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O capítulo que apresentamos da História da Revolução Russa analisa os acontecimentos de junho de 1917 (considerando o velho calendário russo). Este mês e o seguinte foram um período de inflexão no acelerado processo revolucionário em curso.

Os trabalhadores e as massas que haviam protagonizado a revolução de fevereiro compreendiam rapidamente que não havia sido suficiente derrubar o regime czarista para conseguir suas reivindicações (Paz, Pão e Terra). E os governos burgueses provisórios que se sucediam a partir de então (integrados e apoiados pelas correntes da esquerda reformista, como os mencheviques e os socialistas-revolucionários) não tinham nenhuma intenção de resolvê-las.

Ao contrário, postergavam questões centrais como a reforma agrária e a opressão das nacionalidades do império russo. E, no tema mais candente (a guerra), o governo havia ordenado mobilizar todas as tropas da guarnição de Petrogrado (capital do país e centro da revolução) para tentar uma ofensiva contra o exército alemão.

Isso gerou um estado de rebelião na base do exército russo: milhões de soldados, em sua maioria camponeses que apenas queriam voltar para suas terras e que, por isso, repudiavam totalmente a ordem de ir ao front.

Nesse contexto, é realizado, em Petrogrado, o Primeiro Congresso Nacional dos Soviets e este é o principal tema em debate. Mas esses organismos expressavam, naquele momento, uma profunda contradição. Por um lado, eram a referência para os trabalhadores e as massas e expressavam o duplo poder com o governo burguês. Por outro, as correntes reformistas somadas ainda tinham a maioria dos deputados e de sua direção. Os bolcheviques representavam menos de 20% desse organismo: haviam aumentado seu peso, mas ainda eram minoritários. Por isso, sua proposta de rechaçar a ordem militar do governo é recusada.

Porém, essa correlação de forças estava “atrasada” em relação à dinâmica dos trabalhadores e da base de soldados e camponeses pobres, que giravam cada vez mais à esquerda. E esse “atraso” era ainda maior em Petrogrado, onde os bolcheviques já eram a corrente mais forte.

Este é o contexto dos fatos analisados por Trotsky neste capítulo: a manifestação cancelada em 10 de junho, as delegações do soviet às fábricas e bairros operários da capital e a mobilização chamada em conjunto pelo soviet para 18 de junho (na qual a política dos bolcheviques é amplamente majoritária).

Era claro para a burguesia que o inimigo eram os bolcheviques e diziam isso publicamente. A ela se abraçavam as correntes reformistas, que repetiam os ataques e quase as mesmas palavras: “os bolchevique são os principais inimigos da revolução” (isto é, o principal inimigo do Estado burguês e da construção de um regime político a seu serviço).

Como disse Trotsky, “Não houve um choque direto então. Mas ele não poderia ser evitado. Foi apenas adiado por duas semanas”. A revolução acelerava seu ritmo e os choques violentos se sucederiam, quase sem interrupção, nos meses seguintes, culminando com a Revolução de Outubro, na qual os bolcheviques derrotam não apenas a burguesia como também os seus agentes de esquerda.

Em um balanço dos acontecimentos de junho, Lenin escreve palavras que poderiam ser repetidas hoje apenas com a substituição dos nomes das correntes políticas: “Este grito selvagem de rancor e raiva contra os bolcheviques é o protesto comum dos kadetes, socialistas-revolucionários e mencheviques contra sua própria frouxidão. Eles estão em maioria. Estão no governo. Estão todos juntos num bloco. E eles veem que nada surge disso. O que eles podem fazer a não ser encolerizarem-se contra os bolcheviques?

História da Revolução Russa – Capítulo XXII

O Congresso dos Sovietes e a manifestação de junho

O primeiro congresso dos sovietes, que sancionou a ofensiva para Kerensky, reuniu-se em Petrogrado, em 3 de junho, no prédio do Corpo de Cadetes da Escola Militar. Havia 820 delegados com voto e 268 somente com voz. Eles representavam 305 sovietes locais, 53 organizações distritais e regionais do front, as instituições da retaguarda do Exército, e algumas organizações conciliadoras. O direito ao voto foi dado aos sovietes contendo não menos de 25 mil homens. Os sovietes contendo de 10 mil a 25 mil tinham apenas direito à voz. Na base desta regra – a propósito, não muito estritamente observada –, podemos supor que mais de 20 milhões de pessoas eram representadas pelos sovietes. De 777 delegados que informaram sua filiação partidária, 285 eram socialistas-revolucionários; 248 mencheviques; 105 bolcheviques; outros pertenciam a grupos menos importantes. A ala esquerda – os bolcheviques e os internacionalistas que aderiam a eles – constituía menos de um quinto dos delegados. O congresso consistia, na maioria, de pessoas que tinham se registrado como socialistas em março, mas em junho já estavam cansadas da revolução. Petrogrado deveria parecer para elas uma cidade de loucos.

O congresso começou ratificando o banimento de Grimm, infeliz socialista suíço que estava tentando salvar a revolução russa e a social-democracia alemã por meio de negociações de bastidores com os diplomatas Hohenzollern. A demanda da ala esquerda de que se dedicassem imediatamente à questão da ofensiva iminente foi rejeitada por uma esmagadora maioria. Os bolcheviques pareciam um grupo minúsculo. Mas, no mesmo dia ou talvez na mesma hora, uma conferência de comitês de fábrica e oficina de Petrogrado adotou, também com uma esmagadora maioria, uma resolução de que apenas um governo dos sovietes poderia salvar o país.

