{"id":1962,"date":"2011-11-17T07:20:06","date_gmt":"2011-11-17T07:20:06","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/2011\/11\/17\/o-que-foi-a-revolucao-de-outubro\/"},"modified":"2011-11-17T07:20:06","modified_gmt":"2011-11-17T07:20:06","slug":"o-que-foi-a-revolucao-de-outubro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2011\/11\/17\/o-que-foi-a-revolucao-de-outubro\/","title":{"rendered":"O que foi a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro?"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<div>\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><b><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" align=\"left\" alt=\"\" border=\"0\" height=\"165\" hspace=\"3\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/revolucao_russa.jpg\" vspace=\"3\" width=\"242\" \/>Em homenagem ao 94&ordm; anivers&aacute;rio da Revolu&ccedil;&atilde;o Russa, publicamos a confer&ecirc;ncia pronunciada por Leon Trotsky em 27 de novembro de 1932, em Copenhague, Dinamarca. Este texto foi publicado na Revista Marxismo Vivo n&ordm; 16.<\/b><\/span><\/span><br \/>\n\t\t<!--more-->\n\t<\/div>\n<div>\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><b><i>&nbsp;<\/i><\/b><\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Para come&ccedil;ar, fixemos alguns princ&iacute;pios sociol&oacute;gicos elementares que s&atilde;o, sem d&uacute;vida, familiares a todos voc&ecirc;s e que devemos, por&eacute;m, recordar ao tomar contato com um fen&ocirc;meno t&atilde;o complexo como a revolu&ccedil;&atilde;o. A sociedade humana &eacute; o resultado hist&oacute;rico da luta pela exist&ecirc;ncia e da seguran&ccedil;a na preserva&ccedil;&atilde;o das gera&ccedil;&otilde;es. O car&aacute;ter da economia determina o car&aacute;ter da sociedade. Os meios de produ&ccedil;&atilde;o determinam o car&aacute;ter da economia. A cada grande &eacute;poca no desenvolvimento das for&ccedil;as de produ&ccedil;&atilde;o corresponde um regime social definido. At&eacute; agora, cada regime social assegurou enormes vantagens &agrave; classe dominante.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">&Eacute; evidente que os regimes sociais n&atilde;o s&atilde;o eternos. Nascem historicamente e transformam-se em obst&aacute;culos ao progresso ulterior. &ldquo;<i>Tudo que nasce &eacute; digno de perecer<\/i>&rdquo;. Nunca, por&eacute;m, uma classe dominante abdicou, volunt&aacute;ria e pacificamente, do poder. Nas quest&otilde;es de vida e morte os argumentos fundados na raz&atilde;o nunca substitu&iacute;ram os argumentos da for&ccedil;a. &Eacute; triste diz&ecirc;-lo. Mas &eacute; assim. N&atilde;o fomos n&oacute;s que fizemos este mundo. S&oacute; podemos tom&aacute;-lo tal como &eacute;.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">A revolu&ccedil;&atilde;o significa uma mudan&ccedil;a do regime social. Ela transmite o poder das m&atilde;os de uma classe j&aacute; esgotada para as m&atilde;os de outra classe em ascens&atilde;o. A insurrei&ccedil;&atilde;o constitui o momento mais cr&iacute;tico e mais agudo na luta de duas classes pelo poder. A subleva&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode conduzir &agrave; vit&oacute;ria real da revolu&ccedil;&atilde;o e &agrave; implanta&ccedil;&atilde;o de um novo regime sen&atilde;o quando se apoia sobre uma classe progressiva, capaz de agrupar em torno de si a imensa maioria do povo. Diferentemente dos processos da natureza, a revolu&ccedil;&atilde;o realiza-se por interm&eacute;dio dos homens. Mas na revolu&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m os homens atuam sob a influ&ecirc;ncia de condi&ccedil;&otilde;es sociais que eles pr&oacute;prios n&atilde;o escolhem livremente, mas que s&atilde;o herdadas do passado e lhes assinalam imperiosamente o caminho. Precisamente por tal motivo, e s&oacute; por isso, a revolu&ccedil;&atilde;o tem as suas pr&oacute;prias leis. A consci&ecirc;ncia humana, contudo, n&atilde;o se limita a refletir passivamente as condi&ccedil;&otilde;es objetivas. Ela pode reagir ativamente sobre elas. E, em certos momentos, a rea&ccedil;&atilde;o adquire um car&aacute;ter de massa, tenso, apaixonado. Derrubam-se ent&atilde;o as barreiras do direito e do poder. A interven&ccedil;&atilde;o ativa das massas nos acontecimentos constitui o elemento mais indispens&aacute;vel da revolu&ccedil;&atilde;o. E, no entanto, mesmo a atividade mais inflamada pode simplesmente ficar reduzida a uma demonstra&ccedil;&atilde;o, uma rebeli&atilde;o, sem elevar-se &agrave; altura de uma revolu&ccedil;&atilde;o. A subleva&ccedil;&atilde;o das massas deve conduzir &agrave; derrubada do poder de uma classe e ao estabelecimento da domina&ccedil;&atilde;o de outra. Somente assim teremos uma revolu&ccedil;&atilde;o consumada. A subleva&ccedil;&atilde;o das massas n&atilde;o &eacute; um empreendimento isolado que se pode provocar por capricho. Representa um elemento objetivamente condicionado ao desenvolvimento da revolu&ccedil;&atilde;o, que por sua vez &eacute; um processo condicionado ao desenvolvimento da sociedade. Isto n&atilde;o quer dizer, entretanto, que, uma vez existentes as condi&ccedil;&otilde;es objetivas da subleva&ccedil;&atilde;o, deva-se esperar passivamente, com a boca aberta. Nos acontecimentos humanos tamb&eacute;m h&aacute;, como disse Shakespeare, fluxos e refluxos, que, tomados em crescente, conduzem ao &ecirc;xito: &ldquo;<i>There is a tide in the affairs of men which taken at the flood, leads on to fortune<\/i>&rdquo;. Para varrer o regime que sobrevive, a classe progressiva deve compreender que soou sua hora e propor-se &agrave; tarefa da conquista do poder. Aqui se abre o campo da a&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria consciente, em que a previs&atilde;o e o c&aacute;lculo se unem &agrave; vontade e &agrave; bravura. Dito de outra forma: aqui se abre o campo da a&ccedil;&atilde;o do partido.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O partido revolucion&aacute;rio condensa o melhor da classe avan&ccedil;ada. Sem um partido capaz de orientar-se nas circunst&acirc;ncias, de apreciar a marcha e o ritmo dos acontecimentos e de conquistar a tempo a confian&ccedil;a das massas, a vit&oacute;ria da revolu&ccedil;&atilde;o prolet&aacute;ria &eacute; imposs&iacute;vel. Tal &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o dos fatores objetivos e dos fatores subjetivos da revolu&ccedil;&atilde;o e da insurrei&ccedil;&atilde;o. Como bem sabeis, nas discuss&otilde;es, os advers&aacute;rios &mdash; em particular na teologia &mdash; t&ecirc;m o costume de desacreditar frequentemente a verdade cient&iacute;fica elevando-a ao absurdo. Isto se chama, mesmo em l&oacute;gica, <i>reductio ad absurdum<\/i>. N&oacute;s vamos tratar de seguir a via oposta, isto &eacute;, tomaremos como ponto de partida um absurdo a fim de nos aproximar com maior seguran&ccedil;a da verdade. Realmente n&atilde;o temos o direito de lamentar a falta de absurdos. Tomemos um dos mais recentes e mais grossos. O escritor italiano Malaparte, algo assim como um te&oacute;rico fascista &mdash; tamb&eacute;m existe este produto &mdash;, publicou h&aacute; pouco tempo um livro sobre a t&eacute;cnica do golpe de Estado. O autor consagra um n&uacute;mero n&atilde;o desprez&iacute;vel de p&aacute;ginas de sua &ldquo;investiga&ccedil;&atilde;o&rdquo; &agrave; insurrei&ccedil;&atilde;o de outubro. Diferentemente da &ldquo;estrat&eacute;gia&rdquo; de Lenin, que permanece unida &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas da R&uacute;ssia de 1917, &ldquo;<i>a t&aacute;tica de Trotsky n&atilde;o est&aacute;<\/i> &mdash; segundo os termos de Malaparte &mdash; <i>ligada por nada &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es gerais do Pa&iacute;s<\/i>&rdquo;. Esta &eacute; a ideia principal da obra. Malaparte obriga Lenin e Trotsky, nas p&aacute;ginas de seu livro, a travar in&uacute;meros di&aacute;logos, nos quais os interlocutores d&atilde;o prova de t&atilde;o pouca profundidade de esp&iacute;rito como a natureza p&ocirc;s &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o de Malaparte. &Agrave;s obje&ccedil;&otilde;es de Lenin sobre as premissas sociais e pol&iacute;ticas da insurrei&ccedil;&atilde;o, Malaparte atribui a Trotsky, literalmente, a seguinte resposta: &ldquo;<i>Vossa estrat&eacute;gia exige demasiadas condi&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis, e a insurrei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem necessidade de nada. Basta-se por si mesma<\/i>&rdquo;. Entendeis bem? &ldquo;<i>A insurrei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem necessidade de nada<\/i>&rdquo;. Tal &eacute;, precisamente, caros ouvintes, o absurdo que deve servir para aproximar-nos da verdade. O autor repete com muita persist&ecirc;ncia que, em outubro, n&atilde;o foi a estrat&eacute;gia de Lenin e sim a t&aacute;tica de Trotsky que triunfou. Esta t&aacute;tica, conforme suas palavras, amea&ccedil;a, ainda hoje, a tranquilidade dos Estados europeus. &ldquo;<i>A estrat&eacute;gia de Lenin<\/i> &mdash; cito textualmente &mdash; <i>n&atilde;o constitui nenhum perigo imediato para os governos da Europa. A t&aacute;tica de Trotsky constitui um perigo atual e, portanto, permanente<\/i>&rdquo;. Mais concretamente: &ldquo;<i>Colocai Poincar&eacute; no lugar de Kerensky e o golpe de Estado bolchevique, de outubro de 1917, triunfaria da mesma forma<\/i>&rdquo;. &Eacute; dif&iacute;cil crer que semelhante livro seja traduzido a diversos idiomas e acolhido seriamente. Em v&atilde;o tentar&iacute;amos saber por que a estrat&eacute;gia de Lenin, dependendo das condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas, &eacute; necess&aacute;ria, se a &ldquo;t&aacute;tica de Trotsky&rdquo; permite resolver o mesmo problema em todas as situa&ccedil;&otilde;es. E por que as revolu&ccedil;&otilde;es s&atilde;o t&atilde;o raras, se para seu sucesso basta um par de receitas t&eacute;cnicas?