{"id":23516,"date":"2018-07-05T20:01:45","date_gmt":"2018-07-05T22:01:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23516"},"modified":"2018-07-05T20:01:45","modified_gmt":"2018-07-05T22:01:45","slug":"copa-do-mundo-na-russia-um-mega-campeonato-de-opressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/07\/05\/copa-do-mundo-na-russia-um-mega-campeonato-de-opressao\/","title":{"rendered":"Copa do Mundo na R\u00fassia: um mega campeonato de opress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong><em>Antes mesmo de a copa ter come\u00e7ado, o debate sobre o risco \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT na R\u00fassia, durante o mundial, j\u00e1 tinha iniciado no movimento e na imprensa. Pouco antes da abertura, um manifestante ingl\u00eas foi detido por segurar um cartaz de solidariedade \u00e0s LGBTs da Chech\u00eania, onde se tem campos de concentra\u00e7\u00e3o para LGBTs. No in\u00edcio dos jogos, um casal gay franc\u00eas foi violentamente espancando, provavelmente por um grupo extremista de direita, e quase foram assassinados.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Por: <\/em>Andr\u00e9 Deusvelho \u2013 PSTU Brasil<\/p>\n<p>A FIFA, que se utiliza do poder de estado de exce\u00e7\u00e3o durante a Copa, que no Brasil junto ao governo Dilma (PT) estabeleceu desde a libera\u00e7\u00e3o de bebidas alc\u00f3olicas nos est\u00e1dios (que \u00e9 proibida no pa\u00eds) \u00e0 lei antiterrorismo que pro\u00edbe manifesta\u00e7\u00f5es e imp\u00f5e uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es aos lutadores. Hoje na R\u00fassia de Putin, esta grande empresa nada tem a dizer. As leis anti LGBTs na R\u00fassia, principalmente a partir da lei antipropaganda LGBT em 2013, n\u00e3o podem ser mexidas pela FIFA? N\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, refor\u00e7am, e orientam que as LGBTs fiquem dentro do arm\u00e1rio. Orientam que as bissexuais e homossexuais n\u00e3o andem de m\u00e3os dadas, n\u00e3o demonstrem afeto, e imaginamos que as trans devam se travestir ao contr\u00e1rio\u2026!? O governo brasileiro, atrav\u00e9s dos Minist\u00e9rios do Esporte (MDB) e de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (PSDB), age da mesma forma e orienta que as LGBTs brasileiras que est\u00e3o na R\u00fassia, sejam \u201cdiscretas\u201d, n\u00e3o demonstrem carinho em p\u00fablico, busquem locais bem caros e fechados, onde a\u00ed sim possam expressar sua sexualidade \u201c\u00e0 vontade\u201d. Exemplo da impunidade que a R\u00fassia parece confortar, os engomadinhos de todos os cantos est\u00e3o aproveitando a Copa do Mundo para assediar a popula\u00e7\u00e3o russa com machismo, racismo e LGBTfobia.<\/p>\n<p>\u00c9 um absurdo a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s LGBTs na R\u00fassia, com a nega\u00e7\u00e3o do direito b\u00e1sico \u00e0 vida, \u00e0 exist\u00eancia. Os trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo n\u00e3o podem se calar diante desta barbaridade. A realidade \u00e9 que as LGBTs trabalhadoras russas vivem essa realidade o ano todo, e s\u00f3 neste momento o mundo inteiro est\u00e1 vendo o que \u00e9 ser uma LGBT nas ruas e casas russas.<\/p>\n<p>A classe trabalhadora deve conhecer sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, e esse pa\u00eds poderoso e contradit\u00f3rio que \u00e9 a R\u00fassia \u00e9 na verdade o ber\u00e7o da mais emocionante revolu\u00e7\u00e3o que aconteceu no mundo. Nada tem a ver com o socialismo a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s LGBTs da hist\u00f3ria russa. Queremos debater uma breve vis\u00e3o geral desta hist\u00f3ria, que \u00e9 grandiosa, e guarda detalhes e debates bem mais profundos, que n\u00e3o conseguiremos tratar aqui.