Os conciliadores, por mais míopes que fossem, não poderiam deixar de ver o que se passava ao seu redor a cada dia. Na sessão de 4 de junho, o inimigo dos bolcheviques, Lieber, evidentemente sob a influência dos provincianos, denunciou os incapazes comissários do Governo, que não tinham conseguido tomar o poder nas províncias. “Toda uma série de funções dos órgãos governamentais, como resultado, passou para as mãos dos sovietes, mesmo quando os sovietes não os queriam”. Estas pessoas tinham que se queixar a alguém deles mesmos.

Um dos delegados, um pedagogo, queixou-se ao congresso que, após quatro meses de revolução, não tinha havido a menor mudança na esfera da educação. Todos os antigos professores, inspetores, diretores, inspetores de distrito, muitos deles antigos membros dos Cem Negros, todos os velhos programas escolares, livros didáticos reacionários, até os antigos subsecretários do ministério, permaneciam pacificamente em seus postos. Apenas os retratos do tsar tinham sido removidos para os sótãos, e poderiam a qualquer dia ser repostos em seus lugares.

O congresso não se atrevia a levantar um dedo contra a Duma do Estado, ou contra o Conselho de Estado. Sua timidez ante a reação foi dissimulada pelo orador menchevique Bogdanov lembrando que a Duma e o Conselho são “organizações mortas e inexistentes de todo modo”. Martov, com seu juízo polêmico, respondeu: “Bogdanov propõe que devemos declarar a Duma morta mas não fazer qualquer atentado contra sua vida”.

O Congresso, apesar de sua sólida maioria governamental, decorreu numa atmosfera de alarme e incerteza. O patriotismo arrefecera e distribuía apenas preguiçosos clarões. Era óbvio que as massas estavam insatisfeitas e os bolcheviques eram infinitamente mais fortes no país, e especialmente na capital, do que no congresso. Reduzida a seus elementos, a disputa entre os bolcheviques e os conciliadores invariavelmente girava em torno da questão: com quem estarão os democratas? Com os imperialistas ou com os operários? A sombra da Entente pairava sobre o congresso. A questão da ofensiva estava pré-determinada; os democratas não podiam fazer nada a não ser consentir.

“Neste momento crítico”, pregava Tseretelli, “nenhuma força social deve ser tirada da balança, enquanto puder ser útil à causa do povo”. Tal era a justificação para uma coalizão com a burguesia. Vendo que o proletariado, o Exército e o campesinato transtornavam seus planos a cada passo, os democratas tinham que abrir uma guerra contra o povo sob o disfarce de uma guerra contra os bolcheviques. Assim, Tseretelli declarou os marinheiros de Kronstadt apóstatas para não tirar de sua balança o kadete Pepelyaev. A coalizão foi ratificada por uma maioria de 543 votos contra 126, com 52 abstenções.

O trabalho desta enorme e flácida assembléia no Corpo de Cadetes se distinguia pela grandeza em matéria de declarações e mesquinhez conservadora nas tarefas práticas. Isso punha em todas as suas decisões uma marca de desânimo e hipocrisia. O congresso reconheceu o direito de todas as nacionalidades russas à autodeterminação, mas deu a chave deste direito problemático não às próprias nações oprimidas, mas a uma futura Assembléia Constituinte, cujos conciliadores esperavam estar em maioria e capitular ante os imperialistas, exatamente como faziam no Governo.

O Congresso recusou aprovar o decreto da jornada de oito horas. Tseretelli explicou esta covardia pela dificuldade de reconciliar interesses das diferentes camadas da população. Como se qualquer grande necessidade na História fosse realizada pela “harmonia de interesses”, e não pela vitória dos interesses progressivos sobre os reacionários!

Grohman, economista soviético, introduziu no fim do congresso sua inevitável resolução sobre a iminente catástrofe econômica e a necessidade de regulação governamental. O Congresso adotou esta resolução ritual, mas apenas para que tudo ficasse como antes.

“Tendo deportado Grimm”, escreveu Trotsky, em 7 de junho, “o Congresso voltou à ordem do dia”. Mas os lucros capitalistas permaneciam como antes, invioláveis para Skobelev e seus colegas. A crise de abastecimento piorava a cada hora. Na esfera diplomática, o Governo recebia golpe sobre golpe. Enfim, esta ofensiva proclamada tão histericamente estava obviamente pronta para cair sobre a nação, uma monstruosa aventura.

“Gostaríamos de assistir pacificamente às santificadas atividades dos ministros – Lvov-Terechtchenko-Tseretelli – por vários meses. Precisamos de tempo para nos preparar. Mas a toupeira cava muito rápido. Com a ajuda dos ministros ‘socialistas’ o problema do poder pode surgir ante os membros deste Congresso muito mais cedo que qualquer um de nós possa imaginar”.

Tentando se proteger das massas com uma alta autoridade, os líderes arrastavam o Congresso em todos os conflitos correntes, impiedosamente comprometendo-o aos olhos dos operários e soldados de Petrogrado. O mais retumbante episódio deste tipo foi o incidente sobre a casa de verão de Durnovo, velho burocrata tsarista que se fez famoso como ministro do Interior por esmagar a revolução de 1905. A casa vaga deste odiado e intrigante burocrata, foi tomada pelas organizações operárias do bairro de Vyborg – principalmente por conta dos enormes jardins que se tornaram o playground favorito para as crianças. A imprensa burguesa pintou o local como o covil de pogromistas e ladrões – a Kronstadt do bairro de Vyborg. Ninguém se deu ao trabalho de ver quais eram os fatos. O Governo, cuidadosamente evitando todas as questões importantes, empenhou-se com paixão para resgatar esta casa. Exigiu-se uma sanção do Comitê Executivo para esta empresa heróica e Tseretelli, claro, não a recusou. O procurador ordenou expulsar o grupo de anarquistas do local em 24 horas. Alertados das atividades militares em preparação, os operários soaram o alarme. Os anarquistas, de seu lado, ameaçaram com resistência armada. Vinte e oito fábricas decretaram uma greve de protesto. O Comitê Executivo publicou uma proclamação acusando os operários de Vyborg de ajudar a contra-revolução. Após todas estas preliminares, um representante da Justiça e a milícia penetraram na toca do leão. Eles encontraram reinando uma ordem completa; a casa estava ocupada por várias organizações educacionais operárias. Eles foram obrigados a se retirar em vergonha. Esta história, contudo, teve conseqüências.

