{"id":12538,"date":"2015-11-08T23:32:45","date_gmt":"2015-11-09T01:32:45","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/?p=12538"},"modified":"2015-11-08T23:32:45","modified_gmt":"2015-11-09T01:32:45","slug":"existe-vida-fora-do-euro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2015\/11\/08\/existe-vida-fora-do-euro\/","title":{"rendered":"Existe vida fora do euro?\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><em>O \u201ceurope\u00edsmo de esquerda\u201d baseia-se na vis\u00e3o de que n\u00e3o existe alternativa, algo como \u201cn\u00e3o h\u00e1 vida fora do euro\u201d. \u00c9 o mesmo que dizer que n\u00e3o existe alternativa a n\u00e3o ser tentar melhorar o capitalismo imperialista como este se apresenta hoje.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o foi expressada com clareza por Yanis Varoufakis, ex-ministro de Economia do governo do Syriza (apesar de ter sa\u00eddo\u00a0\u201cpela esquerda\u201d desse governo e votado corretamente contra o \u00faltimo acordo com a Troika). Em um livro publicado em 2013, Varoufakis afirma que uma sa\u00edda da Gr\u00e9cia, Portugal ou It\u00e1lia da zona euro produziria a fragmenta\u00e7\u00e3o do capitalismo europeu e que essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o beneficiaria a esquerda progressista, mas os nazistas da Aurora Dourada e os diversos neofascistas e xen\u00f3fobos europeus.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o da realidade \u00e9 profundamente derrotista e leva a pol\u00edticas desastrosas. Em primeiro lugar, a \u201cfragmenta\u00e7\u00e3o do capitalismo europeu\u201d n\u00e3o \u00e9 o fator principal que faz a Aurora Dourada e as outras organiza\u00e7\u00f5es da extrema direita europeia crescer e ganhar base popular, e sim a falta da apresenta\u00e7\u00e3o de uma alternativa clara e firme por parte da esquerda.<\/p>\n<p>Qual seria essa alternativa? Para que os trabalhadores n\u00e3o paguem a conta por ficar no euro ou inclusive se a Gr\u00e9cia sair do euro, s\u00e3o necess\u00e1rias\u00a0verdadeiras medidas anticapitalistas. No caso da Gr\u00e9cia e de outros pa\u00edses europeus em condi\u00e7\u00f5es similares, come\u00e7aria por deixar de pagar a fraudulenta d\u00edvida externa. Portanto, \u00e9 imprescind\u00edvel a nacionaliza\u00e7\u00e3o e estatiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro e do com\u00e9rcio exterior para criar um \u00fanico banco centralizado que possa emitir sua pr\u00f3pria moeda e, com isso, recuperar (ao menos em parte) sua soberania pol\u00edtica e financeira. Ao mesmo tempo, \u00e9 uma medida necess\u00e1ria para evitar a fuga de capitais que as empresas imperialistas e a grande burguesia grega j\u00e1 est\u00e3o fazendo.<\/p>\n<p>As empresas imperialistas e a grande burguesia grega seguramente tentar\u00e3o fazer com que esta pol\u00edtica fracasse. Por isso, tamb\u00e9m ser\u00e1 necess\u00e1rio expropriar e estatizar essas empresas. Assim, com o controle do conjunto dos principais setores da economia, o Estado poder\u00e1 aplicar um plano econ\u00f4mico de emerg\u00eancia para resolver\u00a0as necessidades mais urgentes dos trabalhadores e do povo.<\/p>\n<p>Nenhum governo burgu\u00eas (mesmo que\u00a0se nomeie de \u201cesquerda\u201d) pode nem quer\u00a0aplicar este plano. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio um governo dos trabalhadores e do povo para lev\u00e1-lo adiante. Um governo que s\u00f3 pode surgir da luta que os trabalhadores e o povo grego j\u00e1 mostraram que s\u00e3o capazes de levar adiante e que dever\u00e1 avan\u00e7ar para a conquista do poder. Uma luta que hoje dever\u00e1\u00a0se desenvolver\u00a0contra o governo do Syriza e o bloco de poder que este\u00a0constituiu com a Nova Democracia e o Pasok.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, um governo deste tipo deve estar baseado em organismos democr\u00e1ticos dos trabalhadores e do povo (como foram os soviets na R\u00fassia, em 1917). Em outras palavras, o caminho a percorrer \u00e9 o da revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e socialista. N\u00e3o estamos dizendo que este seja um \u201ccaminho de flores\u201d. