{"id":23341,"date":"2018-06-18T15:43:41","date_gmt":"2018-06-18T17:43:41","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23341"},"modified":"2018-06-18T15:43:41","modified_gmt":"2018-06-18T17:43:41","slug":"1948-1968-vinte-anos-de-estalinismo-em-praga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/06\/18\/1948-1968-vinte-anos-de-estalinismo-em-praga\/","title":{"rendered":"1948-1968: vinte anos de estalinismo em Praga"},"content":{"rendered":"<p><strong>1. A conquista do poder pelo Partido Comunista Checoslovaco em 1948<\/strong><\/p>\n<p><em>No contexto das duas guerras mundiais entre os pa\u00edses do Leste Europeu, a Checoslov\u00e1quia destacou-se pelo mais moderno desenvolvimento industrial e por uma classe oper\u00e1ria avan\u00e7ada.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Salvatore de Lorenzo<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os acordos de M\u00f4naco de 1938, assinados pela Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Reino Unido e Alemanha, Hitler invadiu a Checoslov\u00e1quia, ocupando as regi\u00f5es fronteiri\u00e7as da Bo\u00eamia e Mor\u00e1via.<\/p>\n<p>O Partido Comunista da Checoslov\u00e1quia (PCCH), fundado em 1921 por uma cis\u00e3o do Partido Socialdemocrata checoslovaco e adepto \u00e0 Terceira Internacional, deu uma importante contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 resist\u00eancia popular antinazista, aumentando progressivamente sua influ\u00eancia sobre a classe trabalhadora. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que era bem vista pelas massas populares checoslovacas por n\u00e3o ter aderido aos acordos de M\u00f4naco, obteve maior prest\u00edgio gra\u00e7as \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho para a expuls\u00e3o dos nazistas da Checoslov\u00e1quia, sendo esquecido, assim, o pacto inicial entre Stalin e Hitler. Portanto, essas pol\u00edticas produziram um aumento significativo no n\u00famero de membros do PCCH a partir de 1945.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito dos acordos de partilha de Yalta-Potsdam de 1945, a Checoslov\u00e1quia deveria retornar \u00e0 esfera de influ\u00eancia da URSS. Por esta raz\u00e3o, a viagem do presidente checoslovaco Bene\u0161 a Moscou, em mar\u00e7o de 1945, serviu para definir um governo de Frente Nacional, sob a lideran\u00e7a do socialdemocrata Fierlinger, tendo como vice-presidente o estalinista Gottwald. O governo estabeleceu-se temporariamente em Ko\u0161ice em 4 de abril e p\u00f4de ser transferido para Praga em 10 de maio, um dia ap\u00f3s a cidade ter sido libertada dos nazistas pelo Ex\u00e9rcito Vermelho<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Em 24 de outubro de 1945, o governo iniciou a nacionaliza\u00e7\u00e3o de bancos, companhias de seguros, fundi\u00e7\u00f5es, minas e f\u00e1bricas com mais de quinhentos trabalhadores. Dois milh\u00f5es de hectares de terra foram expropriados dos latifundi\u00e1rios e distribu\u00eddos a 170 mil pequenos agricultores<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>No ano seguinte, os comunistas ganharam as elei\u00e7\u00f5es com 38% dos votos (43% na Bo\u00eamia [atual regi\u00e3o da Rep\u00fablica Checa])<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, Gottwald tornou-se primeiro-ministro e, ao longo dos anos 1946-47, as obras de nacionaliza\u00e7\u00e3o de empresas, incluindo pequenas ind\u00fastrias t\u00eaxteis, e a distribui\u00e7\u00e3o de terras continuaram. Por causa da interven\u00e7\u00e3o de Stalin, a Checoslov\u00e1quia tamb\u00e9m se recusou-se a se juntar aos pa\u00edses que participaram do plano Marshall.<\/p>\n<p>O objetivo do PCCH era apoderar-se de qualquer maneira das chaves de controle do aparato do Estado, e para isso era necess\u00e1rio que os demais partidos pol\u00edticos da Frente Nacional tivessem um peso insignificante na frente eleitoral. Esta opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o era t\u00e3o f\u00e1cil, uma vez que o Partido Socialdemocrata tentou opor-se \u00e0 hegemonia do PCCH, nomeando para a dire\u00e7\u00e3o do partido, em 1947, o centrista Lau\u0161man, em substitui\u00e7\u00e3o a Fierlinger, partid\u00e1rio da fus\u00e3o da socialdemocracia com o PCCH<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. No entanto, com consider\u00e1vel apoio na classe oper\u00e1ria e o controle dos minist\u00e9rios mais importantes, incluindo o Minist\u00e9rio do Interior e o da Informa\u00e7\u00e3o, o PCCH iniciou a constitui\u00e7\u00e3o de uma mil\u00edcia oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na primeira crise do governo, as mil\u00edcias oper\u00e1rias entraram em a\u00e7\u00e3o: reuni\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es imponentes foram organizadas pelas ruas de Praga e, gra\u00e7as ao apoio do Minist\u00e9rio do Interior, entraram nas r\u00e1dios, edif\u00edcios p\u00fablicos, embaixadas, e fecharam as fronteiras, o que obrigou a Bene\u0161 a aceitar as ren\u00fancias apresentadas pelos ministros n\u00e3o-comunistas<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Com esta demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, em seguida, o Parlamento aprovou por unanimidade a apresenta\u00e7\u00e3o de uma chapa \u00fanica para as elei\u00e7\u00f5es ulteriores, de 30 de maio de 1948. A farsa eleitoral logrou uma percentagem de aprova\u00e7\u00e3o de 89,3% a favor da chapa \u00fanica contra os restantes votos em branco. Gottwald sucedeu o presidente Bene\u0161 e o dirigente do PCCH, Z\u00e1potock\u00fd, tornou-se chefe do governo. No m\u00eas de junho, os socialdemocratas fundiram-se aos comunistas que, neste \u00ednterim, tinham elegido Sl\u00e1nsk\u00fd como dirigente.<\/p>\n<p>Muitos historiadores, inclusive da esquerda, tendem a definir este passo crucial na hist\u00f3ria da Checoslov\u00e1quia como um golpe de Estado. Do meu ponto de vista, esta \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o err\u00f4nea: se o PCCH n\u00e3o possu\u00edsse o forte apoio da classe trabalhadora, esse \u201cexagero\u201d parlamentar em torno da forma\u00e7\u00e3o de uma chapa \u00fanica eleitoral hegemonizada pelo Partido Comunista n\u00e3o seria poss\u00edvel ou teria sido muito mais complicado. O PCCH usufruiu habilmente do consentimento da classe oper\u00e1ria e dos camponeses, gra\u00e7as \u00e0s pol\u00edticas socialistas de nacionaliza\u00e7\u00e3o das empresas e expropria\u00e7\u00e3o gradual de terras, para armar a classe oper\u00e1ria e alcan\u00e7ar o poder.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que esse poder n\u00e3o serviu ao PCCH para instaurar a ditadura do proletariado, mas para erigir um Estado burocr\u00e1tico, autorit\u00e1rio e policial, fiel aliado da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, mas \u00e9 uma verdade que deve ser conhecida, e foi elucidada, infelizmente, somente nos anos seguintes.<\/p>\n<p><strong>2. O clima de terror dos anos cinquenta<\/strong><\/p>\n<p>Se, na R\u00fassia de 1917, a degenera\u00e7\u00e3o do Estado oper\u00e1rio em um Estado burocr\u00e1tico foi resultado de uma s\u00e9rie de fatores hist\u00f3ricos, pol\u00edticos e econ\u00f4micos (o atraso do aparato industrial em um pa\u00eds principalmente agr\u00edcola, o alto \u00edndice de analfabetismo das massas, a derrota das revolu\u00e7\u00f5es sociais na Europa), n\u00e3o havia, na Checoslov\u00e1quia, nenhuma raz\u00e3o pela qual a tomada do poder pelo PCCH desse lugar a um desvio burocr\u00e1tico e autorit\u00e1rio da \u201cdemocracia popular\u201d checoslovaca.<\/p>\n<p>A Checoslov\u00e1quia tinha um dos sistemas industriais mais avan\u00e7ados da Europa Oriental e uma classe oper\u00e1ria de longa tradi\u00e7\u00e3o. A tomada do poder pelo Partido Comunista e a possibilidade, gra\u00e7as \u00e0 nova configura\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica estabelecida ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, de desenvolver rela\u00e7\u00f5es comerciais com outros pa\u00edses \u201csocialistas\u201d deveriam facilitar o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e aumentar o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o. Mas este desenvolvimento seria poss\u00edvel se a ditadura do proletariado, isto \u00e9, o governo democr\u00e1tico da classe oper\u00e1ria fosse concretizado por meio do desenvolvimento de uma economia centralizada, regulada pela interven\u00e7\u00e3o dos delegados dos comit\u00eas de f\u00e1brica, democraticamente eleitos e revog\u00e1veis, como ensinado por Lenin e na hist\u00f3ria da Comuna de Paris.