{"id":136,"date":"2006-05-29T00:00:00","date_gmt":"2006-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/2006\/05\/29\/artigo44\/"},"modified":"2006-05-29T00:00:00","modified_gmt":"2006-05-29T00:00:00","slug":"artigo44","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2006\/05\/29\/artigo44\/","title":{"rendered":"Guerra de aparatos e luta de classes"},"content":{"rendered":"<p align=justify><font face=Georgia size=2>O panorama de viol\u00eancia que as ag\u00eancias internacionais de not\u00edcias divulgam sobre a Col\u00f4mbia faz com que, necessariamente, as perguntas que se formulam os leitores desprevenidos, no exterior, se refiram aos fatores e aos agentes que a criaram e a produzem. Narcotr\u00e1fico, guerrilha e paramilitares ocupam a aten\u00e7\u00e3o de quem mostra algum interesse pela situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social deste pa\u00eds. No&nbsp; entanto, por debaixo da estrepitosa guerra entre os aparatos armados da ultra-direita, a guerrilha e as For\u00e7as Armadas do Estado, avan\u00e7am silenciosamente processos estruturais mais profundos, dos quais os meios massivos de comunica\u00e7\u00e3o pouco se ocupam.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>A imagem estereotipada que o imperialismo e seus propagandistas vendem, para o consumo da reacion\u00e1ria classe m\u00e9dia norte-americana e europ\u00e9ia, \u00e9 a de uma narco-rep\u00fablica eternamente disputada a bala\u00e7os por poderosas organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras e paramilitares, terroristas e narcotraficantes. Mas essa imagem \u00e9 parcial e oculta uma realidade econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social muito mais complexa que lhe d\u00e1 origem, e explica essa outra realidade que \u00e9 criada pelos fogos de artif\u00edcio.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Claro que esses fatores de viol\u00eancia existem e t\u00eam um peso importante, mas s\u00e3o conseq\u00fc\u00eancia e n\u00e3o a causa da realidade. S\u00e3o elementos que distorcem todos os fatos e fen\u00f4menos estruturais da luta de classes. Que a viol\u00eancia na Col\u00f4mbia pare\u00e7a n\u00e3o ter fim \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de que \u00e9 uma express\u00e3o na superf\u00edcie de realidades estruturais, econ\u00f4micas e sociais, muito mais antigas, profundas e est\u00e1veis. <br \/>A viol\u00eancia cr\u00f4nica colombiana n\u00e3o corresponde \u00e0 necess\u00e1ria viol\u00eancia com a qual as classes e suas lutas transformam a realidade fazendo a Hist\u00f3ria. A viol\u00eancia na Col\u00f4mbia \u00e9 perniciosa e retardat\u00e1ria porque \u00e9 uma viol\u00eancia de aparatos. \u00c9 uma viol\u00eancia ao lado, e&nbsp; contra, as imensas massas oper\u00e1rias, camponesas, ind\u00edgenas e populares.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Obviamente que a viol\u00eancia cr\u00f4nica de hoje tem uma explica\u00e7\u00e3o que vem do passado e que se deriva das caracter\u00edsticas espec\u00edficas do desenvolvimento capitalista do pa\u00eds. Mas nem a viol\u00eancia de hoje tem as mesmas caracter\u00edsticas daquela de quarenta anos atr\u00e1s, nem os interesses de classe que est\u00e3o por tr\u00e1s delas s\u00e3o id\u00eanticos. Al\u00e9m disso, o uso indiscriminado da viol\u00eancia \u00e9&nbsp; justificado por cada um dos aparatos armados pelo uso que os outros fazem dela, formando assim um c\u00edrculo vicioso onde \u00e9 imposs\u00edvel saber qual das viol\u00eancias deu origem \u00e0s demais.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2><strong>Viol\u00eancia latifundi\u00e1ria e resist\u00eancia guerrilheira<\/strong><\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Os reacion\u00e1rios latifundi\u00e1rios colombianos sempre armaram ex\u00e9rcitos privados de paramilitares para expulsar da terra as camadas mais pobres dos camponeses. Nas d\u00e9cadas de 40 e 50 do s\u00e9culo passado, durante o per\u00edodo conhecido como &#8220;A viol\u00eancia&#8221;, os bandos de paramilitares, chamados &#8220;p\u00e1ssaros&#8221; em refer\u00eancia \u00e0s aves de rapina, assassinaram&nbsp; mais de trezentos mil camponeses e despojaram de suas terras a uma popula\u00e7\u00e3o calculada em seis ou sete vezes mais do que isso. