{"id":23629,"date":"2018-07-16T22:00:31","date_gmt":"2018-07-17T00:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23629"},"modified":"2018-07-16T22:00:31","modified_gmt":"2018-07-17T00:00:31","slug":"haiti-rebelde-de-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/07\/16\/haiti-rebelde-de-novo\/","title":{"rendered":"Haiti rebelde&#8230;de novo"},"content":{"rendered":"<p><em>Na semana passada, o Haiti explodiu. J\u00e1 t\u00ednhamos visto antes a insurrei\u00e7\u00e3o em Honduras contra a fraude eleitoral do governo, as mobiliza\u00e7\u00f5es gigantescas contra a ditadura de Daniel Ortega (o novo Somoza nicaraguense), a greve geral e as lutas radicalizadas contra Macri na Argentina. A Am\u00e9rica Latina vai se polarizando e desestabilizando. Agora chegou a vez do Haiti.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Eduardo Almeida<\/p>\n<p>O governo Moise, se aproveitando da paix\u00e3o do povo haitiano pelo futebol brasileiro, decretou quase clandestinamente durante a partida Brasil x B\u00e9lgica, uma sexta feira, aumentos de 38% na gasolina at\u00e9 51% no querosene.<\/p>\n<p>A mis\u00e9ria do pa\u00eds se expressa at\u00e9 nisso: o querosene e o carv\u00e3o s\u00e3o os combust\u00edveis mais usados pelo povo, para iluminar as casas e cozinhar. Esse decreto foi assinado por ordens diretas do FMI, que o exigiu para liberar um empr\u00e9stimo de 96 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Cinco minutos depois de terminado o jogo, o pa\u00eds explodiu.\u00a0 As ruas foram tomadas por multid\u00f5es furiosas que enfrentaram a pol\u00edcia, montaram barricadas e destru\u00edam os s\u00edmbolos da explora\u00e7\u00e3o capitalista que viam pela frente, incluindo ag\u00eancias do governo e hot\u00e9is.<\/p>\n<p>As grandes cidades do pa\u00eds, incluindo Porto Pr\u00edncipe e Le Cap,\u00a0 amanheceram no s\u00e1bado com seus bairros populares sob controle da popula\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia, \u00fanica for\u00e7a armada do governo, fugiu para os quart\u00e9is.<\/p>\n<p>O governo, apavorado, revogou o decreto. Mas j\u00e1 era tarde. Um limite tinha se quebrado. Os trabalhadores e o povo pobre haitiano tinham se levantado. E n\u00e3o era s\u00f3 contra mais esse aumento. O inimigo \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o imperialista selvagem imposta a esse povo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da semana, dois dias de greve geral mantiveram o pa\u00eds parado. N\u00e3o foi somente uma greve de transportes, como a imprensa mundial informou. Outra face da mis\u00e9ria haitiana \u00e9 que uma parte importante da popula\u00e7\u00e3o vai a p\u00e9 ao trabalho. E estava tudo parado. Inclusive e principalmente, o jovem proletariado t\u00eaxtil das zonas francas do pa\u00eds, o mais importante setor do proletariado haitiano.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Haiti-protestos-1200x630.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-23631 size-full\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Haiti-protestos-1200x630.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"630\" \/><\/a><\/p>\n<p>O governo, na defensiva completa, buscou encaminhar o processo para o parlamento, que culpou e destituiu o primeiro ministro no s\u00e1bado seguinte.<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es baixaram. O pa\u00eds voltou a atividade. Mas a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a mesma. O povo haitiano, mais uma vez, mostrou que pode lutar, pode vencer. O Haiti rebelde novamente se levantou.