{"id":24033,"date":"2018-08-24T17:40:21","date_gmt":"2018-08-24T19:40:21","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=24033"},"modified":"2018-08-24T17:40:21","modified_gmt":"2018-08-24T19:40:21","slug":"sobre-ortodoxia-e-dogmatismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/08\/24\/sobre-ortodoxia-e-dogmatismo\/","title":{"rendered":"Sobre Ortodoxia e Dogmatismo"},"content":{"rendered":"<p><em>O t\u00edtulo deste artigo apresenta uma tese central: ortodoxia e dogmatismo s\u00e3o coisas distintas. Cotidianamente observamos uma grande confus\u00e3o. Muitas pessoas tratam estes dois conceitos como se fossem sin\u00f4nimos, queremos aqui colaborar para a compreens\u00e3o destas duas palavras (conceitos). Ser ortodoxo n\u00e3o \u00e9 o mesmo de ser dogm\u00e1tico. Esta confus\u00e3o acaba contribuindo para um entendimento err\u00f4neo, principalmente sobre ortodoxia em uma perspectiva marxiana. Vejamos as diferen\u00e7as.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Jean Menezes &#8211;\u00a0Parana\u00edba\/MS<\/p>\n<p>A palavra ortodoxia tem sua origem grega em <em>orthodoxos<\/em>, que significa de opini\u00e3o correta, certa, verdadeira, reta. J\u00e1 a palavra dogmatismo, substantivo masculino, vem de dogma, em grego <em>dogm\u00e1tikos<\/em>, que significa fundamentos, princ\u00edpios fundamentais. O dogmatismo filos\u00f3fico em S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles possui significado contestador, absolutamente diferente da atribui\u00e7\u00e3o religiosa que se deu na Idade M\u00e9dia e mesmo at\u00e9 os dias de hoje, quando dogmatismo trata de fundamentos inquestion\u00e1veis, absolutos e eternos.<\/p>\n<p>Nesta breve apresenta\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica a diferen\u00e7a j\u00e1 se faz gritante. Observe que tamb\u00e9m chamei estas palavras de conceitos, ou seja, significa que elas tamb\u00e9m s\u00e3o dotadas de significados hist\u00f3ricos e est\u00e3o em constantes movimentos. Todavia, o movimento hist\u00f3rico n\u00e3o autoriza a falsifica\u00e7\u00e3o de seus significados! E isso acontece tanto com o significado de ortodoxia ou dogmatismo.<\/p>\n<p>Ser ortodoxo significa, por exemplo, defender uma tese fortemente, com toda for\u00e7a, at\u00e9 que se prove e se conven\u00e7a de que determinada tese est\u00e1 equivocada. Veja que o ortodoxo se permite a transforma\u00e7\u00e3o desde que tenha elementos s\u00f3lidos de que sua tese \u00e9 um erro. Argumentar a partir do que acredita e defende n\u00e3o \u00e9 ser cego ou ignorante diante do processo hist\u00f3rico, mas ter firmeza em garantir a sustenta\u00e7\u00e3o de uma tese, justamente por ser constru\u00edda com fundamentos concretos, reais, s\u00f3lidos e por esta tese encontrar respaldo na sociabilidade.<\/p>\n<p>Ser dogm\u00e1tico significa (longe da chave grega), por sua vez, defender uma tese sem questionamentos, fix\u00e1-la no tempo e n\u00e3o permitir a contesta\u00e7\u00e3o, e ainda, refutar qualquer ant\u00edtese que se apresente. O dogm\u00e1tico ignora as contradi\u00e7\u00f5es da sua tese e busca sustent\u00e1-la de todas as formas, muitas vezes se isolando em pequenos grupos que poderiam ser chamados seguramente de seitas. O dogma se apresenta como a verdade em si, sendo suficiente, impenetr\u00e1vel e surdo diante da cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Estas breves palavras j\u00e1 dariam conta de responder o t\u00edtulo do artigo, mas insistirei em colocar estes conceitos em uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica determinada. Atualmente, \u00e9 poss\u00edvel se deparar com a seguinte afirma\u00e7\u00e3o contra o pensamento de Marx e o marxismo (a tradi\u00e7\u00e3o marxista n\u00e3o \u00e9 de responsabilidade de Marx, fiquemos aqui apenas com Marx): \u201cMarx \u00e9 muito ortodoxo, muito fechado em si mesmo.