{"id":23117,"date":"2018-06-03T09:39:02","date_gmt":"2018-06-03T11:39:02","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=23117"},"modified":"2018-06-03T09:39:02","modified_gmt":"2018-06-03T11:39:02","slug":"sobre-os-acontecimentos-na-armenia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2018\/06\/03\/sobre-os-acontecimentos-na-armenia\/","title":{"rendered":"Sobre os acontecimentos na Arm\u00eania"},"content":{"rendered":"<p><em>Nas \u00faltimas semanas se deram acontecimentos importantes na Arm\u00eania. A vida pol\u00edtica deste pequeno pa\u00eds tem especificidades derivadas de sua hist\u00f3ria, para muito al\u00e9m de suas fronteiras atuais. Este texto n\u00e3o pretende esgotar o tema e n\u00e3o tem como objetivo tirar conclus\u00f5es pol\u00edticas acabadas, mas definir os contornos gerais para a compreens\u00e3o dos acontecimentos e as tend\u00eancias da vida pol\u00edtica desde o ponto de vista dos trabalhadores e povo arm\u00eanio.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: POI R\u00fassia<\/p>\n<p><strong>Ref\u00e9m de imp\u00e9rios<\/strong><\/p>\n<p>A etnia arm\u00eania \u00e9 uma das mais antigas. Formou-se em condi\u00e7\u00f5es montanhosas, que incluem o atual territ\u00f3rio do pa\u00eds, parte leste da atual Turquia e norte do atual Ir\u00e3. Por viver em regi\u00e3o montanhosa, com dif\u00edceis acessos, a etnia arm\u00eania se desenvolveu de forma particularmente aut\u00f3ctone. Por outro lado, pelas mesmas condi\u00e7\u00f5es montanhosas, a Arm\u00eania historicamente n\u00e3o podia concorrer com os imp\u00e9rios maiores, com espa\u00e7o para o seu desenvolvimento econ\u00f4mico (em diferentes per\u00edodos, os imp\u00e9rios Romano, Bizantino, Persa, Califado \u00c1rabe, Otomano e Russo). A Arm\u00eania sempre esteve sob o dom\u00ednio destes, bem no limite entre eles, e frequentemente passando das m\u00e3os de um ao outro. Uma das consequ\u00eancias das tentativas de afirmar sua autossufici\u00eancia pol\u00edtica foi que a Arm\u00eania foi a primeira na\u00e7\u00e3o a assumir o cristanismo como religi\u00e3o oficial de estado, no in\u00edcio do sec. IV, o que permitiu sua dissemina\u00e7\u00e3o nesta regi\u00e3o, a mais segura prov\u00edncia de Roma para os crist\u00e3os. Da\u00ed a origem da Igreja Crist\u00e3 Arm\u00eania.<\/p>\n<p><strong>\u201cPovo-classe\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Na Antiguidade e durante a Idade M\u00e9dia, vivendo na fronteira entre imp\u00e9rios, os arm\u00eanios se formaram com grande peso de comerciantes e gente abastada. Isso lhes deu fortes caracter\u00edsticas de um povo-classe, fen\u00f4meno sobre o qual escreveu Marx, ao analisar a hist\u00f3ria do povo judeu. A atividade comercial e as migra\u00e7\u00f5es, inclu\u00eddo aquelas for\u00e7adas, devidas a passagem da Arm\u00eania hist\u00f3rica de m\u00e3os em m\u00e3os, levou \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o dos arm\u00eanios por diferentes pa\u00edses e expans\u00e3o de sua di\u00e1spora. Nos pa\u00edses onde se estabeleceram, os arm\u00eanios ocuparam elevadas posi\u00e7\u00f5es sociais (comerciantes, militares, juristas, contadores, m\u00e9dicos, religiosos, administradores p\u00fablicos), da mesma forma que os coptas no Egito ou os judeus na Europa. A intelectualidade e a burguesia arm\u00eanias, inclusive hoje, s\u00e3o importantes fen\u00f4menos em muitos pa\u00edses. Como no caso dos judeus, o desenvolvimento do capitalismo formou no interior deste povo tamb\u00e9m uma maioria prolet\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>\u201cA quest\u00e3o arm\u00eania\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o social dos arm\u00eanios, parecida \u00e0 posi\u00e7\u00e3o dos judeus, de forma an\u00e1loga deu origem \u00e0 \u201cquest\u00e3o arm\u00eania\u201d. \u00c0 discrimina\u00e7\u00e3o e pogroms contra