<\/p>\n<p><strong>Uma hist\u00f3ria revolucion\u00e1ria esquecida<\/strong><\/p>\n<p>Propositalmente a m\u00eddia burguesa busca esconder a hist\u00f3ria haitiana. Esse povo negro fez a primeira e \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o dos escravos vitoriosa da hist\u00f3ria em 1804. Foi tamb\u00e9m a primeira revolu\u00e7\u00e3o anticolonial vitoriosa das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Os escravos negros, liderados por Toussaint L\u2019Ouverture e Dessaline, entre 1791 e 1804 derrotaram todos os ex\u00e9rcitos dominantes da \u00e9poca, incluindo o espanhol, o ingl\u00eas e o franc\u00eas de Napole\u00e3o, para se tornar um pa\u00eds independente. Foi uma das primeiras derrotas militares de Napole\u00e3o.<\/p>\n<p>Em uma das visitas que fiz ao Haiti, fui visitar a \u00a0\u201cCidadela\u201d, uma gigantesca fortaleza, nos arredores de Cap Haitiene. Trata-se de uma demonstra\u00e7\u00e3o do desenvolvimento desigual e combinado no terreno da arquitetura e da engenharia militar. Constru\u00edda por Cristophe, logo depois da independ\u00eancia do Haiti da Fran\u00e7a em 1804, foi idealizada por um engenheiro militar haitiano, Barr\u00e9, que estudou na Fran\u00e7a e absorveu as t\u00e9cnicas mais modernas da engenharia militar da Europa.<\/p>\n<p>A gigantesca fortaleza, com 375 canh\u00f5es, foi constru\u00edda por dezenas de milhares de haitianos durante sete anos. \u00c9 uma express\u00e3o, ao mesmo tempo, da for\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o e da mais avan\u00e7ada t\u00e9cnica do mundo naquela \u00e9poca. Chegar \u00e0 Cidadela imp\u00f5e de imediato o respeito devido \u00e0 grandiosidade desta revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A rea\u00e7\u00e3o colonialista para estrangular a revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O colonialismo n\u00e3o podia deixar que a semente da revolu\u00e7\u00e3o haitiana se espalhasse. Mais ainda em um per\u00edodo em que o escravagismo era parte importante de seus planos de explora\u00e7\u00e3o, quase sessenta anos antes de sua aboli\u00e7\u00e3o nos EUA e mais de oitenta no Brasil.<\/p>\n<p>Por isso imp\u00f4s um dur\u00edssimo bloqueio econ\u00f4mico ao pa\u00eds. Em 1825, para romper o bloqueio, o Haiti se submeteu \u00e0s condi\u00e7\u00f5es impostas pela Fran\u00e7a, concordando em pagar 150 milh\u00f5es de francos pelas \u201cperdas\u201d decorrentes da independ\u00eancia. Anos depois, a soma foi reduzida para 90 milh\u00f5es de francos, que foram pagos at\u00e9 o ano de 1947. Em valores atuais, a \u201cd\u00edvida\u201d corresponderia a cerca de US$ 21 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi uma das primeiras d\u00edvidas externas do continente. Para pag\u00e1-la, o debilitado estado haitiano consumiu ano ap\u00f3s ano 80% do or\u00e7amento nacional. Isso na verdade, fez retroceder o pa\u00eds, acabando com sua independ\u00eancia 21 anos depois de conquistada. Mesmo que formalmente independente, desde ent\u00e3o o pa\u00eds passou a ser uma semicol\u00f4nia do capitalismo.<\/p>\n<p>Em 1915, os EUA invadiram o Haiti, permanecendo ali por cerca de vinte anos. Saqueou o Banco Central e transferiu suas reservas para os EUA. Depois apoiou a ditadura de Duvalier (Papa Doc) no final da d\u00e9cada de 50, uma das mais sanguin\u00e1rias da hist\u00f3ria. O duvalierismo mudou a economia do pa\u00eds. O Haiti, que j\u00e1 foi o maior exportador do mundo de a\u00e7\u00facar, passou a ter de importar praticamente todos os alimentos. Tratava-se de um plano de longo prazo, articulado pelo imperialismo, de destruir as pequenas propriedades da economia camponesa e for\u00e7ar uma migra\u00e7\u00e3o para as cidades, fornecendo m\u00e3o de obra abundante para as ind\u00fastrias multinacionais.