<\/p>\n<p>\u00c9 um pensamento dogm\u00e1tico de verdades \u00fanicas\u201d. Ou, ainda, como escreveu o economista da Universidade de Viena Eugen von B\u00f6hm-Bawerk acerca da teoria da mais-valia e da explora\u00e7\u00e3o capitalista em Marx: \u201c[\u2026] Ele (Marx) acreditava na sua tese como um fan\u00e1tico acredita em um dogma. [\u2026] Sem d\u00favida foi dominado por ela [\u2026] E ele, certamente, jamais alimentou a menor d\u00favida quanto \u00e0 corre\u00e7\u00e3o dessa tese\u201d.<\/p>\n<p>O caro leitor j\u00e1 deve ter percebido o conjunto de barbaridades que as afirma\u00e7\u00f5es acima apresentam. Nelas, ortodoxo se relaciona com circuito fechado, dogmatizado, a fanatismo e monolitismo te\u00f3rico. Ent\u00e3o vejamos (\u2026).<\/p>\n<p>O pensamento de Marx, ou seja, a sua pr\u00e1xis, n\u00e3o faz coro com qualquer tipo de teoria fechada, absoluta, suficiente em si mesma. Muito diferente disso, a cr\u00edtica que Marx n\u00e3o trabalha com verdades eternas, imut\u00e1veis. Marx n\u00e3o opera com dogmatismos no sentido de sistemas fechados e absolutos. O motivo: a vida n\u00e3o \u00e9 assim, as pessoas n\u00e3o s\u00e3o assim, as formas de se relacionarem tamb\u00e9m n\u00e3o o s\u00e3o. Querer que seja j\u00e1 \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quando do ascenso revolucion\u00e1rio em 1848 \u00e9 verdade que h\u00e1 em Marx uma expectativa de vit\u00f3ria do proletariado europeu, mas diante dos fatos o que Marx nos legou foi uma an\u00e1lise dura do pr\u00f3prio movimento, como dir\u00edamos: um balan\u00e7o negativo do per\u00edodo. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7os para autoengano na perspectiva marxiana. Em 1852, no 18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, mais uma vez o que nos \u00e9 colocado \u00e9 uma an\u00e1lise hist\u00f3rica de balan\u00e7o das perspectivas dos revolucion\u00e1rios diante da crise do movimento e o ascenso do bonapartismo como fen\u00f4meno pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Se o pensamento de Marx operasse com dogmas, o que ter\u00edamos era uma an\u00e1lise de autoengano, ignorando a realidade dos fatos daquele tempo presente, diante de postulados absolutos e inquestion\u00e1veis de que a vit\u00f3ria do socialismo sob o capitalismo estava se concretizando. Na verdade o que se observa \u00e9 de uma honestidade intelectual admir\u00e1vel, n\u00e3o apenas moral, mas a necessidade de trabalhar em uma perspectiva l\u00f3gica\/dial\u00e9tica. Nela, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7os para qualquer tipo de dogmatismos. Pensar a cr\u00edtica de Marx em uma chave dogm\u00e1tica \u00e9 a maior demonstra\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se conhece mais do que algumas passagem recortadas e vulgarizadas. Isso n\u00e3o vale!<\/p>\n<p>Assim sendo, n\u00e3o acredito que seja poss\u00edvel sustentar esta caracter\u00edstica para o pensamento marxiano. Todavia, pensamento marxiano e pensamento marxista pode possuir um abismo tremendo. Diante de toda tradi\u00e7\u00e3o marxista encontramos o marxismo dogm\u00e1tico e este sim repleto de verdades absolutas, eternas e inquestion\u00e1veis, o stalinismo \u00e9 o maior exemplo deste tipo de deformidade em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento marxiano.<\/p>\n<p>Diante deste quadro, apresenta-se o marxismo ortodoxo. Do que se trata? Aqui temos o palco das confus\u00f5es mais lament\u00e1veis. Normalmente se confunde marxismo dogm\u00e1tico com marxismo ortodoxo e, normalmente, colocando o segundo em p\u00e9 de igualdade com o primeiro, tratando ortodoxia como sin\u00f4nimo de dogmatismo: n\u00e3o o s\u00e3o.<\/p>\n<p>Para esclarecer ainda mais, tomemos o exemplo de um marxista ortodoxo: L\u00eanin. Wladimir Ilych Ulianov, conhecido por L\u00eanin, foi um marxista ortodoxo. E o que isso significa?