{"id":23390,"date":"2018-06-22T12:22:00","date_gmt":"2018-06-22T14:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23390"},"modified":"2018-06-22T12:22:00","modified_gmt":"2018-06-22T14:22:00","slug":"a-revolucao-cultural-uma-revolucao-politica-abortada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/06\/22\/a-revolucao-cultural-uma-revolucao-politica-abortada\/","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o Cultural: uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica abortada"},"content":{"rendered":"<p><em>O ano 1968, do qual este ano celebramos o quinquag\u00e9simo anivers\u00e1rio, foi um ano de grandes mudan\u00e7as em n\u00edvel global. Massas de jovens, estudantes, trabalhadores surgiram no palco da luta pol\u00edtica. As classes dominantes de todos os pa\u00edses foram questionadas. Na Fran\u00e7a, no m\u00eas de maio, milh\u00f5es de oper\u00e1rios em greve ocuparam as ruas do pa\u00eds, chegando a um passo da tomada do poder.<\/em><\/p>\n<p><em>Nos anos anteriores, houve v\u00e1rios sinais de que a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica global estava chegando a um ponto de ruptura.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Por: Alberto Madoglio<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>A China foi um pa\u00eds onde, em meados dos anos 60, houve uma enorme explos\u00e3o revolucion\u00e1ria, que assumiu as caracter\u00edsticas de uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra a domina\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do Partido Comunista, claramente de origem stalinista. A burocracia, \u00e0 frente do Pcc (Partido Comunista Chin\u00eas), privilegiava a defesa de seus pr\u00f3prios interesses materiais em detrimento do desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o, seja em n\u00edvel nacional como internacional.<\/p>\n<p>Como todos os partidos comunistas de orienta\u00e7\u00e3o stalinista, em um primeira fase ficou completamente subordinado aos interesses da burocracia do Kremlin. Uma vez conquistado o poder, as necessidades burocr\u00e1ticas nacionais do novo Estado oper\u00e1rio entraram em conflito com as de Moscou. (*)<\/p>\n<p>Para tentar entender as raz\u00f5es desse fen\u00f4meno, devemos analisar brevemente o curso anterior dos eventos e a estrutura nacional e internacional em que ocorreram.<\/p>\n<p><strong>A China: um Estado oper\u00e1rio deformado<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da R\u00fassia em 1917, na China, a revolu\u00e7\u00e3o deu origem a um Estado oper\u00e1rio deformado (assim como eram os Estados oper\u00e1rios nascidos ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial na Europa Oriental). O poder nunca esteve nas m\u00e3os de organismos de classe compar\u00e1veis aos sovi\u00e9ticos, nem poderia o Pcc ser comparado de forma alguma ao Partido Bolchevique de L\u00eanin e Trotsky.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o quadro internacional era diferente daquele que, em alguns aspectos, havia facilitado a consolida\u00e7\u00e3o do poder de Stalin e de sua camarilha. Nos anos 1930, o proletariado em n\u00edvel internacional sofreu uma s\u00e9rie de importantes derrotas: a vit\u00f3ria de Hitler na Alemanha, a derrota dos processos revolucion\u00e1rios na \u00c1ustria, Fran\u00e7a e Espanha devido \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica imposta por Stalin tanto diretamente, quanto atrav\u00e9s dos partidos comunistas locais.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o foi diferente nos anos ap\u00f3s 1945: a derrota do nazismo e do fascismo na Europa, o processo de luta pela independ\u00eancia na \u00c1sia e na \u00c1frica, o nascimento de novos Estados oper\u00e1rios, embora deformados, no leste europeu e na \u00c1sia, a derrota dos Estados Unidos na guerra da Cor\u00e9ia e, mais tarde, a resist\u00eancia que enfrentar\u00e3o no Vietn\u00e3. Tudo isso criava, mesmo com importantes contradi\u00e7\u00f5es (o fracasso das revolu\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial na It\u00e1lia, Fran\u00e7a e Gr\u00e9cia), um clima de maior confian\u00e7a entre as massas oprimidas em todo o mundo.