os judeus na Europa, correspondeu a discrimina\u00e7\u00e3o dos arm\u00eanios e os pogroms no Imp\u00e9rio Otomano e no C\u00e1ucaso sob o poder do Imp\u00e9rio Russo (com a proibi\u00e7\u00e3o do ensino da hist\u00f3ria arm\u00eania e press\u00e3o sobre a sua Igreja no final do sec. XIX). Estes eram organizados e estimulados, j\u00e1 na \u00e9poca capitalista, pelos governos e\/ou for\u00e7as nacionalistas burguesas para dividir a classe trabalhadora. Isso era particularmente certo para per\u00edodos de convuls\u00f5es sociais e revolu\u00e7\u00e3o, como no caso do genoc\u00eddio arm\u00eanio pelo Imp\u00e9rio Otomano em 1894-1896 (consequ\u00eancia de sua derrota na guerra, que levou o Imp\u00e9rio \u00e0 crise) e o genoc\u00eddio durante a Primeira Guerra Mundial (que ampliou muito a di\u00e1spora arm\u00eania pelo mundo), pogroms em Baku no per\u00edodo da revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905; e ainda em 1990, no per\u00edodo revolucion\u00e1rio contra o estalinismo na URSS.<\/p>\n<p><strong>O conflito nacional com o Azerbaij\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O redesenho das esferas de influ\u00eancia entre o Imp\u00e9rio Otomano (que havia expulsado os arm\u00eanios) e o Imp\u00e9rio Russo no C\u00e1ucaso (que com medidas discriminat\u00f3rias ao mesmo tempo tentava reunir os arm\u00eanios na Arm\u00eania para formar um \u201cposto avan\u00e7ado crist\u00e3o\u201d contra a Turquia), acompanhado de limpezas \u00e9tnicas, tanto de arm\u00eanios-crist\u00e3os, como de povos mu\u00e7ulmanos de fala turca (os azerbaijanos) e a pol\u00edtica do Imp\u00e9rio Russo de ocupar territ\u00f3rios com tal ou qual nacionalidade de acordo \u00e0 sua conveni\u00eancia, teve como consequ\u00eancia a mistura de nacionalidades pelo territ\u00f3rio, aus\u00eancia de \u201cfronteiras hist\u00f3ricas\u201d com a regi\u00e3o de moradia dos azerbaijanos e conflitos territoriais entre a Arm\u00eania e o Azerbaij\u00e3o (em primeiro lugar em torno \u00e0 regi\u00e3o de Nagorno-Karabakh).<\/p>\n<p><strong>O duplo car\u00e1ter do nacionalismo arm\u00eanio<\/strong><\/p>\n<p>O desenvolvimento em muitos pa\u00edses de uma burguesia arm\u00eania \u00e9tnica (como consequ\u00eancia do \u201cpovo-classe\u201d), uma Igreja arm\u00eania pr\u00f3pria, luta contra a opress\u00e3o colonial e ao mesmo tempo o conflito com os azerbaijanos, formaram um movimento nacionalista arm\u00eanio extraterritorial, an\u00e1logo ao judeu, mas com a diferen\u00e7a fundamental de que, ao contr\u00e1rio dos judeus, os arm\u00eanios tinham um pa\u00eds para viver, mesmo que compacto e, portanto, o direito ao seu estado nacional. Este movimento se fortaleceu em especial a partir do sec. XIX com o desenvolvimento do capitalismo. Sua express\u00e3o mais pura foi o hist\u00f3rico partido arm\u00eanio FRA (Federa\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria Arm\u00eania), fundado em 1890, atuante no interior da di\u00e1spora arm\u00eania em todo o mundo, bem organizado e inclusive tendo utilizado m\u00e9todos de terrorismo.<\/p>\n<p>A FRA de fato ocupou na Arm\u00eania o nicho dos Socialistas Revoluci\u00f3n\u00e1rios e mencheviques, levando adiante a mesma pol\u00edtica destes, mas com a distin\u00e7\u00e3o do chauvinismo anti-azerbaijano. Lutando contra o tsarismo, em 1917 ela apoiou a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, mas interviu contra a de Outubro. De 1918 at\u00e9 1920, este partido dirigiu a Arm\u00eania, participando de acordo com a Entente (em base ao acordo de S\u00e8vres, que propunha ampliar o territ\u00f3rio arm\u00eanio em troca de sua submiss\u00e3o pol\u00edtica ao imperialismo, a chamada Arm\u00eania de Wilson), implementando limpezas \u00e9tnicas de popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas, esmagando o levante bolchevique de maio de 1920. Ao final, em 1920, o governo pr\u00f3-imperialista da FRA foi derrubado pela a\u00e7\u00e3o conjunta contra a Entente do Ex\u00e9rcito Vermelho e dos kemalistas turcos. Sua dire\u00e7\u00e3o emigrou e continuou atuando na arena mundial, buscando apoio na di\u00e1spora e fazendo de seu centro a luta contra a URSS (chegando ao limite da colabora\u00e7\u00e3o com o nazismo).