Em 9 de junho, uma bomba explodiu no Congresso: na edição da manhã do Pravda aparecia um chamado para uma manifestação no dia seguinte. Tchkheidze, que sabia o quanto era medroso, e era, portanto, inclinado a assustar outros, anunciou numa voz sepulcral: “Se medidas não forem tomadas pelo congresso, o amanhã será fatal”. Os delegados levantaram suas cabeças em alarme.

A idéia de uma prova de fogo entre os operários e soldados de Petrogrado e o Congresso era sugerida por toda a situação. As massas pressionavam os bolcheviques. A guarnição estava especialmente enraivecida – temendo que junto com a ofensiva eles fossem distribuídos entre os regimentos e dispersados pelo front. A isso se juntava a uma amarga insatisfação com a “Declaração dos Direitos do Soldado”, que tinha sido um grande passo atrás em comparação com a “Ordem Número Um”, e com o regime que de fato se estabelecera no Exército. A iniciativa para a manifestação veio da organização militar dos bolcheviques. Seus dirigentes afirmaram, muito corretamente como mostraram os eventos, que se o partido não tomasse a liderança para si, os soldados sairiam por si sós às ruas. A brusca reviravolta no sentimento das massas, contudo, não podia ser facilmente percebida, e por isto havia certa vacilação nas fileiras dos próprios bolcheviques. Volodarsky não estava certo de que os operários sairiam às ruas. Também havia medo do possível caráter da manifestação. Representantes da organização militar declararam que os soldados, temendo ataques e represálias, não sairiam sem armas. “O que sairá desta manifestação?”, perguntou o prudente Tomsky, e exigiu deliberações complementares. Stalin pensava que “a fermentação entre os soldados é um fato, entre os operários não há um sentimento definido”, mas, não obstante, julgava necessário mostrar resistência ao Governo. Kalinin, sempre mais inclinado a evitar do que saudar uma luta, falou enfaticamente contra a manifestação, alegando a ausência de qualquer motivo claro, especialmente entre os operários: “A manifestação será inteiramente artificial”. Em 8 de junho, numa conferência com representantes de seções operárias, após vários votos preliminares, 131 mãos contra seis foram finalmente levantadas pela manifestação, com 22 abstenções.

O trabalho preparatório foi realizado até o último momento secretamente, para não permitir aos socialistas-revolucionários e mencheviques começar uma contra-agitação. Esta legítima medida de precaução foi depois interpretada como evidência de uma conspiração militar. O Conselho Central de Comitês de Fábrica e Oficinas se uniu na decisão de organizar a manifestação. “Sob a insistência de Trotsky e contra a objeção de Lunatcharsky”, escreve Yugov, “o comitê dos Mejrayontsi decidiu se unir à manifestação”. A preparação foi feita com a energia da ebulição.

A manifestação levantaria a bandeira de “Poder aos sovietes”. A palavra de ordem combativa era: “Abaixo os dez ministros capitalistas”. Era a expressão mais simples possível para a ruptura da coalizão com a burguesia. A procissão marcharia até os Corpos de Cadetes, onde estava o Congresso. Isso enfatizaria que a questão não era derrubar o Governo, mas de pressionar os líderes do Soviete.

Na verdade, outras idéias foram expressas nas conferências preliminares dos bolcheviques. Por exemplo, Smilga, então um jovem membro do Comitê Central, propôs que não se deveria “hesitar em tomar os correios, o telégrafo e o arsenal, se os eventos se desenvolvessem até o ponto do choque”. Outro participante na conferência, membro do comitê de Petrogrado, Latsis, comenta em seu diário sobre a rejeição da proposta de Smilga: “Não posso concordar com isso… Arranjarei com os camaradas Semachko e Rakhia para estarmos totalmente armados em caso de necessidade e tomarmos os terminais ferroviários, arsenais, bancos, correios e telégrafos com a ajuda do regimento de metralhadoras”. Semachko era o oficial de um regimento de metralhadoras. Rakhia, um operário, um dos bolcheviques mais militantes.

A existência de tais sentimentos é facilmente compreensível. Todo o curso do partido se dirigia para a tomada do poder, e a questão era apenas de apreciar a situação atual. Uma óbvia ruptura a favor dos bolcheviques estava ocorrendo em Petrogrado, mas nas províncias o mesmo processo ia mais devagar. Além disso, o front precisava da lição de uma ofensiva antes que pudesse quebrar sua desconfiança dos bolcheviques. Lenin, portanto, permanecia firme em sua posição de abril: “Explicar pacientemente”.

Sukhanov, em suas Notas, descreve o plano da manifestação de 10 de junho como um plano direto de Lenin para tomar o poder “se a situação se provar favorável”. Como uma questão de fato, apenas bolcheviques individuais tentaram pôr a questão deste modo, querendo, segundo a irônica expressão de Lenin, “ir apenas um pouquinho muito à esquerda”. Estranhamente, Sukhanov nem mesmo tenta comparar suas suposições arbitrárias com a linha política de Lenin, expressa em inúmeros discursos e artigos.