<\/p>\n<p><strong>R\u00fassia: onde tudo come\u00e7ou<\/strong><\/p>\n<p>A R\u00fassia, parte da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS) fez a primeira revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria no mundo em outubro de 1917. Sob a dire\u00e7\u00e3o bolchevique, a humanidade conheceu o que ainda hoje \u00e9 considerada a legisla\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada do mundo em rela\u00e7\u00e3o aos direitos das LGBTs. Nem o mais avan\u00e7ado pa\u00eds capitalista teve tal avan\u00e7o em nenhum momento da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><em>Ainda em 1917, a homossexualidade foi descriminalizada e foi estabelecido o casamento civil no lugar do religioso, al\u00e9m de permitir o casamento homoafetivo. O C\u00f3digo das Leis sobre Casamento, Fam\u00edlia e Tutela, promulgado no final de 1918, confirmou e ampliou estas medidas. O direito ao div\u00f3rcio com um simples pedido de qualquer das partes, fundamental para LGBTs em casamentos de \u201cfachada\u201d e\/ou por depend\u00eancia financeira, o que tamb\u00e9m foi garantido pela desassocia\u00e7\u00e3o do casamento com a propriedade privada. <\/em><\/p>\n<p><em>A plena igualdade jur\u00eddica e de direitos pol\u00edticos dos homens e das mulheres, independente de orienta\u00e7\u00e3o sexual ou identidade de g\u00eanero, ra\u00e7a ou cultura, derrubando junto o resto do c\u00f3digo criminal czarista. Em 1919, foi garantido o direito ao aborto livre, volunt\u00e1rio e gratuito; que garantiu o direito ao pr\u00f3prio corpo das mulheres l\u00e9sbicas e bissexuais e homens trans que engravidassem, seja por relacionamento consensual ou em decorr\u00eancia de estupros corretivos.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>\u201cA atual legisla\u00e7\u00e3o sexual da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e9 obra da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Esta Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 importante n\u00e3o somente como fen\u00f4meno pol\u00edtico que garante o governo pol\u00edtico da classe oper\u00e1ria, mas tamb\u00e9m porque as revolu\u00e7\u00f5es que emanam desta classe chegam a todos os setores da vida (&#8230;)<\/em><\/p>\n<p><em>Declara a absoluta n\u00e3o interfer\u00eancia do Estado e da Sociedade nos assuntos sexuais, sempre que n\u00e3o lesem a pessoa alguma e n\u00e3o prejudiquem os interesses de ningu\u00e9m (&#8230;) A respeito da homossexualidade, sodomia e outras v\u00e1rias formas de gratifica\u00e7\u00e3o sexual, que na legisla\u00e7\u00e3o europeia s\u00e3o qualificadas de ofensas \u00e0 moral p\u00fablica, a legisla\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica as considera exatamente igual a qualquer outra forma da chamada rela\u00e7\u00e3o &#8220;natural&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Qualquer forma de relacionamento sexual \u00e9 um assunto privado. Somente quando se emprega a for\u00e7a ou coa\u00e7\u00e3o, e geralmente quando se ferem ou se lesam os direitos de outras pessoas, existe motivo de persegui\u00e7\u00e3o criminal&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Grigori Batkis, no panfleto: A Revolu\u00e7\u00e3o Sexual na R\u00fassia (1923)<\/em><\/p>\n<p><em>Na d\u00e9cada de 1920, foram liberadas cirurgias de redesigna\u00e7\u00e3o sexual para pessoas trans. O \u201cdiplomata\u201d da revolu\u00e7\u00e3o de outubro, Grigori Chicherin, Comiss\u00e1rio para Assuntos P\u00fablicos, era assumidamente gay. Diversas LGBTs foram parte da hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio, l\u00e9sbicas, homens trans e outras LGBTs eram incentivadas a ser parte do Ex\u00e9rcito Vermelho, comandado por Trotsky, garantindo pela primeira vez na hist\u00f3ria o direito ao nome social.