{"id":23645,"date":"2019-12-03T12:00:00","date_gmt":"2019-12-03T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23645"},"modified":"2019-12-03T12:00:00","modified_gmt":"2019-12-03T14:00:00","slug":"o-feminismo-radical-e-o-surgimento-das-teorias-do-patriarcado-um-ponto-de-vista-marxista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/12\/03\/o-feminismo-radical-e-o-surgimento-das-teorias-do-patriarcado-um-ponto-de-vista-marxista\/","title":{"rendered":"O feminismo radical e o surgimento das teorias do patriarcado \u2013 Um ponto de vista marxista"},"content":{"rendered":"<p><strong>O que \u00e9 exatamente o patriarcado?<br \/>\n<\/strong>Herdamos, principalmente do feminismo radical dos anos 70, o uso dos voc\u00e1bulos \u201cpatriarcado\u201d e \u201cpatriarcal\u201d para nos referir a tudo aquilo que oprime ou manifesta a opress\u00e3o das mulheres como tais na sociedade, mas quando se usa, muito poucas vezes algu\u00e9m tem uma ideia clara do que se trata ou pode dar uma defini\u00e7\u00e3o exata.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Florence Oppen<\/p>\n<p>O termo \u201cpatriarcal\u201d que se usa muito frequentemente como sin\u00f4nimo de machista ou sexista ou inclusive de \u201cmasculino\u201d, n\u00e3o \u00e9 simplesmente um termo descritivo de uma realidade muito obvia (a opress\u00e3o das mulheres em tantas esferas da vida cotidiana), sen\u00e3o que contem um componente te\u00f3rico:\u00a0<strong><em>o patriarcado \u00e9 a sociedade onde os homens como grupo exercem um controle e uma domina\u00e7\u00e3o sobre as mulheres, porque s\u00e3o os homens que tem o poder.<\/em><\/strong>\u00a0Quer dizer, o que fica impl\u00edcito no fato de definir uma sociedade de conjunto como um \u201cpatriarcado\u201d \u00e9 que se trata de uma sociedade onde as rela\u00e7\u00f5es de poder est\u00e3o colocadas a servi\u00e7o dos homens ou do sexo masculino de conjunto e de seus interesses, que as rela\u00e7\u00f5es de poder s\u00e3o principalmente rela\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas de sexo ou g\u00eanero.<\/p>\n<p>[\u2026] A cr\u00edtica contempor\u00e2nea feminista Ara Wilson concorda que o conceito de patriarcado \u00e9 central na defini\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e politica do feminismo radical ou da \u201csegunda onda do movimento feminista\u201d. Mas, apesar disso, em seu artigo para a Routledge Internacional Encyclopedia of Women (2000), confessa que n\u00e3o consegue formular uma defini\u00e7\u00e3o te\u00f3rica exata al\u00e9m de qualific\u00e1-lo \u201ccomo um sistema social expandido de domina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>A principal raz\u00e3o desta dificuldade \u00e9 que as pr\u00f3prias feministas o usam de m\u00faltiplas maneiras sem defini-lo bem. [\u2026] Castro e Lavinas tamb\u00e9m concordam com o diagnostico de indefini\u00e7\u00e3o e generalidade do termo \u201cpatriarcado\u201d na teoria feminista j\u00e1 que para algumas feministas o patriarcado acontece e se estrutura a n\u00edvel de fam\u00edlia e para outras a n\u00edvel de Estado, por isso afirmam: \u201cnos parece correto afirmar que este perde seu estatuto de conceito para se estabelecer como uma referencia impl\u00edcita e sistem\u00e1tica e domina\u00e7\u00e3o sexual\u201d.\u00a0<strong><em>E o pr\u00f3prio da teoria, pelo menos para os marxistas \u00e9 justamente o oposto a trabalhar com referencias vagas e impl\u00edcitas: se trata de explicitar os conceitos, estabelecer sua origem, sua historia, seus fundamentos, se trata de esclarecer e precisar para ver como um conceito provem de e se ajusta a realidade hist\u00f3rica e mut\u00e1vel.