{"id":23617,"date":"2018-07-16T17:24:49","date_gmt":"2018-07-16T19:24:49","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23617"},"modified":"2018-07-16T17:24:49","modified_gmt":"2018-07-16T19:24:49","slug":"acordo-de-paz-entre-etiopia-e-eritreia-nao-significa-estabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/07\/16\/acordo-de-paz-entre-etiopia-e-eritreia-nao-significa-estabilidade\/","title":{"rendered":"Acordo de paz entre Eti\u00f3pia e Eritreia n\u00e3o significa estabilidade"},"content":{"rendered":"<p><em>A Eti\u00f3pia \u00e9 hoje um dos principais parceiros estrat\u00e9gicos dos Estados Unidos na \u00c1frica. Os Estados Unidos \u00e9 o maior investidor na Eti\u00f3pia: entre 2008 e 2009 quase 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares ao ano, e na d\u00e9cada de 2010 cerca de 500 milh\u00f5es ao ano. Mesmo assim a Eti\u00f3pia \u00e9 marcada pela fome e a pobreza com 8 milh\u00f5es de pessoas passando fome. Todo o processo que vem passando o pa\u00eds vem sendo acompanhado por Donald Yamamoto, secret\u00e1rio de Estado adjunto dos Estados Unidos para a \u00c1frica.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Am\u00e9rico Gomes<\/p>\n<p>Al\u00e9m do aux\u00edlio econ\u00f4mico, a Eti\u00f3pia recebe um substancial auxilio militar para ser a \u201c<em>capit\u00e3 do mato<\/em>\u201d no Chifre da \u00c1frica. Recebe armas, treinamento e informa\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, para suas supostas opera\u00e7\u00f5es de contraterrorismo na regi\u00e3o. Incluindo interven\u00e7\u00f5es nos pa\u00edses vizinhos. Na Som\u00e1lia a presen\u00e7a militar et\u00edope, apoiada pelos Estados Unidos, garante o governo somali contra o Al-Shabaab. No Djibuti apoia o governo em guerra com a Eritreia, pelas montanhas Dumeira e Dumeira, uma das rotas de navega\u00e7\u00e3o mais movimentadas do mundo.<\/p>\n<p>A assist\u00eancia militar dos EUA, que treina o ex\u00e9rcito et\u00edope, \u00e9 feita por meio de miss\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o da \u201cpaz\u201d e via ajuda humanit\u00e1ria em pacotes aprovados pelo Congresso.<\/p>\n<p>A Frente de Liberta\u00e7\u00e3o do Povo de Tigray, que representa 6% da popula\u00e7\u00e3o, e esteve na vanguarda da luta contra a ditadura, derrubada em 1991, \u00e9 quem assumiu o novo regime, atrav\u00e9s da Frente Democr\u00e1tica Revolucion\u00e1ria do Povo Et\u00edope (EPRDF). A partir da\u00ed vem se beneficiando com os grandes neg\u00f3cios e acordos com o imperialismo, seu primeiro-ministro era Meles Zenawi (fundador da Liga Marxista-leninista do Tigray).<\/p>\n<p>Zenawi esteve no governo at\u00e9 sua morte em 2012, ano que assumiu Hailemariam Desalegn, que governou at\u00e9 o in\u00edcio de 2018, quando foi derrubado por um processo de mobiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, que jogou at\u00e9 mesmo seu partido contra ele. Um processo parecido com a \u00c1frica do Sul, onde o partido no poder ajuda a derrubar seu governo para continuar mandando. A EPRDF, para impedir o avan\u00e7o dos protestos, expulsou Hailemariam, derrubou seu governo e nomeou um novo. Os protestos tiveram centenas de mortos e cerca de 20.000 pessoas presas. Principalmente jovens, que bloquearam estradas, fecharam empresas e fizeram greves em Addis Abeba.<\/p>\n<p>Mais um exemplo em que um processo de mobiliza\u00e7\u00e3o popular imp\u00f5e a mais um governo burgu\u00eas no continente africano a necessidade de fazer concess\u00f5es, para se manter no poder. O interessante \u00e9, que mesmo a contragosto, o imperialismo norte-americano est\u00e1 aceitando e se readequando.<\/p>\n<p>O novo primeiro-ministro \u00e9 Abiy Ahmed, do OPDO (siga em ingl\u00eas da Organiza\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica do Povo Oromo) um dos partidos que faz parte da EPRDF. Para tentar estabilizar seu governo ele teve que encerrar o estado de emerg\u00eancia, libertar prisioneiros pol\u00edticos e dar alguma liberdade democr\u00e1tica, mas junto com isso pretende garantir mais ainda a abertura da economia a investidores estrangeiros.