<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O di&aacute;logo entre Lenin e Trotsky apresentado pelo escritor fascista &eacute;, no esp&iacute;rito como na forma, uma inven&ccedil;&atilde;o inepta do princ&iacute;pio ao fim. Muitas inven&ccedil;&otilde;es desse quilate circulam pelo mundo. Por exemplo, acaba de aparecer em Madri, com meu nome, um livro, <i>Vida de Lenin<\/i>, pelo qual sou t&atilde;o respons&aacute;vel como pelas receitas t&eacute;cnicas de Malaparte. O seman&aacute;rio <i>Estampa<\/i> publicou deste pretenso livro de Trotsky sobre Lenin cap&iacute;tulos inteiros, que cont&ecirc;m ultrajes abomin&aacute;veis &agrave; mem&oacute;ria do homem que eu estimava e que estimo incomparavelmente mais que qualquer outro entre os meus contempor&acirc;neos. Abandonemos, entretanto, os fals&aacute;rios &agrave; sua sorte. O velho Wilhelm Liebknecht, pai do combatente e her&oacute;i imortal, Karl Liebknecht, costumava dizer: &ldquo;<i>O pol&iacute;tico revolucion&aacute;rio deveria estar provido de uma pele grossa.<\/i>&rdquo; O doutor Stockmann, mais expressivo ainda, recomendava a todos os que se disp&otilde;em a enfrentar a opini&atilde;o p&uacute;blica a n&atilde;o vestir cal&ccedil;as novas. Sigamos, ent&atilde;o, estes dois bons conselhos e passemos &agrave; ordem do dia.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Quais as perguntas que a Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro sugere a todo homem reflexivo? Primeira: por que e como esta revolu&ccedil;&atilde;o obteve &ecirc;xito? Ou, mais concretamente, por que a revolu&ccedil;&atilde;o prolet&aacute;ria triunfou em um dos pa&iacute;ses mais atrasados da Europa? Segunda quest&atilde;o: o que trouxe a Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro? E por &uacute;ltimo: concretizou-se o que dela se esperava?<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Pode-se responder &agrave; primeira pergunta &mdash; sobre as causas &mdash; de modo mais ou menos completo. Tentei faz&ecirc;-lo o mais explicitamente poss&iacute;vel na minha <i>Hist&oacute;ria da Revolu&ccedil;&atilde;o Russa<\/i>. Aqui, n&atilde;o posso fazer outra coisa sen&atilde;o formular as conclus&otilde;es mais importantes. O fato de o proletariado ter chegado ao poder pela primeira vez em um pa&iacute;s t&atilde;o atrasado como a antiga R&uacute;ssia czarista s&oacute; &agrave; primeira vista pode parecer misterioso. Na realidade, resulta de uma l&oacute;gica rigorosa. Podia-se prever. E foi previsto. Mais ainda: diante dessa perspectiva, os revolucion&aacute;rios marxistas elaboraram a sua estrat&eacute;gia muito antes dos acontecimentos decisivos. A primeira explica&ccedil;&atilde;o e a mais geral: a R&uacute;ssia &eacute; um pa&iacute;s atrasado. Mas, tamb&eacute;m, a R&uacute;ssia n&atilde;o &eacute; mais que uma parte da economia mundial, um elemento do sistema capitalista mundial. E Lenin resolveu o enigma da Revolu&ccedil;&atilde;o Russa com a seguinte f&oacute;rmula lapidar: a corrente rompeu-se pelo seu elo mais fraco. Uma situa&ccedil;&atilde;o clara: a grande guerra, produto das contradi&ccedil;&otilde;es do imperialismo mundial, arrastou em seu torvelinho pa&iacute;ses que se achavam em diferentes etapas de desenvolvimento e imp&ocirc;s a todos as mesmas exig&ecirc;ncias. Resulta, pois, que os encargos da guerra se tornariam mais insuport&aacute;veis, particularmente, para os pa&iacute;ses mais atrasados. A R&uacute;ssia foi o primeiro que se viu obrigado a ceder terreno. Mas, para sair da guerra, o povo precisava abater as classes dominantes. Foi assim que a corrente da guerra rompeu-se pelo seu elo mais fr&aacute;gil. Mas a guerra n&atilde;o &eacute; uma cat&aacute;strofe determinada por fatores alheios, como um terremoto. Para o velho Clausewitz, &eacute; a continua&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica por outros meios. Durante a guerra, as tend&ecirc;ncias principais do sistema imperialista de tempos de &ldquo;paz&rdquo; apenas se exteriorizaram de modo mais agudo. Quanto mais elevadas sejam as for&ccedil;as gerais de produ&ccedil;&atilde;o; quanto mais tensa seja a concorr&ecirc;ncia mundial; quanto mais se acirrem os antagonismos; quanto mais desenfreada seja a corrida armamentista, tanto mais penosa se torna a situa&ccedil;&atilde;o para os participantes mais fracos. Precisamente esta &eacute; a causa pela qual os pa&iacute;ses mais atrasados ocupam o primeiro lugar na s&eacute;rie dos desmoronamentos. A corrente do capitalismo tende sempre a romper-se pelos elos mais fracos. Se por causa de certas circunst&acirc;ncias extraordin&aacute;rias ou extraordinariamente desfavor&aacute;veis &mdash; por exemplo, uma interven&ccedil;&atilde;o militar vitoriosa do exterior, devida a faltas irrepar&aacute;veis do pr&oacute;prio governo sovi&eacute;tico &mdash;, se restabelecesse o capitalismo sobre o imenso territ&oacute;rio sovi&eacute;tico, sua inevit&aacute;vel insufici&ecirc;ncia hist&oacute;rica aprontaria, rapidamente, sua nova queda, v&iacute;tima das mesmas contradi&ccedil;&otilde;es que provocaram, em 1917, a explos&atilde;o. Nenhuma receita t&aacute;tica poderia dar vida &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro se a R&uacute;ssia n&atilde;o a levasse nas suas pr&oacute;prias entranhas.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O partido revolucion&aacute;rio n&atilde;o pode desempenhar outro papel sen&atilde;o o de parteiro que se v&ecirc; obrigado a recorrer &agrave; opera&ccedil;&atilde;o cesariana. Poderiam objetar-me: suas considera&ccedil;&otilde;es gerais podem explicar, suficientemente, por que raz&atilde;o a velha R&uacute;ssia (este pa&iacute;s onde o capitalismo atrasado, com uma classe camponesa miser&aacute;vel, estava coroado por uma nobreza parasit&aacute;ria e, al&eacute;m disso, por uma monarquia putrefata) teria que naufragar. Mas na imagem da corrente e do elo mais fraco falta ainda a chave do enigma: como, num pa&iacute;s atrasado, poderia triunfar a revolu&ccedil;&atilde;o socialista? Porque a hist&oacute;ria conhece muitos exemplos de decad&ecirc;ncia de pa&iacute;ses e de culturas que, ap&oacute;s a derrocada simult&acirc;nea das velhas classes, n&atilde;o puderam achar nenhuma forma progressiva para ressurgir. A derrocada da velha R&uacute;ssia deveria, ao que tudo indica, transformar o pa&iacute;s em uma col&ocirc;nia capitalista e n&atilde;o em um Estado socialista. Esta obje&ccedil;&atilde;o &eacute; muito interessante e nos leva diretamente ao cora&ccedil;&atilde;o do problema. Mas &eacute; viciosa. Eu diria: desprovida de propor&ccedil;&atilde;o interna. De um lado, decorre de uma concep&ccedil;&atilde;o exagerada quanto ao atraso da R&uacute;ssia. De outro, de uma falsa concep&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica no que diz respeito ao fen&ocirc;meno do atraso em geral.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Os seres vivos &mdash; naturalmente, entre eles, o homem &mdash; atravessam, com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; idade, est&aacute;gios de desenvolvimento semelhantes. Numa crian&ccedil;a normal de cinco anos, encontra-se certa correspond&ecirc;ncia entre o peso, a altura e os &oacute;rg&atilde;os internos. Mas isto n&atilde;o ocorre com a consci&ecirc;ncia humana. Em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; anatomia e &agrave; fisiologia, a psicologia, tanto a do indiv&iacute;duo como a da coletividade, distingue-se por uma extraordin&aacute;ria capacidade de assimila&ccedil;&atilde;o, flexibilidade e elasticidade: reside a&iacute; tamb&eacute;m a vantagem aristocr&aacute;tica do homem sobre seu parente zool&oacute;gico mais pr&oacute;ximo da esp&eacute;cie dos macacos. A consci&ecirc;ncia, suscept&iacute;vel de assimilar, confere &mdash; como condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria ao progresso hist&oacute;rico &mdash; aos &ldquo;organismos&rdquo; chamados sociais, ao contr&aacute;rio dos organismos reais, isto &eacute;, biol&oacute;gicos, uma extraordin&aacute;ria variabilidade da estrutura interna. No desenvolvimento das na&ccedil;&otilde;es e dos Estados, dos capitalistas em particular, n&atilde;o existe nem similitude nem uniformidade. Diferentes graus de cultura, at&eacute; os polos opostos, aproximam-se e combinam-se, com muita frequ&ecirc;ncia, na vida de um pa&iacute;s. N&atilde;o esque&ccedil;amos, caros ouvintes, que o atraso hist&oacute;rico &eacute; uma no&ccedil;&atilde;o relativa. Se existem pa&iacute;ses atrasados e avan&ccedil;ados, h&aacute; tamb&eacute;m uma a&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca entre eles. H&aacute; a opress&atilde;o dos pa&iacute;ses avan&ccedil;ados sobre os retardat&aacute;rios, bem como a necessidade para os pa&iacute;ses atrasados de alcan&ccedil;ar aqueles mais adiantados, adquirir-lhes a t&eacute;cnica, a ci&ecirc;ncia etc. Assim surgiu <i>um tipo combinado de desenvolvimento<\/i>: as caracter&iacute;sticas mais atrasadas se ligam &agrave; &uacute;ltima palavra da t&eacute;cnica e do pensamento mundiais. Enfim, os pa&iacute;ses historicamente atrasados s&atilde;o por vezes obrigados a ultrapassar os demais. A elasticidade da consci&ecirc;ncia coletiva confere a possibilidade de conseguir, em certas condi&ccedil;&otilde;es, sobre a arena social, o resultado que em psicologia individual se chama &ldquo;compensa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Pode-se afirmar, neste sentido, que a Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro foi para os povos da R&uacute;ssia um meio heroico de superar sua pr&oacute;pria inferioridade econ&ocirc;mica e cultural.