<\/p>\n<p><strong>A derrubada de Baby Doc<\/strong><\/p>\n<p>Em 1971, com a morte de Papa Doc, seu filho Baby Doc assumiu a presid\u00eancia. Desde 1980 enfrentou manifesta\u00e7\u00f5es populares, at\u00e9 ser derrubado por uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em 1986. Os tonton macoutes (for\u00e7as paramilitares do duvalierismo) foram ca\u00e7ados e mortos nas ruas.<\/p>\n<p>A onda de revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas que derrubaram as ditaduras militares do Brasil, Argentina, Uruguai, Bol\u00edvia e outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, chegou ao Haiti, retomando a saga do Haiti rebelde.<\/p>\n<p>Nunca mais desde ent\u00e3o a burguesia e o imperialismo conseguiram estabilizar o pa\u00eds a n\u00e3o ser com uma interven\u00e7\u00e3o militar direta.<\/p>\n<p>Em 1990, nas primeiras elei\u00e7\u00f5es relativamente livres no Haiti, foi eleito um governo de colabora\u00e7\u00e3o de classes dos trabalhadores com a burguesia: uma frente popular no Haiti. O padre Jean-Bertrand Aristide, adepto da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, foi eleito derrotando o candidato preferido pela burguesia e pelo imperialismo.<\/p>\n<p>O imperialismo n\u00e3o se conformou com a derrota eleitoral. Sete meses depois, Aristides foi deposto por um golpe militar de direita. O novo ditador, o general Cedras, imp\u00f4s uma repress\u00e3o selvagem que matou 5 mil pessoas, n\u00fameros semelhantes aos das mais ferozes ditaduras do continente, como a argentina e a chilena de Pinochet.<\/p>\n<p><strong>A segunda invas\u00e3o dos EUA<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, mais uma vez o Haiti rebelde se p\u00f4s em movimento. A crescente resist\u00eancia popular amea\u00e7ou com uma nova revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica como a que derrubou Baby Doc.<\/p>\n<p>O imperialismo, j\u00e1 nesse momento tinha come\u00e7ado a aplicar uma pol\u00edtica distinta, dando uma cobertura \u201cdemocr\u00e1tica\u201d a seus planos. O governo Clinton fez uma manobra pol\u00edtica, em acordo com o mesmo Aristide que tinha sido deposto pelos militares com apoio do pr\u00f3prio governo dos EUA. O imperialismo invadiu o pa\u00eds pela segunda vez no s\u00e9culo em 1994, a ditadura foi deposta, e Aristides reconduzido ao poder.<\/p>\n<p>Novas elei\u00e7\u00f5es foram convocadas. Dois governos de frentes populares (Pr\u00e9val em 95 e o pr\u00f3prio Aristides em 2000) dirigiram o pa\u00eds, e aplicaram o acordo feito com Clinton, ou seja, dur\u00edssimos planos neoliberais, que nem a ditadura de Cedras tinha conseguido fazer.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Aristide apresentou na C\u00fapula de Monterrey, em 2003, o plano que criou 18 zonas francas no pa\u00eds. Foram privatizadas a maioria das estatais e eliminadas as tarifas de importa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUma contradi\u00e7\u00e3o t\u00edpica da hist\u00f3ria haitiana: governos de frente popular, apoiados por uma invas\u00e3o do imperialismo, aplicando um plano neoliberal dur\u00edssimo.<\/p>\n<p>O resultado foi uma enorme desilus\u00e3o. As expectativas em Aristides foram se desfazendo. A insatisfa\u00e7\u00e3o tomou conta do pa\u00eds, e ocorreram grandes mobiliza\u00e7\u00f5es contra o governo.