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cMulheres que usavam roupas masculinas que serviram no Ex\u00e9rcito Vermelho, geralmente assumindo um papel masculino, receberam postos de autoridade (&#8230;) nos anos 1920, Lev Rozenstein, convidou \u2018l\u00e9sbicas que atuavam nas mil\u00edcias e como Combatentes Vermelhas\u2019 a relatar a ele suas hist\u00f3rias de vida\u2019 e reivindicou que \u2018mulheres [na R\u00fassia Sovi\u00e9tica] deveriam, legalmente, assumir nomes masculinos e viver como homens. Rozenstein acreditava que era seu papel como psic\u00f3logo ajudar seus pacientes a aceitarem seu desejo pelo mesmo sexo\u201d, uma postura oposta a da Associa\u00e7\u00e3o de Psiquiatria norte-americana que manteve a homossexualidade na sua lista de doen\u00e7as mentais at\u00e9 1973.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Sherry Wolf \u201cSexuality e socialism: history, politics and theoru of LGBT liberation\u201d (p. 96-97)<\/em><\/p>\n<p><em>V\u00e1rias destas primeiras medidas nem mesmo eram socialistas, eram medidas democr\u00e1tico-burguesas, mas j\u00e1 demonstravam a profunda convic\u00e7\u00e3o dos bolcheviques de que a burguesia em decad\u00eancia era incapaz de realizar as tarefas democr\u00e1ticas que sob o lema \u201cigualdade e fraternidade\u201d serviram de sustenta\u00e7\u00e3o para as revolu\u00e7\u00f5es burguesas contra a nobreza, e que a verdadeira e completa liberta\u00e7\u00e3o das LGBTs s\u00f3 era poss\u00edvel sob o socialismo. <\/em><\/p>\n<p><em>As medidas realmente socialistas, que pavimentaram a legisla\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, foi a entrega da riqueza produzida na m\u00e3o e sob o dom\u00ednio pol\u00edtico da classe que a produz, a classe trabalhadora. Com isso o direito de sobreviv\u00eancia familiar e de liberta\u00e7\u00e3o da mulher e das LGBTs da escravid\u00e3o dom\u00e9stica, com as creches, lavanderias e restaurantes p\u00fablicos etc., al\u00e9m do direito de trabalhar em qualquer fun\u00e7\u00e3o, foi a mais avan\u00e7ada conquista que a classe trabalhadora e as LGBTs trabalhadoras e pobres conquistaram na Hist\u00f3ria. Hoje, no entanto, a Federa\u00e7\u00e3o Russa apresenta uma das legisla\u00e7\u00f5es mais conservadoras do mundo para as LGBTs, para as mulheres, estrangeiros e para o conjunto da classe.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>A contrarrevolu\u00e7\u00e3o estalinista a partir da d\u00e9cada de 30<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Com a morte de Lenin, a mis\u00e9ria e viol\u00eancia da 2\u00aa Guerra Mundial, o isolamento econ\u00f4mico e ataques do Imperialismo \u00e0 economia e ao povo sovi\u00e9tico, favoreceu a ascens\u00e3o de uma burocracia usurpadora que imp\u00f4s s\u00e9rias derrotas a todas as conquistas do proletariado russo. Para justificar seus privil\u00e9gios, elaboraram a teoria do \u201csocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d, desviando todos os processos revolucion\u00e1rios no restante do mundo para ditaduras estalinistas como em Cuba em 1969 ou diretamente democracias burguesas, como na Nicar\u00e1gua em 1979. <\/em><\/p>\n<p><em>Em fins dos anos 1920, Stalin deslocou os trabalhadores do poder, usurpando a dire\u00e7\u00e3o da URSS e do PCUS (Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica), e foi respons\u00e1vel por retroceder todas aquelas conquistas, perseguindo LGBTs, colocando-as em campos de concentra\u00e7\u00e3o, suprimindo todas as leis anteriores, e criminalizando novamente as LGBTs, impondo uma verdadeira contrarrevolu\u00e7\u00e3o. O C\u00f3digo Penal de 1934 criminalizava o sexo consentido entre homens adultos, com a puni\u00e7\u00e3o de 3 a 4 anos de pris\u00e3o. Estima-se que mais de 50.000 LGBTs foram presas, torturadas ou mortas sob o estalinismo na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. <\/em><\/p>\n<p><em>At\u00e9 meados dos