{"id":24279,"date":"2018-09-12T12:54:37","date_gmt":"2018-09-12T14:54:37","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=24279"},"modified":"2018-09-12T12:54:37","modified_gmt":"2018-09-12T14:54:37","slug":"o-caso-robles-corolario-natural-das-escolhas-e-do-percurso-do-bloco-de-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/09\/12\/o-caso-robles-corolario-natural-das-escolhas-e-do-percurso-do-bloco-de-esquerda\/","title":{"rendered":"O caso Robles: corol\u00e1rio natural das escolhas e do percurso do Bloco de\u00a0Esquerda"},"content":{"rendered":"<p><em>Tem suscitado espanto e indigna\u00e7\u00e3o a novela que se desenrolou em torno de Ricardo Robles, o vereador eleito pelo Bloco de Esquerda (BE) para a C\u00e2mara de Lisboa que anunciou recentemente a sua ren\u00fancia ao mandato. A sucess\u00e3o de epis\u00f3dios foi despoletada pela ampla divulga\u00e7\u00e3o de uma not\u00edcia dando conta do envolvimento de Ricardo Robles numa transa\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que, a concretizar-se, geraria mais-valias superiores a quatro milh\u00f5es de euros.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Jos\u00e9 Pereira| Em Luta &#8211; Portugal<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria resume-se em poucas palavras: em 2014, o ent\u00e3o deputado municipal e a sua irm\u00e3 compram, em hasta (leil\u00e3o) p\u00fablica, um pr\u00e9dio pertencente \u00e0 Seguran\u00e7a Social pelo valor de 347 mil euros. Depois de terem procedido a obras de remodela\u00e7\u00e3o, para as quais contra\u00edram um empr\u00e9stimo de 650 mil euros, os irm\u00e3os Robles colocaram recentemente o pr\u00e9dio \u00e0 venda por 5,7 milh\u00f5es de euros. Entretanto, e j\u00e1 na qualidade de novos senhorios, os irm\u00e3os Robles ter\u00e3o chegado a acordo com a maioria dos inquilinos no sentido da cessa\u00e7\u00e3o dos respetivos contratos de arrendamento.<\/p>\n<p>A coloca\u00e7\u00e3o \u00e0 venda do im\u00f3vel, situado em Alfama perto do Museu do Fado, ocorre com Ricardo Robles no cargo de vereador do pelouro da Educa\u00e7\u00e3o, Direitos Sociais e Cidadania. Relembre-se que a investidura de Robles aconteceu na sequ\u00eancia de um acordo celebrado com o PS que garantiu a Fernando Medina governar a C\u00e2mara apesar de n\u00e3o ter obtido maioria absoluta nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas.<\/p>\n<p>O espanto e at\u00e9 a indigna\u00e7\u00e3o a que alud\u00edamos no in\u00edcio t\u00eam toda a raz\u00e3o de ser. Na verdade, ela expressa a reprova\u00e7\u00e3o, por um lado, pela conduta de Robles e, por outro, pelo percurso e escolhas do BE.<\/p>\n<p>Sobre a conduta de Robles, \u00e9 por demais evidente o car\u00e1ter especulativo do neg\u00f3cio que se preparava para consumar e salta \u00e0 vista a total discrep\u00e2ncia entre esta transa\u00e7\u00e3o e uma campanha aut\u00e1rquica baseada na den\u00fancia da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e dos seus efeitos na expuls\u00e3o de moradores do centro de Lisboa. O Bloco foi incapaz de combater a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e de eliminar \u2013 ou sequer restringir severamente \u2013 o alojamento local mediado por empresas como a Airbnb. A dire\u00e7\u00e3o do Bloco n\u00e3o se distanciou deste caso e a Comiss\u00e3o Pol\u00edtica sancionou, por larga maioria, as justifica\u00e7\u00f5es de Robles.<\/p>\n<p>Por aqui se depreendem duas conclus\u00f5es. Primeiro, Ricardo Robles nunca poderia tomar medidas que revertessem o aumento das rendas ou a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria visto que o seu interesse enquanto propriet\u00e1rio estaria oposto \u00e0s necessidades das popula\u00e7\u00f5es em nome de quem o agora ex-vereador dizia governar. Segundo, cai por terra o argumento esgrimido pelo BE, e n\u00e3o s\u00f3, segundo o qual a elei\u00e7\u00e3o de um vereador bloquista serviria, ou deveria servir, para vigiar e controlar, em nome dos interesses dos trabalhadores, a gest\u00e3o do Partido Socialista (OS) protagonizada por Fernando Medina.