<\/p>\n<p>Novamente o Haiti rebelde se colocava em marcha, agora contra o governo de frente popular e tamb\u00e9m contra o imperialismo que o apoiava. Uma nova revolu\u00e7\u00e3o se anunciou no horizonte, com um desdobramento imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>A terceira invas\u00e3o e a farsa da \u201cmiss\u00e3o humanit\u00e1ria\u201d Minustah<\/strong><\/p>\n<p>O imperialismo entrou novamente em cena. A frente popular j\u00e1 n\u00e3o lhe servia mais para conter o movimento de massas. Ocorreu a terceira invas\u00e3o do Haiti pelos EUA em fevereiro de 2004, tirando do poder o mesmo Aristides que tinha trazido de volta dez anos antes.<\/p>\n<p>O governo Bush, no entanto, armou uma grande jogada. Como j\u00e1 tinha que lidar com a crise crescente da ocupa\u00e7\u00e3o do Iraque, que despertava ondas de indigna\u00e7\u00e3o crescentes em todo o mundo, ele terceirizou a ocupa\u00e7\u00e3o. Falou diretamente com Lula (no governo brasileiro ent\u00e3o), para que tropas brasileiras assumissem o comando da opera\u00e7\u00e3o. Prontamente Lula concordou, aceitando um papel vergonhoso em uma das maiores trai\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>Assim chegou ao Haiti, alguns meses depois da invas\u00e3o imperialista, a Minustah (Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Haiti), liderada por tropas brasileiras, e compostas por soldados da Argentina, Chile, Uruguai, Bol\u00edvia e outros pa\u00edses. Em um passe de m\u00e1gica, a invas\u00e3o imperialista foi transformada em uma \u201cmiss\u00e3o humanit\u00e1ria\u201d da ONU, com a cobertura pela \u201cesquerda\u201d de Lula, Evo Morales, Bachelet, Tabar\u00e9 Vasquez e outros.<\/p>\n<p>A Minustah esteve no pa\u00eds de 2004 a 2017, servindo aos interesses diretos do imperialismo norte americano. A ocupa\u00e7\u00e3o militar reprimiu o povo haitiano para garantir a aplica\u00e7\u00e3o dos planos neoliberais nesse pa\u00eds, que Aristides j\u00e1 n\u00e3o conseguia impor.<\/p>\n<p>A farsa da \u201cmiss\u00e3o humanit\u00e1ria\u201d ajudou a disfar\u00e7ar os investimentos estrangeiros como uma forma de \u201cajudar\u201d os haitianos. A \u201cajuda\u201d aos haitianos tem o mesmo conte\u00fado da \u201ccaridade\u201d do imperialismo europeu ao invadir a \u00c1frica negra. A pobreza haitiana \u00e9 perpetuada para produzir a baix\u00edssimos custos pelas multinacionais.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe \u00e1gua e esgoto nas casas do povo pobre.\u00a0 As pessoas retiram \u00e1gua dos po\u00e7os e carregam para casa em baldes. Usam carv\u00e3o e querosene para cozinhar. V\u00e3o trabalhar a p\u00e9 para n\u00e3o pagar transporte.<\/p>\n<p>Os planos neoliberais t\u00eam nesse pa\u00eds uma vers\u00e3o selvagem, com elementos de barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>As zonas francas, inauguradas pelo governo Aristides, se espalharam pelo pa\u00eds. O plano geral se ampliou para instalar 42 zonas francas, e uma parte delas est\u00e1 em pleno funcionamento. S\u00e3o f\u00e1bricas multinacionais produzindo para o mercado norte-americano, livre de taxas alfandeg\u00e1rias e em geral tamb\u00e9m de quaisquer limites trabalhistas legais.<\/p>\n<p>A mais importante zona franca est\u00e1 mesmo na capital de Porto Pr\u00edncipe. Outras de grande import\u00e2ncia s\u00e3o as de Ouanaminthe, e a mais recente em Caracol, no nordeste haitiano.