{"id":2381,"date":"2012-09-05T17:43:57","date_gmt":"2012-09-05T17:43:57","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/2012\/09\/05\/cotas-trinta-anos-de-luta-e-uma-vitoria-parcial\/"},"modified":"2012-09-05T17:43:57","modified_gmt":"2012-09-05T17:43:57","slug":"cotas-trinta-anos-de-luta-e-uma-vitoria-parcial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2012\/09\/05\/cotas-trinta-anos-de-luta-e-uma-vitoria-parcial\/","title":{"rendered":"Cotas: trinta anos de luta e uma vit\u00f3ria parcial"},"content":{"rendered":"\n<p>\n\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" align=\"middle\" alt=\"\" border=\"0\" height=\"265\" hspace=\"3\" src=\"http:\/\/www.litci.org\/novosite\/wp-content\/uploads\/ufrsg_(4).jpg\" vspace=\"3\" width=\"400\" \/><\/p>\n<p>\n\t<span style=\"font-family: georgia, serif; \">O Senado aprovou, no dia 8 de agosto, o projeto de lei (PLC) 180\/2008, que determina pol&iacute;ticas de a&ccedil;&otilde;es afirmativas em todas as universidades e escolas t&eacute;cnicas federais do pa&iacute;s . A lei, que j&aacute; havia sido aprovada pelos deputados e agora s&oacute; depende da san&ccedil;&atilde;o da presidente Dilma, &eacute; uma mescla de cotas sociais e raciais.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>\n\tUma vez sancionada, j&aacute; no pr&oacute;ximo vestibular, 50% das vagas destas institui&ccedil;&otilde;es dever&atilde;o ser reservadas para alunos que cursaram todo o ensino m&eacute;dio em escolas p&uacute;blicas. Dessa porcentagem, metade ser&aacute; destinada a estudantes que tenham renda familiar de at&eacute; um sal&aacute;rio m&iacute;nimo e meio (R$ 933,00) por pessoa.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia, serif; \"> <br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<\/span><\/span><span style=\"font-family: georgia, serif; \">Ainda dentro do universo de vagas destinadas a alunos que vieram das escolas p&uacute;blicas, tamb&eacute;m ser&atilde;o aplicados crit&eacute;rios raciais: estudantes autodeclarados negros, &ldquo;pardos&rdquo; e ind&iacute;genas ter&atilde;o cotas proporcionais &agrave; porcentagem da popula&ccedil;&atilde;o de cada grupo nos estados em que vivem, de acordo com os dados do IBGE, n&atilde;o importando a renda per capita do aluno, contanto que ele ou ela tenha cursado escola p&uacute;blica.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tA t&iacute;tulo de exemplo, em S&atilde;o Paulo, onde a popula&ccedil;&atilde;o que se declara negra ou ind&iacute;gena &eacute; de 34,7%, para cada 100 vagas, 17 seriam ocupadas por estudantes destas etnias; na Bahia, onde 76,4% se declararam &ldquo;n&atilde;o-brancos&rdquo;, haveria 38 vagas para os cotistas. J&aacute; em Santa Catarina, seriam oferecidas apenas oito vagas (j&aacute; que a popula&ccedil;&atilde;o negra, parda ou ind&iacute;gena soma 15,4%). Caso estes porcentuais n&atilde;o sejam alcan&ccedil;ados por n&atilde;o-brancos, as vagas remanescentes passariam a ser ocupadas por qualquer estudante que se encaixe no crit&eacute;rio geral em rela&ccedil;&atilde;o ao ensino m&eacute;dio.<\/span><span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia, serif; \"><br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<\/span><\/span><span style=\"font-family: georgia, serif; \">Apesar das limita&ccedil;&otilde;es e contradi&ccedil;&otilde;es que cercam a aprova&ccedil;&atilde;o da lei, &eacute; evidente que ela implicar&aacute; numa significativa e bem vinda mudan&ccedil;a na composi&ccedil;&atilde;o social e racial dos institutos de ensino federais, principalmente nas universidades. Um levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, revelou que nas 59 institui&ccedil;&otilde;es federais h&aacute; 52.190 vagas reservadas a cotistas, de um total de 244.263. Com a lei aprovada, este n&uacute;mero poder&aacute; aumentar em at&eacute; 134%, elevando as vagas destinadas a cotas sociais e raciais para cerca de 120 mil estudantes.