{"id":18368,"date":"2021-03-05T10:16:21","date_gmt":"2021-03-05T13:16:21","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/?p=18368"},"modified":"2021-03-05T10:16:21","modified_gmt":"2021-03-05T13:16:21","slug":"1871-1917-por-que-os-bolcheviques-estudaram-a-comuna-de-paris-para-fazer-a-revolucao-de-outubro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/05\/1871-1917-por-que-os-bolcheviques-estudaram-a-comuna-de-paris-para-fazer-a-revolucao-de-outubro\/","title":{"rendered":"1871-1917: Por que os bolcheviques estudaram a Comuna de Paris para fazer a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro?"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 1901, Lenin pediu a Plekhanov (pai do marxismo russo) um artigo sobre a Comuna para o jornal Iskra, na ocasi\u00e3o do trig\u00e9simo anivers\u00e1rio da heroica revolu\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios parisienses. Plekhanov contestou dizendo que n\u00e3o lhe parecia um tema interessante, uma vez que se tratava de \u201cum fato antigo\u201d. Lenin respondeu que, pelo contr\u00e1rio, era um tema de grande atualidade<sup>1<\/sup>.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Francesco Ricci<\/p>\n<p>Como veremos neste artigo, a convic\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia fundamental da Comuna acompanha toda a vida de Lenin, que chegou at\u00e9 a sustentar que a revolu\u00e7\u00e3o mundial teve dois atos: o Outubro de 1917 era o \u201csegundo ato\u201d, enquanto a Comuna de Paris de 1871 teria sido o \u201cprimeiro ato\u201d.<\/p>\n<p>Essa convic\u00e7\u00e3o foi compartilhada por outro grande dirigente da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, Leon Trotsky, que escreveu: \u201c<em>Sem o estudo (&#8230;) da Comuna de Paris, jamais ter\u00edamos levado a cabo a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro (&#8230;)<\/em>\u201d.<sup>2<\/sup><\/p>\n<p>As burguesias francesa e alem\u00e3 tamb\u00e9m eram conscientes da import\u00e2ncia que a Comuna poderia ter como um exemplo a ser imitado por futuras revolu\u00e7\u00f5es. E para evitar qualquer imita\u00e7\u00e3o foi que a burguesia francesa, ap\u00f3s ter cercado e derrotado a Comuna, continuou por semanas fuzilando e jogando em valas comuns milhares de pessoas e centenas de crian\u00e7as, inclusive as que n\u00e3o haviam tomado parte ativa na Comuna, mas pelo simples fato de viverem em Paris naqueles dias. E, com as mesmas motiva\u00e7\u00f5es, a burguesia prussiana, que havia lutado at\u00e9 poucas semanas antes contra a Fran\u00e7a na guerra franco-prussiana de 1870, ajudou a burguesia francesa a afogar em sangue a Comuna, libertando uma parte dos prisioneiros de guerra para que o governo de Adolphe Thiers pudesse jog\u00e1-los contra Paris.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a imprensa burguesa do mundo todo inventava lendas caluniosas contra os \u201ccommunards\u201d [como eram conhecidos os membros da Comuna, ndt], acusando-os de crimes e monstruosidades, e o regime czarista, para evitar o \u201ccont\u00e1gio\u201d da Comuna, proibiu a entrada na R\u00fassia dos exilados da Comuna, fez listas de depura\u00e7\u00e3o dos russos que participaram na Comuna, e proibiu todos os livros que falavam da Comuna. Mas essa atividade de censura e persegui\u00e7\u00e3o n\u00e3o obteve os resultados esperados: foram dezenas as obras de populistas russos dedicadas \u00e0 Comuna, entre elas uma de Petr Lavrov, figura destacada do populismo, e outra de um importante romancista revolucion\u00e1rio muito querido de Lenin, Nikolai\u00a0<em>Tchernichevski<\/em><sup> 3<\/sup>, que dedicou \u00e0 Comuna sua obra <em>As luzes do amanhecer<\/em>.<\/p>\n<p>O movimento populista fertilizou o solo do qual nasceu &#8211; na \u00faltima parte do s\u00e9culo XIX, ap\u00f3s um processo de cis\u00f5es e com o crescimento do marxismo &#8211; a socialdemocracia russa. Entre as coisas que os comunistas russos herdaram do populismo estava uma grande paix\u00e3o pelo estudo da Comuna.<\/p>\n<p><strong>Como Lenin estudou a Comuna de 1871<\/strong><\/p>\n<p>Em suas mem\u00f3rias, v\u00e1rios colaboradores de Lenin afirmaram que era muito frequente que ele citasse este ou aquele epis\u00f3dio da Comuna em suas conversas. E se fizermos uma busca na monumental obra de Lenin encontraremos uma grande quantidade de textos sobre a Comuna. Foram feitas v\u00e1rias antologias das obras de Lenin, em diversas l\u00ednguas, que incluem textos espec\u00edficos ou trechos dedicados \u00e0 Comuna. Mas nenhuma dessas cole\u00e7\u00f5es est\u00e1 completa, porque seria necess\u00e1rio incluir a maior parte dos textos do autor que fazem refer\u00eancia constante \u00e0 Comuna.<\/p>\n<p>Existem textos espec\u00edficos de Lenin sobre a Comuna: artigos, discursos ou notas para discursos em ocasi\u00e3o de algum anivers\u00e1rio da insurrei\u00e7\u00e3o de 18 de mar\u00e7o de 1871 (limitamo-nos a citar \u201cEm mem\u00f3ria da Comuna\u201d, de 1911, ou a importante introdu\u00e7\u00e3o de 1907 \u00e0 edi\u00e7\u00e3o russa das cartas que Marx escreveu ao doutor Kugelmann nos dias da Comuna, ou \u201cA guerra e a socialdemocracia russa\u201d, de 1914)<sup>4<\/sup>. Mas as refer\u00eancias a este tema tamb\u00e9m constituem o esqueleto de quase todos os textos mais importantes de Lenin e particularmente os que serviram para preparar a Revolu\u00e7\u00e3o de 1917. Considerando que este artigo est\u00e1 dedicado a reconstruir a liga\u00e7\u00e3o entre a Revolu\u00e7\u00e3o de Paris de 1871 e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, utilizamos os textos de 1917 e do per\u00edodo seguinte.