No Uruguai vem surgindo uma importante crise social que ninguém pode ocultar e que afeta a centenas de milhares de trabalhadores, pequenos comerciantes e aos setores mais humildes. O aumento nos números de desempregados, da entrada no seguro desemprego, da pobreza e a proliferação das cozinhas populares, foram os primeiros sinais desta crise.

Por: IST – Uruguai

O estopim tem sido a crise econômica mundial aprofundada pelo impacto da Covid-19 e agravada pelas medidas de ajuste e cortes do governo antioperário de Lacalle Pou e a Coalición Multicolor. No fundo assistimos a decadência de um modelo econômico capitalista que só oferece mais penúrias para os trabalhadores.

O capitalismo uruguaio dependente e em decadência

Esta democracia capitalista, dos ricos, está feita a imagem e semelhança da débil e submissa burguesia uruguaia ao imperialismo, onde os “pactos democráticos e republicanos” para dividir cargos entre oficiais e opositores têm sido historicamente uma norma entre Brancos e Colorados, à qual se incluiu os dirigentes da Frente Ampla.

Esses pactos têm como base política a alternância no poder, para aprofundar um modelo econômico que tornou mais primaria e estrangeira a economia e fez do Uruguai um país agroexportador, dependente das multinacionais e do imperialismo.

Um modelo que foi imposto a sangue e fogo pela ditadura cívico-militar e que todos os governos posteriores aprofundaram.

Dessa forma foram liquidando grande parte da indústria, e a pouca que ainda sobrevive, como a dos frigoríficos está majoritariamente em mãos estrangeiras. Também se aprofundou o peso do latifúndio, onde uma importante parte das terras também se encontra em mãos estrangeiras. O Uruguai deixou de produzir até suas próprias vacinas, setor fundamental na atual pandemia.

É o modelo que tornou os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Enquanto os preços altos das matérias primas permitiram, se dissimulou um pouco a decadência. Mas a ilusão durou pouco e a crise veio para escancarar e aprofundar a crescente desigualdade social existente no seio da sociedade.

O Uruguai, que já foi chamado de “Suíça da América”, e sua tão exemplar “república democrática”, destacada pelos políticos burgueses uruguaios de todos os partidos, deixa agora abertamente à vista que está assentado na miséria de centenas de milhares.

As medidas do governo aumentam a miséria

O governo Multicolor, como representante dos grandes patrões, pretende continuar aprofundando seu plano, e este modelo econômico miserável, agudizando a crise social e ameaçando transformar em crônicos os problemas da fome e do desemprego.

O próprio jornal liberal Búsqueda, reconheceu a magnitude do problema em seu editorial: “É possível que alguns dos jogadores eleitos por este governo sejam os indicados para a tarefa prometida nas últimas eleições, mas não para enfrentar a crise e nos proteger –como disse a diretora do FMI- de um ‘colapso na economia’ e evitar assim uma ‘onda de insolvências e um desemprego estrutural” (1).

Com esta “advertência” evidencia, que as trágicas consequências das medidas do governo vão recair sobre os trabalhadores, os pequenos comerciantes e o povo pobre no geral. Vão aprofundar assim a crise social, brincando perigosamente com fogo. Quanta miséria se poderá tolerar sem uma reação dos de baixo? Esse é o temor que mostra a burguesia.

Por outro lado, os dirigentes da Frente Ampla – FA (cujos governos não romperam com este modelo capitalista), só oferecem como alternativa negociações parlamentares e esperar as eleições de 2024, dando a Lacalle Pou a estabilidade que precisa para nos atacar.

Mas com este panorama os trabalhadores vão poder e querer esperar?

A crise social atua como uma bomba relógio em um contexto onde na América Latina e no mundo a crescente desigualdade tem sido o estopim de diversos levantamentos populares.

Esta profunda crise no Uruguai –da qual estamos vivendo os primeiros sintomas- se combina com uma situação mundial onde, como descrevia Trotsky: “A economia, o Estado, a política da burguesia e suas relações internacionais estão profundamente afetadas pela crise social que caracteriza a situação pré-revolucionária da sociedade” (2).

Neste período convulsivo, se os trabalhadores não querem continuar caindo na miséria, devem se organizar a partir da base, nos locais de trabalho, de estudo, nos bairros e nas panelas comunitárias, para expressar toda raiva em uma luta massiva e unificada que consiga frear os ataques do governo e exija medidas econômicas e sanitárias em favor dos trabalhadores e setores populares, os mais expostos ao Covid-19.

Nessas lutas, temos a tarefa de colocar de pé um partido revolucionário, para acabar com este sistema explorador e construir um Estado Operário caminho ao Socialismo em nível mundial, no qual governe os trabalhadores com suas próprias instituições.

A crise social é testemunha disso, não existe meio termo: são eles ou nós.

Radiografia de uma crise social

  • Desemprego: 9% (194.000 pessoas) mas o próprio ministro do Trabalho, Pablo Mieres, reconheceu que estimam que a cifra “real” está em 13% ou 14%*
  • Desemprego na juventude: (15 a 24 anos): 7%. **
  • Pobreza: estima-se que somente ante o início da pandemia. 100.000 pessoas caíram para abaixo da linha da pobreza. *** 
  • Panelas comunitárias : Umas 136.00 pessoas dependem de panelas comunitárias para comer. ****
  • Trabalho Informal: Afeta umas 400.000 pessoas. *****
  • Em 2013 o INE divulgou que pelo menos um terço da população vivia com ao menos uma necessidade básica não satisfeita. ******
  • Assentamentos: Se estima que existam 656 assentamentos onde vivem umas 200.000 pessoas. *******

(1) Semanario Búsqueda 21/1/20. https://www.busqueda.com.uy/Secciones/Gasten-y-gasten-mas-uc46251

(2) TROTSKY, León. Programa de Transición (1938).

Fontes:

* https://ladiaria.com.uy/economia/articulo/2020/12/mieres-preocupa-aumento-de-seguros-de-paro-que-terminan-en-despido-y-hay-un-par-de-puntos-mas-de-desempleo/

** https://negocios.elpais.com.uy/noticias/flagelo-economico-desempleo-juvenil-debido-covid.html

*** https://radiouruguay.uy/unas-100-000-personas-cayeron-por-debajo-de-la-linea-de-pobreza/

**** https://lax.uy/2020/12/08/informacion-nacional-unas-136-mil-personas-comen-en-ollas-populares/

***** https://www.elobservador.com.uy/nota/preocupado-por-cifras-de-trabajo-informal-el-gobierno-evalua-nuevas-medidas-graduales–20211715120

****** https://www.ine.gub.uy/documents/10181/34017/Atlas_fasciculo_1_NBI_versionrevisada.pdf/57ea17f9-3fd9-4306-b9ca-948abc7fab73

*******https://www.elpais.com.uy/informacion/sociedad/cantidad-asentamientos-uruguay-trepo.html#:~:text=La%20cantidad%20de%20asentamientos%20en,05%2F2019%20%2D%20EL%20PA%C3%8DS%20Uruguay

Artigo editorial de Rebelión n° 67, IST-Uruguai

Tradução: Túlio Rocha