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tN&atilde;o temos d&uacute;vidas de que esta mudan&ccedil;a ainda est&aacute; muito distante do modelo &ndash; tanto social quanto racial &ndash; de universidade que precisamos. Mas &eacute;, inegavelmente, uma importante conquista, mesmo que parcial, do movimento negro e seus aliados (e n&atilde;o uma &ldquo;d&aacute;diva&rdquo; do governo, como a hist&oacute;ria tem sido vendida) que h&aacute; d&eacute;cadas, literalmente, luta por uma pol&iacute;tica de cotas.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tUma conquista, acima de tudo, porque, independente da sub-representa&ccedil;&atilde;o racial (como tamb&eacute;m da aus&ecirc;ncia de qualquer men&ccedil;&atilde;o a pol&iacute;ticas de perman&ecirc;ncia), o projeto &eacute; o reconhecimento institucional de que o racismo &eacute; um obst&aacute;culo concreto tamb&eacute;m na educa&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tUma conquista que, inclusive, pode e deve ser ampliada, agora, com os milhares de novos cotistas que, uma vez no interior das universidades, poder&atilde;o se engajar nos movimentos negro e estudantil, na luta n&atilde;o s&oacute; pela amplia&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es afirmativas e de pol&iacute;ticas de perman&ecirc;ncia (como bolsas transporte, alimenta&ccedil;&atilde;o e moradia estudantil), mas tamb&eacute;m em defesa da democratiza&ccedil;&atilde;o da universidade e da constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade da qual o racismo seja definitivamente banido.<\/span><\/p>\n<p>\n\t<strong><span style=\"font-family: georgia, serif; \">Contra cotas, s&oacute; os racistas!<\/span><\/strong><\/p>\n<p>\n\t<span style=\"font-family: georgia, serif; \">Esta foi a principal palavra de ordem utilizada por entidades do movimento negro, estudantil e popular de S&atilde;o Paulo, no dia 13 de maio, durante uma ocupa&ccedil;&atilde;o &ldquo;simb&oacute;lica&rdquo; da Faculdade de Direito da Universidade de S&atilde;o Paulo, que carrega, ao mesmo tempo, o t&iacute;tulo de umas das melhores institui&ccedil;&otilde;es de ensino superior do pa&iacute;s e de uma das mais racistas e elitistas que se tem not&iacute;cia, como comprovam as rid&iacute;culas porcentagens de estudantes (cerca de 5%) e professores (escandalosos 0,9%) negros no seu interior.<\/span><\/p>\n<p>\n\t<span style=\"font-family: georgia, serif; \">A situa&ccedil;&atilde;o da USP &eacute; exemplar de um pa&iacute;s dirigido por uma elite cujo racismo nunca teve nada de &ldquo;cordial&rdquo; e muito menos se aproximou sequer de um arremedo do mito da &ldquo;democracia racial&rdquo;, como esta mesma elite insiste em defender. Na educa&ccedil;&atilde;o, particularmente, a discrimina&ccedil;&atilde;o racial pode ser constatada em todos os n&iacute;veis: do total desprezo aos milh&otilde;es de mulheres negras e pobres que n&atilde;o t&ecirc;m creches para seus filhos &agrave; rid&iacute;cula parcela de negros e negras que chega &agrave;s salas de aula das universidades.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tOs dados do pr&oacute;prio governo, mesmo que afetados por distor&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o deixam d&uacute;vidas. Em 2009, por exemplo, a taxa de analfabetismo entre negros e negras era mais do que o dobro (13,42%) daquela registrada entre brancos (5,94%). No ensino superior, enquanto, em n&iacute;vel nacional, os jovens brancos comp&otilde;em 21,3% dos matriculados; os negros n&atilde;o ultrapassam 8,3% das vagas.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tNo decorrer das &uacute;ltimas d&eacute;cadas, quando o movimento negro levantou a bandeira das cotas, diversos setores da sociedade, de intelectuais conservadores ao grosso da burguesia nacional se levantaram para defender seus privil&eacute;gios e manter esta situa&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tNo geral, essa defesa se escondeu em por tr&aacute;s da &ldquo;simples&rdquo; nega&ccedil;&atilde;o do racismo, como no caso do diretor de da Central de Jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, que em 2006 publicou um livrinho asqueroso intitulado &ldquo;N&atilde;o somos racistas&rdquo;. Contudo, no interior das universidades, o que tem prevalecido &eacute; a oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s cotas em nome de uma pretensa defesa da &ldquo;qualidade de ensino&rdquo; e do crit&eacute;rio do &ldquo;m&eacute;rito&rdquo; para se ter acesso ao ensino superior.