<\/p>\n<p>No entanto, a constru\u00e7\u00e3o do socialismo na Checoslov\u00e1quia se chocaria com os interesses de um Estado, o sovi\u00e9tico, que se degenerara completamente num Estado burocr\u00e1tico e autorit\u00e1rio, e cujo principal objetivo era preservar os interesses e os enormes privil\u00e9gios de um aparato burocr\u00e1tico parasit\u00e1rio, que se elevara acima das classes sociais. O desenvolvimento de uma verdadeira democracia oper\u00e1ria, em qualquer pa\u00eds da \u00e1rea de influ\u00eancia da URSS, teria exposto todas as contradi\u00e7\u00f5es desse aparato burocr\u00e1tico parasit\u00e1rio, que, no entanto, saiu fortalecido da Segunda Guerra Mundial. Esta \u00e9 a principal raz\u00e3o pela qual o PCCH deveria, de acordo com a vontade dos estalinistas sovi\u00e9ticos, assumir as mesmas regras de controle da sociedade checoslovaca que o PCUS tinha implementado na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Por um lado, era necess\u00e1rio, portanto, desenvolver um clima de terror para eliminar as inevit\u00e1veis fontes de dissid\u00eancia pol\u00edtica com a linha do Partido. Por outro lado, era necess\u00e1rio desenvolver ao mais alto n\u00edvel um aparato burocr\u00e1tico e policial capaz de controlar o funcionamento do Estado e da economia.<\/p>\n<p>Os l\u00edderes do PCCH, liderados pelo estalinista Gottwald, dedicaram-se a criar um clima de terror. Por meio da farsa dos processos, das torturas e cal\u00fanias, tanto o PCCH como as for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o foram \u201climpos\u201d de todos aqueles elementos que poderiam representar uma potencial fonte de dissid\u00eancia com o pensamento \u00fanico do aparato do partido. N\u00e3o apenas os trotskistas, como Z\u00e1vi\u0161 Kalandra<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, foram imediatamente eliminados, mas at\u00e9 mesmo os membros fi\u00e9is ao partido que mostraram d\u00e9beis sinais de autonomia ao inv\u00e9s de aplicarem mecanicamente as diretrizes impostas pelos sovi\u00e9ticos. O mais c\u00e9lebre dos falsos julgamentos envolveu, em 1952, o pr\u00f3prio Sl\u00e1nsk\u00fd, secret\u00e1rio do PCCH, e o ministro de Assuntos Exteriores, Clementis, que, acusados de \u201ctito\u00edsmo\u201d foram condenados \u00e0 morte ap\u00f3s serem obrigados a se declarar \u201ctraidores confessos\u201d. Junto a Novomesk\u00fd, Smrkovsk\u00fd, que foi o organizador das mil\u00edcias populares, e Svoboda, demitido do cargo de Ministro da Guerra. Estas s\u00e3o apenas as v\u00edtimas mais famosas do regime policial que governou a Checoslov\u00e1quia nos anos 1950 e que atingiu indiscriminadamente a todos os opositores, afetando pelo menos 40 mil pessoas<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>O desenvolvimento do aparato burocr\u00e1tico e policial envolveu as dire\u00e7\u00f5es dos sindicatos, institui\u00e7\u00f5es de ensino e organiza\u00e7\u00f5es estudantis. Os dirigentes das principais f\u00e1bricas do pa\u00eds foram eleitos pelo Partido e n\u00e3o pelos oper\u00e1rios, como representantes dos conselhos de f\u00e1brica. Paradoxalmente, tal Estado burocr\u00e1tico nem sequer precisou impor por lei a censura ou leis repressivas sobre as publica\u00e7\u00f5es; era suficiente que zelosos servidores p\u00fablicos do partido verificassem que artigos e quais informa\u00e7\u00f5es poderiam ser impressos \u201clivremente\u201d e quais n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>3. A crise econ\u00f4mica dos anos sessenta<\/strong><\/p>\n<p>A partir de 1949, o desenvolvimento da economia checoslovaca se deu por meio de planos econ\u00f4micos quinquenais. Um primeiro plano (1949-1953), que priorizou o crescimento da ind\u00fastria pesada, foi substitu\u00eddo em 1956 por um destinado a alcan\u00e7ar o equil\u00edbrio entre a ind\u00fastria pesada e a m\u00e9dia e completar a socializa\u00e7\u00e3o da terra e dos meios de produ\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um per\u00edodo de crescimento econ\u00f4mico sustentado at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 1960, houve uma queda na produ\u00e7\u00e3o industrial (o produto interno bruto passou de uma taxa de crescimento de 7%, em 1961, para -0,1% em 1963).<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica foi um dos principais fatores que criou uma primeira grande controv\u00e9rsia dentro do PCCH, entre os dirigentes que apoiavam a necessidade de uma reforma econ\u00f4mica e os conservadores. Este \u00e9 um dos principais elementos da discuss\u00e3o e da crise aberta no PCCH no in\u00edcio dos anos 1960 e que conduzir\u00e1 aos acontecimentos de Praga em 1968.<\/p>\n<p>Ota \u0160ik, um dos principais economistas do Partido, conduziu uma batalha interna para introduzir reformas econ\u00f4micas que, em seus projetos, deveriam mitigar os efeitos da planifica\u00e7\u00e3o e introduzir medidas para descentralizar a economia. Somente em 1968, ap\u00f3s a ren\u00fancia de Novotn\u00fd da dire\u00e7\u00e3o do Partido, ser\u00e3o aprovadas as reformas econ\u00f4micas de \u0160ik, mas na pr\u00e1tica n\u00e3o haver\u00e1 tempo para implement\u00e1-las. Em mar\u00e7o de 1968, \u0160ik, que pertencia \u00e0 velha guarda e fez parte desse imbr\u00f3glio no PCCH, ao lado de todo o grupo dirigente, acusar\u00e1 duramente Novotn\u00fd, agora fora dos jogos de poder, de estar \u201c<em>rodeado, durante anos, de camaradas leais (&#8230;) \u00c9 um fato que ele tinha excessivo poder no gerenciamento da elei\u00e7\u00e3o dos quadros. E especialmente dos quadros centrais (&#8230;). Tomemos, por exemplo, a agricultura. Certamente n\u00e3o era seu campo de trabalho, no entanto conseguiu impor a nomea\u00e7\u00e3o do camarada Mestek como ministro e a destitui\u00e7\u00e3o do camarada Burian (&#8230;) Em torno de uma pessoa com tanto poder como Novotn\u00fd, sempre estar\u00e1 dispon\u00edvel uma grande quantidade de carreiristas e bajuladores<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es da crise econ\u00f4mica, obviamente, n\u00e3o se encontram na centraliza\u00e7\u00e3o da economia planificada, como muitos historiadores burgueses querem fazer crer, mas nos m\u00e9todos burocr\u00e1ticos de sele\u00e7\u00e3o de quadros para o planejamento da economia e, \u00e9 claro, na situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica internacional. N\u00e3o sendo, de fato, a equipe dirigente das principais f\u00e1bricas selecionada pelos m\u00e9todos da democracia oper\u00e1ria, mas com base no crit\u00e9rio de fidelidade e servilismo aos interesses e privil\u00e9gios do grupo dirigente do PCCH, os dirigentes, incapazes no campo da tecnologia e da engenharia industrial, deixaram de lado a import\u00e2ncia dessas revolu\u00e7\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o industrial que, por sua vez, tinham sido utilizadas pelo sistema capitalista para permitir a moderniza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e melhorar a produtividade do trabalho nas f\u00e1bricas ocidentais.