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma alternativa muito dura e dif\u00edcil porque parte da destrui\u00e7\u00e3o e da decad\u00eancia da economia grega, geradas pela ades\u00e3o \u00e0 UE e pela aplica\u00e7\u00e3o dos planos da Troika, que n\u00e3o pode ser resolvida preservando os lucros dos bancos e grandes empresas.<\/p>\n<p>Se alguma coisa foi demonstrada nos \u00faltimos anos \u00e9 que (contradizendo as organiza\u00e7\u00f5es como o Syriza) \u201ca vida dos trabalhadores e do povo se acaba\u00a0dentro do euro\u201d. O aumento exponencial da pobreza, o desemprego, os sal\u00e1rios de mis\u00e9ria e a decad\u00eancia completa da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas est\u00e3o a\u00ed para comprovar isso.\u00a0Este \u00e9 o verdadeiro desastre. Tal como respondia Albert Einstein a quem o acusava de \u201clouco\u201d: <em>\u201cLoucura \u00e9 esperar resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Uma luta europeia<\/strong><\/p>\n<p>Sabemos tamb\u00e9m que \u00e9 muito dif\u00edcil a sobreviv\u00eancia isolada de uma economia como a grega. Por isso, o que dizemos \u00e9 que, se a Gr\u00e9cia for o ponto de partida, o processo deve imprescindivelmente se ampliar em\u00a0n\u00edvel continental, contra o imperialismo europeu (expresso na UE) em seu conjunto. N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o \u00e0 crise capitalista que possa ser apenas nacional.<\/p>\n<p>O \u201cefeito demonstra\u00e7\u00e3o\u201d que um processo deste tipo na Gr\u00e9cia provocaria\u00a0deve tentar ser expandido, em primeiro lugar, aos pa\u00edses mais castigados pela ades\u00e3o \u00e0 UE e \u00e0 zona do euro e \u00e0s amarras da d\u00edvida externa, como Irlanda, Portugal, Litu\u00e2nia e Bulg\u00e1ria. E inclusive a pa\u00edses um pouco mais fortes, como Espanha e It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses centrais, como Alemanha, Fran\u00e7a e Inglaterra, o que estaria colocado\u00a0de modo imediato para seus trabalhadores e seus povos seria a solidariedade com os pa\u00edses mais fr\u00e1geis, e a luta contra seus pr\u00f3prios governos, que tentar\u00e3o por todos os meios pol\u00edticos, econ\u00f4mico e inclusive militares derrotar os \u201crebeldes\u201d. Trata-se da \u201cluta contra o seu pr\u00f3prio imperialismo\u201d que propunha Lenin, o que exige, em primeiro lugar, a dissolu\u00e7\u00e3o da UE.<\/p>\n<p>Diante da Europa do capitalismo imperialista (a que construiu e utiliza a \u201cm\u00e1quina de guerra\u201d da UE) opomos o europe\u00edsmo dos povos, na perspectiva da constru\u00e7\u00e3o de uma Uni\u00e3o Livre dos Estados Europeus. A destrui\u00e7\u00e3o da UE, longe de nos\u00a0levar de volta aos\u00a0\u201cnacionalismos retr\u00f3grados\u201d, deve ser o ponto de partida do verdadeiro internacionalismo, unindo os trabalhadores e os povos de todos os pa\u00edses do continente.<\/p>\n<p><strong>A palavra de ordem de ruptura\u00a0com a UE<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;O problema da palavra de ordem de Ruptura com a UE engloba\u00a0temas cruciais nos programas dos partidos e reflete o debate te\u00f3rico a respeito do car\u00e1ter e da din\u00e2mica da revolu\u00e7\u00e3o europeia. A teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente afirma\u00a0que as revolu\u00e7\u00f5es em cada um dos pa\u00edses fazem parte da revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional que combina diferentes tarefas e revolu\u00e7\u00f5es na marcha para a revolu\u00e7\u00e3o mundial<sup>1<\/sup>. A exist\u00eancia de pa\u00edses imperialistas e semicoloniais, no interior da UE, combina as diferentes tarefas nacionais e as unifica como parte da revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional. Diante do falso dilema entre propor uma sa\u00edda nacionalista ou negar a domina\u00e7\u00e3o imperialista na UE, \u00e9 necess\u00e1rio reafirmar a alternativa internacionalista e revolucion\u00e1ria<\/em>.