<br \/>\n\t<\/span><\/p>\n<p>\n\t<strong>Educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; m&eacute;rito, &eacute; direito<\/strong><\/p>\n<p>\n\t<span style=\"font-family: georgia, serif; \">Em primeiro lugar, vale dizer que qualquer um que oponha cotas &agrave; defesa da qualidade da Educa&ccedil;&atilde;o no Brasil &eacute; um tremendo hip&oacute;crita. A poderosa greve das federais e a realidade cotidiana no interior das salas de aula s&atilde;o provas mais do que concretas de que o que realmente amea&ccedil;a a qualidade na educa&ccedil;&atilde;o do Brasil s&atilde;o exatamente as pol&iacute;ticas e projetos defendidos pela elite para garantir seus privil&eacute;gios econ&ocirc;micos e sociais. Uma elite que, tamb&eacute;m, mal disfar&ccedil;a seu racismo e preconceito de classe ao afirmar que a presen&ccedil;a de negros e negras ou estudantes de baixa renda na universidade ir&aacute; significar uma queda da qualidade.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tDurante a vota&ccedil;&atilde;o, esta postura ficou evidente na postura do senador tucano Aloysio Nunes (SP), o &uacute;nico que, depois do acordo costurado pelo governo, se posicionou abertamente contra a medida: &quot;Querem dar o mesmo peso para alunos que estudam em escolas de melhor ou pior qualidade, &eacute; um absurdo completo&rdquo; .<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tFora do congresso, a maior resist&ecirc;ncia tem sido por parte daqueles que t&ecirc;m em suas m&atilde;os a tarefa de implementar a medida, como os reitores das universidades, reunidos na Associa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Dirigentes das Institui&ccedil;&otilde;es Federais de Ensino Superior, a Andifes, que, em nota oficial, se posicionou contra a medida, utilizando como argumento uma pretensa defesa da &ldquo;autonomia universit&aacute;ria&rdquo; (a mesma que estes senhores sempre atropelam, sem d&oacute; nem piedade, cada vez que &ldquo;convidam&rdquo; a pol&iacute;cia para reprimir os movimentos sociais).<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tDesculpas &agrave; parte, o que se encontra por tr&aacute;s da rejei&ccedil;&atilde;o s&oacute; pode ser chamado de racismo, como tamb&eacute;m a motiva&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem outra origem sen&atilde;o no desejo de manter as &ldquo;cotas&rdquo; que sempre existiram neste pa&iacute;s: a reserva de vaga para os filhos da burguesia e da parcela mais endinheirada da classe-m&eacute;dia, a maioria deles brancos.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tDisfar&ccedil;ados em alguns, o racismo e elitismo aflora de forma mais expl&iacute;cita principalmente na rela&ccedil;&atilde;o que estes setores estabelecem entre cotas e &ldquo;qualidade&rdquo;. Reitores como Walter Albertoni, da Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp), declararam &agrave; imprensa seu &ldquo;temor&rdquo; em como a medida ir&aacute; afetar, negativamente, cursos &ldquo;mais exigentes&rdquo;, como Medicina.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tOutros opositores das cotas foram ainda mais claros, como Cl&aacute;udio de Moura Castro (assessor de um dos maiores grupos de ensino privado do pa&iacute;s, o Positivo) que em entrevista ao portal da revista &ldquo;Exame&rdquo; foi categ&oacute;rico em afirmar que a situa&ccedil;&atilde;o das universidades ir&aacute; &ldquo;piorar&rdquo;, principalmente em termos da qualidade, principalmente em &aacute;reas como &ldquo;medicina, engenharia, direito&rdquo;, onde, pela l&oacute;gica rasteira e obtusa do &ldquo;doutor em Educa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, os professores, com a entrada dos cotistas, ter&atilde;o que &ldquo;reprovar maci&ccedil;amente ou baixar o n&iacute;vel&rdquo;.