O Birô do Comitê Executivo imediatamente intimou aos bolcheviques a cancelar a manifestação. Com que direito? Apenas o poder estatal, obviamente, podia proibir formalmente uma manifestação; mas o poder estatal não se atrevia a pensar nisto. Como poderia o Soviete, em si uma “organização privada” liderada por um bloco composto de dois partidos políticos, impedir um terceiro partido de se manifestar? O Comitê Central bolchevique recusou-se a obedecer, mas decidiu enfatizar ainda mais nitidamente, o caráter pacífico da manifestação. Em 9 de junho, uma proclamação bolchevique foi afixada nos bairros operários. “Somos cidadãos livres, temos direito de protestar, e devemos usar este direito antes que seja muito tarde. O direito de uma manifestação pacífica é nosso”.

Os conciliadores levaram a questão ao Congresso. Foi neste momento que Tchkheidze pronunciou suas palavras sobre o resultado fatal, e que seria preciso ao Congresso continuar reunido toda a noite. Um membro do Presidium, Gegechkori, também um dos filhos da Gironda, concluiu seu discurso com um grito grosseiro na direção dos bolcheviques: “Tirem suas mãos sujas de uma causa gloriosa!” Não deram tempo para os bolcheviques, embora isso fosse exigido, de discutir a questão numa reunião de sua fração. O Congresso passou uma resolução proibindo todas as manifestações por três dias. Além de ser um ato de violência em relação aos bolcheviques, este era um ato de usurpação em relação ao Governo. Os sovietes continuavam a roubar o poder debaixo de seu próprio travesseiro.

Miliukov falava neste momento numa conferência cossaca e chamou os bolcheviques de “principais inimigos da revolução russa”. Seu principal amigo, ele os permitia concluir, era o próprio Miliukov, que pouco antes de Fevereiro concordou em aceitar a derrota ante os alemães à revolução do povo russo. Para a pergunta dos cossacos sobre a atitude em relação aos leninistas, Miliukov respondeu: “É tempo de dar um fim nesta gente”. O líder da burguesia estava muito apressado; contudo, ele realmente não podia desperdiçar o tempo.

Enquanto isso, realizavam-se reuniões nas fábricas e nos regimentos, adotando resoluções de sair às ruas no dia seguinte com a palavra de ordem: “Todo o poder aos Sovietes”. Sob o estardalhaço dos congressos dos sovietes e dos cossacos, passou-se despercebido que 37 bolcheviques foram eleitos para a Duma do bairro de Vyborg, apenas 22 do bloco socialista-revolucionário-menchevique, e quatro kadetes.

Confrontados com a resolução categórica do Congresso – e além disso com uma misteriosa referência a um ameaçador golpe da direita –, os bolcheviques decidiram reconsiderar a questão. Eles queriam uma manifestação pacífica, não uma insurreição, e não poderiam ter qualquer motivo para converter uma manifestação proibida numa semi-insurreição. Por seu lado, o Presidium do Congresso decidiu tomar medidas. Várias centenas de delegados foram agrupados em dezenas e enviados aos bairros operários e aos quartéis para impedir a manifestação. Eles se encontrariam de manhã no Palácio de Tauride e veriam os resultados. O Comitê Executivo dos deputados camponeses se uniu a esta expedição, apontando 70 de seus membros.

Assim, embora de uma maneira inesperada, os bolcheviques conseguiram seus objetivos. Os delegados do Congresso se viram obrigados a travar contato com os operários e soldados da capital. Se a montanha foi proibida de ir até o profeta, o profeta pelo menos foi até a montanha. A reunião se provou instrutiva até o mais alto grau. No Izvestia do soviete de Moscou, um correspondente menchevique pinta o seguinte quadro: “Por toda a noite, sem pregar os olhos, a maioria do Congresso, mais de quinhentos membros, dividindo-se em grupos de dez, andaram pelas fábricas, oficinas e unidades militares de Petrogrado, exortando todos a se ausentarem da manifestação… O Congresso não tinha autoridade alguma em muitas fábricas e oficinas, e também em vários regimentos da guarnição… Os membros eram freqüentemente recebidos de uma maneira inamistosa, algumas vezes hostil, e freqüentemente eram mandados embora com insultos”. Este órgão soviético oficial não exagera em nada. Pelo contrário, ele dá um quadro muito suavizado desta reunião noturna de dois mundos diferentes.

As massas de Petrogrado pelo menos não deixaram dúvidas entre os delegados sobre quem seria capaz daí por diante de chamar uma manifestação, ou cancelá-la. Os operários da fábrica Putilov concordaram em afixar a declaração do Congresso contra a manifestação apenas depois de lerem no Pravda que ele não contrariava a resolução dos bolcheviques. O 1.º Regimento de metralhadoras – que jogava o papel dirigente na guarnição, como a fábrica Putilov entre os operários –, após ouvir os discursos de Tchkheidze e Avksentiev representando os dois comitês executivos, adotou a seguinte resolução: “De acordo com o Comitê Central dos bolcheviques e sua organização militar, o Regimento adia sua ação”.

Esta brigada de pacifistas chegou ao Palácio de Tauride após sua noite de vigília em condição de completa desmoralização. Eles supunham que a autoridade do congresso era inviolável, mas bateram contra uma muralha de desconfiança e hostilidade. “As massas estão com os bolcheviques”. “A atitude com os mencheviques e socialistas-revolucionários é hostil”. “Eles apenas confiam no Pravda”. “Em alguns locais, eles gritam: ‘Não somos seus camaradas’”. Um após o outro, os delegados relataram como, embora tenham cancelado a batalha, foram derrotados.

