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Originalmente publicado no Pravda, 14 de julho de 1928.

Por: David Riazanov

“De volta a Lassalle”. Tal foi o slogan proferido por Struve [1] em 1900, quando ele defendeu o “idealismo eterno” e a “política realista” [realpolitik no original] de Lassalle contra o materialismo dialético e as táticas “idealistas” de Marx.

“Marx era injusto com Lassalle, Marx subestimava Lassalle”, os seguidores russos de Struve repetiam em vários tons.

Durante a vida de Lassalle, Marx não se expressou uma única vez contra a sua agitação ou sua atividade literária. Em O Capital dedicou a Lassalle uma única observação, na qual ele enfatizou que os pontos de vista econômicos do autor de Capital e Trabalho não eram idênticos aos seus. Somente em 1891 Engels publicou a famosa carta de Marx sobre o programa de Gotha em que as visões teóricas e as táticas políticas de Lassalle foram submetidas a fortes críticas.

Os pontos de vista de Marx e Engels sobre a atividade política de Lassalle foram apropriados por Bernstein, que, no entanto, deu-lhes quase a forma de uma caricatura na biografia escrita para a coleção de obras selecionadas de Lassalle, editada por ele. Quando, livre da supervisão de Engels, em 1896, ele começou a afastar-se de Marx, ele “revisou” também os seus pontos de vista sobre Lassalle. Bem neste momento, Mehring veio ao seu encontro. Considerando a reabilitação de Schweitzer [2] como uma de suas tarefas mais importantes, o seguidor mais talentoso e aluno de Lassalle, o autor da História da socialdemocracia alemã, foi obrigado também a empreender a reabilitação de Lassalle.

Foi uma tarefa muito difícil. Era necessário provar que a política oportunista contra a qual Mehring declarou-se naquele momento era a única política correta no passado. Defender e justificar as táticas de Lassalle e Schweitzer significava atacar as de Marx e Engels. Mehring saiu em defesa de Lassalle contra Marx, principalmente no quarto volume de Lembranças literárias de Marx, Engels e Lassalle.

As observações de Mehring sobre as cartas de Lassalle a Marx, publicadas por ele, representam uma apologia das táticas de Lassalle nos anos cinquenta, que também prepararam o caminho para uma apologia de suas ações no início dos anos sessenta. Quem diz A deve dizer B também. Quando Mehring organizou a publicação da correspondência de Marx e Engels, ele percebeu, para seu espanto, que eles tinham uma posição completamente independente nas disputas de Liebknecht e Bebel (eisenachianos) com Schweitzer (lassalleano), e que eles criticaram os pontos de vista e táticas de Liebknecht de forma muito mais acentuada do que ninguém ousara fazer, defendendo Schweitzer contra os ataques de Liebknecht e Bebel, como Mehring fez em sua História da socialdemocracia alemã.

Mas é verdade que as táticas de Schweitzer eram apenas uma continuação das táticas de Lassalle? Como explicar a hostilidade obstinada de Marx em relação a Lassalle? Mehring, sem perceber, escorregou em direção à concepção do papel das “personalidades” na história. A atitude de Marx e Engels foi explicada [por Mehring, ndt] apenas por sua antipatia pessoal para com Lassalle. Mehring tomou para si a ingrata tarefa de “defender” Lassalle – como ele também fez em relação a Bakunin – contra os ataques “injustos” de Marx.

Mehring começou a reparar a “injustiça”. Em um artigo bem conhecido, chamado O antagonismo entre Lassalle e Marx (Neue Zeit, Vol. III, 27 de junho de 1913), Mehring atacou fortemente os adoradores “fanáticos” de Marx, entre os quais Kautsky ainda estava incluído. O ponto de vista de Mehring, que ele manteve em sua biografia de Marx, publicada em 1918, teve uma expressão clara na seguinte passagem:

Enquanto o sol de Marx brilhou nos céus em esplendor solitário, ainda foi possível, ‘em estrita concordância com a maior seriedade científica e o interesse mais fervoroso de nossa causa comum’, fazer as acusações mais graves contra o presumidamente eclipsado Lassalle. Mas, a partir do momento em que apenas uma parte insignificante do partido continua a acreditar nas histórias míticas sobre os vários acordos de Lassalle e Schweitzer com Bismarck, a partir do momento em que a névoa começou a retirar-se da imagem de Lassalle e ameaçar a concentrar-se na forma de nuvens sob o sol de Marx, a partir desse momento, a música ameaçadora dos altos sacerdotes [Mehring refere-se àqueles que apoiavam Marx, ndt] é convertida em uma melodia suave e conciliadora.