<\/p>\n<p>Deste ponto de vista, a an\u00e1lise posterior dos acontecimentos em Praga n\u00e3o pode deixar de convergir com o que Ernest Mandel escreveu em 1969<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>: \u201c<em>Como podemos agora negar que essa amea\u00e7a [de uma subvers\u00e3o do \u2018socialismo\u2019 na Checoslov\u00e1quia] deva ser considerada, pelo menos em parte, como o resultado desses vinte anos de experi\u00eancia; ou seja, em outras palavras, o regime Gottwald-Novotn\u00fd conduziu, ao menos em parte, a resultados desastrosos? N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil estabelecer com precis\u00e3o quais foram esses resultados. Eles s\u00e3o bem conhecidos e podem ser facilmente documentados. A r\u00edgida burocratiza\u00e7\u00e3o da vida social conduziu a um div\u00f3rcio quase completo entre a massa de pessoas que trabalhava \u2013 em primeiro lugar os trabalhadores \u2013 e aqueles que monopolizaram o exerc\u00edcio do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico. A participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores foi reduzida a praticamente nada, contrariando todos os ensinamentos de Marx e Lenin. Este div\u00f3rcio foi igualmente expresso nos campos t\u00e9cnico, cultural e ideol\u00f3gico. Uma burocracia altamente centralizada, sem criatividade e sem imagina\u00e7\u00e3o, \u2018perdeu o bonde\u2019 de in\u00fameras inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas chaves, levando a CSSR [Rep\u00fablica Socialista Checoslovaca] do n\u00edvel de um dos pa\u00edses tecnologicamente mais avan\u00e7ados da Europa e do mundo ao estado de um pa\u00eds que sofre de graves lacunas tecnol\u00f3gicas, n\u00e3o somente em rela\u00e7\u00e3o aos EUA e \u00e0 URSS, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias capitalistas da Europa ocidental (&#8230;). A crise da sociedade checoslovaca, revelada dramaticamente pela interven\u00e7\u00e3o dos poderes do Pacto de Vars\u00f3via, \u00e9 o resultado do sistema burocr\u00e1tico de gest\u00e3o, um resultado do regime de Gottwald-Novotn\u00fd<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Para resolver os problemas da economia, j\u00e1 em 1962, no XII Congresso do PCCH, \u0160ik sustentou, por um lado, a necessidade de uma renova\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, e, por outro, a necessidade de introduzir corre\u00e7\u00f5es ao sistema econ\u00f4mico planificado, baseadas tanto na maior liberdade e responsabilidade das empresas na elabora\u00e7\u00e3o de planos de investimento e de produ\u00e7\u00e3o, quanto na avalia\u00e7\u00e3o da produtividade das empresas com base na mercadoria efetivamente vendida. Essas reformas, por si s\u00f3, n\u00e3o significavam necessariamente um desvio da constru\u00e7\u00e3o do socialismo, mas constitu\u00edam uma cr\u00edtica ao sistema burocr\u00e1tico que at\u00e9 agora tinha conduzido a economia.<\/p>\n<p>Deste ponto de vista, \u00e9 muito interessante e aceit\u00e1vel a an\u00e1lise desenvolvida por Mandel<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, que, entre outras coisas, afirma: \u201c<em>\u00c9 sem d\u00favida verdade que cada passo importante rumo \u00e0 economia de mercado e \u00e0 descentraliza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es de investimento amea\u00e7a, a longo prazo, a natureza planificada da economia. Mas a amea\u00e7a n\u00e3o leva automaticamente \u00e0 sua concretiza\u00e7\u00e3o. Afinal, Lenin, ao introduzir a NEP em 1921, foi muito mais longe na dire\u00e7\u00e3o da economia de mercado do que qualquer uma das reformas econ\u00f4micas atualmente introduzidas na Europa Oriental. No final, a NEP amea\u00e7ou a base socializada da economia sovi\u00e9tica; mas essa amea\u00e7a foi resolvida pela industrializa\u00e7\u00e3o acelerada e a coletiviza\u00e7\u00e3o da agricultura, ou seja, n\u00e3o levou \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. Para avaliar o grau da amea\u00e7a e a forma de neutraliz\u00e1-la, \u00e9 necess\u00e1rio fazer uma an\u00e1lise concreta dos problemas da economia em um dado momento, de suas principais tend\u00eancias de desenvolvimento, e da rela\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as sociais, e n\u00e3o se limitar a declara\u00e7\u00f5es gerais sobre o perigo da economia de mercado<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Depois da invas\u00e3o de Praga pelos pa\u00edses do Pacto de Vars\u00f3via, muitos economistas e jornalistas burgueses vendidos lan\u00e7aram-se, instrumentalmente, contra a economia planificada, utilizando tamb\u00e9m a cr\u00edtica de \u0160ik \u00e0 economia planificada checoslovaca e as suas propostas quanto \u00e0 necessidade de descentraliza\u00e7\u00e3o. No entanto, \u00e9 evidente que os problemas da Checoslov\u00e1quia n\u00e3o estavam relacionados \u00e0 escolha de uma economia planificada, mas \u00e0 estrutura burocr\u00e1tica do Estado, que levou os elementos mais servis \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do partido, para ocupar postos de dire\u00e7\u00e3o e posi\u00e7\u00f5es privilegiadas de acordo com uma concep\u00e7\u00e3o de socialismo que nada tinha a ver com o racioc\u00ednio de Marx e de Lenin.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o governo de Dub\u010dek-\u0160ik teve uma curta dura\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o permite analisar como a pol\u00edtica econ\u00f4mica teria se desenvolvido e o que essa descentraliza\u00e7\u00e3o significaria na pr\u00e1tica. Neste sentido, a ideia de Mandel \u00e9 muito interessante<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>: \u201c<em>Nas condi\u00e7\u00f5es concretas da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica na CSSR de 1966 a 1968, um aumento da descentraliza\u00e7\u00e3o e um maior uso dos mecanismos de mercado no setor dos bens de consumo seria provavelmente inevit\u00e1vel para reorientar a economia com os principais objetivos de crescimento econ\u00f4mico harmonioso e acelerado. Mas esta n\u00e3o era a principal quest\u00e3o social envolvida nas reformas. A \u2018descentraliza\u00e7\u00e3o\u2019 pode significar duas coisas. Pode significar um fortalecimento do gerente da f\u00e1brica, tanto em termos de autoridade de planejamento como sobre os trabalhadores; tamb\u00e9m pode significar a concep\u00e7\u00e3o dos componentes do poder dos trabalhadores no n\u00edvel da f\u00e1brica. A primeira tend\u00eancia seria vista com extrema desconfian\u00e7a por parte dos trabalhadores, especialmente se implicasse o direito dos dirigentes de despedir trabalhadores, modificar os sal\u00e1rios, aumentar a \u2018disciplina do trabalho\u2019, etc. A segunda tend\u00eancia \u00e9 um primeiro passo na dire\u00e7\u00e3o da democracia socialista. Durante a maior parte de 1968, n\u00e3o estava claro para os trabalhadores checoslovacos qual dessas duas tend\u00eancias de reforma prevaleceria, e Dub\u010dek n\u00e3o foi de forma alguma identificado com esta \u00faltima. Restringiu-se a um jogo experimental, com conselhos de trabalhadores como elementos de \u2018cogest\u00e3o no n\u00edvel da f\u00e1brica\u2019<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>4. A pseudo-desestaliniza\u00e7\u00e3o do PCCH<\/strong><\/p>\n<p>Em 1953, Gottwald morreu e Z\u00e1potock\u00fd foi eleito presidente da Rep\u00fablica. Novotn\u00fd, um dos mais apaixonados acusadores de Sl\u00e1nsk\u00fd, converteu-se em secret\u00e1rio do PCCH. Em 1955, a Checoslov\u00e1quia adere ao Pacto de Vars\u00f3via. Embora os efeitos da desestaliniza\u00e7\u00e3o provocassem tremores pol\u00edticos em diferentes pa\u00edses do Pacto de Vars\u00f3via, na Checoslov\u00e1quia a continuidade do estalinismo n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o estava em discuss\u00e3o, como era exaltada, e com a morte de Z\u00e1potock\u00fd em 1957, foi designado o escrit\u00f3rio do Presidente da Rep\u00fablica ao secret\u00e1rio do PCCH, Novotn\u00fd, o homem mais fiel aos dogmas estalinistas.<\/p>\n<p>S\u00f3 mais tarde, a partir de 1962-1963, a partir das fissuras e diferen\u00e7as desenvolvidas no seio da dire\u00e7\u00e3o do PCCH como consequ\u00eancia da crise econ\u00f4mica, os intelectuais comunistas, em especial os escritores, come\u00e7aram a criticar \u2013 cada vez mais profundamente \u2013 a natureza repressiva, autorit\u00e1ria e intransigente do regime estalinista na Checoslov\u00e1quia. De fato, em 1962 foi concedida a revis\u00e3o da farsa dos processos dos anos 1950 e a reabilita\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, tomando cuidado para n\u00e3o fazer os dirigentes ainda vivos do partido, inclu\u00eddo o pr\u00f3prio Novotn\u00fd, pagarem pela responsabilidade que compartilharam com o defunto Gottwald, sobre quem descarregaram todas as culpas. E o processo de desestaliniza\u00e7\u00e3o foi firmemente rejeitado dentro do PCCH, tanto que o ex-ministro do Interior, Rudolf Barak, que tentou acelerar a reabilita\u00e7\u00e3o, foi condenado a 15 anos de pris\u00e3o, em 1962, sob acusa\u00e7\u00f5es difamat\u00f3rias de crimes comuns<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e0 medida que as fissuras no aparato do partido cresciam, os intelectuais, em sua maioria membros do PCCH, trabalharam ao lado dos dirigentes. A quest\u00e3o da falta de liberdade de express\u00e3o foi oficialmente desenterrada em 1963, quando, no Congresso de Escritores, foi solicitada e obtida \u2013 pode parecer um paradoxo \u2013 pelos pr\u00f3prios escritores a institui\u00e7\u00e3o do censor. De fato, existia um sistema de censura informal no pa\u00eds; isto \u00e9, n\u00e3o existia oficialmente, mas, na pr\u00e1tica cotidiana, a secretaria do partido decidia o que podia ser publicado e o que n\u00e3o, segundo diretivas que os escritores n\u00e3o conheciam: por isso que pediram, e conseguiram, que suas limita\u00e7\u00f5es fossem definidas com nitidez<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>A aparente abertura do Partido Comunista, ainda firmemente nas m\u00e3os de Novotn\u00fd, \u00e0s quest\u00f5es de liberdade de express\u00e3o, foi usada para espalhar uma fina camada de renova\u00e7\u00e3o a um aparato gangrenado que n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de se afastar. E a hipocrisia e arrog\u00e2ncia nessa renova\u00e7\u00e3o da burocracia governante podem ser captadas do pr\u00f3prio Novotn\u00fd que, em 1963, afirmou, a prop\u00f3sito da liberdade de imprensa: \u201c<em>a cr\u00edtica, para ser positiva, deve ser limitada a criticar alguns detalhes, acrescentando sempre uma avalia\u00e7\u00e3o positiva da situa\u00e7\u00e3o geral<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.