{"id":25384,"date":"2018-12-10T18:54:39","date_gmt":"2018-12-10T20:54:39","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=25384"},"modified":"2018-12-10T18:54:39","modified_gmt":"2018-12-10T20:54:39","slug":"5-anos-da-revolucao-ucraniana-subestimada-incompreendida-e-caluniada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/12\/10\/5-anos-da-revolucao-ucraniana-subestimada-incompreendida-e-caluniada\/","title":{"rendered":"5 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana &#8211; subestimada, incompreendida e caluniada"},"content":{"rendered":"<p><em>A Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana, conhecida como a Maidan<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>, colocou fim ao governo de Viktor Yanukovich, presidente corrupto e autorit\u00e1rio, que manobrava entre a R\u00fassia e a Uni\u00e3o Europeia (UE), vendendo o seu pa\u00eds a quem melhor pagasse.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por:\u00a0POI R\u00fassia<\/p>\n<p>Ao final de 2013, Yanukovich, que vinha negociando at\u00e9 ent\u00e3o um acordo de colabora\u00e7\u00e3o com a UE, pressionado pela deteriora\u00e7\u00e3o da economia ucraniana, numa nova manobra desiste do acordo e passa a discutir uma coopera\u00e7\u00e3o mais profunda com a R\u00fassia. Ocorrem em Kiev manifesta\u00e7\u00f5es estudantis, com cerca de 5 a 10 mil participantes, contra a ruptura das negocia\u00e7\u00f5es com a UE. Yanukovich reprime duramente as manifesta\u00e7\u00f5es, se utilizando da Berkut, a odiada pol\u00edcia de choque. Implementa novas leis antiprotestos no pa\u00eds, mais duras inclusive que nos regimes russo e bielorrusso<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>, numa escalada claramente bonapartista. N\u00e3o a toa era chamado de \u201cminiatura de Putin\u201d.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0 repress\u00e3o, as manifesta\u00e7\u00f5es inicialmente pequenas se tornaram massivas, com meio milh\u00e3o de manifestantes pelas ruas da capital Kiev j\u00e1 no final de novembro. Os manifestantes acamparam na Pra\u00e7a Maidan, montaram barricadas e ocuparam pr\u00e9dios p\u00fablicos. A situa\u00e7\u00e3o se tornou insustent\u00e1vel e Yanukovich correu atr\u00e1s de apoio externo. Ocorre uma tentativa de acordo entre Yanukovich, a oposi\u00e7\u00e3o liberal, a Igreja ortodoxa Ucraniana, a UE, os EUA e a R\u00fassia, para manter Yanukovich no poder at\u00e9 dezembro de 2014, quando seriam realizadas novas elei\u00e7\u00f5es. Mas este acordo foi recha\u00e7ado pela Maidan sublevada, que exigia a sa\u00edda imediata de Yanukovich e se recusava a sair das ruas.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o havia espa\u00e7o para meios-termos. \u00c0 Yanukovich restava ou fugir do pa\u00eds ou tentar afogar a revolu\u00e7\u00e3o em sangue. A R\u00fassia exige de Yanukovich pulso firme e oferece total apoio, mas este vacila at\u00e9 o \u00faltimo momento. A repress\u00e3o foi dura, com mais de cem mortos e centenas de feridos, mas insuficiente segundo o Primeiro Ministro Russo Dmitri Medvedev, que acusou por isso, Yanukovich de fraco e covarde. Incapaz de derrotar a revolu\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a, Yanukovich foge para a R\u00fassia. A acuada Rada Suprema (Parlamento Ucraniano), cercada pelos manifestantes, se v\u00ea obrigada a tomar o poder e convocar elei\u00e7\u00f5es presidenciais imediatas. \u00c9 ainda obrigada pelas ruas a dissolver as tropas da Berkut.