100 anos depois<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":25586,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[49],"tags":[4637,1382],"class_list":["post-25585","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-polemica","tag-marcio-cury","tag-trotsky"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/trotsky-seriado.jpg","categories_names":["Pol\u00eamica"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25585"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25585\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25586"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}