<\/p>\n<p>A \u201cGrande revolu\u00e7\u00e3o cultural prolet\u00e1ria\u201d na China insere-se nesta nova situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Do \u00abGrande salto para a frente\u00bb \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Cultural<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 \u00fatil fazer uma premissa adicional antes de abordar plenamente aqueles eventos. No final da d\u00e9cada de 1950, a Rep\u00fablica Popular da China teve que fazer um acerto de contas com o fracasso do \u201cGrande salto para frente\u201d: uma tentativa irrealista, administrada com m\u00e9todos burocr\u00e1ticos, para favorecer o processo de industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Sustentado fortemente por Mao, que se iludia em superar a produ\u00e7\u00e3o industrial da Gr\u00e3-Bretanha em poucos anos, o projeto resultou em um enorme fracasso que custou a vida de milh\u00f5es de pessoas, devido \u00e0 carestia causada pelo colapso da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. .<\/p>\n<p>Iniciou-se uma dura luta fracional dentro do Partido comunista chin\u00eas. Todos os principais l\u00edderes haviam apoiado a pol\u00edtica do \u201cGrande salto para a frente\u201d, mas agora muitos a criticavam, pedindo o fim do processo de coletiviza\u00e7\u00e3o no campo. Uma Confer\u00eancia do partido em 1961 marcou esse giro moderado ou de direita. Come\u00e7ou-se a favorecer o pequeno produtor rural, bem como o lucro privado e incentivos materiais aos agricultores. Os equil\u00edbrios de poder dentro do Pcc e do Estado foram redefinidos. Mao deixou o cargo de presidente da Rep\u00fablica em 1959, agora confiado a Liu Shaoqi, e permaneceu simbolicamente presidente do Pcc, do qual se tornou secret\u00e1rio Deng Xiaoping. Ao mesmo tempo, Lin Biao, um aliado de Mao, tornou-se ministro da defesa. Aproveitando sua posi\u00e7\u00e3o, ele come\u00e7ou a consolidar no ex\u00e9rcito o culto da personalidade do Grande Timoneiro, que desempenhar\u00e1 um papel cada vez mais importante durante o curso da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural.<\/p>\n<p>Os equil\u00edbrios entre as diferentes fra\u00e7\u00f5es da burocracia na China permaneceram prec\u00e1rios. A \u201cdireita\u201d de Liu e Deng controlava o Pcc e os aparatos estatais, a \u201cesquerda\u201d de Mao e Lin, os quadros do ex\u00e9rcito e a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Um esclarecimento necess\u00e1rio. As palavras esquerda e direita est\u00e3o colocadas entre aspas porque, como veremos mais adiante, tratava-se de uma diferencia\u00e7\u00e3o dentro do aparato de poder que, ao ver que corria o risco de perder predom\u00ednio, buscar\u00e1 e encontrar\u00e1 maneiras de p\u00f4r de lado os pr\u00f3prios contrastes.<\/p>\n<p>A tr\u00e9gua interburocr\u00e1tica, no entanto, n\u00e3o podia durar muito: contradi\u00e7\u00f5es de natureza externa e interna contribu\u00edram para enfraquec\u00ea-la cada vez mais. O processo de desestaliniza\u00e7\u00e3o iniciado na URSS acentuou, entre outras coisas, a linha de coexist\u00eancia pac\u00edfica entre o primeiro Estado oper\u00e1rio e o imperialismo. Isto teve consequ\u00eancias concretas para a China: o fim da ajuda econ\u00f4mica por parte de Moscou, o fim da cobertura nuclear defensiva em favor de Pequim. Essas decis\u00f5es s\u00f3 poderiam criar fortes preocupa\u00e7\u00f5es no Pa\u00eds, devido \u00e0 presen\u00e7a cada vez mais forte das tropas americanas no Sudeste asi\u00e1tico: uma agress\u00e3o imperialista com estrelas e listras n\u00e3o poderia ser descartada.