{"id":24930,"date":"2018-11-05T15:56:56","date_gmt":"2018-11-05T17:56:56","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=24930"},"modified":"2018-11-05T15:56:56","modified_gmt":"2018-11-05T17:56:56","slug":"recuperar-nossa-historia-os-trotskistas-de-llerena-badajoz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/11\/05\/recuperar-nossa-historia-os-trotskistas-de-llerena-badajoz\/","title":{"rendered":"Recuperar nossa hist\u00f3ria: os trotskistas de Llerena (Badajoz)"},"content":{"rendered":"<p><em>Llerena era (e ainda \u00e9) uma povoado eminentemente oper\u00e1rio da prov\u00edncia de Badajoz. O latif\u00fandio dominava a terra. Apenas 12 propriet\u00e1rios possu\u00edam metade do munic\u00edpio. Por outro lado, uma grande massa de boia-fria vivia mal entre o desemprego e o trabalho duro no campo, com sal\u00e1rios de verdadeira mis\u00e9ria. O Partido Socialista Oper\u00e1rio Espanhol (PSOE) e a Uni\u00e3o Geral dos Trabalhadores (UGT) eram as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias dominantes.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Juan P., do Estado Espanhol<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dos trotskistas de Llerena come\u00e7a quando um jovem socialista (Luis Rastrollo), estudante de Direito em Madri, \u00e9 ganho pelo l\u00edder trotskista Fersen. Rastrollo desde 1931 seria um dos tr\u00eas membros do Comit\u00ea Executivo da Oposi\u00e7\u00e3o Comunista da Espanha (OCE), e membro da reda\u00e7\u00e3o de suas publica\u00e7\u00f5es &#8220;El Soviet&#8221; e &#8220;Comunismo&#8221;. Rapidamente, tamb\u00e9m se une Eduardo Mauricio, funcion\u00e1rio da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Em suas f\u00e9rias de ver\u00e3o, Rastrollo aproveita a oportunidade para fazer uma s\u00e9rie de palestras sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Russa na Casa do Povo local, ganhando um grupo de jovens socialistas. Em agosto de 1932, foi fundado o n\u00facleo (&#8220;radio&#8221; \u2013 c\u00edrculo ndt -, era chamado na \u00e9poca) trotskista de Llerena com 38 membros.<\/p>\n<p>Neste processo, Grandizo Munis, que tinha rela\u00e7\u00f5es familiares em Llerena, desempenhou um papel importante. Na verdade, as publica\u00e7\u00f5es seriam impressas no com\u00e9rcio de seu tio, Pablo Fern\u00e1ndez Grandizo, outro destacado esquerdista local conhecido por ter proclamado a Rep\u00fablica da sacada da C\u00e2mara Municipal. Outros membros desse primeiro n\u00facleo eram Carlos Llarza, Regino Mar\u00edn, F\u00e9lix Gal\u00e1n ou Jos\u00e9 Mart\u00edn.<\/p>\n<p><strong>Da propaganda \u00e0 a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Depois desses primeiros passos de propaganda, os trotskistas entraram em a\u00e7\u00e3o. Em dezembro de 1931 impulsionaram a greve geral provincial em seu povoado e nos arredores. Mas a grande prova de fogo veio em mar\u00e7o de 1932. Devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de verdadeira fome vivida pelos boias-frias, eles exigiam que os patr\u00f5es se encarregassem de seu alojamento por 15 dias. Os patr\u00f5es s\u00f3 ofereciam 10.<\/p>\n<p>Enquanto acontecia uma reuni\u00e3o das partes com o prefeito, os oper\u00e1rios bloquearam a prefeitura sequestrando os patr\u00f5es dentro. Enquanto isso saquearam suas casas. E os patr\u00f5es foram obrigados a ceder. Durante o conflito, houve 30 detidos. E at\u00e9 que n\u00e3o foram libertados, a representa\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria n\u00e3o assinou o acordo. Exceto Rastrollo, o estudante trotskista que agora era o l\u00edder dos oper\u00e1rios em greve, que ficou preso at\u00e9 junho. Durante esse ano, outros nove militantes trotskistas foram presos por roubarem gado dos patr\u00f5es.<\/p>\n<p>Como resultado dessa greve, os oper\u00e1rios abandonaram a UGT e fundaram a &#8220;Federa\u00e7\u00e3o Local de Sindicatos Oper\u00e1rios&#8221;, um novo sindicato majorit\u00e1rio, sob a dire\u00e7\u00e3o trotskista.