{"id":12142,"date":"2015-10-26T11:06:54","date_gmt":"2015-10-26T13:06:54","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/?p=12142"},"modified":"2015-10-26T11:06:54","modified_gmt":"2015-10-26T13:06:54","slug":"o-que-foi-a-revolucao-de-outubro-contada-por-trotsky","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2015\/10\/26\/o-que-foi-a-revolucao-de-outubro-contada-por-trotsky\/","title":{"rendered":"O que foi a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro contada por Trotsky"},"content":{"rendered":"<p><em>Publicamos a confer\u00eancia pronunciada por Leon Trotsky em 27 de novembro de 1932, em Copenhague, Dinamarca. Este texto foi publicado na Revista Marxismo Vivo n\u00ba 16.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, fixemos alguns princ\u00edpios sociol\u00f3gicos elementares que s\u00e3o, sem d\u00favida, familiares a todos voc\u00eas e que devemos, por\u00e9m, recordar ao tomar contato com um fen\u00f4meno t\u00e3o complexo como a revolu\u00e7\u00e3o. A sociedade humana \u00e9 o resultado hist\u00f3rico da luta pela exist\u00eancia e da seguran\u00e7a na preserva\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es. O car\u00e1ter da economia determina o car\u00e1ter da sociedade. Os meios de produ\u00e7\u00e3o determinam o car\u00e1ter da economia. A cada grande \u00e9poca no desenvolvimento das for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o corresponde um regime social definido. At\u00e9 agora, cada regime social assegurou enormes vantagens \u00e0 classe dominante.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que os regimes sociais n\u00e3o s\u00e3o eternos. Nascem historicamente e transformam-se em obst\u00e1culos ao progresso ulterior. \u201c<em>Tudo que nasce \u00e9 digno de perecer<\/em>\u201d. Nunca, por\u00e9m, uma classe dominante abdicou, volunt\u00e1ria e pacificamente, do poder. Nas quest\u00f5es de vida e morte os argumentos fundados na raz\u00e3o nunca substitu\u00edram os argumentos da for\u00e7a. \u00c9 triste diz\u00ea-lo. Mas \u00e9 assim. N\u00e3o fomos n\u00f3s que fizemos este mundo. S\u00f3 podemos tom\u00e1-lo tal como \u00e9.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o significa uma mudan\u00e7a do regime social. Ela transmite o poder das m\u00e3os de uma classe j\u00e1 esgotada para as m\u00e3os de outra classe em ascens\u00e3o. A insurrei\u00e7\u00e3o constitui o momento mais cr\u00edtico e mais agudo na luta de duas classes pelo poder. A subleva\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode conduzir \u00e0 vit\u00f3ria real da revolu\u00e7\u00e3o e \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de um novo regime sen\u00e3o quando se apoia sobre uma classe progressiva, capaz de agrupar em torno de si a imensa maioria do povo. Diferentemente dos processos da natureza, a revolu\u00e7\u00e3o realiza-se por interm\u00e9dio dos homens. Mas na revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m os homens atuam sob a influ\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es sociais que eles pr\u00f3prios n\u00e3o escolhem livremente, mas que s\u00e3o herdadas do passado e lhes assinalam imperiosamente o caminho. Precisamente por tal motivo, e s\u00f3 por isso, a revolu\u00e7\u00e3o tem as suas pr\u00f3prias leis. A consci\u00eancia humana, contudo, n\u00e3o se limita a refletir passivamente as condi\u00e7\u00f5es objetivas. Ela pode reagir ativamente sobre elas. E, em certos momentos, a rea\u00e7\u00e3o adquire um car\u00e1ter de massa, tenso, apaixonado. Derrubam-se ent\u00e3o as barreiras do direito e do poder. A interven\u00e7\u00e3o ativa das massas nos acontecimentos constitui o elemento mais indispens\u00e1vel da revolu\u00e7\u00e3o. E, no entanto, mesmo a atividade mais inflamada pode simplesmente ficar reduzida a uma demonstra\u00e7\u00e3o, uma rebeli\u00e3o, sem elevar-se \u00e0 altura de uma revolu\u00e7\u00e3o. A subleva\u00e7\u00e3o das massas deve conduzir \u00e0 derrubada do poder de uma classe e ao estabelecimento da domina\u00e7\u00e3o de outra. Somente assim teremos uma revolu\u00e7\u00e3o consumada. A subleva\u00e7\u00e3o das massas n\u00e3o \u00e9 um empreendimento isolado que se pode provocar por capricho. Representa um elemento objetivamente condicionado ao desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o, que por sua vez \u00e9 um processo condicionado ao desenvolvimento da sociedade. Isto n\u00e3o quer dizer, entretanto, que, uma vez existentes as condi\u00e7\u00f5es objetivas da subleva\u00e7\u00e3o, deva-se esperar passivamente, com a boca aberta. Nos acontecimentos humanos tamb\u00e9m h\u00e1, como disse Shakespeare, fluxos e refluxos, que, tomados em crescente, conduzem ao \u00eaxito: \u201c<em>There is a tide in the affairs of men which taken at the flood, leads on to fortune<\/em>\u201d. Para varrer o regime que sobrevive, a classe progressiva deve compreender que soou sua hora e propor-se \u00e0 tarefa da conquista do poder. Aqui se abre o campo da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria consciente, em que a previs\u00e3o e o c\u00e1lculo se unem \u00e0 vontade e \u00e0 bravura. Dito de outra forma: aqui se abre o campo da a\u00e7\u00e3o do partido.<\/p>\n<p>O partido revolucion\u00e1rio condensa o melhor da classe avan\u00e7ada. Sem um partido capaz de orientar-se nas circunst\u00e2ncias, de apreciar a marcha e o ritmo dos acontecimentos e de conquistar a tempo a confian\u00e7a das massas, a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria \u00e9 imposs\u00edvel. Tal \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o dos fatores objetivos e dos fatores subjetivos da revolu\u00e7\u00e3o e da insurrei\u00e7\u00e3o. Como bem sabeis, nas discuss\u00f5es, os advers\u00e1rios \u2014 em particular na teologia \u2014 t\u00eam o costume de desacreditar frequentemente a verdade cient\u00edfica elevando-a ao absurdo. Isto se chama, mesmo em l\u00f3gica, <em>reductio ad absurdum<\/em>. N\u00f3s vamos tratar de seguir a via oposta, isto \u00e9, tomaremos como ponto de partida um absurdo a fim de nos aproximar com maior seguran\u00e7a da verdade. Realmente n\u00e3o temos o direito de lamentar a falta de absurdos. Tomemos um dos mais recentes e mais grossos. O escritor italiano Malaparte, algo assim como um te\u00f3rico fascista \u2014 tamb\u00e9m existe este produto \u2014, publicou h\u00e1 pouco tempo um livro sobre a t\u00e9cnica do golpe de Estado. O autor consagra um n\u00famero n\u00e3o desprez\u00edvel de p\u00e1ginas de sua \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o de outubro. Diferentemente da \u201cestrat\u00e9gia\u201d de Lenin, que permanece unida \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas da R\u00fassia de 1917, \u201c<em>a t\u00e1tica de Trotsky n\u00e3o est\u00e1<\/em> \u2014 segundo os termos de Malaparte \u2014 <em>ligada por nada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es gerais do Pa\u00eds<\/em>\u201d. Esta \u00e9 a ideia principal da obra. Malaparte obriga Lenin e Trotsky, nas p\u00e1ginas de seu livro, a travar in\u00fameros di\u00e1logos, nos quais os interlocutores d\u00e3o prova de t\u00e3o pouca profundidade de esp\u00edrito como a natureza p\u00f4s \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de Malaparte. \u00c0s obje\u00e7\u00f5es de Lenin sobre as premissas sociais e pol\u00edticas da insurrei\u00e7\u00e3o, Malaparte atribui a Trotsky, literalmente, a seguinte resposta: \u201c<em>Vossa estrat\u00e9gia exige demasiadas condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, e a insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem necessidade de nada. Basta-se por si mesma<\/em>\u201d. Entendeis bem? \u201c<em>A insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem necessidade de nada<\/em>\u201d. Tal \u00e9, precisamente, caros ouvintes, o absurdo que deve servir para aproximar-nos da verdade. O autor repete com muita persist\u00eancia que, em outubro, n\u00e3o foi a estrat\u00e9gia de Lenin e sim a t\u00e1tica de Trotsky que triunfou. Esta t\u00e1tica, conforme suas palavras, amea\u00e7a, ainda hoje, a tranquilidade dos Estados europeus. \u201c<em>A estrat\u00e9gia de Lenin<\/em> \u2014 cito textualmente \u2014 <em>n\u00e3o constitui nenhum perigo imediato para os governos da Europa. A t\u00e1tica de Trotsky constitui um perigo atual e, portanto, permanente<\/em>\u201d. Mais concretamente: \u201c<em>Colocai Poincar\u00e9 no lugar de Kerensky e o golpe de Estado bolchevique, de outubro de 1917, triunfaria da mesma forma<\/em>\u201d. \u00c9 dif\u00edcil crer que semelhante livro seja traduzido a diversos idiomas e acolhido seriamente. Em v\u00e3o tentar\u00edamos saber por que a estrat\u00e9gia de Lenin, dependendo das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, \u00e9 necess\u00e1ria, se a \u201ct\u00e1tica de Trotsky\u201d permite resolver o mesmo problema em todas as situa\u00e7\u00f5es. E por que as revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o raras, se para seu sucesso basta um par de receitas t\u00e9cnicas?