<\/p>\n<p>E, j\u00e1 que o aparato n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de se afastar, desde 1964 come\u00e7ou a executar uma s\u00e9rie de medidas repressivas, especialmente contra o movimento estudantil, at\u00e9 1967, ano da queda de Novotn\u00fd. Al\u00e9m das medidas disciplinares contra economistas e acad\u00eamicos, o governo tentou normalizar a fermenta\u00e7\u00e3o que se desenvolvia no meio do movimento estudantil. Um dos epis\u00f3dios mais significativos de repress\u00e3o estudantil ocorreu em 1964, quando dois estudantes foram expulsos da universidade e inscritos no servi\u00e7o militar do ex\u00e9rcito por terem assumido a frente de um protesto contra o governo, contra a acomoda\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o da juventude checoslovaca, obviamente controlada pelo PCCH, ao governo e pela destitui\u00e7\u00e3o de C\u00edsa\u0159 como Ministro da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o de toda a din\u00e2mica, desde os problemas econ\u00f4micos e a revis\u00e3o dos processos dos anos 1950 at\u00e9 a quest\u00e3o da liberdade da imprensa, no entanto, j\u00e1 tinha criado uma fra\u00e7\u00e3o, que se opunha \u00e0 linha autorit\u00e1ria imposta por Novotn\u00fd e seus aliados, no interior do partido.<\/p>\n<p><strong>5. A ascens\u00e3o de <\/strong><strong>Dub\u010dek<\/strong><strong> e a queda de Novotn\u00fd<\/strong><\/p>\n<p>Em 1963, para dar a impress\u00e3o de uma vontade de renova\u00e7\u00e3o do partido, Novotn\u00fd nomeou Alexander Dub\u010dek como secret\u00e1rio do Partido Comunista eslovaco e substituiu o primeiro-ministro \u0160irok\u00fd por Len\u00e1rt. Como disse o pr\u00f3prio Novotn\u00fd: \u201cambos jovens e com as m\u00e3os limpas\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p>A crise se gestava dentro do Comit\u00ea Central do Partido Comunista, embora s\u00f3 tenha sido oficialmente aberta mais tarde, quando, em junho de 1967, no IV Congresso de Escritores, foi realizada uma profunda discuss\u00e3o sobre a liberdade de imprensa e uma forte cr\u00edtica \u00e0 censura do PCCH em rela\u00e7\u00e3o aos intelectuais. Novotn\u00fd e seus partid\u00e1rios reagiram imediatamente e, em setembro, alguns escritores, inclu\u00eddo Vaculik, foram expulsos do Partido, e outros, inclu\u00eddo Kundera, foram severamente repreendidos. As decis\u00f5es n\u00e3o foram tomadas por unanimidade, mas com v\u00e1rios votos contra, o que indica uma clara divis\u00e3o no Partido. Em outubro de 1967, de fato, Dub\u010dek come\u00e7ou a se distanciar de Novotn\u00fd, solicitando que a c\u00fapula do Estado e do Partido fossem representadas por dois membros distintos e depois pedindo a Novotn\u00fd para deixar um dos dois cargos que ele representava. A atmosfera de intoler\u00e2ncia contra o intransigente regime crescia dia ap\u00f3s dia em Praga e, em 31 de outubro, a pol\u00edcia reprimiu duramente um protesto de estudantes universit\u00e1rios em Praga. Este epis\u00f3dio, em vez de desencorajar os estudantes, deu in\u00edcio a assembleias nas universidades e pedidos cada vez mais urgentes ao partido e ao governo sobre a necessidade de apurar a responsabilidade pol\u00edtica da repress\u00e3o durante a manifesta\u00e7\u00e3o estudantil. Em 15 de dezembro, o partido decide publicar uma enquete sobre a repress\u00e3o aos estudantes, que reconhece como um erro a rea\u00e7\u00e3o excessiva da pol\u00edcia, mas, ao mesmo tempo, acusa os estudantes de provoca\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>.<\/p>\n<p>Enquanto aumentava a oposi\u00e7\u00e3o ao autoritarismo do PCCH e ao seu consenso na opini\u00e3o p\u00fablica e Novotn\u00fd, em v\u00e3o, pedia ajuda a Breznev para salvar o duplo cargo e reprimir a dissid\u00eancia interna ao CC, Ota \u0160ik, na reuni\u00e3o do CC de dezembro, criticou abertamente os erros da planifica\u00e7\u00e3o central.<\/p>\n<p>Somente em 3 de janeiro de 1968, ap\u00f3s uma fracassada tentativa de golpe tramada por dois generais do ex\u00e9rcito, \u0160ejna e Lomsky, pr\u00f3ximo a Novotn\u00fd, este foi for\u00e7ado a renunciar ao cargo de secret\u00e1rio do partido, mantendo o cargo de Presidente da Rep\u00fablica. Ao frustrar a tentativa de golpe, Dub\u010dek obrigou Novotn\u00fd a declarar-se alheio ao golpe. Em 5 de janeiro, Dub\u010dek tornou-se secret\u00e1rio do PCCH. Foi a vit\u00f3ria do grupo dos chamados \u201creformadores\u201d. A mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o abriu uma nova etapa, sobretudo gra\u00e7as ao controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo porque a \u00eanfase com que se fala da \u201cPrimavera de Praga\u201d \u00e9 provavelmente excessiva, tendo em vista a grande timidez com que Dub\u010dek abordou os v\u00e1rios temas, inclu\u00eddo o problema da censura, que somente em 26 de junho foi eliminada por lei.<\/p>\n<p>A campanha midi\u00e1tica contra Novotn\u00fd, principal protetor do golpista \u0160ejna \u2013 que, por sua vez, fugiu para o exterior para evitar a pris\u00e3o devido a um esc\u00e2ndalo que desmascarou o tr\u00e1fico, envolvendo a burocracia do partido, na revenda de carros de luxo (Mercedes, Porsche, Jaguar) \u2013 chegou como um presente do Ocidente e for\u00e7ou Novotn\u00fd a renunciar do cargo de presidente da Rep\u00fablica. A queda de Novotn\u00fd debilitou, mas n\u00e3o destruiu, a presen\u00e7a dos homens da velha guarda no PCCH. Depois de um confronto de concilia\u00e7\u00e3o com a c\u00fapula do Kremlin, que agora acompanhava de perto os acontecimentos na Checoslov\u00e1quia, o PCCH chegou a um acordo para a elei\u00e7\u00e3o de Svoboda, oficial septuagen\u00e1rio, bem visto pelos sovi\u00e9ticos, e mais tarde seu c\u00famplice na invas\u00e3o de agosto.<\/p>\n<p><strong>6. As reformas de <\/strong><strong>Dub\u010dek \u2013 \u0160ik<\/strong><\/p>\n<p>As t\u00edmidas reformas, propostas de maneira gen\u00e9rica em abril de 1968 no \u201cPrograma de A\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a> apresentado por Dub\u010dek, previam uma expans\u00e3o da base de decis\u00e3o tamb\u00e9m para as for\u00e7as n\u00e3o comunistas da Frente de A\u00e7\u00e3o, o \u00f3rg\u00e3o de alian\u00e7a eleitoral nascido em 1945 e progressivamente desautorizado. Contudo, a amplia\u00e7\u00e3o continuou a ser um fato mais formal que decis\u00f3rio, uma vez que a Frente tinha que continuar sendo um \u00f3rg\u00e3o substancialmente consultivo e as decis\u00f5es estavam nas m\u00e3os do PCCH<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no campo econ\u00f4mico as propostas de descentraliza\u00e7\u00e3o de Ota \u0160ik n\u00e3o propiciaram um retorno real \u00e0 democracia dos conselhos de f\u00e1brica, mas sim a um sistema misto em que o controle da gest\u00e3o das f\u00e1bricas permaneceu nas m\u00e3os da burocracia do partido. J\u00e1 no ver\u00e3o de 1966, de fato, ap\u00f3s o XIII Congresso do Partido, uma <em>Comiss\u00e3o Estatal de administra\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o<\/em> sugeriu a possibilidade de uma maior abertura para a administra\u00e7\u00e3o das empresas do Estado pelos trabalhadores, propondo, no entanto, um conselho de empresa composto por apenas um ter\u00e7o dos trabalhadores eleitos nas f\u00e1bricas; os dois ter\u00e7os restantes deveriam ser nomea\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, que constitu\u00edam a metade dos especialistas vindos do exterior e a outra metade de representantes do Estado; na pr\u00e1tica, os trabalhadores continuavam a ser uma minoria nas decis\u00f5es. Esse projeto, tornado p\u00fablico apenas em abril de 1968, alimentaria a discuss\u00e3o dentro das f\u00e1bricas e levaria \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos conselhos oper\u00e1rios, que seriam constitu\u00eddos em junho do mesmo ano<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>.