{"id":23201,"date":"2018-06-08T20:20:35","date_gmt":"2018-06-08T22:20:35","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23201"},"modified":"2018-06-08T20:20:35","modified_gmt":"2018-06-08T22:20:35","slug":"fracao-trotskista-pts-do-sectarismo-propagandistico-ao-oportunismo-eleitoralista-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/06\/08\/fracao-trotskista-pts-do-sectarismo-propagandistico-ao-oportunismo-eleitoralista-parte-ii\/","title":{"rendered":"Fra\u00e7\u00e3o Trotskista\/PTS: Do sectarismo propagand\u00edstico ao oportunismo eleitoralista (parte II)"},"content":{"rendered":"<p><em>Os debates entre a LIT e a FT j\u00e1 acontecem h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. No entanto, como apontamos na parte I deste artigo, essa organiza\u00e7\u00e3o, que antes nos criticava desde a &#8220;esquerda&#8221; e a &#8220;ultra-ortodoxia trotskista&#8221;, nos \u00faltimos anos, passou a faz\u00ea-lo localizada \u00e0 nossa &#8220;direita&#8221;. Por isso, nesses debates, utiliza os mesmos argumentos que antes atribu\u00eda ao &#8220;trotskismo de Yalta e Potsdam&#8221; e \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es que teriam essa origem.<\/em><em>\u00a0<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>O aspecto central desses debates \u00e9 que a FT (como a maioria da esquerda mundial) considera que no mundo, e especialmente na Am\u00e9rica, o que domina a din\u00e2mica pol\u00edtica \u00e9 a &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221;: o imperialismo e a burguesia est\u00e3o desenvolvendo uma grande ofensiva em todas as \u00e1reas e que a classe trabalhadora e as massas est\u00e3o totalmente na defensiva. Mas ainda, uma parte teria sido ganha (pelo menos na atual conjuntura) para o apoio \u00e0 direita (&#8220;os pobres de direita&#8221;) enquanto a outra parte n\u00e3o consegue grandes lutas que mudem a din\u00e2mica geral.<\/p>\n<p>Em apoio a essa caracteriza\u00e7\u00e3o, entre outros, destaca-se o triunfo eleitoral de Mauricio Macri na Argentina e Donald Trump, nos Estados Unidos. Esses avan\u00e7os de partidos burgueses de direita n\u00e3o apenas expressavam a &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221;, mas tamb\u00e9m a consolidavam e aprofundavam.\u00a0No caso do Brasil, a onda reacion\u00e1ria teria se manifestado no impeachment de Dilma Rousseff (destitui\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de processo pol\u00edtico no Parlamento) e sua substitui\u00e7\u00e3o por Michel Temer, processo que foi descrito como um &#8220;golpe de Estado&#8221;. Atualmente, v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es com as quais o Movimento Revolucion\u00e1rio de Trabalhadores &#8211; MRT (organiza\u00e7\u00e3o brasileira da FT) atualmente trabalha em comum, como o PT e o PSOL, &#8220;aumentaram a aposta&#8221; e falam do &#8220;perigo do neofascismo&#8221;.\u00a0Esse corpo de racioc\u00ednio tem profundas conseq\u00fc\u00eancias pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Por um lado, leva \u00e0 conclus\u00e3o de que o processo muito progressivo de ruptura dos trabalhadores e das massas com os governos burgueses populistas e de frente popular, que mostravam sua verdadeira cara, \u00e9, pelo contr\u00e1rio, negativo, j\u00e1 que a consci\u00eancia da massas (ou de uma parte delas) &#8220;girou \u00e0 direita&#8221;. Por outro lado, como a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as com o inimigo \u00e9 muito desfavor\u00e1vel, se imp\u00f5em essencialmente, as t\u00e1ticas unit\u00e1rias. No caso do Brasil: &#8220;unidade da esquerda&#8221;, primeiro para enfrentar o &#8220;golpe&#8221; e, agora, lutar contra o &#8220;perigo neofascista&#8221;. Ou seja, a &#8220;defesa da democracia burguesa&#8221;. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o eixo pol\u00edtico de todo este setor \u00e9 atualmente a campanha do &#8220;Lula Livre&#8221;.<\/p>\n<p>A FT nos dir\u00e1 que caricaturamos suas an\u00e1lises e posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e que fazemos uma mistura com as de outras organiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 verdade que, em suas \u00faltimas an\u00e1lises, matizaram a defini\u00e7\u00e3o da &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221; e que criticam o PT e o PSOL e que polemizam com eles. Mas, em ess\u00eancia, eles mant\u00eam essas an\u00e1lises e essa pol\u00edtica. Por exemplo, em uma publica\u00e7\u00e3o recente, eles dizem: <em>&#8220;A pris\u00e3o do ex-presidente brasileiro Lula da Silva \u00e9 um novo cap\u00edtulo do golpe que come\u00e7ou com o impeachment parlamentar de Dilma Rousseff&#8221; <\/em>e anunciam que<em> &#8220;O PTS na Frente de Esquerda, junto com o PO, fez um ato em 13 de abril na embaixada brasileira contra o golpe e a proibi\u00e7\u00e3o de Lula, apesar de sermos opositores do PT&#8221;[<\/em>1].<\/p>\n<p>N\u00e3o vamos reiterar aqui as an\u00e1lises pelas quais a LIT-QI e o PSTU (B) se opuseram \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o de &#8220;golpe&#8221; e porque n\u00e3o participam ou apoiam a campanha pela sua liberdade. Podem ser vistos em v\u00e1rios artigos relacionados a este t\u00f3pico espec\u00edfico, j\u00e1 publicados em nossa p\u00e1gina [2]. Por essa posi\u00e7\u00e3o, fomos acusados \u200b\u200bde ser &#8220;funcionais \u00e0 direita&#8221; ou de coincidir com ela: &#8220;&#8230; <em>grupos de esquerda como o PSTU, que apoiaram o golpe institucional e agora continuam fazendo parte da base de apoio \u00e0 pris\u00e3o de Lula.