<\/p>\n<p>O di\u00e1logo entre Lenin e Trotsky apresentado pelo escritor fascista \u00e9, no esp\u00edrito como na forma, uma inven\u00e7\u00e3o inepta do princ\u00edpio ao fim. Muitas inven\u00e7\u00f5es desse quilate circulam pelo mundo. Por exemplo, acaba de aparecer em Madri, com meu nome, um livro, <em>Vida de Lenin<\/em>, pelo qual sou t\u00e3o respons\u00e1vel como pelas receitas t\u00e9cnicas de Malaparte. O seman\u00e1rio\u00a0<em>Estampa<\/em>\u00a0publicou deste pretenso livro de Trotsky sobre Lenin cap\u00edtulos inteiros, que cont\u00eam ultrajes abomin\u00e1veis \u00e0 mem\u00f3ria do homem que eu estimava e que estimo incomparavelmente mais que qualquer outro entre os meus contempor\u00e2neos. Abandonemos, entretanto, os fals\u00e1rios \u00e0 sua sorte. O velho Wilhelm Liebknecht, pai do combatente e her\u00f3i imortal, Karl Liebknecht, costumava dizer: \u201c<em>O pol\u00edtico revolucion\u00e1rio deveria estar provido de uma pele grossa.<\/em>\u201d O doutor Stockmann, mais expressivo ainda, recomendava a todos os que se disp\u00f5em a enfrentar a opini\u00e3o p\u00fablica a n\u00e3o vestir cal\u00e7as novas. Sigamos, ent\u00e3o, estes dois bons conselhos e passemos \u00e0 ordem do dia.<\/p>\n<p>Quais as perguntas que a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro sugere a todo homem reflexivo? Primeira: por que e como esta revolu\u00e7\u00e3o obteve \u00eaxito? Ou, mais concretamente, por que a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria triunfou em um dos pa\u00edses mais atrasados da Europa? Segunda quest\u00e3o: o que trouxe a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro? E por \u00faltimo: concretizou-se o que dela se esperava?<\/p>\n<p>Pode-se responder \u00e0 primeira pergunta \u2014 sobre as causas \u2014 de modo mais ou menos completo. Tentei faz\u00ea-lo o mais explicitamente poss\u00edvel na minha <em>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>. Aqui, n\u00e3o posso fazer outra coisa sen\u00e3o formular as conclus\u00f5es mais importantes. O fato de o proletariado ter chegado ao poder pela primeira vez em um pa\u00eds t\u00e3o atrasado como a antiga R\u00fassia czarista s\u00f3 \u00e0 primeira vista pode parecer misterioso. Na realidade, resulta de uma l\u00f3gica rigorosa. Podia-se prever. E foi previsto. Mais ainda: diante dessa perspectiva, os revolucion\u00e1rios marxistas elaboraram a sua estrat\u00e9gia muito antes dos acontecimentos decisivos. A primeira explica\u00e7\u00e3o e a mais geral: a R\u00fassia \u00e9 um pa\u00eds atrasado. Mas, tamb\u00e9m, a R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 mais que uma parte da economia mundial, um elemento do sistema capitalista mundial. E Lenin resolveu o enigma da Revolu\u00e7\u00e3o Russa com a seguinte f\u00f3rmula lapidar: a corrente rompeu-se pelo seu elo mais fraco. Uma situa\u00e7\u00e3o clara: a grande guerra, produto das contradi\u00e7\u00f5es do imperialismo mundial, arrastou em seu torvelinho pa\u00edses que se achavam em diferentes etapas de desenvolvimento e imp\u00f4s a todos as mesmas exig\u00eancias. Resulta, pois, que os encargos da guerra se tornariam mais insuport\u00e1veis, particularmente, para os pa\u00edses mais atrasados. A R\u00fassia foi o primeiro que se viu obrigado a ceder terreno. Mas, para sair da guerra, o povo precisava abater as classes dominantes. Foi assim que a corrente da guerra rompeu-se pelo seu elo mais fr\u00e1gil. Mas a guerra n\u00e3o \u00e9 uma cat\u00e1strofe determinada por fatores alheios, como um terremoto. Para o velho Clausewitz, \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios. Durante a guerra, as tend\u00eancias principais do sistema imperialista de tempos de \u201cpaz\u201d apenas se exteriorizaram de modo mais agudo. Quanto mais elevadas sejam as for\u00e7as gerais de produ\u00e7\u00e3o; quanto mais tensa seja a concorr\u00eancia mundial; quanto mais se acirrem os antagonismos; quanto mais desenfreada seja a corrida armamentista, tanto mais penosa se torna a situa\u00e7\u00e3o para os participantes mais fracos. Precisamente esta \u00e9 a causa pela qual os pa\u00edses mais atrasados ocupam o primeiro lugar na s\u00e9rie dos desmoronamentos. A corrente do capitalismo tende sempre a romper-se pelos elos mais fracos. Se por causa de certas circunst\u00e2ncias extraordin\u00e1rias ou extraordinariamente desfavor\u00e1veis \u2014 por exemplo, uma interven\u00e7\u00e3o militar vitoriosa do exterior, devida a faltas irrepar\u00e1veis do pr\u00f3prio governo sovi\u00e9tico \u2014, se restabelecesse o capitalismo sobre o imenso territ\u00f3rio sovi\u00e9tico, sua inevit\u00e1vel insufici\u00eancia hist\u00f3rica aprontaria, rapidamente, sua nova queda, v\u00edtima das mesmas contradi\u00e7\u00f5es que provocaram, em 1917, a explos\u00e3o. Nenhuma receita t\u00e1tica poderia dar vida \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro se a R\u00fassia n\u00e3o a levasse nas suas pr\u00f3prias entranhas.<\/p>\n<p>O partido revolucion\u00e1rio n\u00e3o pode desempenhar outro papel sen\u00e3o o de parteiro que se v\u00ea obrigado a recorrer \u00e0 opera\u00e7\u00e3o cesariana. Poderiam objetar-me: suas considera\u00e7\u00f5es gerais podem explicar, suficientemente, por que raz\u00e3o a velha R\u00fassia (este pa\u00eds onde o capitalismo atrasado, com uma classe camponesa miser\u00e1vel, estava coroado por uma nobreza parasit\u00e1ria e, al\u00e9m disso, por uma monarquia putrefata) teria que naufragar. Mas na imagem da corrente e do elo mais fraco falta ainda a chave do enigma: como, num pa\u00eds atrasado, poderia triunfar a revolu\u00e7\u00e3o socialista? Porque a hist\u00f3ria conhece muitos exemplos de decad\u00eancia de pa\u00edses e de culturas que, ap\u00f3s a derrocada simult\u00e2nea das velhas classes, n\u00e3o puderam achar nenhuma forma progressiva para ressurgir. A derrocada da velha R\u00fassia deveria, ao que tudo indica, transformar o pa\u00eds em uma col\u00f4nia capitalista e n\u00e3o em um Estado socialista. Esta obje\u00e7\u00e3o \u00e9 muito interessante e nos leva diretamente ao cora\u00e7\u00e3o do problema. Mas \u00e9 viciosa. Eu diria: desprovida de propor\u00e7\u00e3o interna. De um lado, decorre de uma concep\u00e7\u00e3o exagerada quanto ao atraso da R\u00fassia. De outro, de uma falsa concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica no que diz respeito ao fen\u00f4meno do atraso em geral.<\/p>\n<p>Os seres vivos \u2014 naturalmente, entre eles, o homem \u2014 atravessam, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 idade, est\u00e1gios de desenvolvimento semelhantes. Numa crian\u00e7a normal de cinco anos, encontra-se certa correspond\u00eancia entre o peso, a altura e os \u00f3rg\u00e3os internos. Mas isto n\u00e3o ocorre com a consci\u00eancia humana. Em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 anatomia e \u00e0 fisiologia, a psicologia, tanto a do indiv\u00edduo como a da coletividade, distingue-se por uma extraordin\u00e1ria capacidade de assimila\u00e7\u00e3o, flexibilidade e elasticidade: reside a\u00ed tamb\u00e9m a vantagem aristocr\u00e1tica do homem sobre seu parente zool\u00f3gico mais pr\u00f3ximo da esp\u00e9cie dos macacos. A consci\u00eancia, suscept\u00edvel de assimilar, confere \u2014 como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao progresso hist\u00f3rico \u2014 aos \u201corganismos\u201d chamados sociais, ao contr\u00e1rio dos organismos reais, isto \u00e9, biol\u00f3gicos, uma extraordin\u00e1ria variabilidade da estrutura interna. No desenvolvimento das na\u00e7\u00f5es e dos Estados, dos capitalistas em particular, n\u00e3o existe nem similitude nem uniformidade. Diferentes graus de cultura, at\u00e9 os polos opostos, aproximam-se e combinam-se, com muita frequ\u00eancia, na vida de um pa\u00eds. N\u00e3o esque\u00e7amos, caros ouvintes, que o atraso hist\u00f3rico \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o relativa. Se existem pa\u00edses atrasados e avan\u00e7ados, h\u00e1 tamb\u00e9m uma a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre eles. H\u00e1 a opress\u00e3o dos pa\u00edses avan\u00e7ados sobre os retardat\u00e1rios, bem como a necessidade para os pa\u00edses atrasados de alcan\u00e7ar aqueles mais adiantados, adquirir-lhes a t\u00e9cnica, a ci\u00eancia etc. Assim surgiu <em>um tipo combinado de desenvolvimento<\/em>: as caracter\u00edsticas mais atrasadas se ligam \u00e0 \u00faltima palavra da t\u00e9cnica e do pensamento mundiais. Enfim, os pa\u00edses historicamente atrasados s\u00e3o por vezes obrigados a ultrapassar os demais. A elasticidade da consci\u00eancia coletiva confere a possibilidade de conseguir, em certas condi\u00e7\u00f5es, sobre a arena social, o resultado que em psicologia individual se chama \u201ccompensa\u00e7\u00e3o\u201d. Pode-se afirmar, neste sentido, que a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro foi para os povos da R\u00fassia um meio heroico de superar sua pr\u00f3pria inferioridade econ\u00f4mica e cultural.