As massas obedeceram à decisão dos bolcheviques, mas não sem indignação e protestos. Em certas fábricas, adotaram-se resoluções de censura ao Comitê Central. Os mais fogosos membros do partido nos bairros rasgaram seus cartões de militantes. Era um sério aviso.

Os conciliadores justificaram seu veto de três dias a manifestações por referências a um complô monarquista, que esperava utilizar a ação dos bolcheviques; eles mencionaram a participação de uma parte do congresso cossaco e a aproximação para Petrogrado de tropas contra-revolucionárias. Não é surpresa que, após cancelarem a manifestação, os bolcheviques exigiram uma explicação sobre esta conspiração. No lugar de uma resposta, os líderes do Congresso acusaram os próprios bolcheviques de uma conspiração. Eles descobriram nisso uma feliz saída da situação.

É preciso reconhecer que, na noite de 10 de junho, os conciliadores descobriram uma conspiração, uma que os abalou muitíssimo – uma conspiração das massas com os bolcheviques contra os conciliadores. Contudo, a submissão dos bolcheviques à resolução do Congresso os encorajou e os permitiu transformar seu pânico em raiva. Os mencheviques e socialistas-revolucionários decidiram mostrar uma energia de ferro. Em 10 de junho, o jornal menchevique escreveu: “É hora de marcar os leninistas como desleais e traidores da revolução”. Um representante do Comitê Executivo apareceu no congresso cossaco e lhes pediu para apoiar o soviete contra os bolcheviques. Ele foi respondido pelo presidente, o atamã dos Urais, Dutov: “Nós, cossacos, nunca avançaremos contra o Soviete”. Contra os bolcheviques, os reacionários estavam prontos a andarem de mãos dadas até com o Soviete – para melhor estrangulá-lo depois.

Em 11 de junho, reúne-se uma formidável corte de justiça: o Comitê Executivo, membros do Presidium do congresso, líderes das frações – num total cerca de cem homens. Tseretelli, como sempre, apareceu no papel de procurador. Sufocando de raiva, ele exige medidas letais, e desdenhosamente afasta Dan, sempre pronto a perseguir os bolcheviques, mas ainda não totalmente pronto para destruí-los. “O que os bolcheviques fazem agora não é propaganda ideológica, mas uma conspiração. Os bolcheviques que nos desculpem. Agora iremos adotar métodos de luta diferentes… Nós temos que desarmar os bolcheviques. Não podemos deixar em suas mãos os dois grandes instrumentos técnicos que possuem até agora. Não podemos deixar fuzis e metralhadoras em suas mãos. Não toleraremos conspirações”. Era uma nova nota. O que significa exatamente desarmar os bolcheviques? Sukhanov escreve a este respeito: “Os bolcheviques realmente não tinham qualquer estoque especial de armas. Todas as armas estavam de fato nas mãos dos soldados e operários, cuja imensa massa estava seguindo os bolcheviques. Desarmar os bolcheviques podia significar apenas desarmar o proletariado. Mais do que isso, isso significava desarmar as tropas”.

Em outras palavras, chegou o clássico momento da revolução, quando a democracia burguesa, por exigência da reação, empreende o desarmamento dos operários que garantiram a vitória revolucionária. Estes senhores democratas, entre os quais havia gente instruída, invariavelmente davam a sua simpatia aos desarmados, não aos que os desarmavam – contanto que se tratasse da leitura de velhos livros. Mas quando esta questão se apresentasse na realidade, eles não a reconheciam. O mero fato de Tseretelli, um revolucionário, um homem que passou anos no trabalho forçado, zimmerwaldista da véspera, estar desarmando os operários era difícil de ser compreendido pelas pessoas. A sala se atordoou em silêncio. Os delegados provinciais, todavia, sentiam que algo os empurrava para o abismo. Um dos oficiais caiu em histeria.

Não menos pálido do que Tseretelli, Kamenev levantou-se de seu assento e bradou com dignidade e força que foram sentidas pela audiência: “Sr. ministro, se não estás apenas falando para o vento, não tens o direito de se limitar a um discurso. Prenda-me e julgue-me por conspirar contra a revolução”. Os bolcheviques saíram da sessão em protesto, recusando-se a participar nesta zombaria de seu próprio partido. A tensão na sala se tornou quase intolerável. Lieber correu em ajuda a Tseretelli. A raiva moderada foi substituída pela fúria histérica. Lieber reclama medidas violentas. “Se você quiser ganhar as massas que seguem os bolcheviques, então quebrem com o bolchevismo”. Mas ele foi ouvido sem simpatia, até com uma semi-hostilidade.

Impressionável como sempre, Lunatcharsky imediatamente tentou achar um terreno comum com a maioria. Embora os bolcheviques assegurassem a eles que tinham em mente apenas uma manifestação pacífica, todavia, sua própria experiência o convencera de que “era um erro organizar uma manifestação”; contudo, não se devem agravar os conflitos. Sem pacificar os inimigos, Lunatcharsky irritou seus amigos.

“Não lutamos com a tendência de esquerda”, disse Dan jesuiticamente – ele era o mais experiente, mais também o mais fútil dos líderes do pântano. “Estamos lutando com a contra-revolução. Não é nossa culpa se atrás de seus ombros estão agentes da Alemanha”. A referência aos alemães foi apenas um substituto para um argumento. É claro que estes senhores não podiam apontar um só agente da Alemanha. Tseretelli queria dar um golpe, Dan apenas queria mostrar seu punho. Em sua impotência, o Comitê Executivo apoiou Dan. A resolução oferecida ao Congresso no dia seguinte tinha o caráter de uma lei de exceção contra os bolcheviques, mas sem conseqüências práticas diretas.