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Os camponeses, organizados no Partido Liberal, criaram guerrilhas de auto-defesa conseguindo o controle territorial em amplas zonas da periferia rural, como nos Llanos Orientais, na fronteira com a Venezuela e nos distritos de Caquet\u00e1 e Tolima. A trai\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o burguesa do Partido Liberal, que negociou com os latifundi\u00e1rios conservadores a constitui\u00e7\u00e3o de um regime de altern\u00e2ncia bipartid\u00e1ria chamado &#8220;Frente Nacional&#8221;, levou \u00e0 derrota a guerrilha liberal. Os mais importantes dirigentes das colunas que se desmobilizaram foram assassinados um a um, desde Guadalupe Salcedo at\u00e9 Dumar Aljure. Algumas frentes menos significativas degeneraram em banditismo comum e se extinguiram, em um combate desigual com o regime. Os setores mais radicais e decididos se defenderam nas chamadas &#8220;rep\u00fablicas independentes&#8221; de Riochiquito, El Pato, Marquetalia e Guayabero. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 60, o regime da Frente Nacional atacou violentamente essas trincheiras camponesas, provocando um verdadeiro massacre e obrigando novamente a resist\u00eancia a retomar o caminho do \u00eaxodo guerrilheiro. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Esse ressurgimento da guerrilha se deu por fora do controle do liberalismo, como consequ\u00eancia da trai\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o burguesa. As FARC (For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia) nascem em 1964 como um ex\u00e9rcito guerrilheiro dirigido pelos setores mais radicais em ruptura com o Partido Liberal que rapidamente cai sob a influ\u00eancia do aparato estalinista mundial. Essas caracter\u00edsticas do seu nascimento explicam&nbsp; todos seus rasgos progressivos e suas limita\u00e7\u00f5es. As FARC s\u00e3o durante as seguintes d\u00e9cadas a express\u00e3o da leg\u00edtima resist\u00eancia dos camponeses \u00e0 viol\u00eancia e ao abuso dos latifundi\u00e1rios, por\u00e9m seu programa e sua pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes e seus m\u00e9todos de aparato levaram sistematicamente a luta dos camponeses pela terra a um beco sem sa\u00edda. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Salvo algumas exce\u00e7\u00f5es, muito importantes por\u00e9m, isoladas, os camponeses colombianos n\u00e3o conseguiram estruturar, durante a segunda metade do s\u00e9culo XX, um verdadeiro movimento revolucion\u00e1rio de massas pela terra. As tentativas de recupera\u00e7\u00e3o foram, em geral, violentamente derrotadas por uma alian\u00e7a do regime com os latifundi\u00e1rios. Regra geral, os camponeses que n\u00e3o emigraram para as cidades, fugindo da viol\u00eancia latifundi\u00e1ria, foram para zonas rurais ainda mais perif\u00e9ricas, ampliando a fronteira agr\u00edcola. E os latifundi\u00e1rios os empurraram at\u00e9 lev\u00e1-los ao limite norte da selva amaz\u00f4nica. A baixa fertilidade das terras selvagens e a aus\u00eancia de infra-estrutura vi\u00e1ria obrigaram os camponeses a explorar o \u00fanico produto eficaz e poss\u00edvel de transportar individualmente: a pasta b\u00e1sica de coca. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2><strong>A guerra de guerrilhas e as finan\u00e7as<\/strong><\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>As FARC, mais que organizar e dirigir a luta dos camponeses pela revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria, acompanharam o processo de deslocamento dos camponeses, expressando sua resist\u00eancia, mas suplantando sua a\u00e7\u00e3o direta. Essa contradi\u00e7\u00e3o, inerente ao desenvolvimento dos partidos-ex\u00e9rcitos guerrilheiros, os obrigou a extrair seus recursos materiais de fontes completamente alheias \u00e0s da pr\u00f3pria luta da classe que representam. Ao n\u00e3o avan\u00e7ar a revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria, em grande medida por sua pr\u00f3pria pol\u00edtica, as FARC sempre foram obrigadas a recorrer a m\u00e9todos totalmente estranhos aos m\u00e9todos revolucion\u00e1rios para financiar-se. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>O seq\u00fcestro, o &#8220;boleteo&#8221; &#8211; esp\u00e9cie de imposto cobrado por toda atividade agropecu\u00e1ria &#8211; e o benef\u00edcio das &#8220;bonanzas&#8221; se converteram nas principais fontes de ingressos das FARC, e em geral do conjunto das organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras colombianas. Os latifundi\u00e1rios, a classe m\u00e9dia agr\u00e1ria, os comerciantes das zonas de influ\u00eancia guerrilheira, incluindo as velhas alas liberais que os apoiaram no in\u00edcio, foram obrigados a cotizar, ano ap\u00f3s ano, importantes somas aos cofres da guerrilha. As associa\u00e7\u00f5es patronais do agroneg\u00f3cio calculam em m\u00e9dia entre quinhentos milh\u00f5es e um bilh\u00e3o de d\u00f3lares anuais os recursos transferidos \u00e0 guerrilha durante os \u00faltimos trinta anos. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Por\u00e9m, por mais importante que pare\u00e7a, essa cifra nunca foi suficiente para financiar o aparato militar em expans\u00e3o. As FARC e as demais organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras sempre encontraram uma forma de beneficiar-se das bonan\u00e7as econ\u00f4micas para suprir o permanente d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio. De algumas centenas de combatentes e poucas frentes na d\u00e9cada de 60, as FARC passaram a incluir em suas tropas entre quinze e vinte mil combatentes diretos e a estruturar uma complexa rede de apoio log\u00edstico que agrupa entre quarenta e cinq\u00fcenta mil ativistas e &#8220;trabalhadores&#8221;, como eles mesmos se nomeiam. Um aparato dessa magnitude, em uma permanente atividade militar de certa envergadura, \u00e9 ao mesmo tempo uma insaci\u00e1vel m\u00e1quina de consumo de armas, equipes de transporte e comunica\u00e7\u00f5es, vestu\u00e1rio e alimentos.&nbsp;&nbsp; <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>O campon\u00eas, toda vez que foi deslocado pela viol\u00eancia dos fazendeiros, foi em primeiro lugar para as zonas de novas atividades econ\u00f4micas que lhes permitiam iniciar seu processo de reinser\u00e7\u00e3o social. As &#8220;bonan\u00e7as&#8221; do caf\u00e9, as esmeraldas, o petr\u00f3leo, a maconha, a coca e a amapola coincidiram, e n\u00e3o por sorte, com importantes processos de recoloniza\u00e7\u00e3o camponesa, e em menor medida oper\u00e1ria, com o surgimento e fortalecimento de novas frentes e organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras. Acompanhando o deslocamento campon\u00eas e popular, a guerrilha se assentou nos lugares de novos processos econ\u00f4micos e sociais. As importantes massas de novo valor que surgiram dessas atividades econ\u00f4micas geraram fontes de financiamento adicional para os partidos-ex\u00e9rcitos guerrilheiros.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Os benef\u00edcios econ\u00f4micos obtidos por essa via foram no in\u00edcio relativamente marginais. No entanto, a consolida\u00e7\u00e3o das atividades econ\u00f4micas emergentes terminou envolvendo os ex\u00e9rcitos guerrilheiros em novas atividades financeiras alheias aos m\u00e9todos revolucion\u00e1rios tradicionais.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2><strong>Bonan\u00e7a cocaleira e fortalecimento guerrilheiro<\/strong><br \/>&nbsp;&nbsp; <br \/>As FARC est\u00e3o, ainda hoje, longe de ser o &#8220;principal cartel mundial da coca\u00edna&#8221;, como pretendem os propagandistas do imperialismo para justificar sua interven\u00e7\u00e3o militar na Col\u00f4mbia. Por\u00e9m, nem os mais intransigentes defensores da guerrilha se animam a desmentir o envolvimento das FARC com o neg\u00f3cio. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Apesar de o tr\u00e1fico de drogas psicotr\u00f3picas ser um neg\u00f3cio capitalista como outro qualquer, ele tem a particularidade de produzir taxas de lucros dezenas de vezes superiores \u00e0 taxa m\u00e9dia, porque a burguesia imperialista o mant\u00e9m na ilegalidade. E essa mistura de ilegalidade e altas taxas de lucros, sempre e em todas partes, tem gerado setores de burguesia l\u00fampen, mafiosa, violenta e disposta a tudo para defender seus lucros e tem provocado decomposi\u00e7\u00e3o em setores importantes das massas e suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Todos os economistas e centros que estudam seriamente o fen\u00f4meno do narcotr\u00e1fico, desde Francisco Thoumi (1), assessor do Banco Mundial, at\u00e9 a equipe do ling\u00fcista Noam Chomski,&nbsp; calculam que entre&nbsp; 97% e&nbsp; 98% do lucro do neg\u00f3cio ficam nas m\u00e3os das m\u00e1fias imperialistas que controlam a distribui\u00e7\u00e3o ao consumo da droga nas ruas de Nova York ou Madri. Apenas&nbsp; 2% ou&nbsp; 3% v\u00e3o para as m\u00e3os dos traficantes dos pa\u00edses semicoloniais que a produzem e a transportam a droga. No entanto, o volume que alcan\u00e7ou a ind\u00fastria das drogas e as elevadas taxas de lucros que produzem deixam nas m\u00e3os dos traficantes colombianos entre cinco e oito bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, o que pode equivaler a 10% do PIB. Esta, que&nbsp; \u00e9 uma cifra consider\u00e1vel para qualquer setor burgu\u00eas de um pa\u00eds semicolonial, se converteu no principal fator de distor\u00e7\u00e3o de todos os processos estruturais econ\u00f4micos, pol\u00edticos, sociais e militares do pa\u00eds nos \u00faltimos vinte anos.