<\/p>\n<p>Os sal\u00e1rios no Haiti hoje s\u00e3o de menos de 5 d\u00f3lares por dia. Metade do que \u00e9 pago na China, para produzir jeans para o mercado dos EUA, a menos de mil quil\u00f4metros das costas norte americanas. Cal\u00e7as e camisas de marcas famosas como Levis, Lee, Wrangler, GAP s\u00e3o produzidas a 5 d\u00f3lares no Haiti e vendidas a 50 d\u00f3lares nos EUA.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de 70% da popula\u00e7\u00e3o desempregada permite \u00e0s multinacionais pressionar os oper\u00e1rios empregados a aceitar as condi\u00e7\u00f5es humilhantes de sal\u00e1rio e trabalho. Os sindicatos s\u00e3o reprimidos violentamente, seus dirigentes e afiliados demitidos assim que aparecem.<\/p>\n<p>\u00c9 uma experiencia macabra do imperialismo.\u00a0 Uma ind\u00fastria de baixo n\u00edvel tecnol\u00f3gico, com um grau de explora\u00e7\u00e3o que se aproxima da barb\u00e1rie. Os trabalhadores tampouco t\u00eam os sal\u00e1rios indiretos vindos dos servi\u00e7os p\u00fablicos como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, pelo caos generalizado.<\/p>\n<p>A Minustah ajudou a impor esses planos neoliberais, reprimindo brutalmente as greves e o movimento estudantil. Al\u00e9m disso, estupraram mulheres, e -comprovadamente- trouxeram a doen\u00e7a do c\u00f3lera para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Minustah n\u00e3o teve nenhuma a\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria, nem mesmo durante o terremoto que sacudiu o pa\u00eds em 2010 matando 300 mil pessoas. Os haitianos se queixam que logo depois do terremoto as tropas se dedicaram essencialmente a proteger os quart\u00e9is contra a popula\u00e7\u00e3o faminta. Todos contam como o povo buscava resgatar as v\u00edtimas usando as pr\u00f3prias m\u00e3os, com p\u00e1s improvisadas, sem nenhum aux\u00edlio. Por isso foram resgatados apenas cerca de 200 pessoas com vida. O terremoto aumentou enormemente o \u00f3dio dos haitianos em rela\u00e7\u00e3o as tropas.<\/p>\n<p><strong>Os governos fantoches durante a ocupa\u00e7\u00e3o, de Pr\u00e9val\u00a0 \u00e0 Moise<\/strong><\/p>\n<p>Existem elei\u00e7\u00f5es no Haiti. Mas, na verdade, s\u00e3o uma farsa. Com a ocupa\u00e7\u00e3o militar, o poder real n\u00e3o est\u00e1 na presid\u00eancia da rep\u00fablica, mas na embaixada dos EUA. Os presidentes fazem o que lhe mandam. S\u00f3 podem se candidatar nas elei\u00e7\u00f5es candidatos que n\u00e3o se oponham \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o cl\u00e1ssicos governos fantoches, fantasmas.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es cumprem o papel de canalizar o descontentamento da popula\u00e7\u00e3o com os governos desgastados para eleger \u201cnovos governos\u201d. Depois de eleitos, em pouco tempo os governos s\u00e3o repudiados pela popula\u00e7\u00e3o, e sobreviveram por serem sustentados pelas tropas de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A presid\u00eancia permite o acesso as verbas do estado e do \u201capoio humanit\u00e1rio\u201d, em uma gigantesca rede de corrup\u00e7\u00e3o. Por isso, diferentes camarilhas da burguesia disputam ferozmente as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 2006, ocorreram as primeiras elei\u00e7\u00f5es depois da ocupa\u00e7\u00e3o.\u00a0 Rene\u00e9 Pr\u00e9val ganhou as elei\u00e7\u00f5es. Mas ele era o candidato de Aristides, o presidente deposto pela invas\u00e3o militar. As tropas de ocupa\u00e7\u00e3o organizaram uma gigantesca fraude para impor no segundo turno dois candidatos aceitos pela embaixada dos EUA. Uma rebeli\u00e3o popular impediu a fraude e garantiu a posse de Pr\u00e9val.