{"id":12050,"date":"2015-10-25T00:36:46","date_gmt":"2015-10-25T02:36:46","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/?p=12050"},"modified":"2015-10-25T00:36:46","modified_gmt":"2015-10-25T02:36:46","slug":"presos-em-greve-de-fome-exigem-liberdade-em-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2015\/10\/25\/presos-em-greve-de-fome-exigem-liberdade-em-angola\/","title":{"rendered":"Presos em greve de fome exigem liberdade em Angola"},"content":{"rendered":"<p><em>Luaty Beir\u00e3o, um dos 15 jovens presos em Angola desde 20 de junho deste ano, entrou em greve de fome em 21 de setembro. Em situa\u00e7\u00e3o delicada e mantido vivo pela infus\u00e3o de soro, ele reivindica que todos possam aguardar o julgamento em liberdade, como \u00e9 garantido pela constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Cristina Portela<\/p>\n<p>Outro dos jovens, Albano Bingobingo, tamb\u00e9m conhecido como \u201cAlbano Liberdade\u201d, come\u00e7ou uma greve de fome no dia 9 de outubro, ap\u00f3s ter sido torturado por guardas prisionais, e se encontra em estado de sa\u00fade bastante delicado.<\/p>\n<p>Esses jovens, presos pol\u00edticos da ditadura angolana, foram acusados pelo presidente Jos\u00e9 Eduardo de Santos de preparar um golpe de Estado para derrub\u00e1-lo. O que est\u00e1 por tr\u00e1s da determina\u00e7\u00e3o de Luaty e Albano, em arriscar a pr\u00f3pria vida, e do regime angolano, em n\u00e3o voltar atr\u00e1s de sua decis\u00e3o de manter os jovens encarcerados de forma ilegal?<\/p>\n<p><strong>A revolta da juventude<\/strong><\/p>\n<p>Luaty, ou \u201cIkonoklasta\u201d, um dos seus nomes de guerra na cena rapper, comp\u00f5e m\u00fasicas que questionam a falta de liberdade, a desigualdade social e a corrup\u00e7\u00e3o do regime angolano e o beco sem sa\u00edda em que se encontra a sua juventude. Em Angola, 37% da popula\u00e7\u00e3o vivem abaixo do limiar da pobreza, recebendo em torno de R$ 160, ao mesmo tempo em que o pa\u00eds apresenta um dos maiores consumos de champanhe per capita. Enquanto o povo passa fome, uma elite de 300\/400 mil pessoas compra 240 mil garrafas de champanhe por ano. A juventude \u00e9 a principal v\u00edtima do desemprego que, pelos c\u00e1lculos imprecisos e otimistas do governo, giraria em torno de 26%.<\/p>\n<p>Inspirada na Primavera \u00c1rabe, essa juventude come\u00e7ou a se rebelar em 2011, organizando v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es de protesto nas ruas, sempre reprimidas pela pol\u00edcia. Nessas manifesta\u00e7\u00f5es, era pedida a sa\u00edda de Jos\u00e9 Eduardo do Santos, h\u00e1 36 anos no poder. Luaty e seus amigos s\u00e3o os \u201crevu\u201d, abreviatura de \u201crevolucion\u00e1rios\u201d, por fazerem parte do Movimento Revolucion\u00e1rio, um movimento amplo centrado na contesta\u00e7\u00e3o ao regime.<\/p>\n<p>O rapper Luaty destaca-se nesse movimento por ser branco, de classe m\u00e9dia e filho de um homem do regime \u2013 mas Luaty \u00e9, tamb\u00e9m, um irreverente. O escritor Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, em sua cr\u00f4nica\u00a0relembra uma atua\u00e7\u00e3o de Luaty num show em 2011, quando, sabendo que o filho do presidente, Eduane Danilo dos Santos, estava na plateia, sobe ao palco e grita: \u201cSenhor Danilo vai dizer ao teu pap\u00e1. N\u00e3o queremos mais ele aqui. 32 [<em>refer\u00eancia ao n\u00famero de anos de Jos\u00e9 Eduardo dos Santos no poder naquele ano<\/em>] \u00e9 muito. \u00c9 muito! (\u2026) Senhor Dino Matross [<em>secret\u00e1rio-geral do MPLA<\/em>], senhor Virg\u00edlio de Fontes Pereira [<em>l\u00edder da bancada parlamentar do MPLA<\/em>], todos pro caralho!