{"id":2547,"date":"2013-02-21T18:53:49","date_gmt":"2013-02-21T18:53:49","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/2013\/02\/21\/trafico-humano-dor-humilhacao-e-violencia-contra-as-mulheres\/"},"modified":"2013-02-21T18:53:49","modified_gmt":"2013-02-21T18:53:49","slug":"trafico-humano-dor-humilhacao-e-violencia-contra-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2013\/02\/21\/trafico-humano-dor-humilhacao-e-violencia-contra-as-mulheres\/","title":{"rendered":"Tr\u00e1fico humano: dor, humilha\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia contra as mulheres"},"content":{"rendered":"\n<div>\n\t<span style=\"font-size:12.0pt\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" align=\"left\" alt=\"\" border=\"0\" height=\"170\" hspace=\"4\" src=\"http:\/\/www.litci.org\/novosite\/wp-content\/uploads\/{9226A2F8-B786-4A24-B694-6DC5FC76A4B8}_25_julh_2_(1).jpg\" vspace=\"4\" width=\"210\" \/><span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O capitalismo d&aacute; aulas de como oprimir, como escravizar e submeter os seres humanos. Ao inv&eacute;s do bem-estar, da liberdade e emancipa&ccedil;&atilde;o, o que vem crescendo em todo o mundo &eacute; a explora&ccedil;&atilde;o, a humilha&ccedil;&atilde;o e escraviza&ccedil;&atilde;o de milh&otilde;es. Uma das pr&aacute;ticas que tem crescido muito ultimamente &eacute; a forma&ccedil;&atilde;o de verdadeiras empresas capitalistas dedicadas ao tr&aacute;fico internacional de mulheres. <\/span><\/span><\/span><br \/>\n\t<!--more--><br \/>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Come&ccedil;ou com pequenas empresas fazendo grandes neg&oacute;cios: raptavam meninas no Sul do pa&iacute;s e as levavam para o Norte e Nordeste onde eram escravizadas como prostitutas nos bord&eacute;is infectos que disputam o lugar com os bares no entorno dos &nbsp;grandes empreendimentos, como a constru&ccedil;&atilde;o de usinas. Agora, o neg&oacute;cio ficou mais sofisticado; rompeu as fronteiras nacionais e ganhou status internacional. Os pa&iacute;ses mais pobres da Am&eacute;rica Latina e Am&eacute;rica Central se tornaram celeiro de jovens que s&atilde;o enviadas para a &Aacute;sia, Europa e Estados Unidos, e nunca mais s&atilde;o vistas. <\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Viola&ccedil;&atilde;o das mais perversas contra os Direitos Humanos, o tr&aacute;fico de pessoas aparece no ranking global dos neg&oacute;cios il&iacute;citos como o terceiro ramo mais lucrativo do crime, perdendo apenas para o tr&aacute;fico de armas e drogas. Dentre essas formas de tr&aacute;fico, a maior incid&ecirc;ncia &eacute; o tr&aacute;fico para explora&ccedil;&atilde;o sexual de mulheres, tamb&eacute;m conhecido como &ldquo;trata&rdquo;. Considerada crime pela legisla&ccedil;&atilde;o brasileira, a trata em geral &eacute; de dif&iacute;cil detec&ccedil;&atilde;o, preven&ccedil;&atilde;o e puni&ccedil;&atilde;o, devido em grande parte ao sil&ecirc;ncio que impera entre os envolvidos, n&atilde;o raro ligados &agrave;s redes de prostitui&ccedil;&atilde;o, &agrave; pol&iacute;cia e aos cart&eacute;is do tr&aacute;fico de drogas e armas. <\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Talvez seja um dos neg&oacute;cios que mais tenha se beneficiado com a globaliza&ccedil;&atilde;o da economia a partir dos anos 80. As pesquisas indicam a exist&ecirc;ncia de quase 300 rotas nacionais e internacionais de tr&aacute;fico de pessoas. Estima-se que por ano cerca de um milh&atilde;o de jovens brasileiras, colombianas, bolivianas, equatorianas e de outros pa&iacute;ses pr&oacute;ximos sejam traficadas e escravizadas. Nesse montante, est&aacute; englobado tamb&eacute;m o tr&aacute;fico para retirada de &oacute;rg&atilde;os. Existem poucas pesquisas sobre o tema, as mais recentes datam do in&iacute;cio de 2000. Em 2004, a ONU divulgou um relat&oacute;rio comprovando que o tr&aacute;fico de seres humanos &eacute; majoritariamente administrado pelos mesmos integrantes do tr&aacute;fico de entorpecentes. O relat&oacute;rio constata que 83% das v&iacute;timas s&atilde;o mulheres, 48% menores de 18 anos e apenas 4% s&atilde;o homens. As estimativas globais em 2005 foram de 2,4 milh&otilde;es de pessoas traficadas e destes n&uacute;meros 98% s&atilde;o mulheres e garotas que fazem trabalho escravo, sendo que 43% s&atilde;o usadas para explora&ccedil;&atilde;o sexual comercial for&ccedil;ada, principalmente nas regi&otilde;es da Am&eacute;rica Latina e Caribe, rendendo cifras de US$ 1,3 bilh&atilde;o.