<\/p>\n<p>Encontramos cita\u00e7\u00f5es da Comuna nas \u201cCartas de Longe\u201d, que Lenin escreve da Su\u00ed\u00e7a ao Comit\u00ea Central dos bolcheviques, em mar\u00e7o de 1917, para tentar modificar a linha equivocada que a dire\u00e7\u00e3o russa do partido estava tomando. Dessas cartas, apenas a primeira foi publicada (com cortes) no <em>Pravda<\/em> dirigido por Kamenev e Stalin; as outras foram publicadas somente em 1924 e, em vers\u00e3o integral, em 1949. A terceira dessas cinco cartas est\u00e1 centrada no exemplo da Comuna e sobre a an\u00e1lise que Marx e Engels fizeram dela, que \u00e9 totalmente diferente da an\u00e1lise feita pelos oportunistas. Marx e Engels se centraram no fato de que a Comuna tinha \u201cquebrado o Estado\u201d burgu\u00eas para substituir a ditadura da burguesia pela ditadura do proletariado. A conclus\u00e3o de Lenin \u00e9 que \u201c<em>Seguindo o caminho tra\u00e7ado pela experi\u00eancia da Comuna de Paris de 1871 (&#8230;) o proletariado deve organizar e armar <\/em>todos<em> os elementos pobres e explorados da popula\u00e7\u00e3o, a fim de que <\/em>eles mesmos<em> tomem diretamente em suas m\u00e3os os organismos do poder do Estado e <\/em>formem eles mesmos<em> as institui\u00e7\u00f5es desse poder<\/em>\u201d.<sup>5<\/sup><\/p>\n<p>O tema da Comuna retorna no artigo \u201cSobre a dualidade de poderes\u201d<sup>6<\/sup>, publicado no <em>Pravda<\/em> em 9 de abril de 1917, nas \u201cCartas sobre t\u00e1tica\u201d (21-26 de abril de 1917)<sup>7<\/sup> e, principalmente, a Comuna \u00e9 a chave de leitura das famosas \u201cTeses de Abril\u201d (1917), com as quais Lenin \u201crearma\u201d o partido propondo uma mudan\u00e7a completa na pol\u00edtica equivocada da dire\u00e7\u00e3o bolchevique antes de sua chegada \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Finl\u00e2ndia. Nessas breves teses, a Comuna \u00e9 o ponto de refer\u00eancia: na tese 5, Lenin cita a Comuna para enfrentar o tema da dissolu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as repressivas do Estado burgu\u00eas (pol\u00edcia e ex\u00e9rcito) e para indicar a necessidade de que os funcion\u00e1rios p\u00fablicos recebam um sal\u00e1rio igual \u00e0quele de um oper\u00e1rio; na tese 7, retomando as cr\u00edticas que Marx tinha feito sobre os erros da Comuna, Lenin assinala a necessidade de que se proceda \u00e0 \u201c<em>fus\u00e3o imediata de todos os bancos do pa\u00eds em um \u00fanico banco nacional na R\u00fassia, sob o controle dos soviets<\/em>\u201d (os communards hesitaram em realizar esta tarefa). Na tese 9, ele indica o objetivo geral da revolu\u00e7\u00e3o: a constru\u00e7\u00e3o de um Estado novo, um Estado-Comuna, \u201c<em>isto \u00e9, um Estado do qual a Comuna de Paris forneceu o primeiro modelo<\/em>\u201d<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p>Na base de grande parte dos principais textos de Lenin de 1917 est\u00e1 o \u201cCaderno Azul\u201d (intitulado <em>O marxismo e o Estado<\/em>)<sup>9<\/sup>, um resumo cheio de cita\u00e7\u00f5es de Marx e Engels sobre o Estado. Esse caderno, que Lenin come\u00e7a a compilar ainda na Su\u00ed\u00e7a, \u00e9 a base de sua obra mais importante: <em>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>. No centro de ambos est\u00e3o os textos sobre a Comuna. Particularmente, todo o terceiro cap\u00edtulo de <em>O<\/em> <em>Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 dedicado \u00e0 Comuna e \u00e0quilo que Lenin, como Marx e Engels, considera seu principal ensinamento: \u201c<em>A revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve consistir em que a nova classe mande e governe por meio da <\/em>velha<em> m\u00e1quina do Estado, mas em que <\/em>destrua<em> esta m\u00e1quina e mande e governe por meio de outra <\/em>nova<em>: Kautsky dissimula (&#8230;) essa ideia <\/em>fundamental<em> do marxismo<\/em>\u201d<em>.<\/em><sup>10<\/sup><\/p>\n<p>Lenin cita Kautsky porque \u00e9 \u00e0 sua caneta que devemos as maiores revis\u00f5es do marxismo feitas em nome de uma suposta ortodoxia, mas podemos acrescentar que todo o reformismo posterior \u201cfez desaparecer\u201d a grande li\u00e7\u00e3o da Comuna. O exemplo mais recente \u00e9 o apoio dado por toda a esquerda reformista e centrista do mundo ao governo do Syriza na Gr\u00e9cia, fazendo desaparecer a diferen\u00e7a fundamental que h\u00e1 entre chegar ao governo no capitalismo, em alian\u00e7a com a burguesia, e chegar ao poder por uma revolu\u00e7\u00e3o como foi aquela dos oper\u00e1rios parisienses.<\/p>\n<p><em>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> foi publicado somente ap\u00f3s a tomada do poder em Outubro de 1917, mas sua elabora\u00e7\u00e3o foi anterior e os temas que comp\u00f5em o livro foram a base de toda a a\u00e7\u00e3o de Lenin e dos bolcheviques naquele ano crucial.