Foi com este slogan que, em 09 de agosto de 2014, jovens negros se mobilizaram com vizinhos, amigos e famílias em Ferguson, em todo o estado de Missouri e no resto do país para exigir julgamento e punição para o policial que matou Michael Brown.

E foi com este mesmo slogan que a comunidade negra novamente voltou ás ruas aos milhares na cidade de Baltimore, em 18 de abril de 2015, após a morte de Freddie Gray, um homem negro de 25 anos de idade que morreu sob custódia da polícia.



No entanto, mais uma vez, os protestos se espalharam por muitas outras cidades. Para além dos pormenores do que exatamente aconteceu e como a perseguição legal está avançando (ou não), nós gostaríamos de explorar as principais causas subjacentes e as possíveis soluções para essa violência de Estado generalizada e constante contra as pessoas negras nos EUA. Isso porque, se houve mobilizações nacionais em resposta a esses eventos, é justamente porque Brown e Gray não são casos isolados ou acidentais.



De Ferguson a Baltimore: o problema não é uma questão de "representação"



Um dos principais obstáculos na luta contra a violência contra os negros e a opressão que enfrentam é ideológico. O outro é, obviamente, organizativo: não temos mais uma organização nacional real da comunidade negra, com influência de massas e apelando a uma ação de massas, como nos anos 60 e 70. Mas os dois, claro, estão ligados.



Nas últimas duas décadas, uma explicação hipócrita da opressão racial tem sido sistematicamente promovida a partir de todas as instituições de poder (do governo e do sistema bipartidário até as escolas e universidades): que pessoas brancas oprimem pessoas negras porque têm "privilégios" e eles "por acaso"  estão no poder e que, se os negros ocupassem posições de responsabilidade política e poder, isso não aconteceria mais. Esta teoria do "privilégio" aborda a raiz do problema. Ela propõe uma "política de identidade", que se baseia numa política inerentemente progressiva do "ser oprimido": porque alguém é negro, [email protected], ou mulher, isso significaria automaticamente que alguém encarna a luta destes sectores pelos seus direitos, independentemente da política que defende por trás. As "políticas de identidade" têm ajudado imensamente o Partido Democrata para eleger Obama e canalizar rebeliões, lutadores e esforços de organização popular pela base para dentro de campanhas eleitorais e de lobby – e nós pensamos que estas políticas são erradas e prejudiciais. A situação em Baltimore demonstra isso.



Baltimore tem sido um bastião do Partido Democrata (PD) há 150 anos, e o PD conseguiu cooptar as lutas e ocupar posições de poder com seus representantes negros – o que é um fenômeno distinto do de Ferguson. No entanto, se olharmos para a realidade, e não para a imagem bonita mostrada pelas instituições de representação burguesas, a situação é sombria. Na cidade de Baltimore (que tem uma população de 600.000), em que 64% da população é negra, há "representação racial": a prefeita é negra, dois terços dos membros do conselho são negros, o superintendente da escola é negro… o chefe de polícia é negro… e a maioria dos policiais são negros. Ainda assim, isso não impediu a morte de Freddie Gray ou faz de Baltimore um lugar onde a juventude negra é menos discriminada e violada pela polícia. Ter "representantes de raça" em posições de poder não é o que importa, Baltimore e Obama mostram isso. Em vez disso, o que importa são as políticas desenvolvidas por esses representantes, e mais ainda, o caráter de classe das instituições a partir das quais eles governam. As perguntas que devemos fazer são: que interesses os partidos Democrata e Republicano representam? Qual é o seu saldo histórico, o que eles fizeram? Que interesses têm historicamente sido representados pelo Congresso, pela polícia, pelo FBI, pela Guarda Nacional, etc.?



