{"id":25434,"date":"2018-12-14T10:06:45","date_gmt":"2018-12-14T12:06:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=25434"},"modified":"2018-12-14T10:06:45","modified_gmt":"2018-12-14T12:06:45","slug":"relato-sobre-a-passagem-pelo-mexico-da-primeira-caravana-migrante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/12\/14\/relato-sobre-a-passagem-pelo-mexico-da-primeira-caravana-migrante\/","title":{"rendered":"Relato sobre a passagem pelo M\u00e9xico da primeira caravana migrante"},"content":{"rendered":"<p><em>Os primeiros integrantes da caravana migrante chegaram \u00e0 Cidade do M\u00e9xico em 3 de novembro. Optaram por passar pela cidade, o que leva a tomar a rota mais longa em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 fronteira com os Estados Unidos, pelo poss\u00edvel apoio pol\u00edtico que poderiam receber, considerando que desde 2017 a Cidade do M\u00e9xico \u00e9 considerada uma cidade santu\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por:\u00a0<em>Jenin Villa Roja, juventude CST<\/em><\/p>\n<p>Cerca de 5 mil pessoas foram instaladas no est\u00e1dio El Palillo, em um albergue improvisado pelo governo da capital (PRD \u2013 Partido da Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica) e o Grupo de transi\u00e7\u00e3o (MORENA \u2013 Movimento de Regenera\u00e7\u00e3o Nacional) que vem assumindo tarefas de governo, apesar de tomar posse no pr\u00f3ximo 1\u00ba de dezembro.<\/p>\n<p>Uma grande parte dos migrantes s\u00e3o fam\u00edlias jovens com filhos bem pequenos, que foram distribu\u00eddas em 7 barracas, e nas arquibancadas do est\u00e1dio. Tamb\u00e9m foi not\u00f3ria a presen\u00e7a de menores n\u00e3o acompanhados e pessoas que buscam tratamento m\u00e9dico do outro lado da fronteira Norte. Um contingente LGBT, composto principalmente de mulheres transexuais, se fazia t\u00e3o vis\u00edvel como a enorme bandeira arco-\u00edris pendurada sobre uma ala dos banheiros.<\/p>\n<p>Permitiu-se aos migrantes o livre tr\u00e2nsito dentro e fora do est\u00e1dio e n\u00e3o foram cobrados passagem de metr\u00f4. Dentro das instala\u00e7\u00f5es, foi oferecido aos migrantes servi\u00e7os m\u00e9dicos gratuitos (inclusive sa\u00fade reprodutiva feminina), al\u00e9m da assessoria jur\u00eddica.<\/p>\n<p>Foi uma longa e extenuante viagem at\u00e9 chegar \u00e0 Cidade do M\u00e9xico. Desde o controle na fronteira com a Guatemala, no \u201cmuro imagin\u00e1rio\u201d que representa o trajeto muito perigoso no Sul do pa\u00eds at\u00e9 \u00e0 cidade que lhes ofereceu um albergue, os migrantes passaram por todo tipo de adversidades e fraudes, como \u00e9 habitual com todos aqueles que cruzam o M\u00e9xico para alcan\u00e7ar o \u201csonho americano\u201d.<\/p>\n<p>Para chegar \u00e0 Cidade do M\u00e9xico, a caravana passou pelo estado de Veracruz, onde o governador Miguel \u00c1ngel Yunes, prometeu transportar em \u00f4nibus as quase 5 mil pessoas. Ap\u00f3s anunciar o oferecimento de 150 caminh\u00f5es, que logo foi rebaixado para 10, os migrantes que esperaram para partir \u00e0s 5:00 no lugar prometido, souberam que esse aux\u00edlio havia sido cancelado pelo Estado. Em mensagem compartilhada horas depois, Yunes justificou que \u201cdevido ao corte geral de \u00e1gua\u201d, que a capital do pa\u00eds estaria sofrendo, seria melhor para os centro-americanos ficassem no Estado de Veracruz.<\/p>\n<p>Nessa mesma data, o ombudsman da defensoria dos Direitos Humanos de Oaxaca, Arturo Peimbert Calvo, denunciou o desaparecimento de 100 migrantes que, ante a aus\u00eancia de transporte, \u201csubiram em caminh\u00f5es que se ofereceram para lev\u00e1-los\u201d. Um processo de investiga\u00e7\u00e3o foi aberto no Estado de Puebla sobre este caso.<\/p>\n<p>Dia ap\u00f3s dia, a incerteza cresce entre as fam\u00edlias migrantes. Cercadas por funcion\u00e1rios de organismos nacionais e internacionais (inclu\u00eddo os EUA), que lhes oferecem a alternativa \u201cmenos sofrida\u201d ou arriscada de ficar no M\u00e9xico, o \u201cFiltro mexicano\u201d vai produzindo seu efeito. Os reiterados \u201cconselhos\u201d para convencer-lhes de que interrompam sua viagem foram gerando uma divis\u00e3o interna na caravana que se expressou em suas \u00faltimas assembleias.