<\/p>\n<p>Como Trotsky escreve em sua <em>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>: <em>\u201cDurante os primeiros meses de sua vida clandestina, Lenin escreveu um livro, <\/em>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<em>, cujo material principal foi reunido no ex\u00edlio (&#8230;) para ele, a teoria era de fato um guia para a a\u00e7\u00e3o. (&#8230;) Sua tarefa, diz, era restabelecer a verdadeira &#8216;doutrina marxista sobre o Estado&#8217;. Com sua meticulosa sele\u00e7\u00e3o de cita\u00e7\u00f5es (&#8230;), o livro pode parecer pedante &#8211; aos verdadeiros pedantes, incapazes de sentir sob a an\u00e1lise dos textos a poderosa pulsa\u00e7\u00e3o do pensamento e da vontade. (&#8230;) Mas este trabalho sobre o Estado tem sua imensa import\u00e2ncia, acima de tudo, pelo fato de ser a introdu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da maior revolu\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria. Este \u2018comentarista\u2019 de Marx estava preparando seu partido para a conquista revolucion\u00e1ria de um sexto da superf\u00edcie habit\u00e1vel da Terra<\/em>\u201d.<sup>11<\/sup><\/p>\n<p>Os mesmos temas, e a refer\u00eancia constante \u00e0 Comuna, tornam-se tamb\u00e9m a principal pol\u00eamica te\u00f3rica escrita por Lenin ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o para ajustar contas com aquele que durante um tempo foi seu mestre: Karl Kautsky. Trata-se de <em>A Revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e o renegado Kautsky<\/em><sup>12<\/sup>. Mas a este livro e ao \u201canti-Kautsky\u201d, escrito pouco depois por Trotsky, <em>Terrorismo e comunismo<\/em><sup>13<\/sup>, voltaremos em um pr\u00f3ximo artigo.<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos esta breve resenha dos textos de Lenin sobre a Comuna recordando dois textos posteriores \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o: o \u201cInforme sobre a democracia burguesa\u201d<sup>14<\/sup>, preparado por Lenin para o Primeiro Congresso da Terceira Internacional (1919), e o \u201cProjeto de programa do PCR\u201d, para o VIII Congresso dos Bolcheviques (1919)<sup>15<\/sup>. Ambos os textos s\u00e3o importantes, nos quais se desenvolve a teoria marxista do Estado, e est\u00e3o cheios de refer\u00eancias \u00e0 Comuna de Paris e demonstram que, para Lenin, a Comuna foi n\u00e3o s\u00f3 uma refer\u00eancia para armar os revolucion\u00e1rios antes da revolu\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para o per\u00edodo seguinte \u00e0 conquista do poder: a constru\u00e7\u00e3o do Estado oper\u00e1rio, a ditadura do proletariado, na qual &#8211; sobre o exemplo da Comuna &#8211; as novas institui\u00e7\u00f5es sovi\u00e9ticas n\u00e3o estivessem baseadas no modelo do parlamento burgu\u00eas, mas sim que reunissem em um \u00fanico poder oper\u00e1rio os tr\u00eas poderes formalmente separados pela burguesia (os poderes executivo, legislativo e judici\u00e1rio).<\/p>\n<p>Os bolcheviques foram capazes de chegar a essas conclus\u00f5es estudando a experi\u00eancia dos oper\u00e1rios parisienses, os quais, no entanto, n\u00e3o tendo experi\u00eancias anteriores sobre as quais se apoiar, tiveram que aprender sobre a necessidade da independ\u00eancia de classe com sua experi\u00eancia direta, pagando um alto pre\u00e7o em sangue.<\/p>\n<p>Os oper\u00e1rios parisienses contribu\u00edram para a constru\u00e7\u00e3o da Primeira Rep\u00fablica (com a Grande Revolu\u00e7\u00e3o de 1789-1794), mas foram recompensados pela burguesia com a Lei Le Chapelier, que proibia as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias. Os oper\u00e1rios parisienses tiveram que combater, em fevereiro de 1848, pela Segunda Rep\u00fablica, mas a burguesia os recompensou, em junho daquele ano, jogando contra eles o l\u00fampem proletariado, destruindo-os aos milhares. E, ainda, em 1870, ap\u00f3s terem lutado para Napole\u00e3o III em uma guerra que n\u00e3o era deles, os oper\u00e1rios deixaram o poder \u00e0 burguesia que tinha edificado a Terceira Rep\u00fablica, cujo primeiro ato foi fazer com que eles pagassem pelas d\u00edvidas da guerra com a Pr\u00fassia. Foi como resultado dessas experi\u00eancias que os oper\u00e1rios compreenderam a necessidade de n\u00e3o acreditar mais nas rep\u00fablicas burguesas e, com a insurrei\u00e7\u00e3o de 18 de mar\u00e7o de 1871, i\u00e7aram a bandeira vermelha sobre o Hotel de Ville e fundaram a primeira rep\u00fablica baseada no poder armado dos oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas a Comuna n\u00e3o foi somente uma escola para os revolucion\u00e1rios de todo o mundo: tamb\u00e9m constituiu fortemente, como Lenin escreveu, \u201c<em>em todos os lugares um impulso<\/em> <em>\u00e0 propaganda socialista revolucion\u00e1ria<\/em>\u201d<sup>16<\/sup> e transformou Marx em uma celebridade (a imprensa burguesa o retratou como o inspirador da Comuna). Efetivamente, foi somente ap\u00f3s a Comuna que as obras de Marx come\u00e7aram a ter uma grande difus\u00e3o. Mas, acima de tudo, a Comuna, nas palavras de Engels, permitiu \u201cquebrar essa colabora\u00e7\u00e3o ing\u00eanua de todas as fra\u00e7\u00f5es\u201d, isto \u00e9, superar a Primeira Internacional e deixar espa\u00e7o para uma nova Internacional \u201cclaramente comunista [que] proclamar\u00e1 os princ\u00edpios que ser\u00e3o os nossos\u201d (isto \u00e9, os princ\u00edpios do marxismo).