<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Nessa estat&iacute;stica macabra, o Brasil det&eacute;m o vergonhoso t&iacute;tulo de campe&atilde;o latino-americano na &ldquo;exporta&ccedil;&atilde;o&rdquo; de mulheres para a &ldquo;ind&uacute;stria&rdquo; da prostitui&ccedil;&atilde;o nos pa&iacute;ses de &ldquo;primeiro mundo&rdquo;. O relat&oacute;rio de&nbsp;<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/2010\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2010<\/a>&nbsp;do&nbsp;<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Departamento_de_Estado_dos_Estados_Unidos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Departamento de Estado dos Estados Unidos<\/a>&nbsp;cita o Brasil como &quot;fonte de homens, mulheres, meninos e meninas para prostitui&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada no pa&iacute;s e no exterior&quot;. O Brasil passou a fazer parte do mapa do turismo sexual por volta dos anos 80, quando o mercado asi&aacute;tico come&ccedil;ou a se saturar e os pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina tornaram-se os destinos mais procurados por turistas europeus e japoneses. A d&eacute;cada de 90 consolidou o Nordeste brasileiro como para&iacute;so do turismo sexual e dos casamentos interculturais. Da&iacute; para o tr&aacute;fico de pessoas foi um pulo.<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O Relat&oacute;rio Anual de 2009 do Observat&oacute;rio do Tr&aacute;fico de Seres Humanos revelou que 40% das mulheres v&iacute;timas do tr&aacute;fico humano em Portugal s&atilde;o brasileiras. Baseado em 85 casos identificados em 2009, o estudo apontou que a maioria dessas mulheres &eacute; origin&aacute;ria de Goi&aacute;s, Minas Gerais e estados do Nordeste. As mulheres s&atilde;o aliciadas nas regi&otilde;es mais pobres do pa&iacute;s e levadas para as regi&otilde;es mais ricas. Esse &eacute; o chamado &ldquo;tr&aacute;fico interno&rdquo;, que tamb&eacute;m &eacute; grande no sul do pa&iacute;s, como Rio de Janeiro e S&atilde;o Paulo, al&eacute;m da rota que une o Rio Grande do Sul com os pa&iacute;ses vizinhos do Mercosul. No &ldquo;tr&aacute;fico externo&rdquo;, S&atilde;o Paulo e Rio de Janeiro s&atilde;o as portas de sa&iacute;da mais utilizadas, atrav&eacute;s de seus grandes aeroportos, que chamam menos a aten&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><b>Empres&aacute;rios do crime<\/b><\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O tr&aacute;fico de mulheres, sobretudo para o exterior, &eacute; uma opera&ccedil;&atilde;o delicada. Transportar pessoas de um lado a outro de forma ilegal, sobretudo para outros pa&iacute;ses, n&atilde;o &eacute; coisa que se fa&ccedil;a sem um grande esquema de sustenta&ccedil;&atilde;o. Por isso, s&atilde;o montadas verdadeiras empresas que envolvem diversos &ldquo;funcion&aacute;rios&rdquo;, incluindo contatos bem localizados e da maior confian&ccedil;a entre si aqui e no exterior, al&eacute;m de grandes somas de dinheiro, inclusive para cobrir os imprevistos. &nbsp;<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Esse esquema complexo requer que seus integrantes tenham facilidades junto &agrave;s autoridades para conseguir documentos, como passaportes e certid&otilde;es, e junto &agrave; pol&iacute;cia federal, que controla o fluxo nos aeroportos. &Eacute; um esquema caro, por isso em geral &eacute; financiado com o dinheiro do tr&aacute;fico de drogas.