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>[\u2026] Para algumas feministas radicais ou socialistas, o patriarcado \u00e9 meramente uma superestrutura ideol\u00f3gica (Juliet Mitchell), ou politica, localizada na lei e no Estado (Carole Pateman e Zillah Eisenstein); para outras se trata da simples soma das manifesta\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o nos distintos \u00e2mbitos e n\u00edveis sociais (Kate Millett) ou do resultado da evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da sociedade e da rela\u00e7\u00e3o entre diferen\u00e7as biol\u00f3gicas que consistem no controle da capacidade reprodutiva das mulheres ou de sua sexualidade.<\/p>\n<p>Finalmente, no melhor dos casos, houve uma tentativa de se referir ou integrar na analise do patriarcado elementos da teoria marxista nas chamadas correntes materialistas, socialistas ou marxistas do feminismo. Nestas o patriarcado foi pensado mais concretamente como uma divis\u00e3o desigual do trabalho por sexos, assim o teorizaram as feministas materialistas como Christine Delphy ou Lidia Falcon; como um sistema de explora\u00e7\u00e3o do trabalho reprodutivo das mulheres tal e como o teorizaram feministas socialistas ou marxistas como Heidi Hartmenn, Maria Rosa Dalla Costa, Silvia Federici ou Selma James; ou finalmente como um sistema de explora\u00e7\u00e3o e controle de outro tipo de produ\u00e7\u00e3o designado as mulheres (diferente da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias), a produ\u00e7\u00e3o da vida, como sustentaram Maria Mies ou Veronica Beennhold-Thomsen.<\/p>\n<p>[\u2026]Vemos, pois, que ao inv\u00e9s de haver alguma teoria do patriarcado n\u00e3o haveria uma, sen\u00e3o muitas. O importante e distintivo destas teorias do patriarcado, do sistema de poder dos homens, n\u00e3o \u00e9 que sejam as \u00fanicas que explicam a exist\u00eancia de desigualdades sociais entre homens e mulheres, sen\u00e3o que\u00a0<strong><em>s\u00e3o teorias que afirma que a divis\u00e3o hierarquizada entre homens e mulheres \u00e9 uma divis\u00e3o que estabelece um antagonismo estrutural na sociedade.\u00a0<\/em><\/strong>Ou dito de outra forma, que a principal rela\u00e7\u00e3o de poder que estrutura a sociedade patriarcal ou o patriarcado \u00e9 a de domina\u00e7\u00e3o das mulheres pelos homens.<\/p>\n<p><strong>Da fam\u00edlia patriarcal \u00e0 sociedade patriarcal<\/strong><\/p>\n<p>Os primeiros livros que promoveram o conceito de patriarcado nesse sentido tao amplo de \u201csistema\u201d ou \u201cestrutura\u201d social foram os das feministas radicais estadunidenses Kate Millet com Sexual Politics (Politicas Sexuais, 1969) e Shulamith Firestone, The Dialetic of Sex, The Case for a Feminist Revolution (A dial\u00e9tica do sexo, por uma revolu\u00e7\u00e3o feminista, 1970). Foram obras que tiveram um grande impacto em um setor social amplo da classe media e do estudantado norte americanos. O que conseguiram implicitamente , tanto Millet como Firestone e as feministas que as seguiram, foi reconceitualizar o termo de patriarcado.<\/p>\n<p>Antes da d\u00e9cada de 70 do s\u00e9culo passado (e de toda a prolifica literatura feminista que acompanhou o movimento de luta das mulheres), \u201c<strong><em>patriarcado\u201d era um termo pr\u00f3prio da ci\u00eancia antropol\u00f3gica que definia um tipo de fam\u00edlia no desenvolvimento das sociedades humanas e assim o encontramos utilizado, por exemplo, na obra de Engels.