<\/p>\n<p>Internamente, a vit\u00f3ria revolucion\u00e1ria de 1949 permitia progressos importantes e ineg\u00e1veis no campo econ\u00f4mico. Os mesmos efeitos devastadores do \u00abGrande salto para a frente\u00bb foram superados no espa\u00e7o de poucos anos, mas os desequil\u00edbrios na sociedade chinesa estavam longe de serem superados: as melhores escolas continuaram a ser um privil\u00e9gio das crian\u00e7as da nova casta dirigente, a supera\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada trouxe consigo o retorno do empr\u00e9stimo com agiotagem, o fechamento de muitos hospitais nas \u00e1reas rurais mais pobres, uma diferencia\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios entre o proletariado agr\u00edcola (maior para aqueles que produziam bens de maior valor destinados \u00e0s cidades, por exemplo hortali\u00e7as), uma alta porcentagem de trabalhadores precarizados na ind\u00fastria que n\u00e3o recebiam sal\u00e1rios desde 1959.<\/p>\n<p>Esmien diz que, naquela \u00e9poca, a popula\u00e7\u00e3o ativa crescia cerca de sete milh\u00f5es por ano, enquanto as cidades s\u00f3 podiam garantir 300 mil novos postos de trabalho. No entanto, aqueles que haviam conhecido a vida urbana n\u00e3o queriam voltar para a miser\u00e1vel vida no campo.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o foi a base material que permitiu a Mao e sua fra\u00e7\u00e3o apelarem \u00e0s massas mais pobres para reverter o equil\u00edbrio de poder no Partido e nos n\u00facleos do Estado, mas ao mesmo tempo tamb\u00e9m foi uma das causas que impediram \u00e0 fra\u00e7\u00e3o do Grande Timoneiro de evitar que a situa\u00e7\u00e3o escapasse de suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Os eventos tomaram o nome de Revolu\u00e7\u00e3o Cultural porque foi a partir das quest\u00f5es de cultura que a luta entre as fra\u00e7\u00f5es e a subsequente verdadeira mar\u00e9 revolucion\u00e1ria come\u00e7aram.<\/p>\n<p><strong>A luta interburocr\u00e1tica explode com viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Em 10 de novembro de 1965 apareceu em um jornal de Xangai (que a partir daquele momento ser\u00e1 a fortaleza dos mao\u00edstas), um artigo cr\u00edtico a uma obra de 1961 escrita pelo vice-prefeito de Pequim, <em>A destitui\u00e7\u00e3o Hai Rui<\/em>. A acusa\u00e7\u00e3o feita contra o autor foi a de, por meio de um drama hist\u00f3rico, atacar as ideias de Mao. O jornal, nesse meio tempo, pediu ao CC que as ideias dos intelectuais pr\u00f3ximos aos l\u00edderes da \u201cdireita\u201d do Partido fossem condenadas, mas sem sucesso. Em fevereiro do ano seguinte, o grupo constitu\u00eddo pela Revolu\u00e7\u00e3o Cultural (hegemonizado por elementos contr\u00e1rios a Mao), entre os quais se destacava o prefeito de Pequim, Peng Chen, afirmou que o debate n\u00e3o deveria sair do \u00e2mbito intelectual.<\/p>\n<p>Depois de silenciado num primeiro momento, Mao e seus aliados partiram para a ofensiva. O Comit\u00ea Permanente da Assembleia Nacional lan\u00e7ou a \u201cGrande revolu\u00e7\u00e3o cultural prolet\u00e1ria\u201d. Em 16 de maio, o CC emitiu uma circular para estender o Grcp entre o Partido, o Estado e o Ex\u00e9rcito, com o objetivo de expulsar os elementos com tend\u00eancias burguesas: desse modo, come\u00e7ou a expurgar os elementos contr\u00e1rios a Mao. Em Pequim na Universidade foi publicado o primeiro <em>dazebao<\/em> (manifesto- mural \u2013 outdoor) onde foram criticados os professores que, de alguma maneira eram identificados como advers\u00e1rios do pensamento do fundador da Rep\u00fablica Popular.<\/p>\n<p>Os tumultos se espalharam como fogo. Os defensores das posi\u00e7\u00f5es de \u201cdireita\u201d estavam come\u00e7ando a sentir o perigo e, em resposta, organizaram equipes de trabalho para enviar nas universidades e escolas para tentar dirigir a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, para, na verdade, tentar colocar a situa\u00e7\u00e3o sob seu controle. Mao e seus aliados, em rea\u00e7\u00e3o, decretaram a dissolu\u00e7\u00e3o das equipes de trabalho, acusadas de querer interromper a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural nas escolas e o fechamento das universidades. Ao mesmo tempo, come\u00e7aram a aparecer as Guardas Vermelhas, forma\u00e7\u00f5es de jovens apoiadoras Mao Ts\u00e9-Tung.