<\/p>\n<p>Passemos sobre essas generaliza\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-pol\u00edticas, que talvez sejam um tanto abstratas, para enfocar a mesma quest\u00e3o de modo concreto, isto \u00e9, atrav\u00e9s de fatos econ\u00f4micos vivos. O atraso da R\u00fassia do s\u00e9culo XX se expressa, mais claramente, da seguinte maneira: a ind\u00fastria ocupa no pa\u00eds um lugar m\u00ednimo, em compara\u00e7\u00e3o ao campo. Isto significa, no conjunto, uma baixa produtividade do trabalho nacional. Basta dizer que, \u00e0s v\u00e9speras da guerra, quando a R\u00fassia czarista alcan\u00e7ara o auge de sua prosperidade, a renda nacional era de oito a dez vezes inferior a dos Estados Unidos. Isto expressa numericamente a \u201camplitude\u201d do atraso, se \u00e9 que podemos usar a palavra \u201camplitude\u201d no que se refere ao atraso. Ao mesmo tempo, a lei do desenvolvimento combinado manifesta-se, a cada passo, no dom\u00ednio econ\u00f4mico, tanto nos fen\u00f4menos simples como nos complexos. Quase sem estradas nacionais, a R\u00fassia viu-se obrigada a construir ferrovias. Sem haver passado pelo artesanato e pela manufatura europeias, a R\u00fassia saltou diretamente para a produ\u00e7\u00e3o mecanizada. Saltar as etapas intermedi\u00e1rias, este \u00e9 o caminho dos pa\u00edses atrasados. Enquanto a economia camponesa permanecia, frequentemente, ao n\u00edvel do s\u00e9culo XVII, a ind\u00fastria da R\u00fassia, se n\u00e3o na capacidade, pelo menos em seu tipo, encontrava-se no mesmo n\u00edvel dos pa\u00edses avan\u00e7ados e at\u00e9 superava-os em muitos aspectos.<\/p>\n<p>Assinale-se que as empresas gigantes com mais de mil oper\u00e1rios ocupavam nos Estados Unidos menos de 18% da totalidade dos oper\u00e1rios industriais, enquanto na R\u00fassia a propor\u00e7\u00e3o era de 41%. Este fato n\u00e3o confirma a concep\u00e7\u00e3o trivial do atraso econ\u00f4mico da R\u00fassia. Mas, por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o nega o atraso geral. As duas concep\u00e7\u00f5es completam-se dialeticamente. A estrutura de classe do pa\u00eds tamb\u00e9m apresentava o mesmo car\u00e1ter contradit\u00f3rio. O capital financeiro da Europa industrializava a economia russa num ritmo acelerado. A burguesia industrial logo adquiria o car\u00e1ter do grande capitalismo, inimigo do povo. Al\u00e9m do mais, os acionistas estrangeiros viviam fora do pa\u00eds, enquanto, por outro lado, os oper\u00e1rios eram autenticamente russos. Uma burguesia russa numericamente d\u00e9bil, que n\u00e3o possu\u00eda nenhuma raiz nacional, defrontava-se desta forma com um proletariado relativamente forte e com rijas e profundas ra\u00edzes no povo. Para o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio do proletariado contribuiu o fato de que a R\u00fassia, precisamente como pa\u00eds atrasado e for\u00e7ado a abrigar os advers\u00e1rios, n\u00e3o chegou a elaborar um conservadorismo social e pol\u00edtico pr\u00f3prio. Como a na\u00e7\u00e3o mais conservadora da Europa e ainda do mundo inteiro, o mais velho pa\u00eds capitalista, a Inglaterra, d\u00e1-me a raz\u00e3o. Seria poss\u00edvel considerar a R\u00fassia como um pa\u00eds desprovido de conservadorismo. O proletariado russo, jovem, resoluto, n\u00e3o constitu\u00eda, contudo, mais que uma pequena minoria da na\u00e7\u00e3o. As reservas de sua pot\u00eancia revolucion\u00e1ria encontravam-se fora de seu pr\u00f3prio seio: no campesinato, que vivia numa semisservid\u00e3o, e nas nacionalidades oprimidas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o agr\u00e1ria formava a base da revolu\u00e7\u00e3o. A antiga servid\u00e3o, que mantinha a autocracia, resultava duplamente insuport\u00e1vel nas condi\u00e7\u00f5es da nova explora\u00e7\u00e3o capitalista. A comunidade agr\u00e1ria ocupava cerca de 140 milh\u00f5es de deciatinas (medida agr\u00e1ria correspondente a 1,0925 hectare). A 30 mil grandes propriet\u00e1rios latifundi\u00e1rios, cada um possuindo em m\u00e9dia mais de 2.000 deciatinas, correspondia um total de 70 milh\u00f5es de deciatinas, isto \u00e9, tanto quanto a 10 milh\u00f5es de fam\u00edlias camponesas, ou seja, 50 milh\u00f5es de seres. <em>Esta estat\u00edstica da terra constitu\u00eda um programa acabado de insurrei\u00e7\u00e3o camponesa<\/em>. Um nobre, Boborkin, escrevia em 1917 ao fidalgo Rodzianko, presidente da \u00faltima Duma do Estado: \u201c<em>Eu sou um propriet\u00e1rio latifundi\u00e1rio e n\u00e3o me ocorre pensar, nem por um momento, que tenha de perder minha terra, muito menos para um fim inacredit\u00e1vel: fazer uma experi\u00eancia socialista<\/em>\u201d. Mas as revolu\u00e7\u00f5es sempre t\u00eam como objetivo a mesma tarefa: realizar o que n\u00e3o entra na cabe\u00e7a das classes dominantes.<\/p>\n<p>No outono de 1917, quase todo o pa\u00eds era um vasto campo de levantes camponeses. De 621 distritos da velha R\u00fassia, 482, isto \u00e9, 77% estavam conflagrados pelo movimento. O resplendor do inc\u00eandio do campo iluminava a subleva\u00e7\u00e3o nas cidades. Por\u00e9m \u2014 podereis objetar \u2014 a guerra camponesa contra os latifundi\u00e1rios \u00e9 um dos elementos cl\u00e1ssicos da revolu\u00e7\u00e3o burguesa, e n\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Eu respondo: completamente justo. Foi assim no passado. Entretanto, a impot\u00eancia do capitalismo para viver em um pa\u00eds atrasado revela-se no fato de que, na R\u00fassia, a subleva\u00e7\u00e3o camponesa n\u00e3o empurrou para frente a burguesia, mas, pelo contr\u00e1rio, colocou-a no campo da rea\u00e7\u00e3o. Ao campesinato, para n\u00e3o fracassar, n\u00e3o lhe restava outro caminho sen\u00e3o a alian\u00e7a com o proletariado industrial. Esta liga\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das duas classes oprimidas foi prevista genialmente por Lenin e preparada h\u00e1 muito tempo. Se a burguesia pudesse resolver, francamente, a quest\u00e3o, seguramente o proletariado n\u00e3o teria conquistado o poder em 1917. Chegando demasiadamente tarde, mergulhada precocemente na decrepitude, a burguesia russa, ego\u00edsta e covarde, n\u00e3o teve a ousadia de levantar a m\u00e3o contra a propriedade feudal. E assim deixou o poder ao proletariado e, ao mesmo tempo, o direito de dispor da sorte da sociedade burguesa. Para que o Estado Sovi\u00e9tico se transformasse em realidade, era sobretudo necess\u00e1ria a a\u00e7\u00e3o combinada desses fatores de natureza hist\u00f3rica distinta: a guerra camponesa, isto \u00e9, um movimento que \u00e9 caracter\u00edstico da aurora do desenvolvimento burgu\u00eas, e a subleva\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, que anuncia o crep\u00fasculo da sociedade burguesa. A\u00ed reside o car\u00e1ter\u00a0<em>combinado<\/em>\u00a0da revolu\u00e7\u00e3o russa. Bastava que o urso campon\u00eas se levantasse sobre as patas traseiras para mostrar a sua f\u00faria terr\u00edvel. Mas o urso campon\u00eas carece da capacidade para dar \u00e0 sua revolta uma express\u00e3o consciente: tem sempre a necessidade de um guia. Pela primeira vez na hist\u00f3ria do movimento social, o campesinato sublevado encontrou um dirigente leal no proletariado. Quatro milh\u00f5es de oper\u00e1rios da ind\u00fastria e dos transportes lideraram cem milh\u00f5es de camponeses. Tal foi a rela\u00e7\u00e3o natural e inevit\u00e1vel entre o proletariado e a classe camponesa na revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda reserva revolucion\u00e1ria do proletariado era constitu\u00edda pelas nacionalidades oprimidas, integradas, ainda assim, por camponeses na sua maioria. O car\u00e1ter extensivo do desenvolvimento do Estado, que se esparrama do centro de Moscou at\u00e9 a periferia, vai intimamente ligado ao atraso hist\u00f3rico do pa\u00eds. Ao Leste, submete as popula\u00e7\u00f5es mais atrasadas ainda, para melhor afogar, com seu apoio, as nacionalidades mais desenvolvidas do Oeste. Aos setenta milh\u00f5es de gr\u00e3os-russos, que formam a massa principal da popula\u00e7\u00e3o, somam-se, assim, noventa milh\u00f5es de \u201cal\u00f3genos\u201d. Formou-se assim o Imp\u00e9rio, em cuja composi\u00e7\u00e3o a na\u00e7\u00e3o dominante possu\u00eda somente 43% da