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"background: white none repeat scroll 0% 0%; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Passemos sobre essas generaliza&ccedil;&otilde;es hist&oacute;rico-pol&iacute;ticas, que talvez sejam um tanto abstratas, para enfocar a mesma quest&atilde;o de modo concreto, isto &eacute;, atrav&eacute;s de fatos econ&ocirc;micos vivos. O atraso da R&uacute;ssia do s&eacute;culo XX se expressa, mais claramente, da seguinte maneira: a ind&uacute;stria ocupa no pa&iacute;s um lugar m&iacute;nimo, em compara&ccedil;&atilde;o ao campo. Isto significa, no conjunto, uma baixa produtividade do trabalho nacional. Basta dizer que, &agrave;s v&eacute;speras da guerra, quando a R&uacute;ssia czarista alcan&ccedil;ara o auge de sua prosperidade, a renda nacional era de oito a dez vezes inferior a dos Estados Unidos. Isto expressa numericamente a &ldquo;amplitude&rdquo; do atraso, se &eacute; que podemos usar a palavra &ldquo;amplitude&rdquo; no que se refere ao atraso. Ao mesmo tempo, a lei do desenvolvimento combinado manifesta-se, a cada passo, no dom&iacute;nio econ&ocirc;mico, tanto nos fen&ocirc;menos simples como nos complexos. Quase sem estradas nacionais, a R&uacute;ssia viu-se obrigada a construir ferrovias. Sem haver passado pelo artesanato e pela manufatura europeias, a R&uacute;ssia saltou diretamente para a produ&ccedil;&atilde;o mecanizada. Saltar as etapas intermedi&aacute;rias, este &eacute; o caminho dos pa&iacute;ses atrasados. Enquanto a economia camponesa permanecia, frequentemente, ao n&iacute;vel do s&eacute;culo XVII, a ind&uacute;stria da R&uacute;ssia, se n&atilde;o na capacidade, pelo menos em seu tipo, encontrava-se no mesmo n&iacute;vel dos pa&iacute;ses avan&ccedil;ados e at&eacute; superava-os em muitos aspectos.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"background: white none repeat scroll 0% 0%; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Assinale-se que as empresas gigantes com mais de mil oper&aacute;rios ocupavam nos Estados Unidos menos de 18% da totalidade dos oper&aacute;rios industriais, enquanto na R&uacute;ssia a propor&ccedil;&atilde;o era de 41%. Este fato n&atilde;o confirma a concep&ccedil;&atilde;o trivial do atraso econ&ocirc;mico da R&uacute;ssia. Mas, por outro lado, tamb&eacute;m n&atilde;o nega o atraso geral. As duas concep&ccedil;&otilde;es completam-se dialeticamente. A estrutura de classe do pa&iacute;s tamb&eacute;m apresentava o mesmo car&aacute;ter contradit&oacute;rio. O capital financeiro da Europa industrializava a economia russa num ritmo acelerado. A burguesia industrial logo adquiria o car&aacute;ter do grande capitalismo, inimigo do povo. Al&eacute;m do mais, os acionistas estrangeiros viviam fora do pa&iacute;s, enquanto, por outro lado, os oper&aacute;rios eram autenticamente russos. Uma burguesia russa numericamente d&eacute;bil, que n&atilde;o possu&iacute;a nenhuma raiz nacional, defrontava-se desta forma com um proletariado relativamente forte e com rijas e profundas ra&iacute;zes no povo. Para o car&aacute;ter revolucion&aacute;rio do proletariado contribuiu o fato de que a R&uacute;ssia, precisamente como pa&iacute;s atrasado e for&ccedil;ado a abrigar os advers&aacute;rios, n&atilde;o chegou a elaborar um conservadorismo social e pol&iacute;tico pr&oacute;prio. Como a na&ccedil;&atilde;o mais conservadora da Europa e ainda do mundo inteiro, o mais velho pa&iacute;s capitalista, a Inglaterra, d&aacute;-me a raz&atilde;o. Seria poss&iacute;vel considerar a R&uacute;ssia como um pa&iacute;s desprovido de conservadorismo. O proletariado russo, jovem, resoluto, n&atilde;o constitu&iacute;a, contudo, mais que uma pequena minoria da na&ccedil;&atilde;o. As reservas de sua pot&ecirc;ncia revolucion&aacute;ria encontravam-se fora de seu pr&oacute;prio seio: no campesinato, que vivia numa semisservid&atilde;o, e nas nacionalidades oprimidas.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">A quest&atilde;o agr&aacute;ria formava a base da revolu&ccedil;&atilde;o. A antiga servid&atilde;o, que mantinha a autocracia, resultava duplamente insuport&aacute;vel nas condi&ccedil;&otilde;es da nova explora&ccedil;&atilde;o capitalista. A comunidade agr&aacute;ria ocupava cerca de 140 milh&otilde;es de deciatinas (medida agr&aacute;ria correspondente a 1,0925 hectare). A 30 mil grandes propriet&aacute;rios latifundi&aacute;rios, cada um possuindo em m&eacute;dia mais de 2.000 deciatinas, correspondia um total de 70 milh&otilde;es de deciatinas, isto &eacute;, tanto quanto a 10 milh&otilde;es de fam&iacute;lias camponesas, ou seja, 50 milh&otilde;es de seres. <i>Esta estat&iacute;stica da terra constitu&iacute;a um programa acabado de insurrei&ccedil;&atilde;o camponesa<\/i>. Um nobre, Boborkin, escrevia em 1917 ao fidalgo Rodzianko, presidente da &uacute;ltima Duma do Estado: &ldquo;<i>Eu sou um propriet&aacute;rio latifundi&aacute;rio e n&atilde;o me ocorre pensar, nem por um momento, que tenha de perder minha terra, muito menos para um fim inacredit&aacute;vel: fazer uma experi&ecirc;ncia socialista<\/i>&rdquo;. Mas as revolu&ccedil;&otilde;es sempre t&ecirc;m como objetivo a mesma tarefa: realizar o que n&atilde;o entra na cabe&ccedil;a das classes dominantes.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">No outono de 1917, quase todo o pa&iacute;s era um vasto campo de levantes camponeses. De 621 distritos da velha R&uacute;ssia, 482, isto &eacute;, 77% estavam conflagrados pelo movimento. O resplendor do inc&ecirc;ndio do campo iluminava a subleva&ccedil;&atilde;o nas cidades. Por&eacute;m &mdash; podereis objetar &mdash; a guerra camponesa contra os latifundi&aacute;rios &eacute; um dos elementos cl&aacute;ssicos da revolu&ccedil;&atilde;o burguesa, e n&atilde;o da revolu&ccedil;&atilde;o prolet&aacute;ria. Eu respondo: completamente justo. Foi assim no passado. Entretanto, a impot&ecirc;ncia do capitalismo para viver em um pa&iacute;s atrasado revela-se no fato de que, na R&uacute;ssia, a subleva&ccedil;&atilde;o camponesa n&atilde;o empurrou para frente a burguesia, mas, pelo contr&aacute;rio, colocou-a no campo da rea&ccedil;&atilde;o. Ao campesinato, para n&atilde;o fracassar, n&atilde;o lhe restava outro caminho sen&atilde;o a alian&ccedil;a com o proletariado industrial. Esta liga&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria das duas classes oprimidas foi prevista genialmente por Lenin e preparada h&aacute; muito tempo. Se a burguesia pudesse resolver, francamente, a quest&atilde;o, seguramente o proletariado n&atilde;o teria conquistado o poder em 1917. Chegando demasiadamente tarde, mergulhada precocemente na decrepitude, a burguesia russa, ego&iacute;sta e covarde, n&atilde;o teve a ousadia de levantar a m&atilde;o contra a propriedade feudal. E assim deixou o poder ao proletariado e, ao mesmo tempo, o direito de dispor da sorte da sociedade burguesa. Para que o Estado Sovi&eacute;tico se transformasse em realidade, era sobretudo necess&aacute;ria a a&ccedil;&atilde;o combinada desses fatores de natureza hist&oacute;rica distinta: a guerra camponesa, isto &eacute;, um movimento que &eacute; caracter&iacute;stico da aurora do desenvolvimento burgu&ecirc;s, e a subleva&ccedil;&atilde;o prolet&aacute;ria, que anuncia o crep&uacute;sculo da sociedade burguesa. A&iacute; reside o car&aacute;ter <i>combinado<\/i> da revolu&ccedil;&atilde;o russa. Bastava que o urso campon&ecirc;s se levantasse sobre as patas traseiras para mostrar a sua f&uacute;ria terr&iacute;vel. Mas o urso campon&ecirc;s carece da capacidade para dar &agrave; sua revolta uma express&atilde;o consciente: tem sempre a necessidade de um guia. Pela primeira vez na hist&oacute;ria do movimento social, o campesinato sublevado encontrou um dirigente leal no proletariado. Quatro milh&otilde;es de oper&aacute;rios da ind&uacute;stria e dos transportes lideraram cem milh&otilde;es de camponeses. Tal foi a rela&ccedil;&atilde;o natural e inevit&aacute;vel entre o proletariado e a classe camponesa na revolu&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">A segunda reserva revolucion&aacute;ria do proletariado era constitu&iacute;da pelas nacionalidades oprimidas, integradas, ainda assim, por camponeses na sua maioria. O car&aacute;ter extensivo do desenvolvimento do Estado, que se esparrama do centro de Moscou at&eacute; a periferia, vai intimamente ligado ao atraso hist&oacute;rico do pa&iacute;s. Ao Leste, submete as popula&ccedil;&otilde;es mais atrasadas ainda, para melhor afogar, com seu apoio, as nacionalidades mais desenvolvidas do Oeste. Aos setenta milh&otilde;es de gr&atilde;os-russos, que formam a massa principal da popula&ccedil;&atilde;o, somam-se, assim, noventa milh&otilde;es de &ldquo;al&oacute;genos&rdquo;. Formou-se assim o Imp&eacute;rio, em cuja composi&ccedil;&atilde;o a na&ccedil;&atilde;o dominante possu&iacute;a somente 43% da popula&ccedil;&atilde;o, enquanto os outros 57% era uma mescla de nacionalidades, culturas e regimes distintos. A opress&atilde;o nacional era, na R&uacute;ssia, incomparavelmente mais brutal que nos Estados vizinhos, ultrapassando, para dizer a verdade, n&atilde;o s&oacute; os que estavam do outro lado da fronteira ocidental, como tamb&eacute;m da oriental. Tal estado de coisas conferia ao problema nacional uma enorme for&ccedil;a explosiva. A burguesia liberal russa n&atilde;o queria, nem na quest&atilde;o nacional, nem na quest&atilde;o agr&aacute;ria, ir al&eacute;m de certas reformas para atenuar o regime de opress&atilde;o e viol&ecirc;ncia. Os governos &ldquo;democratas&rdquo; de Miliukov e de Kerensky, que exprimiam os interesses da burguesia gr&atilde;-russa, dedicaram-se, no curso dos oito meses de sua exist&ecirc;ncia, a ensinar &agrave;s nacionalidades oprimidas a seguinte li&ccedil;&atilde;o: n&atilde;o obtereis o que desejais at&eacute; que n&atilde;o o arranqueis pela for&ccedil;a. H&aacute; muito tempo, Lenin j&aacute; considerava a inevitabilidade do desenvolvimento do movimento nacional centr&iacute;fugo. O Partido Bolchevique lutou obstinadamente, durante anos, pelo direito de autodetermina&ccedil;&atilde;o das nacionalidades, isto &eacute;, pelo direito &agrave; completa separa&ccedil;&atilde;o estatal. Foi precisamente por causa desta exata posi&ccedil;&atilde;o na quest&atilde;o nacional que o proletariado russo p&ocirc;de ganhar, pouco a pouco, a confian&ccedil;a das popula&ccedil;&otilde;es oprimidas. O movimento de liberta&ccedil;&atilde;o nacional e o movimento campon&ecirc;s voltaram-se, for&ccedil;osamente, contra a democracia oficial, fortaleceram o proletariado e lan&ccedil;aram-se na correnteza da insurrei&ccedil;&atilde;o de outubro.