anos 80, a URSS mantinha ainda um regime econ\u00f4mico ainda oper\u00e1rio, conquistado na Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, ou seja: (a) a economia planificada centralizada (em lugar do mercado); (b) o monop\u00f3lio estatal do com\u00e9rcio exterior (que protegia o pa\u00eds de ser absorvido pela economia mundial imperialista); e (c) a propriedade estatal dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Essas medidas, compreendidas em sua totalidade, deram origem no pa\u00eds ao que chamamos de Estado Oper\u00e1rio, que se diferenciava qualitativamente dos Estados Capitalistas (ou Estados Burgueses). Essas medidas permitiram um salto colossal no desenvolvimento do pa\u00eds, apesar da dire\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica stalinista. Levando o pa\u00eds de uma situa\u00e7\u00e3o de grande atraso econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico, para uma das maiores pot\u00eancias mundiais. <\/em><\/p>\n<p><em>No entanto, passou na pr\u00e1tica 60 anos violentando as LGBTs e empurrando-as para um arm\u00e1rio muito bem trancado. Os pr\u00f3prios &#8220;comunistas&#8221; (estalinistas) restauraram por fim o capitalismo, se tornando eles pr\u00f3prios a burguesia russa, e massacraram as LGBTs na R\u00fassia, nos outros povos da URSS e em outros pa\u00edses do mundo, terminando por entregar a riqueza e a organiza\u00e7\u00e3o (o Estado) do povo trabalhador e pobre na m\u00e3o dos ricos e poderosos de volta.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista promovida pelo estalinismo e a sua derrota em sequ\u00eancia<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>No contexto de mais uma crise da economia sovi\u00e9tica nos anos 80, a economia imperialista aos poucos foi sufocando a economia sovi\u00e9tica, levando-a a uma crise da qual s\u00f3 havia duas sa\u00eddas: ou a liquida\u00e7\u00e3o da economia imperialista mundial, ou seja, a continua\u00e7\u00e3o do projeto original de Outubro de realizar a Revolu\u00e7\u00e3o Mundial, ou recuar ante o imperialismo, recorrendo a ele em busca de ajuda. Em troca de sua ren\u00fancia \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Mundial e da \u201ccarta branca\u201d dada ao imperialismo para dirigir o mundo, a burocracia stalinista conquistou o direito de beneficiar-se dos recursos do Estado oper\u00e1rio e assim garantir seus privil\u00e9gios, merecendo ao final o direito de se tornar a nova burguesia russa. <\/em><\/p>\n<p><em>Em 1986 finalmente chegou o momento em que a burocracia decidiu acabar com as medidas oper\u00e1rias. Naquele ano, Gorbachev tomou a dire\u00e7\u00e3o da URSS e, com a palavra de ordem da Perestroika, deu in\u00edcio \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o direta do capitalismo. Sob a clara dire\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias ocidentais, come\u00e7ou ent\u00e3o, clara e consequentemente, o desmonte das bases do Estado oper\u00e1rio. A partir da\u00ed o que havia era: (a) as empresas, apesar de serem ainda estatais, j\u00e1 funcionavam como privadas, com sua produ\u00e7\u00e3o orientada para o lucro (mercado no lugar da planifica\u00e7\u00e3o da economia), escolhendo livremente seus parceiros comerciais; (b) as empresas receberam o direito de negociar livremente com companhias estrangeiras (liquida\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio estatal do com\u00e9rcio exterior); (c) foram permitidas todas as formas de propriedade, inclu\u00eddos os bancos privados; d) deu-se in\u00edcio \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de empresas mistas com capital estrangeiro.