Nós, socialistas, dizemos que a situação actual do povo negro está para além de um problema de treinamento e educação das forças policiais ou de um problema de "sub-representação". É o resultado da ofensiva neoliberal de criminalização e encarceramento em massa dos negros. Esta ofensiva não aconteceu por acaso: ele era parte da resposta à crise do capitalismo americano na década de 1970 e o fim de uma onda de acumulação. Pois para recuperar os seus benefícios e sua taxa de lucro, as grandes multinacionais e a classe dominante no seu conjunto – lideradas por Reagan – não só tiveram de destruir as principais conquistas do movimento operário (salários, benefícios e direitos), também tiveram de submeter novamente o setor negro da classe a um estado vulnerável e super-explorado, com salários mais baixos, e uma marginalização social e exposição ao desemprego crônicas. Desde 1982, com a "Guerra às Drogas" iniciada pela administração Reagan, o capitalismo americano voltou o relógio imaginário do progresso burguês. O governo começou a implementar de forma dissimulada uma onda regressiva de políticas mirando os jovens trabalhadores negros. E esta ofensiva conseguiu fazer estragos em todas as conquistas do movimento pelos Direitos Civis nos anos 60, tanto que hoje a maioria dessas conquistas em prol da igualdade e liberdade são puramente formais. A comunidade negra hoje, depois de 30 anos de criminalização neoliberal, vive uma nova forma de segregação social.



A "Guerra às Drogas" e a nova segregação económica e social: O "problema negro" é um problema da classe trabalhadora



Algumas semanas atrás, o New York Times publicou um artigo com um título sensacionalista e "chocante", mas que é terrivelmente verdadeiro: "Estão faltando 1,5 milhão de homens negros". Este milhão e meio de negros, dos quais a imensa maioria é de trabalhadores, não foram engolidos pela terra, e sim devorados pelo sistema capitalista. O estudo mostra que "para cada 100 mulheres negras fora da cadeia, existem apenas 83 homens negros. Os demais homens. – 1.500.000 deles – estão, em certo sentido, faltando". Essa proporção é de 99 para 100 nos homens brancos. Enquanto a proporção geral no país é de 49%, em Baltimore, a proporção é de 44%, em Nova York e Chicago é de 43% … e em Ferguson é de 37,5%. Onde estão os homens negros que estão "faltando"? Eles ou tiveram uma morte prematura ou estão na prisão (600.000 deles). Entre as idades de 25 e 54 anos, um em cada 12 homens negros está na prisão, enquanto para os brancos a proporção é de 1 em cada 60 homens. A cadeia é o destino preferencial que o sistema capitalista reserva para os negros hoje.



A ofensiva neo-liberal dos últimos 30 anos mudou radicalmente a vida das pessoas negras. Ao longo desse período, a população carcerária dos EUA cresceu de 300.000 para mais de 2,5 milhão de prisioneiros, fazendo dos EUA o país com a maior taxa de encarceramento do mundo (maior do que a Rússia, a China ou o Irã). Um estudo realizado em 2014 mostrou que pelo menos 12 milhões de pessoas passam por algum tipo de cadeia local por ano, e que daqueles que estão nestas prisões, pouco mais da metade não foram condenados, e ainda estão presos aguardando julgamento, uma vez que não têm dinheiro para pagar fiança ou para obter um bom advogado. O restante está na prisão por infracções muito leves. O problema judicial é claramente uma questão de classe.



A "Guerra às Drogas" era, e ainda é, uma guerra contra a classe trabalhadora, e em particular contra os negros, para arrancar deles os direitos que conquistaram e fazê-los pagar o custo da crise: 38% dos presos são negros (quando apenas 12,9% da população é negra). O resultado desta operação de estigmatização, criminalização e encarceramento ("todos os negros são drogados violentos") levou a população negra a um novo tipo de segregação social e econômica. 80% dos homens jovens afro-americanos em grandes cidades têm uma ficha criminal e, portanto, não conseguirão encontrar um emprego estável.



O "Sonho Americano" não existe para os jovens e adultos negros. Nos EUA existem hoje 65 milhões de trabalhadores que têm antecedentes criminais, ou seja, um quarto da população activa, dos quais a maioria são negros e [email protected] . Isso significa que eles não serão capazes de encontrar trabalho estável ou trabalho paga bem suficientemente (isto é, um salário decente, plano de saúde, uma aposentadoria digna, férias e licenças médicas) porque 92% das empresas verificam o registo criminal de "alguns" candidatos, enquanto 73% verificam os de todos. Por lei, esses trabalhadores estão excluídos de várias profissões, e não têm acesso a habitação social ou vale-refeição… e muitos deles perdem o direito de votar nas eleições. Nas eleições nacionais de 2012, 8% do eleitorado negro não podia votar por este motivo.