<\/p>\n<p>A FRA se tornou a express\u00e3o pol\u00edtica e hist\u00f3rica mais acabada do nacionalismo \u00e9tnico burgu\u00eas arm\u00eanio dentro da di\u00e1spora mundial. Mas esta ideologia espec\u00edfica segue sendo compartida, em maior ou menor grau, por todos os partidos burgueses arm\u00eanios.<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria particular do nacionalismo burgu\u00eas arm\u00eanio foi utilizada pelo estalinismo como desculpa para asfixiar os direitos nacionais do povo arm\u00eanio e para a repress\u00e3o, com a acusa\u00e7\u00e3o de pertencerem a FRA. Em particular, em 1949, foram deportados da Arm\u00eania para a Sib\u00e9ria por Stalin mais de 15 mil arm\u00eanios (mais de 1% da popula\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o Rep\u00fablica Socialista Sovi\u00e9tica Arm\u00eania). Da mesma maneira, os partidos comunistas da Arm\u00eania e Azerbaij\u00e3o, ao inv\u00e9s de levarem adiante uma pol\u00edtica internacionalista prolet\u00e1ria para resolver a quest\u00e3o de Nagorno Karabakh, incorporaram o nacionalismo, mantiveram o enfrentamento nacional e implicitamente implementaram uma posi\u00e7\u00e3o nacionalista na quest\u00e3o de Nagorno Karabakh, inclusive estimulando o crescimento do peso demogr\u00e1fico da nacionalidade \u201cmais adequada\u201d. Toda esta pol\u00edtica, com a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, resultou numa sangrenta guerra entre a Arm\u00eania e o Azerbaij\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Da Arm\u00eania sovi\u00e9tica a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo<\/strong><\/p>\n<p>Em 1920 a Arm\u00eania foi proclamada rep\u00fablica sovi\u00e9tica, e a partir de 1922, parte da Rep\u00fablica Socialista Federativa Sovi\u00e9tica Transcaucasiana.<\/p>\n<p>At\u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o a Arm\u00eania era um pa\u00eds agr\u00e1rio, a produ\u00e7\u00e3o industrial estava limitada a inexpressiva extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de cobre e a produ\u00e7\u00e3o de conhaque.<\/p>\n<p>No per\u00edodo sovi\u00e9tico a rep\u00fablica passou por um processo de industrializa\u00e7\u00e3o. Junto \u00e0 metalurgia (extra\u00e7\u00e3o e fundi\u00e7\u00e3o de cobre\/molibd\u00eanio, ouro, prata) e o complexo agroindustrial, na Arm\u00eania se desenvolveu o setor de energia el\u00e9trica (inclusive eletronuclear), ind\u00fastrias t\u00eaxtil e qu\u00edmica, assim como constru\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas e equipamentos de alta tecnologia, inclu\u00edda a eletr\u00f4nica. Nos \u00faltimos anos de exist\u00eancia da URSS, a produ\u00e7\u00e3o relacionada \u00e0 alta tecnologia correspondia a cerca de 20% do PIB da Rep\u00fablica Arm\u00eania. A Arm\u00eania produzia cerca de 25-30% dos computadores para as necessidades do Complexo Industrial-Militar sovi\u00e9tico. Na base destes resultados contou, entre outros fatores, o tradicionalmente alto n\u00edvel educacional entre os arm\u00eanios.