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tNa verdade, grande parte da rejei&ccedil;&atilde;o &agrave;s a&ccedil;&otilde;es afirmativas tem origem exatamente no t&iacute;tulo que Cla&uacute;dio de Moura ostenta. A burguesia e reacion&aacute;rios em geral perdem a compostura com a simples possibilidade de que negros e negras carreguem &ldquo;doutores&rdquo;, cujo monop&oacute;lio tem sido mantido pela elite branca deste pa&iacute;s.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tPosi&ccedil;&atilde;o que, talvez, tenha ganho sua vers&atilde;o mais &ldquo;honesta&rdquo; em um editorial publicado por um principais porta-vozes da burguesia nacional , a &ldquo;Folha de S. Paulo&rdquo;, no dia 31 de julho. Aproveitando para, tamb&eacute;m, atacar a greve nas federais, o jornal disparou:<span style=\"font-size:14px;\">&nbsp;<i style=\"font-size: 11px; \">&ldquo;<\/i><i style=\"font-size: 11px; \">Universidades federais perde<\/i><i style=\"font-size: 11px; \">m<\/i><\/span><span style=\"font-size:14px;\"><i style=\"font-size: 11px; \"> o foco com greves e cotas, quando deveriam dedicar-se a forjar uma elite de docentes para o pa&iacute;s&rdquo;&nbsp;<\/i>, o que estaria colocando as institui&ccedil;&otilde;es sob &ldquo;s&eacute;rias amea&ccedil;as&rdquo;, na medida em que &ldquo;obriga&rdquo; as universidades a&nbsp;<i style=\"font-size: 11px; \">&ldquo;destinar n&uacute;mero t&atilde;o grande de vagas com base em algo diverso da capacidade acad&ecirc;mica do candidato.&rdquo;.&nbsp;<\/i><\/span><br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tDiante de argumentos como estes, a primeira coisa que precisa ser lembrada &eacute; que esta linha de racioc&iacute;nio n&atilde;o resiste sequer a mais &oacute;bvia das constata&ccedil;&otilde;es: h&aacute; d&eacute;cadas, a qualidade do ensino superior tem despencado e n&atilde;o pela presen&ccedil;a de negros ou estudantes de escolas p&uacute;blicas no seu interior, mas sim pelas pol&iacute;ticas educacionais dos mesmos senhores que t&ecirc;m barrado o acesso destes setores &agrave; universidade.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tE a discrimina&ccedil;&atilde;o e racismo ficam ainda mais evidente, quando sabemos que estes mesmos senhores sabem muit&iacute;ssimo bem que est&atilde;o mentindo ao afirmarem que cotas s&atilde;o uma amea&ccedil;a &agrave; qualidade, pois todos eles t&ecirc;m dados das universidade em que a medida j&aacute; foi aplicada e que provam exatamente o contr&aacute;rio.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tPor exemplo, os resultados sobre o desempenho de cotistas na Unicamp, Universidade Federal da Bahia (UFBa), Universidade de Bras&iacute;lia (UnB) e Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada (Ipea), n&atilde;o deixam d&uacute;vidas sobre isso. No bi&ecirc;nio 2005-2006, cotistas obtiveram maior m&eacute;dia de rendimento em 31 dos 55 cursos (Unicamp) e coeficiente de rendimento (CR) igual ou superior aos de n&atilde;o-cotistas em 11 dos 16 cursos (UFBa).<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tExatamente por n&atilde;o ter apoio nenhum na realidade, &eacute; que podemos afirmar com certeza que a defesa do &ldquo;m&eacute;rito&rdquo;, al&eacute;m de cheirar a preconceito de ra&ccedil;a e classe, tamb&eacute;m esconde uma outra coisa: o temor de qualquer mudan&ccedil;a, por menor que seja, na composi&ccedil;&atilde;o social e racial da universidade possa significar uma aumento, no interior da universidade, da resist&ecirc;ncia ao projeto de sucateamento da universidade.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tComo sempre defendemos, a entrada de negros e estudantes de baixa renda na universidade, &eacute; parte fundamental da luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da universidade (inclusive no que se refere &agrave; sua produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, j&aacute; que, via de regra, a academia simplesmente ignora as demandas destes setores) e temos certeza que a presen&ccedil;a de um maior n&uacute;mero de estudantes provenientes destes setores, a exemplo do que vimos na recente mobiliza&ccedil;&atilde;o da Federal do Rio Grande do Sul (com a ocupa&ccedil;&atilde;o da reitoria, numa alian&ccedil;a entre cotista e os movimentos negro e estudantil), ir&aacute; contribuir em muito para o fortalecimento desta luta.