<sup>17<\/sup><\/p>\n<p><strong>A \u201crevis\u00e3o\u201d de Trotsky sobre a Comuna<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m para o outro grande dirigente da Revolu\u00e7\u00e3o Russa a refer\u00eancia \u00e0 Comuna foi um elemento constante durante toda a vida. J\u00e1 em janeiro de 1906, no c\u00e1rcere depois da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1905, Trotsky escreve um texto pouco conhecido, \u201c35 anos depois: 1871-1906\u201d, que \u00e9 bem mais que uma celebra\u00e7\u00e3o do anivers\u00e1rio da Comuna. Como sabemos, foi naqueles anos que Trotsky elaborou a teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente, e a Comuna \u00e9 estudada por ele como um exemplo da \u201clei do desenvolvimento desigual e combinado\u201d e da nega\u00e7\u00e3o de cada an\u00e1lise determinista vulgar que, \u201csimplificando e distorcendo\u201d &#8211; citamos Trotsky &#8211; a concep\u00e7\u00e3o materialista-dial\u00e9tica de Marx, v\u00ea o socialismo como \u201cautomaticamente dependente\u201d do grau de desenvolvimento econ\u00f4mico de um pa\u00eds. E conclui: \u201c<em>Se a Comuna entrou em colapso, n\u00e3o foi devido ao desenvolvimento insuficiente das for\u00e7as produtivas, e sim como resultado de uma s\u00e9rie de fatores de natureza pol\u00edtica: o cerco de Paris e seu isolamento das prov\u00edncias, as circunst\u00e2ncias internacionais extremamente desfavor\u00e1veis, os erros dos \u2018communards\u2019 etc.<\/em>\u201d.<sup>18<\/sup><\/p>\n<p>Assim, para Lenin e tamb\u00e9m para Trotsky, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel indicar todas as refer\u00eancias, diretas ou indiretas, \u00e0 Comuna, porque ela \u00e9 para ambos a estrela guia para olhar e achar a orienta\u00e7\u00e3o em cada momento. Citamos apenas alguns dos textos mais importantes nos quais o tema da Comuna \u00e9 aprofundado.<\/p>\n<p>Justamente durante os acontecimentos de 1917, em mar\u00e7o, Trotsky escreve \u201cA Comuna de Paris\u201d, um artigo para <em>Novy Mir<\/em>, um seman\u00e1rio em russo publicado em Nova York. Fazendo um paralelo entre 1871 e o desenvolvimento revolucion\u00e1rio na R\u00fassia, conclui: \u201c<em>A bandeira da Comuna \u00e9 a bandeira da Rep\u00fablica mundial do trabalho<\/em>\u201d.<sup>19<\/sup><\/p>\n<p>Em <em>Terrorismo e Comunismo<\/em> (sobre o qual, como j\u00e1 dissemos, falaremos em um pr\u00f3ximo artigo dedicado aos dois \u201canti-Kautsky\u201d, o de Lenin e o de Trotsky), toda a pol\u00eamica \u00e9 feita propondo uma confronta\u00e7\u00e3o entre a Comuna de 1871 e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, e particularmente os cap\u00edtulos V e VI desse texto s\u00e3o integralmente dedicados \u00e0 Comuna para demonstrar &#8211; contra a interpreta\u00e7\u00e3o de Kautsky &#8211; que o objetivo da Comuna n\u00e3o foi a democracia formal, mas sim a democracia real, de classe.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 no texto \u201cAs li\u00e7\u00f5es da Comuna\u201d, escrito em 1921 como pref\u00e1cio a um livro de Tales, que o estudo se aprofunda e Trotsky, tal como j\u00e1 tinham feito Marx, Engels e Lenin, n\u00e3o se limita a enaltecer a Comuna, mas a submete a uma cr\u00edtica intensa, assinalando muitos dos seus erros. Fazendo uma compara\u00e7\u00e3o com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e com o papel desenvolvido pelos mencheviques e pelos socialistas-revolucion\u00e1rios na constitui\u00e7\u00e3o de governos burgueses ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, escreve: \u201c<em>A Comuna chegou demasiado tarde. Teve todas as possibilidades para tomar o poder em 4 de setembro, o que teria permitido ao proletariado de Paris colocar-se \u00e0 frente de todos os trabalhadores do pa\u00eds em sua luta contra as for\u00e7as do passado, tanto contra Bismarck como contra Thiers. Mas o poder caiu nas m\u00e3os dos charlat\u00f5es democr\u00e1ticos, os deputados de Paris<\/em>\u201d.<sup>20<\/sup><\/p>\n<p>E ainda, na espl\u00eandida pol\u00eamica <em>A moral deles e a nossa<\/em> (e na posterior resposta a Victor Serge, \u201cMoralistas e sicofantas contra o marxismo\u201d, escrita quando Serge retorna \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es an\u00e1rquicas origin\u00e1rias e critica \u201co amoralismo\u201d dos bolcheviques)<sup>21<\/sup>, Trotsky reivindica a Comuna para demonstrar a legitimidade (do ponto de vista da moral revolucion\u00e1ria) do emprego do \u201cterror vermelho\u201d por parte de um Estado oper\u00e1rio contra os inimigos que tentam derrub\u00e1-lo. H\u00e1 aqui a refer\u00eancia ao \u201cdecreto sobre os ref\u00e9ns\u201d, ao fuzilamento de alguns prisioneiros e a outras medidas empregadas pelo juven\u00edssimo (25 anos) prefeito da Comuna, Raoul Rigault.