&#8221;[<\/em>3].<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma \u201conda reacion\u00e1ria\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>O pano de fundo desse debate \u00e9 a caracteriza\u00e7\u00e3o (\u00e0 qual nos opomos) da exist\u00eancia de uma &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221; internacional. Para sustentar essa defini\u00e7\u00e3o, a maioria da esquerda mundial considera dois aspectos: o primeiro, que j\u00e1 mencionamos, \u00e9 que t\u00eam mais governos burgueses de direita; o segundo \u00e9 o ataque que estes governos fazem contra o padr\u00e3o de vida dos trabalhadores e das massas, acompanhado de ataques \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas, repress\u00e3o de lutas, persegui\u00e7\u00e3o de ativistas, etc. Ao debater se h\u00e1 ou n\u00e3o uma &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221;, o que estamos debatendo \u00e9 o que os marxistas chamam de &#8220;correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as&#8221; que resulta, em um dado per\u00edodo, da luta entre as classes [burguesia e proletariado].<\/p>\n<p>Com essa abordagem, o primeiro elemento, os triunfos eleitorais da direita ou a destitui\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff atrav\u00e9s do Parlamento, s\u00e3o fatos superestruturais que n\u00e3o necessariamente t\u00eam reflexo autom\u00e1tico na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, pois esta depende da luta de classes e de outros processos profundos. Por exemplo, a destitui\u00e7\u00e3o de Dilma n\u00e3o se expressou em um fortalecimento do regime pol\u00edtico burgu\u00eas brasileiro, mas em seu enfraquecimento. Sobre o que aconteceu depois dos triunfos de Macri na Argentina e Trump nos Estados Unidos, falaremos especificamente.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, como \u00e9 usada essa defini\u00e7\u00e3o de &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221;, traz uma grande confus\u00e3o porque atribui esses ataques aos trabalhadores e \u00e0s massas apenas aos governos burgueses da direita. O imperialismo, as burguesias nacionais e os governos burgueses est\u00e3o de fato realizando ataques muito duros contra os trabalhadores e as massas. Mas esses ataques n\u00e3o fazem apenas os governos burgueses de direita, como Trump, Temer ou Macri, mas tamb\u00e9m os governos burgueses que se dizem &#8220;de esquerda&#8221; (inclusive com maior ferocidade), como Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela ou Alexis Tsipras na Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, um problema de &#8220;direita&#8221; ou &#8220;esquerda&#8221;, mas todas as express\u00f5es pol\u00edticas da burguesia que est\u00e3o nos governos a levam adiante.<em>Nesse sentido, existe sim uma verdadeira &#8220;ofensiva reacion\u00e1ria&#8221; contra<\/em> os trabalhadores e as massas. \u00c9 uma necessidade urgente do capitalismo imperialista e das burguesias nacionais, em seu atual est\u00e1gio de decad\u00eancia irrevers\u00edvel, exacerbadas pelo contexto da crise econ\u00f4mica internacional.<\/p>\n<p>Na medida em que n\u00e3o derrotarmos definitivamente o capitalismo imperialista e as burguesias nacionais, esta ofensiva n\u00e3o s\u00f3 continuar\u00e1, mas tamb\u00e9m se aprofundar\u00e1, e o padr\u00e3o de vida dos trabalhadores e das massas continuar\u00e1 a deteriorar-se constantemente. Porque inclusive, quando com a luta dura, se obt\u00e9m uma conquista econ\u00f4mica ou a defende, depois de um tempo, \u00e9 atacada novamente. Estas s\u00e3o as bases objetivas da necessidade da luta pela tomada do poder e da revolu\u00e7\u00e3o socialista, e a falsidade reacion\u00e1ria da proposta de &#8220;humanizar o capitalismo&#8221;.<\/p>\n<p>Tomar como centro da defini\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes os ataques do imperialismo e das burguesias nacionais e a obten\u00e7\u00e3o ou perda de conquistas \u00e9 totalmente errado. Desse ponto de vista, nossos inimigos sempre estar\u00e3o na ofensiva e os trabalhadores e as massas na defensiva, pelo menos at\u00e9 que se coloque a tomada do poder como tarefa concreta.<\/p>\n<p>Mas a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que vai moldando a luta de classes em um dado per\u00edodo \u00e9 similar a uma luta de boxe: os dois oponentes atacam com golpes e tamb\u00e9m se defendem deles. A luta pode ser equilibrada; \u00e0s vezes, um dos boxeadores acerta e vai para a ofensiva sem que haja ainda uma defini\u00e7\u00e3o clara; inclusive um golpe muito forte pode gerar o KO ou marcar uma din\u00e2mica muito clara a seu favor.<\/p>\n<p>A realidade da luta de classes e a defini\u00e7\u00e3o de uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 mais complexa do que uma luta de boxe, devido aos m\u00faltiplos fatores objetivos e subjetivos que se combinam. Nessas lutas, os trabalhadores e as massas ganham confian\u00e7a e se movem em dire\u00e7\u00e3o a confrontos mais fortes em sua organiza\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia? Como incide a quest\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o dessas: surgem alternativas \u00e0s burocracias e aos reformistas? A burguesia est\u00e1 unificada ou dividida? Como est\u00e1 seu regime pol\u00edtico?