{"id":12271,"date":"2015-11-01T16:49:04","date_gmt":"2015-11-01T18:49:04","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/?p=12271"},"modified":"2015-11-01T16:49:04","modified_gmt":"2015-11-01T18:49:04","slug":"lenin-e-trotsky-e-o-debate-marxista-sobre-as-tarefas-da-revolucao-na-russia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2015\/11\/01\/lenin-e-trotsky-e-o-debate-marxista-sobre-as-tarefas-da-revolucao-na-russia\/","title":{"rendered":"Lenin e Trotsky e o debate marxista sobre as tarefas da revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia"},"content":{"rendered":"<p><em>Em janeiro de 1905, uma multid\u00e3o de oper\u00e1rios de diversos ramos da ind\u00fastria, 200 mil pessoas segundo estimativas da \u00e9poca, entre homens, mulheres e crian\u00e7as, haviam marchado para o centro da cidade de S\u00e3o Petersburgo, na R\u00fassia, com o objetivo de protestarem frente ao todo poderoso Tzar, Nicolau II, contra as duras condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho que se abatiam sobre a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Sob a lideran\u00e7a do padre George Gapon, a multid\u00e3o caminhava pacificamente e sem armas (os que estavam armados tinham tido suas armas recolhidas por ordens de Gapon), com muitos levando imagens de Nicolau II e entoando cantos religiosos e o \u201cDeus salve o Tzar\u201d.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Carlos Zacarias F. de Sena J\u00fanior<\/p>\n<p>Os trabalhadores, que reivindicavam jornada de oito horas, sal\u00e1rio m\u00ednimo de um rublo por dia, aboli\u00e7\u00e3o da hora extra compuls\u00f3ria sem pagamento e liberdade de organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinham ideia de que os acontecimentos que protagonizariam em seguida dariam ensejo a um processo hist\u00f3rico de transforma\u00e7\u00f5es que ganhariam a R\u00fassia e o mundo. N\u00e3o obstante, marchavam pacificamente levando consigo as d\u00e9cadas de atraso de um pa\u00eds semifeudal, oprimido por s\u00e9culos de autocracia, mis\u00e9ria e fome.<\/p>\n<p>No texto da peti\u00e7\u00e3o que a multid\u00e3o pretendia entregar a Nicolau II, constava muito mais do que meras reivindica\u00e7\u00f5es por melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora, pois a R\u00fassia era um dos pa\u00edses mais atrasados da Europa e um dos pa\u00edses em que as hierarquias da sociedade nobili\u00e1rquica, onde apenas na segunda metade do s\u00e9culo XIX os servos se haviam libertado, prevaleciam sobre a maioria da popula\u00e7\u00e3o das cidades e dos campos. Desta maneira, ficava evidente que, ao lado da R\u00fassia moderna do proletariado que pretendia emergir com as suas reivindica\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es de massa, repousava ainda um bocado de passado de um pa\u00eds arcaico, mergulhado no obscurantismo que dialeticamente vinha sendo superado, como aparece no texto da peti\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cSenhor \u2013 N\u00f3s, oper\u00e1rios residentes da cidade de S\u00e3o Petersburgo, de v\u00e1rias classes e condi\u00e7\u00f5es sociais, nossas esposas, nossos filhos e nossos desamparados velhos pais, viemos a V\u00f3s, Senhor, para buscar justi\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o. N\u00f3s nos tornamos indigentes; estamos oprimidos e sobrecarregados de trabalho, al\u00e9m de nossas for\u00e7as; n\u00e3o somos reconhecidos como seres humanos, mas tratados como escravos que devem suportar em sil\u00eancio seu amargo destino. N\u00f3s o temos suportado e estamos sendo empurrados mais e mais para as profundezas da mis\u00e9ria, injusti\u00e7a e ignor\u00e2ncia. Estamos sendo t\u00e3o sufocados pela justi\u00e7a e lei arbitr\u00e1ria que n\u00e3o mais podemos respirar. Senhor, n\u00e3o temos mais for\u00e7as! Nossas resist\u00eancias est\u00e3o no fim. Chegamos ao terr\u00edvel momento em que \u00e9 prefer\u00edvel a morte a prosseguir neste intoler\u00e1vel sofrimento.