{"id":23961,"date":"2018-08-20T10:20:20","date_gmt":"2018-08-20T12:20:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23961"},"modified":"2018-08-20T10:20:20","modified_gmt":"2018-08-20T12:20:20","slug":"marx-e-a-questao-do-programa-a-ditadura-do-proletariado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/08\/20\/marx-e-a-questao-do-programa-a-ditadura-do-proletariado\/","title":{"rendered":"Marx e a quest\u00e3o do programa: a ditadura do proletariado"},"content":{"rendered":"<p><em>O fil\u00f3sofo grego Plat\u00e3o, comentando sobre o discurso dial\u00e9tico, diz que ele \u201cprecisa ser constru\u00eddo como um organismo vivo, com um corpo que lhe seja pr\u00f3prio, de forma que n\u00e3o se apresente sem cabe\u00e7a nem p\u00e9s, mas com partes bem definidas e articuladas entre si e com o todo\u201d (PLAT\u00c3O, 1975, p.155). Ora, se no curso do s\u00e9culo XX muitos procuraram arrancar os p\u00e9s da obra e vida de Marx, decepando sua atividade partid\u00e1ria e organizativa, outros procuraram arrancar tamb\u00e9m sua cabe\u00e7a, soterrando o programa que regeu toda sua elabora\u00e7\u00e3o e atividade pol\u00edtica.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Por: Gustavo Machado<\/em><\/p>\n<p>Em particular, procurou-se arrancar fora o n\u00facleo central desse programa: a tomada do poder pelo proletariado e a constru\u00e7\u00e3o da ditadura do proletariado. Um partido sem programa \u00e9 como um cego no tiroteio, que n\u00e3o sabe para onde ir. Da mesma forma, um programa que n\u00e3o tenha um partido para disput\u00e1-lo no interior do movimento dos trabalhadores, \u00e9 apenas tinta impressa em um papel.<\/p>\n<p>Nesse artigo indicaremos alguns momentos centrais da longa atividade de elabora\u00e7\u00e3o program\u00e1tica de Marx. Tratam-se de momentos de seu pensamento que foram, em sua maior parte, esquecidos ou distorcidos no intuito de torn\u00e1-lo um mero te\u00f3rico da economia ou da sociedade, afastado de toda e qualquer atividade organizativa e revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>O movimento real e uma d\u00fazia de programas<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, portanto, sem raz\u00e3o, que uma das frases mais conhecidas de Marx sobre a quest\u00e3o do programa seja um trecho de sua carta a Wilhelm Bracke, onde se l\u00ea: \u201cCada passo do movimento real \u00e9 mais importante do que uma d\u00fazia de programas\u201d (MARX, 2012, p. 20). Para se ter uma ideia, essa frase est\u00e1 na capa da edi\u00e7\u00e3o brasileira desse escrito, publicada pela Boitempo Editorial. Descolada de seu contexto, tal cita\u00e7\u00e3o se assemelha a m\u00e1xima do social democrata alem\u00e3o Bernstein: \u201cO movimento \u00e9 tudo; a meta final, nada\u201d. Foi com esse crit\u00e9rio que a Socialdemocracia alem\u00e3 consolidou seu caminho rumo ao reformismo, autonomizando o movimento, as t\u00e1ticas, a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica institucional e relegando a estrat\u00e9gia para o dia do ju\u00edzo final.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o se divulga \u00e9 toda a carta em que a cita\u00e7\u00e3o de Marx mostrada acima foi extra\u00edda. Ela aparece no contexto da fus\u00e3o entre dois partidos que originou a Socialdemocracia alem\u00e3 em 1875. O primeiro partido era orientado pelas concep\u00e7\u00f5es de Marx, os\u00a0<em>eisenachianos<\/em>,, e o segundo por Ferdinand Lassalle (1).