<\/p>\n<p>Porque os ataques \u00e0 classe trabalhadora e \u00e0s massas, em muitos casos, atuam como o combust\u00edvel que alimenta as lutas e, em muitos casos, essas lutas provocam crises na burguesia e seu enfraquecimento. Nesses casos, falar em &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221; na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as n\u00e3o \u00e9 apenas um grave erro de caracteriza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m leva a pol\u00edticas totalmente equivocadas. Em outros casos, essas lutas (e a classe trabalhadora como um todo) tamb\u00e9m podem acabar derrotadas e a\u00ed se abriria uma verdadeira &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p><strong>A evolu\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na Am\u00e9rica Latina.<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, dominaram os governos latino-americanos chamados &#8220;neoliberais&#8221;. Eles aplicaram uma pol\u00edtica de privatiza\u00e7\u00e3o, entrega da economia de seus pa\u00edses e atacaram duramente as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e sal\u00e1rios. No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, a resposta de luta dos trabalhadores e do povo contra eles se transformou em processos revolucion\u00e1rios em v\u00e1rios pa\u00edses. Em muitos casos, esses governos foram derrubados: em 2000, no Equador; em 2001, na Argentina; em 2003, na Bol\u00edvia. Na Venezuela, isso j\u00e1 havia ocorrido em 1989 e a situa\u00e7\u00e3o se aprofundou em 2002-2003, quando a mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e do povo derrotou o golpe e o <em>lockout<\/em> patronal contra o governo de Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>As burguesias nacionais e o imperialismo estavam na defensiva. Em resposta a esses processos revolucion\u00e1rios em escala continental, eles aceitaram (e em muitos casos promoveram) governos de frente popular (de alian\u00e7a de classes) ou populistas: Hugo Ch\u00e1vez, Rafael Correa, N\u00e9stor Kirchner e Evo Morales. No Brasil, de forma preventiva, chegaram o governo Lula e o PT.<\/p>\n<p>Esses governos refletiam uma profunda contradi\u00e7\u00e3o. Por um lado, era uma express\u00e3o distorcida do ascenso revolucion\u00e1rio. Por esta raz\u00e3o, v\u00e1rios deles &#8220;vestiram de vermelho&#8221; e de anti-imperialismo em seu discurso, tomaram algumas medidas nacionalistas mornas e parciais e deram algumas concess\u00f5es \u00e0s massas. Por outro lado, eram burgueses em sua ess\u00eancia: seu objetivo central era deter as revolu\u00e7\u00f5es e salvar o capitalismo e o regime burgu\u00eas. Portanto, nunca ultrapassaram os limites do sistema econ\u00f4mico capitalista nem de seu Estado. Aqui, uma premissa \u00e9 rigorosamente aplicada: quem n\u00e3o rompe com o imperialismo e com o capital financeiro acaba, mais cedo ou mais tarde, sendo seu instrumento.<\/p>\n<p><strong>A crise desses governos<\/strong><\/p>\n<p>Durante v\u00e1rios anos, tiveram &#8220;vento a favor&#8221; devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica global (2002-2011) pelos altos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas e alimentos exportados gra\u00e7as \u00e0 demanda da China. A partir de 2011-2012, a &#8220;bonan\u00e7a&#8221; chegou ao fim: esses governos tiveram que come\u00e7ar a aplicar planos de ajuste cada vez mais duros e atacar as concess\u00f5es dadas em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00f5es de trabalho, emprego, etc.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a aplicar o programa da direita neoliberal e, em muitos casos, a trazer seus representantes ao governo. Tamb\u00e9m come\u00e7ou o desgaste profundo de seu peso entre os trabalhadores e as massas. Foram projetos &#8220;bem-sucedidos&#8221; para salvar o Estado burgu\u00eas e o capitalismo. Mas, ao mesmo tempo, eles lan\u00e7aram as bases para sua pr\u00f3pria crise e seu decl\u00ednio. Conseguiram desviar e deter os processos revolucion\u00e1rios, por\u00e9m n\u00e3o os derrotaram na luta e, ent\u00e3o, os trabalhadores sa\u00edram para enfrentar as medidas de ajuste que aplicaram e aplicam.<\/p>\n<p><strong>Por que a direita se fortaleceu eleitoralmente?<\/strong><\/p>\n<p>Durante v\u00e1rios anos, os trabalhadores e as massas viram esses governos como \u201cpr\u00f3prios&#8221;. Mas, na medida em que aplicaram os planos de ajuste, come\u00e7aram a romper e lutar contra eles. Uma ruptura que foi acentuada porque, sendo setores burgueses menores ou em forma\u00e7\u00e3o, os n\u00edveis de corrup\u00e7\u00e3o do Estado s\u00e3o, em geral, mais vis\u00edveis do que nos governos burgueses &#8220;normais&#8221; (onde as coisas s\u00e3o geralmente &#8220;nos bastidores&#8221;).<\/p>\n<p>Isso permitiu \u00e0 direita camuflar seu discurso: n\u00e3o disse &#8220;eu vou fazer um ajuste feroz&#8221;, ou &#8220;basta de corrup\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;precisamos de uma mudan\u00e7a para pessoas honestas, eficientes e capazes&#8221;. Desta forma, ao eleitor mais tradicional e pr\u00f3prio desta direita se juntaram muitos trabalhadores que expressam (atrav\u00e9s do &#8220;voto castigo&#8221; ao qual a armadilha das elei\u00e7\u00f5es burguesas conduz) sua raiva e sua frustra\u00e7\u00e3o com as promessas n\u00e3o cumpridas de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade que os populistas fizeram. Em um racioc\u00ednio equivocado, a raiva leva \u00e0 conclus\u00e3o de que &#8220;qualquer um \u00e9 melhor que essas pessoas&#8221;.