<\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo e queda da economia da URSS levou a Arm\u00eania a uma cat\u00e1strofe econ\u00f4mica. Todos os setores de tecnologia intensiva com mais valor agregado foram destru\u00eddos. A parcela da produ\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas e equipamentos dentro de sua estrutura industrial caiu de 35% em 1991 at\u00e9 4% em 2000. A quantidade de empregados no setor industrial caiu em 2,5 vezes, de 458 mil em 1991 para 180 mil em 2000. Houve uma primitiviza\u00e7\u00e3o da estrutura econ\u00f4mica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia, de 1991 at\u00e9 2015, abandonaram o pa\u00eds mais de um milh\u00e3o de pessoas (de uma popula\u00e7\u00e3o total de 3,6 milh\u00f5es), onde a maior parte foi para a R\u00fassia. A redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds devido \u00e0 emigra\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter cr\u00f4nico. A exist\u00eancia de uma di\u00e1spora hist\u00f3rica em diferentes pa\u00edses facilita este processo. Hoje, com uma popula\u00e7\u00e3o de 3 milh\u00f5es de habitantes, a quantidade de arm\u00eanios fora do pa\u00eds \u00e9 de 5 a 10 milh\u00f5es (1,5 milh\u00f5es nos EUA, 1,95 milh\u00f5es na R\u00fassia, 600 mil na Fran\u00e7a, 200 mil no Ir\u00e3, 128 mil na Argentina&#8230;).<\/p>\n<p><strong>Um modelo econ\u00f4mico que est\u00e1 destruindo o pa\u00eds<\/strong><\/p>\n<p>A Armenia foi uma das ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas que mais sofreu com a destrui\u00e7\u00e3o do setor de m\u00e1quinas e equipamentos em toda a ex-URSS. E n\u00e3o p\u00f4de compensar esta perda com a exporta\u00e7\u00e3o do g\u00e1s e petr\u00f3leo, como a R\u00fassia, Cazaquist\u00e3o ou seu vizinho Azerbaij\u00e3o, pois a Arm\u00eania n\u00e3o o tem. Tampouco pode receber royalties pelo tr\u00e2nsito do g\u00e1s e petr\u00f3leo atrav\u00e9s de seu territ\u00f3rio, como a Ucr\u00e2nia, pois pelas altas montanhas arm\u00eanias n\u00e3o passam oleodutos, nem tampouco autoestradas.<\/p>\n<p>A Arm\u00eania n\u00e3o pode receber taxas de portos de tr\u00e2nsito, como a Ge\u00f3rgia, Est\u00f4nia ou Let\u00f4nia, pois o pa\u00eds n\u00e3o tem sa\u00edda para o mar. Tampouco pode desenvolver a exporta\u00e7\u00e3o de produtos agr\u00edcolas, como a Ucr\u00e2nia ou o Cazaquist\u00e3o, pois n\u00e3o tem terras t\u00e3o f\u00e9rteis. N\u00e3o p\u00f4de amortizar a crises se apoiando no campesinato como a Ge\u00f3rgia, pois a Arm\u00eania \u00e9 um pa\u00eds altamente urbanizado para os padr\u00f5es caucasianos. A baixa acessibilidade de transportes, as baixas reservas de for\u00e7a de trabalho e o limitado mercado interno s\u00e3o tamb\u00e9m gargalos para o desenvolvimento da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o baseada em capital externo (modelo chin\u00eas).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, dois dos pa\u00edses com que faz fronteira lhe imp\u00f5em bloqueio econ\u00f4mico: a oeste a Turquia (pelo conflito sobre a quest\u00e3o do reconhecimento do genoc\u00eddio arm\u00eanio) e a leste o Azerbaij\u00e3o (pela quest\u00e3o de Nagorno Karabakh). O contato com o terceiro vizinho, o Ir\u00e3 ao sul, \u00e9 dificultado pelas altas montanhas (apesar de que em 2006 foi constru\u00eddo um gasoduto a partir do Ir\u00e3). De fato, a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 ao norte, pela Ge\u00f3rgia e seus portos. A Ge\u00f3rgia \u00e9 tamb\u00e9m a ponte com a R\u00fassia. E a situa\u00e7\u00e3o conflituosa entre estes dois pa\u00edses se reflete na situa\u00e7\u00e3o na Arm\u00eania.<\/p>\n<p>A economia da Arm\u00eania hoje pertence ao capital estrangeiro, com o qual est\u00e3o relacionados todos os oligarcas arm\u00eanios, de uma ou outra forma. O mais importante investidor externo \u00e9 a R\u00fassia, em especial em segmentos de infraestrutura, como produ\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de eletricidade, transporte, comunica\u00e7\u00f5es e parcialmente siderurgia. O controle russo destes setores de infraestrutura possui um claro interesse pol\u00edtico. Ap\u00f3s a R\u00fassia vem a Uni\u00e3o Europeia, em especial nos setores exportadores (siderurgia, produ\u00e7\u00e3o de conhaque) e setor banc\u00e1rio. Tamb\u00e9m \u00e9 alta a propor\u00e7\u00e3o de capital da di\u00e1spora no exterior: de fato, a di\u00e1spora \u00e9 um canal para a coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds pelos capitais externos.