{"id":12816,"date":"2015-11-24T07:19:10","date_gmt":"2015-11-24T09:19:10","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/sem-categoria\/mitos-sobre-a-colonizacao-da-america\/"},"modified":"2015-11-24T07:19:10","modified_gmt":"2015-11-24T09:19:10","slug":"mitos-sobre-a-colonizacao-da-america","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2015\/11\/24\/mitos-sobre-a-colonizacao-da-america\/","title":{"rendered":"Mitos sobre a coloniza\u00e7\u00e3o\u00a0da Am\u00e9rica"},"content":{"rendered":"<p><em>A chegada de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo e a coloniza\u00e7\u00e3o deram origem a afirma\u00e7\u00f5es que pouco t\u00eam a ver com a realidade, a partir das quais os conquistadores e seus descendentes trataram de se justificar.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: PSTU &#8211; Argentina<\/p>\n<p>Que se n\u00e3o fosse pela fa\u00e7anha de Colombo, nossa exist\u00eancia seria imposs\u00edvel. Que a superioridade das armas europeias fez da conquista um passeio. Que os &#8220;espanh\u00f3is&#8221; (como se a Espanha fosse uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o) subjugaram os &#8220;ind\u00edgenas&#8221; (como se centenas de culturas fossem uma s\u00f3 realidade). Que os conquistadores eram benfeitores portadores da civiliza\u00e7\u00e3o ou que os conquistados eram seres quase angelicais, incapazes de fazer o mal. Que a s\u00edntese que surgiu do &#8220;encontro&#8221; entre os dois grupos (as chamadas &#8220;ra\u00e7as&#8221;) foi realizado de forma equilibrada, igualit\u00e1ria e positiva. Para n\u00e3o falar do mito que atribui o atraso e a depend\u00eancia da Am\u00e9rica Latina \u00e0 conquista desta pelos espanh\u00f3is, portugueses ou italianos que transferiram ao continente sua &#8220;cultura pouco afeita ao trabalho&#8221;, ao contr\u00e1rio dos Estados Unidos, &#8220;civilizados&#8221; pelos &#8220;empreendedores e s\u00e9rios&#8221; anglo-sax\u00f5es protestantes.<\/p>\n<p>Apesar de terem sido criados e alimentados por setores que competem entre si, todos estes mitos t\u00eam algo em comum: o desconhecimento ou a nega\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter capitalista da conquista da Am\u00e9rica. Precisamente, nenhuma das correntes que levantam essas afirma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas sem fundamento tem vontade de romper com o capitalismo, ainda que lhe dediquem um ou outro discurso de rep\u00fadio.<\/p>\n<p>Essa car\u00eancia, essa limita\u00e7\u00e3o faz com que nenhum dos mitos resista \u00e0 an\u00e1lise objetiva\u00a0\u00e0 luz dos fatos hist\u00f3ricos, an\u00e1lise mais do que necess\u00e1ria para compreender e mudar a hist\u00f3ria &#8211; e o presente &#8211; do nosso continente.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o alguns dos mitos, t\u00e3o comuns quanto antigos, a respeito da chegada dos europeus na Am\u00e9rica e suas consequ\u00eancias:<\/p>\n<p><strong>A Am\u00e9rica foi conquistada pela superioridade das armas europeias. <\/strong>\u00c9 verdade que a tecnologia militar europeia era superior, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que os \u00fanicos avan\u00e7os inquestion\u00e1veis dos europeus foram nos territ\u00f3rios dos grandes Estados Inca e Asteca ou diante de tribos isoladas, e n\u00e3o sem uma grande resist\u00eancia. Foi assim porque, uma vez recuperados da surpresa, os combatentes nativos desenvolveram t\u00e9cnicas, t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias para neutralizar e vencer as armas europeias, chegando n\u00e3o somente a us\u00e1-las como a desenvolver com suprema habilidade uma das mais importantes: o cavalo.<\/p>\n<p>Tampouco faltaram entre os ind\u00edgenas l\u00edderes militares brilhantes ou exemplos de hero\u00edsmo. Assim, em 1824 &#8211; ano do fim do dom\u00ednio espanhol -, a Amaz\u00f4nia, o Chaco e a Patag\u00f4nia, isto \u00e9, algo em torno da metade da Am\u00e9rica do Sul, continuavam nas m\u00e3os dos ind\u00edgenas. Situa\u00e7\u00e3o similar ocorria na Am\u00e9rica do Norte. Mas por que ent\u00e3o, apesar de tudo, a resist\u00eancia ind\u00edgena n\u00e3o p\u00f4de vencer? Simplesmente porque os conquistadores eram empurrados por uma for\u00e7a hist\u00f3rica impar\u00e1vel: o desenvolvimento do capitalismo moderno, que absorvia e transformava tudo em seu caminho.