{"id":23583,"date":"2018-07-11T13:02:50","date_gmt":"2018-07-11T15:02:50","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23583"},"modified":"2018-07-11T13:02:50","modified_gmt":"2018-07-11T15:02:50","slug":"sobre-a-vitoria-eleitoral-de-lopez-obrador-e-a-onda-conservadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/07\/11\/sobre-a-vitoria-eleitoral-de-lopez-obrador-e-a-onda-conservadora\/","title":{"rendered":"Sobre a vit\u00f3ria eleitoral de L\u00f3pez Obrador e a \u201conda conservadora\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador (AMLO) venceu por ampla margem as elei\u00e7\u00f5es presidenciais mexicanas contra os dois partidos burgueses tradicionais do pa\u00eds o Partido Revolucion\u00e1rio Institucional (PRI) e o Partido de A\u00e7\u00e3o Nacional (PAN). Esse resultado eleitoral \u00e9 uma express\u00e3o distorcida da profunda crise que o regime pol\u00edtico mexicano atravessa e do ascenso da luta de massas que vem enfrentando esse mesmo regime.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p>Fora do M\u00e9xico, na Am\u00e9rica Latina, esse triunfo de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador (AMLO) foi amplamente celebrado por v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es burguesas &#8220;populistas&#8221;, especialmente aquelas que recentemente foram deslocadas do governo, como o PT brasileiro ou o kirchenrismo argentino. De sua pris\u00e3o em Curitiba, o ex-presidente Lula twittou: <em>&#8220;No futebol, o Brasil. Na democracia, o M\u00e9xico nos deu uma li\u00e7\u00e3o ao elleger o companheiro @lopezobrador. Boa sorte ao novo presidente mexicano &#8230;&#8221; <\/em>[1].<\/p>\n<p>Da Argentina, a ex-presidente Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner disse antes da elei\u00e7\u00e3o: <em>&#8220;Neste domingo, elei\u00e7\u00f5es presidenciais no M\u00e9xico. Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador \u00e9 uma esperan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 para o M\u00e9xico, mas para toda a regi\u00e3o &#8220;[2].<\/em><\/p>\n<p>Esse profundo apoio \u00e0 AMLO e a alegria por sua vit\u00f3ria baseiam-se no racioc\u00ednio de que esse resultado eleitoral poderia ser um ponto de virada na &#8220;onda conservadora&#8221; que essas correntes caracterizam que existe na Am\u00e9rica Latina (e em geral em todo o mundo). Celso Amorim, ex-chanceler durante os governos de Lula, expressa isso nitidamente: &#8220;<em>A chegada de L\u00f3pez Obrador \u00e9 muito importante porque a Am\u00e9rica Latina estava precisando de um novo equil\u00edbrio de for\u00e7as. Esta vit\u00f3ria progressista demonstrar\u00e1 ao povo as diferen\u00e7as de um modelo de desenvolvimento com inclus\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o com o cen\u00e1rio terra arrasada causado pela globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal&#8221;. [3]<\/em><\/p>\n<p>A an\u00e1lise de Amorim combina dois pontos. O primeiro: a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 medida pelos resultados eleitorais e pelos governos resultantes. A segunda \u00e9 que a alternativa pol\u00edtica atual se d\u00e1 entre dois tipos de governo [burgueses]: aqueles que <em>&#8220;se desenvolvem com inclus\u00e3o social&#8221; e a &#8220;terra arrasada&#8221; dos &#8220;neoliberais&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><strong>A \u201conda conservadora e a \u201crela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Quanto ao primeiro ponto (a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as medida apenas pelos resultados eleitorais e a conclus\u00e3o de que existe uma &#8220;onda conservadora&#8221;), vimos debatendo, h\u00e1 v\u00e1rios anos, em numerosos artigos publicados neste site [4].Nossa cr\u00edtica inclui dois aspectos: o primeiro \u00e9 que \u00e9 totalmente errado medir a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre classes sociais apenas (ou essencialmente) pelos resultados eleitorais.