“Não se pode ter dúvida após a visita de seus delegados às fábricas e regimentos”, diz uma declaração dirigida ao Congresso, escrita pelos bolcheviques, “que se a manifestação não ocorreu, não foi por causa de seu veto, mas porque nosso partido a cancelou… A ficção de uma conspiração militar foi criada pelos membros do Governo Provisório para implementar o desarmamento do proletariado de Petrogrado e dispersar a guarnição de Petrogrado… Mesmo se o poder estatal passasse totalmente para as mãos do Soviete – o que nós defendemos – e o Soviete tentasse por grilhões em nossa agitação, não nos submeteríamos passivamente; deveríamos encontrar a prisão e outras punições em nome da idéia do socialismo internacional que nos separam de vós”.

A maioria e a minoria do Soviete enfrentaram um ao outro, peito a peito, por três dias, como se fosse uma batalha decisiva. Mas ambos os lados recuaram no último momento. Os bolcheviques desistiram da manifestação. Os conciliadores abandonaram a idéia de desarmar os operários.

Tseretelli ficou em minoria entre sua própria gente. Mas, todavia, de seu ponto de vista, ele estava certo. A política de união com a burguesia chegou ao ponto onde se tornou necessário paralisar as massas que não se reconciliaram com a coalizão. Levar a política conciliadora até um fim bem sucedido – isto é, à criação de um governo parlamentar da burguesia – exigia desarmar os operários e soldados. Mas Tseretelli não estava apenas certo. Ele também estava impotente. Nem os soldados nem os operários teriam voluntariamente entregado suas armas. Teria sido necessário empregar a força contra eles. Mas Tseretelli já estava sem forças. Ele podia procurá-la, se pudesse, apenas nas mãos da reação. Mas esta, no caso de esmagar vitoriosamente os bolcheviques, teria imediatamente se ocupado de esmagar os sovietes conciliadores, e não deixaria de lembrar a Tseretelli que ele era um antigo forçado e nada mais. Contudo, o curso posterior dos eventos mostraria que até a reação não tinha forças suficientes para isso.

Politicamente, Tseretelli situava seu argumento para combater os bolcheviques sobre a afirmação de que eles estavam separando o proletariado do campesinato. Martov lhe respondeu: “Tseretelli não apanha suas idéias guias ‘da profundeza do campesinato’”. O grupo dos kadetes de direita, o grupo dos capitalistas, o grupo dos latifundiários, o grupo de imperialistas, a burguesia do Ocidente – estes eram os que exigiam o desarmamento dos operários e soldados. Martov estava certo: as classes possuidoras mais de uma vez na História esconderam suas pretensões atrás das costas do campesinato.

Desde o momento da publicação das teses de abril de Lenin, a referência ao perigo de isolar o proletariado dos camponeses se tornou o principal argumento de todos os que queriam arrastar a revolução para trás. Não foi por acidente que Lenin comparou Tseretelli aos “velhos bolcheviques”.

Em um de seus trabalhos do ano 1917, Trotsky escreveu sobre este tema: “O isolamento de nosso partido dos socialistas-revolucionários e mencheviques, até o seu extremo isolamento por meio do confinamento solitário, ainda não significa de modo algum o isolamento do proletariado do campesinato oprimido e das massas urbanas oprimidas. Ao contrário, a aguda demarcação da política do proletariado revolucionário da apostasia desleal dos atuais líderes do Soviete pode apenas trazer uma salvadora diferenciação política para os milhões de camponeses, tirar os camponeses pobres da direção traidora do agressivo tipo socialista-revolucionário de mujique e converter o proletariado socialista em genuíno líder da revolução nacional plebéia”.

Mas o argumento totalmente falso de Tseretelli permaneceu vivo. Às vésperas da Revolução de Outubro, ele apareceu com força redobrada como o argumento de muitos “velhos bolcheviques” contra a insurreição. Vários anos depois, quando a reação intelectual contra Outubro começou, a fórmula de Tseretelli se tornou a principal arma teórica da escola de epígonos.

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Na mesma sessão do Congresso que condenou os bolcheviques em sua ausência, um representante menchevique inesperadamente propôs fixar para o próximo domingo, 18 de junho, uma manifestação de operários e soldados em Petrogrado e outras cidades importantes, para demonstrar ao inimigo a unidade e a força da democracia. A moção foi aprovada, embora não sem perplexidade. Cerca de um mês depois, Miliukov explicou razoavelmente bem este inesperado giro da parte dos conciliadores: “Ao pronunciarem discursos kadetes no congresso dos sovietes, ao desorganizarem a manifestação armada de 10 de junho… os ministros socialistas sentiam que tinham ido longe demais em nossa direção, que o terreno deslizava sob seus pés. Ficaram assustados e se voltaram abruptamente para os bolcheviques”. A decisão de celebrar uma manifestação de 18 de junho era, claro, não um passo na direção dos bolcheviques mas uma tentativa de virar as massas contra os bolcheviques. Sua experiência noturna com os operários e soldados causou uma certa trepidação entre os chefes do soviete. Assim, por exemplo, em oposição direta ao que tinham em mente no início do Congresso, eles se apressaram em produzir em nome do Governo uma resolução chamando a abolição da Duma do Estado e a convocação da Assembléia Constituinte para 30 de setembro. As palavras de ordem da manifestação foram escolhidas com esta mesma idéia de não causar qualquer irritação nas massas: “Paz Universal”, “Imediata convocação de uma Assembléia Constituinte”, “República Democrática”. Nem uma palavra sobre a ofensiva e a coalizão. Lenin perguntou no Pravda: “E o que aconteceu com a ‘confiança completa no Governo Provisório’, senhores?… Por que sua língua está pregada em sua garganta?” Esta ironia atingia o alvo: os conciliadores não se atreviam a exigir das massas confiança naquele governo do qual eles mesmos eram membros.