<\/p>\n<p>Em agosto de 1932, uma grande manifesta\u00e7\u00e3o foi realizada em Llerena, promovida pela OCE e pelo PSOE contra o golpe de Estado de Sanjurjo. Em outubro, houve outro conflito oper\u00e1rio. Com 800 boias-frias, os trotskistas iniciaram uma greve geral para pedir aumento nos sal\u00e1rios. O governo, prevenido pela experi\u00eancia anterior, declara ilegal porque a considera &#8220;revolucion\u00e1ria&#8221; e enche o povoado de guardas civis. A UGT se desvincula da greve.<\/p>\n<p>No dia 6 de outubro come\u00e7a a greve com grande impacto. Durou at\u00e9 o dia 15, e mesas de negocia\u00e7\u00e3o foram montadas com a patronal. O governo nomeou um juiz especial para essa situa\u00e7\u00e3o, que ordenou a pris\u00e3o do comit\u00ea de greve e fechou a sede dos trotskistas. Eles ficaram presos at\u00e9 maio de 1933 (quando tamb\u00e9m reabriram uma nova sede). Pediam 17 anos de pris\u00e3o para eles.<\/p>\n<p>Nesse momento, os trotskistas de Llerena tinham ganhado uma grande reputa\u00e7\u00e3o e o Partido Comunista Espanhol (PCE) tentou neutraliz\u00e1-los, tentando subordin\u00e1-los ao partido. Devemos lembrar que a OCE ainda estava tentando voltar ao PCE para &#8220;endireit\u00e1-lo&#8221;. Um debate p\u00fablico foi realizado a esse respeito entre Grandizo Munis, Llarza e Gal\u00e1n com representantes do PCE, que, apesar das boas palavras, n\u00e3o aceitaram que o grupo retornasse mantendo suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas trotskistas. Este ato fortaleceu politicamente a OCE em sua base de oper\u00e1ria, contra a posi\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do PCE.<\/p>\n<p>Apesar disso, nas elei\u00e7\u00f5es daquele ano havia um representante trotskista (Pedro Corraliza) na candidatura do PCE em Badajoz, e a OCE pediu o voto para o partido. Os trotskistas fizeram uma ampla campanha eleitoral, organizando um ato em Llerena e indo ao do PSOE para debater. Eles tamb\u00e9m participaram de v\u00e1rias reuni\u00f5es do PCE pela prov\u00edncia. Os resultados d\u00e3o uma imagem da for\u00e7a dos trotskistas de Llerena. Eles obtiveram 11% dos votos, enquanto a m\u00e9dia do PCE na prov\u00edncia n\u00e3o chegou a 1%.<\/p>\n<p>Depois da vit\u00f3ria eleitoral da direita, sob o impulso dos trotskistas, formou-se a Alian\u00e7a Oper\u00e1ria, que unia todas as for\u00e7as oper\u00e1rias. Em fevereiro, realizou-se uma grande manifesta\u00e7\u00e3o antifascista e, de 5 a 14 de junho, realizou-se uma greve geral que teve em Llerena um de seus centros mais ativos e violentos em todo o pa\u00eds. Houve 400 detidos nessa luta, 40 deles trotskistas. Apesar de que a greve foi um fracasso em n\u00edvel nacional, a ferocidade com a qual os trotskistas llerenenses lutaram fez com que um grupo de militantes do PSOE se juntasse a eles.<\/p>\n<p>Em 1935 o grupo foi formado como um dos centros mais importantes do que j\u00e1 era a Esquerda Comunista da Espanha, novo nome do grupo para constituir-se como um partido definitivamente independente do PCE, decis\u00e3o que fez com que eles discutissem duramente com Trotsky. Rastrollo, o principal dirigente, deixa o povoado para construir a ECE na Galiza. Eduardo Mauricio permanece como o principal dirigente, sendo nomeado membro da dire\u00e7\u00e3o do POUM quando este \u00e9 fundado em setembro. Grandizo Munis se op\u00f4s \u00e0 funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Exemplo da import\u00e2ncia do n\u00facleo de Llerena, ao que Juan Andrade descrevia como &#8220;a mais forte base oper\u00e1ria do partido&#8221;, \u00e9 que o pr\u00f3prio Andreu Nin tentou ser candidato da Frente Popular por Badajoz, ainda que o resto de partidos n\u00e3o o aceitou. Neste momento, &#8220;La Batalla&#8221;, o jornal do POUM, vendia mais que o dobro do que qualquer outro jornal oper\u00e1rio na localidade.<\/p>\n<p>Neste momento o POUM conseguiu 12 alqueires de terra, que foram explorados cooperativamente por boias-frias. Em julho de 1936, quando os generais deram o golpe, o POUM tinha 230 militantes em Llerena. Dias antes seu sindicato tinha se unificado com a UGT, colocando-os completamente na dire\u00e7\u00e3o do \u00a0movimento oper\u00e1rio<\/p>\n<p>.