{"id":25404,"date":"2018-12-11T17:17:45","date_gmt":"2018-12-11T19:17:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=25404"},"modified":"2026-02-06T13:15:06","modified_gmt":"2026-02-06T13:15:06","slug":"debate-como-conseguir-a-segunda-independencia-da-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/12\/11\/debate-como-conseguir-a-segunda-independencia-da-america-latina\/","title":{"rendered":"Como alcan\u00e7ar a segunda independ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina?"},"content":{"rendered":"<p><em>O dom\u00ednio imperialista avan\u00e7a e se aprofunda na Am\u00e9rica Latina. A independ\u00eancia pol\u00edtica conquistada no s\u00e9culo XIX hoje \u00e9 formal e limitada. Os movimentos nacionalistas burgueses fracassaram em sua resist\u00eancia limitada e acabaram capitulando. Qual \u00e9 o caminho e quais s\u00e3o as tarefas para alcan\u00e7ar a segunda e definitiva independ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina?<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p>A liberta\u00e7\u00e3o nacional do jugo imperialista (isto \u00e9, a independ\u00eancia pol\u00edtica) \u00e9 uma &#8220;tarefa democr\u00e1tica&#8221;. Na linguagem marxista, essas tarefas s\u00e3o aquelas realizadas pela burguesia em sua \u00e9poca revolucion\u00e1ria, quando lutou e destruiu as estruturas econ\u00f4micas e o Estado feudal para se tornar a classe dominante da sociedade. Nessas tarefas, se apoiou e liderou as lutas das massas insurgentes em processos cujo modelo hist\u00f3rico era o da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789). As principais tarefas revolucion\u00e1rias realizadas pela burguesia na \u00e9poca foram a unidade nacional de v\u00e1rios pa\u00edses europeus, a destrui\u00e7\u00e3o do regime feudal e a constru\u00e7\u00e3o da democracia parlamentar burguesa, e a distribui\u00e7\u00e3o de terras (at\u00e9 ent\u00e3o, majoritariamente, de propriedade da nobreza) .<\/p>\n<p>Juntamente com estas revolu\u00e7\u00f5es, desenvolveu-se outro processo revolucion\u00e1rio que j\u00e1 n\u00e3o se dirigia contra o velho feudalismo, mas contra o capitalismo, que come\u00e7ava seu predom\u00ednio mundial: a luta pela independ\u00eancia de diferentes na\u00e7\u00f5es coloniais conquistadas pelas pot\u00eancias centrais em s\u00e9culos anteriores No continente americano, este per\u00edodo come\u00e7a com a independ\u00eancia dos Estados Unidos (1776), continua no Haiti (1804) e com o processo das col\u00f4nias espanholas (iniciado em 1810). Em todos os casos, houve guerras revolucion\u00e1rias para defender e consolidar a independ\u00eancia contra as na\u00e7\u00f5es colonialistas. A din\u00e2mica do Brasil foi diferente: quem declara a independ\u00eancia, em 1821, \u00e9 um setor da monarquia e a corte portuguesa instalada no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>As tarefas democr\u00e1ticas sob o capitalismo imperialista<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, em muitos pa\u00edses e regi\u00f5es, a burguesia foi incapaz de realizar uma ou v\u00e1rias tarefas democr\u00e1ticas, que, portanto, ficaram sem resolu\u00e7\u00e3o. Por outro lado, o desenvolvimento do capitalismo foi criando novas tarefas democr\u00e1ticas e a necessidade de lutar por elas. Por exemplo, o ressurgimento da escravid\u00e3o em grande escala nos Estados Unidos, no Brasil, na Am\u00e9rica Central e no Caribe ao servi\u00e7o do desenvolvimento capitalista (principalmente com o sequestro e transporte \u00e0 for\u00e7a de escravos negros africanos), v\u00e1rias de cujas consequ\u00eancias subsistiram ao abolir a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou a opress\u00e3o dos povos ind\u00edgenas latino-americanos derivada da coloniza\u00e7\u00e3o e que se manteve ap\u00f3s a independ\u00eancia. Al\u00e9m disso, como vimos, no s\u00e9culo XX, desenvolveu-se uma nova forma de domina\u00e7\u00e3o por