{"id":23554,"date":"2018-07-10T10:17:44","date_gmt":"2018-07-10T12:17:44","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23554"},"modified":"2018-07-10T10:17:44","modified_gmt":"2018-07-10T12:17:44","slug":"daniel-ortega-uma-historia-de-traicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/07\/10\/daniel-ortega-uma-historia-de-traicao\/","title":{"rendered":"Daniel Ortega: uma hist\u00f3ria de trai\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Um traidor \u00e9 e sempre ser\u00e1 um traidor. Mas h\u00e1 traidores de pior categoria. Jos\u00e9 Daniel Ortega Saavedra pertence, com m\u00e9ritos, a essa esp\u00e9cie.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Eric Nepomuceno<\/p>\n<p>O dia 24 de janeiro de 1980 foi uma quinta-feira. Nesse dia, viajei pela primeira vez \u00e0 Nicar\u00e1gua sandinista. A revolu\u00e7\u00e3o que derrubou Anastasio Somoza estava no poder a exatos seis meses e cinco dias.<\/p>\n<p>Tive contato com o \u00fanico civil que formava parte da Junta de Governo naquele ent\u00e3o, o escritor Sergio Ram\u00edrez, uma amizade que permaneceu intacta e pr\u00f3xima ao longo de todos estes anos.<\/p>\n<p>Os outros quatro membros vinham da guerrilha que liquidou a dinastia que, durante d\u00e9cadas, saqueou e sufocou aquele belo e ensanguentado pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nos nove anos seguintes, meus la\u00e7os com a Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista se fortaleceram em cada uma das muitas visitas. Eram meus anos jovens, e n\u00f3s, estrangeiros que defend\u00edamos e apoi\u00e1vamos a Revolu\u00e7\u00e3o, tivemos bastante contato com v\u00e1rios dos integrantes do governo. Alguns mais expansivos, outros menos.<\/p>\n<p>Daniel Ortega parecia um homem fechado, de olhar desconfiado, que me comoveu uma \u00fanica vez, em 1986, quando me falou de seu irm\u00e3o Camilo, morto em combate com as for\u00e7as do ditador Somoza, e contou que entre os 15 aos 34 anos ele jamais teve casa: viveu na clandestinidade. Ao ouvi-lo contar que havia vivido clandestino durante mais da metade da sua vida at\u00e9 o triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o, pela primeira e \u00fanica vez senti algo de humano naquela figura de pedra.<\/p>\n<p>Nosso \u00faltimo encontro foi no Rio de Janeiro, em 1990, numa reuni\u00e3o com artistas e intelectuais, meses depois de sua derrota eleitoral para Violeta Chamorro.<\/p>\n<p>Em meados do ano seguinte, me falaram pela primeira vez sobre a \u201cpi\u00f1ata sandinista\u201d, um saque generalizado, com a ferocidade de abutres. A imagem da\u00a0<em>pi\u00f1ata<\/em>\u00a0\u2013 um jogo infantil comum no M\u00e9xico e na Am\u00e9rica Central, que consiste em vendar os olhos da crian\u00e7a e lhe dar um bast\u00e3o para que golpeie um boneco de papel ou cartolina, pendurado numa corda, at\u00e9 destru\u00ed-lo, liberando como recompensa uma cascata de balas e chocolates escondida em seu interior \u2013 ficou gravada na minha mem\u00f3ria, como um insulto \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o, aos que morreram por ela, aos que acreditaram nela.<\/p>\n<p>Tardei muito tempo em aceitar como verdade o que verdade era.<\/p>\n<p>Anos depois, soube mais: que, na verdade, a\u00a0<em>pi\u00f1ata<\/em>\u00a0havia ocorrido ainda antes, quando a Revolu\u00e7\u00e3o ainda existia e os nicaraguenses mantinham aquele fogo de esperan\u00e7a, enquanto seu pa\u00eds era sufocado por Ronald Reagan por fora, e pelos traidores da Revolu\u00e7\u00e3o por dentro.<\/p>\n<p>Soube que, por exemplo, o m\u00edtico Tom\u00e1s Borge, \u00faltimo sobrevivente do quinteto que fundou a Frente Sandinista, em 1961, e em cuja casa me hospedei v\u00e1rias vezes \u2013 ele gostava de ser amigo de escritores, tanto que a mesma casa recebeu Eduardo Galeano, Jorge Enrique Adoum, Eduardo Heras Le\u00f3n, Julio Cort\u00e1zar e Mario Benedetti \u2013 havia sido beneficiado pela\u00a0<em>pi\u00f1ata<\/em>antes mesmo da derrota eleitoral de 1990.