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, isso permitiu em primeiro lugar que, ainda que n\u00e3o vencesse a elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2014, A\u00e9cio Neves teria bons resultados em cidades e estados de grande peso da classe oper\u00e1ria (como S\u00e3o Paulo). Depois, tamb\u00e9m permitiu que um congresso desacreditado e corrupto, destitu\u00edsse Dilma Roussef sem que os oper\u00e1rios movessem um dedo por ela.Os pr\u00f3prios governos burgueses populistas e frente popular foram os respons\u00e1veis \u200b\u200bpelos triunfos eleitorais da direita. Em primeiro lugar, por ter frustrado as expectativas populares de mudan\u00e7a que eles afirmavam representar e por transformarem-se em governos de &#8220;ajustadores puros&#8221;.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, porque se apresentando como &#8220;esquerda&#8221; e &#8220;o popular&#8221; contra &#8220;a direita&#8221;, contribu\u00edram para alimentar a falsa polariza\u00e7\u00e3o eleitoral, na qual existem apenas duas alternativas (burguesas).Para esses governos, a defini\u00e7\u00e3o da &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221; tinha o objetivo de evitar (ou retardar) o rompimento das massas com eles. Nos processos eleitorais, servia para pedir o voto j\u00e1 que &#8220;era necess\u00e1rio defender o que foi conquistado&#8221; e &#8220;aqueles que podem vir s\u00e3o muito piores que n\u00f3s&#8221;. Ap\u00f3s a derrota eleitoral, ou da destitui\u00e7\u00e3o de Dilma, serviu-lhes para &#8220;lavar as m\u00e3os&#8221; e descarregar a responsabilidade sobre um setor do movimento de massas que &#8220;n\u00e3o soube distinguir o bem do mal&#8221; e &#8220;fez o jogo da direita&#8221;.<\/p>\n<p>Correntes de esquerda que ap\u00f3iam e\/ou defendem esses governos (mesmo com cr\u00edticas, mas com argumentos de que &#8220;n\u00e3o \u00e9 o mesmo&#8221; ou &#8220;devemos defender a democracia&#8221;) n\u00e3o fazem mais do que &#8220;embelez\u00e1-los&#8221; e impedir a luta contra eles, e assim se tornam seus c\u00famplices ou, pelo menos, capitulam a eles.<\/p>\n<p><strong>Os complexos processos da consci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia das massas passaram por processos altamente contradit\u00f3rios nesses anos. Primeiro lutaram contra os governos e as pol\u00edticas neoliberais e, em v\u00e1rios pa\u00edses, os derrotaram. Depois, erroneamente acreditaram que os governos burgueses e de frente popular poderiam ser as ferramentas de mudan\u00e7a a que aspiram. Mais tarde, come\u00e7aram a lutar contra os ajustes desses governos e a romper com eles.<\/p>\n<p>Essa ruptura \u00e9 um avan\u00e7o em sua consci\u00eancia. Mas n\u00e3o \u00e9 um avan\u00e7o linear, e sim altamente contradit\u00f3rio, porque, em face da falsa polariza\u00e7\u00e3o, um setor parou para &#8220;defender o que j\u00e1 foi conquistado&#8221; e outro foi confundido com &#8220;qualquer um \u00e9 melhor&#8221; e apoiou eleitoralmente a direita.<\/p>\n<p>Mas essa ruptura dos trabalhadores e das massas com o kirchnerismo, o chavismo, o PT e Lula \u00e9 o processo mais importante que est\u00e1 ocorrendo na consci\u00eancia das massas latino-americanas porque, sem ele, n\u00e3o haveria possibilidade de construir uma forte alternativa oper\u00e1ria, revolucion\u00e1ria e socialista \u00e0 crise do capitalismo. Essa ruptura pol\u00edtica \u00e9 o processo que esper\u00e1vamos h\u00e1 anos e que n\u00e3o \u00e9 menor (menos ainda se transforma em negativo) porque ainda n\u00e3o tenha se expressado de maneira politicamente organizada.<\/p>\n<p><strong>A capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 frente popular no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Naturalmente, cabe aos revolucion\u00e1rios promover a constru\u00e7\u00e3o dessa alternativa, essencialmente nas lutas dos trabalhadores e na organiza\u00e7\u00e3o das massas. Uma tarefa que s\u00f3 pode ser feita com base em propostas com n\u00edtidas posi\u00e7\u00f5es de classe, que n\u00e3o capitulem \u00e0s frentes populares, ao PT e Lula (mesmo com o argumento de que &#8220;devemos lutar contra o governo golpista&#8221;).Aqui se aplica uma imagem usada por Trotsky para analisar a frente popular dominante na Fran\u00e7a nos anos 30. Ele dizia que a pol\u00edtica \u00e9 freq\u00fcentemente armada como um trem no qual cada vag\u00e3o vai se acoplando, dizendo estar &#8220;\u00e0 esquerda&#8221; do anterior e com cr\u00edticas a este, mas todos acabam indo na mesma dire\u00e7\u00e3o de quem dirige a locomotiva.<\/p>\n<p>No Brasil, a frente popular n\u00e3o est\u00e1 mais no governo, mas uma esp\u00e9cie de &#8220;frente popular na oposi\u00e7\u00e3o&#8221; foi formada. A locomotiva ainda \u00e9 Lula e o PT; atr\u00e1s est\u00e1 acoplado o PSOL, que diz que Lula e o PT n\u00e3o s\u00e3o os &#8220;melhores&#8221;, mas \u00e9 preciso &#8220;defender a democracia e pedir a liberdade de Lula&#8221; para &#8220;lutar contra os golpistas e combater o neo-fascismo&#8221; (concretamente, esperar as elei\u00e7\u00f5es de 2018 para mudar). E detr\u00e1s vem o MRT, que critica muito o PT e o PSOL, mas, em \u00faltima an\u00e1lise, se alinha com eles para &#8220;combater os golpistas e exigir a liberdade de Lula&#8221;. N\u00e3o \u00e9 por acaso que, h\u00e1 dois anos, a MRT solicitou sua entrada no PSOL e fez uma de suas campanhas centrais em torno desse pedido. O pedido n\u00e3o foi aceito, mas, na pr\u00e1tica, eles colocaram seu vag\u00e3o atr\u00e1s do trem dirigido por Lula e pelo PT.