<\/em><\/p>\n<p><em>Tudo isso nos d\u00e1 os elementos necess\u00e1rios para afirmar que o capitalismo na ex-URSS foi restaurado ainda no final dos anos 1980, apesar de serem mantidos ainda, como \u201csobreviv\u00eancias\u201d, o papel do Estado na economia e uma s\u00e9rie de conquistas sociais do passado. O fato \u00e9 que o processo de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, desde 1986, levou (e n\u00e3o podia ser de outra forma) a uma violenta piora da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social no pa\u00eds: prateleiras vazias nos mercados, filas, mercado ilegal, desemprego, viol\u00eancia e caos social.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas as massas reagiram \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o. Como em todos os pa\u00edses da Europa Oriental, na URSS o povo come\u00e7ou a protestar e houve uma onda revolucion\u00e1ria de protestos e greves que desestabilizaram o governo restauracionista de Gorbachev e, junto com ele, o conjunto do projeto de restaura\u00e7\u00e3o capitalista. Em 1991, os poderosos se dividiram para responder \u00e0 a\u00e7\u00e3o das massas. Uma parte da elite apostou num projeto de esmagar a resist\u00eancia das massas diretamente pela for\u00e7a. Exatamente este projeto foi personificado pelo Comit\u00ea Estatal de Emerg\u00eancia, do qual faziam parte o Minist\u00e9rio da Defesa, a KGB, o Minist\u00e9rio do Interior (pol\u00edcia) e outros funcion\u00e1rios das For\u00e7as Armadas, os \u201ccomunistas\u201d, portanto. O objetivo do golpe era derrotar a luta das massas, dispers\u00e1-las e, assim, salvar o regime em decomposi\u00e7\u00e3o. Levantaram ent\u00e3o um golpe de direita, disfar\u00e7ado com a bandeira vermelha, mas que foi derrotado pelas massas da URSS, que desmontavam o golpe do segundo aparato militar mais forte do mundo e derrubavam o regime stalinista, que havia dirigido o pa\u00eds por mais de 60 anos e era respons\u00e1vel pela restaura\u00e7\u00e3o capitalista. As massas, portanto, n\u00e3o derrotaram o comunismo, mas sim uma ditadura burguesa, que ainda se utilizava do discurso socialista para impor suas derrotas ao povo trabalhador.<\/em><\/p>\n<p><em>Enquanto o PCUS defendia o golpe, o restante da esquerda vacilou e n\u00e3o apontou as sa\u00eddas para os trabalhadores e trabalhadoras tomarem o poder pol\u00edtico de volta nas m\u00e3os e planificar a economia e as demais tarefas do Estado Oper\u00e1rio. As dire\u00e7\u00f5es ficaram paralisadas e permitiu que Yeltsin encontrasse campo aberto para capitalizar a luta contra o golpe, dirigindo as massas e se tornando presidente at\u00e9 a chegada de Putin no poder ainda durante seu governo. At\u00e9 1998, a R\u00fassia foi palco de muitas mobiliza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora, tornando dif\u00edcil para a burguesia impor todo seu projeto. Em 1993, durante este ascenso, foi descriminalizada a homossexualidade, e em 1999 tirada da lista de doen\u00e7as mentais na R\u00fassia.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>O governo antipovo de Putin<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Somente sufocando as lutas depois de 1998, com a chegada de Putin, ao poder e de um crescimento econ\u00f4mico por muito tempo esperado, a elite russa p\u00f4de conquistar a tranquilidade necess\u00e1ria, limitar as liberdades democr\u00e1ticas e \u201creabilitar\u201d o aparato repressivo da pol\u00edcia e da FSB (antiga KGB), apesar de que num n\u00edvel incomparavelmente mais baixo do que durante a ditadura do PCUS.