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es dentro de um regime democr\u00e1tico-burgu\u00eas s\u00e3o um fato que ocorre no que os marxistas chamam de &#8220;superestrutura&#8221; e, portanto, s\u00e3o apenas um reflexo distorcido da luta de classes que ocorre na &#8220;estrutura&#8221; da sociedade. Uma distor\u00e7\u00e3o que \u00e9 acentuada pelo mecanismo perverso de polariza\u00e7\u00e3o entre op\u00e7\u00f5es burgueses que impulsionam estes mecanismos eleitorais, e que levam em muitos casos, ao &#8220;voto \u00fatil&#8221; (o &#8220;mal menor&#8221;) ou sua variante, o &#8220;voto castigo&#8221; (quando n\u00e3o se vota de fato para um candidato, mas contra o outro).Para os marxistas, ao contr\u00e1rio, uma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as nacional ou continental \u00e9 medida pelos processos da luta de classes entre os ataques permanentes da burguesia e a resposta do proletariado e as massas, e o resultado desses embates.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o mais geral de uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica analisa como esse resultado influencia e se combina com outros fatores centrais, como a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a do regime pol\u00edtico. \u00c9 neste contexto que devemos analisar os resultados eleitorais como um reflexo distorcido dessa situa\u00e7\u00e3o e que ser\u00e1 combinada com ela. Mas isso nunca pode ser considerado como o centro dessa realidade profunda.Neste contexto, esta abordagem superestrutural e eleitoralista analisa de forma equivocada os processos profundos e complexos que ocorrem na consci\u00eancia das massas e que se expressam de maneira muito distorcida neste tipo de elei\u00e7\u00f5es. \u00c9, de fato, uma &#8220;justificativa de an\u00e1lise&#8221; que culpa as massas pelas derrotas eleitorais dessas correntes burguesas: n\u00e3o souberam distinguir o &#8220;bom&#8221; (os &#8220;governos progressistas&#8221;) dos &#8220;maus&#8221; (os neoliberais).<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a grande maioria da esquerda latino-americana e mundial &#8220;comprou&#8221; essa abordagem (e sua conclus\u00e3o da &#8220;onda conservadora&#8221;). A partir da\u00ed, capitulou aos governos &#8220;progressistas&#8221; em sua decad\u00eancia, ou aliou-se a essas organiza\u00e7\u00f5es agora na oposi\u00e7\u00e3o, com a desculpa de &#8220;defender a democracia&#8221;, &#8220;parar a direita&#8221; ou &#8220;combater o neo-fascismo&#8221;. A verdadeira luta de classes tornou-se secund\u00e1ria e seu eixo \u00e9 derrotar a &#8220;direita nas elei\u00e7\u00f5es&#8221; (inclusive com a perspectiva de se aliar aos partidos burgueses &#8220;progressistas&#8221; nas elei\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p><strong>Que aconteceu na realidade?<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m deste debate te\u00f3rico e metodol\u00f3gico, esta tese da &#8220;onda conservadora&#8221; colidiu com a pr\u00f3pria realidade. Para essa vis\u00e3o, as vit\u00f3rias eleitorais de Mauricio Macri na Argentina e de Donald Trump nos Estados Unidos expressaram a &#8220;onda conservadora&#8221; e a aprofundavam. De nossa parte, no referido artigo j\u00e1 citado, afirmamos: <em>&#8220;mas isso \u00e9 apenas a apar\u00eancia e n\u00e3o o conte\u00fado profundo da realidade [&#8230;]. O principal, para n\u00f3s, \u00e9 que os trabalhadores e as massas n\u00e3o tenham sido derrotados na luta, e estejam com suas for\u00e7as intactas para responder aos ataques &#8220;.