{"id":23813,"date":"2018-08-06T09:47:26","date_gmt":"2018-08-06T11:47:26","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23813"},"modified":"2018-08-06T09:47:26","modified_gmt":"2018-08-06T11:47:26","slug":"zimbabue-caiu-o-ditador-mas-nao-uma-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/08\/06\/zimbabue-caiu-o-ditador-mas-nao-uma-ditadura\/","title":{"rendered":"Zimb\u00e1bue: caiu o ditador, mas n\u00e3o uma ditadura"},"content":{"rendered":"<p><em>O resultado anunciado pela Comiss\u00e3o Eleitoral do Zimb\u00e1bue (ZEC) confirma que mesmo depois da derrubada de Mugabe o regime do pa\u00eds continua sendo uma ditadura. E o descontentamento da classe trabalhadora continua a crescer.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Am\u00e9rico Gomes<\/p>\n<p>Mesmo com uma campanha milion\u00e1ria, a legisla\u00e7\u00e3o ditatorial, o controle do processo e tropas na rua o candidato do partido que se perpetua no poder, Uni\u00e3o Nacional Africana do Zimbabu\u00e9-Frente Patri\u00f3tica (ZANU-PF) com seu candidato, Emmerson Mnangagwa, assume ter recebido somente 2,46 milh\u00f5es de votos, contra o candidato da oposi\u00e7\u00e3o Chamisa que recebeu 2,15 milh\u00f5es. Ou seja, exatos 50,8%, para garantir que n\u00e3o tenha segundo turno nas elei\u00e7\u00f5es. Para n\u00e3o ter segundo turno, Mnangagwa precisava vencer com mais de 50%.<\/p>\n<p>O partido de oposi\u00e7\u00e3o, Movimento para a Mudan\u00e7a Democr\u00e1ticas (MDC), denunciou a fraude, ainda mais porque n\u00e3o puderam acompanhar nem verificar os resultados. A pol\u00edcia impediu a Alian\u00e7a MDC da oposi\u00e7\u00e3o de realizar uma confer\u00eancia de imprensa, invadiu seus escrit\u00f3rios, deteve 18 pessoas, enquanto os acusava de ter \u201cposse de armas perigosas\u201d e incentivar a \u201cviol\u00eancia p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia, nas ruas da capital, matou seis pessoas que protestavam contra o resultado.\u00a0Tropas armadas com muni\u00e7\u00e3o real foram enviadas para dispersar os manifestantes.<\/p>\n<p>A fraude aparece a olhos vistos quando s\u00e3o analisados os resultado das elei\u00e7\u00f5es parlamentares onde o ZANU-PF, segundo resultados oficiais, conquistou a maioria absoluta das cadeiras na Assembleia Nacional. Obteve 144 cadeiras, enquanto o MDC conseguiu 64 cadeiras, de um total de 210 mandatos na Assembleia Nacional, ou seja, mais de 68% do parlamento.<\/p>\n<p>Quando saiu este resultado a oposi\u00e7\u00e3o denunciou a fraude eleitoral. Houve confrontos com a pol\u00edcia, em Harare (que \u00e9 o centro da oposi\u00e7\u00e3o), que utilizou muni\u00e7\u00e3o real, canh\u00f5es de \u00e1gua e g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, apoiada por ve\u00edculos blindados e helic\u00f3pteros, contra os manifestantes que bloquearam ruas pr\u00f3ximas do hotel onde eram realizadas as apura\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso demonstra que a queda do governo de Robert Mugabe, no ano passado, e a ascens\u00e3o de seu bra\u00e7o direito e vice-presidente Mnangagwa, n\u00e3o mudou o regime ditatorial no pa\u00eds.\u00a0A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que o nome de Mugabe n\u00e3o estava na c\u00e9dula de vota\u00e7\u00e3o, o que ocorreu nos \u00faltimos 40 anos, per\u00edodo em que elei\u00e7\u00f5es sempre existiram e sempre foram fraudadas.