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Levanta-se assim, gradativamente, o v&eacute;u do enigma da insurrei&ccedil;&atilde;o prolet&aacute;ria num pa&iacute;s historicamente atrasado. Muito tempo antes dos acontecimentos, os revolucion&aacute;rios marxistas previram a marcha da revolu&ccedil;&atilde;o e a fun&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica do jovem proletariado russo. Permitam-me aqui reproduzir um extrato de minha pr&oacute;pria obra sobre a revolu&ccedil;&atilde;o de 1905: &ldquo;<i>Num pa&iacute;s economicamente atrasado, o proletariado pode chegar ao poder antes que num pa&iacute;s adiantado&#8230; A revolu&ccedil;&atilde;o russa cria condi&ccedil;&otilde;es mediante as quais o poder pode passar (com a vit&oacute;ria da revolu&ccedil;&atilde;o deve passar) ao proletariado antes que a pol&iacute;tica do liberalismo burgu&ecirc;s tenha possibilidade de revelar seu g&ecirc;nio estadista&#8230; O destino dos interesses revolucion&aacute;rios mais elementares dos camponeses est&aacute; fortemente ligado ao destino de toda a revolu&ccedil;&atilde;o, ao destino do proletariado. Uma vez chegado ao poder, o proletariado aparecer&aacute; aos camponeses como libertador de sua classe. O proletariado entra no governo como representante revolucion&aacute;rio da na&ccedil;&atilde;o, como condutor reconhecido do povo na luta contra o absolutismo e a barb&aacute;rie da servid&atilde;o&#8230; O regime prolet&aacute;rio dever&aacute; desde o princ&iacute;pio pronunciar-se sobre a quest&atilde;o agr&aacute;ria, que est&aacute; ligada &agrave; sorte do avan&ccedil;o das massas populares da R&uacute;ssia.<\/i>&rdquo;<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Evoquei esta cita&ccedil;&atilde;o como testemunha de que a teoria da Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro, apresentada hoje por mim, n&atilde;o &eacute; uma improvisa&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida, contra&iacute;da <i>a posteriori<\/i>, sob a press&atilde;o dos acontecimentos. N&atilde;o. Pelo contr&aacute;rio. Foi formulada sob a forma de progn&oacute;stico pol&iacute;tico muito antes da Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro. Convireis que a teoria em geral n&atilde;o tem mais valor sen&atilde;o na medida em que ajuda a prever o curso do desenvolvimento e influencia os seus objetivos. Nisto mesmo consiste, falando em termos gerais, a import&acirc;ncia inestim&aacute;vel do marxismo como arma de orienta&ccedil;&atilde;o social e hist&oacute;rica. Lamento que os estreitos limites desta exposi&ccedil;&atilde;o me impe&ccedil;am de desenvolver o texto citado de maneira mais ampla e, por isso, terei que me conformar com um curto resumo de tudo o que escrevi em 1905:<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">&ldquo;<i>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s suas tarefas imediatas, a revolu&ccedil;&atilde;o russa &eacute; uma revolu&ccedil;&atilde;o burguesa. No entanto, a burguesia russa &eacute; contrarrevolucion&aacute;ria. Por conseguinte, a vit&oacute;ria da revolu&ccedil;&atilde;o s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel como vit&oacute;ria do proletariado. O proletariado vitorioso n&atilde;o se deter&aacute; no programa da democracia burguesa e passar&aacute; imediatamente ao programa do socialismo. A revolu&ccedil;&atilde;o russa ser&aacute; a primeira etapa da revolu&ccedil;&atilde;o socialista mundial.<\/i>&rdquo;<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><i>&nbsp;<\/i><\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Tal era a teoria da revolu&ccedil;&atilde;o permanente, elaborada por mim em 1905 e, mais tarde, exposta &agrave; cr&iacute;tica mais severa sob a alcunha de &ldquo;trotskismo&rdquo;. Isto n&atilde;o &eacute; mais que uma parte dessa teoria. A outra parte, agora particularmente atual, afirmava:<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">&ldquo;<i>As for&ccedil;as de produ&ccedil;&atilde;o atuais h&aacute; muito ultrapassaram as barreiras nacionais. A sociedade socialista &eacute; irrealiz&aacute;vel nos limites nacionais. Por mais importantes que sejam os &ecirc;xitos econ&ocirc;micos de um Estado oper&aacute;rio isolado, o programa do &lsquo;socialismo num s&oacute; pa&iacute;s&rsquo; &eacute; uma utopia pequeno-burguesa. S&oacute; uma federa&ccedil;&atilde;o europeia e, depois, mundial de rep&uacute;blicas socialistas pode abrir o caminho a uma sociedade socialista harm&ocirc;nica<\/i>.&rdquo;<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Hoje, depois da prova dos acontecimentos, tenho menos raz&atilde;o do que nunca para ratificar essa teoria.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Depois de tudo que disse, merece que se leve em conta o escritor fascista Malaparte? O te&oacute;rico que me atribui uma t&aacute;tica independente da estrat&eacute;gia e resultante de certas t&eacute;cnicas, aplic&aacute;veis em todo momento? Tais receitas fornecidas pelo infeliz te&oacute;rico do golpe de Estado permitem distingui-lo facilmente do pr&aacute;tico vitorioso do golpe de Estado. E ningu&eacute;m correr&aacute; o risco de confundir Malaparte com Bonaparte.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Sem a insurrei&ccedil;&atilde;o armada de 25 de outubro de 1917 (7 de novembro, segundo o calend&aacute;rio atual), o Estado Sovi&eacute;tico n&atilde;o existiria. Mas a insurrei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o caiu do c&eacute;u. Para que a Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro fosse vitoriosa era necess&aacute;ria uma s&eacute;rie de premissas hist&oacute;ricas: 1) A podrid&atilde;o das velhas classes dominantes, da nobreza, da monarquia, da burocracia; 2) A debilidade pol&iacute;tica da burguesia, que n&atilde;o tinha nenhuma raiz nas massas populares; 3) O car&aacute;ter revolucion&aacute;rio da quest&atilde;o agr&aacute;ria; 4) O car&aacute;ter revolucion&aacute;rio do problema das nacionalidades oprimidas; 5) O peso social do proletariado. A estas premissas org&acirc;nicas &eacute; preciso juntar condi&ccedil;&otilde;es conjunturais de excepcional import&acirc;ncia: 6) A revolu&ccedil;&atilde;o de 1905 foi uma grande li&ccedil;&atilde;o ou, segundo Lenin, &ldquo;um ensaio geral&rdquo; da revolu&ccedil;&atilde;o de 1917. Os soviets, como forma de organiza&ccedil;&atilde;o insubstitu&iacute;vel de frente &uacute;nica prolet&aacute;ria na revolu&ccedil;&atilde;o, apareceram pela primeira vez em 1905; 7) A guerra imperialista agu&ccedil;ou todas as contradi&ccedil;&otilde;es, arrancou as massas atrasadas do seu estado de imobilidade, preparando-as para o car&aacute;ter grandioso da cat&aacute;strofe.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Mas todas essas condi&ccedil;&otilde;es, suficientes para que irrompesse a revolu&ccedil;&atilde;o eram, por&eacute;m, insuficientes para assegurar a vit&oacute;ria do proletariado. Faltava uma oitava condi&ccedil;&atilde;o: o Partido Bolchevique. Se coloco esta condi&ccedil;&atilde;o em &uacute;ltimo lugar &eacute; porque corresponde &agrave; sequ&ecirc;ncia l&oacute;gica e n&atilde;o porque atribuo ao partido o lugar de menor import&acirc;ncia. N&atilde;o. Muito longe disso. A burguesia liberal pode tomar o poder, e o fez muitas vezes, como resultado de lutas nas quais n&atilde;o havia participado: para isto possui instrumentos magnificamente desenvolvidos. As massas trabalhadoras encontram-se numa outra situa&ccedil;&atilde;o. Acostumaram-se a ceder o poder, n&atilde;o a tom&aacute;-lo. Trabalham pacientemente, esperam, perdem a paci&ecirc;ncia, sublevam-se, combatem, morrem, d&atilde;o a vit&oacute;ria a outros, s&atilde;o tra&iacute;das, caem no desalento, submetem-se, voltam a trabalhar. Assim &eacute; a hist&oacute;ria das massas populares sob todos os regimes. Para tomar com seguran&ccedil;a e firmeza o poder, o proletariado tem necessidade de um partido superior a todos os demais na clareza do pensamento e na decis&atilde;o revolucion&aacute;ria. O Partido Bolchevique, designado com frequ&ecirc;ncia, e com raz&atilde;o, como o partido mais revolucion&aacute;rio da hist&oacute;ria da humanidade, era a condensa&ccedil;&atilde;o viva da nova hist&oacute;ria da R&uacute;ssia, de tudo o que nela havia de din&acirc;mico. Havia muito tempo que se considerava o desaparecimento da monarquia como a condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel para o desenvolvimento da economia e da cultura. Faltavam as for&ccedil;as para levar adiante esta tarefa. &Agrave; burguesia horrorizava a ideia da revolu&ccedil;&atilde;o. Os intelectuais tentaram conduzir o campesinato sobre os ombros. Incapaz de generalizar suas pr&oacute;prias