<\/span><\/p>\n<p>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia, serif; \"><br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.pstu.org.br\/imgcont\/cotas_artigo1_int.jpg\" style=\"font-size: 11px; \" \/><br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<\/span><\/span><\/p>\n<p>\n\t<strong><span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"font-family: georgia, serif; \"><br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tUma nova &quot;lei &aacute;urea&quot;? <\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p>\n\t<span style=\"font-family: georgia, serif; \">Exatamente por isso, a aprova&ccedil;&atilde;o pelo Senado causou um enorme impacto particularmente entre os ativistas do movimento negro que sabem muito bem h&aacute; quanto tempo e o quanto se t&ecirc;m lutado por cotas neste pa&iacute;s. Iniciada antes mesmo do golpe militar, a luta por a&ccedil;&otilde;es afirmativas ganhou destaque j&aacute; no per&iacute;odo da democratiza&ccedil;&atilde;o, quando o movimento negro se reorganizou.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tDe l&aacute; pra c&aacute;, e particularmente a partir do final dos anos 1980, o debate cumpriu um papel fundamental ao provocar a discuss&atilde;o sobre o racismo no Brasil, quest&atilde;o sempre negada (ou amenizada, chegando a ser chamado de &ldquo;cordial&rdquo;), em fun&ccedil;&atilde;o dos lament&aacute;veis danos provocados pelo mito-farsa da &ldquo;democracia racial&rdquo;.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tA pol&ecirc;mica foi alimentada de diversas formas. Al&eacute;m da j&aacute; mencionada rea&ccedil;&atilde;o irada de intelectuais de direita, dos setores mais conservadores e racistas da sociedade, tamb&eacute;m dentro da esquerda e no interior dos movimentos sindical, popular e estudantil e, inclusive, do movimento negro, n&atilde;o faltaram setores que, por n&atilde;o enxergarem o racismo como um elemento estrutural de nossa sociedade, rejeitaram a proposta, com argumentos de que isto &ldquo;dividiria a classe&rdquo;, na medida que n&atilde;o considerava os brancos pobres.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tContudo, os setores mais combativos do movimento negro e aqueles que defendem, como n&oacute;s do PSTU, uma pol&iacute;tica combine, permanentemente, ra&ccedil;a e classe, n&atilde;o pararam de lutar (com diferentes pol&iacute;ticas e perspectivas, vale destacar) por pol&iacute;ticas de a&ccedil;&otilde;es afirmativas, conseguindo levar o debate para todos os cantos.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tFoi isto que garantiu, por exemplo, que, muito antes da vota&ccedil;&atilde;o do Senado, algum tipo de cota tenha sido conquistado em v&aacute;rias institui&ccedil;&otilde;es de ensino. Por isso mesmo, n&atilde;o causa surpresa o entusiasmo dos ativistas com a aprova&ccedil;&atilde;o do projeto.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tContudo, mesmo que reconhe&ccedil;amos esta importante vit&oacute;ria, &eacute; preciso apontar seus limites e contradi&ccedil;&otilde;es. Principalmente para que n&atilde;o se caia no discurso dos setores governistas que, com a certeza da san&ccedil;&atilde;o da presidente, est&atilde;o prestes a entronar Dilma como uma nova princesa Isabel.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tEm primeiro lugar, seria uma ingenuidade n&atilde;o perceber que Dilma &ldquo;decidiu&rdquo; ceder &agrave; press&atilde;o dos movimentos justo agora, &agrave;s v&eacute;speras das elei&ccedil;&otilde;es (num delicado momento, no qual a Frente Popular est&aacute; cercada pela lama da corrup&ccedil;&atilde;o por todos os lados) e em meio &agrave; poderosa greve no interior das Federais.