<\/p>\n<p>No entanto, os sovi\u00e9ticos agora entendiam bem que, apesar da timidez das propostas do novo grupo dirigente, o processo de \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d iniciado pelo PCCH, com o controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o em m\u00e3os do grupo dirigente reformador, permitiria expor as contradi\u00e7\u00f5es e privil\u00e9gios da burocracia e acabaria se espalhando para todos os pa\u00edses sob a influ\u00eancia sovi\u00e9tica. E, de fato, isto realmente aconteceu, porque sob o Minist\u00e9rio de Informa\u00e7\u00e3o de C\u00edsa\u0159, o diretor da televis\u00e3o Pelikan levou aos lares checoslovacos as contradi\u00e7\u00f5es da burocracia, for\u00e7ando os ministros e dirigentes a responder \u00e0s demandas do jornalismo<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. Os sovi\u00e9ticos entenderam claramente que esse processo levantaria novamente o problema da dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e que isso, inevitavelmente, levaria a classe oper\u00e1ria a trabalhar em um projeto para derrubar esse modelo autorit\u00e1rio. O perigo real, para Breznev e seus s\u00f3cios, n\u00e3o era absolutamente representado pelo perigo de um retorno ao capitalismo em um pa\u00eds onde os meios de produ\u00e7\u00e3o estavam nas m\u00e3os do Estado e onde a \u00fanica classe verdadeiramente privilegiada era a burocracia do PCCH, at\u00e9 esse momento totalmente leal \u00e0 linha sovi\u00e9tica e agora submetida \u00e0 \u201cinsol\u00eancia\u201d da imprensa. O perigo real era representado pela reapropria\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o do poder pelas grandes massas e, em particular, a classe oper\u00e1ria. Como escreveu Mandel: \u201c<em>Quais foram \u00e0s raz\u00f5es da interven\u00e7\u00e3o militar do Kremlin na CSSR? Certamente n\u00e3o foi contra o \u2018perigo da restaura\u00e7\u00e3o capitalista\u2019 contido nas reformas econ\u00f4micas, porque estas reformas s\u00e3o a \u00fanica parte do \u2018Programa de janeiro\u2019 do PCCH que permanece praticamente vigente. N\u00e3o pode ser contra uma amea\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira, porque n\u00e3o h\u00e1 uma migalha de evid\u00eancia de que tal interven\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a. Nem sequer contra a contrarrevolu\u00e7\u00e3o \u2018interna\u2019, porque n\u00e3o apenas esta \u2018contrarrevolu\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 extremamente fraca \u2013 se n\u00e3o inexistente \u2013, como os resultados da interven\u00e7\u00e3o militar, em todo caso, fortaleceriam-na em vez de debilit\u00e1-la, como qualquer um podia prever. A conclus\u00e3o que pode ser extra\u00edda \u00e9 a seguinte: a interven\u00e7\u00e3o militar das pot\u00eancias do Pacto de Vars\u00f3via na Checoslov\u00e1quia n\u00e3o foi dirigida contra a contrarrevolu\u00e7\u00e3o social naquele pa\u00eds, mas contra a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na URSS e nos pa\u00edses aliados formalmente, mas, de fato, submetidos a seu controle burocr\u00e1tico. A amea\u00e7a que o Kremlin temia n\u00e3o era a crescente influ\u00eancia do imperialismo na Checoslov\u00e1quia, mas a crescente influ\u00eancia da Checoslov\u00e1quia na URSS e nos pa\u00edses vizinhos. O inimigo n\u00e3o era a \u2018restaura\u00e7\u00e3o capitalista\u2019, mas a democracia socialista<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>7. A Primavera de Praga<\/strong><\/p>\n<p>Com a queda de Novotn\u00fd, entre mar\u00e7o e agosto de 1968, houve uma oposi\u00e7\u00e3o constante entre as for\u00e7as inovadoras e os conservadores. Dub\u010dek tentou, em v\u00e3o, moderar o papel da cr\u00edtica constante da televis\u00e3o, que progressivamente revelava os privil\u00e9gios da burocracia e as distor\u00e7\u00f5es do sistema autorit\u00e1rio. A an\u00e1lise dos fatos e dos documentos mostra, no entanto, que Dub\u010dek estava \u00e0 frente de um movimento de reformas sem a concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria necess\u00e1ria para levar, at\u00e9 o final, a regenera\u00e7\u00e3o do Estado oper\u00e1rio checoslovaco sobre a base de organismos da democracia sovi\u00e9tica, permanecendo assim preso entre as press\u00f5es do novo grupo reformista do PCCH, por um lado, e as exig\u00eancias progressivas de normaliza\u00e7\u00e3o do Kremlin e da oposi\u00e7\u00e3o interna, pelo outro.<\/p>\n<p>A exig\u00eancia de romper com esse modelo autorit\u00e1rio impregnou gradualmente a sociedade checoslovaca, desde as f\u00e1bricas at\u00e9 as universidades e os intelectuais do partido. Abriu-se um grande per\u00edodo de mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis que envolveram, tamb\u00e9m, outros pa\u00edses do Pacto de Vars\u00f3via. Na Pol\u00f4nia, Gomulka foi for\u00e7ado a reprimir, prendendo 2.500 estudantes em mar\u00e7o de 1968, devido a um protesto estudantil que invocava \u201cAt\u00e9 mesmo toda Pol\u00f4nia espera por seu Dub\u010dek! \u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o se intensificou em maio, quando as manifesta\u00e7\u00f5es de rua e as cr\u00edticas se estenderam abertamente \u00e0 burocracia sovi\u00e9tica, desencadeando a ira de Brezhnev. Dub\u010dek, na tentativa de mediar, redigiu um regulamento para tentar frear o papel da informa\u00e7\u00e3o. A essa altura, a URSS decidiu mudar sua estrat\u00e9gia, come\u00e7ando, mais ou menos abertamente, a desacreditar a dire\u00e7\u00e3o do PCCH, acusando-a, entre outras coisas, de \u201canti-socialismo\u201d ou de \u201crevisionismo de direita\u201d.<\/p>\n<p>Em uma escalada de tens\u00e3o, em 20 de junho, 16 mil soldados dos ex\u00e9rcitos militares do Pacto de Vars\u00f3via realizaram uma manifesta\u00e7\u00e3o autorizada no territ\u00f3rio checoslovaco, e mantiveram-se at\u00e9 o final das manobras, apesar dos protestos do primeiro-ministro \u010cern\u00edk.<\/p>\n<p>A partir desse momento, desenvolveu-se no pa\u00eds um amplo protesto contra os aliados do Pacto de Vars\u00f3via, que encontra sua s\u00edntese no \u201cManifesto das 2 mil palavras\u201d, de 26 de junho, assinado por Vaculik, que fora expulso do partido ap\u00f3s o Quarto Congresso dos Escritores de 1967, e subscrito por 70 pessoas, entre intelectuais, artistas e celebridades. O documento constitui uma clara cr\u00edtica ao sistema autorit\u00e1rio que se desenvolveu na Checoslov\u00e1quia a partir de 1948, e invoca, por meio de reivindica\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas, a necessidade de um retorno \u00e0 real democracia oper\u00e1ria. No entanto, em uma an\u00e1lise posterior, o elemento mais interessante desse documento est\u00e1 dado, provavelmente, pelo alerta sobre a necessidade de defender o governo contra as amea\u00e7as externas, inclusive com as armas, se necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise l\u00facida e o pedido expl\u00edcito de preparar a defesa contra as invas\u00f5es externas ser\u00e3o tragicamente rejeitados pelos dirigentes do PCCH. Apenas poucos dias depois, em 5 de julho, ficou, de fato, \u00f3bvio que a dire\u00e7\u00e3o do PCCH n\u00e3o tinha nenhuma inten\u00e7\u00e3o de armar a classe oper\u00e1ria e preparar a autodefesa: Smrkovsk\u00fd, presidente da Assembleia Nacional e l\u00edder do grupo reformista do PCCH, respondeu \u00e0quela carta com um documento no qual acusava Vaculik de \u201c<em>&#8230; romantismo, consistente com a falta de aprecia\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia que muitas vezes separa as inten\u00e7\u00f5es dos poss\u00edveis resultados<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>8. A invas\u00e3o sovi\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>A divis\u00e3o no PCCH entre reformistas e conservadores e as press\u00f5es de Moscou sobre Dub\u010dek tornaram-se cada vez mais vis\u00edveis em julho de 1968. A \u00faltima tentativa de press\u00e3o sobre o PCCH para que este desistisse da tentativa de democratiza\u00e7\u00e3o foi feito por Brezhnev em 29 de julho, no encontro, na cidade de \u010cierna nad Tisou, com Dub\u010dek, e no Congresso de Bratislava, em 3 de agosto, entre as for\u00e7as que participavam no Pacto de Vars\u00f3via. Na transcri\u00e7\u00e3o de uma posterior liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica, de 13 de agosto, com o pr\u00f3prio Brezhnev<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a>, Dub\u010dek, extremamente temeroso, tentou conseguir tempo sobre as demandas urgentes feitas por Brezhnev em \u010cierna nad Tisou, que exigiam eliminar as forma\u00e7\u00f5es da oposi\u00e7\u00e3o ao PCCH e, acima de tudo, normalizar o controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, destituindo Pelikan e C\u00edsa\u0159 de seus postos. Tamb\u00e9m exigiu a purga de Kriegel, o mais orgulhoso opositor da burocracia sovi\u00e9tica, do Partido.