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Quando olhamos os relatórios econômicos de uma empresa capitalista dois itens se destacam: os custos de produção e o lucro.

Por: Gustavo Lopes Machado de Belo Horizonte – Brasil

Qualquer empresa, seja uma siderúrgica, uma montadora de automóveis, uma indústria têxtil ou qualquer outra tem sua arrecadação dividida entre custos de produção e lucro. Por exemplo, uma empresa que arrecadou R$ 10 milhões no ano, pode ter sua receita dividida entre R$ 8 milhões de custos de produção e 2 milhões de lucro. Ora, nos custos de produção temos o pagamento de absolutamente tudo que a empresa consome. Por um lado, os meios de produção (as matérias-primas e a manutenção ou reposição das máquinas). Suponhamos, em nosso exemplo, que esses gastos somem R$ 6 milhões. Por outro lado, temos o pagamento dos salários de todos os trabalhadores, os R$ 2 milhões que restaram.

No entanto, temos uma grande charada nessa história. Os R$ 2 milhões de lucro que citamos aparecem como um valor adicionado aos custos de produção vindos literalmente do nada. Se os custos de produção contêm tudo, tanto os meios de produção quanto o salário dos trabalhadores, qual a origem do lucro do capitalista? É procurando resolver esse problema que Marx irá descobrir a existência da mais-valia, o segredo do lucro e da acumulação de capital.

O segredo dos capitalistas

Até Marx, a maioria dos economistas explicavam o lucro como se fosse um valor extra colocado pelo próprio capitalista, de modo que seu negócio valesse a pena. Da mesma forma que Deus teria criado o mundo do nada, pela força da palavra divina, o capitalista transformou R$ 8 milhões em R$ 10milhões. A sociedade capitalista, assim entendida, seria justa. O capitalista pagaria o preço justo pela matéria-prima e pelas máquinas, pagaria o preço justo pela força de trabalho e, para não ficar no zero a zero, adicionaria um valor extra que é seu lucro. A origem do lucro estaria na esperteza do capitalista para os negócios.

Marx não oferece uma explicação econômica para esse problema. A economia serve apenas para transformar a realidade social em números e, desse modo, administrar a sociedade capitalista. Marx faz exatamente o contrário e mostra as relações sociais que esses números escondem.

Em primeiro lugar, ele mostra que o lucro não pode ser uma criação do capitalista. Como o valor das mercadorias se realizam na troca no mercado, se todos os capitalistas elevam o preço de suas mercadorias o resultado disso será igual a nada. Se eu troco um quilo de batata por um quilo de tomates, não fará nenhuma diferença se o produtor de batatas eleva o preço de seu produto de 5 para R$ 10, se o produtor de tomates faz a mesma coisa. O lucro, portanto, não pode se originar do aumento do preço de seu produto pelo capitalista. Qual é, então, o segredo do lucro?

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A força de trabalho é mercadoria

Nesse ponto se encontra uma das principais descobertas de Marx: o que o trabalhador vende não é o seu trabalho, mas sua capacidade para trabalhar ou a força de trabalho. Não importa quantas mercadorias o trabalhador produz, o capitalista não paga o trabalhador por um produto, mas para que fique à disposição dele por um dado período de tempo. É a capacidade que uma dada pessoa possui para, por exemplo, montar automóveis, operar um torno, aplicar aulas de matemática ou projetar um avião que o capitalista compra. Acontece que uma vez que o capitalista comprou a capacidade de trabalho do trabalhador, ele pode usá-la como quiser e fazê-la produzir um valor bem maior do que aquele que pagou por ela.

Isto acontece porque a força de trabalho é uma mercadoria bem diferente. Em todas as outras mercadorias, por exemplo, uma maça, seu valor desaparece quando a consumimos. Quando comemos uma maça não resta nada dela. Mas a força de trabalho é a única mercadoria cujo consumo produz valor. Vejamos: o capitalista comprou a capacidade que um dado indivíduo possui para operar um torno mecânico. Quando ele consome a mercadoria, quando o torneiro trabalha, o valor não é consumido, mas produzido. Por exemplo, peças de automóveis são criadas com seu respectivo valor. Desse modo, o capitalista faz o torneiro trabalhar não apenas para compensar o pagamento de seu salário, mas o faz trabalhar ainda mais, produzindo um valor extra. Uma mais-valia. Eis a origem do lucro.