popula\u00e7\u00e3o, enquanto os outros 57% era uma mescla de nacionalidades, culturas e regimes distintos. A opress\u00e3o nacional era, na R\u00fassia, incomparavelmente mais brutal que nos Estados vizinhos, ultrapassando, para dizer a verdade, n\u00e3o s\u00f3 os que estavam do outro lado da fronteira ocidental, como tamb\u00e9m da oriental. Tal estado de coisas conferia ao problema nacional uma enorme for\u00e7a explosiva. A burguesia liberal russa n\u00e3o queria, nem na quest\u00e3o nacional, nem na quest\u00e3o agr\u00e1ria, ir al\u00e9m de certas reformas para atenuar o regime de opress\u00e3o e viol\u00eancia. Os governos \u201cdemocratas\u201d de Miliukov e de Kerensky, que exprimiam os interesses da burguesia gr\u00e3-russa, dedicaram-se, no curso dos oito meses de sua exist\u00eancia, a ensinar \u00e0s nacionalidades oprimidas a seguinte li\u00e7\u00e3o: n\u00e3o obtereis o que desejais at\u00e9 que n\u00e3o o arranqueis pela for\u00e7a. H\u00e1 muito tempo, Lenin j\u00e1 considerava a inevitabilidade do desenvolvimento do movimento nacional centr\u00edfugo. O Partido Bolchevique lutou obstinadamente, durante anos, pelo direito de autodetermina\u00e7\u00e3o das nacionalidades, isto \u00e9, pelo direito \u00e0 completa separa\u00e7\u00e3o estatal. Foi precisamente por causa desta exata posi\u00e7\u00e3o na quest\u00e3o nacional que o proletariado russo p\u00f4de ganhar, pouco a pouco, a confian\u00e7a das popula\u00e7\u00f5es oprimidas. O movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional e o movimento campon\u00eas voltaram-se, for\u00e7osamente, contra a democracia oficial, fortaleceram o proletariado e lan\u00e7aram-se na correnteza da insurrei\u00e7\u00e3o de outubro.<\/p>\n<p>Levanta-se assim, gradativamente, o v\u00e9u do enigma da insurrei\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria num pa\u00eds historicamente atrasado. Muito tempo antes dos acontecimentos, os revolucion\u00e1rios marxistas previram a marcha da revolu\u00e7\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do jovem proletariado russo. Permitam-me aqui reproduzir um extrato de minha pr\u00f3pria obra sobre a revolu\u00e7\u00e3o de 1905: \u201c<em>Num pa\u00eds economicamente atrasado, o proletariado pode chegar ao poder antes que num pa\u00eds adiantado&#8230; A revolu\u00e7\u00e3o russa cria condi\u00e7\u00f5es mediante as quais o poder pode passar (com a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o deve passar) ao proletariado antes que a pol\u00edtica do liberalismo burgu\u00eas tenha possibilidade de revelar seu g\u00eanio estadista&#8230; O destino dos interesses revolucion\u00e1rios mais elementares dos camponeses est\u00e1 fortemente ligado ao destino de toda a revolu\u00e7\u00e3o, ao destino do proletariado. Uma vez chegado ao poder, o proletariado aparecer\u00e1 aos camponeses como libertador de sua classe. O proletariado entra no governo como representante revolucion\u00e1rio da na\u00e7\u00e3o, como condutor reconhecido do povo na luta contra o absolutismo e a barb\u00e1rie da servid\u00e3o&#8230; O regime prolet\u00e1rio dever\u00e1 desde o princ\u00edpio pronunciar-se sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria, que est\u00e1 ligada \u00e0 sorte do avan\u00e7o das massas populares da R\u00fassia.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Evoquei esta cita\u00e7\u00e3o como testemunha de que a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, apresentada hoje por mim, n\u00e3o \u00e9 uma improvisa\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, contra\u00edda <em>a posteriori<\/em>, sob a press\u00e3o dos acontecimentos. N\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio. Foi formulada sob a forma de progn\u00f3stico pol\u00edtico muito antes da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Convireis que a teoria em geral n\u00e3o tem mais valor sen\u00e3o na medida em que ajuda a prever o curso do desenvolvimento e influencia os seus objetivos. Nisto mesmo consiste, falando em termos gerais, a import\u00e2ncia inestim\u00e1vel do marxismo como arma de orienta\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica. Lamento que os estreitos limites desta exposi\u00e7\u00e3o me impe\u00e7am de desenvolver o texto citado de maneira mais ampla e, por isso, terei que me conformar com um curto resumo de tudo o que escrevi em 1905:<\/p>\n<p>\u201c<em>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas tarefas imediatas, a revolu\u00e7\u00e3o russa \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o burguesa. No entanto, a burguesia russa \u00e9 contrarrevolucion\u00e1ria. Por conseguinte, a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel como vit\u00f3ria do proletariado. O proletariado vitorioso n\u00e3o se deter\u00e1 no programa da democracia burguesa e passar\u00e1 imediatamente ao programa do socialismo. A revolu\u00e7\u00e3o russa ser\u00e1 a primeira etapa da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Tal era a teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente, elaborada por mim em 1905 e, mais tarde, exposta \u00e0 cr\u00edtica mais severa sob a alcunha de \u201ctrotskismo\u201d. Isto n\u00e3o \u00e9 mais que uma parte dessa teoria. A outra parte, agora particularmente atual, afirmava:<\/p>\n<p>\u201c<em>As for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o atuais h\u00e1 muito ultrapassaram as barreiras nacionais. A sociedade socialista \u00e9 irrealiz\u00e1vel nos limites nacionais. Por mais importantes que sejam os \u00eaxitos econ\u00f4micos de um Estado oper\u00e1rio isolado, o programa do \u2018socialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u2019 \u00e9 uma utopia pequeno-burguesa. S\u00f3 uma federa\u00e7\u00e3o europeia e, depois, mundial de rep\u00fablicas socialistas pode abrir o caminho a uma sociedade socialista harm\u00f4nica<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Hoje, depois da prova dos acontecimentos, tenho menos raz\u00e3o do que nunca para ratificar essa teoria.<\/p>\n<p>Depois de tudo que disse, merece que se leve em conta o escritor fascista Malaparte? O te\u00f3rico que me atribui uma t\u00e1tica independente da estrat\u00e9gia e resultante de certas t\u00e9cnicas, aplic\u00e1veis em todo momento? Tais receitas fornecidas pelo infeliz te\u00f3rico do golpe de Estado permitem distingui-lo facilmente do pr\u00e1tico vitorioso do golpe de Estado. E ningu\u00e9m correr\u00e1 o risco de confundir Malaparte com Bonaparte.<\/p>\n<p>Sem a insurrei\u00e7\u00e3o armada de 25 de outubro de 1917 (7 de novembro, segundo o calend\u00e1rio atual), o Estado Sovi\u00e9tico n\u00e3o existiria. Mas a insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o caiu do c\u00e9u. Para que a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro fosse vitoriosa era necess\u00e1ria uma s\u00e9rie de premissas hist\u00f3ricas: 1) A podrid\u00e3o das velhas classes dominantes, da nobreza, da monarquia, da burocracia; 2) A debilidade pol\u00edtica da burguesia, que n\u00e3o tinha nenhuma raiz nas massas populares; 3) O car\u00e1ter revolucion\u00e1rio da quest\u00e3o agr\u00e1ria; 4) O car\u00e1ter revolucion\u00e1rio do problema das nacionalidades oprimidas; 5) O peso social do proletariado. A estas premissas org\u00e2nicas \u00e9 preciso juntar condi\u00e7\u00f5es conjunturais de excepcional import\u00e2ncia: 6) A revolu\u00e7\u00e3o de 1905 foi uma grande li\u00e7\u00e3o ou, segundo Lenin, \u201cum ensaio geral\u201d da revolu\u00e7\u00e3o de 1917. Os soviets, como forma de organiza\u00e7\u00e3o insubstitu\u00edvel de frente \u00fanica prolet\u00e1ria na revolu\u00e7\u00e3o, apareceram pela primeira vez em 1905; 7) A guerra imperialista agu\u00e7ou todas as contradi\u00e7\u00f5es, arrancou as massas atrasadas do seu estado de imobilidade, preparando-as para o car\u00e1ter grandioso da cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Mas todas essas condi\u00e7\u00f5es, suficientes para que irrompesse a revolu\u00e7\u00e3o eram, por\u00e9m, insuficientes para assegurar a vit\u00f3ria do proletariado. Faltava uma oitava condi\u00e7\u00e3o: o Partido Bolchevique. Se coloco esta condi\u00e7\u00e3o em \u00faltimo lugar \u00e9 porque corresponde \u00e0 sequ\u00eancia l\u00f3gica e n\u00e3o porque atribuo ao partido o lugar de menor import\u00e2ncia. N\u00e3o. Muito longe disso. A burguesia liberal pode tomar o poder, e o fez muitas vezes, como resultado de lutas nas quais n\u00e3o havia participado: para isto possui instrumentos magnificamente desenvolvidos. As massas trabalhadoras encontram-se numa outra situa\u00e7\u00e3o. Acostumaram-se a ceder o poder, n\u00e3o a tom\u00e1-lo. Trabalham pacientemente, esperam, perdem a paci\u00eancia, sublevam-se, combatem, morrem, d\u00e3o a vit\u00f3ria