{"id":23387,"date":"2018-06-21T16:55:45","date_gmt":"2018-06-21T18:55:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23387"},"modified":"2018-06-21T16:55:45","modified_gmt":"2018-06-21T18:55:45","slug":"o-que-esta-por-tras-da-guerra-comercial-de-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/06\/21\/o-que-esta-por-tras-da-guerra-comercial-de-trump\/","title":{"rendered":"O que est\u00e1 por tr\u00e1s da amea\u00e7a de \u201cguerra comercial\u201d de Trump?"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cN\u00f3s somos como o cofrinho do qual todo mundo est\u00e1 roubando; mas isto acabou\u201d. Com estas palavras, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que seu pa\u00eds n\u00e3o iria assinar a declara\u00e7\u00e3o final do encontro de c\u00fapula do G7, realizado no Canad\u00e1 em 8-9 de junho.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Marcos Margarido<\/p>\n<p>Algumas horas antes, o primeiro ministro do Canad\u00e1, Justin Trudeau, anunciava que o encontro havia sido um sucesso e que os 7 pa\u00edses estabeleceram amplos acordos em uma s\u00e9rie de objetivos econ\u00f4micos e de pol\u00edtica externa, apesar de desacordos profundos entre Trump e os l\u00edderes das demais na\u00e7\u00f5es, principalmente na quest\u00e3o do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>No entanto, os desacordos no com\u00e9rcio foram maiores que os amplos \u2013 e necessariamente gen\u00e9ricos \u2013 acordos e a declara\u00e7\u00e3o final do G7 tornou-se letra morta. Prevaleceu a promessa de guerra comercial de Trump contra o que ele chama de tratamento injusto das outras na\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos. Citou, especificamente, a sobretaxa de 270% sobre latic\u00ednios norte-americanos importados pelo Canad\u00e1 e \u201cos autom\u00f3veis estrangeiros que inundam nosso mercado\u201d, que prometeu taxar.<\/p>\n<p>Algumas semanas antes Trump j\u00e1 havia imposto taxas de 10% sobre o alum\u00ednio e de 25% sobre o a\u00e7o importados, e de 25% sobre produtos eletr\u00f4nicos, aeroespaciais e m\u00e1quinas chinesas no valor de US$ 50 bilh\u00f5es. Todos os pa\u00edses prometeram retaliar, como a China, que estabeleceu sobretaxas no mesmo valor sobre bens produzidos por setores econ\u00f4micos que apoiam Trump, como o agr\u00edcola. Este imposto atinge mais de um ter\u00e7o do total de exporta\u00e7\u00f5es norte-americanas \u00e0 China, que somaram US$ 130 bilh\u00f5es em 2017, sem contar US$ 40 bilh\u00f5es para Hong Kong.<\/p>\n<p>A retalia\u00e7\u00e3o chinesa causou uma queda de 3,78% na Bolsa de Xangai e de 5,77% na Bolsa de Shenzhen. Estas quedas repercutiram no Jap\u00e3o, com queda de 1,77% na Bolsa de T\u00f3quio e, possivelmente, nas bolsas da Europa.<\/p>\n<p>A possibilidade de uma guerra comercial entre as principais economias do planeta causa pavor no capital financeiro, pois pode levar a um encolhimento do com\u00e9rcio e, assim, agravar a crise econ\u00f4mica mundial. Tamb\u00e9m amea\u00e7a a estabilidade da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) criada justamente para estabelecer regras de abertura do com\u00e9rcio e impedir o estabelecimento de barreiras protecionistas contra produtos importados. A OMC, baseada no <em>Acordo Geral Sobre Tarifas e Com\u00e9rcio<\/em> de 1948, sempre atuou para favorecer a exporta\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses imperialistas, sob a hegemonia norte-americana, \u00e0s semicol\u00f4nias no contexto da nova divis\u00e3o mundial do trabalho do p\u00f3s-segunda guerra mundial.<\/p>\n<p><strong>Trump busca uma sa\u00edda para a crise econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n<p>Isso acontece em um momento em que a economia norte-americana tem um bom desempenho, assim como as economias dos principais pa\u00edses imperialistas. O PIB est\u00e1 apresentando resultados positivos ano ap\u00f3s ano, por\u00e9m oscilantes em torno a 2% e abaixo dos \u00edndices pr\u00e9-crise.<\/p>\n<p>A previs\u00e3o para 2018 gira em torno de 3% (2,3% em 2017), enquanto para as economias avan\u00e7adas (segundo classifica\u00e7\u00e3o do FMI) \u00e9 de 2,5% (2,3% em 2017). Mas este n\u00e3o \u00e9 o sinal de uma arrancada do crescimento e sim do esgotamento de mais um ciclo de expans\u00e3o e a entrada em um novo ciclo recessivo.