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Mais adiante, em Economia e Sociedade (1968), o soci\u00f3logo Max Weber definiu o patriarcado ou mais exatamente o \u201cpatrimonialismo\u201d como uma forma de governo baseada no poder dos pais de fam\u00edlia, pr\u00f3pria do longo per\u00edodo feudal na Europa, quer dizer, como uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social onde o poder da monarquia patrimonial \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o aumentada dos m\u00faltiplos patriarcados (ou estruturas familiares) nos quais se sustenta. [\u2026]<\/p>\n<p>A teoria marxista fez desde o inicio um uso muito cuidadoso do termo patriarcado, tentando se apoiar nas pesquisas dos antrop\u00f3logos. Em\u00a0<em>A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado (1884)<\/em>,\u00a0<strong><em>Engels<\/em><\/strong>, como o resto dos antrop\u00f3logos de sua \u00e9poca,\u00a0<strong><em>usa o termo \u201cpatriarcal\u201d para caracterizar um tipo de fam\u00edlia, em uma \u00e9poca onde as fam\u00edlias eram comunidades<\/em><\/strong>, por isso Engels fala em um momento de \u201c<strong><em>comunidade familiar patriarcal\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na analise materialista de Engels, mais especificamente, a fam\u00edlia patriarcal \u00e9 uma forma transicional da fam\u00edlia que surge entre as fam\u00edlias baseadas no direito materno ou o que Engels chama de \u201cmatriarcado\u201d e a fam\u00edlia monog\u00e2mica, que \u00e9 a forma da fam\u00edlia ate hoje, transformada pelo capitalismo.\u00a0<strong><em>A fam\u00edlia patriarcal \u00e9 a fam\u00edlia que surge, segunda a hip\u00f3tese dos antrop\u00f3logos, quando a filia\u00e7\u00e3o feminina e o direito materno s\u00e3o substitu\u00eddos pela \u201cfilia\u00e7\u00e3o masculina e o direito heredit\u00e1rio paterno\u201d, pelo qual o pai se torna o chefe da fam\u00edlia e se constitui em torno do gene paterno. A fam\u00edlia patriarcal se caracteriza pelo aumento da autoridade e do poder do pai de fam\u00edlia sobre o grupo e a incorpora\u00e7\u00e3o de membros dependentes e servis nesta estrutura de domina\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Mas para Engels esta fam\u00edlia permanece, por um per\u00edodo relativamente curto da historia humana porque a maior mudan\u00e7a que vai cristalizar a opress\u00e3o das mulheres ainda vai acontecer.\u00a0<strong><em>O que vai surgir muito rapidamente,\u00a0<\/em><\/strong>com o desenvolvimento das forcas produtivas,\u00a0<strong><em>\u00e9 o aparecimento da sociedade de classes\u00a0<\/em><\/strong>e, portanto de um novo tipo de fam\u00edlia baseada no matrimonio monog\u00e2mico, onde o homem reduz sua esposa a uma propriedade e garante assim uma autoridade firme e generalizada no sistema social.[\u2026]<\/p>\n<p>O importante para n\u00f3s marxistas \u00e9 entender que Engels buscou na ci\u00eancia antropol\u00f3gica mais avan\u00e7ada de sua \u00e9poca\u00a0<strong><em>elementos para desnaturalizar a opress\u00e3o da mulher e fazer sua historia critica com o m\u00e9todo materialista e hist\u00f3rico, para entender e expor a origem das rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o.\u00a0<\/em><\/strong>Para arrancar a explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o pela raiz, foi necess\u00e1rio elaborar a teoria de como pode ser poss\u00edvel que essas rela\u00e7\u00f5es se estabeleceram como tais e se cristalizaram, j\u00e1 que n\u00e3o vem dadas pela natureza e existiram sociedades que lhes foram alheias.<\/p>\n<p>Engels percebeu, pois, que houve uma mudan\u00e7a qualitativa na fam\u00edlia, que n\u00e3o foi s\u00f3 uma mudan\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es de parentesco ou filia\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o uma mudan\u00e7a do papel social da fam\u00edlia e sua localiza\u00e7\u00e3o nas comunidades ou sociedades primitivas. Essa mudan\u00e7a ocorre com a sociedade de classes, que d\u00e1 um novo car\u00e1ter a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>[\u2026]A mudan\u00e7a qualitativa para Engels \u00e9, pois, o surgimento da propriedade privada da terra, dos bens e, portanto, tamb\u00e9m das mulheres e filhos, que passam a ser percebidos como a propriedade do pai de fam\u00edlia. Esta