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Se n\u00e3o fosse por Colombo, n\u00e3o estar\u00edamos aqui&#8221;. <\/strong>Este mito mistura a realidade de que as viagens de Colombo integraram o continente americano ao contexto mundial com a cren\u00e7a de que n\u00f3s, americanos, somos descendentes diretos e puros dos europeus, produto da vontade dos conquistadores de povoar o continente.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que em nenhum momento Colombo, os reis cat\u00f3licos ou seus sucessores tiveram o menor interesse em povoar a Am\u00e9rica: estavam somente em busca de mercadorias para coloc\u00e1-las no mercado europeu, principalmente o ouro e a prata. A l\u00f3gica de ordenhar o continente como se fosse uma vaca produziu certo povoamento mediante a introdu\u00e7\u00e3o de escravos ou a escraviza\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas que conseguiram subjugar. Isso \u00e9 o contr\u00e1rio do indicado no velho mito de que a cruzada de Colombo iniciou a <strong>&#8220;civiliza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica&#8221;.<\/strong> Quanto \u00e0 mesti\u00e7agem entre europeus e nativos, esta surgiu mais como produto da viol\u00eancia sexual sofrida pela mulher ind\u00edgena do que como um desenvolvimento desej\u00e1vel e positivo, sendo a condi\u00e7\u00e3o de mesti\u00e7o motivo de discrimina\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje em dia, desmentindo assim os mitos oficiais de <strong>&#8220;dia da ra\u00e7a&#8221;, &#8220;dia do encontro entre culturas\u201d, &#8220;dia do respeito \u00e0 diversidade cultural&#8221;, <\/strong>etc.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Ind\u00edgenas bons, europeus maus&#8221;.<\/strong> Muitos defensores dos povos nativos mostram a Am\u00e9rica pr\u00e9-colombiana quase como uma terra sem mal, um para\u00edso na Terra. Por\u00e9m, a realidade \u00e9 que quase todos os povos nativos tiveram enfrentamentos com outros. Inclusive havia grandes Estados governados por castas elitistas que subjugavam etnias inteiras, que em muitos casos resistiam com viol\u00eancia. De fato, provavelmente tenha havido lutas sociais e de poder no interior dessas complexas sociedades. Isso explica a facilidade com a qual alguns conquistadores formaram alian\u00e7as com povos nativos em suas campanhas invasoras, o que contribuiu para a queda da Am\u00e9rica ind\u00edgena.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Espanh\u00f3is&#8221; contra &#8220;\u00edndios&#8221;. <\/strong>Esse mito faz a mesma generaliza\u00e7\u00e3o err\u00f4nea para ambos os casos. Botar no mesmo &#8220;saco&#8221; centenas de culturas que viviam neste continente, como se fossem uma s\u00f3 entidade os esquim\u00f3s e os caribenhos, os iroqueses e os qu\u00e9chuas, \u00e9 t\u00e3o falso quanto afirmar que a Am\u00e9rica foi saqueada pela &#8220;Espanha&#8221;. Foi a coroa espanhola a respons\u00e1vel pol\u00edtica pela pilhagem da maior parte do continente, n\u00e3o a totalidade dos povos espanh\u00f3is. De fato, em longo prazo este saque terminou prejudicando povos inteiros da Espanha, como catal\u00e3es, galegos e bascos, que at\u00e9 hoje s\u00e3o nacionalidades oprimidas pelo centralismo castelhano e mon\u00e1rquico.