\u201d<sup>1<\/sup><\/p>\n<p>Apesar de sua marcha pac\u00edfica e ordeira, Nicolau II parecia n\u00e3o ter interesse em conhecer o teor das reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e terminou n\u00e3o tendo o privil\u00e9gio de ler o texto da peti\u00e7\u00e3o, talvez o \u00faltimo de uma longa era, pois a multid\u00e3o conduzida pelo Padre Gapon nem chegou a se aproximar do imponente Pal\u00e1cio do Tzar. Cercada por \u201ccerca de 20 mil soldados fortemente armados\u201d, que atiraram indiscriminadamente nos trabalhadores a uma dist\u00e2ncia m\u00ednima de poucos metros, centenas ou talvez mais de um milhar de mortos levaram consigo para as sepulturas parte das cinzas de uma R\u00fassia que come\u00e7ava a desaparecer. Foi um massacre e, apesar de n\u00e3o se saber quantos haviam sido mortos naquele \u201cdomingo sangrento\u201d, sabia-se, por certo, \u201cque uma \u00e9poca da hist\u00f3ria russa havia conclu\u00eddo abruptamente e uma revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ara\u201d.<sup>2<\/sup><\/p>\n<p>Em fevereiro de 1905, uma onda de greves varreu toda a R\u00fassia em resposta ao massacre do dia 9 de janeiro em S\u00e3o Petersburgo. Envolvendo cerca de um milh\u00e3o de trabalhadores e atingindo mais de cento e vinte cidades, paralisando minas, ferrovias e in\u00fameras f\u00e1bricas, o conte\u00fado das greves que sacudiram a R\u00fassia em 1905 produziu muito mais do que algumas simples transforma\u00e7\u00f5es nas rela\u00e7\u00f5es entre a sociedade e a autocracia, ou entre os trabalhadores das f\u00e1bricas e os patr\u00f5es. Foi uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o no sentido estrito do termo, pois a R\u00fassia semifeudal e majoritariamente camponesa deixava para tr\u00e1s toda uma era de obscurantismo e arca\u00edsmo nas rela\u00e7\u00f5es entre as classes e a hist\u00f3ria assistia, pela primeira vez, o nascimento de uma experi\u00eancia in\u00e9dita produzida pelos trabalhadores urbanos, os modernos prolet\u00e1rios. Com efeito, os sovietes foram o resultado mais importante do ensaio de 1905, como organismos de duplo poder que dirigiram a revolu\u00e7\u00e3o e produziram as transforma\u00e7\u00f5es qualitativas exigidas pela maioria da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o obstante o novo ainda estivesse por nascer, o velho havia sido superado pela hist\u00f3ria, assim como o fora o Padre Gapon que dali por diante teria um papel muito menor do que o de outras lideran\u00e7as emergentes da velha R\u00fassia.<\/p>\n<p>Os acontecimentos ocorridos no dia 9 de janeiro de 1905, que os historiadores passaram a chamar de \u201censaio geral\u201d da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, inauguraram um longo processo de entrada em cena da classe trabalhadora daquele pa\u00eds, que viveu momentos de fluxo e refluxo das suas lutas, at\u00e9 que pudessem tomar o poder em Outubro de 1917. Mais do que um \u201censaio geral\u201d, entretanto, os significados da revolu\u00e7\u00e3o de 1905 na R\u00fassia iriam al\u00e9m das transforma\u00e7\u00f5es que ela produziu na terra dos Urais, pois daria oportunidade a que as principais lideran\u00e7as dos posteriores acontecimentos de 1917, Lenin e Trotsky, produzissem reflex\u00f5es que redimensionariam o marxismo esterilizado dos gabinetes da socialdemocracia europeia.