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Em meados dos anos 80 e in\u00edcio do ascenso dos cart\u00e9is de Medell\u00edn e Cali, a maior parte da pasta b\u00e1sica utilizada na produ\u00e7\u00e3o de cloridrato de coca\u00edna vinha do Peru e da Bol\u00edvia, e apenas uma pequena por\u00e7\u00e3o correspondia a cultivos nacionais. Dez anos depois a produ\u00e7\u00e3o interna havia substitu\u00eddo quase completamente a importa\u00e7\u00e3o. Isso significou um novo deslocamento dos camponeses, desta vez para a fronteira agr\u00edcola da selva tropical colombiana. As prov\u00edncias&nbsp; amaz\u00f4nicas de Guaviare, Guain\u00eda, Caquet\u00e1 e Putumayo, as plan\u00edcies do Meta e o Vichada, e as selvas do Choc\u00f3 e a Costa Atl\u00e2ntica foram inundados de cultivos de folhas de coca de todas as dimens\u00f5es. O campon\u00eas cocaleiro pobre e m\u00e9dio forneceu durante v\u00e1rios anos aos narcos de Medell\u00edn e Cali a pasta b\u00e1sica que eles transformavam em coca\u00edna e a juntavam em grandes carregamentos que introduziam nos Estados Unidos por meio de rotas constru\u00eddas em colabora\u00e7\u00e3o com as m\u00e1fias norte-americanas. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>No entanto, essa sociedade econ\u00f4mica de m\u00fatua conveni\u00eancia duraria pouco. As FARC rapidamente se impuseram como dire\u00e7\u00e3o dos camponeses cocaleiros, colocando parte de sua estrutura militar a servi\u00e7o da prote\u00e7\u00e3o dos pequenos cultivos contra a ofensiva erradicadora do regime e do imperialismo. Seu acionar afastava as patrulhas militares dos cultivos e dos&nbsp; laborat\u00f3rios improvisados&nbsp; de onde se extra\u00eda em forma rudimentar o alcal\u00f3ide das raspas da folha de coca. Em troca, as colunas guerrilheiras obtinham um imposto, entre 3 e 5% do pre\u00e7o de mercado, por cada quilo de pasta b\u00e1sica que se embarcava para os centros de cristaliza\u00e7\u00e3o. A extens\u00e3o dos cultivos impulsionou, em conseq\u00fc\u00eancia, o fortalecimento e a extens\u00e3o das FARC. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2><strong>O rearmamento paramilitar<\/strong><\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>A abertura de dezenas de novas frentes guerrilheiras agudizou o choque com os latifundi\u00e1rios e a burguesia agr\u00e1ria, que encontraram a\u00ed a justificativa para rearmar os bandos de p\u00e1ssaros&nbsp; paramilitares.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>O desenvolvimento da ind\u00fastria obrigou a transfer\u00eancia de parte dos laborat\u00f3rios de cristaliza\u00e7\u00e3o da coca\u00edna dos arredores de Medell\u00edn e Cali para as zonas de cultivo. A grande planta\u00e7\u00e3o se levantou amea\u00e7adora ao lado da parcela camponesa e se abriu uma nova vers\u00e3o da luta pela terra. As poderosas e consolidadas m\u00e1fias de narcotraficantes se aliaram com os latifundi\u00e1rios e os burgueses agr\u00e1rios &#8211; muitos dos quais ampliaram suas fortunas e seu poder lucrando com o neg\u00f3cio das drogas &#8211; e atacaram novamente os camponeses e o proletariado agr\u00edcola. Dezenas de bandos de assassinos foram armados em todo o pa\u00eds com a colabora\u00e7\u00e3o, algumas vezes aberta, outras disfar\u00e7ada, dos diferentes governos e das institui\u00e7\u00f5es armadas do regime. S\u00f3 como exemplo se pode mencionar que o atual presidente, \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez, anos antes, quando era governador de Antioquia, promoveu e organizou as cooperativas de autodefesa &#8220;Conviver&#8221;, base sobre a qual se desenvolveram os bandos paramilitares de C\u00f3rdoba e Urab\u00e1 &#8211; onde ele \u00e9 grande latifundi\u00e1rio -, que se distinguem por sua agressividade e crueldade. Entre quinze e vinte mil mercen\u00e1rios foram armados, financiados e justificados como parte da estrat\u00e9gia geral contra insurgente da burguesia e do imperialismo. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>O resultado da nova ofensiva contra-revolucion\u00e1ria \u00e9 uma verdadeira cat\u00e1strofe social. Os crimes mais atrozes foram cometidos na Col\u00f4mbia nos \u00faltimos vinte anos em nome da defesa das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Milhares de ativistas e dirigentes oper\u00e1rios, camponeses e populares assassinados a cada ano.&nbsp; No come\u00e7o dos anos 80, a Uni\u00e3o Patri\u00f3tica, o partido constru\u00eddo pelas FARC, ao tentar sua legaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, foi exterminado fisicamente. Um ex\u00e9rcito de errantes de tr\u00eas milh\u00f5es de desalojados pela guerra sem sa\u00edda em que est\u00e3o envolvidos os aparatos da guerrilha, os paramilitares e as for\u00e7as armadas do Estado. E, entre cinco e seis milh\u00f5es de hectares arrebatados dos camponeses pobres e m\u00e9dios.