<\/em><\/p>\n<p>Uma vit\u00f3ria eleitoral de um setor burgu\u00eas de direita n\u00e3o significa automaticamente uma mudan\u00e7a desfavor\u00e1vel na &#8220;rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as&#8221; no pa\u00eds. Na Argentina, Mauricio Macri venceu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais no final de 2015 e venceu novamente as elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2017. Mas a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds dificilmente pode ser descrita como &#8220;reacion\u00e1ria&#8221;. Desde o in\u00edcio do seu mandato, Macri teve que enfrentar, permanentemente, lutas parciais, mobiliza\u00e7\u00f5es massivas e uma greve geral muito forte em abril de 2017. Junto com isso, h\u00e1 um processo fort\u00edssimo de luta das mulheres contra a viol\u00eancia machista (&#8220;Nem Uma a Menos&#8221;) e pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto.<\/p>\n<p>Mesmo depois de se sentir falsamente fortalecido com a vit\u00f3ria eleitoral de outubro de 2017, ele tentou um ataque ainda mais forte, que teve que enfrentar uma resposta poderosa dos trabalhadores e das massas, expressa nos duros dias de luta em dezembro passado. A lei de reforma previdenci\u00e1ria foi aprovada, mas o governo foi &#8220;ferido&#8221; e perdeu parte de sua base eleitoral e apoio social na classe m\u00e9dia.\u00a0Al\u00e9m disso, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica est\u00e1 a ponto de uma explos\u00e3o e a moeda nacional \u00e9 constantemente desvalorizada em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar, enquanto a fuga de capitais continua.<\/p>\n<p>A burguesia est\u00e1 se dividindo sobre o que fazer nessas condi\u00e7\u00f5es. O governo teve que apelar \u00e0 &#8220;ajuda&#8221; do FMI e, nas condi\u00e7\u00f5es descritas acima, dever\u00e1 aplicar o novo e mais dif\u00edcil ajuste exigido em troca de ajuda. O pa\u00eds \u00e9 um rastro de lutas setoriais. Se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o avan\u00e7a ainda mais (incluindo a queda de Macri e seu governo) \u00e9 devido ao papel nefasto do kirchnerismo e da burocracia sindical, que freiam as lutas e os impedem a unifica\u00e7\u00e3o, buscando sustentar Macri at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2019.<\/p>\n<p>O caso de Trump apresenta caracter\u00edsticas semelhantes, ainda que mais atenuadas. Sua vit\u00f3ria foi mais discut\u00edvel, j\u00e1 que venceu no Col\u00e9gio Eleitoral, mas teve menos votos populares do que Hillary Clinton. \u00c9 verdade, por outro lado, que Trump obteve o voto de setores da classe trabalhadora branca, mas, logo no in\u00edcio de seu governo, enfrentou importantes atos contra ele\u00a0 e mobiliza\u00e7\u00f5es massivas de mulheres. Ent\u00e3o, sua primeira tentativa de medidas contra os imigrantes foi derrotado pela luta popular. Atualmente, as greves de professores est\u00e3o se expandindo Estado por Estado. Ele tamb\u00e9m teve que recuar em seu projeto para liquidar o plano de sa\u00fade montado por Obama (Obamacare). Na situa\u00e7\u00e3o dos EUA, quem retarda o processo de lutas e impede seu progresso s\u00e3o os democratas, o outro partido burgu\u00eas imperialista.<\/p>\n<p>Internacionalmente, o governo Trump causou divis\u00f5es na burguesia imperialista e algumas importantes crises na ordem mundial. Por um lado, por sua oposi\u00e7\u00e3o a certas consequ\u00eancias que o processo de &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica&#8221; tem para alguns setores da burguesia estadunidense. De outro, por sua inten\u00e7\u00e3o de superar a &#8220;s\u00edndrome do Iraque&#8221; e, para isso, buscar uma alian\u00e7a com Putin. Isto faz com que se enfrente n\u00e3o apenas com importantes setores da burguesia imperialista dos EUA, mas tamb\u00e9m com a europeia. O eixo Estados Unidos-Inglaterra-Alemanha enfraqueceu-se. Ao mesmo tempo, entre suas inten\u00e7\u00f5es nos campos pol\u00edtico e econ\u00f4mico e o que pode fazer, est\u00e1 a realidade tanto da luta de classes quanto das divis\u00f5es da burguesia imperialista. Assim, muitas vezes &#8220;vai e vem&#8221;, fica no &#8220;meio do