{"id":23356,"date":"2018-06-19T19:04:31","date_gmt":"2018-06-19T21:04:31","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23356"},"modified":"2018-06-19T19:04:31","modified_gmt":"2018-06-19T21:04:31","slug":"onda-feminista-a-classe-trabalhadora-tambem-deve-tomar-essa-luta-em-suas-maos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/06\/19\/onda-feminista-a-classe-trabalhadora-tambem-deve-tomar-essa-luta-em-suas-maos\/","title":{"rendered":"Onda Feminista: a classe trabalhadora tamb\u00e9m deve tomar essa luta em suas m\u00e3os"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>As estudantes mostram o caminho<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>As estudantes colocaram na mesa o mal-estar com os casos de ass\u00e9dio e abuso sexual que at\u00e9 agora tinham sido naturalizados. Obrigaram-nos a conversar sobre esses problemas, e, al\u00e9m disso, sobre os protestos sem camiseta e como devemos reagir diante de casos de ass\u00e9dio.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: MIT Chile<\/p>\n<p>Muitos homens agora ter\u00e3o presente em suas cabe\u00e7as todo esse mal-estar das mulheres antes de dar alguma cantada na rua ou assedi\u00e1-las. As estudantes nos ensinam que n\u00e3o podemos seguir caladas\/os: devemos lutar para ser escutadas para que respondam nossas exig\u00eancias. Isso deixaram claro na manifesta\u00e7\u00e3o do dia 6 de junho.<\/p>\n<p><strong>Como o machismo afeta as mulheres trabalhadoras?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que tanto os trabalhadores como as trabalhadoras sofrem os problemas de empregos inst\u00e1veis, sal\u00e1rios que n\u00e3o s\u00e3o suficientes para viver, jornadas de trabalho esgotadoras. Em conclus\u00e3o, somos todos\/as explorados\/as por nossos patr\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, as mulheres trabalhadoras vivem essa realidade de forma mais crua e \u00e9 a\u00ed onde se reflete o machismo: recebemos sal\u00e1rios menores que um homem pelo mesmo trabalho, temos aposentadorias mais baixas, temos uma dupla jornada de trabalho devido \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas. Al\u00e9m disso, sofremos a viol\u00eancia de nossos pr\u00f3prios pares trabalhadores: o ass\u00e9dio sexual, o tratamento como empregadas, ou n\u00edveis mais b\u00e1rbaros como casos de estupro ou viol\u00eancia f\u00edsica\/feminic\u00eddios.<\/p>\n<p><strong>Mulheres, o g\u00eanero nos une, a classe nos divide<\/strong><\/p>\n<p>A realidade das trabalhadoras \u00e9 diferente da realidade das empres\u00e1rias e das mulheres ricas. \u00c9 verdade que o machismo afeta desde as mulheres trabalhadoras e pobres at\u00e9 as empres\u00e1rias, mas \u00e9 ainda mais verdadeiro que existem mulheres que abusam, discriminam e exploram n\u00e3o apenas outras mulheres, mas crian\u00e7as e homens. <strong>N\u00e3o s\u00f3 por ser mulher significa que s\u00e3o todas aliadas na luta.<\/strong><\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 Evelyn Matthei, que disse que \u201capoia\u201d a luta das mulheres. No entanto, isso \u00e9 hipocrisia, porque foi ela que despediu cerca de 70 professoras e professores da comuna de Providencia, foi ela que durante a ditadura de Pinochet foi chefa de Estudos da Superintend\u00eancia das AFPs (Administradoras dos Fundos de Pens\u00e3o), fazendo neg\u00f3cios com aposentadorias de mulheres e homens e defendendo um regime ditatorial que matou e torturou a homens e mulheres.<\/p>\n<p>As mulheres da Nova Maioria (ex-coaliza\u00e7\u00e3o de \u201cesquerda\u201d que estava no governo \u2013 Partido Socialista e Partido Comunista) tamb\u00e9m n\u00e3o salvam: Bachelet imp\u00f4s a reforma trabalhista que atacou o direito de greve e os sindicatos de trabalhadoras e trabalhadores, seu governo reprimiu tanto mulheres como homens mapuche etc.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o \u00e9 verdade que quanto mais mulheres estejam no poder, melhores ser\u00e3o nossas condi\u00e7\u00f5es de vida, j\u00e1 que a situa\u00e7\u00e3o segue igual ou pior para as trabalhadoras e seus filhos\/as.