a outros, s\u00e3o tra\u00eddas, caem no desalento, submetem-se, voltam a trabalhar. Assim \u00e9 a hist\u00f3ria das massas populares sob todos os regimes. Para tomar com seguran\u00e7a e firmeza o poder, o proletariado tem necessidade de um partido superior a todos os demais na clareza do pensamento e na decis\u00e3o revolucion\u00e1ria. O Partido Bolchevique, designado com frequ\u00eancia, e com raz\u00e3o, como o partido mais revolucion\u00e1rio da hist\u00f3ria da humanidade, era a condensa\u00e7\u00e3o viva da nova hist\u00f3ria da R\u00fassia, de tudo o que nela havia de din\u00e2mico. Havia muito tempo que se considerava o desaparecimento da monarquia como a condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para o desenvolvimento da economia e da cultura. Faltavam as for\u00e7as para levar adiante esta tarefa. \u00c0 burguesia horrorizava a ideia da revolu\u00e7\u00e3o. Os intelectuais tentaram conduzir o campesinato sobre os ombros. Incapaz de generalizar suas pr\u00f3prias penas e objetivos, o mujique n\u00e3o deu resposta ao apelo dos intelectuais. A <em>intelligentsia<\/em> armou-se de dinamite. Toda uma gera\u00e7\u00e3o se consumiu nesta luta. A 1\u00ba de mar\u00e7o de 1887, Alexandre Ulianov levou a cabo o \u00faltimo dos grandes atentados terroristas. A tentativa contra Alexandre III fracassou. Ulianov e os demais participantes foram enforcados. A tentativa de substituir a classe revolucion\u00e1ria por uma prepara\u00e7\u00e3o qu\u00edmica naufragou. A intelig\u00eancia mais heroica n\u00e3o \u00e9 nada sem as massas. Sob a impress\u00e3o imediata destes fatos e de suas conclus\u00f5es, cresceu e formou-se o mais jovem dos irm\u00e3os Ulianov, Vladimir, o futuro Lenin. A figura mais grandiosa da hist\u00f3ria russa. Desde o princ\u00edpio, em sua juventude, colocou-se sob o terreno do marxismo e voltou seu olhar para o proletariado. Sem perder um instante de vista a aldeia, orientou-se para o campesinato, atrav\u00e9s dos oper\u00e1rios. Herdando de seus precursores revolucion\u00e1rios a resolu\u00e7\u00e3o, a capacidade de sacrif\u00edcio, a disposi\u00e7\u00e3o de chegar at\u00e9 o fim, Lenin converteu-se, nos anos da juventude, no educador da nova gera\u00e7\u00e3o dos intelectuais e dos oper\u00e1rios avan\u00e7ados. Nas greves e nas lutas de rua, nas pris\u00f5es e no ex\u00edlio, os oper\u00e1rios adquiriram a t\u00eampera necess\u00e1ria. A lanterna do marxismo ser-lhe-\u00e1 necess\u00e1ria para iluminar seu caminho hist\u00f3rico na escurid\u00e3o da autocracia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/trotsky-conferencia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12144 alignright\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/trotsky-conferencia-300x237.jpg\" alt=\"trotsky conferencia\" width=\"300\" height=\"237\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/trotsky-conferencia-300x237.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/trotsky-conferencia-150x118.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/trotsky-conferencia.jpg 333w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 1883, nasceu na emigra\u00e7\u00e3o o primeiro grupo marxista. Em 1898, numa Assembleia clandestina, proclamou-se a cria\u00e7\u00e3o do Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Russo. Naquela \u00e9poca, todos nos cham\u00e1vamos social-democratas. Em 1903, ocorreu a cis\u00e3o entre bolcheviques e mencheviques. Em 1912, a fra\u00e7\u00e3o bolchevique transformou-se, definitivamente, em partido aut\u00f4nomo. Este partido ensinou a reconhecer a mec\u00e2nica das classes sociais nas lutas, nos acontecimentos grandiosos, durante 12 anos (de 1905 a 1917). Educou quadros, militantes aptos, tanto para a iniciativa como para a obedi\u00eancia. A disciplina da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria apoiava-se na unidade da doutrina, nas tradi\u00e7\u00f5es de lutas comuns e na confian\u00e7a numa dire\u00e7\u00e3o provada. Tal era o partido em 1917. Enquanto a \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d oficial e as toneladas de papel da imprensa n\u00e3o lhe concediam import\u00e2ncia, o partido bolchevique orientava-se segundo o curso das lutas de massas. A formid\u00e1vel alavanca que esse partido manejava firmemente introduzia-se nas f\u00e1bricas e nos regimentos e as massas camponesas dirigiam cada vez mais e com mais insist\u00eancia suas aten\u00e7\u00f5es para ele. Se se entende por na\u00e7\u00e3o n\u00e3o as camadas privilegiadas, mas, sim, a maioria do povo, isto \u00e9, os oper\u00e1rios e os camponeses, h\u00e1 de se reconhecer que o bolchevismo se transformou, no decorrer de 1917, no \u00fanico partido verdadeiramente nacional.<\/p>\n<p>Em setembro de 1917, Lenin, obrigado a viver na clandestinidade, deu o sinal: \u201c<em>A crise est\u00e1 madura, aproxima-se a hora da insurrei\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. Estava certo. As classes dominantes ca\u00edram impotentes diante dos problemas da guerra, do campo e da liberta\u00e7\u00e3o nacional. A burguesia perdeu definitivamente a cabe\u00e7a. Os partidos democratas, os mencheviques e os socialistas-revolucion\u00e1rios dissiparam o \u00faltimo resto da confian\u00e7a das massas, sustentando a guerra imperialista por sua pol\u00edtica de compromissos e de concess\u00f5es aos propriet\u00e1rios burgueses e feudais. O ex\u00e9rcito, abalado na sua consci\u00eancia, negava-se a lutar pelos objetivos do imperialismo, que lhe eram estranhos. Sem atender \u00e0s exorta\u00e7\u00f5es \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d, os camponeses expulsaram os latifundi\u00e1rios de seus dom\u00ednios. A periferia nacional do imp\u00e9rio, oprimida, lan\u00e7ou-se contra a burocracia de Petrogrado. Nos mais importantes Conselhos de oper\u00e1rios e soldados os bolcheviques dominavam. Oper\u00e1rios e soldados exigiam fatos. O abscesso estava maduro. S\u00f3 faltava um corte de bisturi.<\/p>\n<p>A insurrei\u00e7\u00e3o s\u00f3 se tornou poss\u00edvel nessas condi\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas. E assim aconteceu inelutavelmente. Mas n\u00e3o se pode brincar com a insurrei\u00e7\u00e3o. Desgra\u00e7ado do cirurgi\u00e3o que utiliza o bisturi com neglig\u00eancia. A insurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma arte: tem as suas leis e as suas pr\u00f3prias regras.<\/p>\n<p>O partido realizou a insurrei\u00e7\u00e3o de Outubro com um c\u00e1lculo frio e uma resolu\u00e7\u00e3o ardente. Gra\u00e7as a isto p\u00f4de triunfar quase sem v\u00edtimas. Por meio dos soviets vitoriosos, os bolcheviques puseram-se \u00e0 frente do pa\u00eds que compreende a sexta parte da superf\u00edcie terrestre. Suponho que a maioria dos meus ouvintes de hoje ainda n\u00e3o se ocupavam com a pol\u00edtica em 1917. Tanto melhor. A jovem gera\u00e7\u00e3o tem diante de si muitas coisas interessantes, mas n\u00e3o f\u00e1ceis. Por outro lado, os representantes da velha gera\u00e7\u00e3o, nesta sala, recordar\u00e3o muito bem como se recebeu a tomada do poder pelos bolcheviques: como um equ\u00edvoco, uma curiosidade, um esc\u00e2ndalo, ou ainda, um pesadelo, que se desvaneceria ao primeiro clar\u00e3o da alvorada. Os bolcheviques manteriam o poder apenas por vinte e quatro horas, uma semana, um m\u00eas, um ano. Era preciso ampliar cada vez mais o prazo. Os amos do mundo armavam-se contra o primeiro Estado prolet\u00e1rio: desencadeamento da guerra civil, novas e novas interven\u00e7\u00f5es, bloqueio. Assim passou um ano. Passou outro. E a historia j\u00e1 tem que contar quinze anos de exist\u00eancia do poder sovi\u00e9tico. Sim, diria algum advers\u00e1rio: a aventura de Outubro mostrou-se muito mais s\u00f3lida do que pens\u00e1vamos. Qui\u00e7\u00e1 n\u00e3o fosse de todo uma \u201caventura\u201d. E, n\u00e3o obstante, a quest\u00e3o conserva toda a sua for\u00e7a: o que se obteve a este pre\u00e7o t\u00e3o elevado? Pode-se dizer que se realizaram as belezas anunciadas pelos bolcheviques antes da insurrei\u00e7\u00e3o? Antes de responder ao suposto advers\u00e1rio, observemos que esta pergunta n\u00e3o \u00e9 nova. Ao contr\u00e1rio, remonta aos primeiros passos da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, depois do nascimento da Rep\u00fablica dos Soviets.<\/p>\n<p>O jornalista franc\u00eas Claude Anet, que estava em Petrogrado durante a revolu\u00e7\u00e3o, escrevia, a 27 de outubro de 1917: \u201c<em>Os maximalistas<\/em> \u2014 era assim que os franceses chamavam os bolcheviques naquela \u00e9poca \u2014 <em>tomaram o poder e amanheceu o grande dia. Enfim, digo-me, vou ver como se realiza o \u2018\u00c9den Socialista\u2019 que eles nos prometem h\u00e1 tantos anos&#8230; Admir\u00e1vel aventura! Posi\u00e7\u00e3o privilegiada!