<\/p>\n<p><strong>As tarefas da revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia<\/strong><\/p>\n<p>Falando dos acontecimentos daqueles anos, Trotsky se referiu ao uso que a hist\u00f3ria fez do \u201cfant\u00e1stico plano de Gapon\u201d que culminou na conclus\u00e3o revolucion\u00e1ria de 1905 e na forma\u00e7\u00e3o dos sovietes.<sup>3<\/sup>\u00a0Trotsky, que em 1905 havia presidido o soviete de S\u00e3o Petersburgo, o mais importante de todo o pa\u00eds, esteve empenhado em estudar a fundo as implica\u00e7\u00f5es de uma revolu\u00e7\u00e3o num pa\u00eds t\u00e3o atrasado como a R\u00fassia. Em fun\u00e7\u00e3o disso, travou uma das mais prof\u00edcuas pol\u00eamicas no interior do marxismo, pol\u00eamica esta que culminou na elabora\u00e7\u00e3o da teoria da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Permanente\u201d que, curiosamente, nas suas origens, op\u00f4s o futuro comandante do Ex\u00e9rcito Vermelho ao l\u00edder m\u00e1ximo do Partido Bolchevique.<\/p>\n<p>Os termos do debate ocorrido em torno dos acontecimentos de 1905 remontam a um dos principais postulados do materialismo hist\u00f3rico que defende que uma \u201corganiza\u00e7\u00e3o social nunca desaparece antes que se desenvolvam todas as for\u00e7as produtivas que ela \u00e9 capaz de conter\u201d.<sup>4<\/sup>\u00a0Neste sentido, quais as possibilidades de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista triunfar num pa\u00eds t\u00e3o atrasado como a R\u00fassia que sequer tinha desenvolvido completamente rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o do tipo capitalistas?<\/p>\n<p>Para Lenin, que no curso dos acontecimentos de 1905 desenvolveu um texto em pol\u00eamica com os mencheviques, a conquista do poder pelo proletariado, colocada na ordem do dia, n\u00e3o implicava numa imediata transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, haja vista a impossibilidade de se saltar etapas.<sup>5<\/sup>\u00a0Lenin tinha em mente que o que estava em jogo na R\u00fassia era a revolu\u00e7\u00e3o burguesa e suas tarefas democr\u00e1ticas e por isso propunha a consigna de \u201cditadura revolucion\u00e1ria e democr\u00e1tica do proletariado e do campesinato\u201d. Mas Lenin advertia aos mencheviques que, apesar de suas tarefas democr\u00e1ticas, portanto burguesas, as for\u00e7as sociais que se opunham ao tzarismo, e que, portanto, deveriam se perfilar para a \u201cvit\u00f3ria decisiva\u201d sobre a autocracia, n\u00e3o poderiam contar com a presen\u00e7a da grande burguesia e dos latifundi\u00e1rios, visto \u201cque eles nem sequer desejam uma vit\u00f3ria decisiva\u201d. Para o l\u00edder bolchevique, a burguesia russa era incapaz, \u201cpela sua situa\u00e7\u00e3o de classe\u201d, de empreender uma luta decisiva contra o tzarismo, justamente porque \u201ca propriedade privada, o capital e a terra\u201d eram um lastro demasiadamente pesado para esta classe. Neste sentido, Lenin entendia que a \u201c\u00fanica for\u00e7a capaz de obter \u2018vit\u00f3ria decisiva sobre o tzarismo\u2019\u201d s\u00f3 podia ser o \u201cpovo, isto \u00e9, o proletariado e o campesinato, se se tomar as grandes for\u00e7as fundamentais e se se distribuir a pequena burguesia rural e urbana (tamb\u00e9m \u2018povo\u2019) entre um e outro\u201d. N\u00e3o obstante, a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia, para Lenin, n\u00e3o converteria \u201cainda, de forma alguma,\u201d a revolu\u00e7\u00e3o russa de burguesa a socialista. De acordo com o l\u00edder russo, que antevia os profundos significados das transforma\u00e7\u00f5es que se come\u00e7avam a produzir na R\u00fassia, a \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d n\u00e3o ultrapassaria \u201cdiretamente os limites das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais burguesas\u201d, e embora se fizesse apesar da burguesia, teria \u201cimport\u00e2ncia gigantesca para o desenvolvimento futuro da R\u00fassia e do mundo inteiro\u201d.