<\/p>\n<p>Fruto da crescente mobiliza\u00e7\u00e3o e do desgaste das for\u00e7as armadas, e dos aparatos de repress\u00e3o, ele teve que acabar com a guerra com a Eritreia.<\/p>\n<p><strong>A guerra<\/strong><\/p>\n<p>A ditadura militar na Eti\u00f3pia, liderada pelo coronel Mengistu Hailemariam, n\u00e3o foi derrubada somente pela EPRDF, mas tamb\u00e9m pela Frente de Liberta\u00e7\u00e3o do Povo da Eritreia (FLPE), que passou a administrar este estado, e que levou \u00e0 sua separa\u00e7\u00e3o formal da Etiopia em 1993.<\/p>\n<p>O governo da Eti\u00f3pia nunca aceitou de fato a separa\u00e7\u00e3o e iniciou uma guerra em maio de 1998. A justificativa era a Eritreia reivindicar a regi\u00e3o de Badme, os et\u00edopes recusaram-se a retirar suas tropas deste territ\u00f3rio. A guerra custou aos dois pa\u00edses 100 mil mortos. S\u00e3o povos que compartilham a mesma cultura, l\u00edngua e hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A Eti\u00f3pia sempre contou com o apoio dos Estados Unidos, mas a Eritreia foi rompendo seu isolamento desenvolvendo alian\u00e7as com os Emirados \u00c1rabes Unidos e a Ar\u00e1bia Saudita, ambos ansiosos por usar seu territ\u00f3rio como base para opera\u00e7\u00f5es no I\u00eamen.<\/p>\n<p>O novo governo de Abiy Ahmed anunciou em 5 de junho que a Eti\u00f3pia cumpriria plenamente com o Acordo de Argel de dezembro de 2000, que nunca foi cumprido, e em 8 de julho voou para Asmara para assinar um acordo de paz com seu colega Isaias Afewerki.<\/p>\n<p><strong>Eti\u00f3pia um pa\u00eds cheio de conflitos<\/strong><\/p>\n<p>A Eti\u00f3pia tem mais de 80 etnias diferentes. Os tigrayanos s\u00e3o uma minoria, mas det\u00eam as riquezas e detinham o poder de maneira absoluta, desde que chegou ao poder.<\/p>\n<p>A partir de 2015, os membros da etnia oromo, o maior grupo \u00e9tnico do pa\u00eds, cerca de 35 a 40% do total, vem realizando protestos em mais de 200 cidades exigindo reformas pol\u00edticas. Em 2016 dezenas de milhares de amhara, segunda maior etnia, se juntaram aos protestos contra o governo. Juntos representam cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o da Eti\u00f3pia. O governo declarou estado de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Mesmo apontando a possibilidade de concess\u00f5es o governo se recusa a mexer no sistema federal criado pela ditadura, uma federa\u00e7\u00e3o com estados que tem constitui\u00e7\u00f5es que determinam que somente alguns grupos \u00e9tnicos tenham propriedades, e os demais grupos sejam considerados colonos ou forasteiros. H\u00e1 estados onde milhares de amharas foram despejados, mortos e torturados, com os\u00a0 tigrayanos tomando suas propriedades.<\/p>\n<p>A principal reivindica\u00e7\u00e3o imediata destas etnias \u00e9 o fim de um plano de desenvolvimento metropolitano que incorpora as cidades ao redor de Adis Abeba. Nessa regi\u00e3o, o governo realizou expropria\u00e7\u00f5es indevidas das terras principalmente dos camponeses, que ficaram sem nenhum outro meio de subsist\u00eancia, afetando oromos e amharas.<\/p>\n<p>Os militares est\u00e3o esgotados por combater em v\u00e1rias frentes, com seus soldados envolvidos em opera\u00e7\u00f5es na Som\u00e1lia e Djibouti, e milhares na fronteira com a Eritreia. Agora que h\u00e1 a necessidade de acabar com a agita\u00e7\u00e3o popular interna, houve certo colapso nesta institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ren\u00fancia de Hailemariam Desalegn em fevereiro, depois do in\u00edcio dos bloqueios das estradas que cercam Adis Abeba, fortaleceu os manifestantes. Multid\u00f5es inundaram as ruas novamente para celebrar a liberta\u00e7\u00e3o dos prisioneiros. Isso obrigou a que a EPRDF, para tentar retomar o controle da situa\u00e7\u00e3o, nomeasse Abiy, que \u00e9 fiel ao partido, mas \u00e9 oromo. Esta situa\u00e7\u00e3o deixa Abiy em uma posi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, j\u00e1 que, por um lado tem que apresentar reformas populares, na esperan\u00e7a de acalmar os manifestantes e ampliar sua base social e, por outro lado, n\u00e3o atacar os privil\u00e9gios dos tigrayanos. Os tigrayanos j\u00e1 est\u00e3o protestando contra as propostas de paz com a Eritr\u00e9ia. E \u00e9 importante ressaltar que eles ainda controlam o ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, a Eritreia \u00e9 o menor dos problemas do Sr. Abiy.