<\/em>\u201d, etc. Que aut\u00eantico \u00f3dio se ocultava por tr\u00e1s dessas sauda\u00e7\u00f5es ir\u00f4nicas! No dia seguinte \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio de Inverno, o jornalista franc\u00eas julgava-se com o direito de exigir um cart\u00e3o de entrada no Para\u00edso. Quinze anos transcorreram desde a insurrei\u00e7\u00e3o. Com uma falta de cerim\u00f4nia ainda maior, os advers\u00e1rios manifestavam sua alegria maligna ao comprovar que, ainda hoje, o pa\u00eds dos soviets se assemelha muito pouco ao reino do bem-estar geral. Por que, ent\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o? Por que suas v\u00edtimas?<\/p>\n<p>Caros ouvintes: creio que estou entre aqueles que melhor conhecem as contradi\u00e7\u00f5es, as dificuldades, as faltas e as insufici\u00eancias do regime sovi\u00e9tico. Pessoalmente, jamais tratei de dissimul\u00e1-las, nem oralmente nem por escrito. Sempre acreditei \u2014 e sigo acreditando \u2014 que a pol\u00edtica revolucion\u00e1ria, ao contr\u00e1rio da pol\u00edtica conservadora, n\u00e3o pode se basear no engodo. \u201c<em>Exprimir o que \u00e9<\/em>\u201d \u2014 tal deve ser o princ\u00edpio essencial do Estado oper\u00e1rio. N\u00e3o obstante, \u00e9 necess\u00e1rio ter perspectiva, tanto na cr\u00edtica como na atividade criadora. O subjetivismo \u00e9 um p\u00e9ssimo conselheiro, sobretudo quando se trata de grandes quest\u00f5es. Os prazos devem estar em conson\u00e2ncia com a magnitude das tarefas, e n\u00e3o com os caprichos individuais. Quinze anos! Que significam para uma vida? Entretanto, numerosos s\u00e3o aqueles da nossa gera\u00e7\u00e3o que foram enterrados; e, nos sobreviventes, multiplicam-se os cabelos brancos. Mas esses mesmos quinze anos n\u00e3o representam mais que um piscar de olhos na vida de um povo. Nada mais do que um minuto no rel\u00f3gio da Hist\u00f3ria!<\/p>\n<p>O capitalismo precisou de s\u00e9culos para afirmar-se na luta contra a Idade M\u00e9dia, para elevar a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica, para construir vias f\u00e9rreas, para estender fios el\u00e9tricos. E depois? Depois lan\u00e7ou a humanidade no inferno das guerras e das crises. Ao socialismo, seus advers\u00e1rios, isto \u00e9, os partid\u00e1rios do capitalismo, n\u00e3o concedem mais do que quinze anos para instaurar sobre a terra o para\u00edso com todo o conforto moderno. N\u00e3o. N\u00e3o assumimos tal obriga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estabelecemos tais prazos. Devem-se medir os processos das grandes transforma\u00e7\u00f5es com uma escala adequada. N\u00e3o sei se a sociedade socialista se assemelharia ao para\u00edso b\u00edblico. Duvido muito. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o existe ainda o socialismo. E sim um estado de transi\u00e7\u00e3o, cheio de contradi\u00e7\u00f5es, carregando a pesada heran\u00e7a do passado, sofrendo a press\u00e3o inimiga dos Estados capitalistas. A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro proclamou o princ\u00edpio da nova sociedade. A Rep\u00fablica dos Soviets apenas mostrou a primeira etapa de sua realiza\u00e7\u00e3o. A primeira l\u00e2mpada de Edson foi muito imperfeita. Devemos saber distinguir o futuro atrav\u00e9s das faltas e dos erros da primeira edifica\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>E as calamidades que se abatem sobre os seres vivos? Os resultados da revolu\u00e7\u00e3o justificam as v\u00edtimas que ela causou? Pergunta est\u00e9ril e profundamente ret\u00f3rica! Como se o processo hist\u00f3rico resultasse de um balan\u00e7o cont\u00e1bil. Com tanto mais raz\u00e3o, ante as dificuldades e as penas da exist\u00eancia humana, poder-se-ia perguntar: \u201c<em>Vale a pena viver para isso?<\/em>\u201d. Heine escreveu a este prop\u00f3sito: \u201c<em>E o tolo aguarda uma resposta<\/em>\u201d. As medita\u00e7\u00f5es melanc\u00f3licas n\u00e3o impediram o homem de fecundar e nascer. Ainda nesta \u00e9poca, de uma crise mundial sem precedentes, os suic\u00eddios constituem, felizmente, uma porcentagem muito baixa. Pois os povos n\u00e3o t\u00eam o costume de buscar ref\u00fagio no suic\u00eddio. Aliviam-se das cargas insuport\u00e1veis pela revolu\u00e7\u00e3o. Por outro lado, quem se indigna por causa das v\u00edtimas da revolu\u00e7\u00e3o socialista? Quase sempre s\u00e3o os mesmos que preparam e glorificam as v\u00edtimas da guerra imperialista ou, pelo menos, os que se acomodaram facilmente ao conflito. Tamb\u00e9m n\u00f3s poder\u00edamos perguntar: Justifica-se a guerra? O que ela nos deu? O que nos ensinou?<\/p>\n<p>Em seus onze volumes de difama\u00e7\u00e3o contra a grande Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, o historiador Hip\u00f3lito Taine descreve, n\u00e3o sem s\u00f3rdida alegria, os sofrimentos do povo franc\u00eas nos anos da ditadura jacobina e nos que a ela se seguiram. Foram, sobretudo, penosos para as camadas inferiores das cidades, os plebeus que, como\u00a0<em>sans-culottes<\/em>, deram \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o o melhor de sua alma. Eles ou suas mulheres passavam noites frias nas filas para voltar no dia seguinte com as m\u00e3os vazias ao lar gelado. No d\u00e9cimo ano da revolu\u00e7\u00e3o, Paris era mais pobre que antes da insurrei\u00e7\u00e3o. Dados cuidadosamente escolhidos e artificiosamente completados servem a Taine para fundamentar seu <em>veredictum<\/em> destruidor contra a revolu\u00e7\u00e3o: \u201c<em>Olhai os plebeus. Queriam ser ditadores e ca\u00edram na mis\u00e9ria!<\/em>\u201d \u00c9 dif\u00edcil imaginar um moralista mais hip\u00f3crita. Em primeiro lugar, se a revolu\u00e7\u00e3o lan\u00e7ou o pa\u00eds na mis\u00e9ria, a culpa recairia antes de tudo sobre as classes dirigentes, que empurravam o povo \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Em segundo lugar, a grande revolu\u00e7\u00e3o francesa n\u00e3o se esgotou nas filas da fome, diante das padarias. Toda a Fran\u00e7a moderna e, sob certos aspectos, toda a civiliza\u00e7\u00e3o moderna emergiram da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>No curso da guerra civil dos Estados Unidos morreram 500 mil homens. Justificam-se essas v\u00edtimas? Do ponto de vista do dono de escravos americano e das classes dominantes da Gr\u00e3-Bretanha, n\u00e3o. Do ponto de vista do negro e do oper\u00e1rio brit\u00e2nico, completamente. E do ponto de vista do desenvolvimento da humanidade, no seu conjunto, n\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida. Da guerra civil dos anos 60 sa\u00edram os Estados Unidos atuais, com a sua iniciativa pr\u00e1tica e veloz, a t\u00e9cnica racionalizada, o auge econ\u00f4mico. Sobre essas conquistas do americanismo, a humanidade edificar\u00e1 a nova sociedade.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro penetrou mais profundamente que todas as precedentes no \u00e2mago da sociedade, nas rela\u00e7\u00f5es de propriedade. Prazos maiores s\u00e3o necess\u00e1rios para que se manifestem as for\u00e7as criadoras da revolu\u00e7\u00e3o em todos os dom\u00ednios da vida. Mas a orienta\u00e7\u00e3o geral \u00e9 clara desde j\u00e1: a Rep\u00fablica do Soviets n\u00e3o tem por que abaixar a cabe\u00e7a nem empregar a linguagem da desculpa diante dos seus acusadores capitalistas. Para apreciar o novo regime do ponto de vista do desenvolvimento humano, h\u00e1 que se focalizar, acima de tudo, esta quest\u00e3o: de que maneira se exterioriza o progresso social e como se pode medi-lo? O crit\u00e9rio mais objetivo, mais profundo e mais indiscut\u00edvel \u00e9 o crescimento da produtividade do trabalho social. A experi\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, sob este \u00e2ngulo, fornece-nos uma estimativa. Pela primeira vez na hist\u00f3ria o princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o socialista demonstrou sua capacidade, fornecendo resultados de produ\u00e7\u00e3o jamais obtidos num curto per\u00edodo. Em cifras globais, a curva do desenvolvimento industrial da R\u00fassia se expressa desta forma: ponhamos para o ano de 1913, o \u00faltimo ano antes da guerra, o n\u00famero 100. O ano 1920, fim da guerra civil, \u00e9 o ponto mais baixo da ind\u00fastria: registra-se apenas 25, isto \u00e9, um quarto da produ\u00e7\u00e3o de antes da guerra. 1929 registra aproximadamente 200. 1932, 300, ou seja, o triplo do que havia nas v\u00e9speras da guerra. O quadro aparecer\u00e1 ainda mais claro \u00e0 luz dos \u00edndices internacionais. De 1925 a 1932, a produ\u00e7\u00e3o industrial da Alemanha diminuiu aproximadamente uma vez e meia. Na Am\u00e9rica, aproximadamente dobrou. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, aumentou mais de quatro vezes. As cifras n\u00e3o podem ser mais eloquentes.