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>O fato \u00e9 que em 1905, enquanto combatia os primeiros passos do reformismo no seu pa\u00eds, representado pela corrente menchevique, Lenin raciocinava rigorosamente dentro dos limites das proposi\u00e7\u00f5es do materialismo hist\u00f3rico de Marx e Engels que pressupunha que as transforma\u00e7\u00f5es profundas nas sociedades s\u00f3 poderiam ocorrer em meio a condi\u00e7\u00f5es materiais concretas, de maneira que \u201ca humanidade s\u00f3 levanta problemas que \u00e9 capaz de resolver\u201d. Em todo caso, se a humanidade havia levantado o problema da tomada do poder pelo proletariado, n\u00e3o era o caso de as condi\u00e7\u00f5es estarem efetivamente colocadas para uma revolu\u00e7\u00e3o socialista na R\u00fassia? Com efeito, caberia se perguntar sobre os limites e possibilidades de um outro postulado do materialismo hist\u00f3rico, tamb\u00e9m central da formula\u00e7\u00e3o marxiana e engelsiana e intimamente articulado com as condi\u00e7\u00f5es objetivas legadas pelo passado, que dizia que eram os homens que faziam a hist\u00f3ria. Desta forma, foi justamente Trotsky que descobriu o caminho que traria a revolu\u00e7\u00e3o das suas tarefas democr\u00e1ticas para o socialismo, atrav\u00e9s da teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, contribuindo de forma original e inovadora para superar a letargia do formalismo que pesava sobre o pensamento marxista europeu.<\/p>\n<p>Sobre o assunto, Trotsky se dedicou a estudar o desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia no in\u00edcio do s\u00e9culo XX e as for\u00e7as motrizes da revolu\u00e7\u00e3o, para propor que, no que se referia \u00e0s suas tarefas diretas e indiretas, a revolu\u00e7\u00e3o russa seria uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o \u2018burguesa\u2019, porque se prop\u00f5e libertar a sociedade burguesa das correntes e grilh\u00f5es do absolutismo e da propriedade feudal\u201d. Contudo, pensava Trotsky, se a principal for\u00e7a condutora da revolu\u00e7\u00e3o russa era a classe oper\u00e1ria, a revolu\u00e7\u00e3o era \u201cprolet\u00e1ria no que diz respeito ao seu m\u00e9todo\u201d.<sup>7<\/sup>\u00a0(p. 66) Ou seja, se em 1905 o proletariado russo havia avan\u00e7ado em nome dos seus pr\u00f3prios objetivos, quase todos eles contrapostos aos objetivos da pr\u00f3pria burguesia que se limitava \u00e0s tarefas democr\u00e1ticas da transforma\u00e7\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia fazer retornar a \u201cunidade da na\u00e7\u00e3o burguesa\u201d, de maneira que, na \u201crevolu\u00e7\u00e3o burguesa sem uma burguesia revolucion\u00e1ria\u201d, o proletariado seria conduzido \u201cpelo desenvolvimento interno dos acontecimentos&#8221; a assumir a hegemonia sobre o campesinato e a luta pelo poder do Estado.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, Trotsky n\u00e3o ignorava que o atraso do desenvolvimento russo poderia dificultar, ou mesmo impedir, o sucesso completo da revolu\u00e7\u00e3o naquele pa\u00eds. Ou seja, para aqueles que apressadamente poderiam dizer \u201cvoluntarista\u201d a formula\u00e7\u00e3o trotskiana, cabe mencionar que no seu estudo mais importante sobre o assunto, <em>Balan\u00e7os e Perspectivas<\/em>, Trotsky partiu das for\u00e7as da necessidade hist\u00f3rica para propor que, apesar das condi\u00e7\u00f5es objetivas legadas pelo passado, s\u00e3o os homens que fazem a hist\u00f3ria.