parte das pot\u00eancias imperialistas: a semicoloniza\u00e7\u00e3o. Uma tarefa foi colocada na ordem do dia: a &#8220;liberta\u00e7\u00e3o nacional&#8221; ou a &#8220;segunda e definitiva independ\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>Por tudo o que analisamos, a luta por tarefas democr\u00e1ticas velhas e novas est\u00e1 na ordem do dia. Mas j\u00e1 n\u00e3o se dirige contra o sistema e as classes feudais (ou seus remanescentes) ou contra os velhos imp\u00e9rios coloniais, mas contra o capitalismo imperialista como um todo, ou seja, contra a burguesia imperialista e contra as burguesias nacionais (que s\u00e3o seus agentes). Isso significa que a luta pelas tarefas democr\u00e1ticas passa a fazer parte de um processo mais amplo que as engloba: a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e socialista e suas pr\u00f3prias tarefas.<\/p>\n<p><strong>A atualidade da teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro a apontar claramente essa continuidade ou &#8220;nexo interno&#8221; das diferentes tarefas revolucion\u00e1rias foi Trotsky no debate entre os marxistas russos, desenvolvido entre as revolu\u00e7\u00f5es de 1905 e 1917. Em seguida, com base na experi\u00eancia dessa revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa e da que foi derrotada na China (1923-1928), escreveria a formula\u00e7\u00e3o definitiva de sua Teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente. Em uma de suas teses, ele expressa:<\/p>\n<p><em>No que diz respeito aos pa\u00edses com um desenvolvimento burgu\u00eas retardat\u00e1rio, e em particular dos semicoloniais, a teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente significa que a resolu\u00e7\u00e3o completa e efetiva de seus fins democr\u00e1ticos e de sua emancipa\u00e7\u00e3o nacional s\u00f3 \u00e9 conceb\u00edvel por meio da ditadura do proletariado, exercendo este o poder como caudilho da na\u00e7\u00e3o oprimida e, acima de tudo, de suas massas camponesas<\/em>. [1]<\/p>\n<p>Isso significa que a classe oper\u00e1ria deve tomar o poder como caudilho da &#8220;<em>na\u00e7\u00e3o e das massas oprimidas<\/em>&#8221; e come\u00e7ar a resolver essas tarefas democr\u00e1ticas juntamente com tarefas pr\u00f3prias da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Todos esses conceitos s\u00e3o aplicados, de maneira aguda, na Am\u00e9rica Latina. Ao n\u00e3o avan\u00e7ar para a revolu\u00e7\u00e3o socialista em n\u00edvel nacional (e menos ainda impulsionar a sua expans\u00e3o internacional), os processos revolucion\u00e1rios ou de resist\u00eancia desenvolvidos nos s\u00e9culos XX e XXI acabaram recuando e abortando ou sendo derrotados. \u00c9 responsabilidade da pol\u00edtica aplicada pelas dire\u00e7\u00f5es burguesas e pequeno-burguesas. Deste modo, as vit\u00f3rias obtidas com lutas revolucion\u00e1rias ou de resist\u00eancias se perderam ou se desgastaram ao extremo.<\/p>\n<p><strong>Uma exce\u00e7\u00e3o: a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana<\/strong><\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, houve uma exce\u00e7\u00e3o a essa regra: a revolu\u00e7\u00e3o liderada por Fidel Castro e Che Guevara, que em 1959 derrubou a ditadura pr\u00f3-ianque de Fulgencio Batista. A maioria da dire\u00e7\u00e3o do Movimento 26 de Julho (M26J) vinha da juventude estudantil burguesa ou pequeno-burguesa e seu programa era &#8220;democr\u00e1tico popular&#8221;. Ou seja, n\u00e3o ultrapassava os limites do capitalismo ou do regime democr\u00e1tico-burgu\u00eas [2].