<\/p>\n<p>Recordo as muitas vezes em que o comandante nos levou \u2013 eu, Galeano, Adoum e Benedetti \u2013 ao que chamava de \u201cminha churrascaria\u201d, como quando digo eu quando recebo amigos no Rio e os levo ao \u201cmeu restaurante\u201d. A diferen\u00e7a \u00e9 que aquela churrascaria efetivamente pertencia a Tom\u00e1s Borge, e eu, dos \u201cmeus restaurantes\u201d, s\u00f3 tinha a presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m descobri que, ao confiscar propriedades de milion\u00e1rios somozistas e distribui-las a \u00f3rg\u00e3os do Estado, Daniel Ortega reservou para si uma importante quantidade de im\u00f3veis em Man\u00e1gua. Muitas das \u201ccasas de protocolo\u201d, reservadas a visitantes estrangeiros, localizadas no luxuoso bairro de Las Colinas, no sul da cidade, eram na verdade propriedades de Daniel Ortega. Ent\u00e3o, pensei se n\u00f3s, escritores que apoi\u00e1vamos a Revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o hav\u00edamos sido h\u00f3spedes dele e n\u00e3o do governo.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista foi a \u00faltima da minha gera\u00e7\u00e3o, e talvez a \u00faltima da hist\u00f3ria seguindo esse modelo. Em muitos momentos, senti, sent\u00edamos, que os sandinistas conduziam os nicaraguenses a algo muito pr\u00f3ximo de realizar sonhos imposs\u00edveis, de tocar o c\u00e9u com as m\u00e3os. Guardarei para sempre, no melhor lugar da minha mem\u00f3ria, alguns momentos vividos naqueles anos de esperan\u00e7a, que pareciam ser de uma luminosidade absoluta.<\/p>\n<p>Finalmente, a Revolu\u00e7\u00e3o que poderia ter sido (e que em v\u00e1rios momentos foi) viva e formosa, acabou sendo tra\u00edda de forma vil, imperdo\u00e1vel.\u00a0Aquela esperan\u00e7a que derrotou a dinastia dos Somoza foi sucedida por outra dinastia, igualmente perversa, abusadora: a dinastia de Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo.<\/p>\n<p>Recentemente, faleceu o cardeal Miguel Obando y Bravo, que foi bispo de Man\u00e1gua e um inimigo feroz daquele processo, em clar\u00edssima alian\u00e7a com os somozistas derrotados e com os latifundi\u00e1rios e o empresariado que se opunha aos sandinistas \u2013 e que se revelou mais que um cr\u00edtico impec\u00e1vel, um costumaz manipulados da verdade.<\/p>\n<p>A certa altura da guerra aberta entre os grupos chamados \u201ccontra\u201d, patrocinados por Washington, e o governo dos sandinistas, Miguel Obando y Bravo chegou a ser nomeado integrante do \u201cgoverno no exilio\u201d, anunciado pelos que arremetiam contra Daniel Ortega e seus companheiros. Do alto do seu p\u00falpito, foi o mais eficaz porta-voz da contrarrevolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas depois de tanto tempo, Obando se transformou em um muito fiel aliado do mesmo Ortega, esse que se instalou no governo apoiado pela direita mais feroz e pelo empresariado mais mesquinho. E que, desde 2006, se elege e reelege em elei\u00e7\u00f5es claramente manipuladas.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o Daniel que encabe\u00e7a hoje uma nova dinastia, a dinastia de um casal que mata e trucida jovens estudantes como era o seu irm\u00e3o Camilo quando foi assassinado pela dinastia anterior, a dos Somoza.<\/p>\n<p>Desde abril, jovens nicaraguenses, todos ou quase todos nascidos depois do final daquela Revolu\u00e7\u00e3o que deixou de ser, s\u00e3o mortos por um governo isolado e que carece de qualquer vest\u00edgio de legitimidade.<\/p>\n<p>Um traidor \u00e9 e sempre ser\u00e1 um traidor.\u00a0Mas h\u00e1 traidores de pior categoria.\u00a0Jos\u00e9 Daniel Ortega Saavedra pertence, com m\u00e9ritos, a essa esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Artigo publicado em: <a href=\"https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/Daniel-Ortega-uma-historia-de-traicao\/4\/40589\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/Daniel-Ortega-uma-historia-de-traicao\/4\/40589<\/a> no dia 13\/06\/2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um traidor \u00e9 e sempre ser\u00e1 um traidor. 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