mudan\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es sociais e o surgimento de classes \u00e9 o que modifica o car\u00e1ter das rela\u00e7\u00f5es de poder que j\u00e1 existiam na fam\u00edlia, dando uma base material e estabilidade as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o. A fam\u00edlia monog\u00e2mica, tamb\u00e9m a unidade social b\u00e1sica de produ\u00e7\u00e3o nessa \u00e9poca, se baseia na propriedade privada e estabelece uma hierarquia dos sexos, j\u00e1 que \u201cse baseia no predom\u00ednio do homem, seu fim expresso \u00e9 o de procriar filhos cuja paternidade seja indiscut\u00edvel e esta paternidade indiscut\u00edvel \u00e9 exigida porque os filhos, na qualidade de herdeiros diretos, h\u00e3o de entrar um dia em posse dos bens de seu pai.\u201d.<\/p>\n<p>[\u2026]N\u00e3o obstante, as feministas radicais deram outro sentido ao termo patriarcado, o re-conceitualizaram para abarcar um \u00e2mbito muito al\u00e9m da fam\u00edlia e passaram a usa-lo para definir as rela\u00e7\u00f5es de poder no conjunto da sociedade, que garantia que os homens (todos os homens) est\u00e3o \u201cacima\u201d de ou tem o poder sobre as mulheres (todas as mulheres) em todos os n\u00edveis da sociedade.<\/p>\n<p><strong>O patriarcado segundo as feministas radicais<\/strong><\/p>\n<p>[\u2026][Alice Echols] Suas elabora\u00e7\u00f5es sobre a opress\u00e3o da mulher foram feitas no calor das lutas dos Negros e do movimento Black Power (Poder Negro). Frente a dificuldade de conseguir que fossem aceitas suas reinvindica\u00e7\u00f5es na National Conference for New Politics (Conferencia Nacional para Nova Politica) em 1967, onde Firestone participou, um grupo de Chicago publicou um manifesto \u201cTo the Women in the Left\u201d (Para as mulheres na Esquerda), defendendo a \u201csecess\u00e3o\u201d das mulheres do sistema patriarcal masculino, do mesmo modo que a ala radical do movimento negro reivindicava a autodetermina\u00e7\u00e3o frente ao Estado Norte-americano. Desde seu inicio, pois, o feminismo radical esteve associado, em sua estrat\u00e9gia politica ao separatismo e a luta de um sexo contra o outro para acabar com o sistema de domina\u00e7\u00e3o chamado patriarcado, defendendo uma revolu\u00e7\u00e3o feminista.<\/p>\n<p>O feminismo radical se pensou a si mesmo como uma corrente da Nova Esquerda que queria demarcar-se tanto das posi\u00e7\u00f5es reformistas liberais como do stalinismo. Frente \u00e0 \u201cesquerda tradicional\u201d que tinha considerado o problema da mulher como algo secund\u00e1rio que se solucionaria automaticamente com a chegada ao socialismo e que reproduzia dentro de suas organiza\u00e7\u00f5es rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o, o feminismo radical argumentou que as rela\u00e7\u00f5es de poder, que permitiam a submiss\u00e3o das mulheres aos homens, n\u00e3o podia ser reduzido a simples reflexos ou instrumentos para preservar a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, que eram distintas e deveriam ser pensadas com conceitos pr\u00f3prios.\u00a0<strong><em>Antes de prosseguir devemos esclarecer que n\u00f3s que reivindicamos o marxismo revolucion\u00e1rio estamos de acordo com o fato de que as rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 \u201cmeios\u201d para explorar ou dividir a classe trabalhadora, que tem uma exist\u00eancia social pr\u00f3pria e semi-autonoma e por isso diferenciamos o conceito de opress\u00e3o do de explora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o obstante, n\u00e3o estamos de acordo com a submiss\u00e3o inversa que quer fazer o feminismo radical (reduzir a explora\u00e7\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es de classe a opress\u00e3o entre sexos) nem com a ideia de que ambas as rela\u00e7\u00f5es tenham hoje um significado igual na hora de organizar a sociedade, ainda que sejam diferentes e estejam combinadas, os marxistas afirmamos que s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es de classe as que emergem como dominantes, quer dizer, as que decidem em ultima instancia, que opress\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias e quais s\u00e3o prescind\u00edveis e que dimens\u00e3o podem tomar.