<\/p>\n<p>Depois de tomar o poder, o M26J tentou aplicar seu programa &#8220;democr\u00e1tico popular&#8221; e formou um governo com numerosos pol\u00edticos burgueses que tinham sido oposi\u00e7\u00e3o a Batista. No entanto, a realidade pressionou a dire\u00e7\u00e3o castrista e a levou-a a &#8220;ir al\u00e9m&#8221; de suas inten\u00e7\u00f5es e de seu programa. Ao come\u00e7ar a implementar medidas como a reforma agr\u00e1ria e expropria\u00e7\u00e3o de algumas empresas de Batista associadas ao imperialismo, o setor da burguesia cubana que tinha apoiado Fidel, e o pr\u00f3prio imperialismo, come\u00e7aram a atac\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O resultado imediato dessa alian\u00e7a foi a tentativa fracassada de invadir a Ba\u00eda dos Porcos -Praia Gir\u00f3n (abril de 1961), apoiada pela CIA e pelo governo de John F. Kennedy.<\/p>\n<p>Em resposta, o governo de Castro aprofundou a pol\u00edtica de expropria\u00e7\u00e3o de empresas e campos da burguesia e do imperialismo e come\u00e7ou a aplicar um plano econ\u00f4mico centralizado pelo Estado. Como resultado, tornou-se o primeiro Estado oper\u00e1rio na Am\u00e9rica Latina e, assim, iniciou o caminho da transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. Che Guevara expressou essa realidade dizendo que a revolu\u00e7\u00e3o socialista em Cuba havia se tornado &#8220;contra-golpe&#8221;.<\/p>\n<p>Para os trotskistas, o processo cubano corroborava a quest\u00e3o levantada por Trotsky: a plena resolu\u00e7\u00e3o das tarefas democr\u00e1ticas implica avan\u00e7ar para a ditadura do proletariado. A dire\u00e7\u00e3o de Castro tem o grande m\u00e9rito de ter decidido &#8220;avan\u00e7ar&#8221; e &#8220;ir al\u00e9m&#8221; de seu programa. Che Guevara expressou isso em sua frase: &#8220;<em>Revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o avan\u00e7a, retrocede<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, Cuba foi, durante quase tr\u00eas d\u00e9cadas, o \u00fanico pa\u00eds latino-americano realmente independente do imperialismo ianque. N\u00e3o se tratava apenas de palavras: as conquistas da revolu\u00e7\u00e3o cubana para os trabalhadores e o povo foram imensas, especialmente nos campos da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o. Nestes campos, partindo de uma situa\u00e7\u00e3o muito atrasada, Cuba superou pa\u00edses latino-americanos muito mais ricos, como o Brasil, o M\u00e9xico e a Argentina. Assim, tornou-se uma refer\u00eancia para muitos revolucion\u00e1rios em todo o mundo.<\/p>\n<p><strong>As limita\u00e7\u00f5es do processo cubano<\/strong><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que reivindicamos estas grandes conquistas da revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio dizer que a dire\u00e7\u00e3o cubana construiu um Estado oper\u00e1rio burocr\u00e1tico, sem democracia real para os trabalhadores e as massas, de acordo com o modelo stalinista. Os trabalhadores cubanos nunca dirigiram o governo cubano, quem dirigiu foi a burocracia do Partido Comunista cubano (sucessor do M26J).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a dire\u00e7\u00e3o castrista sempre se manteve dentro do crit\u00e9rio do &#8220;socialismo num s\u00f3 pa\u00eds&#8221;, proposto pelo stalinismo desde a segunda metade da d\u00e9cada de 1920, contra a revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional proposta pelo marxismo desde a sua funda\u00e7\u00e3o. Coerente com esta realidade, na d\u00e9cada de 1960 o castrismo se juntou ao aparato stalinista internacional, centralizado pela burocracia da ent\u00e3o URSS, e passou a defender a ess\u00eancia de suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Nos primeiros anos, no entanto, de maneira contradit\u00f3ria, pois impulsionou a &#8220;exporta\u00e7\u00e3o&#8221; da revolu\u00e7\u00e3o por meio de treinamento e forma\u00e7\u00e3o de quadros, e apoio material para muitas organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras latino-americanas, uma linha que n\u00e3o tinha a aprova\u00e7\u00e3o de Moscou [3].