<sup>8<\/sup>\u00a0Desta maneira, o presidente do soviete de S\u00e3o Petersburgo defendia a possibilidade de que a R\u00fassia pudesse \u201csaltar etapas\u201d, tendo em vista que, de nenhuma maneira, uma sociedade atrasada, tendo diante de si um modelo hist\u00f3rico j\u00e1 pronto e desenvolvido, precisaria necessariamente percorrer o mesmo caminho da sociedade avan\u00e7ada. De acordo com Trotsky, isso ocorria em virtude da exist\u00eancia de uma outra lei hist\u00f3rica do desenvolvimento da sociedade descoberta pelo marxismo, qual seja, a lei do desenvolvimento desigual e combinado que aparece enunciada plenamente no seu texto sobre a <em>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>:<\/p>\n<p>\u201cAs leis da Hist\u00f3ria nada t\u00eam em comum com os sistemas pedantescos. A desigualdade do ritmo, que \u00e9 a lei mais geral do <em>processus<\/em> hist\u00f3rico, evidencia-se com maior vigor e complexidade nos destinos dos pa\u00edses atrasados. Sob o chicote das necessidades externas, a vida retardat\u00e1ria v\u00ea-se na conting\u00eancia de avan\u00e7ar aos saltos. Desta lei universal da desigualdade dos ritmos decorre outra lei que, por falta de uma denomina\u00e7\u00e3o apropriada, chamaremos de lei do desenvolvimento combinado, que significa aproxima\u00e7\u00e3o das diversas etapas, combina\u00e7\u00e3o das fases diferenciadas, am\u00e1lgama das formas arcaicas com as mais modernas. Sem esta lei, tomada, bem entendido, em todo o seu conjunto material, \u00e9 imposs\u00edvel compreender a hist\u00f3ria da R\u00fassia, como em geral a de todos os pa\u00edses chamados \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o em segunda, terceira ou d\u00e9cima linha.\u201d<sup>9<\/sup><\/p>\n<p>Neste sentido, quando pensava nas possibilidades de uma vit\u00f3ria do socialismo num pa\u00eds atrasado, Trotsky respondia a quest\u00e3o apenas de forma condicional, remetendo a outros aspectos que diretamente influenciariam nas possibilidades do socialismo vingar na R\u00fassia. Com efeito, dizia Trotsky, caso o proletariado tivesse \u00eaxito em conquistar a hegemonia pol\u00edtica sobre o campesinato, cujos interesses democr\u00e1ticos poderiam lev\u00e1-los para o campo da burguesia, e dessa forma exceder \u201cos limites nacionais da revolu\u00e7\u00e3o russa, ent\u00e3o essa revolu\u00e7\u00e3o pode tornar-se o pr\u00f3logo de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial\u201d.<sup>10<\/sup>\u00a0Ou seja, para o dirigente russo, as possibilidades de o socialismo vingar na R\u00fassia nas condi\u00e7\u00f5es em que uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria tomasse novamente aquele solo diziam respeito ao fato de que nenhum pa\u00eds poderia ser pensado isoladamente e nenhuma revolu\u00e7\u00e3o poderia triunfar plenamente nos marcos e nos limites de uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>1917: \u00a0a revolu\u00e7\u00e3o permanente<\/strong><\/p>\n<p>Os resultados dos acontecimentos hist\u00f3ricos que se abateram sobre a R\u00fassia em 1917 deram raz\u00e3o aos postulados e vatic\u00ednios de Trotsky. Contudo, sem o g\u00eanio pol\u00edtico de Lenin, a revolu\u00e7\u00e3o de Outubro muito dificilmente teria logrado sucesso, isto porque se os resultados do embate entre Lenin e Trotsky em 1905-1907 n\u00e3o devem ser considerados como os mais importantes nos desdobramentos da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, n\u00e3o deixa de ser importante o fato