caminho&#8221;, ou \u00e9 for\u00e7ado a recuar. Tomemos o exemplo do confronto com a Cor\u00e9ia do Norte: primeiro amea\u00e7ou atac\u00e1-la, mas depois recuou e optou pelo &#8220;caminho chin\u00eas&#8221; de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Um novo giro do \u201cp\u00eandulo eleitoral\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O segundo argumento de Amorim, de que para acabar com a &#8220;terra arrasada dos neoliberais&#8221;, tem que votar de novo nos governos &#8220;progressistas&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 falso. Governos como os de Lula, dos Kirchner, de Rafael Correa e de Evo Morales foram a resposta dos setores burgueses ao grande ascenso das massas vivido na Am\u00e9rica Latina desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI e que derrubou v\u00e1rios governos &#8220;neoliberais&#8221; (em 2000, no Equador, em 2001, na Argentina, em 2003, na Bol\u00edvia).<\/p>\n<p>Eram governos burgueses at\u00e9 a medula, mas, diante do ascenso que tiveram que enfrentar, &#8220;vestiram-se de vermelho&#8221; e de antiimperialista o seu discurso, adotaram medidas nacionalistas mornas e parciais e deram algumas concess\u00f5es \u00e0s massas. Mas seu objetivo fundamental era deter as revolu\u00e7\u00f5es e salvar o capitalismo e o regime burgu\u00eas. Por isso, nunca ultrapassaram os limites do sistema econ\u00f4mico capitalista ou de seu Estado. Aqui, uma premissa \u00e9 rigorosamente aplicada: quem n\u00e3o rompe com o imperialismo e com o capital financeiro acaba, mais cedo ou mais tarde, sendo seu instrumento.<\/p>\n<p>Por v\u00e1rios anos eles tiveram &#8220;o vento a seu favor&#8221; devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mundial (2002-2011), devido aos altos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas e alimentos exportados gra\u00e7as \u00e0 demanda da China. De 2011-2012, a &#8220;bonan\u00e7a&#8221; chegou ao fim: esses governos tiveram que come\u00e7ar a aplicar planos de ajuste cada vez mais duros e atacar as concess\u00f5es dadas em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00f5es de trabalho, emprego, etc. Come\u00e7aram a aplicar o programa da direita neoliberal e, em muitos casos, a trazer seus representantes ao governo. Come\u00e7ou tamb\u00e9m o desgaste profundo de seu peso sobre os trabalhadores e as massas e abriu-se o caminho para as vit\u00f3rias eleitorais da direita tradicional.<\/p>\n<p>Atualmente, estamos transitando por um novo trecho da estrada: a luta das massas contra esses governos neoliberais e seu desgaste, e a partir da\u00ed, uma nova virada do &#8220;p\u00eandulo eleitoral&#8221; (atrav\u00e9s do &#8220;voto \u00fatil&#8221; e do &#8220;voto castigo&#8221;) para organiza\u00e7\u00f5es burguesas que se dizem&#8221; progressistas&#8221;. Em compara\u00e7\u00e3o com a dura realidade que vivem hoje, para as massas, esses governos &#8220;progressistas&#8221; aparecem claramente como o &#8220;mal menor\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Uma falsa esperan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>O problema \u00e9 que esses novos governos supostamente &#8220;progressistas&#8221; (como o de L\u00f3pez Obrador ou os hipot\u00e9ticos futuros governos de Lula ou Cristina Kirchner) assumem em um momento em que n\u00e3o h\u00e1 margem para concess\u00f5es \u00e0s massas (mesmo que m\u00ednimas), porque as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas nacionais e internacionais n\u00e3o as permitem. Nem para mudan\u00e7as reais em enfraquecidos regimes pol\u00edticos. \u00c9 por isso que eles s\u00f3 podem ser uma vers\u00e3o piorada do fim de sua etapa anterior: ataques \u00e0s massas e busca do fortalecimento desses regimes reacion\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, assim que ganhou as elei\u00e7\u00f5es, AMLO deixou de lado seu &#8220;discurso enganoso&#8221; (embora amb\u00edguo) da campanha eleitoral e passou a agir de acordo. Ele j\u00e1 disse que iria &#8220;estenderia a m\u00e3o&#8221; a Donald Trump, a mesma pessoa que expulsou os mexicanos dos Estados Unidos e quer construir um muro entre os dois pa\u00edses. Tamb\u00e9m disse que o principal era &#8220;acalmar os mercados&#8221; e se reuniu com os l\u00edderes das federa\u00e7\u00f5es patronais para discutir o programa do governo.