<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Os agenciadores buscam suas v&iacute;timas, de prefer&ecirc;ncia mulheres jovens entre 18 e 25 anos, em favelas e bairros empobrecidos, mas n&atilde;o &eacute; raro que tamb&eacute;m rondem as portas das escolas e faculdades de classe m&eacute;dia, onde uma grande concentra&ccedil;&atilde;o de jovens est&aacute; exposta ao consumo de bebida alco&oacute;lica e drogas, incluindo a prostitui&ccedil;&atilde;o. Essas jovens s&atilde;o &ldquo;convidadas&rdquo; a viver no exterior, com a promessa de um trabalho honesto e bem remunerado, moradia e outras facilidades. Recebem toda a documenta&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para viajar, inclusive passaporte, passagem e um adiantamento em dinheiro. Com um discurso coerente, passam sem problemas pelos controles dos aeroportos e conseguem desembarcar igualmente sem qualquer constrangimento.<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Quando chegam ao destino descobrem que ca&iacute;ram numa armadilha. S&atilde;o mantidas trancafiadas em c&aacute;rceres privados e obrigadas a trabalhar em casas de prostitui&ccedil;&atilde;o em regime de trabalho escravo, que n&atilde;o termina nunca porque elas t&ecirc;m de pagar suas &ldquo;d&iacute;vidas&rdquo; com passagens e documenta&ccedil;&atilde;o. Vivem sob constantes amea&ccedil;as, inclusive de verem suas fam&iacute;lias vitimadas caso tentem fugir ou fazer qualquer den&uacute;ncia contra as organiza&ccedil;&otilde;es criminosas. No exterior, elas s&atilde;o vistas como imigrantes, com toda a carga de preconceito que recai sobre esse setor da popula&ccedil;&atilde;o; o desconhecimento do idioma e das leis do pa&iacute;s agrava enormemente sua condi&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Encontrar essas mulheres, conhecer seu paradeiro e as condi&ccedil;&otilde;es de vida a que est&atilde;o submetidas n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil; quase sempre s&atilde;o mantidas incomunic&aacute;veis e impotentes para tomar qualquer atitude, deixando as fam&iacute;lias em desespero. Com o tempo, acabam entrando para o cadastro de pessoas desaparecidas e nunca mais se tem not&iacute;cia delas. <\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><b>&nbsp;<\/b><\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><b>Muitas leis, poucas a&ccedil;&otilde;es<\/b><\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">A pol&iacute;cia e as autoridades, o Estado em suma, alegam ter muitas dificuldades para conseguir exercer uma investiga&ccedil;&atilde;o a fundo contra o tr&aacute;fico de mulheres, a liberta&ccedil;&atilde;o delas e a pris&atilde;o dos culpados. Mas o fato concreto &eacute; que muitas vezes quem est&aacute; por tr&aacute;s do neg&oacute;cio s&atilde;o empres&aacute;rios milion&aacute;rios ou mesmo pol&iacute;ticos, que s&atilde;o acobertados pelas autoridades. Al&eacute;m disso, as leis n&atilde;o s&atilde;o cumpridas. A prostitui&ccedil;&atilde;o e a &ldquo;trata&rdquo; s&atilde;o quest&otilde;es exaustivamente abordadas e condenadas pela legisla&ccedil;&atilde;o internacional e nacional. O Brasil &eacute; aderente &agrave; Conven&ccedil;&atilde;o para Elimina&ccedil;&atilde;o de todas as formas de Discrimina&ccedil;&atilde;o Contra as Mulheres, assinada pela ONU em 1979. O Congresso Nacional aprovou em 2003, por meio da resolu&ccedil;&atilde;o 231, um protocolo contra o crime organizado e o tr&aacute;fico de pessoas, reconhecendo a necessidade de prote&ccedil;&atilde;o global e internacional dos direitos fundamentais internacionalmente reconhecidos, para as mulheres brasileiras. Al&eacute;m disso, o tr&aacute;fico internacional de pessoas para fins de explora&ccedil;&atilde;o sexual, bem como o tr&aacute;fico interno, s&atilde;o previstos no C&oacute;digo Penal Brasileiro, em seu artigo 231, com pena de reclus&atilde;o de 2 a 6 anos.