<\/p>\n<p>Esta frase, todavia, quando considerada de forma isolada, falsifica de forma grosseira as posi\u00e7\u00f5es de Marx. Na verdade, ele diz na mesma carta que embora tal unifica\u00e7\u00e3o fosse desej\u00e1vel em uma perspectiva geral \u201cengana-se quem acredita que essa vit\u00f3ria moment\u00e2nea n\u00e3o custou caro demais\u201d (MARX, 2012, p. 20). Porque a unifica\u00e7\u00e3o custou caro demais? Justamente em fun\u00e7\u00e3o do programa aprovado no congresso de fus\u00e3o: o\u00a0<em>Programa de Gotha<\/em>.<\/p>\n<p>Segundo Marx, \u201cnos distanciamos totalmente desse programa de princ\u00edpios e n\u00e3o temos nada a ver com ele\u201d. Programa \u201cque, como estou convencido, \u00e9 absolutamente nefasto e desmoralizador para o partido\u201d. Defende que deveria ter \u201csido previamente esclarecido de que n\u00e3o haveria nenhuma barganha de princ\u00edpios\u201d. Longe de ter defendido a unifica\u00e7\u00e3o nos termos do programa de Gotha, Marx diz que seria melhor \u201cter firmado um acordo para a a\u00e7\u00e3o contra o inimigo comum\u201d, possibilitando que um \u201cprograma possa ser preparado por uma longa atividade comum\u201d (MARX, 2012, p. 20).<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, a posi\u00e7\u00e3o de Marx \u00e9 clara e n\u00e3o deixa margem para qualquer ambiguidade. Ele se op\u00f4s a unifica\u00e7\u00e3o entre o Partido de Eisenach, o qual estava ligado, e o partido dirigido por Lassale nos termos do<em>Programa de Gotha<\/em>. Antes de levar a cabo tal unifica\u00e7\u00e3o sob uma base program\u00e1tica rebaixada seria mais adequado firmar um acordo comum para a a\u00e7\u00e3o, preservando a organizativa e program\u00e1tica de cada um dos partidos. Tal acordo possibilitaria a constru\u00e7\u00e3o de um outro programa no futuro. Programa esse que n\u00e3o deveria ter nenhuma \u201cbarganha de princ\u00edpios\u201d. Em resumo, se \u00e9 verdade que \u201ccada passo do movimento real \u00e9 mais importante do que uma d\u00fazia de programas\u201d, tal frase n\u00e3o permite, de modo algum, concluir que a rec\u00edproca \u00e9 verdadeira: que o programa \u00e9 irrelevante para se dar um passo no movimento real.<\/p>\n<p>De fato, essa unifica\u00e7\u00e3o, em bases program\u00e1ticas fr\u00e1geis, custou caro demais como previu Marx. \u00c9 bem prov\u00e1vel que nesse momento fundacional, marcado por uma aberta batalha program\u00e1tica de Marx, se encontrem os germes da futura degenera\u00e7\u00e3o do partido alem\u00e3o, que se tornou vanguarda do reformismo a n\u00edvel mundial. Esse movimento se ancorou nas posi\u00e7\u00f5es de Lassale, mas, tamb\u00e9m, em um Marx sem programa, sem cabe\u00e7a: ac\u00e9falo; cujas p\u00e9s conduzem a qualquer dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em verdade, a necessidade de se estabelecer uma organiza\u00e7\u00e3o sob bases program\u00e1ticas corretas se faz presente em toda a atividade pol\u00edtica de Marx. N\u00e3o sem raz\u00e3o, ainda em 1848, ele apenas aceitou entrar na Liga dos Comunistas com a aceita\u00e7\u00e3o do programa que prop\u00f4s, foi quando escreveu o <em>Manifesto Comunista<\/em>. Os dois estatutos da Liga come\u00e7avam por enunciar o programa e impor, como condi\u00e7\u00e3o de pertencimento a organiza\u00e7\u00e3o, a ades\u00e3o de todos seus membros a ele. Mas em que consiste tal programa? Qual o seu conte\u00fado espec\u00edfico?<\/p>\n<p><strong>Entre uma pol\u00edtica revolucion\u00e1ria e uma pol\u00edtica institucional<\/strong><\/p>\n<p>O esquecimento da longa trajet\u00f3ria de elabora\u00e7\u00e3o program\u00e1tica de Marx e sua fundamenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no estudo do funcionamento da sociedade capitalista coincide com o tentativa de transform\u00e1-lo em um mero cientista social, fil\u00f3sofo ou economista, separado de sua atividade essencial: revolucion\u00e1ria e socialista. Chegou-se ao ponto de se afirmar que Marx rejeitasse n\u00e3o apenas um programa, mas a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Vejamos como esse Marx ac\u00e9falo foi constru\u00eddo.