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio exterior do pa\u00eds ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o dos setores de alta tecnologia se caracteriza pela troca de min\u00e9rios met\u00e1licos, tabaco e conhaque por combust\u00edveis f\u00f3sseis (com alta depend\u00eancia da R\u00fassia) e equipamentos (fundamentalmente da Uni\u00e3o Europeia e e China), tendo um saldo comercial cronicamente negativo (de 50% a 70%, dependendo do ano).<\/p>\n<p>Este d\u00e9ficit do com\u00e9rcio exterior \u00e9 coberto em primeiro lugar com recursos enviados por arm\u00eanios de outros pa\u00edses (equivalendo a mais da metade dos ingressos de exporta\u00e7\u00f5es e cobrindo metade do d\u00e9ficit) e empr\u00e9stimos externos, de maneira que a d\u00edvida do pa\u00eds cresce permanentemente, aumentando a depend\u00eancia da Arm\u00eania em rela\u00e7\u00e3o ao imperialismo.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a pequena economia arm\u00eania \u00e9 a m\u00e1xima express\u00e3o da combina\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo com a aus\u00eancia de mecanismos internos de compensa\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds depende do g\u00e1s russo, est\u00e1 ref\u00e9m dos credores internacionais, dos envios do exterior e da exporta\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra: a emigra\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00fanico projeto econ\u00f4mico real, que obviamente esvazia o pa\u00eds. Um projeto secund\u00e1rio, de desenvolvimento da ind\u00fastria baseado no barateamento ainda maior de sua m\u00e3o de obra, \u00e9 um fator a mais que empurra para a emigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u201cA pol\u00edtica arm\u00eania\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O conceito de \u201cpol\u00edtica arm\u00eania\u201d se tornou comum entre cientistas pol\u00edticos. De forma diplom\u00e1tica, os analistas burgueses a definem como \u201ccomplementarismo\u201d. Ou seja, a pol\u00edtica arm\u00eania deve ser um \u201ccomplemento\u201d \u00e0 pol\u00edtica das grandes pot\u00eancias, para entregar o pa\u00eds a todas e em todos os setores. A aposta do governo na di\u00e1spora (fonte de capitais e ingressos no pa\u00eds) \u00e9 um fator que complementa a \u201cabertura\u201d da Arm\u00eania.<\/p>\n<p>A Arm\u00eania se caracteriza pelas tarifas alfandeg\u00e1rias mais baixas de toda a OMC, com aus\u00eancia de taxas de exporta\u00e7\u00e3o, um regime econ\u00f4mico ultraliberal no que diz respeito ao acesso ao capital externo e impostos. O grande ganhador desta pol\u00edtica econ\u00f4mica \u00e9 o imperialismo, em primeiro lugar da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>O conflito por Nagorno-Karabakh com o Azerbaij\u00e3o, que possui popula\u00e7\u00e3o e PIB mais de tr\u00eas vezes superior ao da Arm\u00eania, favorece a influ\u00eancia russa como garante da \u201cseguran\u00e7a\u201d arm\u00eania. Isso se concretiza atrav\u00e9s de bases militares russas na Arm\u00eania desde 2017, no marco do \u201cAgrupamento de Tropas Unidas da R\u00fassia e Arm\u00eania\u201d. Sem a cobertura russa, a Arm\u00eania arrisca ser derrotada pelo Azerbaij\u00e3o na guerra por Nagorno Karabakh, que ocupa papel-chave na pol\u00edtica da burguesia arm\u00eania. Por isso, de fato, nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica arm\u00eania coloca em quest\u00e3o a presen\u00e7a militar russa. Este conflito armado \u00e9 a principal base para a forte influ\u00eancia russa na Arm\u00eania, que se converte em influ\u00eancia econ\u00f4mica (mais exatamente na infraestrutura). Este \u00e9 mais um exemplo de como, nos conflitos nacionais no C\u00e1ucaso, mesmo no caso de \u201cvit\u00f3ria\u201d de algum \u201cnacionalismo\u201d, ao final quem vence mesmo \u00e9 alguma pot\u00eancia estrangeira.