<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">No entanto, o tr&aacute;fico vem aumentando a cada dia, sem que o Estado se empenhe a fundo em reprimir esse tipo de crime. Para que a Pol&iacute;cia Federal e o Minist&eacute;rio do Exterior se mexam &eacute; preciso aparecer algum caso chamativo na imprensa ou algu&eacute;m fazer alguma den&uacute;ncia que apare&ccedil;a na televis&atilde;o, como na novela da Rede Globo que recentemente divulgou a den&uacute;ncia de uma mulher cuja filha havia sido traficada para a Espanha. Ela e outras jovens eram mantidas em cativeiro dentro de uma casa de prostitui&ccedil;&atilde;o, sem poder sair ou se comunicar com o mundo exterior. O caso tomou tamanha repercuss&atilde;o que a pol&iacute;cia espanhola foi for&ccedil;ada a ir at&eacute; o local para libertar as jovens.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Esse caso foi uma exce&ccedil;&atilde;o. Em geral, as fam&iacute;lias n&atilde;o t&ecirc;m condi&ccedil;&otilde;es de investigar por conta pr&oacute;pria. &Agrave; sua impot&ecirc;ncia soma-se a in&eacute;rcia das autoridades competentes, al&eacute;m do preconceito que ronda as mulheres. N&atilde;o &eacute; incomum elas serem acusadas de mentirosas e terem sa&iacute;do do pa&iacute;s por livre e espont&acirc;nea vontade, sem consci&ecirc;ncia do que as esperava no exterior. Assim, n&atilde;o s&atilde;o consideradas v&iacute;timas, mas coparticipantes do processo, j&aacute; que deram seu consentimento e muitas vezes chegaram inclusive a assinar documentos autorizando a viagem. <\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Some-se a isso o fato de o C&oacute;digo Penal n&atilde;o estabelecer a diferen&ccedil;a entre prostitui&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada e volunt&aacute;ria; isso depende da interpreta&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia, do minist&eacute;rio p&uacute;blico e do judici&aacute;rio. Tanto uma quanto a outra n&atilde;o s&atilde;o criminalizadas, deixando assim os aliciadores com as m&atilde;os livres. &nbsp;Existe ainda o agravante de que a lei n&atilde;o considera o tr&aacute;fico como trabalho escravo, o que poderia assegurar a pris&atilde;o dos criminosos.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><b>A rela&ccedil;&atilde;o com a prostitui&ccedil;&atilde;o<\/b><\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">A rela&ccedil;&atilde;o entre o tr&aacute;fico de pessoas e a prostitui&ccedil;&atilde;o &eacute; direta. De acordo com o Relat&oacute;rio do Plano Nacional de Enfrentamento ao Tr&aacute;fico de Pessoas, publicado em 2010 e coordenado pela Secretaria Nacional de Justi&ccedil;a, do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, as mulheres, crian&ccedil;as, adolescentes e travestis j&aacute; envolvidos de alguma maneira com o ambiente da prostitui&ccedil;&atilde;o s&atilde;o os principais alvos do crime de tr&aacute;fico de pessoas, quando a pr&aacute;tica tem por fim a explora&ccedil;&atilde;o sexual. As v&iacute;timas t&ecirc;m em comum o fato de serem, em sua maioria, pessoas jovens, de baixa renda, pouca escolaridade, sem oportunidade nem perspectiva de melhoria de vida e provenientes de lugares e de regi&otilde;es pobres. Na aus&ecirc;ncia de ampla qualifica&ccedil;&atilde;o e pleno emprego, esses s&atilde;o, portanto, os setores da popula&ccedil;&atilde;o mais carentes e em situa&ccedil;&atilde;o de desamparo. Um estudo feito para o Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a em 2003 pergunta: &ldquo;por que mulheres (adultas e adolescentes) s&atilde;o aliciadas para fins sexuais? A resposta est&aacute; na raz&atilde;o direta da precariza&ccedil;&atilde;o de sua for&ccedil;a de trabalho e da constru&ccedil;&atilde;o social de sua subalternidade. No Brasil, o tr&aacute;fico para fins de explora&ccedil;&atilde;o sexual comercial, &eacute; predominantemente de mulheres e adolescentes negras, sendo que a faixa et&aacute;ria de maior incid&ecirc;ncia &eacute; de 22 a 24 anos e de 15 a 17 anos, respectivamente. Geralmente, s&atilde;o oriundas de classes populares, apresentam baixa escolaridade, habitam em espa&ccedil;os