de que foi da converg\u00eancia de posi\u00e7\u00f5es dos dois grandes l\u00edderes revolucion\u00e1rios que se produziu a melhor s\u00edntese que permitiu ao marxismo russo superar dialeticamente seus cong\u00eaneres europeus. Trotsky parece ter sido vitorioso no que tange a efetividade pr\u00e1tica de sua teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, mas sem a teoria do partido de Lenin, que lutara arduamente para edificar a ferramenta indispens\u00e1vel do Partido Bolchevique, inicialmente criticada por Trotsky, a revolu\u00e7\u00e3o muito dificilmente teria tido sucesso na R\u00fassia. E se Trotsky reconheceu a superioridade da formula\u00e7\u00e3o leniniana do partido j\u00e1 em 1917, quando aderiu \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o bolchevique e dirigiu, junto com Lenin, a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, Lenin, \u00e0 sua maneira, aderiu \u00e0 formula\u00e7\u00e3o trotskiana da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente em abril de 1917, atrav\u00e9s das famosas <em>Teses de Abril<\/em>. Estas colocaram a tomada do poder pelos sovietes na ordem do dia para os bolcheviques, que tamb\u00e9m passaram a ser exortados por Lenin a fazerem transitar a revolu\u00e7\u00e3o da sua etapa burguesa para a etapa socialista.<sup>11<\/sup><\/p>\n<p>Para o l\u00edder bolchevique, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro e os acontecimentos que se produziram na consci\u00eancia dos trabalhadores russos em poucos meses, colocar a conclus\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o burguesa nos marcos de uma longa etapa, como havia pensado originalmente em 1905, seria esterilizar o marxismo que \u00e9, antes de tudo, \u201can\u00e1lise concreta de situa\u00e7\u00e3o concreta\u201d. Neste sentido, pensava Lenin, na circunst\u00e2ncia em que uma guerra atingia a Europa e as possibilidades do socialismo na R\u00fassia se ligavam umbilicalmente \u00e0 vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o mundial, a revolu\u00e7\u00e3o russa seria, apenas, \u201ca primeira etapa da primeira das revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias geradas inevitavelmente pela guerra\u201d. Por isto, a tarefa urgente dos bolcheviques era lutar pelo papel dirigente do proletariado na revolu\u00e7\u00e3o e \u201cexplicar ao povo a urg\u00eancia de uma s\u00e9rie de passos praticamente maduros em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo\u201d.<sup>12<\/sup><\/p>\n<p>O sucesso da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917, na R\u00fassia, foi o resultado de um longo processo de amadurecimento de condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que, de maneira desigual e combinada, prepararam o mundo para o socialismo. Evidentemente que os desdobramentos daquela experi\u00eancia que produziram a contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista e a ascens\u00e3o da burocracia tamb\u00e9m estiveram relacionados a condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas muito particulares. N\u00e3o obstante, como a nenhum marxista \u00e9 dado o direito de raciocinar apenas sobre os termos em que os fatores objetivos criam as condi\u00e7\u00f5es para a emerg\u00eancia das subjetividades, deve-se afirmar que, ao lado das condi\u00e7\u00f5es produzidas pela necessidade hist\u00f3rica, caminharam sempre os fatores da vontade e da ag\u00eancia humana. Sendo assim, da mesma forma que as derrotas posteriores da revolu\u00e7\u00e3o mundial foram provocadas pela presen\u00e7a de dire\u00e7\u00f5es stalinistas que estiveram \u00e0 frente dos diversos processos, sempre a servi\u00e7o