<\/p>\n<p>O pano de fundo da revolu\u00e7\u00e3o foi a crise econ\u00f4mica insol\u00favel do pa\u00eds desde a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, com redu\u00e7\u00e3o de cerca de 60% do seu PIB e uma depend\u00eancia cada vez maior tanto com a R\u00fassia como com a UE. Enquanto o crescimento econ\u00f4mico mundial permitiu, os diferentes governos se equilibravam manobrando entre a UE e a R\u00fassia, vendendo o pa\u00eds a quem melhor pagasse. Com a crise mundial, se tornou inadi\u00e1vel um salto ainda maior no processo de coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, deixando clara a fal\u00eancia de todas as fra\u00e7\u00f5es da burguesia ucraniana, incapazes de independizar e desenvolver o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia \u00e9 o segundo maior pa\u00eds da Europa em territ\u00f3rio, com uma \u00e1rea quase duas vezes maior que a Alemanha, popula\u00e7\u00e3o do tamanho da Espanha, com terras consideradas as mais f\u00e9rteis do mundo, grandes riquezas minerais, alto \u00edndice educacional e forte base industrial herdada da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, apesar de profundamente sucateada e obsoleta pela falta de investimentos desde a restaura\u00e7\u00e3o capitalista. J\u00e1 foi muito forte na produ\u00e7\u00e3o metal\u00fargica, de eletr\u00f4nicos, locomotivas, autom\u00f3veis, avi\u00f5es, tecnologia espacial e militar, al\u00e9m de seguir sendo um dos maiores produtores mundiais de min\u00e9rios, gr\u00e3os, a\u00e7\u00facar, carnes, l\u00e1cteos.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia ucraniana se resume a que num mundo controlado e disputado por meia d\u00fazia de pa\u00edses imperialistas ricos, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para uma Ucr\u00e2nia industrializada. Toda a pol\u00edtica, tanto da UE como da R\u00fassia, v\u00e3o no sentido de submeter a Ucr\u00e2nia, desmontando sua economia, transformando-a em mercado para produtos importados, exportadora de min\u00e9rios e commodities agr\u00edcolas e fornecedora de m\u00e3o de obra barata para outros pa\u00edses. A burguesia ucraniana como um todo se acomoda a esta situa\u00e7\u00e3o, lucrando com a coloniza\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio pa\u00eds, e toda a pol\u00edtica oficial ucraniana se resume \u00e0 disputa sobre a qual amo entregar o pa\u00eds, \u00e0 R\u00fassia ou \u00e0 UE.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana foi o ponto alto do grande ascenso e polariza\u00e7\u00e3o social que se d\u00e1 no Velho Continente, iniciado ainda com a \u201cGera\u00e7\u00e3o \u00e0 Rasca\u201d portuguesa e os \u201cIndignados\u201d espanh\u00f3is, e que tem sequ\u00eancia no momento em que escrevemos este artigo com a luta dos \u201ccoletes amarelos\u201d na Fran\u00e7a. Derrubou diretamente nas ruas um governo de tend\u00eancias bonapartistas e pr\u00f3-imperialista, dissolvendo sua tropa de choque e derrotando uma tentativa de acordo pol\u00edtico que envolvia todas as correntes pol\u00edticas do establishment ucraniano e internacional. Imp\u00f4s a primeira derrota s\u00e9ria a Putin.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que foi a maior revolu\u00e7\u00e3o na Europa nos \u00faltimos tempos, \u00e9 tamb\u00e9m a mais subestimada, incompreendida e caluniada. Chegou a ser chamada pela esquerda ucraniana de \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Equivocada\u201d. A Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana foi acusada de ser pr\u00f3-UE, financiada por George Soros, de ter sido um golpe para tirar um governo \u201clegitimamente eleito\u201d, de ser anticomunista, de ser organizada por grupos fascistas que colaboraram com Hitler na 2\u00aa Guerra, entre outras acusa\u00e7\u00f5es<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.