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, depois da sa\u00edda das tropas russas da Ge\u00f3rgia, a base na Arm\u00eania se tornou a \u00faltima base militar avan\u00e7ada russa do C\u00e1ucaso Sul.<\/p>\n<p>Em geral, o estado burgu\u00eas arm\u00eanio se apoia no financiamento externo, no seu papel de \u201cbase avan\u00e7ada\u201d da R\u00fassia no C\u00e1ucaso Sul, na exporta\u00e7\u00e3o de arm\u00eanios como m\u00e3o de obra para outros pa\u00edses e no nacionalismo arm\u00eanio, que estimula o contato por dentro da di\u00e1spora e que converte a quest\u00e3o de Nagorno-Karabakh em raz\u00e3o universal para convocar os trabalhadores arm\u00eanios a apoiarem os \u201cseus\u201d governos burgueses pela unidade nacional anti-azerbaijana.<\/p>\n<p>Todas as for\u00e7as burguesas arm\u00eanias, de uma ou outra forma, combinam estes elementos. Essa foi a base para a fus\u00e3o no final dos anos 90\u00b4de uma s\u00e9rie de partidos arm\u00eanios no Partido Republicano Arm\u00eanio (PRA) e o apoio dos partidos da FRA e do Renascimento Arm\u00eanio ao seu governo, a partir do ano 2000, fortalecido ainda pelo crescimento econ\u00f4mico de ent\u00e3o. O PRA \u00e9 o principal partido burgu\u00eas arm\u00eanio, s\u00edmbolo da corrup\u00e7\u00e3o e dos oligarcas nativos (muitos deputados do PRA s\u00e3o grandes propriet\u00e1rios).<\/p>\n<p><strong>A crise econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n<p>O per\u00edodo de crescimento econ\u00f4mico dos anos 2000\u00b4 se expressou na Arm\u00eania como um grande aumento dos ingressos provenientes de arm\u00eanios de outros pa\u00edses e investimentos no setor de constru\u00e7\u00e3o civil daqueles arm\u00eanios que viviam fora de suas fronteiras nacionais.<\/p>\n<p>Com a chegada da crise, os ingressos se reduziram drasticamente, e os investimentos no setor de constru\u00e7\u00e3o entraram em colapso. Em 2007 o PIB caiu em 14%, dos quais quase 4\/5 pelo estouro da bolha no setor de constru\u00e7\u00e3o civil. Uma s\u00e9rie de ind\u00fastrias anunciou planos de demiss\u00f5es massivas e redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica de sal\u00e1rios. Houve um empobrecimento geral da popula\u00e7\u00e3o. O desemprego em 2015 atingiu 18,6%, chegando a 40% entre os jovens. A d\u00edvida externa arm\u00eania em 2015 cresceu at\u00e9 8,6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, mais de 80% do PIB.<\/p>\n<p>O governo respondeu com uma nova onda pr\u00f3-colonizadora. O n\u00edvel de vida em queda gerou bases favor\u00e1veis para investimentos de capital externo na produ\u00e7\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o, o que potencializou um crescimento do proletariado do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, o governo passou a discutir a cria\u00e7\u00e3o de zonas de livre com\u00e9rcio ao mesmo tempo com a UE e com a Uni\u00e3o Econ\u00f4mica Euroasi\u00e1tica (R\u00fassia, Belarus, Cazaquist\u00e3o, Kirgu\u00edsia, Mold\u00e1via como pa\u00eds observador e o ainda candidato Tadjiquist\u00e3o), finalmente fechando com esta \u00faltima.<\/p>\n<p><strong>Protestos<\/strong><\/p>\n<p>A crise, agravada pelo cansa\u00e7o das massas com a corrup\u00e7\u00e3o, abriu um per\u00edodo de turbul\u00eancia social. Em 2008 ocorreram greves no complexo de fundi\u00e7\u00e3o de cobre Agarakskiy: o patr\u00e3o planejava demitir 40% (560 pessoas) do total de trabalhadores e ainda reduzir os sal\u00e1rios em 30%. A greve arrancou uma vit\u00f3ria parcial. Situa\u00e7\u00f5es de conflito se estenderam por uma s\u00e9rie de f\u00e1bricas por raz\u00f5es parecidas. Mas a maior parte dos protestos foi na forma de manifesta\u00e7\u00f5es de rua, em especial depois da reelei\u00e7\u00e3o do presidente ligado ao PRA, em meio a uma s\u00e9rie de acusa\u00e7\u00f5es de fraude. Como resultado dos enfrentamentos de rua com a pol\u00edcia, morreram 8 pessoas.