{"id":13039,"date":"2015-12-21T12:13:26","date_gmt":"2015-12-21T14:13:26","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/sem-categoria\/diante-do-fracasso-eleitoral-do-chavismo\/"},"modified":"2015-12-21T12:13:26","modified_gmt":"2015-12-21T14:13:26","slug":"diante-do-fracasso-eleitoral-do-chavismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2015\/12\/21\/diante-do-fracasso-eleitoral-do-chavismo\/","title":{"rendered":"Diante do fracasso eleitoral do chavismo"},"content":{"rendered":"<p><em>O chavismo perdeu pela primeira vez a maioria legislativa. A MUD (Mesa da Unidade Democr\u00e1tica) elegeu 112 deputados, o que lhe permite ter a maioria qualificada, habilitando-a a chamar uma Assembleia Constituinte, modificar a Constitui\u00e7\u00e3o, aprovar ou revogar leis, entre outras atribui\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: UST &#8211; Venezuela<\/p>\n<p>Este \u00e9 um tremendo golpe para o governo de Maduro e para Diosdado Cabello, que aparecem como as \u201cfiguras respons\u00e1veis\u201d ou \u201cgenerais da derrota\u201d. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um golpe para todo o aparato dirigente do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) e do Grande Polo Patri\u00f3tico.<\/p>\n<p>O chavismo foi superado pela MUD na maioria das cidades com grande concentra\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular. A oposi\u00e7\u00e3o burguesa obteve 56,2% dos votos e 67% dos cargos em disputa (112). O PSUV, junto com o Grande Polo Patri\u00f3tico, obteve 40,8% dos votos e 32,93% dos cargos (55). Assim, a MUD teve dois milh\u00f5es de votos de diferen\u00e7a \u00e0 frente do PSUV e seus aliados.<\/p>\n<p>A MUD superou amplamente seus tradicionais votos de setores da classe m\u00e9dia e capitalizou o descontentamento de muitos trabalhadores e setores humildes. Isso se verifica em estados e cidades como Bol\u00edvar, Anzo\u00e1tegui, Carabobo, Aragua, Lara Miranda, e nas <em>parroquias<\/em> (distritos) de Caracas como Petare, 23 de Enero etc. Por exemplo, em Zulia, de concentra\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular, a MUD elegeu 13 dos 15 deputados em disputa. Em Anzo\u00e1tegui, a rela\u00e7\u00e3o foi de 7 a 1. Somente nos centros de menor concentra\u00e7\u00e3o urbana e industrial, como Cojedes ou Gu\u00e1rico, o PSUV conseguiu melhorar um pouco a sua ex\u00edgua vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um giro \u00e0 direita?<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de o voto na MUD ter um ponto de apoio na tradicional classe m\u00e9dia acomodada, os mais de dois milh\u00f5es de novos votos que capitalizou s\u00e3o de trabalhadores e setores populares.<\/p>\n<p>E este foi um voto contra a escassez e as filas, a infla\u00e7\u00e3o, a persegui\u00e7\u00e3o dos lutadores, os baixos sal\u00e1rios e contratos congelados, e tamb\u00e9m um voto contra a corrup\u00e7\u00e3o, contra os burocratas \u201cvermelhos\u201d com <em>\u201crel\u00f3gios Rolex e caminhonetes Hummer<\/em>\u201d (como estava escrito em um cartaz no conflito da Sidor no ano passado). Um voto que expressa a indigna\u00e7\u00e3o com a injusti\u00e7a e a boa vida dos funcion\u00e1rios que n\u00e3o t\u00eam que fazer <em>\u201csaborosas filas<\/em>\u201d de v\u00e1rias horas embaixo do sol e da chuva.