<\/p>\n<p>N\u00e3o, a Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana n\u00e3o foi pr\u00f3-UE. As manifesta\u00e7\u00f5es massivas que derrubaram Yanukovich foram uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 grave crise econ\u00f4mica devida \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o desenfreada do governo, \u00e0 repress\u00e3o violenta contra as manifesta\u00e7\u00f5es. Durante a Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana, pesquisas realizadas por institutos europeus revelavam que a porcentagem de ucranianos que consideravam que a ades\u00e3o \u00e0 UE seria ben\u00e9fica ao pa\u00eds mal chegava aos 30%. Tampouco foi um \u201cgolpe contra um governo leg\u00edtimo\u201d.<\/p>\n<p>Toda revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa, por defini\u00e7\u00e3o, derruba o governo de plant\u00e3o, independentemente de se este havia chegado ao poder pelo voto ou n\u00e3o. Tal argumento n\u00e3o \u00e9 contra a Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana, mas contra as revolu\u00e7\u00f5es em geral, pois estas sempre passam por cima das \u201cregras do jogo\u201d. Foi uma leg\u00edtima revolu\u00e7\u00e3o popular, onde a queda do presidente entreguista, corrupto e autorit\u00e1rio foi decidida pelas massas nas ruas, e n\u00e3o em gabinetes fechados.<\/p>\n<p>A violenta repress\u00e3o levou os manifestantes a organizarem os <em>comit\u00eas de autodefesa suprapartid\u00e1rios da Maidan<\/em>, que reuniam a juventude com veteranos de guerra com experi\u00eancia em combate. Chegaram a possuir alguns milhares de membros, parcialmente armados. Al\u00e9m de defenderem a Pra\u00e7a Maidan, os comit\u00eas de autodefesa ocuparam e tomaram o controle dos edif\u00edcios da Administra\u00e7\u00e3o Presidencial, da Rada Suprema (parlamento), do Gabinete de Ministros ucraniano, do Minist\u00e9rio do Exterior, entre outros. N\u00e3o por acaso, a exig\u00eancia fundamental da tentativa de Acordo entre os partidos de oposi\u00e7\u00e3o liberais, Yanukovich, UE e R\u00fassia para convocar novas elei\u00e7\u00f5es para dezembro de 2014, mantendo Yanukovich na Presid\u00eancia at\u00e9 l\u00e1, era a dissolu\u00e7\u00e3o dos comit\u00eas de autodefesa e que estes entregassem as armas.<\/p>\n<p>Em defesa da Maidan se viram obrigadas a confluir todas as correntes de oposi\u00e7\u00e3o ao governo Yanukovich, passando por v\u00e1rias tend\u00eancias liberais pr\u00f3-UE, setores que antes apoiavam Yanukovich, a Igreja Ortodoxa Ucraniana, nacionalistas ucranianos e setores de extrema-direita. Mas a imensa maioria era de jovens sem filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Os nacionalistas de direita chamaram a aten\u00e7\u00e3o da imprensa por a\u00e7\u00f5es provocativas e sem sentido fora da Maidan, contra for\u00e7as da Berkut, o que levou muitos a superestimarem sua verdadeira for\u00e7a. Mas nas elei\u00e7\u00f5es seguintes, estes mal chegaram ao 1% dos votos, mostrando que as massas nas ruas n\u00e3o tinham nada de fascistas, como mentirosamente propagandeado pela imprensa de Putin (e infelizmente repetido por boa parte da esquerda mundial&#8230;). Os comit\u00eas eram um embri\u00e3o de duplo poder, parcialmente armados e com autoridade crescente.