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>[\u2026] Echol explica que o impulso que reuniu estas ativistas e intelectuais da esquerda norte-americana a articular um feminismo radical, superador do feminismo liberal e do marxismo, foi uma diferencia\u00e7\u00e3o clara frente aquelas ativistas que eram chamadas de \u201cpoliticas\u201d, em um sentido depreciativo, porque \u201catribu\u00edam a opress\u00e3o da mulher ao capitalismo e sua principal lealdade era com a esquerda\u201d, \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o da liberta\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e0 esquerda organizada\u201d que considerava que \u201ca domina\u00e7\u00e3o feminina era um simples epifen\u00f4meno do capitalismo\u201d.\u00a0<strong><em>Portanto o eixo politico e program\u00e1tico que definiu o feminismo radical foram \u201cque as mulheres constitu\u00edam um sexo-classe, que as rela\u00e7\u00f5es entre mulheres e homens tinham que ser pensadas e termos pol\u00edticos e que o g\u00eanero, e n\u00e3o a classe, era a principal contradi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>E da\u00ed surgiu a necessidade de dar uma base te\u00f3rica a uma localiza\u00e7\u00e3o social e a um projeto politico, que resultou na elabora\u00e7\u00e3o das distintas teorias do patriarcado. Mas o feminismo radical n\u00e3o parou ai, na hierarquiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de sexo sobre as de classe, sen\u00e3o que afirmou que as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o patriarcais s\u00e3o anteriores no s\u00f3 ao capitalismo sen\u00e3o ao surgimento da explora\u00e7\u00e3o e que, portanto, sua origem n\u00e3o tem nada a ver com a sociedade de classes. [\u2026] Sua maior dificuldade foi e segue sendo onde localizar ent\u00e3o a origem da opress\u00e3o sem voltar a biologia ou natureza humana e o patriarcado. *<em>Lembremos as in\u00fameras vezes onde nossa corrente se enfrentou contra a transfobia das feministas radicais no movimento<\/em>\u00a0<em>(adendo meu).<\/em><\/p>\n<p>Algumas feministas radicais, como Millett ou Witting se opuseram radicalmente \u00e0 ideia de que a opress\u00e3o da mulher tivesse ra\u00edzes naturais e afirmaram que era algo absolutamente cultural e social, defendendo uma posi\u00e7\u00e3o conhecida como \u201cconstrutivismo radical\u201d. O materialismo e o marxismo foram de fato as primeiras teorias a recha\u00e7ar qualquer tipo de essencialismo ou a ideia de que o homem, a mulher ou a humanidade de conjunto tenha \u201cdestino biol\u00f3gico algum\u201d. N\u00e3o existe uma \u201cess\u00eancia humana\u201d, sen\u00e3o que \u00e9 o humano \u2013 e todas suas categorias \u2013 s\u00e3o uma constru\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica em constante muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que o marxismo afirma, diferente do construtivismo, \u00e9 que n\u00e3o basta dizer que o sexo ou o g\u00eanero (como a ra\u00e7a etc.) s\u00e3o categorias socialmente criadas, quer dizer, n\u00e3o basta fazer um trabalho cr\u00edtico contra a naturaliza\u00e7\u00e3o das opress\u00f5es. O que preocupa os marxistas \u00e9 explicar como foram geradas ou se formaram rela\u00e7\u00f5es de sexo ou g\u00eanero cristalizadas e opress\u00e3o e porque, para poder pensar como mud\u00e1-las e lutar contra elas, quer dizer, elaborar uma politica e uma estrat\u00e9gia de liberta\u00e7\u00e3o que implique