<\/p>\n<p>As cinco elei\u00e7\u00f5es passadas entre 2000 e 2013 foram marcadas por manipula\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e intimida\u00e7\u00e3o, onde Mugabe n\u00e3o respeitou nenhum dos direitos humanos ou democr\u00e1ticos. Em 2002, seu chefe militar e atual vice-presidente, Constantino Chiwenga, disse que as for\u00e7as armadas jamais saudariam um presidente que n\u00e3o houvesse lutado na guerra de liberta\u00e7\u00e3o dos anos 1970 contra o regime de minoria branca da Rod\u00e9sia. Essa declara\u00e7\u00e3o anunciava o que iria ocorrer com uma vit\u00f3ria de Morgan Tsvangirai, que veio a acontecer no primeiro turno de 2008. Acusado de ser financiado pelo Ocidente. A fraude garantiu que Mugabe fosse para o segundo turno.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es atuais Mnangagwa enfrentou o oposicionista Nelson\u00a0Chamisa, do MDC, que j\u00e1 foi membro de um governo de unidade nacional com Mugabe a frente, depois passou para a oposi\u00e7\u00e3o, fazendo \u201coposi\u00e7\u00e3o leal ao regime ditatorial\u201d.<\/p>\n<p>O maior objetivo do regime era ganhar a \u201c<em>opini\u00e3o p\u00fablica internacional<\/em>\u201d, para que existisse no pa\u00eds o que Mnangagwa chama de \u201c<em>um espa\u00e7o democr\u00e1tico que nunca existiu antes<\/em>&#8220;. E ele, ex-chefe do servi\u00e7o de intelig\u00eancia, fomentador da corrup\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, agora se transformou no estadista que restaurou a democracia no Zimb\u00e1bue. Tudo isso para que o pa\u00eds tenha acesso \u00e0 assist\u00eancia financeira de que precisa desesperadamente.<\/p>\n<p><strong>S\u00f3 elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o garantem democracia <\/strong><\/p>\n<p>Mas tudo continua como antes. A legisla\u00e7\u00e3o ditatorial da \u00e9poca de Mugabe n\u00e3o foi revogada, como a Lei de Ordem P\u00fablica e Seguran\u00e7a (POSA), que exige que a pol\u00edcia seja notificada antes de qualquer reuni\u00e3o p\u00fablica, com\u00edcios ou protestos, e quem n\u00e3o a cumprir \u00e9 violentamente reprimido e preso. Ou a Lei Penal Codifica\u00e7\u00e3o e Reforma (CODE), que criminaliza as \u201ccr\u00edticas\u201d ao presidente e a publica\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es \u201cprejudiciais ao estado\u201d e que violem a paz p\u00fablica. E a Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o e Prote\u00e7\u00e3o da Privacidade (AIPPA) que impede o livre fluxo de informa\u00e7\u00f5es e restringe liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Mnangagwa\u00a0sempre deixou claro que a derrubada de Mugabe tinha como primeiro objetivo salvar o ZANU-PF da derrota em 2018. Por isso, tamb\u00e9m n\u00e3o realizou mudan\u00e7as nas listas eleitorais, que s\u00e3o \u201ctrabalhadas\u201d por mais de 30 anos, organizadas para aparentar uma forma ca\u00f3tica, mas que serve para ocultar muitos nomes de mortos, registros m\u00faltiplos e sub-registros em \u00e1reas determinadas. E tamb\u00e9m impede o controle dos boletins de votos por parte da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Eleitoral do Zimbabu\u00e9 (ZEC), composta de agentes de seguran\u00e7a e de intelig\u00eancia do Estado, negou uma auditoria independente \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o.\u00a0 Diga-se de passagem, esta mesma ZEC, foi quem, em 2008, depois de 45 dias, anunciou o segundo turno necess\u00e1rio para Mugabe vencer Tsvangirai. As pesquisas independentes apontavam Tsvangirai com a maioria necess\u00e1ria para evitar um segundo turno, a ZEC declarou que ele teve 47,9% dos votos e Mugabe 43,2%.<\/p>\n<p>O per\u00edodo p\u00f3s primeiro turno foi marcado por muita viol\u00eancia pol\u00edtica.\u00a0 Em junho Tsvangirai se retirou do pleito e o segundo turno se deu com Mugabe como o \u00fanico candidato, que venceu e foi empossado em outro mandato como presidente.