<\/p>\n<p>Mas Pr\u00e9val fez o que as multinacionais e as embaixadas dos EUA e do Brasil lhe mandavam. Privatizou as estatais que restavam e assinou a lei Hope, completando a transforma\u00e7\u00e3o da ilha novamente em uma col\u00f4nia dos EUA.\u00a0 Terminou seu governo completamente desgastado com o povo haitiano.<\/p>\n<p>Em 2011, Pr\u00e9val tentou impor um sucessor- Jude Celestin- repetindo a fraude que fizeram contra ele.\u00a0 Um in\u00edcio de rebeli\u00e3o popular impediu mais uma vez a fraude.<\/p>\n<p>A OEA (Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos) aproveitou a crise para impor um segundo turno com a presen\u00e7a de Michel Martelly, que ganhou as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Martelly era um cantor que fez sua campanha recha\u00e7ando os \u201cpol\u00edticos\u201d e a corrup\u00e7\u00e3o. Mais era, na verdade, uma figura de ultradireita, tendo sido um tonton- macoute (paramilitar) de Duvalier antes de se tornar artista.<\/p>\n<p>Foi a volta do duvalierismo ao governo. Baby Doc \u2013 cuja ditadura foi derrubada em 1986 \u2013 retornou ao Haiti em 2011. Ele indicou v\u00e1rios ministros do governo Martelly, at\u00e9 sua morte em 2014.<\/p>\n<p>Martelly tamb\u00e9m terminou seu mandato desgastado. Afinal tentou a mesma manobra de sempre, com uma gigantesca fraude eleitoral para impor Jovenel Mo\u00efse como seu sucessor.<\/p>\n<p>Mais uma vez ocorreu um levante popular, em janeiro de 2016, que impediu temporariamente a fraude. As tropas da Minustah, junto com a pol\u00edcia local, reprimiram duramente as mobiliza\u00e7\u00f5es. Houve mais de um ano, sem governo eleito no pa\u00eds. Afinal, conseguiram com apoio da OEA armar novas elei\u00e7\u00f5es fraudulentas vencidas pelo mesmo Moise. Os \u00edndices de absten\u00e7\u00e3o foram de 80 a 85%.<\/p>\n<p>Moise assumiu um ano depois, j\u00e1 em fevereiro de 2017. Trata-se de um governo fraco, que j\u00e1 nasceu questionado.<\/p>\n<p>Em maio de 2017 come\u00e7ou um ascenso oper\u00e1rio, com mobiliza\u00e7\u00f5es em defesa do aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo. As mobiliza\u00e7\u00f5es foram duramente reprimidas pela pol\u00edcia\u00a0 pela Minustah.<\/p>\n<p><strong>O Haiti voltou a ser uma col\u00f4nia <\/strong><\/p>\n<p>Com a terceira invas\u00e3o imperialista em 2004, mascarada pela Minustah, o Haiti voltou a ser uma col\u00f4nia dos EUA.<\/p>\n<p>Algumas pessoas podem contestar essa afirma\u00e7\u00e3o, dizendo que no Haiti existem elei\u00e7\u00f5es, se apegando a forma que tomavam as antigas col\u00f4nias. Mas qual \u00e9 a diferen\u00e7a real de conte\u00fado entre a situa\u00e7\u00e3o atual do Haiti e uma col\u00f4nia?<\/p>\n<p>Tomamos como refer\u00eancia a defini\u00e7\u00e3o de Moreno sobre o grau de dom\u00ednio do imperialismo sobre um pa\u00eds:<\/p>\n<p>\u201cA esse respeito, propusemos tr\u00eas categorias de pa\u00edses: dependentes, semicoloniais e coloniais.<\/p>\n<p>Dependente \u00e9 um pa\u00eds politicamente independente, isto \u00e9 elege seus governantes, mas, desde o ponto de vista dos empr\u00e9stimos, do controle do com\u00e9rcio ou da produ\u00e7\u00e3o, depende economicamente de uma ou mais pot\u00eancia imperialistas.<\/p>\n<p>Semicolonial \u00e9 aquele que assinou pactos pol\u00edticos e ou econ\u00f4micos que cerceiam sua independ\u00eancia, sem acabar com ela completamente.