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica do MRT vai contra o processo mais rico e positivo da consci\u00eancia dos trabalhadores e das massas (a ruptura com Lula, o PT e a frente popular), base necess\u00e1ria para construir uma alternativa revolucion\u00e1ria dos trabalhadores. Na realidade, eles se assemelham a algu\u00e9m que quer atrasar um processo de nascimento que j\u00e1 come\u00e7ou porque n\u00e3o se d\u00e1 em &#8220;estado puro&#8221;, mas de uma forma muito mais confusa. Como querem que o processo avance e se desenvolva da maneira mais positiva, se dizem que \u00e9 uma &#8220;onda reacion\u00e1ria&#8221; e respondem capitulando ao PT? Enquanto que n\u00f3s que levamos uma pol\u00edtica de classe independente somos qualificados como &#8220;aliados da direita&#8221;.<\/p>\n<p><strong>O que aconteceu depois dos triunfos eleitorais de Macri e de Trump?<\/strong><\/p>\n<p>Dissemos que o triunfo eleitoral de um setor burgu\u00eas de direita n\u00e3o significa automaticamente uma mudan\u00e7a desfavor\u00e1vel da &#8220;rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as&#8221; no pa\u00eds. Na Argentina, Mauricio Macri venceu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais no final de 2015 e, nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2017, a coaliz\u00e3o Cambiemos novamente imp\u00f4s-se ao kirchnerismo. Mas a situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds dificilmente pode ser descrita como &#8220;reacion\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio de seu mandato, Macri teve que enfrentar, de modo permanente, lutas parciais, mobiliza\u00e7\u00f5es massivas e uma greve geral muito forte em abril de 2017. Mesmo depois de se sentir falsamente fortalecido com sua vit\u00f3ria eleitoral de outubro de 2017, ele tentou um ataque ainda mais forte e teve que enfrentar uma resposta contundente dos trabalhadores e das massas, expressa nos duros dias de luta em dezembro passado. A lei de reforma previdenci\u00e1ria foi aprovada, mas o governo foi &#8220;ferido&#8221; e perdeu parte de sua base eleitoral e apoio social na classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica est\u00e1 a ponto do explodir e a moeda nacional \u00e9 constantemente desvalorizada em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar, enquanto os capitais continuam fugindo do pa\u00eds. A burguesia est\u00e1 se dividindo sobre o que fazer nessas condi\u00e7\u00f5es. O governo teve que recorrer \u00e0 &#8220;ajuda&#8221; do FMI e, nas condi\u00e7\u00f5es descritas acima, dever\u00e1 aplicar o novo e mais dif\u00edcil ajuste que exige o FMI em troca de ajuda. O pa\u00eds \u00e9 um rastro de lutas setoriais. Se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se desenvolve mais (colocando inclusive a queda de Macri) \u00e9 pelo papel nefasto do kirchnerismo e da burocracia sindical que impedem que as lutas se unifiquem, buscando sustentar Macri at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2019.<\/p>\n<p>O caso de Trump apresenta caracter\u00edsticas semelhantes, embora mais atenuadas. Seu triunfo foi mais discut\u00edvel j\u00e1 que venceu no Col\u00e9gio Eleitoral, mas atraiu menos votos populares do que Hillary Clinton. \u00c9 verdade, por outro lado, que obteve o voto de setores da classe oper\u00e1ria branca. Logo no in\u00edcio de seu governo, enfrentou importantes mobiliza\u00e7\u00f5es contra ele e mobiliza\u00e7\u00f5es massivas de mulheres. Ent\u00e3o, sua primeira tentativa de medidas contra os imigrantes foi derrotada pela luta popular. Atualmente, as greves dos professores est\u00e3o se expandindo estado por estado. Tamb\u00e9m teve que recuar em seu plano para liquidar o plano de sa\u00fade estabelecido por Obama (Obama). Na situa\u00e7\u00e3o dos EUA, quem p\u00e1ra o processo de lutas e impede seu progresso s\u00e3o os democratas, o outro partido imperialista burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Em n\u00edvel internacional, o governo Trump causou divis\u00f5es na burguesia imperialista e algumas grandes crises na ordem mundial. Por um lado, por sua oposi\u00e7\u00e3o a certas consequ\u00eancias que o processo de &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica&#8221; tem para alguns setores da burguesia estadunidense. De outro, por sua inten\u00e7\u00e3o de superar a &#8220;s\u00edndrome do Iraque&#8221; e, para isso, buscar uma alian\u00e7a com Putin. Isto faz com que se enfrente n\u00e3o apenas com importantes setores da burguesia imperialista dos EUA, mas tamb\u00e9m com os europeus. O eixo Estados Unidos-Inglaterra-Alemanha enfraqueceu-se.