<\/p>\n<p>Posteriormente, a dire\u00e7\u00e3o castrista deixou de promover a &#8220;exporta\u00e7\u00e3o&#8221; da revolu\u00e7\u00e3o e passou a sustentar sem grandes contradi\u00e7\u00f5es a pol\u00edtica que emanava de Moscou (embora mantivesse o apoio a algumas organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras). Por exemplo, em 1970 \u00a0apoiou o governo chileno de Salvador Allende e sua suposta &#8220;via pac\u00edfica para o socialismo&#8221;, que terminou no desastre do golpe de Augusto Pinochet. Em 1973, apoiou o governo burgu\u00eas do peronismo argentino, num momento em que este movimento n\u00e3o voltou para ter atritos com o imperialismo, como na sua fase inicial, mas para controlar e derrotar o ascenso oper\u00e1rio e popular que come\u00e7ou em 1969 com o Cordobazo<\/p>\n<p><strong>O processo da Am\u00e9rica Central<\/strong><\/p>\n<p>Esta pol\u00edtica errada teria um custo muito alto. Em 1979, a luta contra o regime de Anastasio Somoza, a destrui\u00e7\u00e3o da Guarda Nacional de Somoza e sua derrota pela via revolucion\u00e1ria, puseram a Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FSLN) em uma situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 do M26J cubano vinte anos antes. A FSLN se deparou diante da alternativa de seguir o &#8220;caminho cubano&#8221; e avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de um novo Estado oper\u00e1rio ou seguir o &#8220;caminho argelino&#8221; e reconstruir o Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o sandinista viajou a Cuba para ver Fidel Castro (a quem reconhecia como &#8220;seu dirigente&#8221;) e consult\u00e1-lo sobre qual &#8220;caminho&#8221; deveria seguir. A resposta de Fidel foi muito clara: &#8220;<em>A Nicar\u00e1gua n\u00e3o deve se tornar uma nova Cuba&#8221;<\/em> [4]. Isto \u00e9, n\u00e3o fa\u00e7a o que fizemos, permane\u00e7a no terreno do capitalismo e reconstrua o Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Por causa da orienta\u00e7\u00e3o de Fidel, a Nicar\u00e1gua n\u00e3o se tornou uma nova Cuba. O destino final de todo este processo \u00e9 analisado em outros artigos da revista j\u00e1 citados acima: atualmente, a FSLN de Daniel Ortega encabe\u00e7a um regime burgu\u00eas ditatorial contra os trabalhadores e o povo nicaraguense. Como um efeito cascata daquela pol\u00edtica da dire\u00e7\u00e3o castrista, a luta que a guerrilha salvadorenha desenvolveu nesses anos nem sequer conseguiu uma &#8220;nova Nicar\u00e1gua&#8221; e a Farabundo Marti terminou entregando-a na mesa de negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma consequ\u00eancia ainda mais profunda dessa pol\u00edtica criminosa da dire\u00e7\u00e3o castrista: ao frear a revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense e centro-americana e lev\u00e1-la \u00e0 derrota, Fidel ajudou a aprofundar o isolamento do Estado oper\u00e1rio cubano. O final tamb\u00e9m \u00e9 conhecido: foram Fidel e a dire\u00e7\u00e3o castrista que restauraram o capitalismo na d\u00e9cada de 1990, completando, assim, um c\u00edrculo que destruiu o que havia constru\u00eddo. As conquistas alcan\u00e7adas foram perdidas ou est\u00e3o nesse caminho.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dessas duras cr\u00edticas \u00e0 dire\u00e7\u00e3o cubana e \u00e0s consequ\u00eancias de suas graves limita\u00e7\u00f5es, a experi\u00eancia de Cuba foi muito valiosa e permanece como um ensinamento essencial para os dias de hoje. Para manter e aprofundar seus acertos e n\u00e3o repetir seus grav\u00edssimos erros.<\/p>\n<p><strong>As tarefas para a liberta\u00e7\u00e3o latino-americana<\/strong><\/p>\n<p>Neste artigo, n\u00e3o podemos desenvolver amplamente o programa que resume as tarefas para a segunda independ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina nem os debates com as propostas do nacionalismo burgu\u00eas ou a esquerda adaptada aos regimes democr\u00e1tico-burguesas ou bonapartista sui generis. Por essa raz\u00e3o, nos limitaremos a formular sinteticamente seus principais eixos.