penas e objetivos, o mujique n&atilde;o deu resposta ao apelo dos intelectuais. A <i>intelligentsia<\/i> armou-se de dinamite. Toda uma gera&ccedil;&atilde;o se consumiu nesta luta. A 1&ordm; de mar&ccedil;o de 1887, Alexandre Ulianov levou a cabo o &uacute;ltimo dos grandes atentados terroristas. A tentativa contra Alexandre III fracassou. Ulianov e os demais participantes foram enforcados. A tentativa de substituir a classe revolucion&aacute;ria por uma prepara&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica naufragou. A intelig&ecirc;ncia mais heroica n&atilde;o &eacute; nada sem as massas. Sob a impress&atilde;o imediata destes fatos e de suas conclus&otilde;es, cresceu e formou-se o mais jovem dos irm&atilde;os Ulianov, Vladimir, o futuro Lenin. A figura mais grandiosa da hist&oacute;ria russa. Desde o princ&iacute;pio, em sua juventude, colocou-se sob o terreno do marxismo e voltou seu olhar para o proletariado. Sem perder um instante de vista a aldeia, orientou-se para o campesinato, atrav&eacute;s dos oper&aacute;rios. Herdando de seus precursores revolucion&aacute;rios a resolu&ccedil;&atilde;o, a capacidade de sacrif&iacute;cio, a disposi&ccedil;&atilde;o de chegar at&eacute; o fim, Lenin converteu-se, nos anos da juventude, no educador da nova gera&ccedil;&atilde;o dos intelectuais e dos oper&aacute;rios avan&ccedil;ados. Nas greves e nas lutas de rua, nas pris&otilde;es e no ex&iacute;lio, os oper&aacute;rios adquiriram a t&ecirc;mpera necess&aacute;ria. A lanterna do marxismo ser-lhe-&aacute; necess&aacute;ria para iluminar seu caminho hist&oacute;rico na escurid&atilde;o da autocracia.<\/span><\/span><\/p>\n<hr alt=\"Parte II\" class=\"system-pagebreak\" \/>\n\t<\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" align=\"right\" alt=\"\" border=\"0\" height=\"263\" hspace=\"3\" src=\"http:\/\/www.litci.org\/novosite\/wp-content\/uploads\/025_(2).JPG\" vspace=\"3\" width=\"333\" \/>Em 1883, nasceu na emigra&ccedil;&atilde;o o primeiro grupo marxista. Em 1898, numa Assembleia clandestina, proclamou-se a cria&ccedil;&atilde;o do Partido Oper&aacute;rio Social-Democrata Russo. Naquela &eacute;poca, todos nos cham&aacute;vamos social-democratas. Em 1903, ocorreu a cis&atilde;o entre bolcheviques e mencheviques. Em 1912, a fra&ccedil;&atilde;o bolchevique transformou-se, definitivamente, em partido aut&ocirc;nomo. Este partido ensinou a reconhecer a mec&acirc;nica das classes sociais nas lutas, nos acontecimentos grandiosos, durante 12 anos (de 1905 a 1917). Educou quadros, militantes aptos, tanto para a iniciativa como para a obedi&ecirc;ncia. A disciplina da a&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria apoiava-se na unidade da doutrina, nas tradi&ccedil;&otilde;es de lutas comuns e na confian&ccedil;a numa dire&ccedil;&atilde;o provada. Tal era o partido em 1917. Enquanto a &ldquo;opini&atilde;o p&uacute;blica&rdquo; oficial e as toneladas de papel da imprensa n&atilde;o lhe concediam import&acirc;ncia, o partido bolchevique orientava-se segundo o curso das lutas de massas. A formid&aacute;vel alavanca que esse partido manejava firmemente introduzia-se nas f&aacute;bricas e nos regimentos e as massas camponesas dirigiam cada vez mais e com mais insist&ecirc;ncia suas aten&ccedil;&otilde;es para ele. Se se entende por na&ccedil;&atilde;o n&atilde;o as camadas privilegiadas, mas, sim, a maioria do povo, isto &eacute;, os oper&aacute;rios e os camponeses, h&aacute; de se reconhecer que o bolchevismo se transformou, no decorrer de 1917, no &uacute;nico partido verdadeiramente nacional.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Em setembro de 1917, Lenin, obrigado a viver na clandestinidade, deu o sinal: &ldquo;<i>A crise est&aacute; madura, aproxima-se a hora da insurrei&ccedil;&atilde;o<\/i>&rdquo;. Estava certo. As classes dominantes ca&iacute;ram impotentes diante dos problemas da guerra, do campo e da liberta&ccedil;&atilde;o nacional. A burguesia perdeu definitivamente a cabe&ccedil;a. Os partidos democratas, os mencheviques e os socialistas-revolucion&aacute;rios dissiparam o &uacute;ltimo resto da confian&ccedil;a das massas, sustentando a guerra imperialista por sua pol&iacute;tica de compromissos e de concess&otilde;es aos propriet&aacute;rios burgueses e feudais. O ex&eacute;rcito, abalado na sua consci&ecirc;ncia, negava-se a lutar pelos objetivos do imperialismo, que lhe eram estranhos. Sem atender &agrave;s exorta&ccedil;&otilde;es &ldquo;democr&aacute;ticas&rdquo;, os camponeses expulsaram os latifundi&aacute;rios de seus dom&iacute;nios. A periferia nacional do imp&eacute;rio, oprimida, lan&ccedil;ou-se contra a burocracia de Petrogrado. Nos mais importantes Conselhos de oper&aacute;rios e soldados os bolcheviques dominavam. Oper&aacute;rios e soldados exigiam fatos. O abscesso estava maduro. S&oacute; faltava um corte de bisturi.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">A insurrei&ccedil;&atilde;o s&oacute; se tornou poss&iacute;vel nessas condi&ccedil;&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas. E assim aconteceu inelutavelmente. Mas n&atilde;o se pode brincar com a insurrei&ccedil;&atilde;o. Desgra&ccedil;ado do cirurgi&atilde;o que utiliza o bisturi com neglig&ecirc;ncia. A insurrei&ccedil;&atilde;o &eacute; uma arte: tem as suas leis e as suas pr&oacute;prias regras.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O partido realizou a insurrei&ccedil;&atilde;o de Outubro com um c&aacute;lculo frio e uma resolu&ccedil;&atilde;o ardente. Gra&ccedil;as a isto p&ocirc;de triunfar quase sem v&iacute;timas. Por meio dos soviets vitoriosos, os bolcheviques puseram-se &agrave; frente do pa&iacute;s que compreende a sexta parte da superf&iacute;cie terrestre. Suponho que a maioria dos meus ouvintes de hoje ainda n&atilde;o se ocupavam com a pol&iacute;tica em 1917. Tanto melhor. A jovem gera&ccedil;&atilde;o tem diante de si muitas coisas interessantes, mas n&atilde;o f&aacute;ceis. Por outro lado, os representantes da velha gera&ccedil;&atilde;o, nesta sala, recordar&atilde;o muito bem como se recebeu a tomada do poder pelos bolcheviques: como um equ&iacute;voco, uma curiosidade, um esc&acirc;ndalo, ou ainda, um pesadelo, que se desvaneceria ao primeiro clar&atilde;o da alvorada. Os bolcheviques manteriam o poder apenas por vinte e quatro horas, uma semana, um m&ecirc;s, um ano. Era preciso ampliar cada vez mais o prazo. Os amos do mundo armavam-se contra o primeiro Estado prolet&aacute;rio: desencadeamento da guerra civil, novas e novas interven&ccedil;&otilde;es, bloqueio. Assim passou um ano. Passou outro. E a historia j&aacute; tem que contar quinze anos de exist&ecirc;ncia do poder sovi&eacute;tico. Sim, diria algum advers&aacute;rio: a aventura de Outubro mostrou-se muito mais s&oacute;lida do que pens&aacute;vamos. Qui&ccedil;&aacute; n&atilde;o fosse de todo uma &ldquo;aventura&rdquo;. E, n&atilde;o obstante, a quest&atilde;o conserva toda a sua for&ccedil;a: o que se obteve a este pre&ccedil;o t&atilde;o elevado? Pode-se dizer que se realizaram as belezas anunciadas pelos bolcheviques antes da insurrei&ccedil;&atilde;o? Antes de responder ao suposto advers&aacute;rio, observemos que esta pergunta n&atilde;o &eacute; nova. Ao contr&aacute;rio, remonta aos primeiros passos da Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro, depois do nascimento da Rep&uacute;blica dos Soviets.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O jornalista franc&ecirc;s Claude Anet, que estava em Petrogrado durante a revolu&ccedil;&atilde;o, escrevia, a 27 de outubro de 1917: &ldquo;<i>Os maximalistas<\/i> &mdash; era assim que os franceses chamavam os bolcheviques naquela &eacute;poca &mdash; <i>tomaram o poder e amanheceu o grande dia. Enfim, digo-me, vou ver como se realiza o &lsquo;&Eacute;den Socialista&rsquo; que eles nos prometem h&aacute; tantos anos&#8230; Admir&aacute;vel aventura! Posi&ccedil;&atilde;o privilegiada!<\/i>&rdquo;, etc. Que aut&ecirc;ntico &oacute;dio se ocultava por tr&aacute;s dessas sauda&ccedil;&otilde;es ir&ocirc;nicas! No dia seguinte &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o do Pal&aacute;cio de Inverno, o jornalista franc&ecirc;s julgava-se com o direito de exigir um cart&atilde;o de entrada no Para&iacute;so. Quinze anos transcorreram desde a insurrei&ccedil;&atilde;o. Com uma falta de cerim&ocirc;nia ainda maior, os advers&aacute;rios manifestavam sua alegria maligna ao comprovar que, ainda hoje, o pa&iacute;s dos soviets se assemelha muito pouco ao reino do bem-estar geral. Por que, ent&atilde;o, a revolu&ccedil;&atilde;o? Por que suas v&iacute;timas?<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Caros ouvintes: creio que estou entre aqueles que melhor conhecem as contradi&ccedil;&otilde;es, as dificuldades, as faltas e as insufici&ecirc;ncias do regime sovi&eacute;tico. Pessoalmente, jamais tratei de dissimul&aacute;-las, nem oralmente nem por escrito. Sempre acreditei &mdash; e sigo acreditando &mdash; que a pol&iacute;tica revolucion&aacute;ria, ao contr&aacute;rio da pol&iacute;tica conservadora, n&atilde;o pode se basear no engodo. &ldquo;<i>Exprimir o que &eacute;<\/i>&rdquo; &mdash; tal deve ser o princ&iacute;pio essencial do Estado oper&aacute;rio. N&atilde;o obstante, &eacute; necess&aacute;rio ter perspectiva, tanto na cr&iacute;tica como na atividade criadora. O subjetivismo &eacute; um p&eacute;ssimo conselheiro, sobretudo quando se trata de grandes quest&otilde;es. Os prazos devem estar em conson&acirc;ncia com a magnitude das tarefas, e n&atilde;o com os caprichos individuais. Quinze anos! Que significam para uma vida? Entretanto, numerosos s&atilde;o aqueles da nossa gera&ccedil;&atilde;o que foram enterrados; e, nos sobreviventes, multiplicam-se os cabelos brancos. Mas esses mesmos quinze anos n&atilde;o representam mais que um piscar de olhos na vida de um povo. Nada mais do que um minuto no rel&oacute;gio da Hist&oacute;ria!