urbanos perif&eacute;ricos com car&ecirc;ncia de saneamento, transporte (dentre outros bens sociais comunit&aacute;rios), moram com algum familiar e t&ecirc;m filhos. [&#8230;] Sobre as condi&ccedil;&otilde;es de vida das mulheres\/adolescentes, antes de serem aliciadas pelos traficantes, a maioria prov&eacute;m de munic&iacute;pios de baixo desenvolvimento socioecon&ocirc;mico, situados no interior do Pa&iacute;s. Dentre as que vivem em capitais ou em munic&iacute;pios localizados nas regi&otilde;es metropolitanas, a grande maioria mora em bairros e &aacute;reas suburbanas ou perif&eacute;ricas&rdquo;. (Leal e Leal, 2003) <\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O mesmo estudo mostra que as mulheres mais sujeitas ao tr&aacute;fico humano s&atilde;o aquelas que &ldquo;j&aacute; sofreram algum tipo de viol&ecirc;ncia intrafamiliar (abuso sexual, estupro, sedu&ccedil;&atilde;o, atentado violento ao pudor, abandono, neglig&ecirc;ncia, maus tratos, dentre outros) e extrafamiliar (os mesmos e outros tipos de viol&ecirc;ncia em escolas, abrigos, em redes de explora&ccedil;&atilde;o sexual e outros tipos de rela&ccedil;&otilde;es); as fam&iacute;lias tamb&eacute;m apresentam quadros situacionais dif&iacute;ceis (viol&ecirc;ncia social, interpessoal e estrutural) vulner&aacute;veis frente &agrave; fragilidade das redes protetoras (fam&iacute;lia\/estado\/sociedade)&rdquo;. <\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Em 2011 um grupo de formandas em Servi&ccedil;o Social de S&atilde;o Paulo fez um amplo estudo sobre o tema, relacionando diretamente o tr&aacute;fico de seres humanos com a prostitui&ccedil;&atilde;o e explora&ccedil;&atilde;o sexual de mulheres. O estudo de Rosineide Silva, Roberta de Moraes e Alessandra Matricaldi traz uma s&eacute;rie de depoimentos de mulheres que viajavam para fora do pa&iacute;s na esperan&ccedil;a de conseguir um emprego e uma vida melhor, e acabaram v&iacute;timas da explora&ccedil;&atilde;o sexual. Essa realidade demonstra cabalmente como a opress&atilde;o das mulheres na sociedade capitalista, a situa&ccedil;&atilde;o de inferioridade em que s&atilde;o colocadas em todos os &acirc;mbitos, favorece esse tipo de crime. Alguns desses depoimentos foram colhidos junto ao Posto de Atendimento aos Migrantes que funciona no Aeroporto Internacional de Guarulhos em S&atilde;o Paulo desde 2006. &nbsp;&nbsp;<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">A maioria das mulheres relata que ao chegar ao pa&iacute;s de destino sentiram-se discriminadas por funcion&aacute;rios de migra&ccedil;&atilde;o e pelos cidad&atilde;os estrangeiros, relacionando-as a prostitutas e sentiram na pele o abuso de autoridade quando argumentavam que n&atilde;o tinham dinheiro e n&atilde;o sabiam falar o idioma. A maioria das mulheres atendidas viajava sem a certeza de conseguir um emprego, formal ou informal, contando apenas com algum parente ou amigo que, possivelmente, poderia lhe arrumar um emprego no pa&iacute;s de destino. Uma das mulheres relatou que foi agredida fisicamente por policiais da imigra&ccedil;&atilde;o espanhola, por ocasi&atilde;o de sua estadia no centro de imigra&ccedil;&atilde;o em Valen&ccedil;a\/Espanha. Conta que um policial tentou acarici&aacute;-la e foi repelido; como repres&aacute;lia, ele a espancou usando um cassetete de ferro, desferindo-lhe golpes nas n&aacute;degas enquanto outro policial a segurava pelos cabelos. Ao narrar suas hist&oacute;rias de vida, apontam para diferentes motiva&ccedil;&otilde;es para a migra&ccedil;&atilde;o, desde o desejo de n&atilde;o mais morar na zona rural at&eacute; para fugir de um marido ou um pai violento. Muitas contam que foram abusadas, intimidadas, amea&ccedil;adas, perseguidas e tiveram seus passaportes confiscados. Viviam em c&aacute;rcere privado e eram obrigadas a se prostituir, s&oacute; recebiam um preservativo por dia e eram vigiadas o tempo todo. Com medo de prejudicar a fam&iacute;lia, procuravam n&atilde;o se rebelar; para poder comer, tinham que ficar com mais de um homem por noite. S&oacute; saiam para ir ao cabeleireiro, lojas e mercados, j&aacute; que precisavam se cuidar, mas sempre escoltadas e n&atilde;o tinham permiss&atilde;o de fazer liga&ccedil;&otilde;es para os familiares. As que viveram esta situa&ccedil;&atilde;o relatam que s&oacute; conseguiram voltar porque pagaram pela sua liberdade e outras por terem conseguido ajuda para fugir.