<\/p>\n<p>Derrubando o senso comum de \u201cmoralistas\u201d como Serge, Trotsky lembra que um dos erros que Engels imputou \u00e0 Comuna n\u00e3o foi o emprego do terror, mas, pelo contr\u00e1rio, a \u201cexcessiva cordialidade\u201d com seus inimigos: erro que os bolcheviques tentaram n\u00e3o repetir.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na magistral <em>A Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>, a refer\u00eancia \u00e0 Comuna e a compara\u00e7\u00e3o com Outubro &#8211; para indicar semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as &#8211; \u00e9 frequente. Trotsky lembra a pol\u00eamica ao final de agosto de 1917 de Lenin contra o dirigente bolchevique Zinoviev (que, como se sabe, era contra organizar a insurrei\u00e7\u00e3o naquelas semanas). Zinoviev, em um artigo publicado no <em>Pravda<\/em> em 30 de agosto, intitulado \u201cO que n\u00e3o precisamos fazer\u201d, indica a Comuna como exemplo negativo. Lenin responde, indiretamente, com um artigo publicado em 3 de setembro no qual afirma que quem se refere \u00e0 Comuna apresentando-a como o exemplo desastroso de uma insurrei\u00e7\u00e3o prematura e pretende (como Zinoviev) dizer que seria prematura a insurrei\u00e7\u00e3o na R\u00fassia faz uma \u201c<em>alus\u00e3o \u00e0 Comuna (&#8230;) muito superficial e at\u00e9 mesmo tola. Porque, antes de tudo, algo os bolcheviques aprenderam de1871: n\u00e3o deixariam de apoderar-se dos bancos, n\u00e3o se absteriam de marchar contra Versalhes; se tivessem agido assim, ent\u00e3o a pr\u00f3pria Comuna poderia ter vencido<\/em>\u201d.<sup>22<\/sup><\/p>\n<p>Mas o estudo de Trotsky vai mais longe, e &#8211; como Nahuel Moreno assinalou claramente em uma pol\u00eamica com Ernest Mandel &#8211; ele chegou \u201c<em>a fazer uma revis\u00e3o completa da concep\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica da Comuna<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Vamos ler o que escreve Moreno: \u201c<em>Na d\u00e9cada de 1930, polemizando com a tend\u00eancia dos trotskistas franceses que editava o jornal <\/em>La Commune<em>, ele negou pela primeira vez a Comuna [isto \u00e9, a Comuna composta pelos noventa representantes eleitos nas elei\u00e7\u00f5es parisienses realizadas ap\u00f3s a insurrei\u00e7\u00e3o, ndt] como ditadura do proletariado (&#8230;). Trotsky assinala que a ditadura do proletariado estava em outra organiza\u00e7\u00e3o, na Guarda Nacional, no \u00f3rg\u00e3o de luta (&#8230;). A ditadura oper\u00e1ria foi a organiza\u00e7\u00e3o daqueles que lutavam e n\u00e3o a de todos os trabalhadores de Paris<\/em>\u201d<sup>23<\/sup> [que tinham eleito a Comuna com o \u201csufr\u00e1gio universal\u201d, j\u00e1 que, de fato, nessas elei\u00e7\u00f5es participaram quase somente trabalhadores, dado que os burgueses tinham fugido de Paris, ndt].<\/p>\n<p>Para Trotsky &#8211; afirma Moreno -, o equivalente embrion\u00e1rio em 1871 do soviet de 1917 foi a Guarda Nacional<sup>24<\/sup>, n\u00e3o a assembleia eletiva municipal denominada Comuna, cuja elei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi considerada por Marx \u201cuma perda de tempo\u201d no momento em que era necess\u00e1rio, pelo contr\u00e1rio, atacar o governo burgu\u00eas que se protegeu em Versalhes. Trotsky volta ao tema em um texto de 1933, \u201c<em>A natureza de classe do Estado sovi\u00e9tico\u201d, e escreve: \u201cSe Marx e Engels consideraram a Comuna de Paris como \u2018ditadura do proletariado\u2019 foi somente pelas possibilidades que ela implicava. Mas, em si mesma, a Comuna n\u00e3o era ainda a ditadura do proletariado<\/em>\u201d.<sup>25<\/sup><\/p>\n<p>Por\u00e9m, por que a Comuna foi uma ditadura do proletariado apenas em potencial? Porque (e este \u00e9 o sentido do racioc\u00ednio de Trotsky retomado por Moreno) tamb\u00e9m o \u201csoviet\u201d era apenas embrion\u00e1rio e faltava\u00a0um partido marxista revolucion\u00e1rio que o dirigisse.<\/p>\n<p><strong>A principal diferen\u00e7a entre 1871 e 1917: o partido<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dito habitualmente que a diferen\u00e7a principal entre a Comuna de Paris e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa \u00e9 que em 1871 n\u00e3o havia o partido que tornasse poss\u00edvel a vit\u00f3ria como em 1917.<\/p>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira, embora n\u00e3o seja verdade, diferentemente de quanto Lenin e Trotsky acreditaram nisso baseando-se nos conhecimentos historiogr\u00e1ficos de seu tempo, que aquele partido faltasse <em>completamente<\/em>. Como demonstramos em um texto<sup>26<\/sup> mais profundo sobre a Comuna (ao qual nos permitimos fazer refer\u00eancia somente porque n\u00e3o existem outros estudos mais recentes sobre este tema), na verdade existiu na Comuna um embri\u00e3o de partido revolucion\u00e1rio: a Delega\u00e7\u00e3o dos Vinte <em>Arrondissements <\/em>(ou seja, os bairros em que foi e \u00e9 dividida Paris).<\/p>\n<p>Frequentemente, seguindo uma lenda inventada pelo stalinismo, acredita-se que a concep\u00e7\u00e3o de \u201cpartido de vanguarda\u201d \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o de Lenin, que na verdade s\u00f3 aperfei\u00e7oou e efetivou um conceito que j\u00e1 estava bem presente na obra e na a\u00e7\u00e3o de Marx.