<\/p>\n<p>Outro aspecto bonapartista do governo \u00e9 o controle dos meios de m\u00eddia p\u00fablica de radiodifus\u00e3o, em que a cobertura \u00e9 tendenciosa a favor do ZANU-PF, que desfruta de uma quantidade absurda de tempo nestes meios de comunica\u00e7\u00e3o. A oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nenhum tempo e \u00e9 retratada negativamente. Isso em um pa\u00eds onde a popula\u00e7\u00e3o depende fundamentalmente do r\u00e1dio para ter informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a verdadeira fortuna que o ZANU-PF gasta nas elei\u00e7\u00f5es. O Comiss\u00e1rio Nacional do partido, Tenente-General Engelbert Rugeje, disse que a organiza\u00e7\u00e3o tem milh\u00f5es em materiais de campanha para gastar. No ano passado, na prepara\u00e7\u00e3o da campanha, gastou mais de US $ 60 milh\u00f5es s\u00f3 em 365 ve\u00edculos off-road para os candidatos.<\/p>\n<p>Em 2013 foram dados Ford Ranger, Toyota Hilux ou a Ford Everest para todos eles. O ex-organizador da campanha eleitoral do ZANU-PF, Jonathan Moyo, que agora est\u00e1 em ex\u00edlio pol\u00edtico, revelou que a fonte dos fundos de campanha vem da venda de diamantes e fundos do Estado, e que chegaram a, pelo menos, US $ 70 milh\u00f5es em 2013.<\/p>\n<p>Se tudo isso n\u00e3o garantir a vit\u00f3ria, tem o ex\u00e9rcito nas ruas, com seu hist\u00f3rico repressivo de atrocidades e assassinatos pol\u00edticos. Como na regi\u00e3o oeste do Zimb\u00e1bue no in\u00edcio dos anos 80. Sempre em todos os processos eleitorais, a favor do ZANU-PF. Em 2008 usou da viol\u00eancia contra eleitores, principalmente em \u00e1reas rurais e intimidou os tribunais eleitorais para garantir um segundo turno.<\/p>\n<p>Assim como a pol\u00edcia, que est\u00e1 sendo utilizada no processo eleitoral e na repress\u00e3o aos manifestantes, e que foi usada para garantir a seguran\u00e7a nas prim\u00e1rias da ZANU-PF em abril.<\/p>\n<p><strong>Elei\u00e7\u00e3o (literalmente) para \u201cingl\u00eas ver\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O objetivo central de Mnangagwa e da burguesia militar governante com estas elei\u00e7\u00f5es, em um plano constru\u00eddo com as grandes empresas imperialistas, era criar uma apar\u00eancia democr\u00e1tica, para que o imperialismo possa garantir e justificar os seus investimentos.<\/p>\n<p>Com eles pretendem privatizar ou vender 35 empresas estatais e fechar pelo menos outras duas, para cortar gastos e reduzir uma d\u00edvida de US $ 11 bilh\u00f5es, devida a credores como o Banco Africano de Desenvolvimento. Entre as privatiz\u00e1veis est\u00e3o o servi\u00e7o postal do sul da \u00c1frica, Zimpost, a operadora de telefonia fixa TelOne Corporation e 17 minas de diamante, tudo j\u00e1 anunciado pelo ministro das Finan\u00e7as, Patrick Chinamasa,.<\/p>\n<p>O ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, major-general Sibusiso Moyo, que comandava as opera\u00e7\u00f5es repressivas do ex\u00e9rcito nas prov\u00edncias durante as elei\u00e7\u00f5es anteriores, e que apareceu na televis\u00e3o, pedindo calma aos zimbabuanos na derrubada de Mugabe, foi o eleito para cumprir o papel de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas perante centenas de observadores internacionais e jornalistas estrangeiros convidados. Estes eram presen\u00e7a crucial para exibir a imagem de elei\u00e7\u00f5es livres, justas e democr\u00e1ticas. Parece que n\u00e3o deu certo, com a fraude eleitoral descarada e a repress\u00e3o com mortos na rua.