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <br \/>&nbsp;&nbsp; <br \/><strong>Burguesia, paramilitares e genoc\u00eddio<\/strong><\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Calcula-se que nas d\u00e9cadas de 80 e 90 o tr\u00e1fico de drogas representou at\u00e9 30% do crescimento anual da economia do pa\u00eds. Isto explica em parte a relativa estabilidade colombiana em compara\u00e7\u00e3o com a crise do restante dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. O conjunto da burguesia colombiana se beneficiou, direta ou indiretamente, do narcotr\u00e1fico. Os comerciantes multiplicaram seus lucros, abastecendo os mafiosos dos mais extravagantes e in\u00fateis bens de consumo luxuosos. Os banqueiros aumentaram suas reservas l\u00edquidas, administrando e lavando os excedentes do neg\u00f3cio. Grandes industriais evitaram as crises financiando opera\u00e7\u00f5es de envio de&nbsp; carregamentos de drogas. Importantes empresas de constru\u00e7\u00e3o se aliaram aos chefes dos cart\u00e9is para financiar e desenvolver enormes projetos urban\u00edsticos, comerciais e de moradia. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Mas o benef\u00edcio n\u00e3o foi apenas econ\u00f4mico. A grande burguesia nacional, as multinacionais no pa\u00eds, os diferentes governos e o imperialismo tiraram grande proveito dos bandos de assassinos organizados pelos narcotraficantes&nbsp; para expulsar os camponeses, lutar contra a guerrilha ou simplesmente dirimir suas diverg\u00eancias. A burguesia encontrou nesses bandos o instrumento para desfazer-se dos militantes de esquerda, dos dirigentes sindicais e populares e at\u00e9 dos opositores burgueses que se tornavam inc\u00f4modos. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>As burguesias nacional e imperialista banharam o pa\u00eds em sangue oper\u00e1rio e popular, sem ter que sujar as m\u00e3os diretamente. Os narcos e seus bandos de assassinos se encarregaram de fazer o trabalho sujo. Lan\u00e7ava-se contra todo aquele que devesse ser retirado do meio acusa\u00e7\u00e3o de manter alguma rela\u00e7\u00e3o com a guerrilha, real ou constru\u00edda, e era assassinado com total impunidade. Milhares e milhares de ativistas e militantes foram mortos. Desconhece-se a cifra exata. Perdeu-se pela const\u00e2ncia dos assassinatos di\u00e1rios. Ningu\u00e9m sabe o n\u00famero. As dire\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas, reformistas e traidoras dos grandes sindicatos e dos partidos majorit\u00e1rios da esquerda foram insens\u00edveis diante da magnitude do massacre. No entanto, se nos ativermos \u00e0 m\u00e9dia dos anos nos quais os registros foram mais ou menos cuidadosos, podemos dizer com alguma certeza que o n\u00famero de mortos declarados pelas dire\u00e7\u00f5es sindicais e pol\u00edticas nos \u00faltimos vinte anos pode chegar aos dez mil. O movimento oper\u00e1rio e popular na Col\u00f4mbia foi decapitado. Os dirigentes sindicais ca\u00edam assassinados e os capitalistas olhavam para outro lado como se n\u00e3o tivessem nada a ver com isso. Nenhuma den\u00fancia de cumplicidade dos patr\u00f5es com o genoc\u00eddio foi adiante. Tudo aparecia como responsabilidade de um abstrato &#8220;fen\u00f4meno paramilitar&#8221; organizado e dirigido nas sombras por &#8220;for\u00e7as ocultas&#8221;, que a burguesia, o governo e o imperialismo eram &#8220;os primeiros em condenar&#8221;.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Morreram centenas de professores, petroleiros, cimenteiros, metal\u00fargicos e bananeiros. Oper\u00e1rios e dirigentes sindicais de multinacionais como Coca Cola, Renault e Nestl\u00e9 ca\u00edram v\u00edtimas dos assassinos sem que jamais fosse citado e muito menos preso um \u00fanico patr\u00e3o ou alto funcion\u00e1rio dessas empresas. Milhares de dirigentes e simples camponeses e membros das comunidades ind\u00edgenas foram brutalmente assassinados. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2><strong>Paramilitarismo e regime pol\u00edtico<\/strong><\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Seria imposs\u00edvel levar adiante uma ofensiva contra-revolucion\u00e1ria de tal magnitude, que apelou para os mais violentos m\u00e9todos de guerra civil contra a popula\u00e7\u00e3o indefesa, sem a colabora\u00e7\u00e3o aberta do imperialismo, do regime e dos diferentes governos que assim procederam. Os grupos paramilitares foram armados e financiados com dinheiro proveniente das enormes taxas de lucro do neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico, com os aportes dos latifundi\u00e1rios e da burguesia industrial, com as apropria\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias especiais com que sempre contam as for\u00e7as repressivas do Estado burgu\u00eas para as opera\u00e7\u00f5es encobertas e com as &#8220;contribui\u00e7\u00f5es&#8221; que o imperialismo introduz clandestinamente, por meio de suas ag\u00eancias de intelig\u00eancia contra-revolucion\u00e1rias, como a CIA e a ANS. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>A cumplicidade do ex\u00e9rcito e da pol\u00edcia com alguns dos maiores massacres cometidos pelos paramilitares, como os de La Gabarra no nordeste do pa\u00eds e Mapirip\u00e1n no sul, foram t\u00e3o evidentes que a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado a indenizar os familiares das v\u00edtimas. Contra sua vontade, o regime se viu obrigado a destituir e processar a altos oficiais comprometidos nos massacres e assassinatos. Muitos dos comandantes paramilitares s\u00e3o oficiais reformados do ex\u00e9rcito e da pol\u00edcia que se relacionaram com eles, estando em servi\u00e7o, protegendo os laborat\u00f3rios dos narcos e cobrando por isso grandes somas de dinheiro. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Nos \u00faltimos dias tornou-se p\u00fablica, por meio de alguns dos mais importantes meios de comunica\u00e7\u00e3o, uma realidade que todo o pa\u00eds sabia que existia, mas que ningu\u00e9m podia demonstrar porque o Estado se encarregava de ocult\u00e1-la como informa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a nacional. O ex-diretor do Departamento Administrativo de Seguran\u00e7a &#8211; DAS (aparato armado que atua como verdadeira pol\u00edcia pol\u00edtica sob as ordens diretas do presidente da rep\u00fablica), nomeado por \u00c1lvaro Uribe, foi acusado diante da Fiscalia por seu ex-chefe de inform\u00e1tica de facilitar listas de dirigentes sindicais e populares aos paramilitares para que fossem assassinados. Em conseq\u00fc\u00eancia do esc\u00e2ndalo se fizeram p\u00fablicas declara\u00e7\u00f5es de ex-agentes do DAS que confessaram sua participa\u00e7\u00e3o direta, como autores materiais, nos assassinatos&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2><strong>Guerra e paz: ambig\u00fcidades pol\u00edticas<\/strong><\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Esse genoc\u00eddio, que significa uma enorme derrota para a classe oper\u00e1ria e os trabalhadores colombianos, \u00e9 fruto da combina\u00e7\u00e3o da ofensiva burguesa contra-revolucion\u00e1ria e da colabora\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es do movimento de massas que, por a\u00e7\u00e3o ou por omiss\u00e3o, foram incapazes de organizar a resist\u00eancia e de orientar a luta direta para det\u00ea-lo. E nessa dire\u00e7\u00e3o h\u00e1 que incluir \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras que, com seu funcionamento isolado do movimento, com seus m\u00e9todos opostos aos m\u00e9todos revolucion\u00e1rios e sua pol\u00edtica amb\u00edgua de seguir adiante com uma guerra de aparatos sem sa\u00edda, ao mesmo tempo que clama por uma negocia\u00e7\u00e3o com o regime, contribuem para desorganizar a luta de massas e facilitam \u00e0 burguesia, aos latifundi\u00e1rios e ao imperialismo a justificativa da repress\u00e3o oficial e paramilitar. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Todas as dire\u00e7\u00f5es sindicais e pol\u00edticas reformistas est\u00e3o unificadas em torno da exig\u00eancia de &#8220;sa\u00edda pol\u00edtica negociada ao conflito armado&#8221;. Essa exig\u00eancia expressa um&nbsp; reconhecimento t\u00e1cito do fracasso da estrat\u00e9gia guerrilheira na Col\u00f4mbia que, diferente das experi\u00eancias cubana e nicarag\u00fcense, nunca chegou a empalmar com o ascenso revolucion\u00e1rio das massas urbanas e rurais, sem a qual \u00e9 imposs\u00edvel o triunfo de algum aparato guerrilheiro. Esse div\u00f3rcio se produz pela mesma combina\u00e7\u00e3o da crueldade com que a burguesia e os latifundi\u00e1rios debilitaram a vanguarda oper\u00e1ria e popular e o m\u00e9todo messi\u00e2nico com que os aparatos guerrilheiros avan\u00e7aram a guerra. Faz muitos anos que as FARC e o ELN tiraram da sua propaganda e da sua agita\u00e7\u00e3o o chamamento \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores da cidade e do campo contra o regime pol\u00edtico e em defesa de suas reivindica\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, e qualquer refer\u00eancia \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista. As ocasi\u00f5es excepcionais em que a guerrilha&nbsp; mobilizou aos camponeses foi mais com o objetivo de obstaculizar as ofensivas militares do regime do que uma verdadeira estrat\u00e9gia de revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria. A propaganda escrita e os comunicados que as FARC enviam permanentemente pela internet est\u00e3o cheios de frases contra o governo e o imperialismo, mas nada dessa fraseologia se traduz em organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos setores que influenciam, contra o regime. O trabalho urbano das FARC, por interm\u00e9dio