<\/p>\n<p>Obviamente, o grande derrotado at\u00e9 esse momento havia sido Vladimir Putin, que perdia espa\u00e7o nas decis\u00f5es sobre o futuro da Ucr\u00e2nia e via como se desenvolvia uma revolu\u00e7\u00e3o pertinho das fronteiras russas. Putin vivia um momento delicado, com grandes manifesta\u00e7\u00f5es contra si, em Moscou, no ano anterior, com a Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana chamando a aten\u00e7\u00e3o dos russos. Percebendo o perigo, decide atacar com for\u00e7a para deter a Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana enquanto esta ainda n\u00e3o havia se estendido ao leste do pa\u00eds. Ainda antes das elei\u00e7\u00f5es, Putin ocupa militarmente a Pen\u00ednsula da Crim\u00e9ia, base de sua frota do Mar Negro e envia mercen\u00e1rios para ocupar regi\u00f5es do Leste ucraniano.<\/p>\n<p>Anexa a Crim\u00e9ia \u00e0 R\u00fassia e cria duas regi\u00f5es no leste da Ucr\u00e2nia fora do controle de Kiev: Donetsk e Lugansk, com governos pr\u00f3prios pr\u00f3-Putin. Tenta o mesmo em Odessa e Kharkov, sem sucesso. Com a anexa\u00e7\u00e3o da Crim\u00e9ia e uma gigantesca campanha de propaganda chauvinista (e o sil\u00eancio e capitula\u00e7\u00e3o da esquerda russa), Putin abafa a oposi\u00e7\u00e3o interna contra si e vira a opini\u00e3o p\u00fablica dos russos contra seus irm\u00e3os ucranianos, apresentados a partir de ent\u00e3o como fascistas. Os conflitos na regi\u00e3o leste da Ucr\u00e2nia seguem at\u00e9 hoje, com mais de 10 mil mortos e um milh\u00e3o e 600 mil refugiados que fugiram de Donetsk e Lugansk para outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Destes, um milh\u00e3o dependem de ajuda governamental para sobreviver.<\/p>\n<p>A absoluta aus\u00eancia de uma alternativa pol\u00edtica no campo dos trabalhadores levou a que a oposi\u00e7\u00e3o liberal pr\u00f3-UE fosse a \u00fanica em condi\u00e7\u00f5es de tomar o poder ap\u00f3s a queda de Yanukovich, apesar de tampouco ser bem-vista pelas massas<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>. O novo governo de Petro Poroshenko se apressou em estreitar os la\u00e7os com os imperialismos europeu e americano e com o FMI, aprofundando a coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Para convencer a popula\u00e7\u00e3o de tais medidas, p\u00f4de utilizar-se fartamente do argumento de enfrentar a agress\u00e3o russa. Desta forma, o regime de Putin jogou um papel duplamente contrarrevolucion\u00e1rio: tentando derrotar ou pelo menos interromper a Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana pela for\u00e7a bruta no leste, e dando a justificativa a Poroshenko para sua pol\u00edtica pr\u00f3-imperialista no resto do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apesar de conseguir derrubar um governo bonapartista e entreguista no meio da Europa, dissolver suas for\u00e7as de choque e organizar comit\u00eas de autodefesa que controlavam a maior parte do centro de Kiev, a Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana sofreu de grandes limita\u00e7\u00f5es, que explicam a dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o atual do pa\u00eds. Em primeiro lugar, a aus\u00eancia de uma alternativa de poder que representasse os trabalhadores. A j\u00e1 ent\u00e3o min\u00fascula esquerda ucraniana ficou presa do esquema \u201ccampista\u201d estalinista, que via tudo como um jogo de xadrez entre a R\u00fassia e a UE, escolhendo o \u201ccampo russo\u201d, paralisando-se no processo, quando n\u00e3o diretamente apoiando o candidato a ditador Yanukovich.