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, entre as suas inten\u00e7\u00f5es no campo pol\u00edtico e econ\u00f4mico e o que pode fazer, est\u00e1 a realidade da luta de classes e das divis\u00f5es da burguesia imperialista. Assim, muitas vezes &#8220;vem e vai&#8221;, fica na metade do caminho ou \u00e9 for\u00e7ado a recuar. Tomemos o exemplo do confronto com a Cor\u00e9ia do Norte: primeiro ele amea\u00e7ou atac\u00e1-la, mas depois recuou e optou pelo &#8220;caminho chin\u00eas&#8221; da negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Uma profunda mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Falamos que os ataques ao PSTU foram uma constante da organiza\u00e7\u00e3o que agora \u00e9 chamada de MRT. No entanto, quando era a LER, suas cr\u00edticas vieram de posi\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias e ultra-esquerdistas como considerarem &#8220;inaceit\u00e1vel&#8221; a forma\u00e7\u00e3o de uma chapa comum entre a juventude do PSTU e do MES-PSOL para disputar o DCE da Universidade de S\u00e3o Paulo. Agora, esta corrente n\u00e3o s\u00f3 esqueceu o &#8220;inaceit\u00e1vel&#8221;, mas pediu para entrar no PSOL. O que aconteceu no meio? Que transforma\u00e7\u00e3o ocorreu entre as duas posi\u00e7\u00f5es (opostas, dir\u00edamos)?<\/p>\n<p>Uma primeira resposta encontra-se no texto do &#8220;Manifesto do Movimento Revolucion\u00e1rio de Trabalhadores, em campanha pelo #MRTnoPSOL&#8221;, que lan\u00e7ou a campanha para a sua entrada. Neste material, afirma-se:<em>&#8220;O PSOL \u00e9 um partido que, acima de tudo, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, com a candidatura de Luciana Genro e v\u00e1rios deputados, apareceu como uma alternativa \u00e0 esquerda do PT para um importante p\u00fablico de massa. Luciana teve 1,6 milh\u00e3o de votos como importante express\u00e3o da luta contra os setores mais conservadores da pol\u00edtica brasileira\u201d (<\/em>tradu\u00e7\u00e3o nossa). Portanto, a proposta da MRT \u00e9 &#8220;<em>lutar com nossas id\u00e9ias revolucion\u00e1rias dentro do PSOL para construir uma alternativa forte dos trabalhadores&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, &#8220;<em>o PSTU, apesar de levantar pontos de programa corretos, tem se recusado a se apresentar como uma verdadeira alternativa, cada vez mais restrito a um sindicalismo que agita na propaganda a &#8216;greve geral&#8217;, mas n\u00e3o responde \u00e0 crise do PT nem a luta de classes\u201d (<\/em>tradu\u00e7\u00e3o nossa). Em outro material, o MRT caracteriza que, devido \u00e0 diferen\u00e7a de votos obtida por ambos partidos nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, <em>&#8220;o que devemos ter claro \u00e9 que a tend\u00eancia \u00e9 a emerg\u00eancia pol\u00edtica do PSOL diante da crise do PT e que o PSTU se consolida como uma grande seita sindical que desaparece do terreno pol\u00edtico,&#8221; <\/em>apesar de reconhecer que <em>&#8220;na CSP-Conlutas est\u00e3o os sindicatos antigovernamentais do pa\u00eds.<\/em><em>&#8220;<\/em><\/p>\n<p>Vamos passar a limpo o racioc\u00ednio do MRT: o importante para ter peso pol\u00edtico e <em>&#8220;ser alternativa&#8221;<\/em> \u00e9 obter muitos votos e deputados. Pelo contr\u00e1rio, se tem peso de dire\u00e7\u00e3o na central em que se agrupam os sindicatos mais combativos (isto \u00e9, peso estrutural e organizacional na classe trabalhadora), mas tem poucos votos, um partido se torna uma &#8220;seita sindicalista grande\u201d sem futuro pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, a enfermidade que afeta o MRT e que o transformou tem um nome preciso: oportunismo eleitoral, um mal que j\u00e1 &#8220;mutou&#8221; grande parte da esquerda brasileira e mundial e, pelo visto, n\u00e3o deixa imunes aos que se consideram &#8220;super-revolucion\u00e1rios&#8221;. \u00c9 a a\u00e7\u00e3o corrosiva da pol\u00edtica do imperialismo e das burguesias nacionais que chamamos de &#8220;rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica&#8221;. Por um lado, est\u00e1 destinada a evitar ou desviar as lutas e revolu\u00e7\u00f5es levando-as \u00e0 via morta da democracia eleitoral e parlamentar burguesa. Por outro lado, corr\u00f3i e coopta organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias que acreditam que podem &#8220;enganar a hist\u00f3ria&#8221; seguindo um caminho que parece mais f\u00e1cil (votos e deputados), mas que as leva a se transformar em outra coisa e a perder seu car\u00e1ter revolucion\u00e1rio. Agora parece que a vida passa pelas elei\u00e7\u00f5es e o parlamento, e tudo \u00e9 ordenado em torno disso, mesmo que se continue chamando &#8220;\u00e0 luta&#8221;.<\/p>\n<p>Para evitar discuss\u00f5es falsas: n\u00e3o temos nenhum &#8220;cretinismo&#8221; antieleitoral ou antiparlamentar. Como L\u00eanin, Trotsky e a Terceira Internacional defenderam, somos a favor de participar de elei\u00e7\u00f5es com nossos candidatos para difundir e popularizar o programa revolucion\u00e1rio entre as massas. No \u00e2mbito desta atividade, queremos obter o maior n\u00famero de votos para esse programa e, se poss\u00edvel, eleger deputados ou parlamentares para serem tribunos da classe oper\u00e1ria em uma institui\u00e7\u00e3o inimiga e ajudar a desgast\u00e1-la e destru\u00ed-la. O que somos totalmente contra \u00e9 transformar isso na atividade central e no eixo de um partido revolucion\u00e1rio (isto \u00e9, em muito mais do que <em>&#8220;um ponto de apoio secund\u00e1rio&#8221;, <\/em>como dizia L\u00eanin). Ou medir os avan\u00e7os e o peso de um partido apenas (ou essencialmente) pelos votos que obt\u00e9m e n\u00e3o por sua constru\u00e7\u00e3o estrutural e seu peso nas