do Movimento Bolivariano,&nbsp; se limita a reproduzir nas cidades o m\u00e9todo do atentado isolado e da a\u00e7\u00e3o her\u00f3ica. Com isso, o \u00fanico que conseguem \u00e9 justificar a repress\u00e3o nas cidades contra a classe oper\u00e1ria e os setores populares e estimular e dar argumentos para a forma\u00e7\u00e3o de bandos de assassinos nos bairros perif\u00e9ricos que j\u00e1 assolam zonas completas em Bogot\u00e1, Medell\u00edn e Cali. Essa estrat\u00e9gia de abertura do trabalho urbano tampouco \u00e9 posta a servi\u00e7o da mobiliza\u00e7\u00e3o. Atua&nbsp; centralmente para proporcionar apoio log\u00edstico \u00e0 guerra nas montanhas, para recrutar combatentes que logo v\u00e3o para as frentes tradicionais e como representantes urbanos da pol\u00edtica capituladora da solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao conflito.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>As FARC s\u00e3o um aparato militar muito poderoso e dif\u00edcil de derrotar no enfrentamento direto. Nem as for\u00e7as armadas, nem os paramilitares, nem as centenas de assessores do imperialismo, nem a colabora\u00e7\u00e3o de todos esses agentes&nbsp; puderam derrot\u00e1-las. No entanto, as FARC, se n\u00e3o se une a um levantamento revolucion\u00e1rio urbano e campon\u00eas, tem&nbsp; poucas possibilidades de derrotar ao regime e tomar o poder. Paradoxalmente, quanto mais se fortalece seu aparato militar, mais se reduz sua influ\u00eancia pol\u00edtica e o apoio de setores importantes do movimento de massas. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>No outro extremo, a burguesia, os latifundi\u00e1rios e o imperialismo t\u00eam v\u00e1rios problemas e diversas estrat\u00e9gias para solucion\u00e1-los. Em primeiro lugar, n\u00e3o conseguem derrotar militarmente a guerrilha, apesar dos imensos recursos destinados pelo regime, do or\u00e7amento nacional, e dos milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares que o governo americano injeta por meio do Plano Col\u00f4mbia e do Plano Patriota. As for\u00e7as armadas insistem em sua estrat\u00e9gia de persegui\u00e7\u00e3o, com a qual obt\u00eam alguns triunfos e sofrem sistem\u00e1ticos golpes e derrotas. N\u00e3o abandonam sua estrat\u00e9gia de desgaste e continuam estimulando o acionar dos paramilitares contra os dirigentes de massas e contra os setores que proporcionam apoio log\u00edstico ou pol\u00edtico \u00e0s frentes guerrilheiras. Fazem uma sistem\u00e1tica campanha ideol\u00f3gica e pol\u00edtica cada vez que a guerrilha promove emboscadas contra as patrulhas militares, cada vez que protagonizam um seq\u00fcestro ruidoso ou cada vez que as mil\u00edcias urbanas ativam um explosivo, com o mencionado saldo de habitantes distantes do conflito que acabam mortos ou afetados.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>A burguesia, assim como a guerrilha, tem uma dupla pol\u00edtica. Acentua a guerra, a aberta e a suja, e faz um discurso pacifista que traz impl\u00edcita a exig\u00eancia \u00e0 guerrilha da sua rendi\u00e7\u00e3o incondicional. Utiliza as negocia\u00e7\u00f5es de paz, quando as apresenta, para questionar a base pol\u00edtica da guerrilha. Essa foi a vit\u00f3ria mais importante da pol\u00edtica do governo anterior. Andr\u00e9s Pastrana fez todas as concess\u00f5es que a burguesia podia permitir. Chegou ao extremo, nunca imaginado, de esvaziar uma zona de quarenta mil quil\u00f4metros quadrados e&nbsp; entregar \u00e0s FARC para que concentrassem suas for\u00e7as e para adiantar as negocia\u00e7\u00f5es de paz. Quando a tr\u00e9gua foi rompida, a burguesia havia conseguido debilitar o apoio pol\u00edtico interno e externo com que contava essa organiza\u00e7\u00e3o guerrilheira, ao faz\u00ea-la aparecer como intransigente e respons\u00e1vel pelo conflito.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>N\u00e3o obstante, essa estrat\u00e9gia se debilita pela exist\u00eancia dos bandos paramilitares. A burguesia colombiana, apesar de que avan\u00e7a em apresentar as organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras como terroristas, n\u00e3o consegue convencer ningu\u00e9m do seu papel de v\u00edtima, pelos crimes atrozes que seus bandos de assassinos cometem diariamente. Essa \u00e9 uma entre as muitas das raz\u00f5es que obrigam o governo de Uribe V\u00e9lez a aparentar uma estrat\u00e9gia de desmonte dos grupos paramilitares. Claro que o imperialismo, que v\u00ea na exist\u00eancia dos paramilitares um obst\u00e1culo importante na luta contra as m\u00e1fias de narcotraficantes, pressiona por seu debilitamento e controle. Conv\u00e9m a todos dar a apar\u00eancia de que est\u00e1 sendo desmontada a estrutura do paramilitarismo, mas, na verdade, s\u00f3 