{"id":200,"date":"2006-10-29T00:00:00","date_gmt":"2006-10-29T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/2006\/10\/29\/pontecorvo-cameras-voltadas-para-a-politica\/"},"modified":"2006-10-29T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-29T00:00:00","slug":"pontecorvo-cameras-voltadas-para-a-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2006\/10\/29\/pontecorvo-cameras-voltadas-para-a-politica\/","title":{"rendered":"Pontecorvo: c\u00e2meras voltadas para a pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">No&nbsp;dia 12 de outubro, o cinema mundial perdeu um de seus mestres, o italiano Gillo Pontecorvo, um dos mais brilhantes representantes do chamado &#8220;cinema pol\u00edtico&#8221;, que nas d\u00e9cadas de 1960 e 70, levou para as telas, das mais diferentes formas, a luta dos povos contra a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o social.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Apesar de afastado da dire\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica desde os anos 80, Gillo Pontecorvo continuava a ser uma das principais refer\u00eancias sempre que o tema cinema e pol\u00edtica viesse \u00e0 tona. Uma fama constru\u00edda principalmente a partir de dois filmes impressionantes e insuper\u00e1veis, tanto do ponto pol\u00edtico quanto est\u00e9tico: &#8220;A batalha de Argel&#8221; (1966) e &#8220;Queimada&#8221; (1969).<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">N\u00e3o foi um acaso que estes dois bel\u00edssimos filmes tenham sido realizados na d\u00e9cada de 60. Afinal, foram anos marcados pela luta contra o imperialismo e colonialismo europeu, particularmente na \u00c1frica, na \u00c1sia e no Oriente M\u00e9dio; pelos ideais revolucion\u00e1rios que questionavam o poderio norte-americano de Cuba ao Vietn\u00e3; pela explos\u00e3o da luta pelos direitos civis no pr\u00f3prio solo dos EUA e pela rebeldia da juventude que varria as ruas de Paris, do M\u00e9xico e outros pa\u00edses. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Infelizmente, foram os anos em que os senhores do poder e do Capital responderam com golpes militares, repress\u00e3o indiscriminada, torturas e assassinatos. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">O brilhantismo de Pontecorvo residia exatamente em utilizar sua arte para representar esse mundo com uma for\u00e7a poucas vezes encontradas em outros cineastas. Sempre defendendo que o cinema deveria ser, acima de tudo, um instrumento de cr\u00edtica, reflex\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o da realidade, nunca uma forma de entretenimento esvaziada de sentido, o diretor foi um dos melhores exemplos de que, para atingir tais objetivos, n\u00e3o era necess\u00e1rio apelar ao discurso f\u00e1cil, nem transformar seus filmes em &#8220;panfletos&#8221; destitu\u00eddos de qualidade art\u00edstica. <\/font><\/p>\n<p align=justify><strong><font face=Georgia font-size=\"12\">Poucas, mas vigorosas batalhas<\/font><\/strong><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">A filmografia do Pontecorvo n\u00e3o \u00e9 das mais extensas. Al\u00e9m dos dois filmes citados, o cineasta realizou cerca de outros 15 &#8211; como &#8220;A Grande Estrada Azul&#8221; (1957), &#8220;Kap\u00f2&#8221; (1959) e &#8220;O adeus a Enrico Berlinguer&#8221; (1984) &#8211; infelizmente, dificilmente encontrados no Brasil. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Mas suas obras-primas foram, de fato, &#8220;A batalha de Argel&#8221; e &#8220;Queimada&#8221;, filmes em que a c\u00e2mera funciona como uma verdadeira metralhadora voltada contra a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o imperialistas e colonial.<\/font><\/p>\n<p align=justify><strong><font face=Georgia font-size=\"12\">Faces de uma batalha pela liberdade<\/font><\/strong><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Realizado apenas quatro anos ap\u00f3s a independ\u00eancia argelina, conquistada em 1962, o filme de Pontecorvo tem, ao mesmo tempo, a for\u00e7a e peso da realidade que marcam os bons document\u00e1rios e a expressividade e profundidade que s\u00f3 s\u00e3o atingidas pelos grandes artistas no cinema.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Filmado em preto em branco, em planos que se det\u00eam nos detalhes de cada a\u00e7\u00e3o e, particularmente, nos rostos da popula\u00e7\u00e3o argelina, o filme \u00e9 centrado na luta da Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FLN) entre 1954 e 1960. Mesclando realidade e fic\u00e7\u00e3o, o filme \u00e9 pontuado por seq\u00fc\u00eancias inesquec\u00edveis que evidenciam a posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Pontecorvo.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">J\u00e1 na primeira cena, vemos, em 1957, um argelino torturado, humilhado e desesperado sendo obrigado a revelar onde est\u00e1 um dos \u00faltimos dirigentes do levante iniciado tr\u00eas anos antes. A chegada dos militares ao local nos remete a 1954 e a uma Argel dividida entre o elegant\u00edssimo Bairro Europeu e o miser\u00e1vel amontoado de casas no Casbah, o bairro mu\u00e7ulmano.