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tEm segundo, porque, assim como no caso da liberdade assinada pela &ldquo;bondosa princesa&rdquo;, tamb&eacute;m n&atilde;o se pode desconsiderar que as cotas foram aprovados no interior de um sistema que conspira contra a pr&oacute;pria id&eacute;ia de uma universidade democr&aacute;tica e que atenda aos interesses da maioria da popula&ccedil;&atilde;o.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><b>Limites e contradi&ccedil;&otilde;es<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p>\n\t<span style=\"font-family: georgia, serif; \">{module Propaganda 30 anos &#8211; BRASIL}A primeira contradi&ccedil;&atilde;o est&aacute; no simples fato de que a lei s&oacute; tenha sido aprovada 13 anos desde come&ccedil;ou a tramitar, dez dos quais o PT esteve no governo. Tempo suficiente, inclusive, para que as mobiliza&ccedil;&otilde;es tenham arrancado cotas raciais (ou sociais) em diversas universidades e, inclusive, for&ccedil;ado uma vota&ccedil;&atilde;o no Supremo Tribunal Federal, que foi obrigado a reconhecer que o princ&iacute;pio da reserva de vagas era constitucional, reconhecendo sua necessidade diante das conseq&uuml;&ecirc;ncias do racismo.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tA vota&ccedil;&atilde;o, particularmente, deixou o governo Dilma numa situa&ccedil;&atilde;o bastante delicada, na medida em que desmascarou sua covardia em n&atilde;o implementar a medida nas Federais. Covardia que ficou particularmente evidente na vota&ccedil;&atilde;o do Estatuto da Igualdade Racial.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tAprovado em 2010, o Estatuto teve as reivindica&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas do movimento negro (que constavam de sua vers&atilde;o original) retalhadas por um vergonhoso acordo entre Paulo Paim (PT-RS), a SEPPIR (Secretaria de Pol&iacute;ticas de Promo&ccedil;&atilde;o da Igualdade Racial) e senador Dem&oacute;stenes Torres (DEM-GO) &ndash; ele mesmo, o lacaio de Cachoeira &ndash; que resultou na retirada de qualquer refer&ecirc;ncia &agrave;s cotas, &agrave; regulariza&ccedil;&atilde;o das terras quilombolas e at&eacute; mesmo aos termos ra&ccedil;a, escravid&atilde;o e identidade negra.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tDa mesma forma que o Estatuto ficou muito aqu&eacute;m do que o movimento defendia, a proposta aprovada esta semana tamb&eacute;m est&aacute; longe do que os setores mais conseq&uuml;entes do movimento sempre defenderam.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tEm termos raciais, assim como a Secretaria de Negros e Negras do PSTU e o Quilombo Ra&ccedil;a e Classe (movimento negro que atua no interior da CSP-Conlutas), v&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es sempre defenderam a aplica&ccedil;&atilde;o de cotas diretamente proporcionais &agrave; popula&ccedil;&atilde;o racial e totalmente desvinculadas das cotas sociais.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tO PLC, no entanto, reduz a um quarto a representa&ccedil;&atilde;o a que negros e negras t&ecirc;m direito, na medida em que, na pr&aacute;tica, a porcentagem ser&aacute; considerada em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; metade da metade das vagas. Vale lembrar, tamb&eacute;m, que a lei, ao mesmo tempo que prev&ecirc; que a medida ser&aacute; aplicada apenas por dez anos (prazo duvidoso para eliminar o enorme abismo que existe entre negros e brancos no interior das universidades), tamb&eacute;m d&aacute; um prazo de quatro anos para que as universidades se adaptem ao sistema.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tOutro exemplo de que o governo tem uma pol&iacute;tica a conta-gotas no que se refere ao combate ao racismo, particularmente na Educa&ccedil;&atilde;o, &eacute; sua completa falta de iniciativa (reafirmada pelo projeto aprovado) de impor pol&iacute;ticas de a&ccedil;&otilde;es afirmativas exatamente onde se encontram a enorme maioria (cerca de 80%) das institui&ccedil;&otilde;es de ensino: as privadas, onde estudantes negros e carentes.