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-autospace:none\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O tr&aacute;fico de mulheres e a explora&ccedil;&atilde;o sexual s&atilde;o pr&aacute;ticas correlatas &agrave; explora&ccedil;&atilde;o e opress&atilde;o das mulheres no conjunto da sociedade. As mulheres s&atilde;o vistas como mercadoria, como objetos sexuais e propriedade privada, que podem ser vendidas e traficadas ao bel prazer dos ricos. Inclusive muitos grandes burgueses, empres&aacute;rios e banqueiros participam dessas atividades il&iacute;citas, e ganham milh&otilde;es de d&oacute;lares com isso. A prostitui&ccedil;&atilde;o em larga escala, como institui&ccedil;&atilde;o do Estado burgu&ecirc;s, tamb&eacute;m &eacute; uma viol&ecirc;ncia desmedida contra as mulheres.&nbsp;Trata-se de um grande neg&oacute;cio, onde as maiores v&iacute;timas s&atilde;o as pr&oacute;prias mulheres, que se v&ecirc;em presas a essa pr&aacute;tica, sem forma de livrar-se de um sistema que muitas vezes tamb&eacute;m as envolvem no consumo de drogas. Sem emprego digno, sem educa&ccedil;&atilde;o de boa qualidade, sem perspectiva de um futuro de felicidade e plenitude, a grande maioria dessas mulheres n&atilde;o tem outra sa&iacute;da que entregar-se &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o como forma de ganhar a vida. Essa situa&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica de vida tamb&eacute;m &eacute; aquela que permite o tr&aacute;fico de mulheres, j&aacute; que muitas delas t&ecirc;m a ilus&atilde;o de conseguir em outro pa&iacute;s um emprego e uma vida melhor para sua fam&iacute;lia, mas a realidade cruel tem nos mostrado que esse &eacute; um caminho sem volta.<\/span><\/span><\/div>\n<p>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Um sistema assentado na explora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica de milh&otilde;es de seres humanos n&atilde;o poderia produzir outra coisa. Conforme o capitalismo avan&ccedil;a, a situa&ccedil;&atilde;o tende a ficar cada vez pior. A degenera&ccedil;&atilde;o dos seres humanos, os trabalhos vis e humilhantes, a destrui&ccedil;&atilde;o dos v&iacute;nculos de fam&iacute;lia sem que o Estado os substitua por outra realidade criam um mundo de dor, onde o &uacute;nico que avan&ccedil;a &eacute; o ego&iacute;smo, o individualismo, o &ldquo;salve-se quem puder&rdquo;. E os setores mais oprimidos, como os jovens, as mulheres, em especial, as pobres e negras, os imigrantes, s&atilde;o as maiores v&iacute;timas.<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O capitalismo d&aacute; aulas de como oprimir, como escravizar e submeter os seres humanos. Ao inv&eacute;s do bem-estar, da liberdade e emancipa&ccedil;&atilde;o, o que vem crescendo em todo o mundo &eacute; a explora&ccedil;&atilde;o, a humilha&ccedil;&atilde;o e escraviza&ccedil;&atilde;o de milh&otilde;es. Uma das pr&aacute;ticas que tem crescido muito ultimamente &eacute; a forma&ccedil;&atilde;o de verdadeiras empresas capitalistas dedicadas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7007,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3970,3523],"tags":[],"class_list":["post-2547","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-imigrantes","category-opiniao"],"fimg_url":false,"categories_names":["Imigrantes","Opini\u00e3o"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2547","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2547"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2547\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}