<\/p>\n<p>Realmente, em 1844, no contexto da insurrei\u00e7\u00e3o dos tecel\u00f5es da Sil\u00e9sia, Marx escreve artigo em que ironiza as posi\u00e7\u00f5es de seu antigo colaborador Arnold Ruge, segundo o qual o limite fundamental dos tecel\u00f5es insurretos \u00e9 que se tratava de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o social sem alma pol\u00edtica\u201d. Ruge autonomiza a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, colocando-a como base e fundamento que determina toda a sociedade. Marx responde que toda \u201crevolu\u00e7\u00e3o dissolve a velha sociedade; neste sentido \u00e9 social. Toda revolu\u00e7\u00e3o derruba o velho poder; neste sentido \u00e9 pol\u00edtica\u201d. No entanto, como nenhuma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica paira no ar descolada de sua base social, Marx advoga, em sentido oposto, \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com uma alma social\u201d (MARX, 1995, p. 21).<\/p>\n<p>Mesmo no texto indicado acima, nunca se tratou de relegar para segundo plano a atividade pol\u00edtica, mas de fundament\u00e1-la em um programa firmemente assentado nas necessidades sociais e n\u00e3o o contr\u00e1rio, por isso, trata-se de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com alma social\u201d.<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 assim que, tr\u00eas anos depois, na <em>Mis\u00e9ria da Filosofia<\/em>, escrito dirigido ao programa reformista do ent\u00e3o influente socialista Proundhon, Marx explica que a sociedade est\u00e1 baseada nos antagonismos e explora\u00e7\u00e3o de classe. Ocorre que \u201ca luta de classe contra classe \u00e9 uma luta pol\u00edtica\u201d. Segue-se da\u00ed que somente em uma \u201cordem de coisas na qual j\u00e1 n\u00e3o haja classes e antagonismo de classes, que as\u00a0<em>evolu\u00e7\u00f5es sociais<\/em>\u00a0deixar\u00e3o de ser\u00a0<em>revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<\/em>\u201d. At\u00e9 l\u00e1, conclui Marx, citando George Sand: \u201cO combate ou a morte: a luta sanguin\u00e1ria ou o nada\u201d (MARX, 1976, p. 165-6).<\/p>\n<p>Nesses anos, Marx abandona a f\u00f3rmula abstrata da \u201cemancipa\u00e7\u00e3o humana\u201d, substituindo-a pela forma mais determinada e diretamente ligada a an\u00e1lise da din\u00e2mica interna da sociedade capitalista: \u201ca emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora\u201d. Esta an\u00e1lise conduz ao objetivo central do movimento dos trabalhadores enquanto perdurar a sociedade capitalista a n\u00edvel mundial: a tomada organizada do poder, a destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas. \u00c9 exatamente esse aspecto que \u00e9 enunciado nas<em>Resolu\u00e7\u00f5es do congresso geral de Haia<\/em>\u00a0em 1972\u00a0da AIT, tamb\u00e9m escritas por Marx, bem como em v\u00e1rios outros documentos:<\/p>\n<p><em>\u201c<\/em><em>A combina\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que a classe trabalhadora j\u00e1 efetuou por suas lutas econ\u00f4micas deve, ao mesmo tempo, servir de alavanca para suas lutas contra o poder pol\u00edtico de seus exploradores.