<\/p>\n<p>Os eventos continuaram a seguir freneticamente um ao outro. No plen\u00e1rio do CC, em agosto, Mao lan\u00e7ou o famoso chamado \u201cbombardear o quartel-general\u201d. Isso, junto com a emana\u00e7\u00e3o dos dezesseis pontos, verdadeira carta fundamental da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, criaram a ilus\u00e3o de que Mao e sua fra\u00e7\u00e3o fossem os defensores de uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o no sistema de poder ap\u00f3s 1949.<\/p>\n<p>Na verdade, as reivindica\u00e7\u00f5es de liberdade de pensamento, de cr\u00edtica aos dirigentes, de auto-organiza\u00e7\u00e3o das massas em luta, da elegibilidade e revogabilidade dos dirigentes, reportando-se \u00e0 experi\u00eancia da Comuna de Paris de 1871, permaneceram no papel. Certamente, o apelo \u00e0s massas, as manifesta\u00e7\u00f5es oce\u00e2nicas de milh\u00f5es de Guardas Vermelhos vindos a Pequim para apoiar os defensores da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, e Mao em particular, induziram a essa convic\u00e7\u00e3o equivocada.<\/p>\n<p>Foram os eventos subsequentes, entre dezembro de 1966 e janeiro do ano seguinte, que esclareceriam, sem d\u00favida, qual era a verdadeira inten\u00e7\u00e3o do chamado agrupamento \u201cde esquerda\u201d.<\/p>\n<p>Mao e seus seguidores argumentaram que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria ser apenas cultural, mas uma vez aberta a caixa de Pandora da mobiliza\u00e7\u00e3o de massa, os eventos n\u00e3o poderiam ser dirigidos ou controlados nos gabinetes pelos membros do Comit\u00ea Central.<\/p>\n<p><strong>A classe trabalhadora entra em campo<\/strong><\/p>\n<p>Shangai, o maior centro industrial do Pa\u00eds, foi o centro do que foi chamado \u201ca tempestade de janeiro\u201d. Greves, confrontos com a pol\u00edcia, ocupa\u00e7\u00f5es em f\u00e1bricas, paralisa\u00e7\u00e3o geral do transporte p\u00fablico caracterizaram a luta na metr\u00f3pole. O descontentamento e as contradi\u00e7\u00f5es acumuladas ao longo dos anos explodiram sem controle. A classe trabalhadora come\u00e7ou a entrar no campo da luta, com suas pr\u00f3prias demandas: aumentos salariais, melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, qualidade da moradia e assist\u00eancia m\u00e9dica. Os trabalhadores viam no pensamento e nas palavras de Mao a justificativa de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, o Grande Timoneiro come\u00e7ava a sentir o perigo. Por um lado, n\u00e3o podia fazer um apelo espec\u00edfico para frear a mobiliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que seus advers\u00e1rios no aparato n\u00e3o haviam sido completamente derrotados, por outro, ele come\u00e7ou a perceber que a situa\u00e7\u00e3o agora estava fora de controle.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s greves que eclodiram no Pa\u00eds e, como mencionado acima em Xangai, particularmente, o Comit\u00ea Central votou um documento em que se condenava, como economicismo, as demandas por melhoria econ\u00f4mica reivindicadas pelos trabalhadores. Pois, de acordo com o grupo dirigente do Pcc corria-se o risco de por em perigo as conquistas revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Mao e sua fra\u00e7\u00e3o acreditavam que por de tr\u00e1s dos acontecimentos ocorridos na capital econ\u00f4mica do Pa\u00eds, estivessem seus opositores no Pcc, julgamento sem sombra de d\u00favida errado e calunioso. Na realidade, o processo iniciado no final da primavera de 1966 foi o estopim do descontentamento que h\u00e1 muito pairava na sociedade chinesa e que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguira derrotar.