<\/p>\n<p>Enquanto o prop\u00f3sito original era caminharem juntos para garantir a seguran\u00e7a coletiva e exercer press\u00e3o pol\u00edtica, a expectativa de alguns por esperar caminh\u00f5es solicitados \u00e0 miss\u00e3o da ONU, para seguir o trajeto, os dividiu. O organismo internacional negou-se a fornecer os caminh\u00f5es, argumentando que eles \u201cn\u00e3o podem facilitar o transporte \u00e0 fronteira se o governo de Trump n\u00e3o os quer receber\u201d. Al\u00e9m disso, o governo eleito de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador (AMLO), recusou-se a reunir-se com eles para negociar um transporte.<\/p>\n<p>Levados \u00e0 exaust\u00e3o, uma parte dos migrantes retomou sua marcha antes do acordado em assembleia. Os migrantes que decidiram esperar um dia mais eram principalmente fam\u00edlias com crian\u00e7as muito pequenas, por isso \u00e9 que solicitavam contar com os caminh\u00f5es.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s retomar a marcha em dire\u00e7\u00e3o ao Norte, os problemas foram se agravando. O governador de Jalisco, Arist\u00f3teles Sandoval D\u00edaz, n\u00e3o demorou em tomar a decis\u00e3o de n\u00e3o acolher a caravana por pretensas denuncias de que estariam consumindo e vendendo drogas, fatos que n\u00e3o foram constatados em nenhum dos outros lugares por onde passaram os centro-americanos. Por esta raz\u00e3o, se restringia o acesso pelas zonas urbanas \u00e0queles que j\u00e1 estavam em albergues deste estado: <em>\u201cRecomendamos que voltem diretamente de<\/em> <em>onde vieram\u201d,<\/em> afirmou Sandoval.<\/p>\n<p><strong>Tijuana: <\/strong><strong>do inferno ao desespero <\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, a pior parte de sua marcha seria ao chegar \u00e0 cidade fronteiri\u00e7a de Tijuana, cujo muro divide com a cidade estadunidense de San Diego. Uma marcha xen\u00f3foba foi instigada e protagonizada por habitantes da Colonia de Playas de Tijuana, que se dirigiram ao lugar onde estavam algumas fam\u00edlias migrantes instaladas e as agrediram. A pol\u00edcia foi ao local, mas os colonos afirmaram que somente retrocederiam depois que os migrantes se retirassem do lugar.<\/p>\n<p>O trato do governo local em rela\u00e7\u00e3o aos migrantes foi abertamente xen\u00f3fobo, justificando a\u00e7\u00f5es repressivas e violentas. O prefeito de Tijuana, Juan Manuel Gast\u00e9lum, descreveu os migrantes como <em>\u201cvagabundos e maconheiros, que fumam na rua e agridem as fam\u00edlias de Playas de Tijuana\u201d<\/em>. Gast\u00e9lum acusou os migrantes de serem <em>\u201cdirigidos por desconhecidos e, portanto, representantes de uma grave situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a\u2026Estas pessoas chegam num esquema agressivo, grosseiro, com c\u00e2nticos, desafiando a autoridade, fazendo o que n\u00e3o estamos acostumados a fazer em Tijuana e que se saiba todo o M\u00e9xico: j\u00e1 esteve bem\u201d\u2026<\/em><\/p>\n<p>A cidade de Tijuana j\u00e1 declarou estado de crise humanit\u00e1ria, al\u00e9m de fazer uma peti\u00e7\u00e3o \u00e0 Secretaria de Governo para que lhes apoie financeiramente. Segundo Gast\u00e9lum, o gasto di\u00e1rio de meio milh\u00e3o de pesos foi custeado pelo governo local. Por outro lado, Gast\u00e9lum anuncia que levar\u00e1 o tema de acolher os migrantes a uma consulta cidad\u00e3: <em>\u201cEm Tijuana estamos fazendo uma consulta para saber se a cidadania quer que sigamos recebendo estes migrantes, estas pessoas que, repito, n\u00e3o s\u00e3o todos migrantes pois desafiam a autoridade, sobem nos muros, afetam os cidad\u00e3os tijuanenses, n\u00e3o aceitam a assist\u00eancia m\u00e9dica nem social\u201d<\/em>, disse. No caso do resultado da consulta ser negativo, <em>\u201cveremos como dispersamos os que j\u00e1 est\u00e3o aqui e colocaremos barreiras em Tecate para que outros j\u00e1 n\u00e3o entrem\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Diante das hostilidades e \u00e0 p\u00e9ssima infraestrutura para receb\u00ea-los, os centro-americanos foram ficando desesperados. Pelo menos 200 deles sa\u00edram do albergue rumo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o fronteiri\u00e7a de San Ysidro. A impaci\u00eancia n\u00e3o tardou em lev\u00e1-los a tentar cruzar a fronteira de qualquer maneira, ainda que Donald Trump j\u00e1 tivesse autorizado a abrir fogo contra eles. As imagens do ataque da Border Patrol do \u00faltimo domingo percorreram o mundo.