<\/em><\/p>\n<p><em>[\u2026]<\/em> <strong><em>A conquista do poder pol\u00edtico tornou-se, portanto, o grande dever da classe trabalhadora<\/em><\/strong><em>. (MARX, 1992, p.79)<\/em><\/p>\n<p>Eis a finalidade program\u00e1tica que deve reger todo o programa de um partido revolucion\u00e1rio: a tomada do poder pelo proletariado. No entanto, com qual finalidade o proletariado deve tomar o poder? Ora, \u00e9 somente depois do Manifesto e da experi\u00eancia das revolu\u00e7\u00f5es de 1948 que Marx conclu\u00ed n\u00e3o ser suficiente a tomada do poder pelos trabalhadores e seu respectivo aparato estatal. \u00c9 necess\u00e1rio destruir o Estado burgu\u00eas e construir a ditadura do proletariado.<\/p>\n<p><strong>A\u00a0necessidade da ditadura do proletariado<\/strong><\/p>\n<p>Em meados de 1850, a Liga dos Comunistas procurou se unificar com outro grupo, dando origem a \u201cSociedade Universal dos Comunistas Revolucion\u00e1rios\u201d. Esta associa\u00e7\u00e3o acabou sendo dissolvida em fun\u00e7\u00e3o do fracionamento na Liga. De qualquer forma, o estatuto dessa nova organiza\u00e7\u00e3o, escrito e assinado por Marx, iniciava com o seguinte artigo:<\/p>\n<p><em>\u201cO objetivo da associa\u00e7\u00e3o \u00e9 a derrubada\u00a0de todas as classes privilegiadas, <strong>a submiss\u00e3o dessas classes \u00e0 ditadura do proletariado<\/strong>, tornando a revolu\u00e7\u00e3o permanente at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o do comunismo, que ser\u00e1 a forma final da constitui\u00e7\u00e3o da comunidade humana. (MARX, 1978, p.614, grifo nosso)\u201d<\/em><\/p>\n<p>Que seja do nosso conhecimento, esse \u00e9 o primeiro programa assinado por Marx em que a ditadura do proletariado aparece explicitamente como finalidade imediata de um partido revolucion\u00e1rio. Pouco tempo antes o tema \u00e9 desenvolvido com mais detalhes em um artigo da\u00a0<em>Nova Gazeta Renana \u2013 Revista<\/em>, posteriormente publicado por Engels com o t\u00edtulo <em>A luta de classes na Fran\u00e7a<\/em>. Nesse trecho se l\u00ea:<\/p>\n<p>Esse socialismo \u00e9 a <em>declara\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, a <em>ditadura classista<\/em> do proletariado como ponto de transi\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio para <em>aboli\u00e7\u00e3o de todas as diferen\u00e7as de classe<\/em>, para a aboli\u00e7\u00e3o da totalidade das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o em que est\u00e3o baseadas, para a aboli\u00e7\u00e3o da totalidade das rela\u00e7\u00f5es sociais que correspondem a essas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, para a convuls\u00e3o da totalidade das ideias, que se originam dessas rela\u00e7\u00f5es sociais. (MARX, 2012b, p.138).<\/p>\n<p>Essa elabora\u00e7\u00e3o de Marx teve grande repercuss\u00e3o entre os c\u00edrculos socialistas europeus. Tanto \u00e9 assim que em 1 de janeiro de 1852, o jornal <em>Turn-Zeitung<\/em>, editado por emigrantes socialistas alem\u00e3es nos EUA, publicou um artigo de Joseph Weydemeyer denominado justamente: <em>Sobre a ditadura do proletariado<\/em>, escrito sob a influ\u00eancia direta da obra de Marx. Mas essa ideia tamb\u00e9m recebeu cr\u00edticas t\u00e3o logo foi lan\u00e7ada ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>Muitos questionaram: se o objetivo final do programa proposto por Marx \u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista e das classes sociais que lhe correspondem, pondo fim, simultaneamente, \u00e0 pol\u00edtica, ao Estado e todos demais meios de domina\u00e7\u00e3o de uma classe sobre a outra, qual o motivo de se construir um outro Estado: a ditadura do proletariado?