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, os enormes privil\u00e9gios que os burocratas desfrutavam n\u00e3o fizeram sen\u00e3o aumentar a raiva popular e o ressentimento, que s\u00f3 aguardavam a oportunidade de vir \u00e0 tona. Certamente, em alguns casos, os advers\u00e1rios tentaram usar as mobiliza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias contra a fra\u00e7\u00e3o de Mao, mas sob nenhuma circunst\u00e2ncia podemos falar de uma a\u00e7\u00e3o concebida nos gabinetes pelos expoentes da \u201cdireita\u201d. Shangai era de fato uma verdadeira fortaleza dos mao\u00edstas.<\/p>\n<p>A tentativa da fra\u00e7\u00e3o de \u201cesquerda\u201d de controlar os eventos veio novamente com o chamado para a mobiliza\u00e7\u00e3o das Guardas Vermelhas. Mao lan\u00e7ou a palavra de ordem da \u201ctomada do poder\u201d. Do que se tratava?<\/p>\n<p><strong>Primeiras tentativas de normaliza\u00e7\u00e3o. O papel do ex\u00e9rcito<\/strong><\/p>\n<p>As Guardas Vermelhas, junto com os membros mao\u00edstas do Partido, deveriam atacar as sedes do Partido e das institui\u00e7\u00f5es estatais, expulsando seus advers\u00e1rios pol\u00edticos, substituindo-os.<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica saliente deste processo foi dada pela interven\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito. Se, no in\u00edcio, o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o do Povo devia apoiar a a\u00e7\u00e3o das Guardas Vermelhas e a fra\u00e7\u00e3o de Mao, com o passar do tempo e a precipita\u00e7\u00e3o dos eventos, tornou-se um sujeito cada vez mais ativo e protagonista. A natureza burocr\u00e1tica e bonapartista das \u201ctomadas do poder\u201d se evidenciou pelo fato de serem elas mais simb\u00f3licas do que concretas, no sentido de que as Guardas Vermelhas n\u00e3o se tornavam a base de massa de um novo poder. Deviam limitar-se ao n\u00edvel local (municipal e regional), enquanto era exclu\u00eddo que as \u201ctomadas de poder\u201d pudessem valer no plano n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito devia ser exclu\u00eddo, dado que tornava-se ao longo do tempo a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que poderia garantir uma certa continuidade de poder: reprimia as greves tomando o controle de portos, ferrovias, transportes, etc., intervinha cada mais frequentemente para resolver disputas entre os diferentes grupos revolucion\u00e1rios. Muitas vezes, em n\u00edvel perif\u00e9rico, os l\u00edderes fardados n\u00e3o aceitavam a ret\u00f3rica \u201cmovimentista\u201d de Mao, porque viam nesta um perigo para a manuten\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>status quo<\/em>.<\/p>\n<p>O evento que deu a desculpa para iniciar o processo de normaliza\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural foi o chamado incidente de Wuhan. Em agosto de 1967, dois ministros enviados de Pequim foram presos pelo comandante militar destacado na cidade. O pr\u00f3prio Mao foi for\u00e7ado a deixar a cidade \u00e0s escondidas depois que uma multid\u00e3o enfurecida cercou sua casa.<\/p>\n<p><strong>O aparelho do PCC recupera o controle<\/strong><\/p>\n<p>As escolas e universidades, que haviam fornecido a base material das Guardas Vermelhas, foram reabertas. Os subs\u00eddios que permitiram aos estudantes viajar para Pequim para apoiar Mao e seu grupo foram cancelados. Vinte milh\u00f5es de Guardas Vermelhos foram enviados para o campo nos quatro cantos do pa\u00eds, sob o pretexto de entrar em contato com a vida dos camponeses, na verdade para dispers\u00e1-los e anul\u00e1-los. Os comit\u00eas independentes (que em alguns casos chegaram a um milh\u00e3o de membros) foram dissolvidos, tamb\u00e9m com a interven\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito quando necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mao afirmou que 95% dos l\u00edderes do Partido eram honestos, enquanto, ao mesmo tempo, ordenava o expurgo de apoiadores que interpretavam com exagerado zelo seus pensamentos. Entre seus oponentes, apenas Liu Shaoqi foi deixado de lado, enquanto Deng Xiaoping sofreu apenas uma pequena san\u00e7\u00e3o disciplinar.