Os delegados do Soviete, tendo uma segunda chance, fizeram um tour pelos bairros operários e casernas, e deram relatórios totalmente encorajadores às vésperas da manifestação ao Comitê Executivo. Tseretelli, a quem estes comunicados devolveram o equilíbrio e a inclinação para sermões complacentes, dirigiu algumas observações sobre os bolcheviques: “Agora teremos uma revista aberta e honesta das forças revolucionárias… Agora veremos quem a maioria está seguindo, vocês ou nós”. Os bolcheviques aceitaram o desafio mesmo antes de ser tão imprudentemente formulado. “Unir-nos-emos à manifestação do dia 18”, escreveu o Pravda, “para lutar pelos objetivos pelos quais pretendíamos nos manifestar no dia 10”.

O itinerário da marcha – evidentemente em memória da procissão funerária de três meses antes, que tinha sido, pelo menos superficialmente, uma gigantesca manifestação da unidade da democracia – de novo levou ao Campo de Marte e ao túmulo dos mártires de Fevereiro. Mas, fora o itinerário da marcha, nada mais lembrava aqueles primeiros dias. Cerca de 400 mil pessoas marcharam, muito menos que no funeral; ausentes da manifestação do Soviete estavam não apenas a burguesia que estava coligada com os sovietes, mas também a intelectualidade radical, que ocupou um lugar tão proeminente nas antigas paradas da democracia. Apenas as fábricas e casernas marcharam.

Os delegados do Congresso, reunidos no Campo de Marte, liam e contavam os cartazes. As primeiras palavras de ordem bolcheviques encontraram meios-sorrisos – Tseretelli tinha lançado seu desafio tão confiante um dia antes. Mas estas mesmas palavras de ordem eram repetidas incessantemente: “Abaixo os dez ministros capitalistas!”, “Abaixo a ofensiva”, “Todo o poder aos sovietes!”. Os sorrisos irônicos congelaram e, então, gradualmente desapareceram. Bandeiras bolcheviques flutuavam em todo lugar. Os delegados pararam de contar os cálculos desconfortáveis. O triunfo dos bolcheviques era muito óbvio. “Aqui e ali”, escreve Sukhanov, “a cadeia de bandeiras e colunas bolcheviques era rompida por palavras de ordem específicas do socialismo-revolucionário ou do Soviete oficial. Mas estes eram abafados na massa”. O órgão oficial do Soviete narrou no dia seguinte “o quão furiosamente aqui e ali a multidão rasgava bandeiras proclamando a ‘Confiança no Governo Provisório’”. Há um obvio exagero nisso. Apenas três pequenos grupos levavam cartazes em honra do Governo Provisório: o círculo de Plekhanov, um destacamento cossaco e um punhado de intelectuais judeus que pertenciam ao Bund. Esta tripla combinação, que dava a impressão, com sua variação composição, de uma anomalia política, parecia ter imposto a si mesma a tarefa de exibir publicamente a impotência do regime. Sob os gritos hostis da multidão, os plekhanovistas e o Bund abaixaram seus cartazes. Os cossacos obstinaram-se, e seus cartazes foram literalmente tirados deles pelos manifestantes, e destruídos. “O riacho que corria calmamente até então”, escreve o Izvestia, “tornou-se um verdadeiro dilúvio, quase ao ponto de transbordar suas margens”. Ele fala do bairro de Vyborg, inteiramente sob as bandeiras dos bolcheviques. “Abaixo os dez ministros capitalistas”. Uma das fábricas levava um cartaz: “O direito à vida é maior que os direitos da propriedade privada”. Esta palavra de ordem não fora sugerida pelo partido.

Provincianos desalentados procuravam em todo lugar por seus líderes. Estes baixavam seus olhos ou simplesmente se escondiam. Os bolcheviques seguiam os provincianos. Isso parece um bando de conspiradores? Os delegados concordaram que não. “Em Petrogrado, vocês tem o poder”, eles admitiam num tom totalmente diferente do empregado nas sessões oficiais, “mas não nas províncias, não no front. Petrogrado não pode ir contra todo o país”. Tudo bem, respondiam os bolcheviques, a mesma mudança logo virá nelas – as mesmas palavras de ordem serão levantadas.

“Durante esta manifestação”, escrevia o velho Plekhanov, “fiquei no Campo de Marte ao lado de Tchkheidze: via em sua face que ele em nada se enganava sobre o significado do número espantoso de cartazes exigindo a derrubada dos ministros capitalistas. Isso era enfatizado como se intencionalmente pelos comandos verdadeiramente imperiosos que alguns dos leninistas dirigiram a eles enquanto passavam, como pessoas celebrando um feriado”. Os bolcheviques certamente tinham motivos para se sentirem num feriado. “Julgando pelos cartazes e palavras de ordem dos manifestantes”, escreve o jornal de Gorky, “a manifestação de domingo revelou o triunfo completo do bolchevismo entre o proletariado de Petersburgo”. Foi uma grande vitória, e, além disso, na arena e com as armas escolhidas pelo inimigo. Embora sancionasse a ofensiva, reconhecesse a coalizão e condenasse os bolcheviques, o Congresso chamou as massas às ruas por sua própria iniciativa. Elas saíram para anunciar: “Não queremos nem a ofensiva nem a coalizão; nós somos pelo bolchevismo”. Foi esse o significado político da manifestação. Não admira que o jornal dos mencheviques, que iniciou a manifestação, tivesse perguntado deploravelmente a si mesmo no dia seguinte: “Quem sugeriu esta infeliz idéia?”.