da teoria do \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d, a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa em 1917 deveu-se \u00e0 exist\u00eancia de g\u00eanios pol\u00edticos da estatura de Lenin e Trotsky, que estudaram a fundo as leis da necessidade hist\u00f3rica e os significados das revolu\u00e7\u00f5es para que pudessem incidir a fundo sobre a pol\u00edtica de maneira a mudar o rumo da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>1. Apud BERMAN, Marshal. Tudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar. A aventura da modernidade. 9 ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 236.<\/p>\n<p>2.\u00a0Idem, ibidem, p. 237.<\/p>\n<p>3.\u00a0TROTSKY, Leon. A revolu\u00e7\u00e3o de 1905. S\u00e3o Paulo: Global, s\/d, p. 90.<\/p>\n<p>4. MARX, Karl. Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. 2 ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1983, p. 25.<\/p>\n<p>5. LENINE, V. I. \u201cDuas t\u00e1ticas da social-democracia na revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d. In: Obras escolhidas. 3 ed. S\u00e3o Paulo: Alfa-Omega, 1986, p. 406, v. 1.<\/p>\n<p>6. LENINE, \u201cDuas t\u00e1ticas\u2026\u201d, in: Obras escolhidas, Op. cit., p. 410-411, v. 1.<\/p>\n<p>7. TROTSKY, A revolu\u00e7\u00e3o de 1905. Op. cit., p. 72.<\/p>\n<p>8. TROTSKY, Leon. 1905: resultados y perspectives. Madrid: Ruedo Ib\u00e9rico, 1971. Alguns cap\u00edtulos desta importante obra de Trotsky, ainda n\u00e3o traduzida em sua \u00edntegra para o portugu\u00eas, aparecem na edi\u00e7\u00e3o brasileira da A revolu\u00e7\u00e3o de 1905, da global citada anteriormente.<\/p>\n<p>9. TROTSKY, Leon. Hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa. A queda do tzarismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 25, v. 1 (grifos no original).<\/p>\n<p>10. TROTSKY, A revolu\u00e7\u00e3o de 1905, Op. cit., p. 291.<\/p>\n<p>11. Cf. LENINE, V. I. \u201cSobre as tarefas do proletariado na presente revolu\u00e7\u00e3o\u201d. In: Obras escolhidas. S\u00e3o Paulo: Alfa-Omega, 1988, p. 14, v. 2.<\/p>\n<p>12. LENIN, V. I. \u201cVII Confer\u00eancia (de abril) de toda a R\u00fassia do POSDR(b)\u201d. In: Id., ibid., p. 98.<\/p>\n<p><em>Texto publicado originalmente no site do PSTU, em 2007, por ocasi\u00e3o da passagem dos 90 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, posteriormente publicado no Blog Converg\u00eancia, em 2012.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em janeiro de 1905, uma multid\u00e3o de oper\u00e1rios de diversos ramos da ind\u00fastria, 200 mil pessoas segundo estimativas da \u00e9poca, entre homens, mulheres e crian\u00e7as, haviam marchado para o centro da cidade de S\u00e3o Petersburgo, na R\u00fassia, com o objetivo de protestarem frente ao todo poderoso Tzar, Nicolau II, contra as duras condi\u00e7\u00f5es de vida [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":12272,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3696,10],"tags":[8155,48,2928,8103,8139,8141,6328,1382],"class_list":["post-12271","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especial-revolucao-russa","category-teoria","tag-lei-do-desenvolvimento-desigual-e-combinado","tag-lenin-2","tag-partido-bolchevique","tag-revolucao-1917","tag-revolucao-de-1905","tag-revolucao-de-outubro","tag-revolucao-permanente","tag-trotsky"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lenin-e-trotsky.jpg","categories_names":["Especial Revolu\u00e7\u00e3o Russa","TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12271"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12271\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}