<\/em><\/p>\n<p><em>Em 2013, enfrentando resist\u00eancia de LGBTs na frente do parlamento, o governo Putin aprovou a lei que pro\u00edbe a \u201cpropaganda homossexual\u201d, al\u00e9m do \u201clesbianismo e da pedofilia\u201d, que ficou conhecida como lei antipropaganda LGBT. A lei foi inicialmente aprovada em algumas cidades da R\u00fassia, incluindo S\u00e3o Petersburgo, a segunda maior do pa\u00eds, onde h\u00e1 muitos guetos e grupos LGBTs. Com isso, n\u00e3o \u00e9 permitido se expressar em p\u00fablico, lutar por direitos, fazer marchas de orgulho LGBT, discutir a quest\u00e3o nas escolas ou qualquer \u201cpropaganda\u201d sobre o tema. O casamento LGBT fica proibido, e h\u00e1 puni\u00e7\u00e3o com multas e pris\u00e3o. Negaram ainda em 2012, o direito de fazer marchas do orgulho LGBT pelos pr\u00f3ximos 100 anos. O conservador e corrupto parlamento Russo aprovou ainda, no ano passado (2017) , a \u201clei da bofetada\u201d, que descriminaliza a viol\u00eancia dom\u00e9stica. A lei legaliza agress\u00f5es com dor f\u00edsica, desde que n\u00e3o causem \u201cles\u00f5es corporais graves\u201d, e quando n\u00e3o ocorram mais do que uma vez por ano. A viol\u00eancia \u00e0 mulher passa de uma ofensa criminal a uma ofensa administrativa apenas.<\/em><\/p>\n<p><em>A primeira Parada LGBT em Moscou aconteceu em 2005, sem permiss\u00e3o das autoridades. Desde ent\u00e3o o governo nunca aprovou uma marcha LGBT, mas todos os anos o movimento resiste e organiza suas lutas como pode e enfrenta a forte repress\u00e3o policial que encontram sempre. Antes da lei, em 2011, j\u00e1 foram presos mais de 40 ativistas na Parada de Moscou, e em 2013, mais de 30. No primeiro ano ap\u00f3s a lei anti LGBT, foram noticiadas pelo menos 5 mortes de homossexuais em Moscou, que foram brutalmente assassinados ap\u00f3s utilizar um aplicativo de encontros. <\/em><\/p>\n<p><em>Em uma cidade do sul, um jovem assumidamente gay teve o p\u00eanis cortado, garrafas colocadas no \u00e2nus e a cabe\u00e7a teria sido esmagada com uma pedra de 20 kg por dois \u201camigos\u201d ap\u00f3s a v\u00edtima ter revelado sua sexualidade. Apesar de ter sido anunciado como um crime de \u00f3dio, sua fam\u00edlia parece ter logo se preocupado em dizer que o jovem n\u00e3o era homossexual. Os crimes LGBTf\u00f3bicos parecem aumentar a cada ano, e existe o fortalecimento e atua\u00e7\u00e3o de diversos grupos de extrema direita que se utilizam da lei para justificar sua persegui\u00e7\u00e3o, agress\u00f5es e at\u00e9 assassinatos contra LGBTs, ou quem quer que as apoie.\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><em>A influ\u00eancia da Igreja Cat\u00f3lica Ortodoxa, presente entre a oligarquia russa desde o czarismo, \u00e9 fort\u00edssima, e se utiliza da opress\u00e3o LGBTf\u00f3bica e da ideologia da fam\u00edlia tradicional russa para garantir a manuten\u00e7\u00e3o de seus privil\u00e9gios e riquezas. Uma pesquisa do Centro Levada diz que 74% dos russos acreditam que os gays e l\u00e9sbicas sofrem problemas mentais. Menos da metade dos russos acredita que os homossexuais devem ter os mesmos direitos que os heterossexuais.<\/em><\/p>\n<p><em>Na Chech\u00eania, ditadura leal a Putin e parte da federa\u00e7\u00e3o russa, mant\u00e9m persegui\u00e7\u00e3o permanente \u00e0s LGBTs com campos de concentra\u00e7\u00e3o onde s\u00e3o presos, torturados e mortos. Sabe-se de mais de 100 pessoas que foram detidas nestes campos, e o porta-voz do presidente Kadyrov n\u00e3o apenas desprezou a repercuss\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o como incitou a viol\u00eancia: &#8220;Se tais pessoas existissem na Chech\u00eania, a lei n\u00e3o teria que se preocupar com elas, j\u00e1 que seus parentes teriam os enviado a um lugar de onde nunca voltariam&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>R\u00fassia hoje: qual seu papel na economia e pol\u00edtica mundial<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Os governos Yeltsin e Putin colocaram o pa\u00eds sob a depend\u00eancia de empr\u00e9stimos e tecnologias estrangeiras, se tornando completamente dependente da exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, recolocando a oligarquia russa, a igreja ortodoxa e toda a sorte de parasitas no poder, com seus s\u00f3cios ocidentais do imperialismo. A R\u00fassia foi recolonizada, e ainda assumiu o papel de regulador pol\u00edtico da Europa oriental e do oriente m\u00e9dio em nome do imperialismo europeu e americano. Jogou suas bombas no povo s\u00edrio, massacrou a revolu\u00e7\u00e3o na Ucr\u00e2nia e segue reprimindo os povos oprimidos dos pa\u00edses mais pobres, com ajuda ou apoiados pelos EUA e Europa Ocidental.