<\/p>\n<p>A demagogia movimentista e antiburocr\u00e1tica foi definitivamente posta de lado quando, por ocasi\u00e3o da convoca\u00e7\u00e3o do IX Congresso Pcc, a lista de delegados foi decidida pelo Comit\u00ea Central. Entre mais de 1500 delegados, 3\/4 eram membros do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p><strong>Mao\u00edsmo ou a ilus\u00e3o de uma auto-reforma da burocracia<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se agora, neste momento da an\u00e1lise do fen\u00f4meno Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, de compreender suas caracter\u00edsticas b\u00e1sicas, e porque as esperan\u00e7as depositadas em Mao como poss\u00edvel defensor de uma verdadeira batalha contra a burocracia e as suas degenera\u00e7\u00f5es foram mal correspondidas.<\/p>\n<p>De certo ponto de vista n\u00e3o deve nos surpreender as esperan\u00e7as e ilus\u00f5es que a a\u00e7\u00e3o de Mao despertou em setores de vanguarda do movimento estudantil e em parte do movimento oper\u00e1rio em n\u00edvel internacional n\u00e3o s\u00f3 nos anos em que ocorreram os fatos que brevemente analisamos, mas tamb\u00e9m nos anos seguintes. Na It\u00e1lia, em particular, a maioria das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, que naqueles anos estavam \u00e0 esquerda do PCI, tinham depositado no maoismo a pr\u00f3pria refer\u00eancia pol\u00edtica internacional. Isso tamb\u00e9m explica por que uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que caracterizou o Pa\u00eds por uma d\u00e9cada (final dos anos 60 e 70) terminou em derrota. Nem essas organiza\u00e7\u00f5es, nem muito menos o PCI, tinham um programa coerente de a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria visando a conquista do poder pelas massas oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>Como observa Nahuel Moreno, enquanto a casta burocr\u00e1tica na URSS tinha se estabelecido como um corpo monol\u00edtico consolidado em detrimento da classe oper\u00e1ria russa, que n\u00e3o s\u00f3 tinha sido gradualmente despojada do poder conquistado outubro de 1917, mas tinha sido aniquilada, exterminada e reduzida a total passividade, na China as coisas estavam seguindo um curso diferente. Mao lan\u00e7ava sua batalha em nome da luta contra a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do Partido e do Estado, contra a qual apelava \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o inicialmente dos estudantes e depois dos oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Stalin, em nenhum per\u00edodo de seu dom\u00ednio chegou a tanto. (1) Al\u00e9m disso, enquanto nos anos 60 a URSS defendia de coexist\u00eancia pac\u00edfica com o imperialismo norte-americano, a fra\u00e7\u00e3o do Pcc liderada por Mao e Lin Biao fazia uso da ret\u00f3rica anti-imperialista e da necessidade da mobiliza\u00e7\u00e3o das massas em defesa da nova China surgida a partir da Revolu\u00e7\u00e3o de 1949 (a prova de como propaganda contra o imperialismo era um instrumento para a luta fracional se ver\u00e1 anos depois com a visita de Nixon \u00e0 China e o nascimento de acordos entre os dois pa\u00edses, desta vez em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 URSS). \u00c9 \u00f3bvio que tudo isso criasse esperan\u00e7as entre as vanguardas que, nos anos 60, come\u00e7avam a se tornar protagonistas da luta pol\u00edtica, n\u00e3o se limitando a deleg\u00e1-la a seus tradicionais representantes pol\u00edticos e sindicais.