<\/p>\n<p>Em 2015 voltaram a ocorrer grandes protestos relacionados \u00e0 inten\u00e7\u00e3o do governo de aumentar as tarifas de energia el\u00e9trica em favor das distribuidoras pertencentes ao capital russo. Os protestos conquistaram o cancelamento da decis\u00e3o de aumentar as tarifas.<\/p>\n<p>Os novos e recentes protestos foram devidos ao desejo do Presidente Sergio Sargsyan (PRA) em manter-se como l\u00edder do pa\u00eds, tornando-se Primeiro Ministro. Ap\u00f3s recentes reformas, o chefe de estado passa a ser o Primeiro-Ministro, eleito pelo Parlamento, onde a coaliz\u00e3o do PRA tem maioria. Dezenas de milhares de pessoas sa\u00edram ent\u00e3o \u00e0s ruas, paralisando o pa\u00eds, num protesto de car\u00e1ter claramente pol\u00edtico contra o governo.<\/p>\n<p>Estes recentes protestos aceleraram em muito o processo de eros\u00e3o do poder do PRA. Sua coaliz\u00e3o governante se dividiu, com rupturas do partido e com express\u00f5es de desconfian\u00e7a entre a di\u00e1spora arm\u00eania.<\/p>\n<p>O dirigente dos protestos \u00e9 Nikol Pashian, jornalista e l\u00edder da alian\u00e7a de oposi\u00e7\u00e3o liberal ELK (que recebeu 7% nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 2017). Pashian defende todas as premissas da pol\u00edtica burguesa arm\u00eania. Hoje cr\u00edtico do PRA, de forma populista interv\u00e9m contra os oligarcas, tentando capitalizar o descontentamento da popula\u00e7\u00e3o, sem romper com nenhuma das bases do sistema atual.<\/p>\n<p>Suas propostas se concentram exclusivamente na quest\u00e3o do aparato estatal e fim do poder do PRA. A maior das suas exig\u00eancias \u00e9 ser designado Primeiro-Ministro, o que anuncia como o objetivo supremo da revolu\u00e7\u00e3o. O m\u00e9todo fundamental de luta s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es e bloqueios de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, realizados com o objetivo de pressionar o PRA a aceit\u00e1-lo para o cargo.<\/p>\n<p>O chamado de Pashian \u00e0 greve foi direcionado ao servi\u00e7o p\u00fablico, deliberadamente excluindo a classe oper\u00e1ria. Mesmo assim, h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre greves oper\u00e1rias em minas de ouro, numa f\u00e1brica t\u00eaxtil, greve de um centro m\u00e9dico em Erevan (capital do pa\u00eds). Os meios de comunica\u00e7\u00e3o informam que \u201c<em>entre os manifestantes se encontram trabalhadores de grandes redes comerciais, usinas e f\u00e1bricas, centros de lazer, grandes e pequenas empresas, muitas delas pertencentes a deputados do PRA e seus parentes<\/em>\u201d (lenta.ru de 02 de maio).<\/p>\n<p>A principal tarefa de Pashian \u00e9 garantir que os protestos \u201cn\u00e3o saiam dos limites pac\u00edficos\u201d. O que n\u00e3o significa n\u00e3o se deixar cair em provoca\u00e7\u00f5es, e sim conter os protestos.<\/p>\n<p>A exig\u00eancia de nomear Pashian Primeiro-Ministro de fato significa uma exig\u00eancia de que o PRA apoie sua nomea\u00e7\u00e3o. Esta decis\u00e3o do PRA depende, em primeiro lugar, da garantia de Pashian em manter de fato o corrompido controle pol\u00edtico-econ\u00f4mico do PRA sobre o pa\u00eds. Da mesma maneira, depende da decis\u00e3o do governo russo, que deseja garantir a manuten\u00e7\u00e3o de sua base militar e o controle da infraestrutura do pa\u00eds. Por isso Pashian j\u00e1 declarou, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Econ\u00f4mica Euroasi\u00e1tica (UEE) que aprofunda a coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, que: \u201c<em>Eu fui contra a entrada da Arm\u00eania na UEE. <strong>Mas<\/strong>, apesar disso, a Arm\u00eania \u00e9 membro da UEE, e n\u00f3s, como l\u00edderes pol\u00edticos e de estado, devemos levar em conta esta realidade. Acredito que qualquer l\u00edder pol\u00edtico e homem de estado, que defenda os interesses da Arm\u00eania, assim deva agir. Eu considero que mudan\u00e7as bruscas na pol\u00edtica externa s\u00e3o perigosas<\/em>\u201d. E em geral garantiu que a R\u00fassia \u00e9 e seguir\u00e1 sendo sempre parceira da Arm\u00eania.