<\/p>\n<p>Foi muito comum escutar nos locais de trabalho alguns dias antes da elei\u00e7\u00e3o: \u201c<em>Precisamos tirar essa gente; qualquer um ser\u00e1 melhor que isso\u201d<\/em> ou \u201c<em>Precisamos de uma mudan\u00e7a, n\u00e3o d\u00e1 mais\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Dessa vez, o chamado \u201cvoto castigo\u201d n\u00e3o foi a favor de posi\u00e7\u00f5es da tradicional direita venezuelana. Na campanha eleitoral da MUD, n\u00e3o estiveram presentes publicamente propostas como terminar com as <em>Misiones<\/em>, por exemplo; mas sim discursos demag\u00f3gicos como \u201c<em>vamos manter o que tenha sido feito de bom<\/em>\u201d, \u201c<em>terminaremos com a escassez e a inseguran\u00e7a, aumentaremos os sal\u00e1rios<\/em>\u201d<em> ou <\/em>\u201c<em>Colocaremos em marcha o aparato produtivo<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Dizemos isso porque a campanha eleitoral da oposi\u00e7\u00e3o se apoiou centralmente em denunciar as filas, a escassez e a corrup\u00e7\u00e3o para capitalizar o descontentamento, mas sem apresentar propostas pela positiva para sair da crise em que est\u00e1 imerso o capitalismo venezuelano. Justamente n\u00e3o dizer o que fazer deixou aberta uma expectativa entre seus eleitores. Apesar de muitos conhecerem alguns velhos pol\u00edticos golpistas, como Ramos Allup, dizem que \u201cprecisamos lhe dar uma chance\u201d para que as coisas melhorem. \u201cAgora h\u00e1 uma esperan\u00e7a\u201d etc.<\/p>\n<p><strong>Os trabalhadores se distanciam do PSUV<\/strong><\/p>\n<p>A UST (Unidade Socialista dos Trabalhadores) vem afirmando h\u00e1 tempos que h\u00e1 uma ruptura dos trabalhadores e dos setores populares com o PSUV. As lutas que ocorreram tiveram como resposta do governo, em muitos casos, repress\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o, desqualifica\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o para trabalhadores, camponeses, estudantes e setores populares. Essas lutas, qualificadas como \u201cdesestabilizadoras\u201d e de \u201cfazer jogo da direita\u201d, foram na verdade o \u00fanico caminho do povo para enfrentar os baixos sal\u00e1rios, o congelamento dos contratos coletivos, a falta de or\u00e7amento adequado para a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade, a escassez e a corrup\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n<p>Agora, isso se manifestou de maneira esmagadora nas elei\u00e7\u00f5es. Seguramente ter\u00e1 como consequ\u00eancia imediata a ren\u00fancia de ministros e colaboradores, ajuste de contas e busca de \u201cbodes expiat\u00f3rios\u201d. Mas isso n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para \u201crecompor o poder\u201d e muito menos o regime.<\/p>\n<p><strong>A crise no PSUV e seus aliados<\/strong><\/p>\n<p>O que sim vai acontecer \u00e9 que a crise dentro do PSUV e do Grande Polo Patri\u00f3tico vai se aprofundar. Isso j\u00e1 come\u00e7ou a se manifestar aprofundando a dispers\u00e3o de setores da base e de quadros que n\u00e3o se sentem representados por nenhum setor do PSUV.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 a coletiva de imprensa de Giordani e Navarro, dois ex-ministros chavistas dissidentes afirmando que \u201c<em>para n\u00f3s o que est\u00e1 acontecendo \u00e9 uma verdadeira cat\u00e1strofe<\/em>\u201d. Disseram que o resultado eleitoral \u00e9 produto das car\u00eancias que o nosso povo enfrenta<em>, <\/em>\u201c<em>resultado de uma gest\u00e3o fracassada, baseada em um modelo capitalista-rentista que aspir\u00e1vamos substituir<\/em>\u201d. Essa coletiva de imprensa terminou com um enfrentamento aos gritos e insultos com um grupo organizado que gritava a favor de Maduro, em Caracas.