<\/p>\n<p>Marx e Engels constru\u00edram &#8211; ou tentaram construir &#8211; partidos programaticamente delimitados durante toda sua vida de militantes pol\u00edticos, do Comit\u00ea de Bruxelas (j\u00e1 em 1846) \u00e0 Liga dos Comunistas, da Primeira Internacional \u00e0 socialdemocracia alem\u00e3, a Segunda Internacional (esta \u00faltima apenas Engels, j\u00e1 que Marx tinha morrido antes). Por isso, Marx era consciente de que a primeira necessidade dos oper\u00e1rios de Paris, diante da revolu\u00e7\u00e3o que se avizinhava, era consolidar seu partido independente da burguesia. No Segundo Manifesto que escreve para a Internacional (9 de setembro de1870), aconselha: \u201c<em>Que [os oper\u00e1rios franceses, ndr] aproveitem serena e determinadamente as oportunidades que lhes brinda a liberdade republicana para trabalhar na organiza\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria classe<\/em>\u201d.<sup>27<\/sup><\/p>\n<p>Infelizmente, como se sabe, n\u00e3o foram os oper\u00e1rios que escolheram a hora de intervir, mas sim seus advers\u00e1rios burgueses, que desencadearam um ataque para tentar desarmar a Guarda Nacional. Foi em resposta a esse ataque que os oper\u00e1rios se revoltaram e tomaram o poder em 18 de mar\u00e7o de 1871.<\/p>\n<p>Lenin e Trotsky, em suas an\u00e1lises sobre a Comuna, retomam esse tema, corretamente. Mas ambos afirmam que na Comuna faltou <em>completamente<\/em> uma dire\u00e7\u00e3o. E nisto se equivocam.<\/p>\n<p>Lenin afirma com insist\u00eancia em todos os textos que dedica \u00e0 Comuna que faltou completamente uma dire\u00e7\u00e3o, inclusive recordando que a se\u00e7\u00e3o da Internacional na Fran\u00e7a foi muito ativa a partir de 1864. Ele afirma categoricamente: \u201c<em>A Comuna surgiu de <\/em>forma espont\u00e2nea, ningu\u00e9m<em> a preparou de um modo consciente e sistem\u00e1tico (&#8230;). <\/em>N\u00e3o havia uma organiza\u00e7\u00e3o<em> s\u00e9ria do proletariado (&#8230;)<\/em>\u201d.<sup>28<\/sup> (grifos nossos)<\/p>\n<p>De forma ainda mais clara, no informe de 8 de mar\u00e7o de 1918 ao VII Congresso bolchevique, ele diz: \u201c<em>Os criadores da Comuna n\u00e3o a compreendiam, criavam-na com a genial intui\u00e7\u00e3o das massas despertas, e nem uma \u00fanica fra\u00e7\u00e3o dos socialistas franceses tinha no\u00e7\u00e3o do que fazia<\/em>\u201d.<sup>29<\/sup><\/p>\n<p>Trotsky tem a mesma opini\u00e3o e, efetivamente, escreve: \u201c<em>O proletariado parisiense n\u00e3o tinha nem um partido nem l\u00edderes aos quais tivesse estado estreitamente vinculado por lutas anteriores<\/em>\u201d.<sup>30<\/sup><\/p>\n<p>N\u00e3o se pode esperar uma an\u00e1lise mais aprofundada de Lenin e de Trotsky porque eles se basearam nos conhecimentos que estavam dispon\u00edveis na \u00e9poca em que escreveram: Lenin, em particular, sobre o livro de Lissagaray<sup>31<\/sup>, uma boa cr\u00f4nica, mas politicamente muito superficial, escrita por um jornalista e militante revolucion\u00e1rio n\u00e3o marxista que participou da Comuna; e Trotsky, sobre o livro de Tales<sup>32<\/sup> que, por sua vez, baseava-se no de Lissagaray.<\/p>\n<p>Somente com alguns estudos feitos de 1960 em diante se comprovou que: 1) os membros da Internacional n\u00e3o eram minoria; na realidade, estiveram em maioria na Comuna eleita. E, por outro lado, \u00e9 verdade que estiveram em minoria as posi\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias da Internacional, isto \u00e9, as de Marx. 2) Houve pouca espontaneidade na Comuna: era, de fato, um partido em constru\u00e7\u00e3o, a Delega\u00e7\u00e3o dos Vinte <em>Arrondissements<\/em>, nascida em setembro de 1870, dirigida pelas figuras mais pr\u00f3ximas a Marx (como Varlin) e (ao contr\u00e1rio do que escreve Lissagaray) hegemonizada pelos dirigentes da AIT [Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores, isto \u00e9, a Primeira Internacional] (n\u00e3o por acaso se reuniam na Rua de Corderie, onde estava a sede da AIT), consolidada em um processo de cis\u00e3o dos membros mais moderados.<\/p>\n<p>Trata-se de um partido verdadeiro e pr\u00f3prio, com congressos, organismos, cotas de afilia\u00e7\u00e3o, registro s\u00f3 para militantes, um Estatuto (artigo 1: \u201cA Delega\u00e7\u00e3o tem como objetivo centralizar as for\u00e7as democr\u00e1tico-socialistas de Paris\u201d.), um programa para derrotar revolucionariamente a democracia burguesa (a organiza\u00e7\u00e3o \u201cluta para obter por todos os meios poss\u00edveis a elimina\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios da burguesia, seu desaparecimento como casta dominante e pela vit\u00f3ria pol\u00edtica dos trabalhadores. Em suma, a igualdade social\u201d), um v\u00ednculo expl\u00edcito (a partir do Estatuto) com a AIT.<\/p>\n<p>Acima de tudo (e aqui est\u00e1 o erro de Lissagaray, isto \u00e9, da fonte de Lenin e de Trotsky), sabemos hoje (tendo encontrado as atas) que a Delega\u00e7\u00e3o n\u00e3o se dissolveu em fevereiro, mas continuou a se reunir at\u00e9 a queda de Paris e cumpriu um papel de destaque durante os dois meses da Comuna.