<\/p>\n<p><em>A rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 UE \u00e9 um passo para a palavra de ordem de Ruptura, que nos pa\u00edses dominados \u00e9 uma ponte para disputar a consci\u00eancia dos trabalhadores e fazer avan\u00e7ar para as medidas anticapitalistas de transi\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias para defender o pa\u00eds: suspender (n\u00e3o pagar) a d\u00edvida, expropriar o sistema financeiro e estatizar os setores e empresas estrat\u00e9gicas sob controle dos trabalhadores. A domina\u00e7\u00e3o imperialista \u00e9 parte estrutural do capitalismo e sua express\u00e3o nos pa\u00edses dominados. O programa marxista revolucion\u00e1rio n\u00e3o separa a tarefa de liberta\u00e7\u00e3o nacional da luta contra a austeridade e os ataques aos trabalhadores, j\u00e1 que sua explora\u00e7\u00e3o por parte da burguesia perif\u00e9rica se combina e se sujeita\u00a0ao dom\u00ednio imperialista. Se em vez de defender a Ruptura com a UE vamos nos contrapor aos trabalhadores, dizendo-lhes que est\u00e3o colocando o problema ao contr\u00e1rio e do que se trata \u00e9 de &#8220;lutar contra o capitalismo\u201d, ent\u00e3o entregaremos a luta contra a UE \u00e0 ultradireita, aos nacionalistas e aos populistas.<\/em><\/p>\n<p><em>A luta contra a UE expressa o car\u00e1ter internacional da revolu\u00e7\u00e3o socialista no continente europeu, pois unifica os interesses dos trabalhadores de todo o continente. Enquanto o proletariado dos pa\u00edses dominados e sob interven\u00e7\u00e3o deve propor a ruptura com a UE, nos pa\u00edses imperialistas centrais trata-se de colocar em primeiro plano a luta contra o pr\u00f3prio imperialismo, o que significa defender a dissolu\u00e7\u00e3o da UE, que \u00e9 a m\u00e1quina que centraliza e instrumentaliza os ataques imperialistas. Os interesses de classe devem se expressar\u00a0em tarefas comuns para o momento presente sobre a base do internacionalismo oper\u00e1rio. Longe de retroceder para o \u201cnacionalismo\u201d, a dissolu\u00e7\u00e3o\/ruptura da UE \u00e9 o ponto de converg\u00eancia que pode unificar em sua luta comum contra o ajuste estrutural o proletariado dos dois lados da cadeia de domina\u00e7\u00e3o imperialista europeia.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0(Documento da LIT-QI, aprovado no XI Congresso &#8211; abril de 2014).<\/em><\/p>\n<p>Nota:<\/p>\n<p>1. MORENO, Nahuel. Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o, Tese XXXIX. Atualidade da Teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e da Lei do Desenvolvimento Desigual e Combinado.<\/p>\n<p><em>Artigo publicado na revista Correio Internacional n.<sup>o<\/sup> 13, agosto de 2015.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u201ceurope\u00edsmo de esquerda\u201d baseia-se na vis\u00e3o de que n\u00e3o existe alternativa, algo como \u201cn\u00e3o h\u00e1 vida fora do euro\u201d. \u00c9 o mesmo que dizer que n\u00e3o existe alternativa a n\u00e3o ser tentar melhorar o capitalismo imperialista como este se apresenta hoje.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":12539,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[4280,8084,3477],"tags":[8174,8090,343,8175,6328,6473,3133,4000],"class_list":["post-12538","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-correio-internacional","category-especial-grecia-syriza","category-grecia","tag-euro","tag-grecia","tag-imperialismo-2","tag-revolucao-europeia","tag-revolucao-permanente","tag-syriza","tag-troika","tag-uniao-europeia"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/euro.jpg","categories_names":["Correio Internacional","Especial Gr\u00e9cia-Syriza","Gr\u00e9cia"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12538","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12538"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12538\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12539"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12538"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12538"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12538"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}