<\/p>\n<p><strong>Os verdadeiros respons\u00e1veis de perpetuar o machismo<\/strong><\/p>\n<p>Um conjunto de institui\u00e7\u00f5es do sistema reproduz a ideia de que as mulheres s\u00e3o inferiores ou s\u00e3o objetos sexuais: as escolas, as universidades, a igreja, os meios de comunica\u00e7\u00e3o, as leis e o parlamento que as aplica e defende os governos etc. \u00c9 imposs\u00edvel que acabe o machismo se n\u00e3o transformamos essas institui\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que elas s\u00e3o as que reproduzem as opress\u00f5es.<\/p>\n<p>A Igreja, por exemplo, segue defendendo a ideia de que a mulher \u00e9 propriedade do marido e a coloca em um lugar secund\u00e1rio na fam\u00edlia, ou mesmo as leis e tribunais, que ainda defendem que as mulheres ganhem sal\u00e1rios mais baixos.<\/p>\n<p>Necessitamos leis e uma nova educa\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o das trabalhadoras e dos trabalhadores que n\u00e3o s\u00f3 estejam contra o machismo, mas tamb\u00e9m contra a explora\u00e7\u00e3o e outros tipos de discrimina\u00e7\u00e3o. Por isso, n\u00e3o basta apenas trocar as pessoas que est\u00e3o dirigindo essas institui\u00e7\u00f5es. Temos que destruir na raiz o objetivo das mesmas para poder assentar as bases concretas para uma transforma\u00e7\u00e3o cultural total.<\/p>\n<p>No entanto, por que n\u00e3o \u00e9 suficiente fazer pequenas mudan\u00e7as nessas institui\u00e7\u00f5es? Por que n\u00e3o \u00e9 suficiente fazer algumas mudan\u00e7as nas leis e outras coisas como as que prop\u00f5em a Frente Ampla? Por que \u00e9 necess\u00e1rio destruir estas institui\u00e7\u00f5es? Para dar essa resposta, antes \u00e9 necess\u00e1rio identificar quem s\u00e3o os respons\u00e1veis por reproduzir o machismo.<\/p>\n<p>Os interesses do empres\u00e1rio v\u00e3o sempre no sentido de aumentar seu lucro. Para isso, reduzem custos de qualquer forma e se armam com uma s\u00e9rie de institui\u00e7\u00f5es que lhes permitam chegar a seu objetivo. Por isso as leis, os tribunais, o parlamento est\u00e3o ao seu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Manter um setor da classe trabalhadora em desvantagem (oprimidos) conv\u00e9m aos empres\u00e1rios e empres\u00e1rias para reduzir ainda mais os sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Al\u00e9m disso, com as opress\u00f5es conseguem nos dividir como classe: nos transformam em machistas, xenof\u00f3bicos ou racistas para assim impedir que tenhamos identidade como classe trabalhadora e possamos em conjunto enfrent\u00e1-los.<\/p>\n<p><strong>Por que a classe trabalhadora tamb\u00e9m deve tomar em suas m\u00e3os a luta contra o machismo?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Porque as trabalhadoras s\u00e3o afetadas da pior forma pelo machismo e por isso devemos estar nas primeiras fileiras da luta;<\/p>\n<p>&#8211; Porque Pi\u00f1era, em sua \u201cagenda de g\u00eanero\u201d, prop\u00f4s medidas enganadoras, como aumento de creches, que seriam financiadas pelos (as) pr\u00f3prios (as) trabalhadores (as). Ou ataques diretos, ao propor aumentar a contribui\u00e7\u00e3o dos homens trabalhadores para as Isapres (Planos de sa\u00fade) no sentido de eliminar a desigualdade de contribui\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>&#8211; Porque os patr\u00f5es e governos utilizam a opress\u00e3o para explorar ainda mais as mulheres.<\/p>\n<p>&#8211; Porque sabemos que com Pi\u00f1era ou outro governo que defenda os empres\u00e1rios nunca haver\u00e1 igualdade entre mulheres e homens. Para transformar as institui\u00e7\u00f5es e tirar os empres\u00e1rios que se beneficiam das opress\u00f5es necessitamos tamb\u00e9m que os homens trabalhadores abandonem seus privil\u00e9gios machistas e lutem do nosso lado.<\/p>\n<p>\u00c0 luta contra o ass\u00e9dio e o abuso sexual, devemos incorporar a luta pelo fim da desigualdade salarial entre homens e mulheres, contra a redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento de sa\u00fade que realizou Pi\u00f1era, sendo a maior redu\u00e7\u00e3o na Fonasa (servi\u00e7o p\u00fablico), contra sua inten\u00e7\u00e3o de modificar a Reforma Trabalhista para impedir ainda mais que as greves paralisem a produ\u00e7\u00e3o, por sal\u00e1rios dignos, pelo fim das AFPs, que roubam tanto as mulheres como os homens, uma luta que exija que as tarefas dom\u00e9sticas sejam tomadas pelo Estado, por um or\u00e7amento de emerg\u00eancia para prevenir e combater a viol\u00eancia contra as mulheres e que seja financiado com o dinheiro que levam os empres\u00e1rios do cobre e das AFPs.