<\/p>\n<p>Comecemos por aquilo que n\u00e3o significa. O marxismo ortodoxo n\u00e3o aplica receitas e regras fixas; n\u00e3o trabalha com verdades eternas e absolutas e tamb\u00e9m n\u00e3o se ocupa de repetir aquilo que Marx disse ou fez como militante revolucion\u00e1rio. L\u00eanin, ao ser ortodoxo, est\u00e1 buscando na fonte a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica desenvolvida por Marx; busca li\u00e7\u00f5es do movimento revolucion\u00e1rio mundial; aprende com as formas de organiza\u00e7\u00f5es de Marx; estuda Marx, estuda a Comuna de Paris de 1871 e a Primavera dos Povos de 1848, questiona, reflete, concorda e discorda.<\/p>\n<p>Trata-se de um &#8220;marxismo vivo&#8221;. N\u00e3o se trata de uma simples adapta\u00e7\u00e3o ou moldagem da cr\u00edtica marxiana, mas a apreens\u00e3o do m\u00e9todo e das an\u00e1lises para entender a realidade russa da qual estava inserido. Nunca houve receitas. Era necess\u00e1rio trabalhar com o que existia de concreto, assim como prop\u00f5e o pensamento marxiano. O uso das categorias marxianas s\u00e3o os fundamentos para entender determinadas realidades onde se instala o modo capitalista de viver, por\u00e9m, a leitura do capitalismo na R\u00fassia era tarefa dos revolucion\u00e1rios russos daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Considerando a vulgariza\u00e7\u00e3o absurda do pensamento de Marx por parte da Social Democracia Alem\u00e3, adaptando o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio ao reformismo pacifista de Eduard Berstein e Karl Kautsky, mesmo com a resist\u00eancia de Rosa de Luxemburgo, ser ortodoxo neste momento era retomar as fontes, retornar a Marx era uma necessidade imperiosa do movimento revolucion\u00e1rio que tinha no partido alem\u00e3o o maior exemplo de degenera\u00e7\u00e3o e desvio do pensamento marxiano.<\/p>\n<p>O marxismo reformista do Partido Social Democrata Alem\u00e3o n\u00e3o era exemplo para nenhum tipo de mudan\u00e7a radical das estruturas sociais, ou seja, para a revolu\u00e7\u00e3o. Desta forma, quando L\u00eanin se organiza a partir do pensamento marxiano, est\u00e1 reafirmando a cr\u00edtica de Marx nos seus termos, sem fantasiar as categorias, detendo-se naquilo que Marx fez, n\u00e3o naquilo que determinado dirigente acha que tenha feito. No marxismo ortodoxo n\u00e3o deve haver espa\u00e7os para inven\u00e7\u00f5es de moda ou mesmo colocar na lavra de Marx o que nunca foi dele, por exemplo, o dogmatismo no sentido feudal que j\u00e1 apresentamos.<\/p>\n<p>Ser ortodoxo n\u00e3o \u00e9 ser dogm\u00e1tico, ao contr\u00e1rio, trata-se de combater os dogmatismos, trata-se de atacar at\u00e9 a sua raiz o marxismo dogm\u00e1tico\/vulgar. A ortodoxia, ou ainda, o marxismo ortodoxo \u00e9 vivo, aberto, e defende Marx como ele \u00e9, sem adapta\u00e7\u00f5es e abrandamentos do pensamento revolucion\u00e1rio. Neste sentido ser ortodoxo \u00e9 combater qualquer tipo de dogmatismo e trabalhar com seriedade a partir de uma perspectiva (marxiana) considerando a s\u00edntese de m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es que cada momento hist\u00f3rico nos apresenta.<\/p>\n<p>Finalizando: ortodoxia marxiana \u00e9 algo necess\u00e1rio se desejamos entender o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista em crise para super\u00e1-lo, n\u00e3o \u00e9 um conjunto de dogmatismos que contribuir\u00e1 para uma revolu\u00e7\u00e3o social. Neste campo pol\u00edtico, n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para concilia\u00e7\u00e3o de classe. Nossas necessidades nunca couberam nas urnas. Nenhuma esperan\u00e7a em avatar, mas na classe trabalhadora internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo deste artigo apresenta uma tese central: ortodoxia e dogmatismo s\u00e3o coisas distintas. Cotidianamente observamos uma grande confus\u00e3o. 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