<\/p>\n<p>O resultado foi o desaparecimento da esquerda ucraniana do mapa. Esta pol\u00edtica criminosa da esquerda foi a base para que os nacionalistas de direita tentassem identificar Yanukovich e Putin com Lenin, derrubando suas est\u00e1tuas. Afinal, o Partido Comunista Ucraniano foi o \u00fanico partido pol\u00edtico do pa\u00eds que teve a cara de pau de ir \u00e0s ruas defender Yanukovich&#8230; Ao contr\u00e1rio das lendas estalinistas, portanto, n\u00e3o \u00e9 por anticomunismo que o PCU seja odiado pelo povo ucraniano, mas por seu apoio a um governo canalha, corrupto, entreguista e repressor. Diga-se de passagem, h\u00e1 v\u00e1rios v\u00eddeos que demonstram como a derrubada das est\u00e1tuas de Lenin foi realizada por pequenos grupos isolados das massas. Ao passarem as imagens das est\u00e1tuas derrubadas na Maidan, estas foram recebidas friamente pela massa, sem entusiasmo.<\/p>\n<p>Os nacionalistas de direita se apoiaram obviamente no sentimento contra os s\u00e9culos de opress\u00e3o russa durante o Imp\u00e9rio Tsarista, continuada pelo estalinismo e mais recentemente por Putin, como com as permanentes amea\u00e7as de cortar o fornecimento de g\u00e1s no meio do inverno, caso seu governo \u201cn\u00e3o se comportasse bem\u201d. Mas apesar do \u00f3dio ao chauvinismo russo, o sentimento \u201cantirrusso\u201d na Maidan era secund\u00e1rio, sendo muito mais um sentimento \u201canti-Putin\u201d e antiopress\u00e3o. Cidad\u00e3os russos que apoiavam a revolu\u00e7\u00e3o (infelizmente poucos) eram muito bem recebidos na Maidan, aos quais era cedida a palavra.<\/p>\n<p>A segunda grande debilidade da Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana \u00e9 que esta n\u00e3o abarcou todo o pa\u00eds. O leste ucraniano, a parte mais industrializada, com as minas mais importantes e com maior concentra\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, n\u00e3o foi parte ativa da revolu\u00e7\u00e3o. Apesar de terem ocorrido manifesta\u00e7\u00f5es e greves no lado oriental do pa\u00eds, estas foram derrotadas antes de poderem se generalizar, pela falta de alternativa pol\u00edtica e pelos mercen\u00e1rios pr\u00f3-R\u00fassia tomando a regi\u00e3o. Este atraso do leste em entrar na onda revolucion\u00e1ria foi o que deu base para a pol\u00edtica criminosa de Putin de dividir o pa\u00eds.<\/p>\n<p>E a terceira grande debilidade tem a ver com o programa para o pa\u00eds. A burguesia ucraniana como um todo quer manter\/ampliar seus neg\u00f3cios, exportando commodities e minerais a quem quer que seja, n\u00e3o se importando para isso em desmontar a ind\u00fastria ucraniana nem em sacrificar qualquer independ\u00eancia pol\u00edtica. Tanto os nacionalistas de direita quanto a esquerda capitulam a \u201csua\u201d burguesia, uns mais pr\u00f3-UE, outros mais pr\u00f3-R\u00fassia. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma corrente pol\u00edtica que defenda uma Ucr\u00e2nia independente, tanto da UE e EUA como da R\u00fassia. E os trabalhadores ficam assim sem op\u00e7\u00e3o, o que explica sua paralisia desde 2014.<\/p>\n<p>O Governo Poroshenko, covarde, entreguista e defensor dos interesses dos oligarcas ucranianos, \u00e9 incapaz de defender o pa\u00eds, se recusando inclusive a desapropriar as empresas e capitais da R\u00fassia agressora, que segue explorando as riquezas da Ucr\u00e2nia. Como leg\u00edtimo representante dos interesses da burguesia ucraniana, Poroshenko quer manter bons neg\u00f3cios com a R\u00fassia, mesmo sob agress\u00e3o militar. Ao mesmo tempo, nenhuma confian\u00e7a pode ser dada aos imperialismos da UE e dos EUA. Seu \u00fanico interesse \u00e9 derrotar\/desviar o processo revolucion\u00e1rio pela via das elei\u00e7\u00f5es, colocando algum marionete como Poroshenko no poder, para continuar colonizando o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O imperialismo est\u00e1 descontente com a ocupa\u00e7\u00e3o russa do leste do pa\u00eds, mas n\u00e3o por preocupa\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias ou