<\/p>\n<p>Col\u00f4nia \u00e9 aquele que nem sequer elege seu governo, j\u00e1 que o mesmo \u00e9 imposto ou controlado por um pa\u00eds imperialista\u201d (Nahuel Moreno, M\u00e9todo para interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria argentina)<\/p>\n<p>O Haiti tem uma economia completamente subordinada ao imperialismo norte americano, atrav\u00e9s das zonas francas.\u00a0 N\u00e3o tem nenhum grau de independ\u00eancia pol\u00edtica. Elege seus governantes, mas s\u00f3 podem se inscrever candidatos que n\u00e3o se oponham \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o. Trata-se de governos fantoches.<\/p>\n<p>A primeira conclus\u00e3o sobre a hist\u00f3ria recente haitiana \u00e9 que a combina\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o militar com a assinatura da lei Hope transformou o pa\u00eds de novo em uma col\u00f4nia. Duzentos anos depois de sua independ\u00eancia, o Haiti voltou a ser uma col\u00f4nia, agora dos EUA.<\/p>\n<p><strong>A burguesia haitiana e o imperialismo n\u00e3o conseguiram estabilizar um estado<\/strong><\/p>\n<p>A segunda conclus\u00e3o \u00e9 que a burguesia e o imperialismo n\u00e3o conseguiram reestabilizar o estado burgu\u00eas no Haiti desde a revolu\u00e7\u00e3o que derrubou a ditadura de Baby Doc.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguiram estruturar uma domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atrav\u00e9s da democracia burguesa, como se deu no restante do continente, como no Brasil, Argentina, Chile, etc. Por isso recorreram a golpes de Estado e a invas\u00f5es estrangeiras.<\/p>\n<p>Tampouco conseguiram estruturar o n\u00facleo duro do estado burgu\u00eas, suas for\u00e7as armadas, dissolvidas em 1995. O que existia de for\u00e7as armadas eram as estrangeiras com as invas\u00f5es. A Minustah cumpriu esse papel por 13 anos.<\/p>\n<p>O mandato da Minustah terminou, as tropas deixaram o Haiti, e foram substitu\u00eddas pela Minusjusth, com menor contingente. Tentam agora aplicar a mesma manobra j\u00e1 feita no Iraque e Afeganist\u00e3o, em outro contexto pol\u00edtico. As tropas s\u00e3o retiradas, mas deixando um esbo\u00e7o de for\u00e7as armadas recompostas sob sua supervis\u00e3o. Nesses treze anos, o ex\u00e9rcito haitiano ainda n\u00e3o foi reorganizado, mas a Pol\u00edcia Nacional Haitiana foi reconstru\u00edda, tendo agora 15 mil homens.<\/p>\n<p>Trata-se de uma aposta arriscada, perante a explosividade do pa\u00eds. Por tr\u00e1s dessa manobra est\u00e1 a sempre presente possibilidade de uma nova invas\u00e3o das tropas norte americanas. Logo ap\u00f3s o terremoto de 2010, por exemplo, em um momento em que havia um risco de explos\u00e3o popular e a Minustah se limitou a ficar nos quart\u00e9is, tropas dos EUA ocuparam rapidamente os principais centros do pa\u00eds em apenas um dia.<\/p>\n<p>O risco de uma nova invas\u00e3o perante o novo levante est\u00e1 novamente presente.<\/p>\n<p><strong>E agora ?<\/strong><\/p>\n<p>O governo Moise assumiu em 2017 j\u00e1 questionado pela gigantesca fraude com que foi \u201celeito\u201d, e por um ascenso de massas que vem ocorrendo desde sua posse.<\/p>\n<p>A rebeli\u00e3o de julho de 2018 n\u00e3o surgiu por acaso. Mas ela aprofundou agudamente a crise do governo fantoche de Moise, e do regime colonial imperante na ilha. As mobiliza\u00e7\u00f5es se chocam diretamente com a domina\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria parcial da semi-insurrei\u00e7\u00e3o ocorrida , com a revoga\u00e7\u00e3o do aumento dos combust\u00edveis revelou a falta de legitimidade do governo Moise.