É claro que nem todos os operários e soldados na capital tomaram parte na manifestação, e nem todos os manifestantes eram bolcheviques. Mas nenhum deles queria a coalizão. Os operários que ainda permaneciam hostis ao bolchevismo não sabiam o que opor a ele. Sua hostilidade foi assim convertida numa expectativa neutra. Sob as palavras de ordem bolcheviques marchou um número considerável de mencheviques e socialistas-revolucionários que ainda não tinham rompido com seu partido, mas já tinham perdido a fé em suas palavras de ordem.

A manifestação de 18 de junho deixou uma enorme impressão em seus próprios participantes. As massas viram que os bolcheviques se tornaram um poder, e os vacilantes foram atraídos para ele. Em Moscou, Kiev, Kharkov, Ekaterinoslav, e muitas outras cidades provinciais, os manifestantes revelaram o imenso crescimento da influência dos bolcheviques. Em todo lugar, as mesmas palavras de ordem avançaram, e golpearam o próprio coração do regime de Fevereiro. Era impossível não tirar conclusões. Parecia que os conciliadores não tinham lugar para ir. Mas a ofensiva os ajudou no último momento. Em 19 de junho, houve uma manifestação patriótica na Nevsky sob a direção dos kadetes, e com um retrato de Kerensky. Nas palavras de Miliukov: “Isso era tão diferente do que aconteceu na mesma rua na véspera, que se misturou ao sentimento de triunfo um sentimento involuntário de inquietação”. Sentimento legítimo! Mas os conciliadores deram um suspiro de alívio. Seus pensamentos imediatamente elevaram-se acima de ambas as manifestações na forma de uma síntese democrática. Aquela gente estava destinada a exaurir a taça da ilusão e da humilhação até o fundo.

Nas jornadas de abril, duas manifestações simultâneas, uma revolucionária e outra patriótica, encontraram-se uma com a outra, e seu choque resultou em baixas. As manifestações hostis de 18 e 19 de junho se sucederam uma a outra. Não houve um choque direto então. Mas ele não poderia ser evitado. Foi apenas adiado por duas semanas.

Os anarquistas, não sabendo como mostrar sua independência, aproveitaram a manifestação de 18 de junho para um ataque às prisões de Vyborg. Os prisioneiros, a maioria criminosos, foram libertados sem luta e sem baixas – e não de uma prisão, mas de várias simultaneamente. Parece óbvio que o ataque não pegou a administração desprevenida – pois ela, alegremente, deu passagem aos anarquistas pretensos ou verdadeiros. Todo este enigmático episódio não teve nada a ver com a manifestação. Mas a imprensa patriótica os ligou. Os bolcheviques propuseram ao congresso dos sovietes uma severa investigação sobre a maneira pela qual 460 criminosos foram libertados de várias prisões. Contudo, os conciliadores não podiam se permitir a tal luxo: temiam encontrar inesperadamente altos personagens da administração e seus próprios aliados do bloco político. Além disso, eles não tinham o menor desejo de defender sua própria manifestação contra caluniadores maliciosos.

O ministro da Justiça, Pereverzev – que desgraçou a si mesmo poucos dias antes em ligação com a casa de verão de Durnovo – decidiu se vingar e, sob o pretexto de procurar os detentos evadidos, fez uma nova batida no local. Os anarquistas resistiram; um deles foi morto, e a casa depredada. Os operários do bairro de Vyborg, considerando a casa como sua, soaram o alarme. Várias fábricas pararam o serviço; o alarme se espalhou para outras seções e até para os quartéis.

Os últimos dias de junho passaram numa comoção contínua. Um regimento de metralhadoras prepara um imediato ataque ao Governo Provisório. Operários das fábricas em greve percorriam os regimentos chamando-os para as ruas. Camponeses barbados em túnicas de soldados, muitos deles grisalhos, passavam em procissões de protesto ao longo dos pavimentos: camponeses de meia-idade exigindo que fossem exonerados para trabalhar nos campos. Os bolcheviques realizam uma agitação contra a saída às ruas. A manifestação do dia 18 disse tudo o que podia ser dito: para produzir uma mudança, uma manifestação não é suficiente; mas a hora da revolução ainda não chegara. Em 22 de junho, a imprensa bolchevique apela para a guarnição: “Não confiem em qualquer apelo para ações de rua entregues em nome da Organização Militar”. Delegados chegam do front com queixas de violência e punições. Ameaças de reorganizar os regimentos insubmissos põem lenha na fogueira. “Em muitos regimentos, os soldados estão dormindo com armas nas mãos”, diz uma declaração dos bolcheviques ao Comitê Executivo. Manifestações patrióticas, quase sempre armadas, levam a lutas de rua. São pequenas descargas da eletricidade acumulada. Nenhum lado pretende atacar diretamente: a reação é muito fraca, a revolução ainda não está totalmente confiante de seu poder. Mas as ruas da cidade parecem pavimentadas com material explosivo. A batalha paira no ar. A imprensa bolchevique explica e pede calma. A imprensa patriótica expõe seu pavor com uma perseguição desenfreada aos bolcheviques. No dia 25, Lenin escreve: “Este grito selvagem de rancor e raiva contra os bolcheviques é o protesto comum dos kadetes, socialistas-revolucionários e mencheviques contra sua própria frouxidão. Eles estão em maioria. Estão no governo. Estão todos juntos num bloco. E eles vêem que nada surge disso. O que eles podem fazer a não ser encolerizarem-se contra os bolcheviques?”

Fonte: Leon Trotsky. História da Revolução Russa. Tomo I. Tradução: Diego Siqueira. São Paulo: Editora Sundermann, 2007.