&nbsp;<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tNo caso das estaduais (que estavam previstas no projeto original) o caso &eacute; particularmente grave. Basta o exemplos de S&atilde;o Paulo, onde a USP, por exemplo, resiste ferozmente a qualquer tipo de a&ccedil;&atilde;o afirmativa e a Unicamp e tanta outras, que mant&eacute;m pol&iacute;ticas que resultam em &iacute;nfimas porcentagens de negros e estudantes oriundos de escolas p&uacute;blicas em seus projetos de &ldquo;inclus&atilde;o&rdquo;.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tAl&eacute;m disso, o projeto n&atilde;o prev&ecirc; mecanismos de perman&ecirc;ncia (como bolsa de alimenta&ccedil;&atilde;o, moradia e transporte) nem pol&iacute;ticas de nivelamento acad&ecirc;mico (que possam amenizar as defici&ecirc;ncias da escola p&uacute;blica, enormemente sucateada exatamente em fun&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas neoliberais do governo). E, tamb&eacute;m, como parte do acordo pr&eacute;vio entre Dilma e o Senado, o PLC estabelece que o ingresso nas universidades federais por meio de cotas deve ocorrer pela m&eacute;dia das notas de cada aluno no ensino m&eacute;dio, sem o filtro do vestibular, item que Dilma ir&aacute; vetar.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tPara os negros e negras e todos aqueles que atuam com uma perspectiva de &ldquo;ra&ccedil;a e classe&rdquo;, o projeto &eacute; ainda mais limitado. Primeiro, porque n&atilde;o est&aacute; inserido num projeto global de &ldquo;repara&ccedil;&otilde;es&rdquo; para a popula&ccedil;&atilde;o negra. Da mesma forma que sempre defendemos as cotas como uma medida paliativa no combate aos absurdos efeitos do racismo na educa&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m sempre lutamos na perspectiva de inserir a luta por a&ccedil;&otilde;es afirmativas numa perspectiva mais global de luta contra o racismo em todos os setores da sociedade e pela destrui&ccedil;&atilde;o do sistema que dele se beneficia.<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\tAfinal, ter uma legisla&ccedil;&atilde;o que prev&ecirc; uma maior entrada de negros e pobres nas universidades pode se transformar em letra morta, j&aacute; que s&atilde;o estes mesmos setores que est&atilde;o sujeitos a situa&ccedil;&otilde;es a condi&ccedil;&otilde;es sociais t&atilde;o prec&aacute;rias que fazem com que os port&otilde;es das universidades pare&ccedil;am uma miragem cercada por obst&aacute;culos dos mais diversos. Obst&aacute;culos instranspon&iacute;veis como o desemprego cr&ocirc;nico, os sal&aacute;rios miser&aacute;veis, a falta de acesso &agrave; sa&uacute;de e moradia e tantos outros, inclusive a elimina&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica (tanto em fun&ccedil;&atilde;o das p&eacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es de vida quanto pela crescente pol&iacute;tica de genoc&iacute;dio, capitaneada por agentes do Estado, como a pol&iacute;cia militar).<br style=\"font-size: 11px; \" \/><br \/>\n\t<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Senado aprovou, no dia 8 de agosto, o projeto de lei (PLC) 180\/2008, que determina pol&iacute;ticas de a&ccedil;&otilde;es afirmativas em todas as universidades e escolas t&eacute;cnicas federais do pa&iacute;s . A lei, que j&aacute; havia sido aprovada pelos deputados e agora s&oacute; depende da san&ccedil;&atilde;o da presidente Dilma, &eacute; uma mescla de cotas sociais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":6629,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,3501],"tags":[],"class_list":["post-2381","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-negras-os"],"fimg_url":false,"categories_names":["Brasil","Negras\/os"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2381","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2381"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2381\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2381"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2381"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2381"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}