\u00a0Se contrapunha, assim, ditadura do proletariado e aboli\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 tornada clara em resposta do pr\u00f3prio Marx\u00a0a um de seus cr\u00edticos. Trata-se de Otto Liming, editor do jornal <em>Neue Deutsche Zeiting<\/em>. Esse escrevera em seu jornal uma resenha cr\u00edtica dos artigos de Marx sobre as lutas de classes na Fran\u00e7a\u00a0que tinham com alvo principal exatamente a no\u00e7\u00e3o de ditadura do proletariado. Marx escrevera uma resposta a Liming em que diz: \u201cNo artigo do seu jornal \u2026 voc\u00ea me censurou por defender o governo e a ditadura da classe trabalhadora, enquanto voc\u00ea prop\u00f5e, em oposi\u00e7\u00e3o a mim, a aboli\u00e7\u00e3o das distin\u00e7\u00f5es de classe em geral.<\/p>\n<p><strong>Eu n\u00e3o entendo essa corre\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Marx se defende citando o trecho de seu pr\u00f3prio artigo, alvo da presente cr\u00edtica, onde se v\u00ea o absurdo de tal contraposi\u00e7\u00e3o: \u201cEste socialismo (isto \u00e9, o comunismo) \u00e9 a declara\u00e7\u00e3o da perman\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o, a ditadura de classe do proletariado como a ponto de tr\u00e2nsito necess\u00e1rio para a aboli\u00e7\u00e3o das distin\u00e7\u00f5es de classe em geral\u201d (MARX, 1978b, p.387, grifo nosso).<\/p>\n<p>Ora, como demonstra todas as cita\u00e7\u00f5es de Marx que mencionamos acima, a contraposi\u00e7\u00e3o entre ditadura do proletariado e aboli\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 falsa da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. De um ponto de vista mais geral a ditadura do proletariado\u00a0\u00e9 apenas um meio para que se atinja o fim de todas as classes sociais e de uma sociedade baseada na explora\u00e7\u00e3o, na opress\u00e3o e na domina\u00e7\u00e3o. Mas, nos dias de hoje, quando a classe trabalhadora est\u00e1 afastada de todas as formas de poder, a ditadura do proletariado \u00e9 a finalidade primeira do Partido revolucion\u00e1rio.\u00a0Afinal, somente com a derrota do capitalismo a n\u00edvel mundial, arena sob a qual se move o capital, estar\u00e3o dadas\u00a0as\u00a0condi\u00e7\u00f5es\u00a0para uma sociedade sem classes (e sem Estado).<\/p>\n<p>Seria esta obsess\u00e3o de Marx com o programa, e a ditadura do proletariado, um resqu\u00edcio sect\u00e1rio e blanquista do s\u00e9culo XIX? Um obst\u00e1culo para a unidade da classe trabalhadora e, assim, para a realiza\u00e7\u00e3o dos seus fins? N\u00e3o acreditamos. Em resposta a essas quest\u00f5es, terminamos citando a fala de interven\u00e7\u00e3o de Marx na AIT em 15 de outubro de 1871, quando ele fez um balan\u00e7o dos motivos da derrota da Comuna de Paris. Como veremos a seguir, se \u00e9 verdade que mais vale um passo no movimento real do que uma d\u00fazia de programas ou, dito de outro modo, de nada adianta um programa se n\u00e3o se interfere na realidade, disto n\u00e3o se segue que um programa \u00e9 secund\u00e1rio. Ao contr\u00e1rio, sem um programa claro o movimento real pode desembocar em qualquer lugar. Diz Marx:<\/p>\n<p>A Comuna n\u00e3o conseguiu encontrar uma nova forma de governo de classe. Ao destruir as condi\u00e7\u00f5es existentes de opress\u00e3o, transferindo todos os meios de trabalho para o trabalhador produtivo, e assim obrigando todos os indiv\u00edduos capazes a trabalhar para viver, a \u00fanica base para o dom\u00ednio de classe e opress\u00e3o seria removida. Mas antes que tal mudan\u00e7a pudesse ser efetuada, uma ditadura prolet\u00e1ria se tornaria necess\u00e1ria, e a primeira condi\u00e7\u00e3o disso era um ex\u00e9rcito prolet\u00e1rio. As classes trabalhadoras teriam que conquistar o direito de emancipar-se no campo de batalha. A tarefa da Internacional \u00e9 organizar e combinar as for\u00e7as de trabalho para a pr\u00f3xima luta. (MARX, 1992, p.270-1)<\/p>\n<p>Como podemos perceber, o programa n\u00e3o \u00e9 um capricho de Marx.