Na opinião de Mehring, após a publicação da carta de Marx sobre o programa de Gotha, já não era possível negar o fato “desagradável” de que Marx “fez um julgamento injusto da personalidade de Lassalle e falhou completamente em compreender o significado da sua atividade”. A correspondência entre Marx e Engels só fortaleceu Mehring nesta convicção.

Infelizmente, o ponto de vista de Mehring encontrou adeptos na ala esquerda da socialdemocracia alemã e posteriormente também entre os comunistas. Não querendo ser “injusto” com Lassalle, Mehring e seus discípulos foram “injustos” com Marx. Acusando este último de não compreender o significado da atividade de Lassalle, eles, assim, só provaram que tinham uma concepção equivocada da oposição existente entre as visões de Lassalle e Marx.

Com que fundamentos Marx e Engels reprovam Lassalle, e por que eles condenam suas táticas políticas? Em primeiro lugar, Lassalle negava completamente a herança do velho partido, a Liga Comunista, e todo o movimento operário revolucionário alemão prévio. Claro, isso foi feito em parte porque Lassalle não queria “comprometer” o novo movimento operário. Mas aos olhos de quem? Lassalle apareceu como um “liquidador” do velho partido aos olhos dos inimigos da classe trabalhadora.

Em segundo lugar, em sua luta contra os Progressistas, contra a burguesia liberal [3], Lassalle procurou uma união com os elementos feudais e absolutistas. Este não era apenas um entusiasmo temporário, uma exigência decorrente do calor da luta política, era um sistema definido, e Lassalle conseguiu obter sucesso prático imediato. Isso também explica suas relações com Bismarck, o apóstolo do reino prussiano dos junkers [senhores feudais da Prússia].

Uma série de declarações públicas feitas por Lassalle em 1863-1864 levou Marx, e particularmente Engels, a considerar com crescente suspeita a agitação de Lassalle. O conhecido discurso em Ronsdorf [4] mostrou que Lassalle, no interesse de sua realpolitik, não hesitou em adotar todo tipo de elogios ao rei da Prússia, o famoso “príncipe de papelão”. Mesmo Bernstein, que mudou radicalmente seus antigos pontos de vista sobre Lassalle, foi obrigado, em 1922, a escrever com relação a este discurso que “é impossível servir a dois senhores“, que o esforço para modular a própria língua de modo a produzir o efeito desejado sobre as “cabeças” levou, na verdade, à adoção de um tom completamente cesarista. “Este discurso“, continua Bernstein, “foi uma proclamação dupla de cesarismo: cesarismo nas fileiras do partido e cesarismo na política do partido“.

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Em uma carta a Kugelmann, em 23 de fevereiro de 1865, Marx escreveu que foi apenas após a morte de Lassalle que lhe foi revelado que Lassalle, de fato, traiu o partido.

Lassalle concluiu um tratado formal com Bismarck (claro, sem ter qualquer tipo de garantia em suas mãos). No final de setembro de 1864, ele viajou para Hamburgo (na companhia daquele louco Schramm e do espião da polícia prussiana Marr), para ‘forçar’ Bismarck a anexar Schleswig-Holstein, ou seja, proclamar sua anexação em nome dos ‘trabalhadores’. Bismarck, por sua vez, prometeu o sufrágio universal e algumas charlatanices socialistas.

(…)

Lassalle errou desta maneira porque ele era um praticante da ‘realpolitik‘ à maneira do Sr. Miquel, mas de maior calibre e com objetivos mais amplos. (…) Assim como Miquel e seus amigos agarraram-se à ‘nova era’ inaugurada pelo príncipe-regente da Prússia, para juntar-se à União Nacional e subirem rapidamente ao ‘topo da Prússia’; assim como eles desenvolveram seu ‘orgulho cívico’ geralmente sob a proteção da Prússia, da mesma forma Lassalle queria desempenhar o papel de um Marquês Posa do proletariado com Philip II de Uckermark[1], com Bismarck atuando como um cafetão entre ele e o reino prussiano. Ele só imitava os cavalheiros da União Nacional. Mas, enquanto estes invocavam a ‘reação’ prussiana no interesse da classe média, Lassalle apertou as mãos de Bismarck no interesse do proletariado. Estes cavalheiros tinham muito maior justificação do que Lassalle, à medida que o burguês está habituado a considerar o interesse imediatamente à frente do seu nariz como ‘realidade’, e como, de fato, esta classe concluiu um compromisso com todo mundo, mesmo com o feudalismo, enquanto, pela própria natureza das coisas, a classe operária tem que ser sinceramente ‘revolucionária’. Para um personagem de teatro vazio como Lassalle (que, no entanto, não poderia ser comprado por ninharias como postos lucrativos, uma prefeitura, etc.), era um pensamento sedutor: um ato diretamente em nome do proletariado, executado por Ferdinand Lassalle!”