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que pelas costas dos trabalhadores e do povo descontentes e dispostos \u00e0 luta est\u00e3o em curso hediondas negocia\u00e7\u00f5es entre Pashnian, o PRA e o governo russo, com o objetivo de garantir que nada mude de fato. A recusa do PRA em apoiar Pashian em sua primeira tentativa no 1\u00ba de maio n\u00e3o foi nada mais que parte desta \u201cdiscuss\u00e3o\u201d sobre as garantias.<\/p>\n<p>No centro das intrigas da imprensa burguesa estava a nomea\u00e7\u00e3o de Pashian como Primeiro-Ministro. No dia 8 de maio ele foi finalmente indicado. Mas inclusive estes meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o escondem que isto n\u00e3o muda nada. Porque o pa\u00eds segue nas m\u00e3os dos oligarcas e do capital externo, segue em depend\u00eancia crescente dos cr\u00e9ditos imperialistas e sob o coturno da R\u00fassia, sendo ref\u00e9m da pol\u00edtica \u201cnacional\u201d antiazerbaijana, que de fato se converte em antiarm\u00eania. E a emigra\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 a fazer definhar a Arm\u00eania como pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Um projeto para a Arm\u00eania<\/strong><\/p>\n<p>O movimento levou, de maneira relativamente f\u00e1cil, \u00e0 eros\u00e3o do governo do PRA. O PRA teve medo de reprimir as manifesta\u00e7\u00f5es pela for\u00e7a. Isto testemunha a for\u00e7a do movimento. Mas para conquistar uma real transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio liquidar todo o sistema da \u201cpol\u00edtica arm\u00eania\u201d. E sem um movimento organizado de trabalhadores n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel cumprir esta tarefa. Este movimento \u00e9 necess\u00e1rio para que os oper\u00e1rios e povo arm\u00eanios tomem o pa\u00eds em suas m\u00e3os, construindo um governo finalmente seu, oper\u00e1rio e popular. Em seu caminho, ter\u00e3o que enfrentar a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito, corrompidos pela oligarquia. Prova disso foram os mortos nos protestos de 2008. H\u00e1 que superar as ilus\u00f5es de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o arm\u00eania pac\u00edfica\u201d.<\/p>\n<p>Com a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, a economia planificada, sem burgueses, havia impulsionado o desenvolvimento do pa\u00eds. O capitalismo com seus oligarcas e capital internacional levou a Arm\u00eania \u00e0 crise e coloniza\u00e7\u00e3o, e sua popula\u00e7\u00e3o \u00e0 mis\u00e9ria e emigra\u00e7\u00e3o. A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro abriu o caminho \u00e0 irmandade entre os trabalhadores armenos e azerbaijanos. A burocracia estalinista no poder e depois a burguesia voltaram a martelar uma cunha entre estas nacionalidades, com a qual ganham somente as grandes pot\u00eancias, como a R\u00fassia, fortalecendo seu controle sobre o povo. O caminho do socialismo, do poder da classe oper\u00e1ria, numa Uni\u00e3o Prolet\u00e1ria e Internacionalista com os trabalhadores do C\u00e1ucaso de outras nacionalidades \u00e9 o \u00fanico caminho para os trabalhadores arm\u00eanios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas semanas se deram acontecimentos importantes na Arm\u00eania. A vida pol\u00edtica deste pequeno pa\u00eds tem especificidades derivadas de sua hist\u00f3ria, para muito al\u00e9m de suas fronteiras atuais. 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