Capitalismo é um vampiro

No exemplo que demos no começo, o capitalista pagou R$ 2 milhões para ter um conjunto de trabalhadores a sua disposição. Quando esses trabalharam, ao longo do ano, produziram os R$ 2 milhões equivalentes aos seus salários, mas também outros R$ 2 milhões extra. Com isso temos uma mais-valia. Os R$ 2 milhões de mais-valia é exatamente o mesmo valor do lucro. Mas qual é a diferença entre lucro e mais-valia?

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Como podemos ver, a mais-valia e o lucro estão representados no mesmíssimo R$ 2 milhões. Economicamente mais-valia e lucro são a mesma coisa. A diferença, nesse caso, não é econômica, mas social. O lucro é sempre colocado em relação ao total dos custos de produção e não somente do que é pago aos trabalhadores. Por isso, ao lado de um lucro de 2 milhões temos outros 8 milhões que correspondem as matérias-primas, ao gasto com as máquinas e a força de trabalho. Aí não vemos a relação estreita que existe entre lucro e trabalho. Por isso, o lucro parece ser criado pelo próprio capitalista.

Mas observando como surge a mais-valia, os meios de produção são deixados de lado. Isto acontece porque o valor das matérias-primas e da maquinaria são apenas repassados para o que é produzido no final. Máquinas não produzem valor. Sem o trabalho, as máquinas não servem para absolutamente nada. Como diz Marx, uma “máquina que não serve no processo de trabalho é inútil. (…) O ferro enferruja, a madeira apodrece. O fio que não é tecido é desperdiçado”. Máquinas e matérias-primas, todos os meios de produção, são apenas trabalho feito no passado, trabalho morto, que apenas um novo trabalho pode trazer a vida.

É por isso que na análise da mais-valia consideramos somente o novo valor adicionado em um dado ciclo de produção. Dessa forma, vemos que, em nosso exemplo, os trabalhadores adicionaram com o seu trabalho R$ 4 milhões de valor, mas se apropriaram somente de 2 milhões. Ora, apesar de serem o mesmo número, como podemos ver, a mais-valia é muito diferente do lucro. A análise da mais-valia mostra que todo o valor adicionado ao produto tem sua origem não no capitalista, mas no trabalhador. Mostra, nas palavras de Marx, que o “capital é trabalho morto que como o vampiro vive somente sugando trabalho vivo e vive mais quanto mais trabalho sugar”. O capital é, assim, a própria imagem do vampiro.

Vemos ainda que o trabalhador não fica com tudo o que produziu, deixando um excedente para o patrão que é justamente a mais-valia. Por isso, o modo de produção capitalista se baseia na exploração da força de trabalho, tal como era, no passado, a escravidão e a servidão. No entanto, a forma como essa exploração acontece é muito diferente.

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Desenvolvimento técnico e exploração

A mais-valia aparece como lucro e o trabalho de milhões de trabalhadores aparece como uma criação mágica dos capitalistas. Ele acredita que é possível um salário justo. Um salário que corresponda ao seu trabalho. Mas isto é impossível no capitalismo.

É impossível porque o capitalismo sobrevive justamente da acumulação de mais-valia, da acumulação de capital. Sobrevive do sangue e do suor alheio. Por isso quando uma empresa investe em novas tecnologias e substitui a antiga maquinaria é para permitir um número mais reduzido de trabalhadores produza mais do que antes. Essa é a mais-valia relativa. Por esse motivo, explica Marx, “a facilitação do trabalho se torna meio de tortura, pois a máquina não livra o trabalhador do trabalho, mas seu trabalho de conteúdo”.

Quando não é suficiente fazer crescer a mais-valia com novas tecnologias, os capitalistas apostam na mais-valia absoluta. Ou seja, fazem crescer a mais-valia elevando a jornada de trabalho, adotando o banco de horas, uma jornada de trabalho intermitente dentre várias outras medidas possíveis.

É por esse motivo que, na sociedade capitalista, todos os avanços tecnológicos, todas as conquistas da ciência e do gênero humano, se transformam em armas para fazer crescer a exploração dos trabalhadores. Cada passo à frente significa dois passos atrás. Cada avanço da capacidade humana de dominar os recursos naturais, ao mesmo tempo, “suprime toda tranquilidade, solidez e segurança na condição de vida do trabalhador” e lhe imprime “um ritual ininterrupto de sacrifício da classe trabalhadora, o desperdício mais exorbitante de forças de trabalho e as devastações da anarquia social”.

Ao lado de tanto desenvolvimento técnico temos um oceano de desempregados ou subempregados e, ao lado desses, um volume ainda maior de trabalhadores empregados que padecem na depressão, nas lesões e doenças do trabalho.