Um feliz acaso – é verdade, uma chance que não poderia ter “acontecido” se não fosse pela revolução alemã de 1918 – dá-nos agora a possibilidade de verificar o julgamento feito por Marx e Engels. Alguns meses atrás, no gabinete do primeiro-ministro da Prússia, Otto Braun, o mesmo gabinete no qual uma vez o Chanceler de Ferro sentou, um velho baú que estava lá desde tempos remotos partiu-se em pedaços simplesmente por estar muito velho. Ele continha vários documentos oficiais. Entre eles foi descoberta uma correspondência entre Lassalle e Bismarck[2]. Otto Braun deu-a para publicação a Gustave Mayer, o conhecido biógrafo de Schweitzer e Engels, e também aos editores dos textos de Lassalle.

É difícil estabelecer por que as cartas de Bismarck a Lassalle estavam neste baú. É verdade que elas são muito poucas, e o seu conteúdo também não tem nenhum interesse. É claro que Bismarck não queria comprometer-se de forma alguma. Ele preferia “ouvir”, e se dava uma opinião era apenas por via oral, face a face, sem testemunhas. Lassalle, pelo contrário, falava muito e escrevia muito. Até este momento eram conhecidas apenas duas cartas de Lassalle para Bismarck. De qualquer forma, por algum motivo, Bismarck considerou importante resgatar até suas pequenas notas.

Em primeiro lugar, as cartas recém-descobertas de Lassalle permitem estabelecer um fato da maior importância, um fato até então completamente desconhecido. Mesmo Oncken, que investigou esta questão com cuidado especial, supõe, na última edição de sua biografia de Lassalle, que a primeira reunião de Lassalle com Bismarck ocorreu em maio após a fundação da Associação Universal Alemã dos Trabalhadores [5], ou seja, após 23 de maio de 1863. Assim, só poderiam ter acontecido poucas reuniões, pois Lassalle deixou Berlim no final de junho e só voltou em outubro. Bebel, que sempre destacou que a iniciativa destas reuniões partia de Bismarck, considerou que elas aconteceram no outono e no inverno de 1863-1864 [isto é, depois do retorno de Lassalle a Berlim, ndt].

Agora sabemos que Bismarck reuniu-se com Lassalle, pela primeira vez, antes da fundação da Associação Universal Alemã dos Trabalhadores. Com certeza, Bismarck já tinha conhecimento das declarações de Lassalle contra os Progressistas e de sua Carta Aberta ao Comitê de Leipzig.

Qual era o assunto das conversas de 12-13 de maio de 1863, nós não sabemos exatamente. O tom adotado por Lassalle é mostrado da melhor maneira em sua primeira carta, juntamente com a qual ele envia a Bismarck “a constituição de meu Estado, em relação à qual você pode, talvez, ter um pouco de inveja de mim“.

O membro da Liga Comunista, o revolucionário, republicano e democrata, escreve o seguinte ao representante mais maligno do reino prussiano que, no início de junho de 1863, tinha acabado de publicar seu regulamento selvagem contra a imprensa:

Esta miniatura vai servir como uma prova convincente de que os trabalhadores sentem-se, de fato, instintivamente, atraídos para uma ditadura, se for possível convencê-los de forma adequada que esta ditadura será realizada em seus interesses, e para mostrar-lhe que, portanto, eles estariam inclinados, apesar das convicções republicanas, ou melhor, devido a esta última, a ver na coroa a portadora natural de uma ditadura social em oposição ao egoísmo da sociedade burguesa, se a coroa, por sua vez, em algum momento decidir dar o passo naturalmente bastante improvável, isto é, caminhar verdadeiramente pelo caminho revolucionário e nacional, e se converter, de uma monarquia de camadas privilegiadas, em uma monarquia social e revolucionária.