<\/p>\n<p>A c\u00fapula do PSUV chamou um Congresso para debater a situa\u00e7\u00e3o, mesmo sem eleger novos delegados. Osvaldo Rivero, apresentador de um conhecido programa chavista de TV, \u201cZurda Konducta\u201d, respondeu a esse chamado: \u201c<em>esse Congresso tinha que se transformar em uma assembleia popular. Quem vai discutir a dire\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o? V\u00e3o ser os mesmos dez de sempre? Ent\u00e3o temos que resistir<\/em>&#8220;. E mais adiante denunciou que o Minist\u00e9rio de Comunica\u00e7\u00e3o, o de Comunidades e o de Cultura \u201c<em>desmobilizaram o povo<\/em>&#8220;. \u00c9 muito prov\u00e1vel que essas express\u00f5es se estendam para todos os cantos do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>O que pode acontecer com a MUD?<\/strong><\/p>\n<p>Passadas as primeiras comemora\u00e7\u00f5es, a &#8220;embriaguez&#8221; eleitoral come\u00e7ar\u00e1 a se dissipar. A MUD n\u00e3o \u00e9 uma frente burguesa homog\u00eanea. Suas diferen\u00e7as estiveram expostas, \u00e0 vista de todos. H\u00e1 pelo menos dois setores, com duas pol\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o ao governo. Leopoldo L\u00f3pez, junto a Corina Machado, tem sido o setor mais radicalizado que impulsionou a queda imediata de Maduro. E Enrique Capriles, que majoritariamente defendeu aproveitar o desgaste e ganhar as elei\u00e7\u00f5es do chavismo. Essa pol\u00edtica foi acompanhada pelo imperialismo ianque. Capriles \u201cdemarcou o terreno\u201d aos demais setores declarando: \u201ctriunfou nossa pol\u00edtica\u201d de desgaste e participa\u00e7\u00e3o eleitoral. E Corina Machado declarou que \u201c<em>deve-se pedir mudan\u00e7as j\u00e1<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Como a MUD aproveitar\u00e1 a sua maioria qualificada? FEDECAMARAS, a Federa\u00e7\u00e3o patronal mais importante, apresentou sua \u201clista de exig\u00eancias\u201d antes das elei\u00e7\u00f5es: <strong>unifica\u00e7\u00e3o cambial, libera\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os, respeito \u00e0 propriedade privada, modifica\u00e7\u00e3o da LOTT (Lei Org\u00e2nica do Trabalho, dos Trabalhadores e Trabalhadoras) no que se refere \u00e0 inamovibilidade laboral, aumento da produtividade<\/strong>, entre outras medidas.<\/p>\n<p>Ser\u00e3o os deputados da MUD os que se lan\u00e7ar\u00e3o para cumprir com as exig\u00eancias patronais? Ou buscar\u00e3o um acordo com o governo para aplicar as medidas que a patronal exige diante da crise capitalista? A Mesa da Unidade manter\u00e1 a unidade?<\/p>\n<p>Desde j\u00e1, a MUD anunciou que votar\u00e1 uma lei de anistia para \u201clibertar os presos pol\u00edticos\u201d, ao que Maduro contestou que n\u00e3o \u201caceitar\u00e1 nenhuma anistia aos golpistas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Crise do governo e do regime e a crise econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n<p>Nicol\u00e1s Maduro dever\u00e1 governar com uma Assembleia Nacional adversa e com muitas atribui\u00e7\u00f5es respaldada por mais de 56% dos votos. Isso ser\u00e1 in\u00e9dito para o chavismo, j\u00e1 que sempre a Assembleia votou tudo o que era exigido pela c\u00fapula do governo e pelo PSUV. O presidente que tinha todo o poder agora dever\u00e1 negociar ou ir a um enfrentamento.<\/p>\n<p>Toda a disputa que pode ocorrer daqui para frente na verdade ser\u00e1 determinada pela capacidade do governo de Maduro de aplicar as medidas de ajuste mais duro que a crise econ\u00f4mica e os empres\u00e1rios lhe imp\u00f5em. Ele ser\u00e1 capaz de implementar essas medidas sem uma forte resist\u00eancia dos trabalhadores?