<\/p>\n<p>Nem sequer est\u00e1 disposto a fazer qualquer mudan\u00e7a no regime pol\u00edtico mexicano reacion\u00e1rio e podre. Ele j\u00e1 rejeitou a forma\u00e7\u00e3o de uma &#8220;procuradoria geral independente&#8221;, que lhe pediam 300 organiza\u00e7\u00f5es civis, como instrumento para julgar os crimes das &#8220;m\u00e1fias burguesas&#8221; associadas ao Estado (como a dos 43 estudantes de Ayotzinapa) e a profunda corrup\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es estatais. [5] Em outras palavras: nada de tocar nessas &#8220;m\u00e1fias&#8221;.<\/p>\n<p>A perspectiva clara \u00e9 de que o governo AMLO ser\u00e1 um governo burgu\u00eas &#8220;normal&#8221; como os neoliberais: ajustador e corrupto. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que Enrique Pe\u00f1a Nieto, o odiado presidente cessante e representante dessas m\u00e1fias, tenha dito que a vit\u00f3ria de L\u00f3pez Obrador lhe d\u00e1 &#8220;seguran\u00e7a&#8221;. Isso \u00e9 t\u00e3o evidente que at\u00e9 mesmo muitas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda (dentro e fora do M\u00e9xico) que defendem a tese da &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221; e a necessidade de aproximar-se dos &#8220;progressistas&#8221; para det\u00ea-la, se distanciam de L\u00f3pez Obrador.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso do Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (EZLN). Em carta recente, o subcomandante Galeano diz: <em>&#8220;N\u00e3o nos juntamos \u00e0 campanha \u2018para o bem de todos\u2019. Poder\u00e3o mudar o capataz, os mordomos e ajudantes, mas o finquero [fazendeiro, NdR] permanece o mesmo &#8220;<\/em>[6]. A frase \u00e9 excelente. Aplica-se no M\u00e9xico e em todo o continente latino-americano, porque o mesmo significaria um novo governo de Lula no Brasil ou Cristina na Argentina: apenas uma mudan\u00e7a de capataz ou administrador para os mesmos &#8220;finqueros&#8221;.<\/p>\n<p>Apostar nesses governos para derrotar a &#8220;onda conservadora&#8221; \u00e9 uma ilus\u00e3o e, ao mesmo tempo, uma armadilha da burguesia e do imperialismo para desviar a luta das massas contra os governos &#8220;neoliberais&#8221; at\u00e9 o impasse das elei\u00e7\u00f5es burguesas. Os &#8220;cantos de sereia&#8221; dos partidos burgueses &#8220;progressistas&#8221; s\u00e3o a ferramenta dessa armadilha: n\u00e3o lutem contra os governos neoliberais porque basta votar por n\u00f3s e, se vencermos, n\u00e3o lutem contra nossos governos.<\/p>\n<p>Sabemos que a vit\u00f3ria de AMLO despertou ilus\u00f5es e expectativas em milh\u00f5es de pessoas que votaram nele e, portanto, \u00e9 necess\u00e1rio dialogar com esse momento da consci\u00eancia por meio de t\u00e1ticas apropriadas. Mas os revolucion\u00e1rios n\u00e3o podem se render a essas ilus\u00f5es porque levam a novas frustra\u00e7\u00f5es. A luta de fundo \u00e9 para que os trabalhadores e as massas n\u00e3o caiam novamente nessa armadilha.<\/p>\n<p>Como um jovem militante da Corrente Socialista dos Trabalhadores (uma das organiza\u00e7\u00f5es simpatizantes da LIT no M\u00e9xico) disse: <em>&#8220;n\u00e3o confiamos nem votamos em nenhum dos candidatos. Mas confiamos plenamente na for\u00e7a da mobiliza\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de trabalhadores, camponeses pobres, povos origin\u00e1rios e outros setores massivos explorados e oprimidos. Uma vez que AMLO venceu, acompanharemos a experi\u00eancia do povo do M\u00e9xico com seu governo, embora experi\u00eancias recentes como as da Am\u00e9rica do Sul, da Gr\u00e9cia, do Estado espanhol, entre outras, nos digam que a esperan\u00e7a se transformar\u00e1 em decep\u00e7\u00e3o. Nosso compromisso como Corrente Socialista dos Trabalhadores e LIT-QI \u00e9 continuar, como at\u00e9 agora, apoiando incondicionalmente todos as lutas oper\u00e1rias e \u00a0populares por suas justas reivindica\u00e7\u00f5es &#8220;[7].