<\/p>\n<p>De maneira nenhuma pretendo negar ou dissimular os dados sombrios da economia sovi\u00e9tica. Os resultados dos \u00edndices industriais est\u00e3o extraordinariamente influenciados pelo desenvolvimento desfavor\u00e1vel da economia agr\u00e1ria, quer dizer, do dom\u00ednio onde ainda n\u00e3o entraram os m\u00e9todos socialistas, mas foi arrastado para a coletiviza\u00e7\u00e3o sem prepara\u00e7\u00e3o suficiente, de maneira mais burocr\u00e1tica do que t\u00e9cnica ou econ\u00f4mica. Esta \u00e9 uma grande quest\u00e3o, mas ultrapassa os limites da minha confer\u00eancia.<\/p>\n<p>As cifras apresentadas requerem ainda uma ressalva essencial: os \u00eaxitos indiscut\u00edveis e brilhantes da industrializa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica exigem uma verifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ulterior, do ponto de vista da harmonia rec\u00edproca dos diferentes elementos da economia, de seu equil\u00edbrio din\u00e2mico e, por conseguinte, de sua capacidade de rendimento. Aqui s\u00e3o inevit\u00e1veis as grandes dificuldades e tamb\u00e9m os retrocessos. O socialismo n\u00e3o surge em sua forma acabada do Plano Quinquenal como Minerva da cabe\u00e7a de J\u00fapiter ou V\u00eanus da espuma do mar. Estamos diante de d\u00e9cadas de trabalho obstinado, de falhas, de corre\u00e7\u00f5es e de reconstru\u00e7\u00e3o. Por outro lado, n\u00e3o esque\u00e7amos que a edifica\u00e7\u00e3o socialista n\u00e3o pode alcan\u00e7ar o seu coroamento sen\u00e3o sobre o plano internacional.<\/p>\n<p>Mesmo o mais desfavor\u00e1vel balan\u00e7o econ\u00f4mico dos resultados obtidos at\u00e9 agora n\u00e3o poderia revelar outra coisa que a inexatid\u00e3o dos c\u00e1lculos preliminares, as falhas do plano e os erros da dire\u00e7\u00e3o. Mas em caso algum poderia contradizer o fato estabelecido empiricamente: a possibilidade de elevar o trabalho coletivo a uma altura jamais conhecida, com a ajuda dos m\u00e9todos socialistas. Esta conquista, de uma import\u00e2ncia hist\u00f3rica mundial, ningu\u00e9m poder\u00e1 ocultar.<\/p>\n<p>Depois do que disse, quase n\u00e3o vale a pena perder tempo para contestar as lamenta\u00e7\u00f5es segundo as quais a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro conduziu a R\u00fassia ao ocaso da cultura. Tal \u00e9 a voz das classes dominantes e dos sal\u00f5es inquietos. A \u201cCultura\u201d aristocr\u00e1tico-burguesa, derrubada pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, n\u00e3o era mais que um complemento da barb\u00e1rie. Tanto que foi inacess\u00edvel ao povo russo, que pouco aportou ao tesouro da humanidade. Mas, tamb\u00e9m, no que concerne a esta cultura t\u00e3o chorada pela emigra\u00e7\u00e3o branca, \u00e9 preciso esclarecer a quest\u00e3o: em que sentido foi destru\u00edda? Num s\u00f3 sentido: o monop\u00f3lio de uma pequena minoria sobre os bens da cultura desapareceu. No que era realmente cultural permanece intacto. Os \u201chunos\u201d bolcheviques n\u00e3o pisotearam nem as conquistas do pensamento nem as obras de arte. Pelo contr\u00e1rio, restauraram, cuidadosamente, os monumentos da cria\u00e7\u00e3o humana e deram-lhes ordem exemplar. A cultura da monarquia, da nobreza e da burguesia converteu-se presentemente na cultura dos museus hist\u00f3ricos. O povo visita com fervor esses museus, mas n\u00e3o vive neles. Aprende, constr\u00f3i. O simples fato de que a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro tenha ensinado o povo russo, aos numerosos povos da R\u00fassia czarista, a ler e a escrever tem incomparavelmente mais valor do que toda a cultura em conserva da R\u00fassia de outrora. A revolu\u00e7\u00e3o russa criou a base de uma nova cultura, destinada n\u00e3o aos eleitos, mas a todos. As massas do mundo inteiro sentem-no: da\u00ed a sua simpatia pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica t\u00e3o ardente como era antes o seu \u00f3dio contra a R\u00fassia czarista.<\/p>\n<p>Caros ouvintes: v\u00f3s sabeis que a linguagem humana representa um instrumento insubstitu\u00edvel, n\u00e3o somente porque designa as coisas e os fatos, mas tamb\u00e9m porque os afirma. Descartando o acidental, o epis\u00f3dico, o artificial, absorve o real, condensa-o. Notai com que sensibilidade as l\u00ednguas das na\u00e7\u00f5es civilizadas distinguiram duas \u00e9pocas no desenvolvimento da R\u00fassia. A cultura aristocr\u00e1tica trouxe ao mundo barbarismos tais como <em>czar, cossaco, pogrom, nagaika<\/em><sup>1<\/sup>. Conheceis essas palavras e sabeis seu significado. A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro levou a todas as l\u00ednguas do mundo palavras tais como: <em>bolchevique, soviets, kolkhoz, Gosplan piatiletka<\/em>. Aqui a lingu\u00edstica pr\u00e1tica emite seu julgamento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O significado mais profundo da revolu\u00e7\u00e3o \u2014 e que mais dificilmente se submeteu a uma nova prova imediata \u2014 consiste em que forma e tempera o car\u00e1ter do povo. A imagem do povo russo como um povo lento, passivo, melanc\u00f3lico, m\u00edstico, est\u00e1 h\u00e1 muito difundida, e isto n\u00e3o \u00e9 casual. Tem suas ra\u00edzes no passado. Mas ainda n\u00e3o se levaram suficientemente em considera\u00e7\u00e3o, no Ocidente, as modifica\u00e7\u00f5es profundas que a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro introduziu no car\u00e1ter do povo russo. E podia esperar-se outra coisa? Todo homem que tem uma experi\u00eancia de vida pode despertar em sua mem\u00f3ria a imagem de um adolescente qualquer, dele conhecido, que \u2014 impression\u00e1vel, l\u00edrico, sentimental, enfim \u2014 se transforma, mais tarde, de um s\u00f3 golpe, sob a a\u00e7\u00e3o de forte choque moral, num homem forte, bem temperado at\u00e9 o ponto de ficar completamente desconhecido. No desenvolvimento de toda uma na\u00e7\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o realiza transforma\u00e7\u00f5es an\u00e1logas. A insurrei\u00e7\u00e3o de fevereiro contra a autocracia, a luta contra a nobreza, contra a guerra imperialista pela paz, pela terra, pela igualdade nacional, a insurrei\u00e7\u00e3o de outubro, a derrubada da burguesia e dos partidos com tend\u00eancias a sustent\u00e1-la, tr\u00eas anos de guerra civil sobre uma frente de 8.000 quil\u00f4metros, os anos de bloqueio, de mis\u00e9ria, de fome, de epidemias, os anos de tensa edifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, as novas dificuldades e priva\u00e7\u00f5es, tudo isto integra uma rude escola, por\u00e9m boa. Um pesado martelo transforma o vidro em p\u00f3. Mas, em compensa\u00e7\u00e3o, forja o a\u00e7o. O martelo da revolu\u00e7\u00e3o forja o a\u00e7o do car\u00e1ter do povo.<\/p>\n<p>\u201c<em>Quem poderia creditar?<\/em>\u201d Era preciso acreditar. Pouco depois da insurrei\u00e7\u00e3o, um dos generais czaristas, Zaleski, escandalizava-se com o fato de que \u201c<em>um porteiro ou um guarda se convertesse num presidente de tribunal; um enfermeiro, em diretor de hospital; um barbeiro, em personalidade importante; um sargento, em comandante supremo; um diarista em prefeito; um carpinteiro, em diretor de empresa<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>\u201c<em>Quem poderia creditar?<\/em>\u201d Era preciso acreditar. Embora n\u00e3o se acreditasse, os sargentos j\u00e1 derrotavam os generais; o prefeito, antes diarista, rompia a resist\u00eancia da velha burocracia; o carpinteiro, agora diretor, reconstru\u00eda a ind\u00fastria. \u201c<em>Quem poderia acreditar?<\/em>\u201d Que tratem agora de acreditar&#8230;<\/p>\n<p>Para explicar a paci\u00eancia que as massas populares da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica demonstraram nos anos da revolu\u00e7\u00e3o, muitos observadores estrangeiros recorrem, por h\u00e1bito, \u00e0 passividade do car\u00e1ter russo. Grosseiro anacronismo! As massas revolucion\u00e1rias suportam as priva\u00e7\u00f5es pacientemente, mas n\u00e3o passivamente. Elas constroem com suas pr\u00f3prias m\u00e3os um futuro melhor. E querem cri\u00e1-lo a qualquer pre\u00e7o. Que o inimigo de classe trate somente de impor a essas massas pacientes sua vontade, de fora. N\u00e3o, \u00e9 melhor que n\u00e3o tente!<\/p>\n<p>Para terminar, tratemos de fixar o lugar da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro n\u00e3o somente na hist\u00f3ria da R\u00fassia como tamb\u00e9m na hist\u00f3ria do mundo. Durante o ano de 1917, no intervalo de oito meses, duas curvas hist\u00f3ricas convergem. A Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro \u2014 este eco tardio das grandes lutas que se travaram nos s\u00e9culos passados sobre o territ\u00f3rio dos Pa\u00edses Baixos, Inglaterra, Fran\u00e7a, quase toda a Europa continental \u2014 une-se \u00e0 s\u00e9rie de revolu\u00e7\u00f5es burguesas. A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro proclama e abre a era da domina\u00e7\u00e3o do proletariado. \u00c9 o capitalismo mundial que sofre sobre o territ\u00f3rio da R\u00fassia a primeira grande derrota. A corrente partiu-se pelo elo mais fraco. Mas foi a corrente e n\u00e3o somente o elo que se quebrou.