Já na primeira conversa, Bismarck declarou a Lassalle que ele “queria convencer o rei a mudar sua política, a introduzir o sufrágio universal e concluir uma aliança com o povo!

Lassalle esforçou-se para convencer Bismarck que medidas como a selvagem perseguição à imprensa poderiam “tornar impossível para você alcançar seus próprios objetivos e tornar absolutamente impossível qualquer união entre o rei e o povo.

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Como “um inimigo, mas um inimigo aberto e honesto do sistema existente“, Lassalle desejava que as ideias defendidas por ele triunfassem “pelos meios pacíficos, benéficos para toda a sociedade, que Vossa Excelência recentemente apontou-me“.

Um estudo cuidadoso desta carta mostra que Lassalle já havia construído toda a sua tática em meados de maio, baseada em uma aliança com Bismarck, que a chamada “mudança tática”, descrita por Mehring e outros, começou antes mesmo da fundação da Associação Universal Alemã dos Trabalhadores, e que cada passo empreendido por ele a partir daquele momento, cada discurso, cada declaração, foram avaliados por ele do ponto de vista da impressão que poderiam causar em seus principais aliados, Bismarck e a coroa.

Levando em conta esta carta, é possível entender o conhecido telegrama de Lassalle a Bismarck, de 27 de setembro de 1863, no qual ele pediu ao Ministro-Presidente tomar medidas imediatas contra o prefeito de Solingen, do Partido Progressista, que tinha dispersado uma reunião organizada por Lassalle. Mehring escreveu anteriormente:

Este telegrama foi um erro grave de Lassalle: como diz o provérbio alemão, não adianta reclamar do diabo para a avó dele. Voltar-se ao porta-estandarte da reação feudal, que por muitos anos negou o direito de associação e de reunião, e continuou a fazê-lo, com um pedido para que ele punisse uma violação a esse direito, fosse o responsável um progressista ou qualquer outro, é um comportamento que não tem nada a ver com um revolucionário.

Mehring vê neste fato o início da “mudança tática“, após a qual rapidamente chegou a hora em que “o fogo espiritual de Lassalle crepitava e fumegava em vez de lampejar e brilhar“. Ele refere-se à mudança de tática de Lassalle a partir do outono de 1863 da seguinte forma:

Não valia realmente a pena fazer Bismarck avançar, extorquir-lhe o direito de sufrágio universal, que nunca seria obtido pelo Partido Progressista e, assim, ganhar para o proletariado uma arma poderosa para a satisfação de seus interesses de classe?

Infelizmente, não foi Lassalle que “mudou” Bismarck, mas, pelo contrário, foi este último que, desde a primeira reunião, tinha Lassalle sob seu controle. A correspondência agora publicada prova como, tendo dado o primeiro passo em falso, Lassalle tornou-se cada vez mais enredado em contradições. Devido à tentativa de obter vitórias imediatas em nome dos trabalhadores, ele chocou-se com os principais setores da classe operária de Berlim e da Saxônia. As tentativas tardias de Mehring e Laufenberg para mostrar que as táticas de Lassalle estavam mais de acordo com a situação existente, porque os trabalhadores alemães na época ainda não tinham se desenvolvido o suficiente para entender a tática revolucionária de Marx e Engels, sofrem de um desejo excessivo de “justificar os fatos”. Pelo contrário, todas as tentativas de Lassalle de atrair para o seu lado os elementos mais revolucionários da classe operária – e sem sua cooperação ele não poderia converter a Associação Universal Alemã dos Trabalhadores em uma força política – terminaram em fracasso. Estes trabalhadores foram hostilizados pelas intrigas de Lassalle com os Junkers e a monarquia. Infelizmente, a verdade é que as chamadas insinuações e calúnias dos progressistas burgueses, como agora percebemos pelas cartas de Lassalle, eram essencialmente uma expressão da verdade.

Após o telegrama de Solingen, seguiu-se uma série de cartas (23 de outubro a 17 de novembro) endereçadas diretamente a Bismarck e outras enviadas formalmente ao chefe de polícia de Berlim, mas destinadas realmente a Bismarck. Todas estas cartas retratam, de uma forma muito característica, as táticas “revolucionárias” de Lassalle. Qualquer uma dessas cartas seria suficiente para comprometer para sempre qualquer “líder”, não só dos trabalhadores, mas também de qualquer partido democrático que tivesse uma autoestima mínima.