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es de fundo que explicam a a\u00e7\u00e3o de Mao eram outras. Como lembrado no in\u00edcio, ap\u00f3s o fracasso do \u201cGrande Salto para frente\u201d, Mao foi colocado, pelo menos parcialmente, \u00e0 margem. A nova maioria liderada pela fra\u00e7\u00e3o de Liu Shaoqi\/Deng Xiaoping inclinava-se para a aplica\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica mais favor\u00e1vel para as camadas superiores do campesinato, a uma esp\u00e9cie de toler\u00e2ncia para com a iniciativa privada (ap\u00f3s a morte de Mao, Deng vai regressar com for\u00e7a total na vida pol\u00edtica chinesa e como um l\u00edder indiscut\u00edvel ser\u00e1 o arquiteto do processo de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo no Pa\u00eds).<\/p>\n<p>Encontrando-se em minoria no aparato do Partido, Mao tentou, por um per\u00edodo, recuperar posi\u00e7\u00f5es usando as estruturas do Pcc. Tendo verificado a impossibilidade de prosseguir com sucesso esse caminho, ele escolheu o caminho do apelo \u00e0s massas. Quanto a que sua real vontade n\u00e3o fosse a de lan\u00e7ar uma verdadeira luta frontal contra o aparato, podemos intu\u00ed-la pelas decis\u00f5es de n\u00e3o querer mobilizar, no in\u00edcio, as massas oper\u00e1rias: um apelo direto ao proletariado iria demonstrar a vontade de uma verdadeira luta contra as degenera\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas que estavam presentes na sociedade chinesa, mas produto do aparato como era Mao, n\u00e3o podia correr este risco. Mao quis sempre manter o ex\u00e9rcito a salvo das a\u00e7\u00f5es explosivas das Guardas Vermelhas: as \u201ctomadas de poder\u201d de que falamos, n\u00e3o deveriam dizer respeito a ele, mas sim a interven\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito assegurava, tanto quanto poss\u00edvel, novos choques contra a estrutura do Estado.<\/p>\n<p>Mesmo nos momentos em que o confronto era mais dif\u00edcil, Mao evitou lan\u00e7ar seus ataques contra as principais inst\u00e2ncias do Estado e do Partido (Conselho de Assuntos de Estado e Comit\u00ea Central). Ap\u00f3s o incidente de Wuhan, sua a\u00e7\u00e3o foi claramente contra-revolucion\u00e1ria e restauradora: o uso maci\u00e7o do ex\u00e9rcito para normalizar a situa\u00e7\u00e3o consagrava suas inten\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias e burocr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>A aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u00e9 a causa do fracasso da mobiliza\u00e7\u00e3o das massas contra o aparato<\/strong><\/p>\n<p>Todavia, os eventos da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural tamb\u00e9m nos deixam ensinamentos positivos. Uma vez liberada a for\u00e7a revolucion\u00e1ria das massas, especialmente os trabalhadores, n\u00e3o pode ser t\u00e3o facilmente controlada. N\u00f3s n\u00e3o temos a contraprova, n\u00e3o sabemos o que Mao teria feito se tivesse imaginado que seu apelo \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es se transformaria em uma tempestade que atingiu profundamente a sociedade chinesa por tanto tempo. Mas sabemos que as posteriores lutas entre as diferentes fra\u00e7\u00f5es do Pcc se resolveram sem exigir a interven\u00e7\u00e3o ativa das massas. Pelo contr\u00e1rio, as tens\u00f5es que explodiram entre estas, em 1989, foram ainda resolvidas com a interven\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Popular, e com a brutal e sangrenta repress\u00e3o dos jovens que ocuparam a pra\u00e7a Tien An Men.<\/p>\n<p>Tivemos tamb\u00e9m, pela en\u00e9sima vez, prova de que, sem uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica clara e consequente, nenhuma mobiliza\u00e7\u00e3o, por maior e mais radical que seja, pode por si s\u00f3 triunfar. Um partido de tipo bolchevique, baseado num claro programa leninista e organizativamente delimitado de qualquer outro partido pol\u00edtico, \u00e9 essencial n\u00e3o s\u00f3 para a conquista do poder em uma sociedade burguesa-capitalista, mas era necess\u00e1rio tamb\u00e9m para se realizar com sucesso a luta pela revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos Estados oper\u00e1rios degenerados ou deformados. (2)<\/p>\n<p>\u00c9 