<\/p>\n<p>O Banco Mundial prev\u00ea uma queda do crescimento a partir de 2019, com o PIB mundial sendo reduzido de 3,8% em 2017 para 2,9% em 2020. A previs\u00e3o do FMI para os Estados Unidos \u00e9 de redu\u00e7\u00e3o do crescimento para 1,9% em 2020 e a manuten\u00e7\u00e3o do encolhimento nos anos seguintes. As economias avan\u00e7adas seguem o mesmo padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o Banco Mundial em seu relat\u00f3rio <em>Global Economic<\/em> Prospects (Perspectivas da Economia Global), \u201c<em>apesar da expans\u00e3o global em andamento, espera-se que apenas 45% dos pa\u00edses tenham uma acelera\u00e7\u00e3o do crescimento este ano, contra 56% em 2017. Al\u00e9m disso, a atividade global ainda \u00e9 menor que a expans\u00e3o anterior [\u00e0 crise econ\u00f4mica mundial], apesar de uma d\u00e9cada de recupera\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. Isto \u00e9, o Banco Mundial reconhece que, apesar dos ciclos curtos de expans\u00e3o e contra\u00e7\u00e3o, a tend\u00eancia de crescimento econ\u00f4mico mais lento no longo prazo se mant\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 neste cen\u00e1rio de nova contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que os pa\u00edses imperialistas buscam uma sa\u00edda que favore\u00e7a suas burguesias, onde os Estados Unidos buscam readquirir sua hegemonia, agora questionada pelo crescimento da China e pelo fortalecimento da Alemanha e Fran\u00e7a atrav\u00e9s da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m lembrar que os Estados Unidos n\u00e3o est\u00e3o sozinhos nessa pol\u00edtica isolacionista. A Gr\u00e3-Bretanha est\u00e1 tentando dar forma ao Brexit, a sa\u00edda da Uni\u00e3o Europeia, em meio a crises pol\u00edticas intermin\u00e1veis, e o novo governo italiano promete seguir pelo mesmo caminho. \u00c9 o \u201ccada um por si\u201d tomando corpo contra os anos de coopera\u00e7\u00e3o entre estes ladr\u00f5es do resto do mundo. Entidades como a ONU e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) come\u00e7am a apresentar sinais de satura\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que n\u00e3o conseguem estabelecer uma pol\u00edtica comum entre os pa\u00edses imperialistas.<\/p>\n<p><strong>O esgotamento da pol\u00edtica econ\u00f4mica anterior<\/strong><\/p>\n<p>O imperialismo enfrentou a crise econ\u00f4mica iniciada em 2008-2009, por um lado, com o ataque \u00e0s conquistas obtidas pelos trabalhadores, em uma guerra social permanente em todo o mundo. Por outro, com uma pol\u00edtica fiscal chamada de <em>quantitave easing<\/em>, para possibilitar cr\u00e9dito a juros baixos para as ind\u00fastrias, evitando uma bancarrota total. O salvamento de grandes empresas e a isen\u00e7\u00e3o de todo tipo de impostos para as ind\u00fastrias \u00e9 um complemento dessa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, por exemplo, o Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, comprou t\u00edtulos do tesouro no valor de US$ 2 trilh\u00f5es, injetando dinheiro suficiente no caixa do governo para manter o cr\u00e9dito barato nos anos seguintes. A Uni\u00e3o Europeia aplicaria a mesma pol\u00edtica alguns anos depois.<\/p>\n<p>Estas duas pol\u00edticas n\u00e3o conseguiram acabar com a crise de longa dura\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores e os povos resistiram, e continuam resistindo, causando processos revolucion\u00e1rios no norte da \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio, na Ucr\u00e2nia e na Nicar\u00e1gua; grandes mobiliza\u00e7\u00f5es, que atingiram a Am\u00e9rica Latina, os pa\u00edses perif\u00e9ricos da Uni\u00e3o Europeia (Portugal, Espanha, Gr\u00e9cia) e mesmo os Estados Unidos; e greves importantes em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, o Fed acabou com a pol\u00edtica de <em>quantitative easing<\/em> no fim de 2014, resultando em um aumento da taxa de juros. As empresas aproveitaram os tempos de juros baixos para fazer empr\u00e9stimos que, segundo Michael Roberts<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, geraram d\u00edvidas de cerca de US$ 14,5 trilh\u00f5es (2017), que implicam em pagamentos de servi\u00e7os da d\u00edvida ao redor de US$ 3,8 trilh\u00f5es ao ano. O aumento das taxas de juros pelo Fed pode criar-lhes dificuldades adicionais.<\/p>\n<p><strong>Investimentos produtivos ou especulativos?<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m do endividamento, a lucratividade do setor produtivo vem sofrendo quedas cont\u00ednuas ao longo dos anos, tornando-se cada vez menos atraente ao investimento. Segundo Michael Roberts, no artigo j\u00e1 citado, os lucros das 500 maiores ind\u00fastrias norte-americanas aumentaram em 6% no primeiro trimestre de 2018, principalmente devido \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de impostos feita pelo governo. Sem esta redu\u00e7\u00e3o, houve uma queda de 0,6% naquele trimestre, que seguiu uma queda de 0,1% no quarto trimestre de 2017. Segundo ele, \u201ca lucratividade m\u00e9dia das economias do G7 permanece abaixo dos n\u00edveis pr\u00e9-crise mesmo depois de 10 anos de recupera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 baixa lucratividade, o capital sai do investimento produtivo e vai buscar lucros fict\u00edcios na especula\u00e7\u00e3o financeira. Um dos pa\u00edses onde este movimento \u00e9 mais acentuado, a Gr\u00e3-Bretanha, tem uma das maiores quedas da taxa de produtividade<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> entre os pa\u00edses do G7. Passou de uma taxa m\u00e9dia anual de 2,2% antes de 2007 para 0,2% entre esse ano e 2017. Apenas a It\u00e1lia apresentou um desempenho da taxa de produtividade pior que a Gr\u00e3-Bretanha. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que estes dois pa\u00edses estejam procurando sa\u00eddas isolacionistas.<\/p>\n<p>Com os Estados Unidos se d\u00e1 a mesma tend\u00eancia de aumento de capital e lucro fict\u00edcios em detrimento do investimento no setor produtivo, embora a queda de sua taxa de produtividade tenha sido a menor no G7. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que esta tend\u00eancia tenha se acentuado com a pol\u00edtica de <em>quantitative easing<\/em>. Ela foi capaz de evitar um colapso no auge da crise, mas s\u00f3 para empurrar o problema para frente e, talvez, aument\u00e1-lo, pois a quantidade enorme de capital fict\u00edcio torna mais dif\u00edcil o aumento da taxa de lucro no setor produtivo.<\/p>\n<p><strong>A guerra comercial e guerra social<\/strong><\/p>\n<p>A guerra comercial \u00e9 apenas um aspecto da pol\u00edtica do setor da burguesia que est\u00e1 perdendo terreno no mercado mundial e que tem em Trump seu principal representante. Ela \u00e9, na verdade, um componente de aprofundamento da guerra social em curso. Se a escalada de sobretaxas e retalia\u00e7\u00f5es continuar, as barreiras alfandeg\u00e1rias poder\u00e3o causar o fechamento de empresas e a perda de milh\u00f5es de postos de trabalho, que levar\u00e1 \u00e0 redu\u00e7\u00e3o salarial pelo aumento da concorr\u00eancia entre os trabalhadores na busca de emprego. A consequ\u00eancia ser\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o ainda maior do capital, o aumento do poder dos monop\u00f3lios e o aumento da desigualdade social existente no mundo.<\/p>\n<p>Trump tenta amenizar este efeito sobre seu eleitorado da classe oper\u00e1ria branca transformando toda sua xenofobia, racismo e machismo em pol\u00edtica oficial do pa\u00eds. Mas tampouco este setor escapar\u00e1. O aumento da explora\u00e7\u00e3o sempre atinge o conjunto dos trabalhadores e \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que o setor produtivo volte a ser atraente para o capital em sua busca de lucro m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>A maioria da burguesia norte-americana e mundial prega que a sa\u00edda \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o da velha coopera\u00e7\u00e3o entre as na\u00e7\u00f5es imperialistas e suas entidades mundiais de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Os partidos reformistas de todos os tipos e a burocracia sindical dizem o mesmo, pois esta coopera\u00e7\u00e3o pac\u00edfica \u00e9 o melhor cen\u00e1rio para a aplica\u00e7\u00e3o de sua pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o de classes. Por\u00e9m, a hist\u00f3ria j\u00e1 mostrou que dela s\u00f3 podemos esperar o aprofundamento da mis\u00e9ria em que a grande maioria da humanidade vive hoje.<\/p>\n<p>Como diz Lenin em <em>Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo<\/em>, \u201cquando uma grande empresa assume propor\u00e7\u00f5es gigantescas e, atrav\u00e9s de c\u00e1lculos precisos, organiza o suprimento de mat\u00e9rias primas&#8230; de tudo que \u00e9 necess\u00e1rio para dezenas de milh\u00f5es de pessoas; &#8230; quando um \u00fanico centro administra todos os est\u00e1gios de processamento de material para a manufatura de todo tipo de produtos, que s\u00e3o distribu\u00eddos de acordo com um planejamento \u00fanico para centenas de milh\u00f5es de consumidores \u2013 ent\u00e3o fica evidente que temos socializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o&#8230; e que as rela\u00e7\u00f5es de propriedade privada constituem uma casca sem nenhum conte\u00fado&#8230; mas que ser\u00e1 inevitavelmente removida\u201d pela revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. N\u00e3o ser\u00e1 a amea\u00e7a de uma guerra comercial que impedir\u00e1 a classe oper\u00e1ria de completar essa tarefa iniciada pela revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2018\/06\/10\/trumps-tantrums-and-the-world-economy\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> A taxa de produtividade \u00e9 obtida pela divis\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o nacional pelo n\u00famero total de horas trabalhadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00f3s somos como o cofrinho do qual todo mundo est\u00e1 roubando; mas isto acabou\u201d. 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