<sup>33<\/sup><\/p>\n<p>O que queremos dizer? Que Lenin e Trotsky tiveram raz\u00e3o no essencial (a Comuna foi derrotada porque n\u00e3o contou com aquele partido que os comunistas russos conseguiram construir); mas que subvalorizaram, por falta de informa\u00e7\u00e3o, o grau de organiza\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio que j\u00e1 tinha sido alcan\u00e7ado pelos oper\u00e1rios parisienses. Sem aquele embri\u00e3o de partido, provavelmente tamb\u00e9m n\u00e3o teria existido o embri\u00e3o de soviet e aquele embri\u00e3o de ditadura do proletariado de que falamos. Se no lugar de um embri\u00e3o tivesse existido um partido marxista desenvolvido, talvez a Comuna n\u00e3o tivesse sido derrotada.<\/p>\n<p><strong>Um trabalho por terminar<\/strong><\/p>\n<p>Muitas vezes, mesmo em livros e artigos que expressam posi\u00e7\u00f5es corretas, apresenta-se uma vis\u00e3o da Comuna como \u201cuma derrota\u201d. Certamente, em termos imediatos e do ponto de vista nacional, a Comuna foi uma derrota. Mas, do ponto de vista geral e do movimento oper\u00e1rio internacional, foi e ficou como uma das maiores vit\u00f3rias revolucion\u00e1rias de todos os tempos. Permitiu ao marxismo vencer sua batalha na Primeira Internacional contra os anarquistas e conhecer uma nova propaga\u00e7\u00e3o mundial, com a constru\u00e7\u00e3o de partidos em todo o mundo. Tamb\u00e9m o movimento revolucion\u00e1rio russo \u00e9 filho da Comuna. A Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 tem uma profunda d\u00edvida com os oper\u00e1rios parisienses de 1871, da qual Lenin e Trotsky eram conscientes. Marx escreveu nas linhas finais de <em>A Guerra civil na Fran\u00e7a<\/em>: \u201c<em>A Paris dos oper\u00e1rios, com sua Comuna, ser\u00e1 eternamente exaltada como o arauto glorioso de uma nova sociedade. (&#8230;) Quanto aos seus exterminadores, a hist\u00f3ria j\u00e1 os cravou para sempre num pelourinho, do qual todas as preces de seus cl\u00e9rigos n\u00e3o conseguir\u00e3o redimi-los<\/em>\u201d.<sup>34<\/sup><\/p>\n<p>A profecia de Marx realizou-se em Outubro de 1917, quando os oper\u00e1rios russos, conduzidos pelos bolcheviques, iniciaram a constru\u00e7\u00e3o daquela nova sociedade que os oper\u00e1rios franceses tinham anunciado. Aos oper\u00e1rios revolucion\u00e1rios de todo o mundo cabe hoje a tarefa de concluir esse trabalho.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>(1) Citado por Georges Haupt, <em>A Internacional socialista da Comuna a Lenin<\/em> (pp. 61-62 da edi\u00e7\u00e3o italiana, Einaudi,1978).<\/p>\n<p>(2) Leon Trotsky<em>, Li\u00e7\u00f5es de Outubro<\/em> (1924). www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/ceip\/permanente\/leccionesdeoctubre.htm#_ftn1<\/p>\n<p>(3) Nikolaj Gavrilovi \u010cerny\u0161evskij (1828-1889), \u00e9 autor do romance <em>Que fazer?<\/em> escrito no c\u00e1rcere, em 1863, onde foi preso por suas posi\u00e7\u00f5es anticzaristas. Lenin retoma o t\u00edtulo desta obra para seu c\u00e9lebre livro de 1902 sobre o tema do partido.<\/p>\n<p>(4) Os textos de Lenin s\u00e3o citados das <em>Obras completas <\/em>em espanhol (Editorial Progreso, 1985): \u201c\u00c0 mem\u00f3ria da Comuna\u201d (1911) (livro 20, p. 229 e ss.); \u201cPref\u00e1cio \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o ao russo das cartas de Marx a Kugelmann\u201d (1907) (livro 14, p. 398 e ss.); \u201cA guerra e a socialdemocracia da R\u00fassia\u201d (1914) (livro 26, p. 13 e ss.).<\/p>\n<p>(5) V.I. Lenin, \u201cCartas de longe\u201d (1917) (<em>Obras completas<\/em>, livro 31, p. 11 e ss.).<\/p>\n<p>(6) V.I. Lenin, \u201cA dualidade de poderes\u201d (1917) (<em>Obras completas<\/em>, livro 31, p. 153 e ss.).<\/p>\n<p>(7) V.I. Lenin, \u201cCartas sobre t\u00e1tica\u201d (1917) (<em>Obras completas<\/em>, livro 31, p. 138 e ss.).<\/p>\n<p>(8) V.I. Lenin, \u201cTeses de Abril\u201d (1917) (<em>Obras completas<\/em>, livro 31, p. 157 e ss.).<\/p>\n<p>(9) V.I. Lenin, \u201cO marxismo e o Estado\u201d (1917), conhecido tamb\u00e9m como \u201cCaderno Azul\u201d, escrito entre 1916 e os primeiros meses de 1917 (edi\u00e7\u00e3o italiana: Editori Riuniti, 1976).<\/p>\n<p>(10) V.I. Lenin, <em>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> (1918) (<em>Obras completas<\/em>, livro 33, p. 1 e ss.).<\/p>\n<p>(11) Leon Trotsky, <em>A Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em> (1930) (ed. Zero, 1973, trad. de A. Nin, tomo 2, p. 390).<\/p>\n<p>(12) V.I. Lenin, <em>A revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e o renegado Kautsky<\/em> (1918) (<em>Obras completas<\/em>, livro 37, p. 243 e ss.).<\/p>\n<p>(13) Leon Trotsky, <em>Terrorismo e comunismo<\/em> (1921) (Edi\u00e7\u00e3o Il Comunista em espanhol, 2015).<\/p>\n<p>(14) V.I. Lenin, \u201cTeses e informe sobre a democracia burguesa e a ditadura do proletariado\u201d (1919) (<em>Obras completas<\/em>, livro 37, p. 509 e ss.).<\/p>\n<p>(15) V.I. Lenin, \u201cProjeto de programa do PCR (b)\u201d, VIII Congresso (1919) (<em>Obras completas<\/em>, livro 38, p. 89 e ss.).<\/p>\n<p>(16) V.I. Lenin, \u201c\u00c0 mem\u00f3ria da Comuna\u201d (1911) (<em>Obras completas<\/em>, livro 20, p. 229 e ss.).<\/p>\n<p>(17) Friedrich Engels, <em>Carta a Sorge,<\/em> 12 de setembro de 1874 (Marx-Engels<em>, Obras Escolhidas<\/em>).