\u201d.<\/p>\n<p><strong>O medo de \u201cZedu\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Eduardo dos Santos, o \u201cZedu\u201d, e a sua corja est\u00e3o com medo. O valor do petr\u00f3leo est\u00e1 em queda, o que representa um verdadeiro terremoto para um pa\u00eds que importa quase tudo e em que esta\u00a0<em>commoditie<\/em>\u00a0representa 95% das exporta\u00e7\u00f5es. A crise econ\u00f4mica que atinge Angola significa que, para manterem a taxa de lucro dos capitalistas nacionais e estrangeiros e o n\u00edvel de corrup\u00e7\u00e3o e nepotismo que transformou a filha do presidente na mulher mais rica da \u00c1frica, t\u00eam de explorar ainda mais o povo. Mas para isso t\u00eam de calar a boca dos dissidentes, especialmente a juventude.<\/p>\n<p>Foi por isso que, no dia 20 de junho, a pol\u00edcia prendeu aqueles jovens que, junto com Luaty e Albano, se reuniam numa resid\u00eancia de Luanda para discutir pol\u00edtica e ler um livro sobre resist\u00eancia n\u00e3o-violenta contra a opress\u00e3o, chamado\u00a0<em>Da ditadura \u00e0 democracia \u2013 uma estrutura conceitual para a liberta\u00e7\u00e3o<\/em>, do estadunidense Gene Sharp.<\/p>\n<p>O medo de \u201cZedu\u201d de ver repetir-se em Angola as mobiliza\u00e7\u00f5es que levaram \u00e0 queda das ditaduras no Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica levou o regime a agravar a repress\u00e3o. Organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais angolanas relatam deten\u00e7\u00f5es em Cabinda, como a do ativista Marcos Mavungo, em mar\u00e7o, e persegui\u00e7\u00f5es em Luanda a dirigentes de organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, como a SOS Habitat.<\/p>\n<p><strong>Campanha pela liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s as pris\u00f5es, em junho, teve in\u00edcio uma intensa campanha internacional pela liberta\u00e7\u00e3o dos ativistas, na qual participam os escritores Jos\u00e9 Eduardo Agualusa e Ondjaki, artistas como N\u00e1stio Mosquito, al\u00e9m do jornalista Rafael Marques e de v\u00e1rios investigadores e acad\u00eamicos de universidades estrangeiras.<\/p>\n<p>Abaixo-assinados e v\u00eddeos passaram a circular nas redes sociais, entre os quais um criado por um grupo de jovens angolanos a estudar no Brasil, solidarizando-se com os presos pol\u00edticos e todos aqueles que s\u00e3o v\u00edtimas de persegui\u00e7\u00e3o e intoler\u00e2ncia pol\u00edtica em Angola. \u201c<em>A luta pela liberdade de express\u00e3o e a igualdade social n\u00e3o \u00e9 crime<\/em>\u201d, declara um dos estudantes angolanos no v\u00eddeo \u201cLiberdade j\u00e1. Angola livre\u201d.<\/p>\n<p>Em Portugal, Fran\u00e7a e Inglaterra, pa\u00edses de forte presen\u00e7a angolana, foram realizadas manifesta\u00e7\u00f5es de solidariedade com os jovens. Em Angola, houve algumas, entre as quais a marcha dos familiares dos ativistas detidos, em agosto, interrompida por forte repress\u00e3o policial, em que m\u00e3es e outros participantes foram agredidos a bastonadas e mordidos por c\u00e3es.<\/p>\n<p>No Brasil, onde se estima residirem 12,5 mil angolanos, \u00e9 preciso organizar manifesta\u00e7\u00f5es de solidariedade aos presos e exigir do governo Dilma (PT) que se posicione oficialmente a favor da liberdade dos jovens e dos direitos democr\u00e1ticos do povo angolano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luaty Beir\u00e3o, um dos 15 jovens presos em Angola desde 20 de junho deste ano, entrou em greve de fome em 21 de setembro. 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