na transforma\u00e7\u00e3o real, material da sociedade, muito al\u00e9m do importante e necess\u00e1rio trabalho cr\u00edtico e intelectual. [\u2026]<\/p>\n<p>Ainda assim, podemos destacar tr\u00eas elementos te\u00f3ricos comuns nas distintas formula\u00e7\u00f5es do feminismo radical que merecem uma discuss\u00e3o:\u00a0<strong><em>o car\u00e1ter a-hist\u00f3rico e estruturalista do conceito de patriarcado, a coopta\u00e7\u00e3o e invers\u00e3o do marco marxista de analise e o individualismo ut\u00f3pico contido no slogan popular do feminismo radical: \u201co pessoal \u00e9 politico\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>[\u2026] N\u00e3o sabemos muito bem segundo o livro de Millet quando surge o patriarcado como tal, mas isto n\u00e3o \u00e9 problema s\u00f3 de Millet sen\u00e3o da maioria das te\u00f3ricas feministas radicais. De fato, o car\u00e1ter a-hist\u00f3rico do patriarcado que parece ter existido \u201cdesde sempre\u201d \u00e9 uma das principais criticas que o feminismo radical recebe dos marxistas e outras alas mais radicais do feminismo.<\/p>\n<p>[\u2026] Todas elas recorre, cada uma de sua maneira, \u00e0 teoria marxista para pensar e desenvolver uma teoria feminista do patriarcado, pegando emprestados os conceitos, mas invertendo sua hierarquia, produzindo assim quase uma teoria marxista negativa, como em um negativo fotogr\u00e1fico.\u00a0<strong><em>Todas elas partiram da redu\u00e7\u00e3o falsa e reducionista que subordina todos os conceitos e fen\u00f4menos a meras varia\u00e7\u00f5es ou reflexos das rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o as \u00fanicas \u201cverdadeiras\u201d e \u201cimportantes\u201d.\u00a0<\/em><\/strong>Firestone, por exemplo, construiu sua Dial\u00e9tica do Sexo em um dialogo intenso com Marx e Engels argumentando: \u201cSeria um erro tentar explicar a opress\u00e3o da mulher a partir desta analise de classes constitui um trabalho engenhoso, mas de alcance limitado (\u2026) n\u00e3o tem profundidade suficiente\u201d. Firestone afirma que \u201cexiste um substrato sexual na dial\u00e9tica hist\u00f3rica\u201d analisada por Engels (a evolu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia), mas que este n\u00e3o lhe agrada porque s\u00f3 se empenha em \u201cperceber a sexualidade s\u00f3 atrav\u00e9s de uma impregna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u201d. [\u2026] Esta tentativa de cooptar o marco te\u00f3rico do marxismo e aplic\u00e1-lo de outra forma para gerar novas divis\u00f5es e categorias levou Firestone a falar de um \u201csistema de classes sexuais\u201d onde ainda que esta opress\u00e3o tenha uma origem biol\u00f3gica \u00e9 perpetuada socialmente pelas t\u00e9cnicas de controle e domina\u00e7\u00e3o, que se materializa, que se materializa principalmente atrav\u00e9s do controle da capacidade reprodutora das mulheres.<br \/>\n[\u2026]<\/p>\n<p>O terceiro ponto que \u00e9 importante destacar \u00e9 a ideol\u00f3gica politica contida no slogan \u201co pessoal \u00e9 politico\u201d que situa o individuo, n\u00e3o o sujeito coletivo, como o agente e o objetivo estrat\u00e9gico da mudan\u00e7a.\u00a0<strong><em>A revolu\u00e7\u00e3o feminista partiu de um problema muito real e muito presente na autodenominada esquerda e nas organiza\u00e7\u00f5es operarias: a contradi\u00e7\u00e3o entre um discurso emancipador, que contemplava teoricamente a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres (ainda que frequentemente como um objetivo secund\u00e1rio) e uma serie de praticas machistas e opressivas<\/em><\/strong>: desde uma divis\u00e3o do trabalho desigual e \u201cessencializante\u201d dentro das organiza\u00e7\u00f5es politicas e uma subordina\u00e7\u00e3o das mulheres a fazer o trabalho \u201cinvis\u00edvel\u201d, cinzento e cotidiano, at\u00e9 comportamentos machistas totalmente aceitos, casos de abusos, tentativas de controlar a vida sexual das militantes. Etc. O slogan \u201co pessoal \u00e9 politico\u201d pretendia em primeiro apontar e lutar contra essa contradi\u00e7\u00e3o presente em muitos quadros e militantes var\u00f5es do movimento social, radical, sindical, socialista e comunista. Era uma tentativa de mudar na pratica, no dia a dia, os m\u00e9todos e o trato para fazer politica.