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Foi mergulhando sua c\u00e2mera por estas vielas que Pontecorvo construiu uma hist\u00f3ria incrivelmente tocante e, ao mesmo tempo, &#8220;did\u00e1tica&#8221; do ponto de vista revolucion\u00e1rio. Suas lentes e di\u00e1logos revelam as distintas t\u00e1ticas utilizadas pelos combatentes, o nascimento da consci\u00eancia pol\u00edtica, o debate entre aqueles que contrap\u00f5em &#8220;terrorismo&#8221; ou a a\u00e7\u00e3o de massas (representada atrav\u00e9s da poderosa greve geral que paralisou Argel, em 1958) como caminho para a revolu\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, o que acontece do lado dos opressores: de suas t\u00e1ticas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da morte de pessoas inocentes que residiam confortavelmente nos territ\u00f3rios ocupados.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Neste sentido, Pontecorvo produziu uma das melhores falas do cinema pol\u00edtico mundial. Em mar\u00e7o de 1957, Ben M\u00b4 Hidi (dirigente da FLN, preso e assassinado na pris\u00e3o em um epis\u00f3dio semelhante ao de Vladimir Herzog, no Brasil) foi preso e apresentado \u00e0 imprensa em uma esp\u00e9cie de &#8220;espet\u00e1culo&#8221;. Questionado por um rep\u00f3rter se n\u00e3o achava covardia utilizar-se de mulheres transportando bombas em cestas de frutas, M\u00b4Hidi responde: &#8220;N\u00e3o \u00e9 mais covarde atacar vilarejos indefesos com napalm que matam muitos milhares mais? Claro que usar avi\u00f5es nos facilitaria muito a vida. D\u00eaem seus avi\u00f5es e podem ficar com nossas cestas&#8221;.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Para se ter uma id\u00e9ia da for\u00e7a do filme, cabe lembrar que, em 2003, o jornal The New York Times revelou que o Pent\u00e1gono o estava exibindo para seus oficiais para que eles estudassem os &#8220;desafios&#8221; que seriam enfrentados no Iraque.<\/font><\/p>\n<p align=justify><strong><font face=Georgia font-size=\"12\">Fogueira da hipocrisia<\/font><\/strong><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Igualmente imperd\u00edvel \u00e9 &#8220;Queimada&#8221;. Nele, o diretor criou uma fict\u00edcia col\u00f4nia portuguesa no Caribe, para a qual Sir William Walker (Marlon Brando), um agente a servi\u00e7o da Coroa Brit\u00e2nica \u00e9 enviado com a miss\u00e3o incitar uma insurrei\u00e7\u00e3o entre os negros cativos e extinguir a escravid\u00e3o. Para tal, Walker encontra um aliado no carregador negro Jos\u00e9 Dolores.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">No decorrer do filme se percebe que os objetivos de Walker nada t\u00eam a ver com a luta pela liberdade. Suas raz\u00f5es s\u00e3o puramente mercantis e se enquadram na pol\u00edtica brit\u00e2nica no s\u00e9culo 19: escravos n\u00e3o recebem sal\u00e1rio e, portanto, n\u00e3o fazem parte do mercado consumidor, fundamental para a expans\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica da Inglaterra. Uma &#8220;necessidade&#8221; que faz com que o personagem de Brando, simultaneamente, articule a tomada do poder da futura &#8220;na\u00e7\u00e3o independente&#8221; com a oligarquia a\u00e7ucareira. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Dez anos depois, os personagens centrais voltam \u00e0 cena em pap\u00e9is diferentes. Dolores transformou-se em um l\u00edder &#8220;guerrilheiro&#8221; e a oligarquia convoca Walker para auxili\u00e1-los a deter a horda de homens e mulheres, livres, por\u00e9m, miser\u00e1veis, que amea\u00e7am seu poder.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">T\u00e3o forte e complexo quanto &#8220;A batalha de Argel&#8221;, &#8220;Queimada&#8221; se debru\u00e7a sobre os principais temas relacionados ao colonialismo nas Am\u00e9ricas, da explora\u00e7\u00e3o capitalista, ao racismo; da covarde subservi\u00eancia das elites locais \u00e0 hipocrisia sem limites dos agentes imperiais.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">Neste sentido, s\u00f3 se pode concordar com o cr\u00edtico de cinema Luiz Zanin quando afirma que &#8220;em Queimada est\u00e1 em cena n\u00e3o uma representa\u00e7\u00e3o de fatos hist\u00f3ricos, mas o pr\u00f3prio modo de funcionamento da hist\u00f3ria&#8221;. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia font-size=\"12\">E assim foi todo o cinema de Pontecorvo. Indo muito al\u00e9m da simples representa\u00e7\u00e3o dos fatos, seus filmes s\u00e3o compostos da mesma &#8220;mat\u00e9ria&#8221; que comp\u00f5e a hist\u00f3ria: a luta. E foi exatamente atrav\u00e9s de filmes compostos pelo embate de planos e posi\u00e7\u00f5es de c\u00e2mera, sil\u00eancios e gritos, di\u00e1logos e m\u00fasicas, que Pontecorvo deixou sua maior contribui\u00e7\u00e3o para a pr\u00f3pria hist\u00f3ria e para a arte. <br \/><\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No&nbsp;dia 12 de outubro, o cinema mundial perdeu um de seus mestres, o italiano Gillo Pontecorvo, um dos mais brilhantes representantes do chamado &#8220;cinema pol\u00edtico&#8221;, que nas d\u00e9cadas de 1960 e 70, levou para as telas, das mais diferentes formas, a luta dos povos contra a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o social. 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