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 o <strong>eixo econ\u00f4mico-financeiro<\/strong>, base estrutural da domina\u00e7\u00e3o imperialista. O ponto de partida \u00e9 <em>a suspens\u00e3o do pagamento da d\u00edvida externa e p\u00fablica<\/em>, um verdadeiro aspirador de riqueza e, ao mesmo tempo, um mecanismo de controle dos planos econ\u00f4micos dos governos burgueses latino-americanos. \u00c9 uma d\u00edvida que j\u00e1 foi paga v\u00e1rias vezes em seus valores reais e que, apesar disso, com um mecanismo usur\u00e1rio, n\u00e3o parou de crescer. Sem romper esse mecanismo, n\u00e3o h\u00e1 como obter independ\u00eancia nem atender \u00e0s necessidades dos trabalhadores e do povo.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo \u00e9 <em>a expropria\u00e7\u00e3o sem pagamento e a estatiza\u00e7\u00e3o das principais alavancas da economia na produ\u00e7\u00e3o e nos servi\u00e7os <\/em>(hoje dominados por empresas imperialistas). Essas empresas j\u00e1 recuperaram totalmente seus investimentos reais por meio de remessa de lucros, isen\u00e7\u00f5es fiscais, aquisi\u00e7\u00f5es de ativos de empresas privatizadas a pre\u00e7os de remate, fuga de capitais e o usufruto das fraudulentas d\u00edvidas do estado (lembremos do caso da Ford e da YPF, na Argentina). N\u00e3o lhes devemos nada: tudo o que eles t\u00eam s\u00e3o dos trabalhadores e os povos dos pa\u00edses latino-americanos. \u00c9 por isso que se trata de recuperar o que \u00e9 nosso.<\/p>\n<p>O terceiro ponto \u00e9 a <em>expropria\u00e7\u00e3o de grandes latif\u00fandios<\/em> para realizar uma combina\u00e7\u00e3o de uma reforma agr\u00e1ria que d\u00ea terra aos pequenos agricultores com um processo de socializa\u00e7\u00e3o da agricultura. Uma combina\u00e7\u00e3o que ter\u00e1 propor\u00e7\u00f5es diferentes de acordo com a estrutura agr\u00e1ria e s\u00f3cio-populacional de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>Todo esse potencial produtivo ser\u00e1 desenvolvido atrav\u00e9s de <em>um plano econ\u00f4mico centralizado pelo Estado,<\/em> que deve ser democraticamente discutido e votado pelos trabalhadores e o povo, em fun\u00e7\u00e3o das necessidades nacionais e da popula\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o dos lucros do imperialismo e das burguesias nacionais.<\/p>\n<p>Para que esse plano se desenvolva sem obst\u00e1culos, \u00e9 necess\u00e1ria a exist\u00eancia de um <em>monop\u00f3lio estatal do setor banc\u00e1rio e do com\u00e9rcio exterior<\/em>. Ou seja, a cria\u00e7\u00e3o de um banco \u00fanico estatal com filiais especializadas: produ\u00e7\u00e3o, consumo, com\u00e9rcio interno, com\u00e9rcio exterior, etc. Desta forma, n\u00e3o s\u00f3 os fundos e recursos existentes ser\u00e3o racionalmente utilizados, mas a fuga de capital e as manobras habituais da burguesia com moeda estrangeira no com\u00e9rcio externo ser\u00e3o evitadas.<\/p>\n<p>Outro aspecto essencial da centraliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica estatal \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o de um <em>plano de obras p\u00fablicas<\/em>. Estar\u00e1 destinado, por um lado, para atender \u00e0s necessidades mais prementes da popula\u00e7\u00e3o: hospitais, escolas, servi\u00e7os de \u00e1gua pot\u00e1vel e esgoto, casas populares, etc. Por outro lado, garantir o trabalho para todos, acabando com o flagelo do desemprego.<\/p>\n<p><strong>As tarefas pol\u00edtico-militares<\/strong><\/p>\n<p>Um segundo eixo \u00e9 a necessidade de <em>ruptura dos pactos pol\u00edticos e militares que subordinam nossos pa\u00edses ao imperialismo<\/em>, como os do Rio de Janeiro (1947) e, outros posteriores, bem como o desconhecimento dos acordos sobre a d\u00edvida externa e privatiza\u00e7\u00e3o de empresas que renunciam \u00e0 soberania jur\u00eddica. S\u00e3o pactos inadmiss\u00edveis do ponto de vista da soberania nacional e, sem romper com eles, n\u00e3o h\u00e1 independ\u00eancia poss\u00edvel.