<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O capitalismo precisou de s&eacute;culos para afirmar-se na luta contra a Idade M&eacute;dia, para elevar a ci&ecirc;ncia e a t&eacute;cnica, para construir vias f&eacute;rreas, para estender fios el&eacute;tricos. E depois? Depois lan&ccedil;ou a humanidade no inferno das guerras e das crises. Ao socialismo, seus advers&aacute;rios, isto &eacute;, os partid&aacute;rios do capitalismo, n&atilde;o concedem mais do que quinze anos para instaurar sobre a terra o para&iacute;so com todo o conforto moderno. N&atilde;o. N&atilde;o assumimos tal obriga&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o estabelecemos tais prazos. Devem-se medir os processos das grandes transforma&ccedil;&otilde;es com uma escala adequada. N&atilde;o sei se a sociedade socialista se assemelharia ao para&iacute;so b&iacute;blico. Duvido muito. Na Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica n&atilde;o existe ainda o socialismo. E sim um estado de transi&ccedil;&atilde;o, cheio de contradi&ccedil;&otilde;es, carregando a pesada heran&ccedil;a do passado, sofrendo a press&atilde;o inimiga dos Estados capitalistas. A Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro proclamou o princ&iacute;pio da nova sociedade. A Rep&uacute;blica dos Soviets apenas mostrou a primeira etapa de sua realiza&ccedil;&atilde;o. A primeira l&acirc;mpada de Edson foi muito imperfeita. Devemos saber distinguir o futuro atrav&eacute;s das faltas e dos erros da primeira edifica&ccedil;&atilde;o socialista.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">E as calamidades que se abatem sobre os seres vivos? Os resultados da revolu&ccedil;&atilde;o justificam as v&iacute;timas que ela causou? Pergunta est&eacute;ril e profundamente ret&oacute;rica! Como se o processo hist&oacute;rico resultasse de um balan&ccedil;o cont&aacute;bil. Com tanto mais raz&atilde;o, ante as dificuldades e as penas da exist&ecirc;ncia humana, poder-se-ia perguntar: &ldquo;<i>Vale a pena viver para isso?<\/i>&rdquo;. Heine escreveu a este prop&oacute;sito: &ldquo;<i>E o tolo aguarda uma resposta<\/i>&rdquo;. As medita&ccedil;&otilde;es melanc&oacute;licas n&atilde;o impediram o homem de fecundar e nascer. Ainda nesta &eacute;poca, de uma crise mundial sem precedentes, os suic&iacute;dios constituem, felizmente, uma porcentagem muito baixa. Pois os povos n&atilde;o t&ecirc;m o costume de buscar ref&uacute;gio no suic&iacute;dio. Aliviam-se das cargas insuport&aacute;veis pela revolu&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, quem se indigna por causa das v&iacute;timas da revolu&ccedil;&atilde;o socialista? Quase sempre s&atilde;o os mesmos que preparam e glorificam as v&iacute;timas da guerra imperialista ou, pelo menos, os que se acomodaram facilmente ao conflito. Tamb&eacute;m n&oacute;s poder&iacute;amos perguntar: Justifica-se a guerra? O que ela nos deu? O que nos ensinou?<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Em seus onze volumes de difama&ccedil;&atilde;o contra a grande Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, o historiador Hip&oacute;lito Taine descreve, n&atilde;o sem s&oacute;rdida alegria, os sofrimentos do povo franc&ecirc;s nos anos da ditadura jacobina e nos que a ela se seguiram. Foram, sobretudo, penosos para as camadas inferiores das cidades, os plebeus que, como <i>sans-culottes<\/i>, deram &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o o melhor de sua alma. Eles ou suas mulheres passavam noites frias nas filas para voltar no dia seguinte com as m&atilde;os vazias ao lar gelado. No d&eacute;cimo ano da revolu&ccedil;&atilde;o, Paris era mais pobre que antes da insurrei&ccedil;&atilde;o. Dados cuidadosamente escolhidos e artificiosamente completados servem a Taine para fundamentar seu <i>veredictum<\/i> destruidor contra a revolu&ccedil;&atilde;o: &ldquo;<i>Olhai os plebeus. Queriam ser ditadores e ca&iacute;ram na mis&eacute;ria!<\/i>&rdquo; &Eacute; dif&iacute;cil imaginar um moralista mais hip&oacute;crita. Em primeiro lugar, se a revolu&ccedil;&atilde;o lan&ccedil;ou o pa&iacute;s na mis&eacute;ria, a culpa recairia antes de tudo sobre as classes dirigentes, que empurravam o povo &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o. Em segundo lugar, a grande revolu&ccedil;&atilde;o francesa n&atilde;o se esgotou nas filas da fome, diante das padarias. Toda a Fran&ccedil;a moderna e, sob certos aspectos, toda a civiliza&ccedil;&atilde;o moderna emergiram da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">No curso da guerra civil dos Estados Unidos morreram 500 mil homens. Justificam-se essas v&iacute;timas? Do ponto de vista do dono de escravos americano e das classes dominantes da Gr&atilde;-Bretanha, n&atilde;o. Do ponto de vista do negro e do oper&aacute;rio brit&acirc;nico, completamente. E do ponto de vista do desenvolvimento da humanidade, no seu conjunto, n&atilde;o h&aacute; a menor d&uacute;vida. Da guerra civil dos anos 60 sa&iacute;ram os Estados Unidos atuais, com a sua iniciativa pr&aacute;tica e veloz, a t&eacute;cnica racionalizada, o auge econ&ocirc;mico. Sobre essas conquistas do americanismo, a humanidade edificar&aacute; a nova sociedade.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">A Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro penetrou mais profundamente que todas as precedentes no &acirc;mago da sociedade, nas rela&ccedil;&otilde;es de propriedade. Prazos maiores s&atilde;o necess&aacute;rios para que se manifestem as for&ccedil;as criadoras da revolu&ccedil;&atilde;o em todos os dom&iacute;nios da vida. Mas a orienta&ccedil;&atilde;o geral &eacute; clara desde j&aacute;: a Rep&uacute;blica do Soviets n&atilde;o tem por que abaixar a cabe&ccedil;a nem empregar a linguagem da desculpa diante dos seus acusadores capitalistas. Para apreciar o novo regime do ponto de vista do desenvolvimento humano, h&aacute; que se focalizar, acima de tudo, esta quest&atilde;o: de que maneira se exterioriza o progresso social e como se pode medi-lo? O crit&eacute;rio mais objetivo, mais profundo e mais indiscut&iacute;vel &eacute; o crescimento da produtividade do trabalho social. A experi&ecirc;ncia da Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro, sob este &acirc;ngulo, fornece-nos uma estimativa. Pela primeira vez na hist&oacute;ria o princ&iacute;pio de organiza&ccedil;&atilde;o socialista demonstrou sua capacidade, fornecendo resultados de produ&ccedil;&atilde;o jamais obtidos num curto per&iacute;odo. Em cifras globais, a curva do desenvolvimento industrial da R&uacute;ssia se expressa desta forma: ponhamos para o ano de 1913, o &uacute;ltimo ano antes da guerra, o n&uacute;mero 100. O ano 1920, fim da guerra civil, &eacute; o ponto mais baixo da ind&uacute;stria: registra-se apenas 25, isto &eacute;, um quarto da produ&ccedil;&atilde;o de antes da guerra. 1929 registra aproximadamente 200. 1932, 300, ou seja, o triplo do que havia nas v&eacute;speras da guerra. O quadro aparecer&aacute; ainda mais claro &agrave; luz dos &iacute;ndices internacionais. De 1925 a 1932, a produ&ccedil;&atilde;o industrial da Alemanha diminuiu aproximadamente uma vez e meia. Na Am&eacute;rica, aproximadamente dobrou. Na Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, aumentou mais de quatro vezes. As cifras n&atilde;o podem ser mais eloquentes.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">De maneira nenhuma pretendo negar ou dissimular os dados sombrios da economia sovi&eacute;tica. Os resultados dos &iacute;ndices industriais est&atilde;o extraordinariamente influenciados pelo desenvolvimento desfavor&aacute;vel da economia agr&aacute;ria, quer dizer, do dom&iacute;nio onde ainda n&atilde;o entraram os m&eacute;todos socialistas, mas foi arrastado para a coletiviza&ccedil;&atilde;o sem prepara&ccedil;&atilde;o suficiente, de maneira mais burocr&aacute;tica do que t&eacute;cnica ou econ&ocirc;mica. Esta &eacute; uma grande quest&atilde;o, mas ultrapassa os limites da minha confer&ecirc;ncia.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">As cifras apresentadas requerem ainda uma ressalva essencial: os &ecirc;xitos indiscut&iacute;veis e brilhantes da industrializa&ccedil;&atilde;o sovi&eacute;tica exigem uma verifica&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica ulterior, do ponto de vista da harmonia rec&iacute;proca dos diferentes elementos da economia, de seu equil&iacute;brio din&acirc;mico e, por conseguinte, de sua capacidade de rendimento. Aqui s&atilde;o inevit&aacute;veis as grandes dificuldades e tamb&eacute;m os retrocessos. O socialismo n&atilde;o surge em sua forma acabada do Plano Quinquenal como Minerva da cabe&ccedil;a de J&uacute;piter ou V&ecirc;nus da espuma do mar. Estamos diante de d&eacute;cadas de trabalho obstinado, de falhas, de corre&ccedil;&otilde;es e de reconstru&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, n&atilde;o esque&ccedil;amos que a edifica&ccedil;&atilde;o socialista n&atilde;o pode alcan&ccedil;ar o seu coroamento sen&atilde;o sobre o plano internacional.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Mesmo o mais desfavor&aacute;vel balan&ccedil;o econ&ocirc;mico dos resultados obtidos at&eacute; agora n&atilde;o poderia revelar outra coisa que a inexatid&atilde;o dos c&aacute;lculos preliminares, as falhas do plano e os erros da dire&ccedil;&atilde;o. Mas em caso algum poderia contradizer o fato estabelecido empiricamente: a possibilidade de elevar o trabalho coletivo a uma altura jamais conhecida, com a ajuda dos m&eacute;todos socialistas. Esta conquista, de uma import&acirc;ncia hist&oacute;rica mundial, ningu&eacute;m poder&aacute; ocultar.