<\/p>\n<p>Mas o tempo j\u00e1 tinha expirado. Na noite de 20 para 21 de agosto, 165 mil soldados e 4.600 tanques<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a> dos ex\u00e9rcitos do Pacto de Vars\u00f3via invadiram a Checoslov\u00e1quia. O ministro de Defesa checoslovaco deu ordens \u00e0s tropas para permanecer nos quart\u00e9is. \u00c0s 5 da manh\u00e3, Dub\u010dek e outros cinco membros do CC do PCCH foram presos e transferidos, pela tarde, para a Ucr\u00e2nia. O Presidente da Rep\u00fablica, Svoboda, que tinha sido alertado preventivamente sobre a invas\u00e3o, fez um discurso na r\u00e1dio na manh\u00e3 do dia 21, no qual n\u00e3o proferiu nenhuma den\u00fancia sobre a invas\u00e3o e se limitou a conclamar a popula\u00e7\u00e3o a n\u00e3o opor resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Denunciar a invas\u00e3o sovi\u00e9tica, reiterar a total confian\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o e no secret\u00e1rio Dub\u010dek, ent\u00e3o preso e, ao mesmo tempo, conclamar a popula\u00e7\u00e3o a se acalmar, foi o papel do Congresso Extraordin\u00e1rio do PCCH, que se reuniu no mesmo dia, clandestinamente, na f\u00e1brica de locomotivas CKD em Praga, com os oper\u00e1rios e a mil\u00edcia oper\u00e1ria, acionada para defender o Congresso. As comunica\u00e7\u00f5es com a popula\u00e7\u00e3o foram mantidas por meio de um aparelho radiof\u00f4nico clandestino, j\u00e1 que as comunica\u00e7\u00f5es oficiais eram agora controladas pelos sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o do Congresso extraordin\u00e1rio do PCCH, que denunciou a invas\u00e3o sovi\u00e9tica, complicou e colocou em xeque a estrat\u00e9gia do Kremlin. Era agora necess\u00e1rio, a fim de normalizar a situa\u00e7\u00e3o e evitar uma insurrei\u00e7\u00e3o popular, que fosse o pr\u00f3prio aparato de dire\u00e7\u00e3o do PCCH que impusesse \u00e0 popula\u00e7\u00e3o as exig\u00eancias dos sovi\u00e9ticos. Para esse fim, uma delega\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ada pelo presidente Svoboda foi a Moscou, onde, junto aos dirigentes presos do PCCH, iniciou as negocia\u00e7\u00f5es com os l\u00edderes sovi\u00e9ticos. Depois de alguns dias de negocia\u00e7\u00f5es, a linha dura de Moscou foi aceita e assinada por Dub\u010dek e todos os outros dirigentes do Partido, com exce\u00e7\u00e3o de Kriegel: era a capitula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 26 de agosto, Dub\u010dek e os outros dirigentes retornaram a Praga de cabe\u00e7a baixa. Os dirigentes inc\u00f4modos do PCCH, inclu\u00eddos C\u00edsa\u0159 e Pelikan, foram destitu\u00eddos e a censura reintroduzida por meio do pedido do governo aos principais editores, para bloquear as cr\u00edticas aos sovi\u00e9ticos. Os dirigentes do PCCH voltaram para casa, mas os tanques sovi\u00e9ticos permaneceram no territ\u00f3rio. Como contar\u00e1 Umberto Eco, os soldados dos tanques explicaram a uma popula\u00e7\u00e3o incr\u00e9dula e desconcertada que entraram em Praga para defend\u00ea-los do golpe de Estado fascista<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>9. A resist\u00eancia estudantil e oper\u00e1ria e os conselhos de f\u00e1bricas<\/strong><\/p>\n<p>A partir de 21 de agosto, portanto, em Praga, os tanques da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica amea\u00e7aram um pa\u00eds socialista, no qual n\u00e3o havia nenhum perigo real de subvers\u00e3o daquele sistema social nascido em seu interior. Esses tanques permaneceriam por muito tempo para simbolizar, no imagin\u00e1rio de todos, socialistas e n\u00e3o socialistas, que o sovi\u00e9tico era um poder autorit\u00e1rio e desp\u00f3tico, obrigado a impor a ditadura da burocracia atrav\u00e9s do uso da for\u00e7a. Somados aos acontecimentos da Hungria em 1956, do ponto de vista da comunica\u00e7\u00e3o, provavelmente n\u00e3o h\u00e1 imagens mais eloquentes que possam testemunhar o fracasso do estalinismo. E \u00e0 luz desses fatos ressoam as cr\u00edticas a essa dram\u00e1tica degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do socialismo, que Trotsky descrevera com precis\u00e3o na <em>Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/em><a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a> de 1936, e que pagou com sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Se o PCCH, para salvar a pele de seus dirigentes, traiu a esperan\u00e7a de uma reforma no sentido revolucion\u00e1rio do socialismo, as massas populares checoslovacas e particularmente a classe oper\u00e1ria, no entanto, n\u00e3o se desmoralizou. \u0160ik sempre foi visto com grande desconfian\u00e7a ou abertamente contestado pelos oper\u00e1rios<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a>. Isto \u00e9, deu a impress\u00e3o de que sua reforma econ\u00f4mica n\u00e3o estava indo numa dire\u00e7\u00e3o verdadeiramente democr\u00e1tica, mas no sentido de um avan\u00e7o tecnocr\u00e1tico no qual o partido, de cima, selecionaria os dirigentes mais preparados para a dire\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria, sem que tais mudan\u00e7as envolvessem os oper\u00e1rios. Esta \u00e9 a principal raz\u00e3o pela qual os oper\u00e1rios muitas vezes desafiaram \u0160ik nas portas das f\u00e1bricas<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a>. Mas essa n\u00e3o era a \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios, que tamb\u00e9m temiam que um grande avan\u00e7o nas reformas tecnocr\u00e1ticas pudesse significar demiss\u00f5es nas f\u00e1bricas. Em maio de 1968, as primeiras greves j\u00e1 tinham iniciado ap\u00f3s a decis\u00e3o do governo de estabelecer comiss\u00f5es para preparar uma \u201clei sobre a empresa socialista\u201d. As greves da classe trabalhadora desafiaram o poder e a incapacidade dos dirigentes das empresas<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[31]<\/a>. Em todas as principais f\u00e1bricas, foram desenvolvidas federa\u00e7\u00f5es sindicais por ramo, novas organiza\u00e7\u00f5es sindicais e coordena\u00e7\u00f5es entre sindicatos. A discuss\u00e3o sobre como a crise econ\u00f4mica deveria ser abordada tornou-se o assunto de uma classe oper\u00e1ria sob o controle dos sindicatos burocratizados por longo tempo; a produ\u00e7\u00e3o industrial voltou a crescer, demonstrando que a passividade da classe oper\u00e1ria, consequ\u00eancia do modelo burocr\u00e1tico, tinha sido um dos elementos desencadearam a crise.<\/p>\n<p>Na onda do processo de democratiza\u00e7\u00e3o, em junho de 1968, nasceram 18 conselhos de f\u00e1brica no pa\u00eds, mas, entre outubro e dezembro de 1968, durante a ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, foram criados outros 260 conselhos de f\u00e1brica<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[32]<\/a>, apesar da tentativa de Dub\u010dek, agora reduzido a um fantoche a servi\u00e7o dos sovi\u00e9ticos, de dificultar seu desenvolvimento. Em novembro de 1968, numa tentativa de limitar o poder dos comit\u00eas de f\u00e1brica, Dub\u010dek afirmar\u00e1: \u201c<em>A cr\u00edtica justificada ao burocratismo n\u00e3o pode conduzir a ataques simplistas e caricaturas contra a dire\u00e7\u00e3o da empresa, contra o aparato econ\u00f4mico e estatal. A justa reivindica\u00e7\u00e3o de crescimento da participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores na gest\u00e3o n\u00e3o deve assumir a forma de uma falsa democracia na produ\u00e7\u00e3o, em detrimento da inevit\u00e1vel disciplina do trabalho<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[33]<\/a>.