considera\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, afinal, realizava bons neg\u00f3cios com Yanukovich e tentou mant\u00ea-lo no posto at\u00e9 o \u00faltimo momento. Sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a pol\u00edtica \u201clinha dura\u201d de Putin est\u00e1 gerando mais crise e aprofundando as tens\u00f5es dentro do pa\u00eds, podendo vir a explodir numa nova Maidan. Por isso vem implementando uma s\u00e9rie de san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas contra a R\u00fassia, para for\u00e7ar Putin a uma sa\u00edda negociada.<\/p>\n<p>A chave para a continuidade da Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana, para uma nova Maidan que possa de fato independizar este grande pa\u00eds, passa em primeir\u00edssimo lugar por derrotar a agress\u00e3o russa no leste. Para tal, necessita desmascarar o governo pr\u00f3-imperialista e covarde de Poroshenko, incapaz de enfrent\u00e1-la. Um levante conjunto dos trabalhadores de Kiev e do Donetsk pode derrotar a agress\u00e3o russa, com uma Maidan que tomasse todo o pa\u00eds. Ao ocupar o leste do pa\u00eds em sua agress\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria, Putin ao mesmo tempo uniu indissoluvelmente o destino da Ucr\u00e2nia ao seu. Uma derrota de Putin na Ucr\u00e2nia seria o inicio do fim de seu governo.<\/p>\n<p>Uma nova vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana poderia assim impulsionar a luta dos trabalhadores russos e de outros povos oprimidos contra Putin. Juntos, os trabalhadores ucranianos e russos s\u00e3o capazes de derrotar o carrasco das revolu\u00e7\u00f5es ucraniana e s\u00edria, maior respons\u00e1vel pela coloniza\u00e7\u00e3o da R\u00fassia, defensor dos regimes mais odiosos do planeta e aliado do imperialismo, que tem sob seu controle o 2\u00ba ex\u00e9rcito do mundo. Derrotar Putin teria repercuss\u00f5es de alcance mundial, dado seu papel contrarrevolucion\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>Significaria o fim quase imediato do governo Assad na S\u00edria e o enfraquecimento da ditadura no Egito, o que impulsionaria uma nova onda da Primavera \u00c1rabe. Teria profundo impacto entre os povos do C\u00e1ucaso em sua luta pela independ\u00eancia. Derrotar Putin \u00e9 uma tarefa INTERNACIONAL da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, sua derrota seria tamb\u00e9m a derrota dos \u00faltimos restos apodrecidos do estalinismo mundial e seus sat\u00e9lites, que fazem eco \u00e0 campanha anti-Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Os trabalhadores ucranianos necessitam portanto urgentemente de um partido oper\u00e1rio independente, capaz de estender o processo revolucion\u00e1rio aos trabalhadores do leste, levantando todo o povo ucraniano contra a agress\u00e3o de Putin e contra todas as fra\u00e7\u00f5es da covarde e vendida burguesia do pa\u00eds, por uma Ucr\u00e2nia una, independente, livre, democr\u00e1tica e dos trabalhadores. Um partido que defenda a reorganiza\u00e7\u00e3o dos comit\u00eas de defesa suprapartid\u00e1rios da Maidan, para que estes se generalizem por todo o pa\u00eds e tomem o poder, como verdadeiros \u00f3rg\u00e3os de um novo tipo de governo, um governo dos trabalhadores e do povo ucranianos, como de forma embrion\u00e1ria come\u00e7aram a fazer h\u00e1 5 anos. Este partido n\u00e3o existe hoje, o que se configura como a principal debilidade do processo revolucion\u00e1rio ucraniano.