<strong>Guerra e Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A \u00faltima p\u00e1gina da hist\u00f3ria dos militantes de Llerena \u00e9 a mais heroica. A Revolu\u00e7\u00e3o Social irrompe em resposta ao golpe. Um novo governo \u00e9 formado, conhecido como o &#8220;Comit\u00ea Antifascista&#8221;, que, diante da fuga ou boicote da burguesia local, assume o controle da economia. Os direitistas locais s\u00e3o presos (ningu\u00e9m \u00e9 fuzilado).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, todas as armas s\u00e3o expropriadas para organizar as mil\u00edcias de defesa. Em 5 de agosto, as tropas do ex\u00e9rcito africano, que v\u00e3o de Sevilla em dire\u00e7\u00e3o a Madrid, concentram-se em Llerena, a vermelha. O ataque \u00e9 brutal, embora as mil\u00edcias se defendam at\u00e9 o fim. Os \u00faltimos milicianos se entrincheiraram na torre da igreja e se recusaram a se render. As tropas p\u00f5e fogo na igreja com os milicianos dentro.<\/p>\n<p>Em Llerena, como em toda a Espanha, acontece um verdadeiro exterm\u00ednio. Companheiros como Felix Galan ou Jose Martin morrem em combate. H\u00e1 dezenas e dezenas de fuzilados, for\u00e7adas a cavar sua pr\u00f3pria cova. Entre eles Pablo Fern\u00e1ndez Grandizo, que morre amarrado pelos pulsos com outro fuzilado. Rastrollo tamb\u00e9m \u00e9 fuzilado em Santiago de Compostela. Eduardo Mauricio consegue fugir para a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Grandizo Munis, que sempre apoiou as posi\u00e7\u00f5es de Trotsky em sua pol\u00eamica com seus companheiros llerenenses, estava no M\u00e9xico quando a guerra civil come\u00e7ou e imediatamente retornou \u00e0 Espanha. Foi preso pelo governo da Frente Popular, e deixado em uma cela do Castelo de Montjuic (por organizar os prisioneiros revolucion\u00e1rios encarcerados) para a\u00ed ser capturado pelos franquistas, mas ele escapou no \u00faltimo momento. Ele falou no funeral de Trotsky e foi uma das pessoas chave no julgamento contra seu assassino.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dos trotskistas de Llerena \u00e9 o melhor exemplo de como um pequeno grupo come\u00e7ando do zero pode chegar a dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o, desde que estejam junto ao movimento oper\u00e1rio. Grandizo Munis, o maior dirigente trotskista espanhol, apesar de que viveu intensas pol\u00eamicas com eles, n\u00e3o hesitou em se auto incriminar para exonerar seus companheiros quando foram perseguidos pelo governo da Frente Popular.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o de <em>P\u00e1gina Roja<\/em>, abordaremos a pol\u00eamica com o POUM, mas n\u00e3o poder\u00edamos faz\u00ea-lo antes de fazer conhecer a hist\u00f3ria dos militantes trotskistas de Llerena.<\/p>\n<p>Fazemos nossa a dedicat\u00f3ria que Munis fez aos seus companheiros, vizinhos e amigos no livro &#8220;<em>Promesas de vict\u00f3ria, jalones da derrota&#8221;:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Aos meus camaradas Luis Rastrollo, F\u00e9lix Gal\u00e1n e Jos\u00e9 Mart\u00edn, lutadores fortes e inteligentes da revolu\u00e7\u00e3o socialista, assassinados pelo carrasco Franco; a meu tio, Pablo Grandizo, tamb\u00e9m assassinado por ele; a todos os mortos pela revolu\u00e7\u00e3o durante as batalhas da Espanha, representantes nobres de uma gera\u00e7\u00e3o que soube usar suas vidas.<\/em><\/p>\n<p><em>Essa dedica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma recorda\u00e7\u00e3o calorosa. Nela vai a determina\u00e7\u00e3o combativa daqueles que permanecemos de p\u00e9. Voc\u00eas, os ca\u00eddos generosamente: n\u00f3s salvaremos seu esfor\u00e7o com nosso esfor\u00e7o ou com voc\u00eas vamos nos dissolver na terra! &#8220;<\/em><\/p>\n<p>Artigo originalmente publicado em http:\/\/www.corrienteroja.net<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lena Souza<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Llerena era (e ainda \u00e9) uma povoado eminentemente oper\u00e1rio da prov\u00edncia de Badajoz. O latif\u00fandio dominava a terra. Apenas 12 propriet\u00e1rios possu\u00edam metade do munic\u00edpio. Por outro lado, uma grande massa de boia-fria vivia mal entre o desemprego e o trabalho duro no campo, com sal\u00e1rios de verdadeira mis\u00e9ria. 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