<\/p>\n<p>(18) Leon Trotsky, \u201c35 anos depois: 1871-1906\u201d (em <em>Leon Trotsky on Paris Commune<\/em>, Pathfinder Press, 1970, p. 10 e ss.), nossa tradu\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas ao italiano.<\/p>\n<p>(19) Leon Trotsky, \u201cA Comuna de Paris\u201d, mar\u00e7o de 1917 (em <em>Leon Trotsky on Paris Commune<\/em>, Pathfinder Press, 1970, p. 26 e ss.), nossa tradu\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas ao italiano.<\/p>\n<p>(20) Leon Trotsky, \u201cAs li\u00e7\u00f5es da Comuna\u201d (1921). www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1920s\/1921_0204_1.htm<\/p>\n<p>(21) Leon Trotsky, <em>A moral deles e a nossa<\/em> (1938-1939) (Editorial Fontamara, 1978).<\/p>\n<p>(22) Leon Trotsky, <em>A Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em> (1930) (ed. Zero, 1973, trad. de A. Nin, tomo 2, p. 406).<\/p>\n<p>(23) Nahuel Moreno, <em>A ditadura revolucion\u00e1ria do proletariado<\/em> (1979) (Marxismo Vivo, 2010, p. 117-118). O texto de Trotsky citado por Moreno \u00e9 publicado em <em>The crise of the french section. 1935-1936<\/em> (Pathfinder Press, 1977).<\/p>\n<p>(24) A Guarda Nacional foi uma institui\u00e7\u00e3o da Grande Revolu\u00e7\u00e3o de 1789-1794. Mas, se at\u00e9 1848 foi um instrumento nas m\u00e3os da burguesia, a partir da instaura\u00e7\u00e3o da Terceira Rep\u00fablica, em setembro de 1870, foi reconstitu\u00edda como mil\u00edcia composta por oper\u00e1rios: trezentos mil trabalhadores da produ\u00e7\u00e3o desenvolveram treinamento militar regular recebendo um sal\u00e1rio. A estrutura da Guarda Nacional adiantou a estrutura que assumiriam mais tarde os soviets a partir da revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905.<\/p>\n<p>(25) Leon Trotsky, \u201cA natureza de classe do Estado Sovi\u00e9tico\u201d (1933) (<em>Escritos<\/em>, tomo 3, p. 283). Para ser preciso, foi Engels quem falou (em um excesso de pol\u00eamica contra posi\u00e7\u00f5es oportunistas) da Comuna como uma \u201cditadura do proletariado\u201d quando, no pref\u00e1cio de 1891 \u00e0 <em>Guerra Civil na Fran\u00e7a <\/em>de Marx, escreve: \u201c<em>Olhem a Comuna de Paris. Esta foi a ditadura do proletariado<\/em>\u201d. Em Marx n\u00e3o h\u00e1 nenhuma refer\u00eancia t\u00e3o categ\u00f3rica: Marx fala de uma \u201ctend\u00eancia\u201d da Comuna e a descreve como uma esp\u00e9cie de \u201cembri\u00e3o\u201d da ditadura do proletariado (a express\u00e3o <em>embri\u00e3o<\/em> \u00e9 nossa e ao us\u00e1-la, na aus\u00eancia de uma melhor, apontamos sua escassa cientificidade).<\/p>\n<p>(26) Francesco Ricci, &#8220;A Comuna de Paris (1871): precursora da Comuna de Petrogrado (1917)&#8221;, <em>Marxismo Vivo<\/em>, 16, 2007.<\/p>\n<p>(27) Karl Marx, \u201cSegundo Manifesto do Conselho Geral da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores sobre a Guerra Franco-Prusiana\u201d. www.marxists.org\/espanol\/m-e\/1870s\/gcfran\/manif2.htm<\/p>\n<p>(28) V.I. Lenin, \u201c\u00c0 mem\u00f3ria da Comuna\u201d (1911) (<em>Obras completas<\/em>, livro 20, p. 229 e ss.).<\/p>\n<p>(29) V.I. Lenin, \u201cInforme sobre a revis\u00e3o do programa e a mudan\u00e7a de nome do partido\u201d (1918) (<em>Obras completas<\/em>, livro 36, p. 47 e ss.).<\/p>\n<p>(30) Leon Trotsky, \u201cAs li\u00e7\u00f5es da Comuna\u201d (1921) www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1920s\/1921_0204_1.htm<\/p>\n<p>(31) Prosper Olivier Lissagaray, <em>Hist\u00f3ria da Comuna de Paris<\/em> (1876) (Editorial Estela, 1971).<\/p>\n<p>(32) C. Tales, <em>A Comuna de 1871<\/em> (1921) (Ed. Os amigos de Spartacus, 1998). Tales baseia-se quase completamente no livro de Lissagaray, v. nota 31, e acrescenta aos erros deste autor outra an\u00e1lise equivocada: fala de \u201cderrota da Primeira Internacional ap\u00f3s a Comuna\u201d; enfatiza o peso dos proudhonianos; dedica somente meia p\u00e1gina (cheia de erros) ao embri\u00e3o de partido de que falamos, isto \u00e9, a Delega\u00e7\u00e3o dos Vinte <em>Arrondissements<\/em>.<\/p>\n<p>(33) Para aprofundar o tema \u00e9 fundamental um estudo feito na Fran\u00e7a em 1960: Jean Dautry e Lucien Scheler, <em>Le Comit\u00e9 Central R\u00e9publicain des vingt arrondissements de Paris<\/em>, Editions Sociais. Dautry tamb\u00e9m \u00e9 autor com Bruhat e Tersen (todos de orienta\u00e7\u00e3o stalinista, mas profundos conhecedores do tema) do mais documentado estudo sobre a Comuna: <em>El Commune<\/em> <em>de 1871<\/em>, Editions Sociais, 1970.<\/p>\n<p>(34) Karl Marx, <em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a.<\/em> www.marxists.org\/espanol\/m-e\/1870s\/gcfran\/guer.htm<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o ao espanhol: Natalia Estrada<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas: Rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1901, Lenin pediu a Plekhanov (pai do marxismo russo) um artigo sobre a Comuna para o jornal Iskra, na ocasi\u00e3o do trig\u00e9simo anivers\u00e1rio da heroica revolu\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios parisienses. Plekhanov contestou dizendo que n\u00e3o lhe parecia um tema interessante, uma vez que se tratava de \u201cum fato antigo\u201d. 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