esta, sem sombra d\u00favida, a culpa maior daquela corrente majorit\u00e1ria que, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial reportou-se \u00e0s posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Trotsky e da Oposi\u00e7\u00e3o de esquerda ao stalinismo. N\u00e3o tendo constru\u00eddo partidos bolcheviques-leninistas, ou seja, se\u00e7\u00f5es da IV Internacional nos Estados Oper\u00e1rios, na ilus\u00e3o de que os setores de esquerda da burocracia poderiam cumprir esta tarefa, \u00e9 sem sombra de d\u00favida uma das causas, sen\u00e3o a principal, que n\u00e3o permitiu, \u00e0 mais ampla e radical experi\u00eancia revolucion\u00e1ria em um Estado oper\u00e1rio deformado, expulsar definitivamente a burocracia do poder e entreg\u00e1-lo nas m\u00e3os do proletariado e de suas organiza\u00e7\u00f5es de poder, os soviets.<\/p>\n<p>Publicado originalmente pela revista revista Trotskysmo Hoje. Traduzido por Alberto Albiero jr,<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>A ortografia oficial chinesa em vigor desde 1958 \u00e9 usada para nomes chineses.<\/p>\n<p>* Para aprofundar o tema, que n\u00e3o temos a possibilidade de desenvolver neste artigo, sugerimos as seguintes leituras (al\u00e9m dos textos mencionados na bibliografia):<\/p>\n<p>1) Ver N. Moreno, \u201c<em>La revolucion cultural China<\/em>\u201c, em\u00a0<em>La Verdad<\/em>\u00a0102 de 21\/08\/67 e no cap\u00edtulo \u201c<em>Como el debemos analizar el fen\u00f4meno<\/em>\u201d em N. Moreno,\u00a0<em>Las Revoluciones China e Indochina<\/em>, 1968.<\/p>\n<p>2) Usamos verbos no passado porque hoje n\u00e3o h\u00e1 mais Estados oper\u00e1rios para os quais seja poss\u00edvel lan\u00e7ar a palavra de ordem da revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<ol start=\"1983\">\n<li>Bronze,<em>Os comunistas na China. Das origens at\u00e9 a tomada do poder<\/em>,\u00a0<em>Nuove edizione internazionali<\/em>, 1983.<\/li>\n<li>Trotsky,\u00a0<em>A revolu\u00e7\u00e3o permanente<\/em>, 1929, Pbe, 1967.<\/li>\n<li>Trotsky,\u00a0<em>Escritos<\/em>1929-1936, Oscar Mondadori, 1968.<\/li>\n<li>Trotsky,<em>Os problemas da revolu\u00e7\u00e3o chinesa e outros escritos sobre quest\u00f5es internacionais<\/em>1924-1940, Einaudi 1970.<\/li>\n<li>Trotsky,\u00a0<em>A Terceira Internacional depois de Lenin<\/em>, Schwarz, 1957.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Isaacs,\u00a0<em>A Trag\u00e9dia da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa<\/em>\u00a01925-1927,\u00a0<em>Il saggiatore<\/em>, 1973.<\/p>\n<p>Mao Ts\u00e9-tung,\u00a0<em>O Pequeno Livro Vermelho<\/em>, Newton Compton, 2008.<\/p>\n<p>Sobre o papel do stalinismo e do\u00a0<em>togliattismo<\/em>\u00a0na It\u00e1lia, v\u00e1rios artigos apareceram no\u00a0<em>Projeto Comunista<\/em>,\u00a0<em>Trotskismo hoje<\/em>\u00a0e em nosso site.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos textos j\u00e1 mencionados, ressaltamos:<\/p>\n<ol start=\"2016\">\n<li>Bronze,\u00a0<em>As sombras do Drag\u00e3o. Hist\u00f3ria cr\u00edtica do comunismo na China desde suas origens at\u00e9 os dias atuais<\/em>, Redstarpress, 2016.<\/li>\n<li>Maitan,\u00a0<em>Partido do ex\u00e9rcito e massas na crise chinesa<\/em>, Samon\u00e0 e Savelli, 1969.<\/li>\n<li>Esmein,\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural Chinesa<\/em>, Laterza, 1971.<\/li>\n<li>Germain (pseud\u00f4nimo de Ernest Mandel),\u00a0<em>A revolu\u00e7\u00e3o cultural. Uma tentativa de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/em>Do marxist internet archive<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano 1968, do qual este ano celebramos o quinquag\u00e9simo anivers\u00e1rio, foi um ano de grandes mudan\u00e7as em n\u00edvel global. Massas de jovens, estudantes, trabalhadores surgiram no palco da luta pol\u00edtica. As classes dominantes de todos os pa\u00edses foram questionadas. 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