{"id":24317,"date":"2018-09-14T12:25:45","date_gmt":"2018-09-14T14:25:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=24317"},"modified":"2018-09-14T12:25:45","modified_gmt":"2018-09-14T14:25:45","slug":"oslo-uma-segunda-nakba-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/09\/14\/oslo-uma-segunda-nakba-palestina\/","title":{"rendered":"Oslo, uma segunda \u201cNakba\u201d palestina"},"content":{"rendered":"<p><em>Metade da popula\u00e7\u00e3o palestina sob ocupa\u00e7\u00e3o sionista tem menos de 29 anos de idade, segundo relat\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas de 2017. Nenhum deles conhece a t\u00e3o decantada \u201cpaz\u201d anunciada ao mundo h\u00e1 25 anos com a assinatura dos acordos de Oslo. Esses foram firmados em 13 de setembro de 1993 entre a Organiza\u00e7\u00e3o pela Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP) e o Estado de Israel, sob media\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Soraya Misleh<\/p>\n<p>O aperto de m\u00e3o entre seus l\u00edderes, Yassir Arafat e Yitzhak Rabin, em frente \u00e0 Casa Branca e sob os olhares atentos de Bill Clinton, foi transmitido ao vivo pelos canais de TV de todo o mundo. Um espet\u00e1culo midi\u00e1tico para ningu\u00e9m botar defeito. H\u00e1 muito tempo a promessa de paz demonstra que n\u00e3o passou de <em>fake news<\/em> da pior esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi um fracasso, portanto, como alguns ainda insistem em afirmar. Em seu prop\u00f3sito mascarado sob o manto da paz e da coexist\u00eancia, Oslo foi absolutamente bem-sucedido. Na esteira da primeira Intifada palestina (levante popular massivo), iniciada em 1987, representou uma oportunidade a Israel sedimentar seu projeto colonial e de <em>apartheid<\/em>, consolidando uma economia dependente dos lucros com a ocupa\u00e7\u00e3o. Desmobilizaria, para tanto, a solidariedade internacional e enfraqueceria a resist\u00eancia palestina.<\/p>\n<p>Firmando o reconhecimento m\u00fatuo entre OLP e Israel, os acordos basearam-se na, desde sempre, injusta proposta de dois estados \u2013 ou seja, de uma Palestina em apenas 22% do seu territ\u00f3rio hist\u00f3rico, que n\u00e3o contempla a maioria da popula\u00e7\u00e3o, fragmentada e sem direitos. A ideia difundida ao mundo era de que o controle desse peda\u00e7o passaria \u00e0s m\u00e3os dos palestinos gradativamente. Inicialmente, a Cisjord\u00e2nia se manteria dividida em \u00e1reas A (sob administra\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o criada Autoridade Palestina (AP), equivalente a 18%), B (mista, entre Israel e AP, 22%) e C (sob controle militar exclusivo israelense, 60%).<\/p>\n<p>Logo \u00e0 sequ\u00eancia da assinatura, Israel ampliou a constru\u00e7\u00e3o de assentamentos e aparatos como estradas exclusivas para colonos que impediram qualquer autonomia por parte da lideran\u00e7a palestina. Um ano depois, como complemento, foram firmados os Protocolos de Paris, que selaram a consequente coopera\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a da AP com Israel \u2013 em outras palavras, a Autoridade Palestina passou a gerenciar a ocupa\u00e7\u00e3o, reprimindo a resist\u00eancia palestina.<\/p>\n<p><strong>Capitalismo e <em>apartheid<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 chave nesse processo: qualquer fundo, importa\u00e7\u00e3o ou exporta\u00e7\u00e3o por parte da AP desde ent\u00e3o est\u00e3o sujeitos a repasse israelense, que assegurou o controle sobre a circula\u00e7\u00e3o em terra, mar e sobre as fronteiras. Fruto desse processo, uma nova burguesia surgiu na Palestina ocupada \u2013 atrelada ao projeto sionista.