<\/p>\n<p>O analista dos fundos abutres imperialistas, Barclays Capital, deu uma pista: \u201c<em>Sou pessimista (\u2026) o governo perdeu toda credibilidade para fazer um ajuste na economia. Se aqui tivermos um novo &#8216;pitcher&#8217; [lan\u00e7ador], (\u2026) uma nova equipe econ\u00f4mica, mas permanecer o presidente Maduro como chefe de Estado, acredito que nunca ter\u00e1 a credibilidade necess\u00e1ria para enfrentar os desafios econ\u00f4micos<\/em>.&#8221; (<em>Prodavinci<\/em>, 6\/11\/2015)<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a burguesia imperialista, por meio dos deputados da MUD, prepara o terreno para uma destitui\u00e7\u00e3o? N\u00e3o podemos descartar. Em todo caso, como dissemos antes, dever\u00e3o manter a unidade e evitar um desgaste prematuro.<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o a declara\u00e7\u00e3o do ex-presidente do Brasil e principal dirigente do PT, Lula, velho aliado do chavismo: \u201c<em>A democracia n\u00e3o \u00e9 estar eternamente no cargo. &#8216;Imprescind\u00edvel \u00e9 a causa e n\u00e3o o homem&#8217;, e Maduro deve entender isso tamb\u00e9m<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A brutal crise econ\u00f4mica mundial, agravada pelo fracasso do nacionalismo burgu\u00eas na Venezuela, por um lado obriga a jogar sobre as costas dos trabalhadores as medidas de ajuste e, por outro lado, encurta todos os tempos e margens de manobra.<\/p>\n<p>As expectativas de que a nova Assembleia Nacional mude alguma coisa na vida dos trabalhadores ter\u00e3o pouca dura\u00e7\u00e3o. Esta Assembleia, pelo peso da maioria da MUD ou em \u201cacordo\u201d com os deputados do PSUV, cedo ou tarde aplicar\u00e1 o ataque contra os trabalhadores. Mas a resist\u00eancia dos trabalhadores a essas medidas pode mudar a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Vamos nos organizar\u00a0para enfrentar o ajuste<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhadores e os setores populares n\u00e3o podem esperar desta Assembleia Nacional e do governo de Maduro as solu\u00e7\u00f5es para os problemas mais graves.<\/p>\n<p>Os chamados a uma &#8220;mudan\u00e7a&#8221; ou &#8220;retifica\u00e7\u00e3o de rumo&#8221; cair\u00e3o por terra ou ser\u00e3o uma maquiagem para continuar enganando as massas. O car\u00e1ter burgu\u00eas do Estado e do governo garante isso. As promessas eleitorais se transformar\u00e3o em medidas antipopulares, contra o n\u00edvel de vida do povo.<\/p>\n<p>N\u00f3s, da UST, colocamo-nos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para colaborar no agrupamento dos lutadores oper\u00e1rios e populares para enfrentar o ajuste que vem pela frente. Os trabalhadores devem debater uma s\u00e9rie de medidas e um programa que nos permita unir todos os explorados e nos dotar de uma sa\u00edda da classe oper\u00e1ria. N\u00e3o podemos confiar em nenhuma medida que venha da MUD ou do PSUV. Para isso, chamamos todos os lutadores honestos, chavistas ou sem partido, a nos organizarmos juntos para impedir que arranquem nossas conquistas.<\/p>\n<p>Da nossa parte, afirmamos que, para levar adiante um programa que seja uma sa\u00edda de fundo, necessitamos construir uma ferramenta pol\u00edtica revolucion\u00e1ria dos trabalhadores. Com esta ferramenta pol\u00edtica, que acaudilhe os explorados, poderemos agora sim lutar pelo verdadeiro socialismo, sem patr\u00f5es &#8220;vermelhos&#8221;, nem burocratas e militares corruptos, mediante um governo oper\u00e1rio e popular.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Samanta Wenckstern<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O chavismo perdeu pela primeira vez a maioria legislativa. 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