Em 22 de novembro de 1863, quando Lassalle organizou uma reunião pública em Berlim, a polícia invadiu a sala e, dispersando a reunião, prendeu Lassalle, sob a acusação de traição ao Estado. Depois de três dias, Lassalle foi libertado sob fiança no valor de 3.000 táleres.

Parece agora que – e, neste contexto, há uma curiosa carta de Lassalle a Bismarck, de 19 de novembro de 1863 – a intenção do chefe de polícia Schelling de acusar Lassalle de traição ao Estado e exigir sua prisão era bem conhecida por este último [i.e., por Bismarck, ndt]. Consequentemente, ele pediu a Bismarck que fosse libertado, para que não fosse dado um “golpe mortal em todos aqueles interesses dos quais ele era o representante“.

É claro“, Lassalle acrescenta, “uma administração séria e rigorosa do Ministério da Justiça poria fim às tentativas do chefe de polícia, que é tão apaixonadamente desejoso que eu seja preso”.

Finalmente, Lassalle conclui observando que não há “tempo a perder” para intervir no assunto e dá, de forma indireta, mas muito clara, um conselho a Bismarck para que o chefe de polícia Schelling fosse transferido para outro lugar, caso contrário ele, Lassalle, não conseguiria viver em paz em Berlim. Várias conversas pessoais com Bismarck teriam sido necessárias para convencê-lo completamente de sua “lealdade”, ao ponto de ser capaz de fazer tal pedido a ele!

As conversas de Lassalle com Bismarck, em janeiro de 1864, tornaram-se conhecidas graças às denúncias de Bebel no Reichstag, em setembro de 1878. Bismarck contestou apenas alguns detalhes, mas não achou necessário acrescentar que as relações de Lassalle com ele tinham começado em uma data consideravelmente anterior. Agora sabemos que, em janeiro de 1864, a iniciativa veio realmente de Lassalle, como Bismarck afirmou, embora, ao mesmo tempo, ao contrário da verdade, este último afirmasse que nessas conversas com Lassalle não havia nenhuma ideia de discutir a concessão do sufrágio universal direto.

Agora que temos à nossa disposição não só as cartas de Lassalle de 13 e 16 de janeiro, mas também as outras, podemos ver o quão longe o “jogo” de Lassalle chegou.

Bismarck enganou Lassalle mais uma vez. Apesar de todas as provas deste último de que a concessão, por cima, do sufrágio universal teria lugar antes da guerra, Bismarck, em aliança com a Áustria, declarou guerra à Dinamarca [pela anexação de Schleswig-Holstein, ndt] no dia 1º de fevereiro de 1864. A tática recomendada a ele por Lassalle seria colocada em operação apenas em abril de 1866, anteriormente à declaração de guerra com a Áustria [que resultou na criação da Federação do Norte da Alemanha, com a derrota da Áustria, ndt].

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Mas a correspondência de Lassalle com Bismarck continuou mesmo após a declaração de guerra. As cartas de 5 e 7 de fevereiro de 1864 são de um caráter tão inesperado quanto as outras que até agora permaneceram desconhecidas.

Quem poderia ter pensado que, mesmo antes da publicação do livro contra Schulze-Delitsch, Lassalle já estava tomando todas as medidas, através da intervenção de Bismarck, para que o chefe de polícia não o prendesse?

Não seria agradável para mim – ele escreve para Bismarck – se Vossa Excelência suspeitasse de minha vaidade literária. Mesmo assim, devo dizer à Vossa Excelência que meu trabalho vai resultar na completa aniquilação do partido Progressista e de toda a burguesia liberal, porque é com eles que eu lido no livro e não com a personalidade de Herr Schulze, que é importante apenas como um tipo. Ele irá produzir uma tremenda impressão na classe operária, e não só nela: ele vai levantar contra os progressistas cada elemento inteligente da nação. Em uma palavra, é precisamente o que é necessário como um prólogo para o sufrágio universal.”

Lassalle não deixa de adicionar a este discurso servil que ele está “Em uma posição, independentemente da sensação que este livro possa causar por si próprio e de sua distribuição geral, de garantir por escrito a recomendação de que o livro seja lido em todas as reuniões dos trabalhadores em toda a Alemanha”.