<\/p>\n<p>De maneira especial, n\u00e3o h\u00e1 independ\u00eancia real sem o <em>desmantelamento das bases militares imperialistas e sua expuls\u00e3o<\/em>, bem como a elimina\u00e7\u00e3o dos &#8220;exerc\u00edcios militares conjuntos&#8221; que o Pent\u00e1gono dos EUA comanda. \u00c9 necess\u00e1rio construir for\u00e7as armadas a servi\u00e7o da independ\u00eancia. Voltaremos a esse ponto quando falarmos sobre o car\u00e1ter continental da luta.<\/p>\n<p>No <em>plano pol\u00edtico-institucional<\/em>, \u00e9 evidente que todos os regimes das burguesias nacionais (sejam democr\u00e1tico burgueses ou bonapartistas) acabam sendo instrumentos do imperialismo e com um grau de corrup\u00e7\u00e3o cada vez mais revoltante. Nossa proposta \u00e9 construir organismos estatais democr\u00e1ticos dos trabalhadores e as massas, no estilo dos sovietes (conselhos) dos primeiros anos da URSS. Como um exemplo latino-americano temos a Central Oper\u00e1ria Boliviana (COB) de 1952, na qual, dirigida por mineiros e outros setores de trabalhadores industriais, participavam professores, camponeses pobres, donas de casa dos bairros populares, pequenos comerciantes etc. Em cada pa\u00eds, essas institui\u00e7\u00f5es podem adquirir diferentes formas determinadas por sua tradi\u00e7\u00e3o e pela conforma\u00e7\u00e3o social das classes exploradas e oprimidas.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o vamos desenvolver aqui, nestas institui\u00e7\u00f5es deve ter um lugar especial os setores mais explorados e oprimidos de nossos pa\u00edses, como a popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil e em outros pa\u00edses e as nacionalidades ind\u00edgenas. Com respeito e apoio, tanto para manter sua cultura, suas tradi\u00e7\u00f5es e sua l\u00edngua, quanto para desenvolver suas pr\u00f3prias experi\u00eancias econ\u00f4micas e pol\u00edticas (como as comunas dos povos andinos). Integradas em uma totalidade nacional mais ampla e complexa, \u00e9 essencial que tenham esse espa\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>A luta \u00e9 continental<\/strong><\/p>\n<p>A luta pela segunda independ\u00eancia contra o imperialismo come\u00e7a em cada pa\u00eds, mas s\u00f3 pode ser bem sucedida no contexto de uma luta continental. A primeira independ\u00eancia de muitos pa\u00edses foi alcan\u00e7ada em uma guerra continental contra o imp\u00e9rio espanhol, com ex\u00e9rcitos unificados compostos por soldados e oficiais de v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\n<p>Essa necessidade de unidade surge de dois elementos centrais. O primeiro \u00e9 que sofremos os mesmos problemas. O segunda \u00e9 que enfrentamos o mesmo inimigo (o imperialismo ianque), que tamb\u00e9m \u00e9 muito poderoso. Nesta realidade, o Brasil, hoje, se soma aos pa\u00edses de l\u00edngua espanhola. Pa\u00edses separados s\u00e3o presas mais f\u00e1ceis. Juntos na luta h\u00e1 muito mais chances de triunfar.<\/p>\n<p>Isso nos traz de volta ao problema militar colocado por essa luta. Ningu\u00e9m subestima, longe disso, o poder militar do imperialismo ou a rea\u00e7\u00e3o violenta que ter\u00e1 se come\u00e7ar a perder seu &#8220;quintal&#8221;. Como na primeira independ\u00eancia, a segunda exigir\u00e1 uma dura luta militar, na qual seremos muito mais fortes juntos. Os pa\u00edses que foram col\u00f4nia da Espanha, t\u00eam a tradi\u00e7\u00e3o de unidade pol\u00edtico-militar dos que os libertaram, como Bol\u00edvar, San Martin, O&#8217;Higgins, e outros patriotas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m diz que ser\u00e1 uma luta f\u00e1cil ou que a vit\u00f3ria est\u00e1 garantida. Mas a hist\u00f3ria nos mostra que a convic\u00e7\u00e3o e determina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica podem derrotar poderes que, no campo puramente militar, s\u00e3o superiores. \u00c9 o ensinamento da primeira independ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina, da nascente Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica que enfrentou e derrotou a invas\u00e3o de catorze ex\u00e9rcitos imperialistas, do povo cubano ao rejeitar a invas\u00e3o organizada pela CIA, do povo vietnamita que derrotou o poderoso ex\u00e9rcito norte-americano, etc.