<\/p>\n<p>E mostrou tamb\u00e9m o fracasso da Minustah. N\u00e3o houve nenhuma melhora social com os 13 anos da ocupa\u00e7\u00e3o militar liderada por tropas brasileiras. Por isso, existe essa base social rebelada do povo haitiano. O \u00faltimo desastre feito pela Minustah foi a repress\u00e3o ao povo para assegurar a fraude e a posse de Moise. O fracasso da Minustah tamb\u00e9m se estendeu a outros terrenos: a rebeldia do povo haitiano tampouco foi derrotada, a Minusjusth e a rearticulada pol\u00edcia haitiana n\u00e3o conseguiram reprimir o levante de julho.<\/p>\n<p>Uma nova revolu\u00e7\u00e3o haitiana pode se desenvolver. As bases come\u00e7am a se estabelecer. Mas, caso ocorra, ter\u00e1 de enfrentar uma tarefa dupla:<\/p>\n<p>&#8211; em primeiro lugar encarar mais uma vez a tarefa democr\u00e1tica de liberta\u00e7\u00e3o colonial, agora do imperialismo norte americano. Pode ser que isso se d\u00ea lutando diretamente contra uma nova invas\u00e3o imperialista<\/p>\n<p>&#8211; como parte de um mesmo processo de revolu\u00e7\u00e3o permanente, junto com a tarefa democr\u00e1tica anti-imperialista, avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. Isso n\u00e3o era poss\u00edvel na primeira revolu\u00e7\u00e3o haitiana em 1804 porque as condi\u00e7\u00f5es objetivas n\u00e3o estavam dadas. Os escravos negros eram o que mais aproximado existia de um proletariado moderno, por trabalhar em grandes fazendas exportadoras de a\u00e7\u00facar para o mercado mundial. Mas n\u00e3o existiam as bases objetivas para uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. Nem tampouco subjetivas quarenta e quatro anos antes do Manifesto Comunista.<\/p>\n<p>Agora, a contradi\u00e7\u00e3o que traz a expans\u00e3o das zonas francas \u00e9 uma nova constitui\u00e7\u00e3o do proletariado haitiano, com o setor t\u00eaxtil a sua frente. Trata-se de um proletariado pequeno para o tamanho do pa\u00eds. Mas o proletariado industrial russo era apenas 3% da popula\u00e7\u00e3o em 1917. E existe uma ampla base popular para a revolu\u00e7\u00e3o, explosiva e superexplorada\u00a0 em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>No entanto, a trag\u00e9dia haitiana tamb\u00e9m se expressa na fragilidade que existe em suas massas. N\u00e3o existe uma alternativa de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria com peso suficiente entre o proletariado para poder dirigir esse processo.<\/p>\n<p>Existem organiza\u00e7\u00f5es do movimento oper\u00e1rio em constru\u00e7\u00e3o, como Batay Ouvriye, que vem se desenvolvendo na luta contra o imperialismo e os governos.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 necess\u00e1rio e poss\u00edvel que se avance como uma organiza\u00e7\u00e3o que dirija o proletariado com um programa revolucion\u00e1rio que inclua a queda do governo Moise; as reivindica\u00e7\u00f5es mais sentidas das massas desde sal\u00e1rio e emprego; a expropria\u00e7\u00e3o das grandes empresas estrangeiras e nacionais;\u00a0 a ruptura com o imperialismo; e a forma\u00e7\u00e3o de um governo do proletariado e das massas populares. \u00c9 preciso construir organismos democr\u00e1ticos de lutas das massas (semelhantes aos que foram os sovietes russos de 1917), que organizem as lutas atuais e possam ser as bases de um novo futuro governo e estado.<\/p>\n<p>A nova situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 completamente aberta. \u00c9 o Haiti rebelde&#8230; de novo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada, o Haiti explodiu. 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