<\/p>\n<p><strong>Uma nova marionete do imperialismo<\/strong><\/p>\n<p>Abiy Ahmed tamb\u00e9m \u00e9 profundamente ligado ao imperialismo norte-americano, n\u00e3o pretende mudar estas rela\u00e7\u00f5es e j\u00e1 anunciou a privatiza\u00e7\u00e3o de empresas estatais como a Ethiopian Airlines e empresas de telecomunica\u00e7\u00f5es e energia.<\/p>\n<p>A Eti\u00f3pia tentou um incipiente processo de industrializa\u00e7\u00e3o, mas que foi logo destro\u00e7ado pelas multinacionais. Construiu uma malha rodovi\u00e1ria e a ferrovia Addis-Djibouti. Teve uma das taxas mais altas de investimento p\u00fablico, que \u00a0levou o pa\u00eds a uma taxa de crescimento econ\u00f4mico de respeit\u00e1veis \u200b\u200b5-6% a excepcionais 10% ao ano. Foi anunciado como a nova China na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Apostando neste projeto desenvolveu o Plano de Crescimento e Transforma\u00e7\u00e3o (GTP), desde 2010. Isso fez \u00a0com que dobrasse a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade de 1800 a 4200 MW, sendo que sua necessidade, de pico de energia, \u00e9 de 2000 MW. Quando todos os projetos estiverem conclu\u00eddos a capacidade de gera\u00e7\u00e3o da Eti\u00f3pia ser\u00e1 mais de quatro vezes a demanda dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m de n\u00e3o conseguir atrair investimentos, pois a pol\u00edtica do imperialismo para o pa\u00eds \u00e9 a importa\u00e7\u00e3o de manufaturas, se dedicou a constru\u00e7\u00e3o de obras de grande magnitude, que tiveram o efeito de deslocar investimentos para o lugar errado.<\/p>\n<p>Antes da guerra, Eti\u00f3pia e Eritreia desfrutaram de um mercado comum, sem barreiras tarif\u00e1rias, al\u00e9m de ter acesso total aos portos eritreus de Assab e Massawa. Tudo isso foi interrompido pela guerra. A Eti\u00f3pia ficou sem acesso ao mar e passou a depender da ferrovia de Adis Abeba para o porto de Djibuti, o que encareceu as exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isto refletiu em um decl\u00ednio das exporta\u00e7\u00f5es de 17% do PIB para 8%, em compara\u00e7\u00e3o com a m\u00e9dia subsaariana de 27%. Sua exporta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao PIB \u00e9 agora a segunda mais baixa do subcontinente ap\u00f3s o Burundi (6,2%).<\/p>\n<p>Agora, com o sucateamento das empresas nacionais, lhe resta buscar ser um grande exportador de energia,<\/p>\n<p>O desmoronamento da Eti\u00f3pia \u00e9 um reflexo de sua pol\u00edtica macroecon\u00f4mica, aplicada pelo governo, e de sua subservi\u00eancia econ\u00f4mica ao capital financeiro internacional.<\/p>\n<p><strong>As mobiliza\u00e7\u00f5es v\u00e3o continuar<\/strong><\/p>\n<p>O novo governo de Abiy Ahmed n\u00e3o vai atender nenhuma das reivindica\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas dos et\u00edopes e nenhuma reforma pol\u00edtica de profundidade ser\u00e1 feita. Nem haver\u00e1 resposta para a marginaliza\u00e7\u00e3o dos maiores grupos \u00e9tnicos nacionais, que vivem um processo de exclus\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Por isso, as mobiliza\u00e7\u00f5es devem continuar at\u00e9 derrubar o governo da EPRDF e estabelecer um governo que chame uma Assembleia Constituinte que incorpore todas as etnias, dando-lhes compensa\u00e7\u00f5es e possibilitando ao povo et\u00edope e aos trabalhadores que se organizem em seus partidos para poderem governar e estabelecer as profundas mudan\u00e7as sociais que necessitam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Eti\u00f3pia \u00e9 hoje um dos principais parceiros estrat\u00e9gicos dos Estados Unidos na \u00c1frica. Os Estados Unidos \u00e9 o maior investidor na Eti\u00f3pia: entre 2008 e 2009 quase 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares ao ano, e na d\u00e9cada de 2010 cerca de 500 milh\u00f5es ao ano. 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