Lassalle tinha claramente o artigo de Marx sobre Proudhon para o Social-Demokrat [em 1º de fevereiro de 1865, ndt] em mente, o órgão dos lassalleanos:

Resta apenas um motivo em vigor, a vaidade do sujeito, e a única questão para ele, como para todas as pessoas vaidosas, é o sucesso do momento, o éclat (brilho) do dia. Assim, o simples senso moral, que sempre manteve um Rousseau, por exemplo, longe até mesmo da lembrança de um compromisso com os poderes vigentes, está prestes a desaparecer.

As novas cartas de Lassalle, agora publicadas por Mayer, obrigam-nos a rever a questão das relações de Lassalle com Bismarck e, também, o significado de toda a sua atividade política. Nós, mais uma vez, tivemos a oportunidade de testemunhar a perspicácia incomum de Marx. É verdade, ele não teve à sua disposição todos esses fatos. Se ele tivesse, seu julgamento teria sido ainda mais acentuado e severo. A lenda que foi tecida em torno de Lassalle na Alemanha, e também na Rússia, impediu até mesmo os marxistas mais ortodoxos de fazerem plena justiça, não a Lassalle, mas a Marx e Engels. Os jovens marxistas alemães e russos frequentemente chegaram a Marx depois de passar pela escola de Lassalle. Foi necessário realizar um grande trabalho crítico para libertá-los da influência espiritual do autor de Ideias da classe trabalhadora contemporânea.

Enquanto Lassalle era, nas palavras do velho Bekker, “um acrobata ousado e aventureiro em suas táticas que, com uma convicção firme em sua força e agilidade, poderia, sem qualquer risco, dar um salto até a borda extrema do abismo” – ele só se salvou da destruição política pela sua morte prematura -, mas seu talentoso aluno Schweitzer foi realmente engolido pelo abismo. Na velha disputa entre Bebel e Mehring, o primeiro provou estar certo. Se Lassalle pôde solicitar a Bismarck a adoção de medidas contra sua prisão iminente, se ele pôde aconselhar os trabalhadores a ofertar ao rei um pedido de misericórdia, então Schweitzer, sem o menor escrúpulo, fez uso da neutralidade benevolente da política de Bismarck. Se era impossível comprar Lassalle, Schweitzer e seu companheiro Gofstettin receberam dinheiro dos fundos secretos do Estado prussiano para os seus jornais, pelos quais apoiaram a política de Bismarck.

O “sol de Marx” continua “a brilhar nos céus”. Lassalle não foi apenas “aparentemente”, mas na realidade, eclipsado. E se Mehring está certo em dizer que Marx e Engels erraram muitas vezes, ninguém agora concorda com Mehring em sua declaração de que “o maior erro de suas vidas foi que eles se mostraram completamente incapazes de julgar a atividade histórica de Lassalle“.

 Notas:

  1. Struve foi o líder do chamado “marxismo legal” na Rússia dos anos 1890. Ele elaborou o primeiro manifesto do Partido Socialdemocrata Russo. Depois de 1900, ele rompeu com o marxismo, aproximou-se dos liberais e depois tornou-se um reacionário extremo.
  2. Schweitzer era um seguidor de Lassalle e tornou-se líder da organização construída por Lassalle logo após a morte deste último até a fusão com o partido de Liebknecht, em 1875.
  3. O Partido Progressista foi formado na Alemanha em 1861, defendendo ideias liberais. Em 1862 ele teve uma maioria firme nas grandes cidades da Alemanha.
  4. O discurso de Lassalle, em 22 de maio de 1864, em Ronsdorf, onde ele recebeu um enorme aplauso, foi o auge de sua campanha para a edificação de sua “Associação dos Trabalhadores”.
  5. A Associação Universal Alemã dos Trabalhadores foi o partido político fundado por Lassalle. Seus Estatutos, adotados em 23 de maio de 1863, defendiam que “a remoção real dos antagonismos de classe na sociedade só pode ser assegurada pelo sufrágio universal, igual e direto“.

Notas do tradutor:

[1] Marquês de Posa e Filipe II (rei da Espanha, 1555-1598) eram personagens do drama de Schiller Don Carlos. Marx chama Guilherme I (rei da Prússia) de Filipe II de Uckermark (um distrito da Prússia).

[2] Esta correspondência encontra-se em alemão em: https://www.marxists.org/deutsch/referenz/lassalle/bismarck/briefe/index.htm

Tradução: Marcos Margarido