<\/p>\n<p>Na renovada fermenta\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, entre agosto de 1968 e janeiro de 1969, desenvolve-se ao mesmo tempo a fase mais quente da resist\u00eancia das massas populares \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica. Durante esta fase, Dub\u010dek, sob a press\u00e3o constante da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, desempenha o papel do bombeiro, amortecendo gradualmente a veem\u00eancia da luta das massas com a mordida e o assopro, isto \u00e9, atuando por um lado com a repress\u00e3o policial e, pelo outro, simulando pequenas concess\u00f5es.<\/p>\n<p>Para evitar a explos\u00e3o das massas, o governo \u00e9 obrigado a divulgar, em setembro, a not\u00edcia de que os sovi\u00e9ticos n\u00e3o prenderiam ningu\u00e9m. Sob a press\u00e3o sovi\u00e9tica, em 18 de outubro, a Assembleia Nacional aprovou um tratado que permitia a perman\u00eancia das tropas sovi\u00e9ticas na Checoslov\u00e1quia, desencadeando uma grande rea\u00e7\u00e3o popular, dirigida em particular pelo movimento estudantil, que se op\u00f5e, cada vez mais massivamente, \u00e0 a\u00e7\u00e3o do governo. Em 28 de outubro, 4 mil manifestantes enfrentam a Dub\u010dek e Svoboda em frente ao Teatro Nacional, no 50\u00b0 anivers\u00e1rio do nascimento da Rep\u00fablica Checoslovaca. A manifesta\u00e7\u00e3o foi reprimida pelos cassetetes da pol\u00edcia checoslovaca, que, sob as ordens de Dub\u010dek, atuou exatamente como nos tempos de Novotn\u00fd. Em resumo, o apoio popular a Dub\u010dek enfraquece. Em uma escalada de manifesta\u00e7\u00f5es de massas, cada vez mais participativas, os confrontos de rua se repetem em 7 de novembro, por ocasi\u00e3o das celebra\u00e7\u00f5es da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, com centenas de pris\u00f5es.<\/p>\n<p>Para tentar acalmar a insurrei\u00e7\u00e3o, Dub\u010dek recorre aos estudantes e os oper\u00e1rios, para pedir-lhes que apoiem a perman\u00eancia sovi\u00e9tica. Para cada movimento do PCCH no sentido de satisfazer as demandas dos sovi\u00e9ticos, os estudantes e os oper\u00e1rios reagem com manifesta\u00e7\u00f5es de protesto que deixam latente a dist\u00e2ncia do governo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s massas populares. A participa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria em greves e protestos constitui, para o governo, o elemento de maior preocupa\u00e7\u00e3o. Particularmente desde novembro, os metal\u00fargicos, liderados pelos sindicatos reunidos na RTUM [<em>Revolutionary Trade Union<\/em>], aumentaram o n\u00edvel de mobiliza\u00e7\u00e3o, com mais greves e mais compactas, e se uniram aos protestos dos estudantes, obrigando o governo a assinar acordos para manter os n\u00edveis de sal\u00e1rios e de pre\u00e7os. Ap\u00f3s o expurgo de Smrkovsk\u00fd do Partido, uma nova onda de manifesta\u00e7\u00f5es de trabalhadores e estudantes exigiu sua reintegra\u00e7\u00e3o. Em 4 de janeiro, o sindicato dos metal\u00fargicos, com um milh\u00e3o de filiados, tomou as ruas. O primeiro-ministro Cernik reitera a amea\u00e7a da interven\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica para sufocar o protesto.<\/p>\n<p>Em janeiro de 1969, uma primeira reuni\u00e3o nacional dos conselhos de trabalhadores e dos comit\u00eas preparat\u00f3rios, que representavam 190 empresas e 890 mil trabalhadores, elabora um projeto de \u201clei sobre a empresa socialista\u201d. Mas o projeto \u00e9 alterado consideravelmente pelo governo, que retorna ao modelo de cogest\u00e3o, com 1\/3 de cadeiras dos conselhos para os trabalhadores eleitos e direito de veto ao Estado e aos dirigentes de empresa<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\">[34]<\/a>. No entanto, o trabalho dos conselhos de f\u00e1brica n\u00e3o para: 500 conselhos de f\u00e1brica estar\u00e3o representados no congresso sindical de mar\u00e7o de 1969 e seu n\u00famero aumentar\u00e1 at\u00e9 junho de 1969.<\/p>\n<p>O momento mais quente da resist\u00eancia foi em janeiro de 1969, quando Jan Palach, um estudante de filosofia, tocou fogo em si mesmo em sinal de protesto, reivindicando com esse gesto extremo a necessidade de uma greve geral a todo custo para derrubar o governo. Em seu funeral, uma multid\u00e3o de 800 mil pessoas<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\">[35]<\/a> indicar\u00e1 o potencial revolucion\u00e1rio da resist\u00eancia de Praga. Nos dias seguintes, ocorrem confrontos com a pol\u00edcia e pris\u00f5es em massa. Outros estudantes se sacrificar\u00e3o pela causa da resist\u00eancia em Praga, mas a televis\u00e3o, agora em m\u00e3os dos conservadores, limitar\u00e1 a divulga\u00e7\u00e3o da not\u00edcia.<\/p>\n<p>Os confrontos continuar\u00e3o at\u00e9 mar\u00e7o, at\u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o, em Praga, de mais de 4 mil pessoas, durante a qual um escrit\u00f3rio da Aeroflot, a linha a\u00e9rea sovi\u00e9tica, \u00e9 destru\u00eddo. Na verdade, essa a\u00e7\u00e3o foi premeditada pelo servi\u00e7o secreto sovi\u00e9tico, que a utilizou para amea\u00e7ar a popula\u00e7\u00e3o com novas repres\u00e1lias<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\">[36]<\/a>. Dub\u010dek, agora incapaz de obter aceita\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o para as imposi\u00e7\u00f5es dos sovi\u00e9ticos, ser\u00e1 removido de seu cargo e substitu\u00eddo por Hus\u00e1k, em abril.<\/p>\n<p>Nos primeiros cem dias em seu novo papel, Hus\u00e1k cumpriu todos os pedidos sovi\u00e9ticos, a renova\u00e7\u00e3o total da censura, a expuls\u00e3o dos componentes mais revolucion\u00e1rios do partido, as expuls\u00f5es coletivas e as demiss\u00f5es de jornalistas. As organiza\u00e7\u00f5es nascidas durante a resist\u00eancia foram declaradas ilegais. Em 8 de maio, o regime decidiu erradicar o nascente poder \u201clivre\u201d da classe oper\u00e1ria: os conselhos oper\u00e1rios nas f\u00e1bricas foram declarados ilegais. Por ocasi\u00e3o do primeiro anivers\u00e1rio da invas\u00e3o militar, em 21 de agosto de 1969, o povo checoslovaco decidiu voltar \u00e0s ruas. Mas a repress\u00e3o foi dur\u00edssima. A pol\u00edcia disparou contra a multid\u00e3o, dois jovens foram mortos em Praga e dois em Brno. Na capital, a pol\u00edcia utilizou c\u00e3es pastores alem\u00e3es para perseguir os manifestantes, enquanto a popula\u00e7\u00e3o gritava pelas janelas \u201c<em>eles s\u00e3o como a Gestapo<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\">[37]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>10. Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>O que faltou, na Primavera de Praga, para permitir \u00e0 sociedade checoslovaca fazer a transi\u00e7\u00e3o para um regime socialista consumado, foi o partido revolucion\u00e1rio. A dire\u00e7\u00e3o reformista do PCCH, que crescera em grande medida dentro do Partido Comunista de Gottwald e de Novotn\u00fd, nunca se prop\u00f4s abertamente a questionar a estrutura burocr\u00e1tica do Estado. Em vez disso, essa dire\u00e7\u00e3o reformista tentou conter os defeitos desse sistema, eliminar os excessos autorit\u00e1rios e a falta de liberdade que derivavam da exist\u00eancia desse aparato, mas nunca se prop\u00f4s desmantelar sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise da degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica na R\u00fassia estalinista, Trotsky exaltava as medidas propostas por Lenin, para que, no Estado socialista, a burocracia desaparecesse gradualmente e n\u00e3o exercesse mais um papel opressor sobre o proletariado: \u201c<em>Ap\u00f3s a queda das classes exploradoras \u2013 o proletariado romper\u00e1 a velha m\u00e1quina burocr\u00e1tica e formar\u00e1 seu pr\u00f3prio aparato de oper\u00e1rios e empregados, tomando medidas estudadas em detalhe por Marx e Engels, para evitar que se convertam em burocratas: 1) elegibilidade e revogabilidade em qualquer momento; 2) remunera\u00e7\u00e3o n\u00e3o superior ao sal\u00e1rio do oper\u00e1rio; 3) passagem imediata a um estado de coisas em que todos se ocupem do controle e da supervis\u00e3o, em que todos ser\u00e3o momentaneamente burocr\u00e1ticos, mas ningu\u00e9m poder\u00e1 se burocratizar<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\">[38]<\/a>. A estas propostas, Trotsky tamb\u00e9m acrescentou o elemento fundamental da necessidade da extens\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o a n\u00edvel internacional: dada a impossibilidade de construir o \u201csocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d, a \u00fanica barreira contra a burocratiza\u00e7\u00e3o \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a revolu\u00e7\u00e3o internacional, que \u00e9 precisamente o que se op\u00f5e ao estalinismo tanto te\u00f3rica como praticamente, pelo menos desde 1924.