<\/em><\/p>\n<p><em>A R\u00fassia precisa vender mat\u00e9ria prima e sofre de uma grande escravid\u00e3o tecnol\u00f3gica. Por isso, consideramos um pa\u00eds semicolonial, que atua como sub metr\u00f3pole na sua \u00e1rea de influ\u00eancia. Entender a R\u00fassia como imperialista, como o conjunto da esquerda considera, significa n\u00e3o lutar contra o saque imperialista no pa\u00eds nem lutar pela liberta\u00e7\u00e3o e autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos oprimidos pela R\u00fassia. Acreditar na \u201cR\u00fassia Forte\u201d, defendida por Putin, \u00e9 legitimar que s\u00e3o os valores atrasados e privilegiados da oligarquia russa que s\u00e3o os tra\u00e7os culturais mais marcantes do proletariado que j\u00e1 teve o estado em m\u00e3os e libertou os trabalhadores e trabalhadoras da escravid\u00e3o dom\u00e9stica. \u00c9 acreditar que a fam\u00edlia tradicional russa n\u00e3o tem LGBTs, e que ser LGBT \u00e9 influ\u00eancia do ocidente. <\/em><\/p>\n<p><em>Putin foi respons\u00e1vel por colocar a R\u00fassia em uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em decomposi\u00e7\u00e3o, e sob um regime autorit\u00e1rio, tentando embebedar o valoroso proletariado russo na confus\u00e3o de sua hist\u00f3ria e numa falsa ideia de uma R\u00fassia forte. <\/em><\/p>\n<p><em><strong>R\u00fassia e Brasil, duas pot\u00eancias mundiais de LGBTfobia<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>O Brasil tamb\u00e9m \u00e9 uma semicol\u00f4nia e submetr\u00f3pole na Am\u00e9rica Latina. Comparar com a R\u00fassia pode gerar confus\u00e3o, principalmente se ignorarmos o papel que cumpriu a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique no desenvolvimento econ\u00f4mico russo. Nossa economia nunca teve tal avan\u00e7o, nem nosso proletariado tal experi\u00eancia. Tampouco sofremos uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o que massacrou o povo pobre e oprimido. No entanto, tal como a R\u00fassia, as LGBTs vivem na desgra\u00e7a. Aqui \u00e9 o pa\u00eds que mais mata LGBTs no mundo, mais da metade das mortes de pessoas trans ocorrem aqui, mesmo que n\u00e3o tenhamos leis anti LGBTs. <\/em><\/p>\n<p><em>Aqui n\u00e3o tem \u201cR\u00fassia Forte\u201d mas tem \u201cBrasil para todos\u201d, todos <\/em><em>desde que voc\u00ea n\u00e3o seja explorado e oprimido. Uma burguesia submissa aos EUA, com cord\u00e3o umbilical com as Igrejas e o latif\u00fandio, uma economia baseada na exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas, e sob governos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d, que do PT \u00e0 direita, s\u00f3 fizeram enriquecer mais e mais os banqueiros e grandes empres\u00e1rios, al\u00e9m dos capitalistas estrangeiros. Que durante a maior crise que o capitalismo j\u00e1 viu, vem jogando sobre as costas do povo pobre e trabalhador toda a conta, \u00e0 custa de mais mis\u00e9ria e viol\u00eancia. Num pa\u00eds continental e cheio de riquezas como o Brasil, a LGBTfobia, assim como o machismo e o racismo, e mais recentemente a xenofobia, s\u00e3o ideias fundamentais para garantir a divis\u00e3o e superexplora\u00e7\u00e3o de toda a classe trabalhadora. <\/em><\/p>\n<p><em>As LGBTs na R\u00fassia, apesar de tudo que j\u00e1 conquistou um dia, tamb\u00e9m sofreram um duro, longo e violento massacre f\u00edsico e tamb\u00e9m ideol\u00f3gico. O estalinismo