est\u00e3o confinando e localizando. Esta pol\u00edtica lhes permite um duplo benef\u00edcio pol\u00edtico: aparentam uma atitude pacifista da ultra direita com a qual golpeiam politicamente as organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras, e na realidade mant\u00eam intacto um aparato militar contra-revolucion\u00e1rio que lhes foi \u00fatil e que podem voltar a utilizar contra o movimento de massas no momento em que for necess\u00e1rio. Para conseguir esse duplo objetivo, o governo aprovou no Parlamento leis que lhes concedem a impunidade pelos milhares de crimes cometidos, que tratam de proteger os grandes chefes contra as solicita\u00e7\u00f5es de extradi\u00e7\u00e3o levadas pelo imperialismo e que lhes garantem a conserva\u00e7\u00e3o das terras arrebatadas pela for\u00e7a, dos camponeses.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2><strong>Guerra de aparatos ou guerra de classes<\/strong><\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Esse estranho equil\u00edbrio, esse sinistro estado de coisas, \u00e9 o que torna perniciosa a guerra de aparatos que ocorre na Col\u00f4mbia e a mostra como aparentemente intermin\u00e1vel. Por\u00e9m, ao compasso do ascenso e da resist\u00eancia dos trabalhadores na Am\u00e9rica Latina e das lutas da juventude oper\u00e1ria e dos imigrantes na Europa e nos Estados Unidos, o movimento revolucion\u00e1rio colombiano iniciou sua recupera\u00e7\u00e3o. O processo de usurpa\u00e7\u00e3o dos camponeses e os planos de superexplora\u00e7\u00e3o, que a patronal e o imperialismo impuseram aos&nbsp; trabalhadores nas cidades fizeram com que 60% da popula\u00e7\u00e3o (vinte e seis milh\u00f5es) vivam na mais completa pobreza, obrigados a sobreviver com menos de dois d\u00f3lares por dia, e oito milh\u00f5es vivem na indig\u00eancia. A classe oper\u00e1ria, sobretudo sua juventude, chegou ao limite do fisicamente suport\u00e1vel e come\u00e7a a expressar sua disposi\u00e7\u00e3o a retomar a luta. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Hoje, os sintomas s\u00e3o apenas percept\u00edveis na superestrutura pol\u00edtica, onde se expressam com o aumento da absten\u00e7\u00e3o eleitoral (mais de 60% nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es parlamentares) diante da aus\u00eancia de uma alternativa que ofere\u00e7a sa\u00edda \u00e0s suas ang\u00fastias. Um ind\u00edcio mais claro de recupera\u00e7\u00e3o s\u00e3o as mobiliza\u00e7\u00f5es e as ocupa\u00e7\u00f5es de terras que os ind\u00edgenas protagonizaram no ano passado, resistindo heroicamente \u00e0 repress\u00e3o policial. \u00c9 importante tamb\u00e9m o \u00e2nimo que existe entre a juventude dos col\u00e9gios secundaristas e em algumas universidades p\u00fablicas. Sua receptividade \u00e0 propaganda socialista revolucion\u00e1ria demonstra que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e9rtil o campo para a ideologia que o imperialismo construiu sobre a base da derrubada da URSS e&nbsp; demais Estados Oper\u00e1rios da Europa Oriental. <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Profundos processos estruturais se puseram em movimento na Col\u00f4mbia e sobre eles deve atuar o partido revolucion\u00e1rio e a Internacional. \u00c9 a \u00fanica rota firme para construir uma alternativa de dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que possa conduzir ao novo proletariado pelo caminho da supera\u00e7\u00e3o da guerra de aparatos que desgarrou a gera\u00e7\u00f5es inteiras de lutadores e sua convers\u00e3o em uma verdadeira guerra de classe que imponha um governo oper\u00e1rio e popular que inicie a constru\u00e7\u00e3o do socialismo.<\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2><font size=1>(1) Ver THOUMI,&nbsp; Francisco, Econom\u00eda pol\u00edtica y narcotr\u00e1fico. Tercer Mundo Editores, Bogot\u00e1.<\/font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/font><\/p>\n<p align=justify><font face=Georgia size=2>Tradu\u00e7\u00e3o N\u00e9a Vieira<\/font><\/p>\n<p align=justify><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O panorama de viol\u00eancia que as ag\u00eancias internacionais de not\u00edcias divulgam sobre a Col\u00f4mbia faz com que, necessariamente, as perguntas que se formulam os leitores desprevenidos, no exterior, se refiram aos fatores e aos agentes que a criaram e a produzem. Narcotr\u00e1fico, guerrilha e paramilitares ocupam a aten\u00e7\u00e3o de quem mostra algum interesse pela situa\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-136","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colombia"],"fimg_url":false,"categories_names":["Col\u00f4mbia"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=136"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}