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Depois do que disse, quase n&atilde;o vale a pena perder tempo para contestar as lamenta&ccedil;&otilde;es segundo as quais a Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro conduziu a R&uacute;ssia ao ocaso da cultura. Tal &eacute; a voz das classes dominantes e dos sal&otilde;es inquietos. A &ldquo;Cultura&rdquo; aristocr&aacute;tico-burguesa, derrubada pela revolu&ccedil;&atilde;o prolet&aacute;ria, n&atilde;o era mais que um complemento da barb&aacute;rie. Tanto que foi inacess&iacute;vel ao povo russo, que pouco aportou ao tesouro da humanidade. Mas, tamb&eacute;m, no que concerne a esta cultura t&atilde;o chorada pela emigra&ccedil;&atilde;o branca, &eacute; preciso esclarecer a quest&atilde;o: em que sentido foi destru&iacute;da? Num s&oacute; sentido: o monop&oacute;lio de uma pequena minoria sobre os bens da cultura desapareceu. No que era realmente cultural permanece intacto. Os &ldquo;hunos&rdquo; bolcheviques n&atilde;o pisotearam nem as conquistas do pensamento nem as obras de arte. Pelo contr&aacute;rio, restauraram, cuidadosamente, os monumentos da cria&ccedil;&atilde;o humana e deram-lhes ordem exemplar. A cultura da monarquia, da nobreza e da burguesia converteu-se presentemente na cultura dos museus hist&oacute;ricos. O povo visita com fervor esses museus, mas n&atilde;o vive neles. Aprende, constr&oacute;i. O simples fato de que a Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro tenha ensinado o povo russo, aos numerosos povos da R&uacute;ssia czarista, a ler e a escrever tem incomparavelmente mais valor do que toda a cultura em conserva da R&uacute;ssia de outrora. A revolu&ccedil;&atilde;o russa criou a base de uma nova cultura, destinada n&atilde;o aos eleitos, mas a todos. As massas do mundo inteiro sentem-no: da&iacute; a sua simpatia pela Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica t&atilde;o ardente como era antes o seu &oacute;dio contra a R&uacute;ssia czarista.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Caros ouvintes: v&oacute;s sabeis que a linguagem humana representa um instrumento insubstitu&iacute;vel, n&atilde;o somente porque designa as coisas e os fatos, mas tamb&eacute;m porque os afirma. Descartando o acidental, o epis&oacute;dico, o artificial, absorve o real, condensa-o. Notai com que sensibilidade as l&iacute;nguas das na&ccedil;&otilde;es civilizadas distinguiram duas &eacute;pocas no desenvolvimento da R&uacute;ssia. A cultura aristocr&aacute;tica trouxe ao mundo barbarismos tais como <i>czar, cossaco, pogrom, nagaika<\/i>. Conheceis essas palavras e sabeis seu significado. A Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro levou a todas as l&iacute;nguas do mundo palavras tais como: <i>bolchevique, soviets, kolkhoz, Gosplan piatiletka<\/i><sup>1<\/sup>. Aqui a lingu&iacute;stica pr&aacute;tica emite seu julgamento hist&oacute;rico.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O significado mais profundo da revolu&ccedil;&atilde;o &mdash; e que mais dificilmente se submeteu a uma nova prova imediata &mdash; consiste em que forma e tempera o car&aacute;ter do povo. A imagem do povo russo como um povo lento, passivo, melanc&oacute;lico, m&iacute;stico, est&aacute; h&aacute; muito difundida, e isto n&atilde;o &eacute; casual. Tem suas ra&iacute;zes no passado. Mas ainda n&atilde;o se levaram suficientemente em considera&ccedil;&atilde;o, no Ocidente, as modifica&ccedil;&otilde;es profundas que a Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro introduziu no car&aacute;ter do povo russo. E podia esperar-se outra coisa? Todo homem que tem uma experi&ecirc;ncia de vida pode despertar em sua mem&oacute;ria a imagem de um adolescente qualquer, dele conhecido, que &mdash; impression&aacute;vel, l&iacute;rico, sentimental, enfim &mdash; se transforma, mais tarde, de um s&oacute; golpe, sob a a&ccedil;&atilde;o de forte choque moral, num homem forte, bem temperado at&eacute; o ponto de ficar completamente desconhecido. No desenvolvimento de toda uma na&ccedil;&atilde;o, a revolu&ccedil;&atilde;o realiza transforma&ccedil;&otilde;es an&aacute;logas. A insurrei&ccedil;&atilde;o de fevereiro contra a autocracia, a luta contra a nobreza, contra a guerra imperialista pela paz, pela terra, pela igualdade nacional, a insurrei&ccedil;&atilde;o de outubro, a derrubada da burguesia e dos partidos com tend&ecirc;ncias a sustent&aacute;-la, tr&ecirc;s anos de guerra civil sobre uma frente de 8.000 quil&ocirc;metros, os anos de bloqueio, de mis&eacute;ria, de fome, de epidemias, os anos de tensa edifica&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, as novas dificuldades e priva&ccedil;&otilde;es, tudo isto integra uma rude escola, por&eacute;m boa. Um pesado martelo transforma o vidro em p&oacute;. Mas, em compensa&ccedil;&atilde;o, forja o a&ccedil;o. O martelo da revolu&ccedil;&atilde;o forja o a&ccedil;o do car&aacute;ter do povo.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">&ldquo;<i>Quem poderia creditar?<\/i>&rdquo; Era preciso acreditar. Pouco depois da insurrei&ccedil;&atilde;o, um dos generais czaristas, Zaleski, escandalizava-se com o fato de que &ldquo;<i>um porteiro ou um guarda se convertesse num presidente de tribunal; um enfermeiro, em diretor de hospital; um barbeiro, em personalidade importante; um sargento, em comandante supremo; um diarista em prefeito; um carpinteiro, em diretor de empresa<\/i>&rdquo;.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">&ldquo;<i>Quem poderia creditar?<\/i>&rdquo; Era preciso acreditar. Embora n&atilde;o se acreditasse, os sargentos j&aacute; derrotavam os generais; o prefeito, antes diarista, rompia a resist&ecirc;ncia da velha burocracia; o carpinteiro, agora diretor, reconstru&iacute;a a ind&uacute;stria. &ldquo;<i>Quem poderia acreditar?<\/i>&rdquo; Que tratem agora de acreditar&#8230;<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Para explicar a paci&ecirc;ncia que as massas populares da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica demonstraram nos anos da revolu&ccedil;&atilde;o, muitos observadores estrangeiros recorrem, por h&aacute;bito, &agrave; passividade do car&aacute;ter russo. Grosseiro anacronismo! As massas revolucion&aacute;rias suportam as priva&ccedil;&otilde;es pacientemente, mas n&atilde;o passivamente. Elas constroem com suas pr&oacute;prias m&atilde;os um futuro melhor. E querem cri&aacute;-lo a qualquer pre&ccedil;o. Que o inimigo de classe trate somente de impor a essas massas pacientes sua vontade, de fora. N&atilde;o, &eacute; melhor que n&atilde;o tente!<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Para terminar, tratemos de fixar o lugar da Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro n&atilde;o somente na hist&oacute;ria da R&uacute;ssia como tamb&eacute;m na hist&oacute;ria do mundo. Durante o ano de 1917, no intervalo de oito meses, duas curvas hist&oacute;ricas convergem. A Revolu&ccedil;&atilde;o de Fevereiro &mdash; este eco tardio das grandes lutas que se travaram nos s&eacute;culos passados sobre o territ&oacute;rio dos Pa&iacute;ses Baixos, Inglaterra, Fran&ccedil;a, quase toda a Europa continental &mdash; une-se &agrave; s&eacute;rie de revolu&ccedil;&otilde;es burguesas. A Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro proclama e abre a era da domina&ccedil;&atilde;o do proletariado. &Eacute; o capitalismo mundial que sofre sobre o territ&oacute;rio da R&uacute;ssia a primeira grande derrota. A corrente partiu-se pelo elo mais fraco. Mas foi a corrente e n&atilde;o somente o elo que se quebrou.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">O capitalismo como sistema mundial apenas sobrevive, historicamente. Terminou de cumprir sua miss&atilde;o: a eleva&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel de poder e da riqueza humana. A humanidade n&atilde;o pode estancar no degrau alcan&ccedil;ado. S&oacute; um poderoso impulso das for&ccedil;as de produ&ccedil;&atilde;o e uma organiza&ccedil;&atilde;o justa, planificada, em outras palavras, socialista de produ&ccedil;&atilde;o e de distribui&ccedil;&atilde;o pode assegurar aos homens &mdash; a todos os homens &mdash; o n&iacute;vel de vida digno de conferir-lhes, ao mesmo tempo, o sentimento inef&aacute;vel de liberdade diante de sua pr&oacute;pria economia. De liberdade em duas ordens de rela&ccedil;&otilde;es: primeiramente, o homem n&atilde;o se ver&aacute; mais obrigado a consagrar sua vida inteira ao trabalho f&iacute;sico; em segundo lugar, j&aacute; n&atilde;o depender&aacute; das leis do mercado, isto &eacute;, da for&ccedil;as cegas e obscuras que operam fora de sua vontade. O homem edificar&aacute;, livremente, sua economia, quer dizer, ajustada a um plano, o compasso na m&atilde;o. Trata-se agora de radiografar a anatomia da sociedade, de descobrir todos os seus segredos e submeter todas as suas fun&ccedil;&otilde;es &agrave; raz&atilde;o e &agrave; vontade do homem coletivo. Neste sentido, o socialismo gera uma nova etapa no crescimento hist&oacute;rico da humanidade. A nosso antepassado, armado pela primeira vez com um machado de pedra, toda a natureza se lhe apresenta como a conjura&ccedil;&atilde;o de um poder misterioso e hostil. Mais tarde, as ci&ecirc;ncias naturais, em estreita colabora&ccedil;&atilde;o com a tecnologia pr&aacute;tica, iluminaram a natureza, at&eacute; suas mais profundas entranhas. Por meio da energia el&eacute;trica, o f&iacute;sico elabora seu ju&iacute;zo sobre o n&uacute;cleo at&ocirc;mico. N&atilde;o est&aacute; longe a hora em que &mdash; como na fic&ccedil;&atilde;o &mdash; a ci&ecirc;ncia resolver&aacute; a tarefa da alquimia, transformando o esterco em ouro e o ouro em esterco. L&aacute;, onde os dem&ocirc;nios e as f&uacute;rias da natureza se desatavam, reina agora cada vez mais corajosamente a vontade do homem.