<\/p>\n<p><strong><em>Mas o slogan para feminismo radical derivou em muitos casos a apontar uma estrat\u00e9gia e n\u00e3o uma simples t\u00e1tica: o feminismo foi pensado como um processo politico que deveria culminar em uma transforma\u00e7\u00e3o pessoal, em particular uma mudan\u00e7a da consci\u00eancia, uma politiza\u00e7\u00e3o da vida pessoal, onde o individuo era por sua vez o ponto de partida e de chegada nesse processo e as din\u00e2micas coletivas (as marchas, os grupos de autoconsci\u00eancia, a divis\u00e3o do trabalho militante, a vida em comunas feministas, as a\u00e7\u00f5es diretas) eram s\u00f3 uma media\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar essa transforma\u00e7\u00e3o pessoal que se pensava a si mesma como contagiosa.\u00a0<\/em><\/strong>Nesse \u00e2mbito, o feminismo radical pegou emprestada a estrat\u00e9gia do socialismo ut\u00f3pico de Owen ou Fourier.<\/p>\n<p>A sexualidade se tornou, para muitas feministas radicais, o elemento mais profundo e mais autentico de uma subjetividade feminista radical, assim como afirma Germaine Greer, uma feminista australiana: \u201cO pessoal segue sendo politico. A feminista do novo mil\u00eanio n\u00e3o pode deixar de ser consciente de que a opress\u00e3o \u00e9 exercida na e atrav\u00e9s de suas rela\u00e7\u00f5es mais intimas, come\u00e7ando pela mais intima de todas de sua rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio corpo.\u201d Algumas feministas defenderam o lesbianismo ou a bissexualidade como uma a\u00e7\u00e3o politica de transforma\u00e7\u00e3o. [\u2026]<\/p>\n<p><strong>Uma critica marxista \u00e0s teorias do patriarcado do feminismo radical<\/strong><\/p>\n<p>O problema geral das teorias do patriarcado \u00e9 que ainda que localizem a totalidade das manifesta\u00e7\u00f5es da opress\u00e3o em todos os \u00e2mbitos da exist\u00eancia humana, n\u00e3o reconhecem que a opress\u00e3o surgiu historicamente se manteve est\u00e1vel durante s\u00e9culos ate hoje porque se combina com a explora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a base material que a sustenta. Prop\u00f5em uma concep\u00e7\u00e3o abstrata e anti-hist\u00f3rica da opress\u00e3o como estrutura, fora da divis\u00e3o social do trabalho e indiferente \u00e0 mudan\u00e7a hist\u00f3rica dos modos de produ\u00e7\u00e3o. Seu m\u00e9todo anti-hist\u00f3rico n\u00e3o pode explicar, portanto, como surge (a origem) e se consolida como uma rela\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o a n\u00edvel social e como esta se cristaliza como aut\u00f4noma com o surgimento da sociedade de classes e do Estado, que muda a natureza social das rela\u00e7\u00f5es familiares.<\/p>\n<p>[\u2026]O feminismo radical prop\u00f5e uma estrutura que s\u00f3 reconhece dois sujeitos sociais que se enfrentam: homens e mulheres. Ao n\u00e3o conseguir explicar como se combina a opress\u00e3o da mulher com a luta pelo socialismo. O resultado \u00e9 que o feminismo radical buscou sistematicamente contrapor as lutas, argumentando que a luta dos sexos era anterior e mais profunda que a luta de classes, em vez de integr\u00e1-las em uma estrat\u00e9gia comum de revolu\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o como pretende fazer o trotskismo, como herdeiro do marxismo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Conscientemente ou n\u00e3o colocou a mesma