<\/p>\n<p>Uma cr\u00edtica deste tipo ao sistema burocr\u00e1tico e \u00e0 concep\u00e7\u00e3o contrarrevolucionaria estalinista nunca foi mencionada pelos l\u00edderes reformistas do PCCH que, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o tinham inten\u00e7\u00e3o de transformar as fun\u00e7\u00f5es de controle e vigil\u00e2ncia da burocracia em pap\u00e9is eventuais n\u00e3o privilegiados nem construir um movimento internacional pela expans\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o. E quando, a partir do movimento dos escritores, Vaculik apresentou o problema da democracia oper\u00e1ria, os dirigentes do Partido o acusaram de romantismo. De maneira extremamente contradit\u00f3ria, o integrante reformista do PCCH tentou limitar os fracassos e os excessos do Estado burocr\u00e1tico sem levar a cabo uma batalha frontal com a burocracia. A democracia oper\u00e1ria, por meio da cria\u00e7\u00e3o dos comit\u00eas de f\u00e1brica, foi tolerada, mas n\u00e3o impulsionada pelo Partido Comunista de Dub\u010dek: a tend\u00eancia a n\u00e3o renunciar \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do processo produtivo para d\u00e1-la \u00e0 classe oper\u00e1ria, mas manej\u00e1-la burocraticamente, por meio de um sistema misto de cogest\u00e3o, com poder de veto por parte do Estado, indicava claramente a tend\u00eancia da burocracia a querer sobreviver \u00e0 crise que ela mesma gerou. E, no auge da resist\u00eancia das massas, no in\u00edcio de 1969, quando uma coordena\u00e7\u00e3o dos conselhos de f\u00e1brica representativo de um milh\u00e3o ou mais oper\u00e1rios foi finalmente reconstru\u00edda<a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\">[39]<\/a>, o que poderia ter incidido de maneira diferente no resultado da resist\u00eancia checoslovaca, a classe oper\u00e1ria encontrou, em vez do partido revolucion\u00e1rio para dirigi-la, os peda\u00e7os do partido reformista para neutraliz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> PACINI, G. (Org.). La svolta di Praga. Raccolta di documenti, Samon\u00e0 e Savelli, 1968, p. 26.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem, p. 27.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MOSCATO, A. La tragedia di Praga 1968. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/antoniomoscato.altervista.org\/index.php?option=com_docman&amp;task=doc_download&amp;gid=73&amp;Itemid=62\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/antoniomoscato.altervista.org\/index.php?option=com_docman&amp;task=doc_download&amp;gid=73&amp;Itemid=62<\/a>&gt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> PACINI, G. <em>op. cit.<\/em>, p. 27.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem, pp. 37-38.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> MOSCATO, A. <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> PACINI, G. <em>op. cit.<\/em>, p. 30.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Idem, p. 31.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Idem, p. 210.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> MANDEL, E. <em>The social, economic and political background of the Czechoslovak crisis<\/em>, 1969. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/mandel\/1969\/xx\/czech.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/archive\/mandel\/1969\/xx\/czech.html<\/a>&gt;. Tradu\u00e7\u00e3o realizada pelo autor do artigo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> MANDEL, E. <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> MOSCATO, A. <em>op. cit.<\/em>, p. 3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> PICHECA, G. <em>Cecoslovacchia 1968. Cronaca politica ed interpretazioni a confronto<\/em>. Universit\u00e0 degli studi di Pisa, Interfacolt\u00e0 di Scienze per la Pace, corso di Laurea Specialistica in Scienze per la Pace: cooperazione allo sviluppo, mediazione e trasformazione dei conflitti, anno accademico 2009-2010, p. 12. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/etd.adm.unipi.it\/t\/etd-06232010-090239\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/etd.adm.unipi.it\/t\/etd-06232010-090239\/<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> PACINI, G. <em>op. cit.<\/em>, p. 32.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> PICHECA, G. <em>op. cit.<\/em>, p. 13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Idem, p. 27.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> <em>Praga, agosto 1968. <\/em><em>Un documento audiovisivo dell\u2019archivio Jiri Pelikan<\/em>. Archivio storico della Camera dei deputati, p. 7. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/archivio.camera.it\/patrimonio\/archivi_privati\/guida:ITCD_00400_00009\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/archivio.camera.it\/patrimonio\/archivi_privati\/guida:ITCD_00400_00009<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> PICHECA, G., <em>op. cit.<\/em>, p. 45.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> FISERA, Vladimir Claude. <em>1968: la primavera e l\u2019autunno autogestionari di Praga<\/em>. In: Voce libert\u00e1ria, n. 5, maio 2008, p. 45.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> <em>Praga, agosto 1968. Un documento audiovisivo dell\u2019archivio Jiri Pelikan,<\/em> p. 232.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> MANDEL, E. <em>op. cit<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> PICHECA, G. <em>op. cit<\/em>., p. 51.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> SMRKOVSK\u00dd, Josef. <em>Le mille parole<\/em>. In: Maledetta Primavera: il 1968 a Praga, n\u00famero monografico della rivista eSamizdat, n. 2-3, 2009, p. 376. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.esamizdat.it\/rivista\/2009\/2-3\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.esamizdat.it\/rivista\/2009\/2-3\/index.htm<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> <em>La lettera di Varsavia. <\/em>In: Maledetta Primavera: il 1968 a Praga, p. 393.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> PICHECA, G. <em>op. cit.,<\/em> p. 86.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> RASPONI, L. <em>Il\u201968 in Cecoslovacchia: l\u2019inverno sovietico e la Primavera di Praga\u201d<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.discorsivo.it\/magazine\/2013\/03\/26\/il-68-in-cecoslovacchia-linverno-sovietico-e-la-primavera-di-praga\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.discorsivo.it\/magazine\/2013\/03\/26\/il-68-in-cecoslovacchia-linverno-sovietico-e-la-primavera-di-praga\/<\/a>&gt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> TROTSKY, L. <em>La rivoluzione tradita<\/em> [A revolu\u00e7\u00e3o tra\u00edda], 1936, Ac editoriale, 2007.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> MOSCATO, A. <em>op. cit.,<\/em> p. 29.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> FISERA, Vladimir Claude. <em>op. cit<\/em>., p. 15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[33]<\/a> Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> Idem, p. 16.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\">[35]<\/a> PICHECA, G. <em>op. cit.,<\/em> p. 148.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\">[36]<\/a> Idem, p. 149.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\">[37]<\/a> Idem, p. 151.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\">[38]<\/a> TROTSKY, L. <em>op. cit.,<\/em> p. 123.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\">[39]<\/a> FISERA, Vladimir Claude. <em>op. cit<\/em>., p.16.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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