<\/p>\n<p><strong>Nem AMLO, nem Trump: nenhuma confian\u00e7a nos governos<\/strong><\/p>\n<p>Em um M\u00e9xico polarizado, muitas queixas s\u00e3o feitas nas redes sociais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 caravana, fruto de reiteradas tentativas de diversos setores da burguesia e da burocracia sindical de tentar capitalizar a confus\u00e3o a seu favor. Questiona-se, por exemplo, porque aos migrantes hondurenhos \u00e9 dado o apoio negado aos afetados pelos terremotos um ano atr\u00e1s\u2013 que em muitos casos ainda est\u00e3o longe de receber uma resposta do governo.<\/p>\n<p>Posteriormente, surgiu um forte processo de deslocamento de popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, v\u00edtimas da viol\u00eancia, do Estado em Chiapas, j\u00e1 que o governador, Manuel Velasco(Partido Verde &#8211; PV), parece querer ser lembrado pelos chiapanecos desta forma. Esta situa\u00e7\u00e3o gera d\u00favidas entre muitos mexicanos e mexicanas, disputados pelos diversos projetos pol\u00edticos em meio a esta transi\u00e7\u00e3o de governo: \u201cse n\u00e3o temos para n\u00f3s, como ajudar os que chegam?\u201d<\/p>\n<p>Proliferam acusa\u00e7\u00f5es e rumores, surgidos desde o principio da caravana, de que os centro-americanos foram pagos para afetar a conjuntura pol\u00edtica atual. Inclusive o secretario de estado dos EUA, Mike Pence, chegou a dizer que os migrantes foram pagos pela Venezuela. Outros especularam que o pr\u00f3prio Donald Trump havia pagado aos migrantes hondurenhos para poder ressuscitar seu discurso xen\u00f3fobo e ganhar as recentes elei\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias. Por outro lado, o governo de Honduras coloca a culpa em seus opositores pol\u00edticos do partido do ex-presidente Manuel Zelaya. Por \u00faltimo, alguns setores no M\u00e9xico acreditam que tudo foi um plano para desestabilizar o pa\u00eds \u00e0s v\u00e9speras da posse de AMLO. Em tempos de <em>fake news<\/em>, as teorias conspirativas s\u00e3o mais surrealistas que em outras \u00e9pocas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Nem um ser humano \u00e9 ilegal! Todo apoio aos migrantes!<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhadores e trabalhadoras do M\u00e9xico n\u00e3o devem ceder \u00e0 confus\u00e3o, difundida pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o. Do ponto de vista da nossa classe, somos sempre os primeiros afetados com os ataques da burguesia diante das crises econ\u00f4micas, n\u00e3o faz sentido culpar quem foge da desintegra\u00e7\u00e3o generalizada de seu pa\u00eds, fruto de um golpe apoiado pelos Estados Unidos. Nossa primeira tarefa \u00e9 questionar a quem servem, tanto o Estado mexicano como o Estado estadunidense.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o fiquem d\u00favidas: a aten\u00e7\u00e3o concedida aos hondurenhos na capital de nosso pa\u00eds, conhecida nacionalmente por ser uma \u201cbolha de direitos\u201d em meio ao caos, est\u00e1 relacionada \u00a0mais de uma pol\u00edtica internacional do que a motiva\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias. Convencer \u201camavelmente\u201d a caravana que aceite ref\u00fagio no M\u00e9xico. \u00c9 uma maneira elegante de obedecer \u00e0s diretrizes estadunidenses e manter a pol\u00edtica de harmonia que manter\u00e1 o novo (e nefasto) acordo de livre comercio vigente.<\/p>\n<p>Cabe \u00e0 classe trabalhadora e ao povo pobre do M\u00e9xico organizar-se para receber este fluxo, que mais que uma caravana, \u00e9 o \u00eaxodo de trabalhadores que fogem do descontrole provocado por uma forte recoloniza\u00e7\u00e3o do nosso continente, como forma das burguesias nacionais e imperialistas de manter seus lucros frente \u00e0 profunda crise econ\u00f4mica internacional. Compreender que entre trabalhadores temos mais semelhan\u00e7as que com os burgueses e seus representantes que compartilham nossa pr\u00f3pria nacionalidade \u00e9 um elemento fundamental para assegurar uma vida digna, sem opressores nem exploradores.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os primeiros integrantes da caravana migrante chegaram \u00e0 Cidade do M\u00e9xico em 3 de novembro. 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