<\/p>\n<p>Para isso, \u00e9 indispens\u00e1vel que:<\/p>\n<p>&#8211; Como primeiro passo os sindicatos tamb\u00e9m comecem a discutir esses problemas e incorporem estas exig\u00eancias em suas mobiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Isso deve ser replicado nos bairros e associa\u00e7\u00f5es de moradores.<\/p>\n<p>&#8211; Enviar solidariedade efetiva \u00e0s estudantes mobilizadas. Se avan\u00e7armos na prepara\u00e7\u00e3o de uma greve geral que assuma essas reivindica\u00e7\u00f5es o movimento ter\u00e1 mais peso e apoio concreto.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Exemplos hist\u00f3ricos<\/strong><\/p>\n<p>Hoje se fala muito da luta feminista. \u00c9 verdade que atrav\u00e9s das ondas feministas \u2013 que foram processos de luta das mulheres contra o machismo \u2013 tivemos importantes conquistas. Na primeira onda conquistamos o direito ao voto, na segunda onda, lutamos por creches, aborto livre, igualdade de acesso ao trabalho e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Essas lutas deixaram importantes conquistas e ensinamentos.<\/p>\n<p>No entanto, um dos processos que teve mais conquistas e liberta\u00e7\u00e3o, tanto para a mulher como para a humanidade, foi a Revolu\u00e7\u00e3o Russa (RR), um processo que partiu com mulheres oper\u00e1rias t\u00eaxteis \u00e0 frente. N\u00e3o \u00e9 um exagero dizer que na Revolu\u00e7\u00e3o Russa o governo oper\u00e1rio fez pelas mulheres muito mais que os pa\u00edses capitalistas em todos os tempos.<\/p>\n<p>A nova Constitui\u00e7\u00e3o estabeleceu que as mulheres tivessem direitos iguais aos homens em todos os terrenos da vida. Em 1918 foi regulamentada a igualdade salarial entre homens e mulheres e esse Estado foi o primeiro a coloc\u00e1-la em pr\u00e1tica. Al\u00e9m disso, em 1918 foi aprovado um novo C\u00f3digo da Fam\u00edlia, que foi o mais avan\u00e7ado de todos os tempos e que instituiu o matrimonio civil e simplificou ao m\u00e1ximo o div\u00f3rcio. Foi aprovado o aborto livre e gratuito.<\/p>\n<p>As mulheres prostitutas n\u00e3o foram criminalizadas e foram tomadas medidas para resolver as causas que as obrigavam a prostituir-se: eram atendidas de forma gratuita nos hospitais e havia pol\u00edticas para elevar seu n\u00edvel cultural e suas possibilidades de emprego, o que fez com que a prostitui\u00e7\u00e3o desaparecesse. Uma das primeiras realiza\u00e7\u00f5es do Estado oper\u00e1rio foi a socializa\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>O Estado se tornou respons\u00e1vel pelas creches, lavanderias e restaurantes populares. Tudo isso se deu no contexto de uma profunda transforma\u00e7\u00e3o na qual a sociedade estava ao servi\u00e7o das trabalhadoras e trabalhadores e n\u00e3o dos empres\u00e1rios que exploram e lucram com nossos direitos. Isso retrocedeu com a derrota da revolu\u00e7\u00e3o socialista em outros pa\u00edses e com o governo do ditador Joseph Stalin, terminando depois de algumas d\u00e9cadas na restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa foi uma experi\u00eancia muito enriquecedora, pois mostrou que a luta do conjunto da classe oper\u00e1ria com um projeto claro foi capaz de derrotar os governos empresariais e obter conquistar muito mais profundas em compara\u00e7\u00e3o com a luta apenas das mulheres. Por isso \u00e9 central que a classe trabalhadora tome essa luta em suas m\u00e3os. Temos que retomar esse caminho.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: David Espinosa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As estudantes mostram o caminho As estudantes colocaram na mesa o mal-estar com os casos de ass\u00e9dio e abuso sexual que at\u00e9 agora tinham sido naturalizados. 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