<\/p>\n<p><strong>O Incidente de Kerch &#8211; Uma nova agress\u00e3o russa em andamento<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente aos 5 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana, uma nova agress\u00e3o russa contra o pa\u00eds est\u00e1 em andamento. A Marinha Russa atacou e aprisionou tr\u00eas navios ucranianos junto com suas tripula\u00e7\u00f5es. Foram acusados de invadir \u00e1guas territoriais russas no Estreito de Kerch, que liga o Mar Negro ao Mar de Azov, exatamente entre o territ\u00f3rio russo e o territ\u00f3rio da Crim\u00e9ia, anexada militarmente pela R\u00fassia. A Ucr\u00e2nia, como obviamente n\u00e3o reconhece a anexa\u00e7\u00e3o russa da Crim\u00e9ia, considera o estreito como \u00e1guas compartilhadas entre os dois pa\u00edses, n\u00e3o necessitando para tal de nenhuma autoriza\u00e7\u00e3o para cruz\u00e1-lo. Basta olhar um mapa para compreender a import\u00e2ncia para a Ucr\u00e2nia em poder utilizar livremente o estreito, pois \u00e9 a \u00fanica passagem para os portos de sua regi\u00e3o oriental, inclu\u00eddo o de Mariupol, o segundo em import\u00e2ncia do pa\u00eds. \u00c9 tamb\u00e9m a \u00fanica liga\u00e7\u00e3o por mar entre o leste e oeste da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Independentemente das poss\u00edveis motiva\u00e7\u00f5es eleitoreiras de Petro Poroshenko e dos detalhes se a Marinha Russa foi ou n\u00e3o comunicada de antem\u00e3o da passagem dos navios, a agress\u00e3o russa, se achando no direito de limitar ou controlar o acesso ucraniano ao Estreito de Kerch, deve ser repudiada. A agress\u00e3o \u00e9 uma continuidade da pol\u00edtica chauvinista e contrarrevolucion\u00e1ria de Putin de derrotar a Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana pela for\u00e7a, anexar parte do seu territ\u00f3rio e submeter o pa\u00eds. Em resposta \u00e0 agress\u00e3o, o presidente ucraniano Petro Poroshenko promulgou Lei Marcial em todas as regi\u00f5es de fronteira com a R\u00fassia, mas curiosamente n\u00e3o fez o mesmo na pr\u00f3pria Crim\u00e9ia, que \u00e9 considerada pela Ucr\u00e2nia como seu territ\u00f3rio, sob ocupa\u00e7\u00e3o russa. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: como a R\u00fassia considera a Crim\u00e9ia seu territ\u00f3rio, uma declara\u00e7\u00e3o ucraniana de Lei Marcial na regi\u00e3o seria o equivalente a uma declara\u00e7\u00e3o de guerra. E at\u00e9 a\u00ed Poroshenko n\u00e3o est\u00e1 disposto a ir.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o Incidente de Kerch provocou uma nova escalada nas tens\u00f5es entre os imperialismos europeus e americano com Putin. Trump cancelou a reuni\u00e3o de c\u00fapula com o presidente russo durante o encontro do G20 na Argentina. A tens\u00e3o ao redor do tema Ucr\u00e2nia \u00e9 mais um reflexo, assim como em torno \u00e0 guerra na S\u00edria, das profundas diferen\u00e7as entre os imperialismos e a R\u00fassia em rela\u00e7\u00e3o a como tratar os processos revolucion\u00e1rios. Os primeiros desejam regular a situa\u00e7\u00e3o na Ucr\u00e2nia sem maiores tens\u00f5es, apostando na via da rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, com novas elei\u00e7\u00f5es, para acalmar o processo revolucion\u00e1rio. Mas esta sa\u00edda \u00e9 inaceit\u00e1vel para Putin, pela pr\u00f3pria natureza de seu regime, incompat\u00edvel com concess\u00f5es democr\u00e1ticas. Apesar de toda a simpatia pessoal que possa haver entre Trump e Putin, esta tens\u00e3o segue sem se resolver e pode se agravar com o aprofundamento da crise econ\u00f4mica e novas explos\u00f5es revolucion\u00e1rias na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Para recuperar o livre acesso ao Estreito de Kerch, recuperar a soberania ucraniana sobre Lugansk e Donetsk, e inclusive recuperar a Crim\u00e9ia, \u00e9 necess\u00e1ria uma nova Maidan. Um levante dos trabalhadores que abarque todo o territ\u00f3rio ucraniano, do leste ao oeste. Que reorganize os comit\u00eas suprapartid\u00e1rios de defesa da Maidan e os estenda por todo o pa\u00eds, para impor um governo seu, dos trabalhadores, disposto a lutar contra a agress\u00e3o russa, conquistando com esta luta a simpatia dos trabalhadores russos, ainda iludidos pelas promessas chauvinistas de Putin.