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o da Uni\u00e3o Africana j\u00e1 havia afirmado que as elei\u00e7\u00f5es &#8220;<em>aconteceram em um ambiente muito pac\u00edfico<\/em>&#8221; e um relat\u00f3rio preliminar dos observadores da Comunidade de Desenvolvimento da \u00c1frica Austral (Sadc) afirma que as elei\u00e7\u00f5es foram em grande parte \u201c<em>pac\u00edficas e conduzidas de acordo com a lei<\/em>\u201d. O presidente da \u00c1frica do Sul, Cyril Ramaphosa, j\u00e1 parabenizou Mnangagwa por sua vit\u00f3ria, e apelou aos pol\u00edticos e ao povo do Zimb\u00e1bue para que aceitem o resultado da elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A China endossou os resultados e instou &#8220;partidos&#8221; a colocar o interesse do pa\u00eds e do povo em primeiro lugar e \u201c<em>respeitar a escolha feita pelo povo<\/em>&#8220;. \u00a0O papel destes \u201cobservadores eleitorais\u201d j\u00e1 havia sido denunciado nas elei\u00e7\u00f5es quenianas do ano passado, onde inicialmente tamb\u00e9m as anunciaram como &#8220;<em>livres, justas e confi\u00e1veis<\/em>&#8220;, nas palavras do ex-secret\u00e1rio de Estado dos EUA, John Kerry.<\/p>\n<p>Os generais burgueses que governam o pa\u00eds est\u00e3o ansiosos para que o Zimb\u00e1bue retorne \u00e0 Commonwealth (Comunidade de Na\u00e7\u00f5es), da qual foi suspenso em 2002, para que os representantes de grandes fundos internacionais de investimento voltem a Harare sem receio de investirem grandes somas. A Gr\u00e3-Bretanha p\u00f3s-Brexit tamb\u00e9m precisa desse acordo, e deu claro apoio \u00e0 Mnangagwa, mas para se justificar, precisa de elei\u00e7\u00f5es livres e democr\u00e1ticas para apresentar.<\/p>\n<p>O plano n\u00e3o est\u00e1 dando certo. Pois, pelo menos inicialmente, o uso de tropas e a repress\u00e3o est\u00e3o sendo condenados por alguns destes \u201cobservadores internacionais\u201d e mancharam as tentativas de Mnangagwa de se livrar do status de desposta, depois de d\u00e9cadas de repress\u00e3o como aliado de Mugabe.<\/p>\n<p><strong>A luta deve continuar para derrubar a ditadura dos generais<\/strong><\/p>\n<p>Mas, a verdade \u00e9 que o novo governo enfrentar\u00e1 desemprego, hiperinfla\u00e7\u00e3o e \u00eaxodo de investimentos em uma economia destru\u00edda, com os servi\u00e7os de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o em ru\u00ednas. Em parte pela apreens\u00e3o de fazendas de propriedade branca, pelos generais no governo Mugabe, que levaram ao colapso da agricultura e, por outro lado, pelo roubo e a corrup\u00e7\u00e3o destes mesmos generais envolvidos no tr\u00e1fico de diamantes.<\/p>\n<p>Os trabalhadores do Zimb\u00e1bue sabem que Mugabe n\u00e3o foi deposto para restaurar a democracia e menos ainda para garantir algum direito aos trabalhadores, mas sim porque Mnangagwa queria evitar que a mulher de Mugabe, Grace, chegasse ao poder.<\/p>\n<p>Por isso n\u00e3o confiam no novo governo e sabem que precisam derrubar de vez a ditadura para obterem um m\u00ednimo de democracia e possibilidade de lutarem por seus direitos.<\/p>\n<p>A ditadura ainda se mantem no Zimb\u00e1bue por isso a primeira tarefa de seu proletariado \u00e9 a sua derrubada. Est\u00e1 claro que a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds n\u00e3o vai estabilizar com esta grotesca farsa eleitoral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O resultado anunciado pela Comiss\u00e3o Eleitoral do Zimb\u00e1bue (ZEC) confirma que mesmo depois da derrubada de Mugabe o regime do pa\u00eds continua sendo uma ditadura. 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