organiza\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>A enfermidade afetou toda a FT<\/strong><\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o foi apenas o MRT que contraiu esta doen\u00e7a. Esta organiza\u00e7\u00e3o expressa o cont\u00e1gio do partido principal de sua organiza\u00e7\u00e3o internacional: o Partido dos Trabalhadores Socialistas &#8211; PTS da Argentina. Neste caso, os &#8220;sintomas&#8221; n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o evidentes como no MRT do Brasil, devido ao maior peso da organiza\u00e7\u00e3o argentina (inclusive nas estruturas oper\u00e1rias) e porque obteve sucessos eleitorais atrav\u00e9s da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores &#8211; FIT que tenta manter um &#8220;perfil trotskista&#8221;. No entanto, visivelmente eles j\u00e1 est\u00e3o l\u00e1. Com base nesses \u00eaxitos eleitorais, h\u00e1 v\u00e1rios anos o PTS vem atuando como uma organiza\u00e7\u00e3o eleitoral e parlamentar.Entre outras coisas, houve uma mudan\u00e7a clara no perfil pol\u00edtico do PTS, inclusive no terreno eleitoral. Historicamente, o candidato e principal figura p\u00fablica do PTS era Jos\u00e9 Montes (&#8220;Verdura&#8221;), um oper\u00e1rio com uma longa hist\u00f3ria de luta em Astilleros R\u00edo Santiago. Depois, &#8220;Verdura&#8221; foi substitu\u00eddo pelo professor universit\u00e1rio Christian Castillo.<\/p>\n<p>Hoje, suas principais figuras p\u00fablicas s\u00e3o seus deputados Nicol\u00e1s del Ca\u00f1o e Myriam Bregman, que n\u00e3o mais representam uma n\u00edtida refer\u00eancia \u00e0 classe oper\u00e1ria. \u00c9 verdade que Jos\u00e9 Montes j\u00e1 tem 66 anos e est\u00e1 aposentado para o que \u00e9 compreens\u00edvel uma renova\u00e7\u00e3o geracional. Mas o PTS tem outros importantes dirigentes oper\u00e1rios reconhecidos, como Raul Godoy, da f\u00e1brica de Zan\u00f3n, em Neuqu\u00e9n, ou Javier Hermosilla, da f\u00e1brica da Kraft-Foods, no norte da Grande Buenos Aires.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a de linguagem. Durante a campanha eleitoral presidencial de 2015, Nicol\u00e1s del Ca\u00f1o falou sobre o combate contra &#8220;a casta pol\u00edtica&#8221; (igual ao Podemos espanhol), com apelos constantes para &#8220;a juventude&#8221;, em ambos os casos sem qualquer refer\u00eancia de classe. Tamb\u00e9m se expressa em algumas de suas t\u00e1ticas parlamentares como apoiar propostas dos deputados kirchneristas (agora na oposi\u00e7\u00e3o) e em sua posi\u00e7\u00e3o muito limitada no debate do pagamento aos &#8220;fundos abutres&#8221;, sem qualquer refer\u00eancia ao pagamento ou ao resto da d\u00edvida externa ileg\u00edtima. Neste caso, n\u00e3o havia sequer a justificativa de que seus votos teriam permitido parar legislativamente este pagamento.<\/p>\n<p>Se expressou finalmente nas recentes e massivas jornadas de luta contra a reforma previdenci\u00e1ria apresentada pelo governo Macri ao Parlamento. No primeiro dia destas, centenas de milhares de pessoas cercaram o Congresso, enfrentaram a repress\u00e3o e for\u00e7aram a suspens\u00e3o da sess\u00e3o legislativa (mais tarde seria aprovada em uma segunda sess\u00e3o). O PTS chamou essas mobiliza\u00e7\u00f5es e participou delas. Mas uma de suas principais preocupa\u00e7\u00f5es foi destacar, no mesmo n\u00edvel da luta, o papel central de seus parlamentares: <em>&#8220;Os deputados do PTS e da Frente de Esquerda desempenharam um papel de destaque na longa jornada de mobiliza\u00e7\u00e3o e protestos nesta segunda-feira que evidenciou a grande rejei\u00e7\u00e3o da reforma previdenci\u00e1ria &#8230; <\/em><em>&#8220;<\/em>[4].<\/p>\n<p>Como dissemos, a FT-PTS-MRT vem de uma corrente que rompeu com a LIT-QI e o morenismo, considerando-os parte do &#8220;trotskismo de Yalta e Potsdam&#8221;, de capitular \u00e0 chamada &#8220;teoria dos campos burgueses progressistas e reacion\u00e1rios &#8220;e de ser&#8221; eleitoralistas&#8221;. E que eles seriam a base da reconstru\u00e7\u00e3o do &#8220;trotskismo&#8221; de Trotsky. A realidade nos mostra que hoje eles &#8220;l\u00eaem&#8221; a realidade e elaboram suas posi\u00e7\u00f5es exatamente como o &#8220;trotskismo de Yalta e Potsdam&#8221; e com base no mais puro eleitoralismo, com total desconsidera\u00e7\u00e3o pelo trabalho e o peso nas organiza\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria. Como conclus\u00e3o, eles acabam capitulando (com um pouco de vergonha, \u00e9 claro) aos campos burgueses liderados pelo PT ou o kirchenrismo.<\/p>\n<p>No contexto desse giro, a FT\/PTS mant\u00e9m algumas caracter\u00edsticas do per\u00edodo ultraesquerdista e propagandista. Por exemplo, na importante mobiliza\u00e7\u00e3o que ocorreu na Argentina em 7 de mar\u00e7o de 2017, milhares de oper\u00e1rios exigiram que a burocracia da CGT convocasse uma greve geral contra os ataques do governo Macri. Eles cantavam: &#8220;P\u00f5e a data, a puta que te pariu\u201d, avan\u00e7aram contra o palco do ato e obrigaram os burocratas a fugir. Enquanto isso acontecia, o PTS e o PO estavam fazendo seu pr\u00f3prio ato paralelo, por fora desse processo. No entanto, uma explica\u00e7\u00e3o se faz necess\u00e1ria: a atitude era autoproclamat\u00f3ria, propagandista e ultra-esquerdista, mas n\u00e3o fazia parte de uma concep\u00e7\u00e3o coerente de conjunto, e sim que agora estava a servi\u00e7o de uma pol\u00edtica eleitoralista.