e depois a burguesia e oligarquia russas, avan\u00e7aram violentamente contra a classe trabalhadora, que no \u00faltimo per\u00edodo vem restringindo direitos, impondo um regime autorit\u00e1rio, e colocando \u00e0s LGBTs sob persegui\u00e7\u00e3o, medo, mis\u00e9ria e morte constante. Certamente, as LGBTs russas sofrem diariamente, enfrentando leis duras, falta de direitos e marginalidade. Segundo Alexander Kondakov, entre 2011 e 2016 foram assassinadas 149 LGBTs na R\u00fassia. No mesmo per\u00edodo, no Brasil, foram registradas 1903 mortes (GGB). <\/em><\/p>\n<p><em>No Brasil, existe uma aus\u00eancia hist\u00f3rica de direitos e de leis pr\u00f3 LGBTs, ainda que n\u00e3o tenha leis anti LGBTs. As caracter\u00edsticas econ\u00f4micas do pa\u00eds, expostas anteriormente, com a estreita rela\u00e7\u00e3o do Estado com a Igreja Cat\u00f3lica, e mais recentemente com as igrejas evang\u00e9licas, que possuem latif\u00fandios, empresas de televis\u00e3o, etc., ao mesmo tempo em que \u00e9 um pa\u00eds com uma cultura sexual aparentemente \u201clibert\u00e1ria\u201d, mas que na verdade \u00e9 recheada de machismo, racismo e LGBTfobia, com grande consumo de pornografia LGBT, bem como um \u201cmercado rosa\u201d bem amplo, s\u00e3o elementos importantes para entendermos porque o pa\u00eds mais \u201cgay-friendly\u201d <\/em><em>do mundo tamb\u00e9m \u00e9 o pa\u00eds mais LGBTf\u00f3bico.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Stonewall, R\u00fassia e as LGBTs hoje<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>A realidade das LGBTs trabalhadoras, pobres e marginalizadas em todo o mundo \u00e9 de mis\u00e9ria, desemprego, subemprego ou ilegalidade, fome, viol\u00eancia, medo e solid\u00e3o. O capitalismo dividiu bem e multiplicou a mis\u00e9ria, a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o por todos os cantos. Durante o per\u00edodo de colabora\u00e7\u00e3o do estalinismo com o imperialismo americano, explodiu Stonewall em Nova Iorque em 1969. Uma rebeli\u00e3o de rua, de travestis e transexuais, negras e imigrantes, \u00e0 frente, derrotando a pol\u00edcia e as legisla\u00e7\u00f5es absurdas pela luta direta e em alian\u00e7a com o movimento de trabalhadores e o movimento negro que lutavam por direitos e contra a guerra no Vietn\u00e3. <\/em><\/p>\n<p><em>A rebeli\u00e3o de Stonewall destravou as lutas e organiza\u00e7\u00f5es de LGBTs pelos seus direitos, atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria for\u00e7a e da for\u00e7a dos trabalhadores contra os ricos e poderosos. \u00c9 um exemplo para o movimento, e devemos retom\u00e1-lo, bem como retomar a hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa para as LGBTs, para reconquistar a confian\u00e7a na nossa pr\u00f3pria for\u00e7a e lutamos at\u00e9 a vit\u00f3ria final. <\/em><\/p>\n<p><em>O papel dos revolucion\u00e1rios de todo mundo \u00e9 defender os direitos das LGBTs trabalhadoras, se enfrentando com o Imperialismo e colocando a luta a servi\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem explora\u00e7\u00e3o e sem opress\u00e3o, ou seja, colocando as LGBTs trabalhadoras em conjunto com o projeto mais acabado da classe oper\u00e1ria, que \u00e9 tomar o poder em suas pr\u00f3prias m\u00e3os, destruir o capitalismo em todo o mundo e construir a revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Antes mesmo de a copa ter come\u00e7ado, o debate sobre o risco \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT na R\u00fassia, durante o mundial, j\u00e1 tinha iniciado no movimento e na imprensa. Pouco antes da abertura, um manifestante ingl\u00eas foi detido por segurar um cartaz de solidariedade \u00e0s LGBTs da Chech\u00eania, onde se tem campos de concentra\u00e7\u00e3o para LGBTs. 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