<\/p>\n<p>Nas condi\u00e7\u00f5es atuais de piora cont\u00ednua nas condi\u00e7\u00f5es de vida, baixos sal\u00e1rios, reforma da previd\u00eancia, cortes nos gastos sociais, cada vez mais os trabalhadores russos se tornam c\u00e9ticos em rela\u00e7\u00e3o ao seu governo e suas agress\u00f5es militares a outros povos. Estendendo-se de Kiev ao leste da Ucr\u00e2nia, uma nova Maidan n\u00e3o se deteria nas fronteiras russas. Avan\u00e7aria at\u00e9 Moscou e a todo o territ\u00f3rio russo, despertando a imensa for\u00e7a revolucion\u00e1ria adormecida dos trabalhadores russos e povos oprimidos por Putin. Se este gigante se levanta, n\u00e3o h\u00e1 for\u00e7a no mundo capaz de det\u00ea-lo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a>Refer\u00eancia \u00e0 pra\u00e7a Maidan Nezalejnosti (Pra\u00e7a da Independ\u00eancia), no centro de Kiev, palco principal da revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a>A Ucr\u00e2nia se diferencia destes dois pa\u00edses por possuir muito mais liberdades democr\u00e1ticas desde a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Laranja em 2004, contra a fraude eleitoral do mesmo Yanukovich. A Revolu\u00e7\u00e3o Laranja p\u00f4s fim ao regime autorit\u00e1rio que vinha do ex-presidente Leonid Kuchma<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a>Ali\u00e1s, est\u00e1 virando uma tend\u00eancia geral acusar as lutas dos trabalhadores e povos de serem provoca\u00e7\u00f5es de direita. Foi assim com as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 no Brasil, com a revolu\u00e7\u00e3o ucraniana, com a greve dos caminhoneiros no Brasil e com os coletes amarelos na Fran\u00e7a agora<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a>Seu l\u00edder de ent\u00e3o e atual prefeito de Kiev, o ex-campe\u00e3o de boxe Klichko, chegou a levar uma surra no meio da pra\u00e7a por defender o acordo que propunha manter Yanukovich no poder at\u00e9 dezembro e dissolver os comit\u00eas de autodefesa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Ucraniana, conhecida como a Maidan[i], colocou fim ao governo de Viktor Yanukovich, presidente corrupto e autorit\u00e1rio, que manobrava entre a R\u00fassia e a Uni\u00e3o Europeia (UE), vendendo o seu pa\u00eds a quem melhor pagasse.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":25385,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3182,49,3658,91],"tags":[6817,6818,6819,6820,278,6821,4523,984,6822],"class_list":["post-25384","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-guerra-contra-ucrania","category-polemica","category-russia","category-ucrania","tag-crimeia","tag-incidente-de-kerch","tag-maidan","tag-oi-russia","tag-putin","tag-revolucao-ucraniana","tag-russia","tag-ucrania-3","tag-yanukovich"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Maidan-3.jpg","categories_names":["Guerra contra Ucrania","Pol\u00eamica","R\u00fassia","Ucr\u00e2nia"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25384","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25384"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25384\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25385"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}