A opressão racial é, portanto, um problema da classe trabalhadora: Obama e a prefeita de Baltimore não tem nada a ver com a vida de 99% dos negros, que compartilham mais das características estruturais da sua existência social com o resto da classe trabalhadora. A ofensiva reacionária contra a população negra é de fato uma ofensiva contra a classe trabalhadora como um todo. E o sistema judicial norte-americano tornou-se o principal instrumento de controle, despolitização e opressão da nossa classe, principalmente da população negra e [email protected]



A política de Obama: a favor das transnacionais e da repressão



Mas talvez a rebelião e o ódio dos jovens que estão tomando as ruas hoje não sejam apenas o resultado de décadas de marginalização e violência; talvez a juventude também se sinta vítima de uma traição política terrível. A administração Obama não só não aprovou uma única medida a favor dos negros, mas em vez disso, continuou a ofensiva anti-classe trabalhadora e a criminalização racial do Estado norte-americano: ele optou por salvar os grandes bancos e as multinacionais da crise de 2008 e aplicar austeridade para a nossa classe.



Suas prioridades são claras: em 2014, gastou 17% dos recursos do país para financiar o Departamento de Defesa, as ocupações de guerra, as bases militares fora dos EUA, e apenas 2% para a educação – percentagens que permaneceram a mesmo e semelhante às da era Bush. Na verdade, o primeiro orçamento apresentado pela administração Obama em 2010 representou um aumento de 7% para a Defesa e 21% para o Departamento de Segurança Interna, que atingiu um recorde em 2011 de 75 bilhões de dólares … o ano que viu o nascimento do movimento Occupy.



Obama continuou o programa de militarização das forças policiais locais iniciado por Bush: desde 2003, $34 bilhões do financiamento federal foram alocados para as polícias locais para comprar equipamentos militares de empresas militares privadas. Nas grandes cidades, particularmente aquelas com uma alta porcentagem de negros e [email protected], a polícia tem veículos blindados, helicópteros, drones, tanques, equipamentos de assalto e de visão noturna.



Precisamos organizar o movimento com uma política de classe



Em face dos atuais motins urbanos e rebeliões, nós socialistas defendemos incondicionalmente o direito do povo negro a se rebelar, a organizar-se e defender-se dos ataques contínuos por parte das polícias locais e do estado federal que tem militarizado seus bairros. O debate central não deve ser se a luta política é feita sobre um princípio moral de não-violência ou se a violência é um meio legítimo para a ação política. Em vez disso, a discussão deve ser centrada na necessidade de organizar o movimento nacional para enfrentar o governo federal, para organizar um movimento com independência de classe do governo e das corporações, e para fazer um chamado à unidade da classe trabalhadora como um todo.



Por isso, chamamos todas as organizações de trabalhadores, sindicatos, organizações comunitárias, e em particular para as lideranças da AFL-CIO e das federações da Coalizaão Change To Win, a seguir o exemplo dos trabalhadores portuários da Costa Oeste (ILWU), que organizaram uma paralisação no Primeiro de Maio contra a violência policial e o racismo, e por julgamento e punição para os policiais responsáveis. O que nós precisamos é de uma greve geral para exigir o fim da criminalização e militarização dos bairros negros e para recuperar todos os direitos trabalhistas e civis e forçar o governo Obama a tomar uma atitude real.



Julgamento e punição para todos os policiais culpados de assassinato!



Libertação imediata de todos os jovens que foram processado por participar de protestos!



Chega de militarização da polícia e de política de encarceramento em massa!



Verba para empregos estáveis e educação não para guerra, prisões e militarização!



Vamos seguir o exemplo do ILWU! Vamos organizar um Dia Nacional de Greve contra a violência policial e a discriminação racial!