hierarquiza\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica que denunciava no stalinismo e no castrismo quando estes adiaram a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres para um momento futuro do socialismo. Neste sentido,\u00a0<strong><em>se o feminismo radical conseguiu ser um dos motores ideol\u00f3gicos que animaram as lutas que conseguiram grandes conquistas democr\u00e1ticas (como o direito ao div\u00f3rcio, ao aborto, aos direitos reprodutivos e uma sexualidade mais livre) tamb\u00e9m se tornou um obst\u00e1culo fundamental \u201cpara que as mulheres trabalhadoras se organizem independentemente da burguesia e levem aos lugares de trabalho e aos bairros oper\u00e1rios as reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>[\u2026]Em vez de postular que os homens da classe trabalhadora s\u00e3o aliados potenciais e que atrav\u00e9s de um duro combate ao machismo nas organiza\u00e7\u00f5es operarias, estudantis, populares e nas lutas, teria que ser educados e ganhos para a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, porque em ultima instancia o socialismo revolucion\u00e1rio (que abarca em seu programa a luta contra todas as opress\u00f5es) \u00e9 uma luta comum, o feminismo radical com suas teorias do patriarcado colocou os homens como inimigos sistem\u00e1ticos das mulheres e defendeu uma estrat\u00e9gia de separa\u00e7\u00e3o e confronta\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres. [\u2026]<\/p>\n<p>Em sua tentativa de gerar uma teoria do patriarcado como uma imagem congelada e invertida do marxismo vulgar, o feminismo radical n\u00e3o s\u00f3 produziu uma teoria abstrata, desconectada da realidade hist\u00f3rica, sen\u00e3o que afirmou que a realidade socioecon\u00f4mica das mulheres n\u00e3o importa, que a rela\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o se articula no n\u00edvel da sexualidade ou da diferencia\u00e7\u00e3o de sexo, da capacidade reprodutora das mulheres. [\u2026] Uma categoria te\u00f3rica surpreendentemente ausente do feminismo radical foi o trabalho, j\u00e1 que em nenhum momento se considerou como importante ou central o problema do trabalho domestico ou o trabalho reprodutivo ou o problema da explora\u00e7\u00e3o salarial do trabalho da maioria das mulheres (porque sua condi\u00e7\u00e3o de exploradas as \u201caproximaria\u201d dos homens da classe trabalhadora).<\/p>\n<p>[\u2026]A superestrutura burguesa (o Estado, as leis, a ideologia etc.) fez todo o poss\u00edvel para manter a discrimina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a mulher e n\u00e3o lhe outorgar a igualdade de direitos que reivindicaram as mulheres na \u00e9poca das revolu\u00e7\u00f5es burguesas. O capitalismo se apoiou em uma superestrutura sexista e machista, que discrimina as mulheres e fez o poss\u00edvel para assegurar sua sobre-explora\u00e7\u00e3o e sua exclus\u00e3o da vida politica.<\/p>\n<p>[\u2026] Ainda que n\u00e3o estejam arraigadas s\u00f3 na fam\u00edlia e no Estado, sua origem n\u00e3o esta na biologia nem na ideologia sen\u00e3o na sociedade de classes e, hoje em dia, no \u00fanico motor que alimenta a sociedade burguesa: a busca de lucros capitalistas a todo e qualquer pre\u00e7o.<\/p>\n<p><em>S\u00edntese de Luana Ribeiro do artigo de Florence Oppen publicado na \u00edntegra pela Revista Marxismo Vivo n\u00famero 7, dispon\u00edvel em: http:\/\/phl.bibliotecaleontrotsky.org\/arquivo\/mv07neept\/mv07neept-19o.pdf<\/em><\/p>\n<p><em>Os grifos s\u00e3o de Luana Ribeiro<\/em><\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>ADAMS, Julia. \u201c<em>The Rule of the Father: Patriarchy and Patrimonialism in Early Modern Europe<\/em>,\u201d Max Weber\u2019s Economy and Society: A Critical Companion, ed Charles CAMIC. 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