\u00a0Um programa equivocado conduz a derrotas e, com isso, a desmoraliza\u00e7\u00e3o e retrocesso da luta da classe trabalhadora. As lutas sindicais e por direitos dentro da sociedade capitalista s\u00e3o incapazes de resolver de forma definitiva os problemas da classe trabalhadora.\u00a0Se o socialismo encontra sua possibilidade nas contradi\u00e7\u00f5es objetivas da sociedade capitalista, n\u00e3o se desenvolve delas de forma autom\u00e1tica e mec\u00e2nica. Por isso a necessidade de se organizar e intervir no curso dos acontecimentos com um programa claro.<\/p>\n<p>Da mesma forma, \u00e9 imposs\u00edvel administrar um Estado capitalista, pois esse \u00e9 constru\u00eddo para atender as necessidades da classe dominante.\u00a0Por isso, o objetivo program\u00e1tico mais geral, que rege toda elabora\u00e7\u00e3o de Marx, n\u00e3o \u00e9 governar o Estado capitalista, mas destru\u00ed-lo e construir a ditadura do proletariado. Apenas com a vit\u00f3ria do proletariado a n\u00edvel mundial estar\u00e1 dada as condi\u00e7\u00f5es materiais para o fim do Estado enquanto \u00f3rg\u00e3o de poder e domina\u00e7\u00e3o de uma classe sobre a outra.<\/p>\n<p>Arrancar fora a ditadura do proletariado do pensamento de Marx \u00e9 transform\u00e1-lo em um amontoado an\u00e1rquico de informa\u00e7\u00f5es, sem norte, sem finalidade, sem dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>PLAT\u00c3O. Di\u00e1logos: <em>Fedro, Cartas , O Primeiro Alcib\u00edades<\/em>\u00a0. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Alberto Nunes. Bel\u00e9m: Universidade Federal do Par\u00e1, 1975.<\/p>\n<p>MARX, K; ENGELS, F. <em>Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/em>\u00a0. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2012.<\/p>\n<p>______. appendices to the \u201c<em>Universal Society of Revolutionary Communists<\/em>\u2018\u201d in Marx and Engels, Collected Works , Vol. 10, 1978.<\/p>\n<p>______.\u00a0<em>Statement To the Editor of the Neue Deutsche Zeitung<\/em>\u00a0in Marx and Engels, Collected Works , Vol. 10, 1978b.<\/p>\n<p>MARX, Karl. <em>Glosas cr\u00edticas marginais ao artigo \u201cO Rei da Pr\u00fassia e a Reforma Social\u201d. De um prussiano<\/em>. In: Revista Pr\u00e1xis, n. 5, Belo Horizonte: 1995.<\/p>\n<p>______. <em>Mis\u00e9ria da Filosofia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Grijalbo, 1976.<\/p>\n<p>______. <em>As Lutas de Classes na Fran\u00e7<\/em>a. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2012.<\/p>\n<p>______. <em>The First International and after: Political writings<\/em>, Volume 3. London: Penguin, 1992.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>(1) Lassalle foi colaborador de Marx nas revolu\u00e7\u00f5es de 1848 e, posteriormente, se aproximou do futuro imperador da Alemanha, Bismarck e de concep\u00e7\u00f5es reformistas. Morreu pateticamente em um duelo em 1864 quando Marx estava pr\u00f3ximo de romper as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com ele.<\/p>\n<p>Artigo originalmente publicado em: https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/marx-e-a-questao-do-programa-a-ditadura-do-proletariado\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fil\u00f3sofo grego Plat\u00e3o, comentando sobre o discurso dial\u00e9tico, diz que ele \u201cprecisa ser constru\u00eddo como um organismo vivo, com um corpo que lhe seja pr\u00f3prio, de forma que n\u00e3o se apresente sem cabe\u00e7a nem p\u00e9s, mas com partes bem definidas e articuladas entre si e com o todo\u201d (PLAT\u00c3O, 1975, p.155). 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