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Mas, enquanto lutava furiosamente com a natureza, o homem criou &agrave;s cegas rela&ccedil;&otilde;es com os demais, assim como as abelhas e as formigas. Com atraso e por demais indeciso, deparou com os problemas da sociedade humana. Come&ccedil;ou pela religi&atilde;o para depois passar &agrave; pol&iacute;tica. A Reforma trouxe o primeiro &ecirc;xito do individualismo e do nacionalismo burgu&ecirc;s, no dom&iacute;nio onde imperava uma tradi&ccedil;&atilde;o morta. O pensamento cr&iacute;tico passou da igreja ao Estado. Nascida na luta contra o absolutismo e as condi&ccedil;&otilde;es medievais, a doutrina da soberania popular e dos direitos do homem e do cidad&atilde;o ampliou-se e fortaleceu-se. Assim se formou o sistema do parlamentarismo. O pensamento cr&iacute;tico penetrou no dom&iacute;nio da administra&ccedil;&atilde;o do Estado. O racionalismo pol&iacute;tico da democracia significou a mais alta conquista da burguesia revolucion&aacute;ria.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Entre a natureza e o Estado interp&ocirc;s-se a economia. A t&eacute;cnica libertou o homem da tirania dos velhos elementos: a terra, a &aacute;gua, o fogo, o ar, para submet&ecirc;-los em seguida &agrave; sua pr&oacute;pria tirania. A atual crise mundial comprova de maneira particularmente tr&aacute;gica como este dominador altivo e audaz da natureza permanece escravo dos poderes cegos de sua pr&oacute;pria economia. A tarefa hist&oacute;rica de nossa &eacute;poca consiste em substituir o jogo an&aacute;rquico do mercado por um plano racional, e disciplinar as for&ccedil;as de produ&ccedil;&atilde;o, em obrig&aacute;-las a operar em harmonia, servindo docilmente &agrave;s necessidades do homem. Somente sobre esta base social o homem poder&aacute; repousar suas costas fatigadas. N&atilde;o os eleitos, mas todos e todas, tornando-se cidad&atilde;os com plenos poderes. No entanto, ainda n&atilde;o &eacute; esta a meta do caminho. N&atilde;o. Isto n&atilde;o &eacute; mais que o princ&iacute;pio. O homem considera-se o coroamento da cria&ccedil;&atilde;o. Tem para isto, sim, certos direitos. Mas quem se atreve a afirmar que o homem atual seja o &uacute;ltimo representante, o mais elevado da esp&eacute;cie <i>homo sapiens<\/i>? Ningu&eacute;m. Tanto fisicamente como espiritualmente, est&aacute; muito longe da perfei&ccedil;&atilde;o este aborto biol&oacute;gico cujo pensamento est&aacute; enfermo e que n&atilde;o criou um novo equil&iacute;brio org&acirc;nico.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">&Eacute; verdade que a humanidade produziu mais de uma vez gigantes do pensamento e da a&ccedil;&atilde;o que superam os seus contempor&acirc;neos, como picos numa cadeia de montanhas. O g&ecirc;nero humano tem perfeito direito de orgulhar-se dos seus Arist&oacute;teles, Shakespeare, Darwin, Beethoven, Goethe, Marx, Edison, Lenin. Mas por que esses homens s&atilde;o t&atilde;o raros? Antes de tudo porque sa&iacute;ram, quase sem exce&ccedil;&atilde;o, das classes m&eacute;dias e elevadas. Salvo raras exce&ccedil;&otilde;es, os g&ecirc;nios perdem-se afogados nas entranhas oprimidas do povo, antes de ter possibilidade de brotar. Mas tamb&eacute;m porque o processo de desenvolvimento e de educa&ccedil;&atilde;o do homem permanece, em sua ess&ecirc;ncia, como obra do acaso, n&atilde;o como resultado de elabora&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica, ou pela pr&aacute;tica, de maneira alheia &agrave; consci&ecirc;ncia e &agrave; vontade.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">A antropologia, a biologia, a fisiologia, a psicologia reuniram verdadeiras montanhas de materiais para erigir ante o homem, em toda sua amplitude, as tarefas de seu pr&oacute;prio aperfei&ccedil;oamento corporal e espiritual e de seu desenvolvimento ulterior. Pela m&atilde;o genial de Sigmund Freud, a psican&aacute;lise levantou a tampa do po&ccedil;o que, poeticamente, se chama a &ldquo;alma&rdquo; do homem. E o que revelou? Nosso pensamento consciente n&atilde;o constitui mais que uma pequena parte do trabalho das obscuras for&ccedil;as ps&iacute;quicas. S&aacute;bios descem aos fundos dos oceanos e fotografam a fauna misteriosa das &aacute;guas. Para que o pensamento humano des&ccedil;a at&eacute; as profundezas de seu pr&oacute;prio oceano ps&iacute;quico deve iluminar as for&ccedil;as motrizes, misteriosas, da alma e submet&ecirc;-las &agrave; raz&atilde;o e &agrave; vontade. Quando eliminar as for&ccedil;as an&aacute;rquicas de sua pr&oacute;pria sociedade, o homem integrar-se-&aacute; aos laborat&oacute;rios e aos cadinhos do qu&iacute;mico. Pela primeira vez, a humanidade considerar-se-&aacute; a si mesma como mat&eacute;ria-prima e, no melhor dos casos, como semifabrica&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e ps&iacute;quica. O socialismo significar&aacute; um salto do reino da necessidade ao reino da liberdade, no sentido de que o homem de hoje, esmagado pelo peso das contradi&ccedil;&otilde;es e sem harmonia, abrir&aacute; o caminho a uma nova esp&eacute;cie humana, mais feliz.<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<strong><span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\">Nota:<\/span><\/span><\/strong><\/div>\n<div style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><br \/>\n\t\t<\/span><\/span><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t<em>Czar<\/em>:<span style=\"font-style: normal;\"> uma adapta&ccedil;&atilde;o do latim Cesar<\/span><b>.<\/b><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><em><strong><span style=\"font-weight: normal;\">Cossaco<\/span><\/strong><span style=\"font-style: normal;\">:<\/span><\/em><span style=\"font-style: normal;\"> cavaleiro livre, servo liberto que levava uma vida semin&ocirc;made na regi&atilde;o sul da R&uacute;ssia na &eacute;poca imperial; em geral, era fiel &agrave; monarquia e tinha mentalidade reacion&aacute;ria; uma parte dos cossacos aderiu &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o Russa ou se manteve neutra, outra parte ficou com os brancos na guerra civil. Depois da guerra civil, as comunidades cossacas foram proibidas e integradas aos kolkhozes e sovkhozes.<\/span><\/span><\/span><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><em><strong><span style=\"font-weight: normal;\">Pogrom<\/span><\/strong><\/em><span style=\"font-style: normal;\">: literalmente &ldquo;devasta&ccedil;&atilde;o&rdquo;, a express&atilde;o mais comum &eacute; &ldquo;pogrom de judeus&rdquo;, megaopera&ccedil;&otilde;es de exterm&iacute;nio de comunidades judias que ocorriam frequentemente durante o per&iacute;odo imperial na R&uacute;ssia, com anu&ecirc;ncia do imperador.<\/span><\/span><\/span><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><em>N<strong><span style=\"font-weight: normal;\">agaika<\/span><\/strong><\/em><span style=\"font-style: normal;\">: chicote curto e semirr&iacute;gido, feito de couro, utilizado pelos cossacos para cavalgar e tamb&eacute;m para agredir as pessoas.<\/span><\/span><\/span><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><em>B<strong><span style=\"font-weight: normal;\">olchevique<\/span><\/strong><\/em><strong><span style=\"font-weight: normal; font-style: normal;\">: <\/span><\/strong><strong><span style=\"font-weight: normal; font-style: normal;\">maioria.<\/span><\/strong><\/span><\/span><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><em><strong><span style=\"font-weight: normal;\">Soviet<\/span><\/strong><span style=\"font-style: normal;\">: <\/span><\/em><span style=\"font-style: normal;\">conselho.<\/span><\/span><\/span><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><em><strong><span style=\"font-weight: normal;\">Kolkhoz<\/span><\/strong><span style=\"font-style: normal;\">:<\/span><\/em><span style=\"font-style: normal;\"> &ldquo;<\/span><em>Kollektivnoe khoziaistvo<\/em><span style=\"font-style: normal;\">&rdquo;, fazendas coletivas.<\/span><\/span><\/span><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><em><strong><span style=\"font-weight: normal;\">Gosplan<\/span><\/strong><span style=\"font-style: normal;\">:<\/span><\/em><span style=\"font-style: normal;\"> &ldquo;<\/span><em>gossudarstvenni plan<\/em><span style=\"font-style: normal;\">&rdquo;, plano estatal; era o minist&eacute;rio encarregado de elaborar e fazer cumprir os planos quinquenais.<\/span><\/span><\/span><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t<span style=\"font-size: 14px;\"><span style=\"font-family: georgia,serif;\"><em>P<strong><span style=\"font-weight: normal;\">iatiletka<\/span><\/strong><span style=\"font-style: normal;\">: <\/span><\/em><span style=\"font-style: normal;\">plano quinquenal.<\/span><\/span><\/span><\/div>\n<div align=\"left\">\n\t\t&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em homenagem ao 94&ordm; anivers&aacute;rio da Revolu&ccedil;&atilde;o Russa, publicamos a confer&ecirc;ncia pronunciada por Leon Trotsky em 27 de novembro de 1932, em Copenhague, Dinamarca. Este texto foi publicado na Revista Marxismo Vivo n&ordm; 16.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":5700,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1962","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/revolucao_russa.jpg","categories_names":["TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1962\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5700"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}