<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 muitas reivindica\u00e7\u00f5es pelas quais os trabalhadores e o povo mexicano precisam lutar: <em>&#8220;Neste caminho de luta, por estas e outras necessidades, colocaremos todo o nosso esfor\u00e7o para <strong>construir desde baixo uma verdadeira alternativa pol\u00edtica independente e revolucion\u00e1ria dos trabalhadores e para os trabalhadores<\/strong>, que lidere a todos os explorados e oprimidos. De modo que a &#8220;esperan\u00e7a&#8221; de uma mudan\u00e7a n\u00e3o seja apenas uma frase vazia ou um estado de \u00e2nimo. Para que a mudan\u00e7a de fundo se concretize na vida real de milh\u00f5es com um <strong>governo dos trabalhadores da cidade e do campo<\/strong> &#8220;[8].<\/em><\/p>\n<p>[1]<a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/internacional\/2018\/07\/03\/interna_internacional,971089\/da-prisao-lula-deseja-boa-sorte-a-lopez-obrador.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/internacional\/2018\/07\/03\/interna_internacional,971089\/da-prisao-lula-deseja-boa-sorte-a-lopez-obrador.shtml<\/a> (tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/p>\n<p>[2] <a href=\"https:\/\/www.informador.mx\/mexico\/AMLO-es-una-esperanza-para-Mexico-Cristina-Fernandez-de-Kirchner-20180629-0114.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.informador.mx\/mexico\/AMLO-es-una-esperanza-para-Mexico-Cristina-Fernandez-de-Kirchner-20180629-0114.html<\/a><\/p>\n<p>[3] <a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/app\/noticia\/312833-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.vermelho.org.br\/app\/noticia\/312833-1<\/a> (tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/p>\n<p>[4] Ver, por exemplo, <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/argentina\/hay-una-derechizacion-politica-en-latinoamerica\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/argentina\/hay-una-derechizacion-politica-en-latinoamerica\/<\/a><\/p>\n<p>[5]<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2018\/07\/07\/mexico\/1530988969_718248.html?id_externo_rsoc=FB_CM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/internacional\/2018\/07\/07\/mexico\/1530988969_718248.html?id_externo_rsoc=FB_CM<\/a><\/p>\n<p>[6] <a href=\"https:\/\/www.proceso.com.mx\/541872\/el-ezln-pone-distancia-con-amlo-podra-cambiar-el-capataz-pero-el-finquero-sigue-siendo-el-mismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.proceso.com.mx\/541872\/el-ezln-pone-distancia-con-amlo-podra-cambiar-el-capataz-pero-el-finquero-sigue-siendo-el-mismo<\/a><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>[7] <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/mexico\/elecciones-mexico-la-esperanza-vendra-la-organizacion-clase-trabajadora\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/mexico\/elecciones-mexico-la-esperanza-vendra-la-organizacion-clase-trabajadora\/<\/a><\/p>\n<p>[8] <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/mexico\/mexico-reconciliacion-quien\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/mexico\/mexico-reconciliacion-quien\/<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador (AMLO) venceu por ampla margem as elei\u00e7\u00f5es presidenciais mexicanas contra os dois partidos burgueses tradicionais do pa\u00eds o Partido Revolucion\u00e1rio Institucional (PRI) e o Partido de A\u00e7\u00e3o Nacional (PAN). 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