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, um processo de revolu\u00e7\u00e3o latino-americana ocorreria dentro dos pr\u00f3prios Estados Unidos, atrav\u00e9s de sua grande popula\u00e7\u00e3o latina e negra. Possivelmente ter\u00e1 um impacto muito maior ao que ocorreu durante a Guerra do Vietn\u00e3 e as manifesta\u00e7\u00f5es antiguerra dos anos 1960 e 1970, que corroeram politicamente sua capacidade militar e desgastaram a base das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Reivindicamos Bol\u00edvar, San Martin e O&#8217;Higgins (somamos outros como o haitiano Toussaint Louverture) porque eles eram os l\u00edderes da primeira independ\u00eancia. Os tr\u00eas primeiros foram a melhor express\u00e3o de uma burguesia revolucion\u00e1ria que esteve disposta a levar sua luta pela independ\u00eancia at\u00e9 o fim. Hoje, os setores centrais dessas burguesias latino-americanas est\u00e3o &#8220;do outro lado&#8221; dessa luta, associados a essa subordina\u00e7\u00e3o ao imperialismo. Eles s\u00e3o parte do inimigo que deve ser combatido.<\/p>\n<p>Como dizia Trotsky, essa segunda independ\u00eancia s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada se esta luta for protagonizada pelo proletariado encabe\u00e7ando os camponeses pobres e as massas urbanas oprimidas. Por isso, a &#8220;P\u00e1tria Grande&#8221; com a qual sonharam Bol\u00edvar, San Martin, O&#8217;Higgins e Louverture, s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s de uma Federa\u00e7\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Latino-Americana. A LIT-QI e seus partidos est\u00e3o a servi\u00e7o dessa tarefa.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] TROSTKY, Le\u00f3n<em>\u00a0A revolu\u00e7\u00e3o permanente<\/em>, 1930. Dispon\u00edvel em espanhol em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/revperm\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/revperm\/index.htm<\/a><\/p>\n<p>[2] Para uma vis\u00e3o mais global do processo cubano, recomendamos ler:\u00a0\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/cuba\/especial-fidel-castro\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/cuba\/especial-fidel-castro\/<\/a>\u00a0e o artigo \u201cA influ\u00eancia do castrismo\u201d na revista\u00a0<em>Correio Internacional<\/em>\u00a0n.\u00b0 20 (publica\u00e7\u00e3o da LIT-QI, S\u00e3o Paulo, Brasil, Outubro de 2018).<\/p>\n<p>[3] Excede as possibilidades deste material, o debate com a teoria do \u201cfoco guerrilheiro\u201d e a consequ\u00eancias. Sobre este tema, recomendamos ler\u00a0<em>Teses sobre o guerrilheirismo<\/em>\u00a0de Nahuel Moreno, Eugenio Greco y Alberto Franceschi, Buenos Aires, 1986, en:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nahuelmoreno.org\/tesis-sobre-el-guerrillerismo-1986.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.nahuelmoreno.org\/tesis-sobre-el-guerrillerismo-1986.html<\/a><\/p>\n<p>[4]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cuba.cu\/gobierno\/discursos\/1979\/esp\/f260779e.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.cuba.cu\/gobierno\/discursos\/1979\/esp\/f260779e.html<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lena Souza<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dom\u00ednio imperialista avan\u00e7a e se aprofunda na Am\u00e9rica Latina. A independ\u00eancia pol\u00edtica conquistada no s\u00e9culo XIX hoje \u00e9 formal e limitada. Os movimentos nacionalistas burgueses fracassaram em sua resist\u00eancia limitada e acabaram capitulando. 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