<\/p>\n<p>Como aponta a jornalista Naomi Klein em seu livro \u201cA doutrina do choque \u2013 a ascens\u00e3o do capitalismo de desastre\u201d, Oslo foi um ponto de virada numa pol\u00edtica que sempre teve na sua base a limpeza \u00e9tnica dos palestinos. De 1948 \u2013 ano da Nakba, a cat\u00e1strofe palestina com a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel e a expuls\u00e3o violenta de 75% da popula\u00e7\u00e3o nativa \u00e1rabe \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o, \u201ctodos os dias, cerca de 150 mil palestinos deixavam suas casas em Gaza e na Cisjord\u00e2nia para limpar as ruas e construir as estradas em Israel, ao mesmo tempo em que agricultores e comerciantes enchiam caminh\u00f5es com produtos para vender em Israel e em outras partes do territ\u00f3rio\u201d. Ap\u00f3s os acordos de 1993, o Estado judeu se fechou at\u00e9 mesmo a essa m\u00e3o de obra barata, substituindo-a por uma nova leva de imigrantes sionistas.<\/p>\n<p>Simultaneamente, Israel passou a se apresentar, nas palavras da jornalista, \u201ccomo uma esp\u00e9cie de <em>shopping center<\/em> de tecnologias de seguran\u00e7a nacional\u201d. Em seu livro, a autora afirma que, ao final de 2006, ano da invas\u00e3o israelense do L\u00edbano, a economia do estado sionista, baseada fortemente na exporta\u00e7\u00e3o militar, expandiu-se vertiginosamente (8%), ao mesmo tempo em que se acentuou a desigualdade dentro da pr\u00f3pria sociedade israelense, e as taxas de pobreza nos territ\u00f3rios palestinos ocupados em 1967 alcan\u00e7aram \u00edndices alarmantes (70%).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa os acordos de Oslo s\u00e3o considerados por muitos palestinos como uma nova\u00a0<em>Nakba<\/em>\u00a0\u2013 um exemplo lament\u00e1vel de rendi\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a hist\u00f3rica palestina ao seu algoz, como denunciou desde o in\u00edcio o intelectual palestino Edward Said (1935-2003), o qual denominava tais acordos corretamente como os Tratados de Versalhes da causa palestina.<\/p>\n<p>Neste momento de decl\u00ednio do sionismo, com o aumento da resist\u00eancia palestina e da solidariedade internacional, Israel endurece a repress\u00e3o, sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os do imperialismo. Trump tenta emplacar o que denomina de \u201cacordo do s\u00e9culo\u201d, para liquidar de vez a quest\u00e3o palestina. Promete apresent\u00e1-lo em seu discurso no dia 25 deste m\u00eas na 73<sup>a<\/sup> Sess\u00e3o da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Mas seu plano se enfrenta com aqueles que n\u00e3o t\u00eam nada a perder, sobretudo os \u201cfilhos de Oslo\u201d, \u00e0 cabe\u00e7a hoje da resist\u00eancia heroica. Trazem como principal bandeira o que sabem que jamais vir\u00e1 por meio de negocia\u00e7\u00f5es com seus algozes: o retorno dos refugiados \u00e0s terras de onde foram expulsos \u2013 s\u00e3o 5 milh\u00f5es em campos somente na Palestina ocupada e nos pa\u00edses \u00e1rabes, mais milhares espalhados pelo mundo.<\/p>\n<p>Somam-se na reivindica\u00e7\u00e3o por justi\u00e7a os 1,5 milh\u00e3o de palestinos que persistem nos territ\u00f3rios de 1948, sob o jugo de Israel, submetidos a leis racistas \u2013 tamb\u00e9m ignorados nos ditos \u201cacordos de paz\u201d. \u00c9 urgente ecoar suas vozes e cerc\u00e1-los neste momento de solidariedade ativa, atendendo ao chamado por boicote, desinvestimento e san\u00e7\u00f5es (BDS) a Israel. Rumo \u00e0 Palestina livre, do rio ao mar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Metade da popula\u00e7\u00e3o palestina sob ocupa\u00e7\u00e3o sionista tem menos de 29 anos de idade, segundo relat\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas de 2017. Nenhum deles conhece a t\u00e3o decantada \u201cpaz\u201d anunciada ao mundo h\u00e1 25 anos com a assinatura dos acordos de Oslo. 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