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o Bloco aliou-se a um PS cuja gest\u00e3o \u00e9 amiga da Banca e dos interesses imobili\u00e1rios que expulsam os trabalhadores e os moradores mais pobres do centro da cidade. Nesse sentido, o conflito de interesses entre trabalhadores e especuladores imobili\u00e1rios \u00e9 inevit\u00e1vel e o caso Robles \u00e9 bem ilustrativo desta conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Revelou-se, por isso, avisada a indica\u00e7\u00e3o dada pelo\u00a0<em>Em Luta\u00a0<\/em>durante a \u00faltima campanha aut\u00e1rquica: nenhuma das candidaturas concorrentes, incluindo a do BE, era merecedora do voto dos eleitores de Lisboa. Mantemos que a solu\u00e7\u00e3o passa por impulsionar a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, sob a sua dire\u00e7\u00e3o e com um programa que responda \u00e0s suas aspira\u00e7\u00f5es; n\u00e3o passa pelas alian\u00e7as com os partidos da burguesia de que o acordo PS\/BE em Lisboa ou a Geringon\u00e7a s\u00e3o casos not\u00f3rios.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a com o PS na gest\u00e3o da c\u00e2mara de Lisboa \u00e9 algo desde h\u00e1 muito procurado pelo Bloco e teve o seu primeiro ensaio com a elei\u00e7\u00e3o do vereador independente Jos\u00e9 S\u00e1 Fernandes e a sua posterior integra\u00e7\u00e3o no executivo da c\u00e2mara liderado por Ant\u00f3nio Costa. A C\u00e2mara de Lisboa ter\u00e1 servido de laborat\u00f3rio para a forma\u00e7\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o que sustenta o governo minorit\u00e1rio do PS e que, para al\u00e9m do BE, inclui o PCP.<\/p>\n<p>A Geringon\u00e7a governa o pa\u00eds para gerir a austeridade imposta pela troika e herdada do governo PSD-CDS, fazendo crer que a crise se resolve promovendo acordos entre patr\u00f5es e trabalhadores. O BE tem jogado um papel importante nesse processo. A este prop\u00f3sito, cabe referir que o BE foi incapaz de defender a revoga\u00e7\u00e3o da lei das rendas de Assun\u00e7\u00e3o Cristas, aprovada pelo Governo PSD-CDS, e cuja altera\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo discutida no Parlamento.<\/p>\n<p>As liga\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas estabelecidas entre o lobby da constru\u00e7\u00e3o civil, obras p\u00fablicas e imobili\u00e1rio e o poder local t\u00eam sido uma marca d`\u00e1gua da democracia burguesa em Portugal. Os recentes casos denunciados pela imprensa envolvendo Fernando Medina, Rui Moreira e at\u00e9 Ant\u00f3nio Costa s\u00e3o exemplos singelos de uma realidade bem mais grave e profunda. Na verdade, nenhum dos partidos com assento parlamentar, da direita \u00e0 esquerda, pode rir-se do \u201cinfort\u00fanio\u201d por que passa o BE.<\/p>\n<p>A direita liberal representada pelo PSD e CDS tem-se revelado a campe\u00e3 dos grandes neg\u00f3cios entre a pol\u00edtica, a finan\u00e7a e a constru\u00e7\u00e3o civil e isto explica a autoria moral da lei dos despejos de Cristas. O PS segue as pisadas do PSD no governo central e local e o PCP, atrav\u00e9s da sua coliga\u00e7\u00e3o CDU, vai somando alian\u00e7as com o PSD nas c\u00e2maras municipais.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, este caso deve levar-nos a exigir a revoga\u00e7\u00e3o da Lei da Assun\u00e7\u00e3o Cristas e que o Estado intervenha com pulso de ferro no mercado de forma a garantir o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e do povo em detrimento dos interesses dos propriet\u00e1rios.<\/p>\n<h5><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem suscitado espanto e indigna\u00e7\u00e3o a novela que se desenrolou em torno de Ricardo Robles, o vereador eleito pelo Bloco de Esquerda (BE) para a C\u00e2mara de Lisboa que anunciou recentemente a sua ren\u00fancia ao mandato. 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