<\/p>\n<p><strong>O m\u00e9todo de relacionamento entre organiza\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Deixamos este t\u00f3pico para o final, embora seja muito importante. Para a LIT, quando a rela\u00e7\u00e3o entre organiza\u00e7\u00f5es que se reivindicam revolucion\u00e1rias deve ser clara e leal, at\u00e9 mesmo para debater as maiores diferen\u00e7as. Ainda mais se o que \u00e9 proposto \u00e9 explorar a possibilidade de uma fus\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, para a FT, por considerar-se como a \u00fanica representante do &#8220;trotskismo de Trosky&#8221;, as coisas s\u00e3o diferentes e todas as manobras e atitudes desleais s\u00e3o v\u00e1lidas. Vamos ver dois exemplos.<\/p>\n<p>A Liga Estrat\u00e9gia Revolucion\u00e1ria &#8211; LER (antecessora da MRT) foi fundada no in\u00edcio dos anos 90 com militantes que romperam com a organiza\u00e7\u00e3o brasileira da LIT. \u00c9 a ruptura que teve sua origem em um &#8220;entrismo secreto&#8221; que a FT estava fazendo h\u00e1 algum tempo. Para a LIT, o m\u00e9todo de &#8220;entrismo secreto&#8221; \u00e9 usado apenas contra organiza\u00e7\u00f5es que s\u00e3o caracterizadas como &#8220;inimigas&#8221; (o que justifica seu car\u00e1ter) nunca pode ser usado entre organiza\u00e7\u00f5es trotskistas. Para a FT, pelo contr\u00e1rio, isso \u00e9 normal e v\u00e1lido.Como um quadro mais geral, a FT prop\u00f5e a realiza\u00e7\u00e3o de &#8220;confer\u00eancias&#8221; entre v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es para discutir a reconstru\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional. Pelo que dissemos, a FT n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o real de explorar a possibilidade de uma reaproxima\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 outra manobra para ganhar alguns militantes das outras organiza\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, transformou manobras desleais em seu m\u00e9todo permanente de rela\u00e7\u00e3o com outras organiza\u00e7\u00f5es trotskistas.<\/p>\n<p>Isso se soma \u00e0s profundas diferen\u00e7as te\u00f3ricas e pol\u00edticas que temos. Mas mesmo que elas diminu\u00edssem, esse m\u00e9todo de relacionamento impossibilita qualquer aproxima\u00e7\u00e3o sobre bases s\u00e9rias e honestas. Al\u00e9m disso, determina que, sob essas condi\u00e7\u00f5es, a FT s\u00f3 pode desempenhar um papel negativo e destrutivo em um processo de avan\u00e7o na reconstru\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional.<\/p>\n<p>[1] <a href=\"http:\/\/www.laizquierdadiario.com\/La-prision-de-Lula-nuevo-capitulo-del-golpe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.laizquierdadiario.com\/La-prision-de-Lula-nuevo-capitulo-del-golpe<\/a><\/p>\n<p>[2] Ver, entre outros:<\/p>\n<p><u><a href=\"http:\/\/litci.org\/es\/lit-ci-y-partidos\/partidos\/pstu-brasil\/la-caida-de-dilma-seria-un-golpe\/\">http:\/\/litci.org\/es\/lit-ci-y-partidos\/partidos\/pstu-brasil\/la-caida-de-dilma-seria-un-golpe\/<\/a><\/u><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/debates\/pstu-no-va-los-actos-unidad-izquierda-defensa-lula\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/debates\/pstu-no-va-los-actos-unidad-izquierda-defensa-lula\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/brasil\/debate-significado-la-prision-lula\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/brasil\/debate-significado-la-prision-lula\/<\/a><\/p>\n<p>[3] <a href=\"http:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/III-Congresso-do-MRT-vota-batalhar-por-uma-esquerda-anti-imperialista-e-de-independencia-de-classe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/III-Congresso-do-MRT-vota-batalhar-por-uma-esquerda-anti-imperialista-e-de-independencia-de-classe<\/a><\/p>\n<p>[4] <a href=\"https:\/\/www.laizquierdadiario.com\/El-rol-de-los-diputados-de-izquierda-en-la-jornada-de-lucha-contra-la-reforma-previsional-de-Macri\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.laizquierdadiario.com\/El-rol-de-los-diputados-de-izquierda-en-la-jornada-de-lucha-contra-la-reforma-previsional-de-Macri<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os debates entre a LIT e a FT j\u00e1 acontecem h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. No entanto, como apontamos na parte I deste artigo, essa organiza\u00e7\u00e3o, que antes nos criticava desde a &#8220;esquerda&#8221; e a &#8220;ultra-ortodoxia trotskista&#8221;, nos \u00faltimos anos, passou a faz\u00ea-lo localizada \u00e0 nossa &#8220;direita&#8221;. Por isso, nesses debates, utiliza os mesmos argumentos que antes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":23202,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[6061],"tags":[1551,1393,3872,6097,1446,6041,6098,96,1449,4108],"class_list":["post-23201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-80-anos-da-quarta","tag-alejandro-iturbe","tag-democracia-burguesa","tag-eleitoralismo","tag-fracao-trotskista","tag-iv-internacional","tag-mrt","tag-onda-reacionaria","tag-pstu-2","tag-pts","tag-ultraesquerdismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/PTS-1.jpg","categories_names":["80 anos da Quarta"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23201"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23201\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}