<\/p>\n<p><strong>&#8220;O atraso da Am\u00e9rica Latina se deve \u00e0 sua coloniza\u00e7\u00e3o por pa\u00edses culturalmente pouco afeitos ao trabalho&#8221;. <\/strong>Tende-se a insinuar que a situa\u00e7\u00e3o de atraso dos nossos pa\u00edses \u00e9 produto de terem sido colonizados por pa\u00edses do sul da Europa, ou por n\u00e3o terem &#8220;digerido&#8221; bem os elementos &#8220;afro-ind\u00edgenas&#8221;, enquanto os ianques avan\u00e7aram por terem raiz anglo-sax\u00e3 e germano-escandinava, ou seja, branca. Mas a causa da pobreza dos nossos pa\u00edses \u00e9 a riqueza dos seus recursos naturais, que os colonizadores e seus herdeiros da burguesia nativa se dedicaram a explorar e colocar no mercado quase sem agregar-lhe valor. No caso ianque, o norte evoluiu\u00a0de uma col\u00f4nia de camponeses independentes &#8211; que formaram um mercado interno s\u00f3lido por n\u00e3o terem mat\u00e9rias primas para oferecer ao mercado mundial &#8211; at\u00e9 desenvolver a navega\u00e7\u00e3o e a manufatura conquistando a independ\u00eancia e o seu poder atual; n\u00e3o sem antes derrotar a parte &#8220;latino-americana&#8221; dentro da sua na\u00e7\u00e3o: o sul escravista e agr\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 preciso deixar para tr\u00e1s estes acontecimentos sepultados pela hist\u00f3ria, etc.&#8221;. Umas pinceladas de corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica institucional n\u00e3o v\u00e3o apagar os fatos. O racismo, a situa\u00e7\u00e3o em que os nativos vivem, o atraso dos nossos pa\u00edses t\u00eam sua raiz na causa e na consequ\u00eancia do 12 de Outubro: o capitalismo mundial que reserva a nossos pa\u00edses a condi\u00e7\u00e3o de saqueados. A pilhagem da Am\u00e9rica e as guerras de escraviza\u00e7\u00e3o contra os nativos da Am\u00e9rica continuam (esses nativos hoje somos n\u00f3s, por mais brancos e euro-descendentes que sejamos). E continuam porque nossos pa\u00edses est\u00e3o dominados por uma classe social que participa dessa pilhagem que Colombo iniciou. A tarefa de ruptura com a heran\u00e7a de Colombo iniciada pelos patriotas revolucion\u00e1rios do s\u00e9culo XIX foi truncada pelos setores sociais que acabaram ficando no poder em nossos pa\u00edses. N\u00e3o se pode fechar uma ferida que ainda supura, o racismo n\u00e3o acabar\u00e1 enquanto n\u00e3o sejam derrubadas as divis\u00f5es e as fronteiras que nos impuseram para melhor nos dominar. O 12 de Outubro continuar\u00e1 sendo um dia de luto enquanto nossos pa\u00edses continuem prostrados e sendo saqueados. A tarefa de conquistar a liberdade do nosso continente segue plenamente atual sob a forma de luta pela segunda e definitiva independ\u00eancia que completar\u00e1 a independ\u00eancia formal conquistada h\u00e1 cerca de dois s\u00e9culos.<\/p>\n<p>E essa segunda independ\u00eancia, tarefa reservada aos trabalhadores e povos explorados e oprimidos do continente, ser\u00e1 o ponto de partida para acabar com o sistema nascido no dia 12 de Outubro, que p\u00f4s a riqueza de um continente e a vida e liberdade de milh\u00f5es a servi\u00e7o da busca desenfreada pelo lucro: o capitalismo. S\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel falar em &#8220;encontro&#8221; ou &#8220;respeito \u00e0 diversidade&#8221; quando sobre as ru\u00ednas desta injusti\u00e7a tornada ordem mundial se levante uma nova sociedade baseada em que cada um possa dar de acordo com suas capacidades e receber de acordo com suas necessidades: um mundo socialista.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Pedro Silveira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chegada de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo e a coloniza\u00e7\u00e3o deram origem a afirma\u00e7\u00f5es que pouco t\u00eam a ver com a realidade, a partir das quais os conquistadores e seus descendentes trataram de se justificar.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":12817,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[8204],"class_list":["post-12816","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","tag-colonizacao-da-america"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/colombo1.jpg","categories_names":["Hist\u00f3ria"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12816","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12816"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12816\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12817"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}