<\/p>\n<p>O capitalismo como sistema mundial apenas sobrevive, historicamente. Terminou de cumprir sua miss\u00e3o: a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de poder e da riqueza humana. A humanidade n\u00e3o pode estancar no degrau alcan\u00e7ado. S\u00f3 um poderoso impulso das for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o e uma organiza\u00e7\u00e3o justa, planificada, em outras palavras, socialista de produ\u00e7\u00e3o e de distribui\u00e7\u00e3o pode assegurar aos homens \u2014 a todos os homens \u2014 o n\u00edvel de vida digno de conferir-lhes, ao mesmo tempo, o sentimento inef\u00e1vel de liberdade diante de sua pr\u00f3pria economia. De liberdade em duas ordens de rela\u00e7\u00f5es: primeiramente, o homem n\u00e3o se ver\u00e1 mais obrigado a consagrar sua vida inteira ao trabalho f\u00edsico; em segundo lugar, j\u00e1 n\u00e3o depender\u00e1 das leis do mercado, isto \u00e9, da for\u00e7as cegas e obscuras que operam fora de sua vontade. O homem edificar\u00e1, livremente, sua economia, quer dizer, ajustada a um plano, o compasso na m\u00e3o. Trata-se agora de radiografar a anatomia da sociedade, de descobrir todos os seus segredos e submeter todas as suas fun\u00e7\u00f5es \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 vontade do homem coletivo. Neste sentido, o socialismo gera uma nova etapa no crescimento hist\u00f3rico da humanidade. A nosso antepassado, armado pela primeira vez com um machado de pedra, toda a natureza se lhe apresenta como a conjura\u00e7\u00e3o de um poder misterioso e hostil. Mais tarde, as ci\u00eancias naturais, em estreita colabora\u00e7\u00e3o com a tecnologia pr\u00e1tica, iluminaram a natureza, at\u00e9 suas mais profundas entranhas. Por meio da energia el\u00e9trica, o f\u00edsico elabora seu ju\u00edzo sobre o n\u00facleo at\u00f4mico. N\u00e3o est\u00e1 longe a hora em que \u2014 como na fic\u00e7\u00e3o \u2014 a ci\u00eancia resolver\u00e1 a tarefa da alquimia, transformando o esterco em ouro e o ouro em esterco. L\u00e1, onde os dem\u00f4nios e as f\u00farias da natureza se desatavam, reina agora cada vez mais corajosamente a vontade do homem.<\/p>\n<p>Mas, enquanto lutava furiosamente com a natureza, o homem criou \u00e0s cegas rela\u00e7\u00f5es com os demais, assim como as abelhas e as formigas. Com atraso e por demais indeciso, deparou com os problemas da sociedade humana. Come\u00e7ou pela religi\u00e3o para depois passar \u00e0 pol\u00edtica. A Reforma trouxe o primeiro \u00eaxito do individualismo e do nacionalismo burgu\u00eas, no dom\u00ednio onde imperava uma tradi\u00e7\u00e3o morta. O pensamento cr\u00edtico passou da igreja ao Estado. Nascida na luta contra o absolutismo e as condi\u00e7\u00f5es medievais, a doutrina da soberania popular e dos direitos do homem e do cidad\u00e3o ampliou-se e fortaleceu-se. Assim se formou o sistema do parlamentarismo. O pensamento cr\u00edtico penetrou no dom\u00ednio da administra\u00e7\u00e3o do Estado. O racionalismo pol\u00edtico da democracia significou a mais alta conquista da burguesia revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Entre a natureza e o Estado interp\u00f4s-se a economia. A t\u00e9cnica libertou o homem da tirania dos velhos elementos: a terra, a \u00e1gua, o fogo, o ar, para submet\u00ea-los em seguida \u00e0 sua pr\u00f3pria tirania. A atual crise mundial comprova de maneira particularmente tr\u00e1gica como este dominador altivo e audaz da natureza permanece escravo dos poderes cegos de sua pr\u00f3pria economia. A tarefa hist\u00f3rica de nossa \u00e9poca consiste em substituir o jogo an\u00e1rquico do mercado por um plano racional, e disciplinar as for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o, em obrig\u00e1-las a operar em harmonia, servindo docilmente \u00e0s necessidades do homem. Somente sobre esta base social o homem poder\u00e1 repousar suas costas fatigadas. N\u00e3o os eleitos, mas todos e todas, tornando-se cidad\u00e3os com plenos poderes. No entanto, ainda n\u00e3o \u00e9 esta a meta do caminho. N\u00e3o. Isto n\u00e3o \u00e9 mais que o princ\u00edpio. O homem considera-se o coroamento da cria\u00e7\u00e3o. Tem para isto, sim, certos direitos. Mas quem se atreve a afirmar que o homem atual seja o \u00faltimo representante, o mais elevado da esp\u00e9cie <em>homo sapiens<\/em>? Ningu\u00e9m. Tanto fisicamente como espiritualmente, est\u00e1 muito longe da perfei\u00e7\u00e3o este aborto biol\u00f3gico cujo pensamento est\u00e1 enfermo e que n\u00e3o criou um novo equil\u00edbrio org\u00e2nico.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a humanidade produziu mais de uma vez gigantes do pensamento e da a\u00e7\u00e3o que superam os seus contempor\u00e2neos, como picos numa cadeia de montanhas. O g\u00eanero humano tem perfeito direito de orgulhar-se dos seus Arist\u00f3teles, Shakespeare, Darwin, Beethoven, Goethe, Marx, Edison, Lenin. Mas por que esses homens s\u00e3o t\u00e3o raros? Antes de tudo porque sa\u00edram, quase sem exce\u00e7\u00e3o, das classes m\u00e9dias e elevadas. Salvo raras exce\u00e7\u00f5es, os g\u00eanios perdem-se afogados nas entranhas oprimidas do povo, antes de ter possibilidade de brotar. Mas tamb\u00e9m porque o processo de desenvolvimento e de educa\u00e7\u00e3o do homem permanece, em sua ess\u00eancia, como obra do acaso, n\u00e3o como resultado de elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, ou pela pr\u00e1tica, de maneira alheia \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>A antropologia, a biologia, a fisiologia, a psicologia reuniram verdadeiras montanhas de materiais para erigir ante o homem, em toda sua amplitude, as tarefas de seu pr\u00f3prio aperfei\u00e7oamento corporal e espiritual e de seu desenvolvimento ulterior. Pela m\u00e3o genial de Sigmund Freud, a psican\u00e1lise levantou a tampa do po\u00e7o que, poeticamente, se chama a \u201calma\u201d do homem. E o que revelou? Nosso pensamento consciente n\u00e3o constitui mais que uma pequena parte do trabalho das obscuras for\u00e7as ps\u00edquicas. S\u00e1bios descem aos fundos dos oceanos e fotografam a fauna misteriosa das \u00e1guas. Para que o pensamento humano des\u00e7a at\u00e9 as profundezas de seu pr\u00f3prio oceano ps\u00edquico deve iluminar as for\u00e7as motrizes, misteriosas, da alma e submet\u00ea-las \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 vontade. Quando eliminar as for\u00e7as an\u00e1rquicas de sua pr\u00f3pria sociedade, o homem integrar-se-\u00e1 aos laborat\u00f3rios e aos cadinhos do qu\u00edmico. Pela primeira vez, a humanidade considerar-se-\u00e1 a si mesma como mat\u00e9ria-prima e, no melhor dos casos, como semifabrica\u00e7\u00e3o f\u00edsica e ps\u00edquica. O socialismo significar\u00e1 um salto do reino da necessidade ao reino da liberdade, no sentido de que o homem de hoje, esmagado pelo peso das contradi\u00e7\u00f5es e sem harmonia, abrir\u00e1 o caminho a uma nova esp\u00e9cie humana, mais feliz.<\/p>\n<p><strong>Gloss\u00e1rio:<\/strong><\/p>\n<p><em>Czar<\/em>: uma adapta\u00e7\u00e3o do latim Cesar.<\/p>\n<p><em>Cossaco<\/em>: cavaleiro livre, servo liberto que levava uma vida semin\u00f4made na regi\u00e3o sul da R\u00fassia na \u00e9poca imperial; em geral, era fiel \u00e0 monarquia e tinha mentalidade reacion\u00e1ria; uma parte dos cossacos aderiu \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa ou se manteve neutra, outra parte ficou com os brancos na guerra civil. Depois da guerra civil, as comunidades cossacas foram proibidas e integradas aos kolkhozes e sovkhozes.<\/p>\n<p><em>Pogrom<\/em>: literalmente \u201cdevasta\u00e7\u00e3o\u201d, a express\u00e3o mais comum \u00e9 \u201cpogrom de judeus\u201d, megaopera\u00e7\u00f5es de exterm\u00ednio de comunidades judias que ocorriam frequentemente durante o per\u00edodo imperial na R\u00fassia, com anu\u00eancia do imperador.<\/p>\n<p><em>Nagaika<\/em>: chicote curto e semirr\u00edgido, feito de couro, utilizado pelos cossacos para cavalgar e tamb\u00e9m para agredir as pessoas.<\/p>\n<p><em>Bolchevique<\/em>: maioria.<\/p>\n<p><em>Soviet<\/em>: conselho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicamos a confer\u00eancia pronunciada por Leon Trotsky em 27 de novembro de 1932, em Copenhague, Dinamarca. 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